domingo, 2 de novembro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Tempo para salvar planeta fica a cada dia mais escasso

Por O Globo

COP30 enfrenta realidade inescapável: metas de cortes de emissões têm sido insuficientes para evitar o pior cenário

A COP30 começará em Belém sob o espectro de uma realidade incontornável: o tempo passa, e as projeções feitas com base nas metas de corte das emissões de gases de efeito estufa se mostram insuficientes para conter o aquecimento global idealmente em 1,5°C, no máximo em 2°C, em relação ao início da Era Industrial, como prevê o Acordo de Paris. O limite é essencial para evitar as variações catastróficas no clima, que já começaram a acontecer. Infelizmente, a meta de 1,5°C já ficou para trás, segundo diagnóstico da própria ONU. Pior: não há sinais convincentes de que a negligência da humanidade com o futuro do planeta mudará no curto prazo. Ainda que a ciência tenha vencido o confronto com o negacionismo no plano das ideias, faltam passos concretos, planos de execução rápida. A união entre diplomacia e política é a única forma de tentar recuperar o tempo perdido até aqui.

Governos se movem sem pressa, apesar das sucessivas tragédias climáticas decorrentes da elevação da temperatura no planeta. A última foi o Furacão Melissa, na região do Caribe, de categoria 5, a mais elevada, com ventos de até 298km/h, turbinado pela anormal temperatura do Atlântico. O poder de destruição dos furacões tem crescido. Chuvas torrenciais multiplicam-se — provocando catástrofes como as enchentes no Rio Grande do Sul — e convivem com secas tórridas. Tudo tem acontecido como era previsto.

Dilemas de governantes diante do desespero dos governados, por Paulo Fábio Dantas Neto*

Ao findar-se uma semana marcada por uma chacina ordenada pelo governador do Rio de Janeiro, é inevitável que uma coluna sobre política seja afetada por essa pauta sombria. A operação, que se quer de guerra, inaceitável por uma razão sensata que entenderia e até pediria uma ação policial legítima, elevou, com intensidade de agonia, uma pauta social latente à condição de ordem do dia. Essa elevação de patamar e a compressão do tempo para qualquer digestão sobre ela impactaram a percepção da população do Rio, que pesquisas captaram instantaneamente. O apoio agonístico manifesto deixa perplexa a razão sensata a que me referi e a pista de que a sensatez não está captando sentimentos públicos que precisaria interpretar. A chegada do tema à ordem do dia, em ritmo de agonia, convoca, além da reação de pessoas comuns, a palavra da política, de quem não tem direito à perplexidade. Se os déficits cognitivos do estado e da sociedade civil são fatos, a omissão do agir político não pode ser.

Lendo hoje um artigo do articulista Demétrio Magnoli fiz-me, instintivamente, a pergunta derivada da sugestão que ele dá. Por que não uma intervenção federal na Segurança Pública do Rio para desativar o comando faccioso dessa barbárie e substituí-lo pela ação civilizatória do Estado nacional? Mesmo com algum déficit cognitivo sobre a realidade, essa decisão teria, de saída, o mérito do cumprimento de um dever. Recuperaria parte das energias cívicas cujo adormecimento leva ao apoio resignado à guerra.

E agora? Por Dorrit Harazim

O Globo

O governador Cláudio Castro e as forças policiais envolvidas no planejamento e ação praticaram uma chacina

Da forma como foi planejado, podia se esperar o pior. Mas foi pior que o esperado.

A realidade, escreveu o saudoso Leonard Cohen, é uma das possibilidades que não podemos nos dar ao luxo de ignorar. Desde as primeiras imagens, sons, cadáveres e testemunhos da Operação Contenção contra criminosos da cúpula do Comando Vermelho entocados nos complexos do Alemão e da Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro, a realidade é uma só: na terça-feira, 28 de outubro de 2025, o governador Cláudio Castro e as forças policiais envolvidas no planejamento e ação praticaram uma chacina.

— Foi um sucesso — comemorou Castro, antes mesmo do balanço final da caçada humana.

Até a noite de sexta-feira haviam sido computados 121 mortos, entre os quais quatro policiais e 117 “suspeitos” ou “bandidos”, na catalogação oficial.

A operação conseguiu fazer mais mortos do que presos (113), mais mortos do que feridos (15 policiais e quatro moradores), mais mortos do que os 104 palestinos eliminados por Israel em Gaza no mesmo dia. Tudo isso por zelo, visando a poupar os moradores daquele emaranhado de favelas, como proclama a versão oficial, ou por arroubo na execução da habitual “justiça sem julgamento”? O governador garante que tudo foi realizado e é investigado “com transparência absoluta”. Há que concordar com ele em um ponto: dentre todas as chacinas contra bandidos ou inocentes ocorridas no Rio (Acari, Candelária, Jacarezinho, Vila Cruzeiro, para citar apenas as mais infames), a da semana passada foi de fato transparente — ostensivamente transparente no resultado.

