quarta-feira, 17 de julho de 2024

Elio Gaspari - A Abin virou uma piada

O Globo

Sem respeitar as informações, governos repetem os erros

Daqui a algumas semanas completam-se 70 anos do atentado em que a guarda pessoal do presidente Getúlio Vargas urdiu o assassinato do jornalista Carlos Lacerda. Mataram um major que lhe dava proteção e abriram uma crise que terminou na manhã do dia 24 de agosto, com o suicídio do presidente.

Em poucas horas, a polícia associou a guarda ao crime. Os pistoleiros haviam contratado um táxi do ponto próximo ao Palácio do Catete, e o motorista apresentou-se. Desde então, os personagens palacianos acham que podem tudo e metem-se em trapalhadas de comédia.

Na última, em agosto de 2020, o então diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem, gravou uma reunião de que participavam o presidente Jair Bolsonaro e o general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional. Tratava-se de articular uma defesa para o senador Flávio Bolsonaro, acusado de avançar sobre os vencimentos de seus assessores.

Marcelo Godoy - A omissão do Congresso diante da Abin

O Estado de S. Paulo

Parlamentares da comissão não viram quando a ‘Abin paralela’ se tornou a própria Abin 

O verdadeiro poder começa onde o segredo começa. “Quanto mais visível é uma agência governamental, menos poder ela detém e, quanto menos se sabe sobre a existência de uma instituição, mais poderosa ela é.” A conclusão de Hannah Arendt em Origens do Totalitarismo é conhecida, mas precisa ser lembrada.

No escândalo da Abin paralela, o próprio nome parece encobrir a sua dimensão. Também nada se diz sobre o papel da Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência no Congresso (CCAI). Formada por 12 membros – seis senadores e seis deputados indicados pela maioria e pela minoria –, a comissão não passou perto dos desvios da agência de inteligência. No governo Bolsonaro, a CCAI teve como presidentes Fernando Collor e Aécio Neves. E, hoje, quem a preside é o senador Renan Calheiros, um dos alvos da arapongagem “paralela”.

O que a comissão controlou afinal? Procurou saber sobre a veracidade de informes a respeito de supostos desvios na contrainteligência da Abin, que deixaram vulneráveis a agências estrangeiras informações estratégicas do País? Ou sobre informes de que a Abin fez vista grossa a ações da CIA em Roraima contra Nicolás Maduro? Ou que policiais federais emprestados à agência produziam relatórios partidários, em que interesses de um grupo político capturavam um órgão de Estado?

Nicolau da Rocha Cavalcanti - Os 30 anos do Plano Real e a segurança pública

O Estado de S. Paulo

O Plano Real ensina que é possível mudar, mas não se muda fazendo o mesmo de sempre. É evidente que assim não dará certo

Além de merecerem abundantes aplausos, os 30 anos do Plano Real podem fornecer luzes importantes para os desafios atuais do País. Penso, em concreto, na segurança pública, que é um tema decisivo para o Brasil e, sim, precisa urgentemente de outro patamar, a começar por um novo patamar de compreensão do problema.

O Plano Real explicita que é possível mudar. Não temos de nos acostumar com situações objetivamente absurdas, simplesmente porque o presente é muito difícil: porque os problemas, em vez de diminuírem, cresceram ao longo do tempo.

Esse aspecto é muito importante no Brasil, onde se vê uma enorme descrença na capacidade do Estado – de forma específica, da política – de enfrentar os problemas nacionais. Ao derrotar uma inflação persistente, que parecia invencível, o Plano Real mostrou a falácia desse pessimismo. Eis a verdade desvelada pelo Plano Real: um governo tem a capacidade de mudar positivamente, de forma verdadeira e estável – não apenas até a eleição seguinte –, a vida da população.

