terça-feira, 27 de agosto de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

É preciso ser mais firme na repressão às queimadas

O Globo

Seca severa favorece disseminação de focos de incêndio, mas a maioria deles tem origem criminosa

A seca severa e a baixa umidade têm favorecido a profusão de focos de incêndio que espalham fumaça por quase todo o país, causando transtornos que vão muito além do problema ambiental. Ficaram evidentes nos últimos dias as implicações na saúde e na infraestrutura, com aumento de atendimentos por doenças respiratórias, interdição de estradas e suspensão de voos. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) relacionou 70 cidades onde, até a penúltima semana de agosto, não havia caído uma gota de chuva sequer em mais de cem dias.

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais mostram que, de janeiro até o último dia 24 de agosto, haviam sido detectados quase 105 mil focos de incêndio em todo o país, marca superada apenas pela de 2010, quando foram registrados perto de 119 mil focos entre janeiro e agosto. A quantidade de incêndios neste ano já é 75% maior do que em 2023. Apenas no Estado de São Paulo, as 3.175 ocorrências de agosto representam um recorde desde 1998, quando começou a medição.

Merval Pereira - O enigma Marçal

O Globo

Apequenar a atividade parlamentar abre portas a aventureiros, que já marcam sua presença no Congresso

A solução mais óbvia para tratar a candidatura de Pablo Marçal com a letra da lei é cancelá-la, pois ele claramente é um político à margem do sistema eleitoral regulamentar. Existe essa possibilidade real e, se o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidir nesse sentido, responderá a uma reivindicação justa, pois o candidato tem muitas dívidas com a Justiça. Mas, se é justamente por ser antissistema que ele tem tido bom desempenho nas pesquisas eleitorais, seria uma decisão sábia retirá-lo da contenda?

Será preciso avaliar com ponderação para ver até que ponto a democracia estará preservada por uma decisão do TSE. Do ponto de vista prático, seria uma solução, já que ele se aproveita do debate democrático para subverter a eleição, base do sistema representativo de democracia que escolhemos adotar. Não respeita as regras do jogo, por isso se torna tão atraente a um nicho eleitoral que continua querendo o sangue do sistema político tradicional, assim como faz desde 2018, quando elegeu Bolsonaro, que deu vida a Marçal e perdeu o controle da situação.

Pedro Doria - Não se cala Marçal

O Globo

Seus seguidores criaram perfis próprios, em nome do candidato, para distribuir seu conteúdo

Pablo Marçal nos deu uma aula, neste fim de semana, pela qual deveríamos ser gratos. A Justiça Eleitoral de São Paulo concedeu uma liminar pedindo a suspensão temporária de seus perfis no Instagram, no X, no TikTok, no YouTube, no Discord, além de seu site oficial. O candidato à Prefeitura paulistana entrou, imediatamente, em modo de ação. Criou novos perfis em todas as redes, que já acumulavam milhões de seguidores no domingo. Esses novos perfis estão livres para uso. Não bastasse isso, seus seguidores criaram perfis próprios, em nome do candidato, para distribuir seu conteúdo.

Mas esse movimento de Marçal estava autorizado pelas decisões do tribunal. Ele foi denunciado por pagar para que acompanhem suas lives, as entrevistas que faz, os debates de que participa e para que produzam cortes, vídeos curtos, às vezes com truques de edição, outras não, que tenham a capacidade de viralizar. Esses vídeos não precisam ser publicados nos perfis de Marçal. Em geral, nem são. Mas é um concurso: alguns são selecionados para o perfil oficial, e os escolhidos são premiados com um pagamento. Os outros, não. Na avaliação do TRE houve, nessa ação, abuso de poder econômico, e isso a lei não permite.

Maria Cristina Fernandes - O cálculo político do combate a Marçal

Valor Econômico

Tabata nada tem a perder, Boulos quer estender a permanência de Marçal na disputa para colar Nunes no bolsonarismo e o prefeito joga com a força dos padrinhos nos tribunais

Ao capitanear o combate a Pablo Marçal, no front jurídico e nos debates, a candidata do PSB à Prefeitura de São Paulo, Tabata Amaral, se mostra destemidamente conhecida e alveja a imagem de jovem sem pulso firme para administrar a maior cidade do país. Seus dois principais adversários, Ricardo Nunes e Guilherme Boulos, lhe terceirizam o “jogo sujo” por cálculo político.

A ideia de que cabe à política enfrentar Marçal, colhida na campanha de Nunes, vale tanto quanto uma nota de 30. Debates são instrumentos dos quais a política se vale para expor os candidatos ao contraditório e Nunes e Boulos vão faltar a quase todos.

O prefeito está focado no horário eleitoral gratuito, espaço que é 65% dominado por sua candidatura. O vice-presidente Geraldo Alckmin tinha metade do HPEG de 2018, o que não o impediu de perder para o ex-presidente Jair Bolsonaro, que tinha 20 segundos.