O dia seguinte, por Bernardo Mello Franco

O Globo

'Poder público não pode se comportar como criminoso', diz Macaé Evaristo (Direitos Humanos)

A ministra Macaé Evaristo não se conforma com a festa das autoridades fluminenses após o banho de sangue nos Complexos da Penha e do Alemão. “Fico estarrecida com gestores que comemoram, alegres, uma operação que deixou 121 mortos. É um número absurdo, que não pode ser relativizado”, indigna-se.

Na quinta-feira, a titular dos Direitos Humanos visitou a Vila Cruzeiro, um dos palcos da matança. Conversou com líderes comunitários e moradores que perderam filhos, irmãos e sobrinhos. “Eram majoritariamente mulheres negras chorando. O clima era de muita dor e emoção”, conta.

Bem-vinda, Terra, à COP de Belém, por Míriam Leitão

O Globo

O mundo chega nesta semana a Belém, mas falta um número sobre a mesa. Com os dados atuais, quanto a temperatura da Terra vai aumentar? O relatório síntese da ONU, que deveria trazer esse número, não trouxe. Seu fantasma estará sobre todas as cabeças. Diante da falta de compromisso da maioria dos países, o mundo talvez esteja contratando um aumento de temperatura de 2,3°C, o que levaria a tragédias climáticas. O Pnuma, Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, deve dar esta notícia na terça-feira. Sob esse clima, o mundo vem a Belém, e o Brasil é mais uma vez o palco da escolha mais decisiva da humanidade.

A caminhada começou no Rio há 33 anos. Foi quando o mundo olhou o planeta Terra como deveria olhar. Agora, volta ao Brasil para a Conferência de número 30, em plena hora da verdade. A saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris produziu um vexame para eles mesmos. Só há quatro países fora do acordo: Estados Unidos, Iêmen, Irã e Líbia. A ironia é o governo americano ter escolhido essas companhias, que eles próprios consideram países párias.

De onde vêm a malandragem, o banditismo e a truculência policial do Rio, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O Estado nunca se fez presente de forma permanente e legítima. A autoridade é exercida por quem oferece proteção, energia, gás, transporte ou simplesmente a paz imposta pela arma

Vamos começar por Manoel Antônio de Almeida, no folhetim “Memórias de um sargento de milícias” (1854-1855), clássico de nosso romantismo, que retrata a vida do Rio de Janeiro no início do século 19, na Corte de João VI, e desenvolve pela primeira vez a figura do malandro. Pouco antes da independência, como agora, a cidade era marcada por uma ordem social frouxa e negociável, pelo compadrio, pela esperteza e pela ausência de moral rígida, na qual emerge a figura de Leonardo, o anti-herói que ascende pela malandragem e pela proteção dos poderosos.

Estão ali retratadas as raízes profundas da cultura política e policial brasileira, na qual a lei é maleável e a autoridade se confunde com o favor, desde a criação daquela que viria a ser a Polícia Militar do Rio de Janeiro. O sargento Vidigal está vivíssimo, é o arquétipo da autoridade que oscila entre o arbítrio e a conivência, entre o Estado e o “jeitinho”, ao mesmo tempo repressor e corrupto, que encarna o poder de manter a disciplina, mas também de participar dos mecanismos informais de dominação e lucro. Mais atual impossível.

A segurança pública na encruzilhada, por Arthur Trindade M. Costa,

Correio Braziliense

É necessário estabelecer um arcabouço normativo que fomente e institucionalize a cooperação. Esse tipo de iniciativa tem pouca visibilidade e não dá voto. Entretanto, seus efeitos são duradouros e têm alto impacto

Um relatório do Ministério da Justiça apontou que, em 2024, existiam 88 facções de base prisional no Brasil. Sendo que 72 delas têm atuação local como os Bala na Cara, do Rio Grande do Sul, e o Comboio do Cão, do Distrito Federal. Há 14 facções regionais que atuam em mais de dois estados como o Comando da Fronteira, a Família do Norte e os Guardiões do Estado. O relatório também aponta a existência de duas facções nacionais: o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho. Elas estão presentes em quase todos os estados e têm conexões internacionais. A presença dessas facções desafia os governos, colocando-os diante de uma encruzilhada sobre a melhor forma de enfrentá-las.

O crime organizado não é um problema exclusivo do Brasil. A Colômbia viveu uma situação dramática na década de 1990, quando Cartéis dominavam parte do território de Bogotá e Medelín, além de praticarem atentados contra autoridades políticas. Para enfrentá-las, os governos municipais implantaram políticas exitosas de reforma urbana. Foi realizada também uma ampla reforma na polícia. Hoje, a situação da Colômbia está bem melhor do que há 30 anos.