Paulo Sotero - Atentado reduz campanha a ‘reality show’

O Estado de S. Paulo

Bom nessa modalidade, Donald Trump chega à reta final da campanha como favorito e acelerando

A tentativa de assassinato do ex-presidente Donald Trump no último sábado, em comício na Pensilvânia, trouxe para o centro da campanha à Casa Branca o flagelo das “reality news” ou “reality television” na sua mais trágica expressão: a violência epidêmica numa nação onde circulam 500 milhões de armas de fogo, mais de uma por cada um de seus 340 milhões de habitantes, e um número incontável que pessoas com problemas mentais e fácil acesso a elas.

Não obstante as teorias conspiratórias que pipocaram à esquerda e à direita, nos EUA e no resto do mundo, sugerindo que tudo não passou de uma encenação, o presidente Joe Biden, o FBI e os veículos da grande imprensa americana críticos de Trump trataram o ataque como fato.

No imediato pós-atentado, o episódio beneficia Trump, pois reforça a tese do ex-presidente segundo a qual ele é um político perseguido. Gera, ao mesmo tempo, simpatia e solidariedade entre eleitores indecisos, e aumenta a capacidade da campanha conservadora de continuar a arrecadar milhões de dólares, essencial depois da Convenção Nacional Republicana, que termina amanhã em Wisconsin com a consagração de Trump como candidato. Permite ainda que ele entre acelerando na reta final que levará à votação de 5 de novembro.

Fábio Alves – A nova fase Inflação

O Estado de S. Paulo

Diversos países começam a registrar uma leitura mais benigna da trajetória dos preços

Após boa parte das principais economias do mundo ter divulgado seus índices de preços ao consumidor referente a junho, ficou claro que, além de uma leitura benigna pelo segundo mês consecutivo, a inflação global surpreendeu os analistas, vindo abaixo das projeções de mercado. Assim, já dá para dizer que a inflação entrou numa tendência global de desaceleração?

O resultado que mais teve impacto sobre os investidores foi o CPI (sigla em inglês para índice de preços ao consumidor) de junho nos Estados Unidos, caindo 0,1%, enquanto os analistas previam alta de 0,1%, o que fez a taxa acumulada em 12 meses ceder de 3,3%, em maio, para 3%. Foi a primeira queda mensal do índice em quatro anos.

Vinicius Torres Freire - Povo não compra dólar, mas come dólar

Folha de S. Paulo

Daqui até agosto, governo tem boas oportunidades de reverter o tumulto financeiro

Daqui até o fim de agosto haverá oportunidades de superar o tumulto que contribuiu para encarecer o dólar e elevar ainda mais as taxas de juros.

A taxa de juros e o preço do dólar no Brasil dependem, em parte, do nível da taxa de juros nos EUA, o que por sua vez depende parte de expectativas de inflação. No opiniômetro financeiro, acredita-se agora que a inflação irá aos poucos dos 3% ao ano de maio para a meta de 2%.

A taxa básica de juros americana não deve ser talhada já na reunião de 31 de julho. Mas, no fim deste mês, o Fed pode dar sinais de que o arrocho vai diminuir. As taxas de mercado cairiam.

Wilson Gomes - Normalizar a ultradireita é inevitável

Folha de S. Paulo

Não se trata apenas do voto de nichos radicais, mas de metade do eleitorado

Há um dogma que circula em ambientes progressistas: "Não normalizarás a ultradireita". É um dogma porque, aparentemente, proíbe-se até mesmo discutir a utilidade, conveniência ou razão dessa crença. Está na mesma categoria de "não existe ultradireita moderada" e "com fascista não tem conversa, só combate".

Compreendo o que está em jogo. A direita radical que emergiu a partir de 2016 é perturbadora para uma cultura liberal-democrata, herdeira do Iluminismo. Mesmo com suas variações internas, há nela um bom número de teses e atitudes obscurantistas, intolerantes, avessas ao pluralismo e perigosas para minorias políticas.