A aposta de aliados de Nunes, na verdade, é a da mobilização das cúpulas do governo de São Paulo, do PSD e do PL para mover os tribunais contra Marçal. Se já o fizeram uma vez para tirar o rei da audiência analógica, Silvio Santos, da disputa vencida por Fernando Collor, em 1989, podem fazer mais uma vez contra o dono do vale tudo da audiência digital que disputa a prefeitura pelo PRTB.

Pedro Cafardo - O caótico trânsito de São Paulo clama por reforma

Valor Econômico

Não é recomendável esquecer que milhões de paulistanos usam transportes individuais

A campanha eleitoral avança nos municípios e, com perdão dos leitores não paulistanos, é preciso falar sobre “triviais” problemas pouco abordados pelos candidatos a prefeito de São Paulo. Claro que eles devem apresentar seus projetos principalmente para áreas essenciais, como educação, habitação, saúde e segurança.

Existe, porém, uma área quase abandonada na megacidade: o caótico sistema de trânsito de veículos. Com razão, as últimas administrações cuidaram preferencialmente, pelo menos no discurso, do transporte coletivo, dos corredores de ônibus, por exemplo, que também chegaram pouco às periferias. Um bom marqueteiro eleitoral, porém, diria que não é recomendável esquecer que milhões de paulistanos usam transportes individuais, sejam próprios, sejam uberizados, em razão da deficiência dos públicos.

Míriam Leitão - Brasil em chamas por ação do crime

O Globo

O presidente do Ibama revela que os criminosos na Amazônia estão queimando a floresta em pé para fugir de autuação por desmatamento

Não é a primeira vez que o fogo se alastra por vários biomas e cobre o Brasil de fumaça, atingindo o meio ambiente, a saúde humana, a economia. Houve uma mudança no crime na Amazônia. Antes, o criminoso desmatava e depois punha fogo no que sobrava. “As pessoas agora estão queimando a floresta em pé para evitar autuação por desmatamento”, me disse o presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho. “Estão colocando fogo na floresta e depois colocando gado lá dentro.” Em São Paulo, a história é outra, mas é sempre o crime. “A gente não identificou nenhum caso de raio, curto-circuito, torre de energia que caiu ou carro que pegou fogo e os focos começaram ao mesmo tempo”, afirma o presidente do Ibama.

Christopher Garman - Governo dá sinalização construtiva

Valor Econômico

Polarização tem repercussões perigosas para a política econômica: polui a capacidade do governo de ler “sinais” do setor privado e aumenta a ânsia de evitar a vitória dos adversários

Ainda há muitas dúvidas e críticas sobre a direção da política econômica do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas os últimos dois meses trouxeram sinalizações construtivas.

Depois de uma escalada de incertezas sobre a condução da política fiscal e monetária (em grande medida exacerbada por falas do próprio presidente) que fez o dólar disparar de R$ 5,15 para mais de R$ 5,60 entre maio e o início de julho, o governo começou a tentar arrefecer a crise de confiança do mercado.

Primeiro, anunciou, no dia 4 de julho, um corte de R$ 26 bilhões em gastos permanentes. Em seguida, contingenciou outros R$ 15 bilhões para cumprir a meta fiscal deste ano. Agora, sinaliza que pode anunciar uma nova rodada de contingenciamento em setembro para atingir essa meta.

Eliane Cantanhêde - Relações em chamas

O Estado de S. Paulo

Não é só o País que está torrando, as relações do Congresso com STF e Planalto também

O presidente da Câmara, Arthur Lira, já nem disfarça mais sua guerra contra não apenas o Judiciário, que deflagrou o debate sobre mudanças nas emendas parlamentares, mas também contra o Executivo, o principal interessado nessas mudanças – aliás, com boas razões. Além de pôr em pauta propostas contra a autonomia do Supremo, ele agora é suspeito de tentar sabotar a agenda econômica do governo.

Num golpe duplo nesta segunda-feira, Lira suspendeu as sessões presenciais na Câmara, em plena semana de esforço concentrado, e o deputado bolsonarista Luiz Philippe de Orleans e Bragança apresentava na CCJ seu parecer favorável à proposta que confere autopoderes ao Congresso para derrubar decisões do Supremo.

Carlos Andreazza - Bolsonaro contra Bolsonaro

O Estado de S. Paulo

Essa turma vai com Marçal. E não se sente traindo o mito

Houve um tempo, pré2018, em que Geraldo Alckmin era percebido – e votado – como candidato de direita no Brasil. Até José Serra fora. E então veio Jair Bolsonaro.

Incluído no cardápio, estabeleceu novos parâmetros para a representação eleitoral direitista. Ampliado o cardápio, o eleitorado que se reconhecia-descobria como conservador empurrou todo mundo para a esquerda. Alckmin é vice-presidente de Lula.