Rigor contra tráfico e milícia, por Ana Dubeux

Correio Braziliense

Não é difícil sentir a dor das mães da Penha, do Alemão, da Candelária, de Acari, do Carandiru, dos policiais mortos. Mas é mais fácil decidir esquecê-las. O problema não vai sumir; a dor delas também não  

De novo, a imagem fortíssima de uma mãe em prantos, o recorte simbólico de uma fila absurda de mortos. Nunca antes tantos mortos. Mas sempre a colheita de uma safra que cresce à revelia, praga resultante da falta de políticas públicas de segurança e de assistência social do Estado nas favelas e comunidades, deixando-as à mercê do tráfico, das milícias e do crime organizado.

Muito se falou sobre a letalidade da operação do governo Cláudio Castro, que parou o Rio de Janeiro e deixou um saldo de mais de 120 mortos, entre eles quatro policiais. Muitos corpos resgatados pela própria comunidade, executados sem chances de julgamento. Famílias órfãs e uma dor dilacerante, coletiva e injustificável. O fato de haver pessoas com extensa ficha criminal entre mortos não alivia o sofrimento, nem justifica qualquer abuso promovido pelo Estado.

Novos ventos (e mortos) na política, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Direita avança sem Bolsonaro, ameaça pauta do governo e põe favoritismo de Lula em xeque

Com as 121 mortes na operação policial do Rio, acusada de chacina pela esquerda, aplaudida pela direita e, segundo as pesquisas, apoiada pela sociedade, a oposição se realinhou e ganhou novo ânimo e nova bandeira para superar a dependência de Jair Bolsonaro e enfrentar o favoritismo de Lula para 2026. O ambiente político, já tão instável, sofreu mais um solavanco.

Lula, que vinha deslizando na pista eleitoral praticamente como candidato único, deve se preparar para fortes obstáculos no Congresso, onde não se fala mais de anistia ou dosimetria para Bolsonaro, mas a pauta saiu da economia, prioritária para o governo, e desabou na segurança, solo fértil para a direita.

Respostas midiáticas à criminalidade, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo.

Guerra e terrorismo são diferentes de criminalidade e precisam de respostas diferentes

A chacina de israelenses em outubro de 2023, as execuções sumárias de palestinos pelo Hamas, a campanha militar de Israel na Faixa de Gaza, o bombardeio americano de embarcações no Caribe e no Pacífico e a operação da polícia no Rio de Janeiro têm um propósito político comum: saciar a sede de sangue do público.

Desde a Antiguidade, quando imperadores romanos punham gladiadores para lutar, os políticos lançam mão desse truque: entreter o povo com violência explícita. O Taleban promovia execuções nos intervalos das partidas de futebol. Pessoas agitadas pelo medo e pela raiva são fáceis de manipular.

Ainda há tempo para investigar o massacre de Cláudio Castro, por Paulo Sérgio Pinheiro

Folha de S. Paulo

Morticínio deve ser avaliado sob um contexto político-eleitoral mais amplo

É aterrorizante constatar que parte da população vibre com tal brutalidade

Décadas de experiência demonstram que o uso estratégico da inteligência é o caminho mais eficaz para enfrentar o tráfico de drogas e as milícias. Operações baseadas em informações precisas reduzem riscos para a população e para os agentes de segurança. Apesar desse consenso, o Brasil insiste em ações espetaculosas e militarizadas, incapazes de desarticular redes criminosas ou atingir os fluxos financeiros que as sustentam.

recente operação no Rio de Janeiro é exemplo trágico dessa lógica. Com cerca de 2.500 agentes mobilizados, resultou em 117 óbitos —muitos com sinais de execução, tortura e queima de corpos, além da morte de 4 policiais. Essa ação altamente letal, lembrou o Alto Comissário de Direitos Humanos da ONU, Volker Türk, indica que já é tempo de "fazer cessar um sistema que perpetua racismo, discriminação e injustiça".

Lula tem de criar amanhã comitê contra apagão da segurança, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Um grupo executivo de emergência pode ser embrião de instituição nacional anticrime

Sem resultados imediatos e plano, propaganda de política reacionária e letal vai avançar

O massacre do Rio deu um mote para a direita, que estava na defensiva. A chance de sucesso da contraofensiva cadavérica de governadores e outros políticos direitistas aumenta porque a esquerda quase nada faz em matéria de segurança.

Por falar em falta de programas de Lula 3, note-se o descaso com o setor elétrico, sob risco de colapso e crise financeira, salvo por ora apenas pela administração autônoma e competente do sistema. Ou a corrupção e a incompetência no INSS. Os Correios. Etc.

Interessa agora saber do desdobramento político desta outra encenação da farsa do "combate à violência".