Vetar a normalização dessas posições é uma tentativa de manter ativa a indignação moral, preservando o sentimento de repulsa e a convicção de que estamos diante de posições odiosas e aberrantes.

Como sou antidogmático por natureza, sugiro reexaminar se essa interdição ainda faz sentido. Em 2016 e 2018, quando Trump e Bolsonaro venceram eleições nas maiores democracias americanas, a surpresa era justificada.

Bruno Boghossian - Nova voltagem da eleição deve moldar escolhas políticas de Trump

Folha de S. Paulo

Após tédio com Biden em 2020, sequência de acontecimentos muda sentimento da disputa nos EUA

A eleição de 2020 nos EUA deu uma vitória ao tédio. Joe Biden se consagrou como uma opção enfadonha após quatro anos de acrobacias protagonizadas por Donald Trump. A próxima votação, em novembro, ocorrerá num ambiente muito mais favorável para o republicano.

A última série de acontecimentos da campanha americana reflete e ajuda a cristalizar os sentimentos que devem marcar esta disputa. A corrida tende a se mover mais pela alta voltagem e pelo caos que favorecem a política de Trump do que pela busca por previsibilidade.

O prólogo desta sequência foi a intensificação dos questionamentos sobre a figura de Biden. A suposta vantagem da placidez foi vigorosamente substituída por incertezas sobre sua capacidade de comando.

Hélio Schwartsman - E se fosse morte morrida?

Folha de S. Paulo

Assassinato de Trump seria péssimo para a democracia, mas qual seria o efeito de uma morte natural?

Pretendia evitar reflexões polêmicas sobre uma possível morte de Donald Trump, mas não resisto.

Teria sido péssimo para os Estados Unidos e para o mundo se o atirador tivesse logrado seu objetivo. O assassinato de um candidato com boas chances de vencer o pleito presidencial, num contexto de forte polarização afetiva como é o norte-americano, teria deixado o país numa situação pior do que a atual. O atentado não necessariamente lançaria os EUA numa guerra civil –elas são raras em nações desenvolvidas--, mas agravaria a violência sectária e representaria uma fragilização da democracia.

Paul Krugman - Projeto mostra a verdadeira face de Trump

The New York Times / Folha de S. Paulo

Elaborado por aliados do ex-presidente, Project 2025 mostra aspirações oficiais e não oficiais de um novo mandato

Não vou especular sobre o efeito da tentativa de assassinato de Donald Trump no sábado (13) na corrida presidencial de 2024. No entanto, vou fazer uma observação: alguns na direita política estão usando o ataque para insinuar que a crítica aos esforços passados de Trump para reverter os resultados da última eleição, ou qualquer sugestão de que ele represente uma ameaça à democracia, agora está fora dos limites.

Mas duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo: violência política é inaceitável, ponto final. E os esforços de Trump e de seus apoiadores mais radicais para minar a democracia americana continuam sendo inaceitáveis.

Com a convenção republicana desta semana, é importante entender as possíveis ramificações tanto de sua plataforma oficial quanto de suas aspirações não oficiais, incorporadas pelo Project 2025.

Poesia | Manuel Bandeira - A Estrela da Manhã

 

Música | Paulinho da Viola - Foi um rio que passou em minha vida

 

terça-feira, 16 de julho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Senado precisa rejeitar PEC da Anistia

O Globo

Proposta aprovada na Câmara livra partidos de obrigações legais e contraria anseios do eleitorado

É missão do Senado rejeitar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Anistia — ou então esquecê-la. Aprovada na Câmara, ela grava na Constituição mudanças na legislação que beneficiam o caixa dos partidos políticos em detrimento do eleitor. Mais grave, perdoa irregularidades cometidas nas últimas eleições e desfaz incentivos a candidaturas de minorias. “A PEC é um retrocesso de décadas em relação a regras que o próprio Congresso havia construído no plano das ações afirmativas”, diz o procurador Roberto Livianu, presidente do Instituto Não Aceito Corrupção. As ONGs Transparência Internacional, Pacto pela Democracia e Movimento Transparência Partidária consideraram a PEC “um grave retrocesso para a sociedade civil, para o sistema partidário, para o Congresso Nacional e, consequentemente, para a democracia brasileira”.