Chegamos à eleição municipal paulistana. Sob a dinâmica de reposicionamentos-exigências imposta a partir da encarnação da direita em Bolsonaro, votar em Ricardo Nunes seria o mesmo que votar em Alckmin em 2018.

Jorge J. Okubaro - Rompendo um ciclo

O Estado de S. Paulo

Por seus resultados, o Bolsa Família tem sido merecidamente apresentado ao mundo como exemplo de programa de combate à pobreza e de inclusão social

Membros de famílias vulneráveis beneficiadas por programas de transferência de renda têm conseguido ascender socialmente. O movimento é lento, insuficiente para reduzir de maneira notável as tremendas desigualdades do País. Mas é duradouro. Jovens de famílias em situação de pobreza que sobrevivem graças sobretudo a políticas públicas de renda conseguem alcançar nível de vida melhor que o de seus pais e dispensam a ajuda desses programas. Num período de 15 anos, praticamente dois terços das crianças de famílias beneficiadas por programas sociais deixaram de depender deles.

Rubens Barbosa - O Brasil e a Rota da Seda

O Estado de S. Paulo

A Rota da Seda sul-americana, levando em conta os interesses brasileiros, poderia representar um passo relevante para uma política de integração física que beneficie todos os países da região

Em agosto, Brasil e China celebraram 50 anos do restabelecimento de relações diplomáticas e, em novembro, o presidente chinês, Xi Jinping, virá ao Brasil para uma visita bilateral e também para participar da reunião do G-20.

Na década de 1990, durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso à frente do Itamaraty, a China propôs e foi aceita pelo Brasil uma parceria estratégica que deveria beneficiar ambos os países. Os últimos 25 anos mostraram resultados bastante favoráveis a ambos os lados em termos de segurança alimentar (37% das exportações brasileiras de produtos agrícolas são absorvidas pelo mercado chinês) e energia (com investimentos chineses no Brasil). Deve ser mencionado, contudo, que, do lado brasileiro, ainda falta uma visão estratégica mais pragmática, sobretudo na atração de investimentos produtivos.

Luiz Carlos Azedo - O Brasil no admirável mundo dos BRICS

Correio Braziliense

Uma grande mudança geopolítica está por trás da crise da Venezuela, que rompeu com o Ocidente. Essa não pode ser a nossa, defendemos a democracia e nossos interesses

O economista Paulo Gala, professor da economia da EESP/FGV, é um dos maiores especialistas em política industrial e comércio exterior do Brasil. Muito ativo nas redes sociais, vem chamando a atenção do grande público para a importância dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), em particular, para o Brasil. Estabelecido em 2006, o grupo pesa cada vez mais nas relações internacionais, com destaque para a China e a Índia.

Segunda maior economia do mundo, depois dos Estados Unidos, a China se estabeleceu como um líder global em inovação e tecnologia, com empresas como a Huawei, Tencent e Alibaba, que atuam em setores como telecomunicações, comércio eletrônico e inteligência artificial. E passou por um grande avanço na infraestrutura, com a construção de sua rede de ferrovias de alta velocidade e projetos ambiciosos de logística, como a iniciativa do Cinturão Econômico da Rota da Seda.

Joel Pinheiro da Fonseca - Como não barrar Pablo Marçal

Folha de S. Paulo

Candidato do PRTB tem que ser derrotado nas urnas, não parado na Justiça

Pablo Marçal já foi condenado por integrar uma quadrilha de roubo a bancos. Fala-se em vínculos dele e de seu partido com o PCC. Hoje é um coach bem-sucedido na venda de motivação. Fez fama e fortuna enganando desesperados. Tem até sessões de cura milagrosa.

Entregar a prefeitura de uma das maiores cidades do mundo a uma figura tão espúria é uma burrada colossal. É natural que muitos queiram impedir sua vitória. Não há maneira pior de fazer isso, no entanto, do que barrar sua candidatura na Justiça.

Houve quem celebrasse a suspensão de seus perfis nas redes. Foi uma comemoração precipitada. A medida não alcança nem mesmo o objetivo alegado, que é interromper um esquema de remunerar usuários por publicarem vídeos do candidato. Além disso, a suspensão caiu como uma luva para sua narrativa de perseguido. Só se falou de Marçal no fim de semana. Até os bolsonaristas que o criticavam tiveram que dar uma trégua. Seus novos perfis já contam com milhões de seguidores. Ou seja, a sanção não só não interrompe o suposto ilícito como ainda ajudou o candidato.

Dora Kramer - Foice no escuro

Folha de S. Paulo

São Paulo merece mais que escolhas pautadas na subversão a regras de civilidade

É de se lembrar aos que porventura se entusiasmem pelo personagem encarnado na figura de Pablo Marçal (PRTB) na disputa pela Prefeitura de São Paulo: em 1959, a cidade "elegeu" para vereador, com 100 mil votos, Cacareco, rinoceronte fêmea residente no zoológico.