Cláudio Castro mentiu, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Como o Comando Vermelho, o bolsonarismo continua funcionando

Entendo perfeitamente que você queira acreditar que a operação do governador Cláudio Castro no complexo do Alemão foi um sucesso. Todos queremos ouvir boas notícias sobre segurança pública.

Mas não foi dessa vez.

O nome da operação, "Contenção", pode dar uma impressão errada. O objetivo nunca foi impedir que o Comando Vermelho conquiste áreas da cidade que atualmente estão livres do crime organizado.

O objetivo da operação era impedir que o Comando Vermelho continuasse tomando áreas na região de Jacarepaguá que, no momento, são controladas pelas milícias.

Imagino que as autoridades tenham uma boa explicação para isso. Seria para evitar que o CV fechasse controle sobre o Rio todo, como o PCC (Primeiro Comando da Capital) faz em São Paulo? Talvez.

O conflito entre facções impediu que no Rio surgisse uma facção estável e centralizada como o PCC. Por outro lado, os fluminenses pobres sofrem muito mais com guerras de quadrilha sangrentas do que os pobres paulistas. É difícil saber qual dos dois quadros é pior.

O inimigo é outro, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O embate político impede o combate real porque o banditismo não é de direita nem de esquerda

Cabe ao presidente liderar processo de unificação de forças para organizar o Estado e desorganizar o crime

Bandeira em disputa na campanha para a próxima eleição, a segurança pública da maneira como vem sendo abordada no impacto da operação no Rio não tem a menor chance de ser o vetor de unificação nacional necessário ao enfrentamento efetivo dessa calamidade.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem pisado com cuidado nesse terreno depois de ser traído pelo cacoete ideológico e injustificado desconhecimento da realidade, na frase sobre traficantes vítimas de usuários.

O Estado que mata e esculacha, por Juliana Diniz

O Povo (CE

Decapitar alguém é ação que exige tempo, esforço físico e colaboração - especialmente num contexto extremo de operação policial. Se as pessoas foram mortas em circunstância onde era possível evitar o resultado morte, o Estado praticou um crime e deve ser responsabilizado

Não há outra emoção para descrever o que senti diante dos efeitos da operação policial no Rio de Janeiro além do extremo choque. A violência exposta dos corpos enfileirados em praça pública, a dor das mulheres no reconhecimento coletivo, em condições indignas, dos cadáveres de seus familiares. Também o choque diante de muitas manifestações banalizando a morte de uma centena de pessoas como um efeito colateral possível de uma operação policial. Quem aplaude uma matança?

Quantas chacinas mais? Que fazer?...por Alfredo Maciel da Silveira

Ninguém tem razão no debate desses dias!

De fato, não adianta chacinar bandidos e soldadinhos dessas poderosas facções.

O que pode fazer um adolescente coagido a trabalhar para organizações criminosas?  Mudar-se de bairro?...

Impossível!

Da outra vez, por sobrevivência, vieram roubar celulares em Sepetiba, lugar “ainda” bucólico, onde moro. Ao que se diz, a milícia logo os matou.

Para se entender ilustrativamente a cultura vigente nessas imensas comunidades de favelas. Há uns quinze anos ou mais, uma netinha de minha empregada doméstica, de uns dez anos, nascida e criada em favela, viera passar o dia em minha casa. No meio da tarde, ouviu o barulho de fogos. Assustadíssima, perguntou-me:

__ “Aqui tem polícia?”...

A pergunta era de pavor da polícia, pois em sua comunidade os fogos eram aviso de chegada da mesma...

E aqui? O significado era quase simétrico. Anunciava aos “clientes” a chegada da droga!...

Poesia | Um dia você aprende, de William Shakespeare


Música | Caetano Veloso - Oração ao Tempo

 

sábado, 1 de novembro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

 

Denúncia comprova necessidade de ataque ao CV

Por O Globo

Operação deveria ser seguida de ocupação permanente, com policiamento e serviços públicos

São estarrecedores os métodos do Comando Vermelho (CV) para manter o controle do complexo de favelas do Alemão e da Penha. A denúncia do Ministério Público que serviu de base à megaoperação das polícias do Rio na última terça-feira é repleta de revelações sobre práticas repugnantes da facção. Mensagens interceptadas demonstram que o CV montou uma estrutura complexa de domínio, altamente hierarquizada e militarizada, levada a cabo por meio de tortura, execuções sumárias determinadas por um “tribunal” do tráfico e até um departamento para cuidar de propinas pagas a agentes da lei. Não há como nenhuma sociedade civilizada tolerar esse abominável estado de exceção.