Jorge J. Okubaro - Restaurar a confiança da população

O Estado de S. Paulo

Declaração de Berlim adverte para os perigos do populismo e deixa um desafio: ‘Precisamos urgentemente ir à raiz das causas do ressentimento’

Embora o avanço eleitoral da extrema direita na França tenha sido contido por uma espetacular recuperação da esquerda e do centro no segundo turno, são crescentes os riscos à estabilidade das democracias ocidentais provocados por políticos populistas, como Marine Le Pen, que exploram a raiva e as angústias das pessoas. Nessas democracias cresce a desconfiança em sua capacidade de atender aos anseios populares e de debelar as crises que ameaçam nosso futuro. Esse é o tema da Declaração de Berlim, assinada por economistas renomados. Divulgada no fim de maio, antes das eleições francesas, a declaração adverte para os perigos do populismo, como o de Le Pen e de Donald Trump. E deixa um desafio para as pessoas preocupadas com a paz e a prosperidade no mundo: “Precisamos urgentemente ir à raiz das causas do ressentimento da população”.

Mario Mesquita - Raro, mas acontece

Valor Econômico

Depois de muito tempo, um eventual anúncio de política de intervenção cambial nos EUA voltou ao debate

O Fed apura, há décadas, um indicador de competitividade do dólar. Esse índice é baseado na taxa de câmbio real entre o dólar e outras moedas, ponderado pelo peso das diversas economias no comércio bilateral com os EUA. O indicador está atualmente em 117,99, apenas 2,5% abaixo do máximo recente, observado em outubro de 2022 - o pico do índice, desde 1980, foi 131,51, observado em março de 1985. O indicador encontra-se 16,5% acima da taxa média da série. Configura-se, portanto, um cenário de dólar bastante forte para o padrão histórico.

Nesse contexto, a imprensa tem reportado declarações de pessoas associadas à campanha do ex-presidente Trump indicando disposição de fazer algo para disciplinar ou enfraquecer a moeda. Segundo a governança dos EUA, intervenção cambial é uma decisão do governo, do Tesouro (por meio do Exchange Stabilization Fund), e não do Fed. O processo eleitoral segue muito incerto no país, mas vale pensar sobre o que poderia acontecer caso o novo governo resolva intervir no mercado cambial.

Alvaro Costa e Silva - O passado nunca está morto

Folha de S. Paulo

Plano estava esboçado desde a reunião ministerial de 2020

"O passado nunca está morto. Nem sequer passou", escreveu Faulkner. Para entender o presente é preciso voltar à reunião ministerial de 22 de abril de 2020, que é a mais sincera caricatura dos maus bofes e dos verdadeiros interesses de Bolsonaro.

Com a assistência num misto de entusiasmo e medo, ele espumava: "Eu não vou esperar foder a minha família toda, ou amigos, porque não posso trocar alguém na ponta da linha. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele. Se não puder trocar o chefe dele? Troca o ministro".

Dora Kramer - Anistia põe partidos no desvio

Folha de S. Paulo

Legendas precisam decidir se emergem ou se submergem na lama do descrédito

Um dilema se impõe aos partidos e a seus políticos: ou eles dão um jeito de acabar com os abusos ao dinheiro da coletividade ou o uso abusivo do financiamento público dessas agremiações acabará com o que resta da pouca credibilidade de que ainda dispõem junto aos brasileiros.

Caso sigam indiferentes, cedo ou tarde caberá à sociedade ou à Justiça, esta provocada por aquela, dar um fim ao impasse retirando do Legislativo a vantagem da iniciativa.