A rebeldia daquele eleitorado de 65 anos atrás não provocou efeito prático algum. Apenas marcou a entrada do episódio na história dos protestos contra os políticos tradicionais.

Hélio Schwartsman - Dilemas de juiz

Folha de S. Paulo

Candidatura de Pablo Marçal oferece amplo cardápio de irregularidades para eventual ação da Justiça Eleitoral

É difícil a vida dos juízes eleitorais. Não faltam irregularidades na candidatura de Pablo Marçal (PRTB) à prefeitura paulistana. Elas começam antes mesmo da convenção partidária que lhe deu legenda.

Há uma disputa em torno do controle do PRTB. Alas do partido contestam a legitimidade do atual presidente da sigla e, por conseguinte, de suas decisões, o que poderia ter impacto sobre a candidatura de Marçal. O caso está no TSE.

Alvaro Costa e Silva - O telecatch da direita

Folha de S. Paulo

Marçal e Bolsonaro encenam um telecatch com dedos nos olhos e tesouras voadoras de mentirinha

"Mas entretanto eu errei no golpe/ Você no golpe também tinha errado/ Você julgando que eu desse moleza/ Atrás de moleza também tenho andado", diz a letra do samba-choro "Dois Bicudos". Os autores, Cartola e Aluísio Dias, contam a história de dois golpistas, que antes trocavam carícias e agora não se beijam. A situação lembra a de Jair Bolsonaro e Pablo Marçal nas eleições de São Paulo.

Poesia | Soneto de Fidelidade, de Vinicius De Moraes

 

Música | Roda Viva - Chico Buarque

 

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Só com menos exceções será evitado IVA de 28%

Folha de S. Paulo

Reforma tributária dá transparência à carga exorbitante; cada vantagem cedida a um setor implica sacrifício aos demais

Como não poderia ser diferente, a distribuição de supostas bondades pela Câmara dos Deputados na regulamentação da reforma tributária —por meio da ampliação da lista de bens e serviços com taxação reduzida— resultará em uma alíquota geral mais alta do futuro imposto sobre valor agregado (IVA).

Cálculos do Ministério da Fazenda indicam que a cobrança esperada subirá 1,47 ponto percentual, para 27,97%, devido a novas benesses inseridas no projeto de lei complementar em tramitação.

Desse percentual, 0,69 ponto decorre da inclusão de carnes e queijos na cesta básica, por decisão demagógica dos parlamentares, em alinhamento a Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O restante advém de produtos como medicamentos e demais alimentos, entre outros.

Entrevista | Jairo Nicolau - Urnas devem fortalecer PL, PT e PSD, avalia cientista político

Por Camila Zarur / Valor Econômico

Cientista político acredita que pleito municipal deste ano servirá para partidos se reorganizarem para disputa presidencial e parlamentar de 2026

Quem espera que as eleições municipais sejam uma prévia da disputa presidencial de 2026 poderá se frustrar ao ver que a polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) não deve se refletir nas urnas deste ano. O pleito de agora, diz o cientista político Jairo Nicolau, professor e pesquisador da FGV CPDOC, é um referendo das questões locais, e os dois líderes políticos não estão sob avaliação.

No entanto, pondera o especialista, a corrida eleitoral deste ano pode deixar antever as eleições parlamentares de daqui a dois anos. O motivo é a reorganização e reestruturação pelas quais os partidos passam na votação municipal, sobretudo pela proximidade que o pleito gera entre o político e a sigla com o eleitor.

Fernando Gabeira - Eleições e a ameaça em gestação

O Globo

Disputa na maior cidade do Brasil traz a mensagem apocalíptica de que todos são criminosos

Sinto que é hora de planejar férias. Nada de grandes viagens, mas apenas um mergulho no território da literatura e de outras artes. Isso me ajudou na pandemia. Encontrei a obra de Jorge Luis Borges, quatro volumes editados pela Globo Livros, um refúgio de sensibilidade e erudição. Saltei alguns poemas, mas foi um tempo enriquecedor.

O ato de interpretar o cotidiano da política brasileira desgasta e pede um respiro anual. Pressenti o desgaste do STF quando decidiu julgar, sem estrutura adicional, milhares de pessoas. Prisões consideradas ilegais, problemas na própria cadeia, gente com câncer precisando de tratamento e, sobretudo, penas consideradas muito pesadas — enfim, uma sequência de problemas que acabariam se voltando contra a Corte.

Tentei ser discreto, mas não deixei de mencionar minha apreensão. O resultado foi a desconfiança de que protegia a direita. Da mesma forma que a própria direita acusa a defesa de direitos humanos como proteção de bandidos.