Pejotização é inconstitucional, por Miguel Reale Junior

O Estado de S. Paulo

A fraude da pejotização não pode ser legitimada pelo Judiciário

O Supremo Tribunal Federal (STF) está julgando a licitude de contratos de prestação de serviços adotados em substituição ao contrato de trabalho para cumprimento de atividades-fim da empresa empregadora.

Diante do elevadíssimo número de processos sobre essa questão, objeto também do Recurso Extraordinário com Agravo n.º 1.532.603/PR, o ministro Gilmar Mendes, relator, determinou a suspensão de todos os feitos, atribuindo, assim, à matéria o caráter de repercussão geral. Logo, a decisão de mérito a ser proferida deverá ser observada por todos os tribunais.

Urgência Lewandowski; Xandão corregedor, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

É instrutivo observar a forma modesta como reagem Lula e Tarcísio de Freitas aos eventos havidos no Rio de Janeiro. O protagonismo da questão “segurança pública” para 2026 parece incômodo a ambos. Já que não podem ter sido pegos de surpresa pela centralidade eleitoral do tema, a hipótese é de que esse incômodo derive da existência concreta do fato “maior operação policial da história contra uma facção criminosa”; como se esperassem que o assunto se derramasse etereamente ano que vem adentro.

Esse era o desejo. O mundo real se impôs. Aí está o episódio; enclave material – um marco – a pressioná-los. Estão cobrados. Instados a se posicionar; e tendo ambos pouco a oferecer em matéria de realizações para segurança pública. Lula, ademais, limitado sob a dificuldade histórica da esquerda em se apropriar da atividade policial como valor, ao mesmo tempo ciente de que a maioria da população aprova a operação. Daí que, não lhe faltando chances de falar a respeito, tenha privilegiado a prudência de comentar em rede social.

Falta nome para isso, por Flávia Oliveira

O Globo

Foi o episódio mais letal da História do país, num território tragicamente acostumado a contar óbitos às dezenas

Quem vive, circula pelos bairros, acompanha a (in)segurança pública no Rio de Janeiro já se acostumou a superlativos. No estado, faz tempo, perdeu-se a conta dos inimigos públicos número um; apreensões de fuzis batem recordes sucessivos; confrontos armados multiplicam cadáveres. O que aconteceu nesta semana nos complexos do Alemão e da Penha, contudo, foi além dos padrões do ambiente hiperviolento da metrópole. Uma única operação contra o Comando Vermelho, a facção majoritária no estado, deixou mortos quatro policiais e 117 suspeitos. Foi o episódio mais letal da História do país, num território tragicamente acostumado a contar óbitos às dezenas.

Das cinco ações policiais de maior letalidade já registradas no Rio, segundo o Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos (Geni/UFF), quatro ocorreram sob a gestão de Cláudio Castro, governador reeleito em 2022. Até a última terça-feira, o número máximo de mortes fora na operação da Polícia Civil no Jacarezinho, em maio de 2021, quando morreram um policial e 27 civis. O Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) costumava classificar como chacina as ocorrências com três ou mais mortes. Nos últimos anos, a mudança de escala fez o Geni batizar de megachacinas os episódios com pelo menos oito óbitos. Não há nome para o que aconteceu no Alemão e na Penha nesta semana.

A leucena e o Alemão, por Eduardo Affonso

O Globo

A tal pacificação incluía implantar um policiamento mais presente e mais humano, permitir acesso aos serviços básicos

A leucena é uma planta exótica que prolifera de forma desenfreada. Sua estratégia é produzir muitas sementes, que germinam com facilidade, e liberar um composto que inibe o crescimento de outras espécies ao seu redor. Virou uma praga nas margens do Canal de Marapendi, sufocando a vegetação nativa e ameaçando a biodiversidade.

Volta e meia acontece uma “revitalização” do canal. As folhas são varridas (as amendoeiras que as produzem continuam lá, sem dar frutos comestíveis, sem atrair pássaros, sem permitir que a flora se desenvolva). Mesmo as árvores mortas permanecem. É trabalhoso remover o tronco e as raízes, plantar no lugar uma quaresmeira, um ipê, um jequitibá. As leucenas são cortadas — arrancá-las também dá trabalho — e rebrotam com ainda mais vigor. A erva-de-passarinho que estiver ao alcance da mão vai para a caçamba — o resto é deixado e se espalha para parasitar (até matar) o que tiver sobrevivido às espécies invasoras.

Dependente e ocupado ideologicamente, o Brasil resiste, por Roberto Amaral*

“Onde o poder público descuidou da integridade física dos mais pobres, o regime democrático não passa de uma fachada de papelão esburacada por tiros, chamuscada por pólvora queimada e borrifada de sangue.”
Eugênio Bucci, O Estado de SP, 30/10/2025
 
Nascemos como mera feitoria, ponto de apoio para naus sedentas de água, remanso de piratas e aventureiros. Na Colônia, sem povo, nosso destino foi traçado como economia primário-exportadora fundada na escravidão de negros e indígenas, a serviço das demandas do consumo europeu, via Lisboa — a metrópole decadente, salvando-se como entreposto de nosso comércio: pau-brasil, açúcar, minérios, algodão, carne, café... — que exportávamos, e de entrada do que necessitávamos, que era quase tudo.