Carlos Andreazza - Pachecando

O Estado de S. Paulo

Foram maquiando o bicho, perfumando a mordida. E então, de repente, pimba

Rodrigo Pacheco avisa que a PEC do Esculacho não terá tramitação acelerada no Senado. Pretende se distinguir do atropelador Arthur Lira assim, com essa miséria. (Anseio inútil, unidos eternamente pela institucionalização do orçamento secreto; sem miséria.) O texto – comunica – passará pela Comissão de Constituição e Justiça. Oh!

Também passou pela CCJ da Câmara. E daí?

O cumprimento mínimo do rito legislativo alçado a medida distintiva. Coisa de estadista. É como vamos, tal o rebaixamento das expectativas. A PEC do Esculacho doravante desfilando sem açodamento. Oh! Talvez seja o caso de agradecer.

Obrigado, Pacheco, por assegurar que uma emenda à Constituição receba os cuidados de Davi Alcolumbre antes de ir a plenário. É como vamos. Constituição e Justiça via Alcolumbre, por oposição a Lira.

Merval Pereira - Tramas radicais

O Globo

Não acredito que atentados a Trump e Bolsonaro tenham sido farsas políticas, como setores da esquerda querem fazer crer

Não acredito que Bolsonaro tenha sido eleito presidente da República em 2018 devido ao atentado à faca que sofreu na campanha presidencial. A ausência de Lula na urna eletrônica já mostrava que o PT não teria candidato para substituí-lo à altura, não digo do ponto de vista de qualidades morais ou cívicas, pois Fernando Haddad era um excelente candidato, mas olhando a capacidade eleitoral.

Assim como não acredito que, se Donald Trump for eleito, como tudo indica, terá sido devido ao atentado que sofreu no fim de semana. Muito menos que ambos os atentados tenham sido farsas políticas, como setores da esquerda querem fazer crer. A insistência nessa teoria da conspiração, em ambos os casos, demonstra que a esquerda não consegue encarar a realidade e fazer dela seu alimento para a ação política. Precisa que conspirações justifiquem seus erros.

O atentado na Pensilvânia, assim como o de Juiz de Fora, é consequência da radicalização política que toma conta das eleições nos Estados Unidos e no Brasil e põe em risco a democracia em ambos os países, um fenômeno provocado por forças políticas que não aceitam a derrota como natural em disputas eleitorais e estimulam mentes doentias.

Pedro Doria - O ralo das democracias

O Globo

Já perdemos um bom naco da direita para as teorias conspiratórias. Se a esquerda for pelo mesmo ralo, o que sobrará?

As redes sociais americanas explodiram neste fim de semana em teorias conspiratórias a respeito da tentativa de assassinato do ex-presidente Donald Trump. Teorias conspiratórias à esquerda. Não foi só lá — pulsaram, e em quantidade, também aqui no Brasil. “Armação”, “teatro”. “É tinta vermelha no rosto dele.” Os sociólogos americanos que estudam desinformação on-line se saíram com um apelido para a onda — BlueAnon. Uma mistura da cor azul, atribuída ao Partido Democrata, com QAnon. A diferença é que, na versão de esquerda, não há satanistas e pedófilos. De resto, é o mesmo princípio de um grupo poderoso escondido, secretamente orquestrando o que parece caos na realidade.

Teorias conspiratórias são uma ferramenta de proteção mental. O mundo é muito complicado, coisas acontecem de repente. A explicação para o lado complicado do mundo às vezes é complexa, às vezes é contestada, às vezes é desconhecida. Às vezes é só fruto do acaso. Aleatório. Uma conspiração simplifica tudo: se organizaram sem que nenhum de nós soubesse. Foi tudo planejado.