Miguel de Almeida - Chame o ladrão

O Globo

Três momentos simultâneos e nada alegres na vida brasileira:

1 — Hoje a Universidade de São Paulo realiza cerimônia de diplomação de 15 alunos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) mortos durante a ditadura militar. Eram jovens com menos de 25 anos, assassinados pelas forças do governo. Serão oferecidos diplomas honorários de graduação.

2 — Como se fossem anúncios, os outdoors digitais paulistanos avisam (sem modéstia): a cada 16 minutos uma moto é roubada ou furtada. É uma produtividade baixa quando se trata de outro objeto de desejo: na Avenida Paulista, em números de 2022, cerca de 5,3 mil celulares foram abduzidos. Na cidade, a cada três minutos (!) um aparelho é levado. No elevador do meu prédio, o síndico cola um aviso: “Não espere o Uber na calçada com o celular à mostra. Ciclistas ou motoqueiros levam seu aparelho!”. É a rotina do medo.

3 — Um garoto de 14 anos (!) cometeu suicídio depois de ser reiteradamente vítima de bullying em um colégio de elite paulistano. Ele era negro, bolsista e sofria assédio homofóbico. Como a escola não o protegeu? O que os pais ensinam a seus filhos em casa?

Irapuâ Santana - Emenda inconstitucional


O Globo

Interferir na igualdade de chances entre grupos étnicos contraria o objetivo que a Constituição estabelece: combater o racismo

Na última semana foi promulgada a Emenda Constitucional 133, que retira a possibilidade de punição aos partidos políticos que praticaram racismo contra a população negra brasileira nas eleições de 2020 e de 2022. Segundo essa nova regra, “deve ser considerada como cumprida” a obrigação de aplicação das verbas eleitorais para as candidaturas negras.

Para diminuir o peso desse absurdo, existe uma condição de que isso só acontecerá se os partidos pagarem o que foi devido até então, mas apenas a partir de 2026.

Existe alguma esperança de que isso realmente seja respeitado?

Marcus André Melo - O presidente é refém?

Folha de S. Paulo

Mudança decorre de alterações como a impositividade do orçamento e também de fatores contextuais

O que explica as mudanças recentes no padrão de relações Executivo-Legislativo? Tratei do assunto aqui e aqui. Sim, o "equilíbrio de presidente forte" que vigeu até o governo Dilma está sob forte tensão. A mudança decorre de alterações tais como a impositividade do orçamento (PECs 86/2015 e 100/2019), a criação do fundo de campanha, as limitações às medidas provisórias (EC 32), e a centralização das casas legislativas pós-pandemia (fortalecendo lideranças congressuais em detrimento das partidárias).

E também fatores contextuais que levaram às alterações citadas: crises econômicas, escândalos, declínio da popularidade presidencial, situação fiscal crítica e redução do tamanho do partido do presidente e de sua base congressual, além do novo protagonismo do STF (ora em aliança —como no atual momento— ou em oposição ao executivo).

Lygia Maria - O STF não é a democracia

Folha de S. Paulo

É um órgão do Poder Judiciário e, assim como Executivo e Legislativo, está sujeito ao escrutínio popular e da imprensa

"A liberdade é um tema ao qual me tenho preso". Seguindo o aforismo de Millôr, vamos falar sobre o STF, de novo. Afinal, a corte é guardiã das liberdades expressas na Constituição e tem agido de forma duvidosa sob pretexto de defendê-las —desde 2019, pelo menos, quando foi aberto o inquérito das fake news.

Alexandre de Moraes abriu investigação para apurar a revelação de mensagens que mostram ações fora do rito por parte de seu gabinete. Chama atenção o tom conspiratório e falacioso do documento.

Deborah Bizarria - Aprendemos a lidar com outsiders?

Folha de S. Paulo

Um dos principais motivos para o crescente apoio a candidatos é a desconfiança nas instituições tradicionais

Nos últimos anos, a política global tem sido marcada pela emergência de "políticos de fora" ou "outsiders", indivíduos ou grupos que operam à margem dos sistemas partidários tradicionais. Podem tanto ser pessoas que acreditam na democracia e desejam se engajar para contribuir na correção de falhas no sistema político, quanto aqueles que se apresentam como antissistema e buscam subverter a ordem estabelecida.

Como sabemos, a internet tem um papel essencial nesse fenômeno. Por meio das redes sociais, esses atores conseguem contornar os tradicionais "gatekeepers" e se comunicar diretamente com o público. Isso permite a construção de movimentos, a mobilização de recursos e a disseminação de suas mensagens sem a necessidade de apoio de partidos ou grandes veículos de comunicação.

Bruno Carazza - Uma visão distópica de um Brasil que deu errado

Valor Econômico

Em 2033, no primeiro governo pós-polarização, um país paga o preço de péssima escolhas de parlamentares 

O ano é 2033 e mais uma crise paralisa o país. O novo presidente busca um acordo com os presidentes da Câmara e do Senado para aprovar um pacote de medidas para tentar salvar seu governo.