Essa economia e esse comércio estabeleciam as bases da aliança do latifúndio e da incipiente burguesia comercial (que incluía os comerciantes, os traficantes de gente e os contrabandistas, de um modo geral) com a Coroa portuguesa e seus primeiros agentes — exatores do fisco, militares e o clero. Eram as raízes de uma estranha nação sem povo e, assim, sem projeto.

No Império, exportávamos mão de obra escrava (sob a forma de açúcar, minérios etc.) e tudo importávamos, como reclamava Joaquim Nabuco ainda no Segundo Reinado:

“[...] o Brasil é uma nação que importa tudo: a carne-seca e o milho do Rio da Prata, o arroz da Índia, o bacalhau da Noruega, o azeite de Portugal, o trigo de Baltimore, a manteiga da França, as velas da Alemanha, os tecidos de Manchester, e tudo o mais, exceto exclusivamente os gêneros de imediata deterioração. A importação representa assim as necessidades materiais da população toda, ao passo que a exportação representa, como já vimos, o trabalho apenas de uma classe.” (Discurso no Senado, 1884)
Esqueceu-se de dizer que importávamos também ideologia.

Sobre a mão de obra escrava se estabeleciam a economia e a política do Império, quando — é ainda a voz de Nabuco — “o espírito comercial e industrial do país parecia resumir-se na importação e na venda de africanos”, prenunciando o atraso relativo que se acentuaria nos dois séculos imediatos. 

Crime organizado não será combatido pelos gigolôs da violência, por Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

A macabra operação no Rio evidencia o fracasso país em dar segurança aos cidadãos

Governantes tem baixíssimo interesse em realmente enfrentar o problema da criminalidade

O estado de exceção é a antítese do Estado de Direito. Enquanto no Estado de Direito estamos todos submetidos ao império do direito, no estado de exceção imperam a violência e o arbítrio. Nestas quatro décadas de democracia não fomos capazes de universalizar o respeito às leis, especialmente para as populações pretas e pobres.

É cada vez maior o número de brasileiros que estão cotidianamente submetidos ao domínio perverso do crime organizado, que ocupa o vácuo deixado pelo Estado. Estima-se que facções criminosas e milícias dominem hoje mais de 20% da região metropolitana do Rio de Janeiro, explorando não apenas o tráfico mas todos os tipos de atividade. O Rio, no entanto, é apenas a ponta do iceberg.

A guerra de Castro, por Demétrio Magnoli

Folha de S. Paulo

Terrorismo, em qualquer de suas definições, inscreve-se no campo da política

Face à mexicanização do Brasil, o governo ainda não criou um diretório unificado antifacção

"Narcoterrorismo" –a palavra saltou da boca de Trump para a de Cláudio Castro, governador do Rio, enquanto tramita a PEC patrocinada por Derrite, secretário de Segurança de SP, que reclassifica as facções do tráfico como "terroristas". Palavras, às vezes, geram atos. A transferência das facções do universo da segurança pública para o da guerra propicia execuções sumárias, extrajudiciais, de supostos "combatentes inimigos". É o que fazem as bombas dos EUA no Caribe e no Pacífico. É o que fez no Rio a megaoperação de Castro.

Crise no Rio é deixa para bolsonarismo priorizar segurança e largar Bolsonaro, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Agenda da violência é tema espinhoso para Lula e a esquerda, que nunca soube lidar com o problema

Gradação de reação de governadores no apoio a Castro mostra que há temor de associação com barbárie

A crise decorrente da ação mais letal da história da polícia do Rio, que até aqui deixou 121 mortos, tornou-se uma tábua de salvação discursiva para a direita e encurralou o governo Lula (PT), que vinha surfando uma onda de boas notícias rumo a 2026.

O embrião da reação é a criação do Consórcio da Paz, mais um grupo de trabalho num país acostumado a anunciá-los quando não tem solução para um problema. Assim, a associação entre governadores do espectro anti-PT serve de palanque de uma disputa retórica num campo em que a direita costuma ter vantagem.

É evidente que matar gente, promover encarceramento em massa e outras medidas "simples" (aspas compulsórias) não resolvem fundamentos da segurança pública.

O presente de Lula para Trump, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Há consenso no governo de que o Brasil terá de ceder e reduzir a tarifa do combustível

Impasse é político também porque o agro pressiona líderes do Congresso

Já há consenso no governo Lula para reduzir a taxa extra cobrada sobre o etanol norte-americano em troca de avanços nas negociações em relação ao tarifaço de 50% aplicado por Donald Trump a produtos brasileiros.