Maria Cristina Fernandes - Trump se vale da arma da ambiguidade

Valor Econômico

O homem que potencializou a mentira no discurso político contemporâneo agora tem a verdade a seu favor

Nem que reúna todos os gênios da comunicação política, a convenção republicana será capaz de reproduzir a cena do atentado contra o ex-presidente americano, Donald Trump: o punho ergue-se acima do rosto ensanguentado, os dentes mordem os lábios para fazer soar “fight” (“lutem”), a bandeira americana está hasteada à direita e a agente do serviço secreto com algemas presas no seu cinto o cerca não para prender o condenado por 34 crimes mas protegê-lo de um atirador.

Toda a cena foi emoldurada por um céu azul sem nuvens sobre uma plateia de onde saiu a única vítima fatal, um bombeiro que se jogou sobre as filhas para protegê-las. O inimigo mirou Trump mas atingiu a família americana. A plateia reagiu instantaneamente gritando a sigla, em inglês, de Estados Unidos da América, USA.

Joel Pinheiro da Fonseca - Quem aposta na violência?

Folha de S. Paulo

Mesmo se ex-presidente morresse, os valores democráticos estariam mortos de maneira mais profunda

Reagan venceu de lavada a eleição de 1984, depois de ser alvo de um atentado. Bolsonaro, lembramos bem, venceu com folga em 2018. Já eram favoritos, e o atentado contra suas vidas apenas selou a vitória. Com Trump, deve ocorrer o mesmo.

O alvo de uma tentativa de assassinato fracassada sai mais forte do que entrou. "O médico no hospital disse que nunca vira algo assim, ele chamou de milagre." Como se opor à vontade de Deus? Seu exemplo de sacrifício inspirará os apoiadores. Já a oposição terá que maneirar em suas críticas para não parecer desumana. Para completar, sua reação vigorosa no momento do atentado contrasta com a fragilidade de Biden.

Hélio Schwartsman - Trump mais forte

Folha de S. Paulo

Atentado tende a trazer benefícios eleitorais para republicano, mas disputa ainda não está definida

atentado desferido contra Trump amplia as chances de o republicano vencer a disputa eleitoral de novembro, mas seria precipitado declarar que o jogo já está definido. O paralelo com o ataque sofrido por Jair Bolsonaro em 2018 só vai até certo ponto.

Bolsonaro, que foi esfaqueado um mês antes do pleito e passou semanas acamado para recuperar-se das cirurgias a que teve de submeter-se, era um candidato relativamente desconhecido num contexto em que grande parte dos eleitores buscava um antipetista para votar. O atentado lhe deu projeção e o poupou de críticas e desconstruções. Trump foi atacado quatro meses antes do pleito e é tudo menos desconhecido dos americanos. A grande maioria deles já tem um lado e dificilmente mudará de posição.

Luiz Carlos Azedo - Era uma vez um sonho americano

Correio Braziliense

J.D. Vance foi escolhido para rejuvenescer a chapa republicana e ressignificar o sonho americano, depois de um atentado que quase tirou a vida de Trump

Quatro presidentes norte-americanos já foram assassinados em pleno exercício da profissão: Abraham Lincoln ((Hodgenville, 12 de fevereiro de 1809 — Washington, D.C., 15 de abril de 1865), James Abram Garfield (Moreland Hills, 19 de novembro 1831 — Washington, D.C., 19 de setembro de 1881), William McKinley (Niles, 29 de janeiro de 1843 — Buffalo, 14 de setembro de 1901) e John Fitzgerald Kennedy (Brookline, 29 de maio de 1917 — Dallas, 22 de novembro de 1963), de um total de 16 presidentes que sofreram atentados, entre eles Ronald Reagan.

A série Último ato (Manhunt) da Apple TV , baseada no livro A caçada ao assassino de Lincoln. 12 dias que abalaram os EUA, de James L. Swanson, mostra os bastidores de um dos assassinatos mais icônicos da violência política nos Estados Unidos. Monica Beletsky, criadora da produção, mergulha nos subterrâneos de uma conspiração que marcou um dos momentos importantes da história norte-americana.