Transcorrida a metade de seu mandato, o ocupante do Palácio do Planalto, vencedor das primeiras eleições após o fim do longo ciclo em que a política brasileira ficou polarizada sob a influência de Lula e Bolsonaro, vivia um impasse.

Não havia sido fácil chegar ali. Os analistas políticos haviam classificado a disputa presidencial de 2030 como “a eleição do cansaço”.

As velhas fórmulas políticas da década que se encerrava estavam desgastadas. Eleitores à direita e à esquerda haviam se dado conta da energia gasta em tantos anos de brigas nas redes sociais e no convívio social e resolveram dar crédito àquele candidato que propunha o básico: melhorar as políticas públicas com foco nos mais pobres e destravar a economia para a prosperidade das empresas.

Alex Ribeiro - Mercado acha BC confuso e põe prêmio de risco no juro

Valor Econômico

Galípolo foi mal entendido quando negou que o BC estivesse num córner

Os participantes do mercado financeiro consideraram confusa e contraditória a mais recente comunicação de política monetária do Banco Central e adicionaram prêmio de risco na curva de juro futuro.

Algum nível de volatilidade era esperado, já que o cenário econômico está bem incerto no Brasil e no exterior e, nesse ambiente, os banqueiros centrais evitam compromissos muito firmes sobre o que pretendem fazer com as suas taxas básica de juros.

Assim, os preços dos ativos financeiros oscilam ao sabor dos novos dados e informações divulgados. Mas, no caso do Brasil, não foi só isso. O sobe e desce tem ocorrido durante pronunciamentos de membros do Copom. Como essas falas não têm sido poucas, a volatilidade é mais intensa.

Gustavo Loyola - Subir ou não subir, eis a questão

Valor Econômico

Não é crível se esperar uma melhora substantiva do resultado fiscal nos próximos dois anos

Estão divididas as expectativas dos analistas sobre a decisão a respeito da taxa Selic que o Copom adotará em sua próxima reunião, em meados de setembro próximo. Isso ocorre porque, no momento, podem ser considerados tanto fatores que apontam para o início de um processo de alta de juros quanto para a manutenção da taxa em seus patamares atuais.

A última pesquisa Focus trouxe elevação das estimativas para o IPCA em 2024 pela quinta semana consecutiva (de 4,20% para 4,22%), embora tenha havido redução das expectativas para 2025 pela segunda semana consecutiva (de 3,97% para 3,91%). Considerando todo o horizonte de tempo contemplado na pesquisa, não se prevê a convergência da inflação para a meta de 3% ao ano.

Não obstante a atual taxa Selic (10,5% ao ano) possa ser considerada restritiva do ponto de vista monetário, a verdade é que não parece ser suficiente para assegurar a convergência da inflação para a meta no horizonte relevante para a política monetária. Em princípio, dadas as dificuldades de estimativa da taxa neutra de juros - variável não observável - trata-se de uma situação que exige cautela do Banco Central (BC), não se podendo descartar, a priori, um ajuste para cima da taxa Selic já na próxima reunião do Copom.

André Gustavo Stumpf - A crise do sistema

Correio Braziliense

As principais cabeças políticas brasileiras precisam pensar seriamente na adoção do parlamentarismo. É um sistema mais simples, de maior representatividade e vacinado contra crises

Por inércia e inapetência, o governo Bolsonaro deu início, por acaso e por consequência de sua omissão nos quatro anos de mandato, a um sistema de governo muito próximo ao parlamentarismo. O presidente entregou o Orçamento ao centrão, abdicou de determinar gastos e obras, abandonou o projeto de construir um novo país para tentar apenas a própria continuidade no Palácio do Planalto à custa do golpe de Estado comandado por alguns militares de alto coturno. Quando os gatos saem, outros bichos tomam conta da casa.

Os parlamentares descobriram que poderiam encaminhar verbas à vontade para suas bases sem qualquer tipo de controle. A famosa emenda Pix dispensava o seu autor de indicar o beneficiário, o nome do responsável e revelar as fontes de financiamento do Orçamento da República. Um festival de saques a descoberto. Sem qualquer responsabilidade e, pior, sem o mínimo respeito por qualquer tipo de planejamento ou atenção às urgências do município. Algumas cidades do Brasil receberam uma profusão de chafarizes para ornamentar seu centro. Sem noção da necessidade ou de outras carências. 

Diogo Schelp - Marçal e o sistema

O Estado de S. Paulo

Marçal quer surfar na onda desbravada por Bolsonaro. Ele não precisa de um marçalismo

Pablo Marçal, candidato do nanico PRTB à Prefeitura de São Paulo, ameaça a hegemonia de Jair Bolsonaro no campo da direita autoritária? Não há dúvida de que o influenciador de autoajuda conseguiu atrair para si a intenção de voto de eleitores bolsonaristas que hesitavam em aderir ao prefeito Ricardo Nunes, apoiado pelo ex-presidente.