Integrantes do governo já comentam nos bastidores sobre a possibilidade de zerar a tarifa do etanol. Nos últimos dias, passou também a ser discutida a oportunidade de um anúncio da medida antes mesmo da primeira reunião de negociação do tarifaço, em Washington, com o vice Geraldo Alckmin e os ministros Fernando Haddad (Fazenda) e Mauro Vieira (Relações Exteriores).A reunião pode acontecer na semana que vem ou na próxima.

Todos que apoiam a chacina são fascistas? Por Mariliz Pereira Jorge

Folha de S. Paulo

Foi chacina sim, mas nem todo apoio à chacina é de extrema direita; parte é medo antigo, dor acumulada e certeza de abandono

Brasil é conservador e se agarra a respostas autoritárias quando o Estado some

A foto dos corpos alinhados no chão não pede legenda. Foi chacina. Chacina não é um desastre natural que mata por acaso, como um terremoto ou uma enchente. A operação comandada pelo governador do RioCláudio Castro, teve planejamento, fuzil, aval e coletiva de imprensa. É bom lembrar que no Brasil não existe pena de morte –oficialmente, não.

As reações, como sempre, vieram no automático da nossa rinha: um lado romantiza a violência estatal, o outro finge que segurança pública se resolve com discurso. Tratar morto como "dano colateral" é covardia travestida de coragem. E, ainda assim, há algo que precisa ser dito com a mesma franqueza: para parte de quem aplaude, não é ideologia — é desespero.

Uma pesquisa da AtlasIntel, divulgada nesta sexta (31), mostra que oito em cada 10 moradores de favelas do Rio de Janeiro apoiam a "ação" contra o Comando Vermelho nos Complexos da Penha e do Alemão. Sim, foi uma chacina. Portanto, é preciso olhar com mais atenção porque tanta gente aplaude o discurso criminoso de que a mortandade produzida pelo Estado foi um sucesso.

Inovação e desenvolvimento no Brasil, por Marcus Pestana

O incremento da produtividade no Brasil, nos últimos anos, tem sido muito baixo. Entre 2019 e 2024, o aumento médio da produtividade por hora trabalhada foi de apenas 0,28% ao ano. A produtividade do trabalhador brasileiro corresponde a ¼ do norte-americano.

A produtividade está essencialmente ligada a três fatores: qualidade do capital humano (educação de alto nível e qualificação profissional); poder de inovação científico-tecnológico; e, infraestrutura (economias externas com efeitos multiplicadores sobre a geração de renda e a competitividade da economia).

Teríamos algum traço genético que nos impede de alçar voos maiores na corrida pela inovação e ganhos relevantes de produtividade? Claro que não. Vejamos, através de 3 exemplos concretos, como o brasileiro sabe fazer.

A mina de futuro, por Cristovam Buarque

Veja 

A revolução é oferecer escola de qualidade independente da renda

O Brasil sempre transformou suas terras em riqueza, mas ainda se recusa a aproveitar a mina de conhecimento dos cérebros de seus habitantes. Preferimos gastar bilhões de reais para perfurar o solo no fundo do mar a investir em escolas com qualidade para todos. Da ideia de que o atraso dos países vinha da exploração de nossas minas, difundiu-se o conceito, criado pelo escritor uruguaio Eduardo Galeano, de “veias abertas” pelo colonialismo. A globalização acabou com a nitidez entre centro e periferia, mas ainda não percebemos os “neurônios ofuscados” pelas elites nacionais que impõem colonização interna ao manter o sistema educacional dividido entre escola-senzala e escola-casa-grande, que nega o aproveitamento de milhões de cérebros.

Massacre inútil, por André Barrocal

CartaCapital

As facções criminosas estão mais poderosas e não vão desaparecer com a execução de seus integrantes, como aposta o governador do Rio

A violência é a maior preocupação dos brasileiros em diversas pesquisas. Por trás do medo está o crime organizado. O PCC, de São Paulo, e o Comando Vermelho, do Rio, são as maiores entre 88 facções mapeadas pelo Ministério da Justiça. Grupos do gênero espalham-se nas ruas e nos negócios, estão por trás de muitos dos 40 mil assassinatos anuais e ajudam a, digamos, girar a roda da economia. A um ano das eleições, a população vê em cena dois modelos para enfrentar o problema. Um é do governo Lula, cristalizado em operações da Polícia Federal de agosto que atingiram o mercado financeiro e tomaram 1,2 bilhão de ­reais do PCC. Sem disparar um único tiro. É a aposta na inteligência. O outro é o do governador Cláudio Castro, do Rio, que prefere o confronto e acaba de liderar a maior chacina policial da história do Brasil, graças a uma violenta incursão no quartel-general do CV. Certos governadores direitistas apoiam a solução “tiro, porrada e bomba” e viajaram ao Rio para parabenizar Castro pela matança.