Poesia | O veneno - Charles Baudelaire

 

Música | Elis Regina - Carinhoso (Pixinguinha)

 

segunda-feira, 15 de julho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Numa democracia, a violência não pode ter espaço

O Globo

Atentado contra Trump é um alerta sobre riscos da radicalização política e um ataque ao regime democrático

Os tiros disparados contra o ex-presidente americano Donald Trump neste sábado num comício em Bulder, na Pensilvânia — um dos estados críticos na eleição de novembro —, puseram a violência no centro da campanha eleitoral. Um integrante do público morreu, mas Trump felizmente sofreu apenas ferimentos leves. As manifestações unânimes de chefes de Estado e governo mundo afora, entre eles o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, traduzem uma indignação mais que justa contra o atentado. Num momento de forte pressão para a desistência do democrata Joe Biden em razão de suas repetidas demonstrações de declínio cognitivo, os olhos se voltam agora para o republicano Trump e para a convenção que, a partir desta segunda-feira, deverá sagrá-lo candidato.

Nos últimos anos, os atentados contra presidentes ou candidatos à Presidência nos Estados Unidos se tornaram menos frequentes. Um levantamento do Congresso elencou 15 tentativas de assassinato ao longo da História, cinco delas bem sucedidas. Dos 46 presidentes americanos, dez foram alvo de ataques e quatro foram mortos no cargo — Abraham Lincoln, James Garfield, William McKinley e John Kennedy. As últimas tentativas frustradas alvejaram George W. Bush (uma granada que não explodiu em 2005), Bill Clinton (tiros contra a Casa Branca que não o atingiram em 1994) e Ronald Reagan (ferido a bala em 1981, sobreviveu).

Miguel de Almeida - Temas desprezados na política

O Globo

Tragédia climática no RS, até hoje a maior em grandes metrópoles brasileiras, não ocupa os discursos

Houvesse maturidade política, as próximas eleições municipais deveriam ser encaradas muito além da disputa entre os maridos da Janja e da Michelle. As urgências são maiores que a pinimba. Se interessa aos dois, sob diferentes adjetivos, a rinha maldosamente esconde os problemas mais candentes já encarados pelas cidades brasileiras. São questões de vida e morte, de presente e futuro, mas a polarização forçada não se mostra compungida com o bem-estar alheio. A temperatura indica, o ramerrão deve continuar o mesmo, sem avanços. De quem é a culpa?

Os rios gaúchos nem bem baixaram a níveis toleráveis, ainda existem desaparecidos tragados pelas águas, mas a tragédia climática, até hoje a maior em grandes metrópoles brasileiras, não ocupa os discursos dos candidatos. Desculpe, eles não sabem o que fazem. Mais fácil é proibir livros (que não leram) nas escolas ou exibir fotos de suspeitos (pretos e pobres) mortos à queima-roupa. Como outra distração, vale também querer explorar petróleo em região de recifes de corais na Foz do Amazonas.

Fernando Gabeira - Todos os irmãos Batista

O Globo

Joesley e Wesley podem cantar de novo, e ficaremos sabendo que, no fundo, nada mudou: o país continua sendo saqueado

Faz bastante tempo, e muitos de vocês nem eram nascidos, havia duas irmãs muito famosas. Eram as irmãs Batista, Dircinha e Linda, cantoras. Havia uma outra chamada Odete, mas que não entrava na história.

As irmãs Batista da minha infância eram rainhas do rádio. Pode não parecer nada hoje, mas o título importava na época em que o rádio era a única diversão. As irmãs Batista cantavam em filmes de carnaval. Se me lembro bem, elas puxavam um pouco nos erres. O pai foi ventríloquo e cantor. Fez tudo para que as filhas seguissem a carreira artística.