Mas estaria Marçal ganhando envergadura para substituir o próprio Bolsonaro como messias desse público?

Alguns analistas ponderam que o autonomeado coach não representa uma ameaça para Bolsonaro porque, apesar dos violentos embates online com os seus filhos, faz questão de se manter identificado com ele.

Ora, tudo o que Marçal quer é surfar na onda desbravada por Bolsonaro, não produzir um tsunami próprio. Marçal não precisa de um marçalismo.

Muito mais eficiente é ser o herdeiro do bolsonarismo. Se Bolsonaro não o reconhece como tal, tudo bem. O que importa é o reconhecimento dos eleitores de Bolsonaro.

Denis Lerrer Rosenfield - Amadurecimento democrático

O Estado de S. Paulo

Se olharmos as administrações estaduais, observaremos a preocupação com a responsabilidade fiscal, o cuidado com a educação, a confiança nas eleições

Lula da Silva não foi eleito por suas ideias e projetos, aliás inexistentes, mas por ter se colocado como alternativa a Jair Bolsonaro. Chegou a encarnar, a despeito das convicções nada democráticas de seu partido, sendo o apoio à fraude eleitoral de Nicolás Maduro o seu exemplo mais escandaloso, uma frente “democrática”. Os cidadãos que o elegeram o fizeram por ter podido se apresentar como a concretização do “não”. Foi eleito por ser anti o presidente de então, e não por ter algo a propor.

Bolsonaro perdeu as eleições por falar demais, não saber silenciar em momentos cruciais, pela falta de empatia com as vítimas da covid e por ter enveredado para um ataque às instituições democráticas. Sua contestação das urnas eletrônicas foi um exemplo de até onde poderia ir, embora tenha sido freado de ir mais além. Se mais moderado tivesse sido, muito provavelmente teria ganhado a eleição. Um eleitorado de centro, não petista, terminou por abandoná-lo. Não soube ter a cautela que o momento exigia.

Poesia | Talvez, de Pablo Neruda

 

Música | Carminho - Sabiá

 

domingo, 25 de agosto de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Moderação no Parlamento

Correio Braziliense

Em um intervalo de duas semanas, o Legislativo impôs uma sequência de movimentos que suscitam questionamentos sobre o papel dos parlamentares na defesa do interesse público

Causam preocupação as recentes medidas tomadas por integrantes do Congresso Nacional. Em um intervalo de duas semanas, o Legislativo impôs uma sequência de movimentos que suscitam questionamentos sobre o papel dos parlamentares na defesa do interesse público.

Tome-se como exemplo o caso das emendas parlamentares. Em resposta às decisões do ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino de suspender a tramitação das proposições enquanto não fossem observados os princípios constitucionais de transparência e rastreabilidade de recursos públicos, retiraram-se da gaveta projetos de lei que buscam cercear o Poder Judiciário. Uma das iniciativas pretende anular os efeitos de decisões monocráticas do STF — quando o próprio tribunal já impôs, em resolução interna, limites a esse expediente. Acrescente-se que o entendimento de Dino sobre as emendas parlamentares não é mais monocrático: foi referendado por unanimidade pela Suprema Corte. O posicionamento do Judiciário sobre o tema, pois, passou a ser em nível colegiado, não havendo mais razão para questionamento. 

O outro projeto aventado no Parlamento em retaliação à postura do STF é um claro disparate. Delega ao Legislativo o poder de derrubar decisões colegiadas da mais alta Corte de Justiça. De tão absurdo, não merece maiores considerações. 

Luiz Sérgio Henriques - Uma fábula da esquerda

O Estado de S. Paulo

Olhando os efeitos em torno de nós, mais certo é incluir aventuras como a de Chávez e Maduro entre as que desgraçadamente desonraram o conceito de socialismo

Por mais equivocado que seja falar da existência de uma só esquerda, no singular, certamente há um fundo comum de casos e histórias ao qual se pode recorrer para iluminar escolhas que diferentes agrupamentos fizeram ao longo do tempo. Uma dessas histórias, ocorrida ainda no início dos anos 1990 e guardada desde então no fundo do baú, tem como personagens ninguém menos do que Fidel Castro, ícone da vertente revolucionária, e Salomão Malina, o último secretário do PCB, expoente da “moderação na adversidade” e da defesa de mudanças graduais, inclusive para a saída negociada de regimes de exceção.