Início da caminhada, por Jamil Chade

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Pedido de perdão pelos crimes da ditadura foi histórico, mas novos passos terão de ser dados

Em um ato histórico, a presidente do Superior Tribunal Militar, Maria Elizabeth Guimarães Teixeira Rocha, pediu desculpas pelos crimes da ditadura. Diante de uma Catedral da Sé lotada, durante a cerimônia que marcou os 50 anos do assassinato de Vladimir Herzog, sua atitude pode ser considerada como um divisor de águas na história da instituição. O gesto acena para o futuro. Em seu discurso, a ministra deixou claro que não tolerará novos atentados contra a democracia. Em outras palavras, o STM não fechará os olhos para generais envolvidos em conspirações golpistas.

O tour asiático rende frutos, por Aldo Fornazieri

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Durante a visita oficial à Indonésia e à Malásia, Lula amealhou ganhos políticos, diplomáticos e também econômicos

viagem de Lula à Indonésia e à Malásia, para o encontro da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean), foi bastante exitosa, tanto do ponto de vista político quanto do diplomático e econômico. Poderia ter sido perfeita não fosse a infeliz declaração do presidente de que “os traficantes são vítimas dos usuários de drogas também”.

Do ponto de vista político, o maior feito foi o encontro com o presidente dos EUA. A reunião transcorreu de forma cordial, sem os constrangimentos que Donald Trump frequentemente impõe a mandatários de outros países. A foto dos dois líderes se cumprimentando e sorrindo alcançou recorde de visualizações e engajamentos nas redes sociais de Lula.

Não confunda Cupom com Copom, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

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Economistas desconhecem a importância do Cupom Cambial na fixação de câmbio, juros e inflação

O que será, que será?… / O que não tem certeza nem nunca terá / O que não tem conserto nem nunca terá / O que não tem tamanho… (O Que Será, música de Chico Buarque).

Miragem é um fenômeno óptico causado pelo desvio da luz (refração) que ocorre através de camadas de ar com temperaturas diferentes, que cria imagens deslocadas ou invertidas de objetos distantes. A imagem que sempre nos vem à mente é de uma pessoa morrendo de sede, vagando moribunda no deserto, pensando em encontrar um oásis. O desditado corre e se joga ansiosamente atrás de água, cai na real, mergulhado na areia.

Nas miragens da macroeconomia mainstream, muitos vivem a ilusão do Banco Central de um país de moeda não conversível com total independência para fixar a taxa de juros básica. Essa miragem está inscrita no regime de meta de inflação. Um delírio teórico não causado pelo cansaço de caminhar exaustivamente no deserto, mas por achar que somos o Federal Reserve (Banco Central norte-americano) e nossa moeda igual ao dólar. Cansaço algébrico, econométrico, miragem de manual de macroeconomia.

Acreditam como Abel Ferreira, técnico do Palmeiras, na consigna: todos somos um! Os donos da certeza não tomam conhecimento da arbitragem entre câmbio e juros. Tal fenômeno não existe: é uma miragem do setor financeiro internacional.

O Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil (Copom) seria uma espécie de encontro entre os Cavaleiros da Távola Redonda e Ricardo Coração de Leão. Decidem de forma totalmente independente, sem dar a mínima para a relação câmbio–juros submetida inexoravelmente às valorizações e desvalorizações do ativo subjacente: o dólar.

Poesia | Vinicius de Moraes - Dia da Criação (Porque hoje é sábado)

 

Música | Zeca Pagodinho - Toda a hora

 

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Retomar território é essencial no combate ao crime

Por O Globo

Operações policiais são necessárias, mas só políticas sociais consistentes garantirão o domínio do Estado

A megaoperação no Rio contra o Comando Vermelho (CV) reacendeu o debate sobre os desafios do combate a organizações criminosas que dispõem de armamento de guerra e sofisticação militar. Operações policiais são necessárias para enfraquecê-las. Mas os resultados costumam ser parciais e, quase sempre, efêmeros. Há décadas, diferentes governos tentam enfrentar as quadrilhas, mas o problema persiste. É preciso políticas mais consistentes e duradouras. Retomar e manter o território é crítico para garantir a segurança das cidades e o bem-estar da população.

Apesar de os estados canalizarem recursos vultosos à segurança pública, é o crime que tem se expandido. Na Região Metropolitana do Rio, entre 2008 e 2023, a extensão territorial sob domínio de facções criminosas ou milícias cresceu de 8,8% para 18,2%. O avanço não ocorre só no Rio e é visível para o cidadão comum, exposto a uma rotina de tiroteios e crimes de toda sorte.