Malina tinha a mão direita semiamputada por causa de um incidente na clandestinidade, em que vivera durante parte considerável da vida. Era a mão que usava para incomodar opinadores politicamente inconvenientes, tal como Fidel em visita ao Brasil. As intervenções do eterno combatente tinham como alvo o reformismo, afinal malogrado, de Mikhail Gorbachev – e os reformistas em geral. O interlocutor que visivelmente preferia era o petista Luiz Inácio Lula da Silva, como se um e outro não se dessem conta do abismo intransponível entre o mito cubano e a realidade brasileira. Para encurtar a fábula, Malina, ainda por cima militar multicondecorado por feitos na 2.ª Guerra, estendeu a Fidel a parte da mão que lhe restava. Não era menos bravo do que o outro, “apenas” tinha visão diferente da política e dos seus procedimentos, segundo o relato de Carlos Marchi no primeiro volume sobre os cem anos do Partidão (Longa Jornada Até a Democracia, Brasília, 2022).

Nos anos que se seguiram, a Fidel juntou-se o venezuelano Hugo Chávez, incendiando a imaginação pouco realista de parte da esquerda latino-americana e até global. A tentativa era a de atualizar o paradigma revolucionário dos anos 60 do século 20, retirando-o do contexto exclusivamente militarista e inserindo-o na perspectiva de aprofundamento da democracia “burguesa”. De fato, houve por algum tempo a percepção de que a “revolução bolivariana”, sustentada na renda petrolífera particularmente propícia, podia se espalhar, se não em todos, pelo menos nos países mais pobres e desiguais do continente, a exemplo da Bolívia e do Equador.

Pouco qualificada, a tática de aprofundamento democrático encontraria seu desenho mais definitivo na sistemática convocação de assembleias constituintes logo em seguida à eleição de um presidente de vocação autoritária. Tratava-se, para o novo ocupante do Executivo, de paulatinamente submeter as instâncias do Legislativo e do Judiciário ao seu arbítrio, cancelando a separação dos Poderes e esvaziando as agências de controle republicano. Para efetivar a agenda maximalista, um item indispensável para os novos donos do poder era a aprovação do mecanismo de reeleições sucessivas, sem limitação de nenhum tipo. E, como em todos os casos de “revolução pelo alto”, a cargo de condottieri carismáticos, punham-se em ação mecanismos de controle social que vinculavam diretamente homem providencial e massas fanatizadas.

Os testemunhos mais isentos de que dispomos dão conta de que, no vazio de representação assim criado, implantou-se a fantasia da democracia direta – e implantou-se, contraditoriamente, de cima para baixo. O pluralismo natural da sociedade, nervo da vida política, passaria a ser substituído pelo simulacro das polarizações dilaceradoras, recurso antipolítico por excelência. Os sucessivos confrontos eleitorais, travados num campo crescentemente desigual, teriam a marca da manipulação plebiscitária em que desde sempre se especializaram os autoritários. Diante dessa suposta intensificação dos confrontos, só os deliberadamente cegos, que sempre os há, puderam repetidamente afirmar, por exemplo, que na Venezuela chavista e regimes congêneres existia “democracia até demais”.

A ambição revolucionária dos bolivarianos esteve presente, ainda, no rótulo imaginado pelo sociólogo alemão Heinz Dieterich. Com o experimento chavista, radicalizado por Nicolás Maduro, estaríamos diante do “socialismo do século 21″. O eixo das grandes transformações se deslocaria para a América Latina, suposição que uma vez mais tomava a nuvem por Juno. Mais certo teria sido inserir toda a ala extrema da onda rosa daquele início de século no “momento populista” que, à direita e à esquerda, se mostraria sistematicamente incapaz de recombinar os elementos de liberalismo e de democracia que, juntos, constituem o núcleo político das boas sociedades modernas.

Olhando os efeitos em torno de nós, aqui e agora, mais certo ainda é incluir aventuras como a de Chávez e Maduro entre as que desgraçadamente desonraram o conceito de socialismo, longe de reconstruí-lo e torná-lo uma alternativa, entre outras, para tratar os problemas que nos assediam. Instaurado o caos e dada a impossibilidade de nele viver indefinidamente, a coisa a fazer é evocar a figura ideal dos adeptos da moderação e das soluções pacíficas, isolando o tirano e sua claque para que possa prevalecer, ao fim e ao cabo, a vontade da maioria.

Merval Pereira - De volta ao futuro

O Globo

Marçal é Bolsonaro ao quadrado e, assim como o ex-presidente fez, abusa das redes e do sentimento dos eleitores contra ‘o sistema’

A melhor chance de Boulos vencer a eleição para prefeito de São Paulo é ter o coach Marçal como adversário no segundo turno. Contra Nunes, as chances de Boulos se reduzem. Contra Marçal, a fama de radical de Boulos se esvazia. Marçal é Bolsonaro ao quadrado, ou Bolsonaro de volta ao futuro. Foi eleito presidente da mesma maneira que Marçal se apresenta hoje, sem apoio político formal, usando e abusando das mídias sociais, refletindo um sentimento bruto dos eleitores contra “o sistema”, ao qual serviu durante vários mandatos parlamentares, mas que o relegou ao fundo do plenário da Câmara, no baixo clero que disputava as sobras dos privilégios dos deputados e senadores “do sistema”.