É coisa de velho, eu sei, mas cada vez que falam nos irmãos Batista, o que me vem à lembrança são as irmãs Batista da minha infância. Os irmãos Batista, Joesley e Wesley, não são cantores, embora os nomes sugiram uma dupla de sertanejo universitário. Vendem carne para o mundo e surgiram num grande escândalo no governo Temer. Foi gravada uma conversa com o presidente em que um deles falava de suas visitas e de seus agrados a Eduardo Cunha, para que ele não contasse todas as aventuras do PMDB com os empresários.

A frase de Temer ficou muito conhecida:

— Tem que manter isso aí, viu?

Bruno Carazza - Mercadores de influência desembarcam em Brasília

Valor Econômico

Capital federal atrai lobistas de todo o Brasil às vésperas de grandes votações

A primeira vez que o termo “lobbyist” apareceu no arquivo do “New York Times” foi em 6 de fevereiro de 1857, num texto de opinião contrário à aprovação do Pacific Railroad Bill, um projeto que autorizava o governo americano a doar terras públicas e a financiar a construção das estradas de ferro que cruzariam o país, do Atlântico ao Pacífico.

A matéria denunciava as intensas negociatas ocorridas no âmbito do Comitê de Terras Públicas, que estava prestes a autorizar a concessão de extensas faixas de terras em Minnesota e Iowa para a instalação dos trilhos e o desenvolvimento urbano nesses territórios ainda inóspitos. O autor designado como “S.” expõe o fenômeno de objetivos privados colocados acima do interesse público. No Brasil, pesquisando no acervo da Biblioteca Nacional e de “Estadão”, “Folha” e “O Globo”, a referência mais antiga que encontrei a “lobista” foi em coluna de Nahum Sirotsky (1925-2015), então correspondente do “Jornal do Brasil” em Nova York, em 8 de dezembro de 1963.

Edward Luce - Tentativa de assassinato de Trump torna eleição americana ainda mais conturbada

Financial Times / Valor Econômico

Atentado terá profundas repercussões para a democracia dos EUA. Convenção Nacional Republicana em Milwaukee (EUA) esta semana será dominada pela quase fatalidade do ex-presidente americano

Não foi apenas Donald Trump que escapou por pouco. Se a bala que passou de raspão na orelha de Trump tivesse acertado meia polegada à esquerda, ele teria se tornado um mártir. Não se pode prever o que sua morte teria desencadeado.

Tal como está, a reprovável tentativa de assassinato de Trump terá profundas repercussões para a democracia dos EUA. Em segundos, cercado por agentes do serviço secreto, Trump estava gritando “lutem, lutem, lutem” para a multidão. A foto instantaneamente onipresente dele levantando o punho contra o fundo da bandeira americana se tornará o emblema de sua campanha.

Uma sociedade de alta confiança — onde os valores éticos são fortemente compartilhados pela população — aguardaria os fatos do tiroteio antes de tirar conclusões. Por esse critério, os Estados Unidos estão perto do abismo. Dois dos republicanos cogitados ao cargo de vice-presidente de Trump culparam os democratas por incitar o ódio contra Trump.

Marcus André Melo - Cadê o centro nos EUA?

Folha de S. Paulo

Três explicações rivais sobre a extrema polarização nas eleições americanas

polarização política nos EUA vem desafiando o conhecimento acumulado na ciência política. No pós-guerra, a tendência nas democracias foi de formação de partidos cada vez mais fluidos programaticamente e com uma base social mais ampla (catch-all parties).

Isto resultou em uma convergência ideológica em direção ao centro (a rigor, a mediana da distribuição de preferências). Neste contexto, a disputa política tende a se concentrar nos eleitores voláteis que exibem baixa lealdade política e menor identificação partidária (swing voters).

Ana Cristina Rosa - Ultraje à democracia

Folha de S. Paulo

Sem a regra da proporcionalidade, parte significativa dos candidatos negros não terá recursos públicos para financiar suas campanhas

Em 2022, o número de candidaturas negras superou o de candidaturas brancas pela primeira vez na história do Brasil. Os registros da Justiça Eleitoral apontam que 50,27% dos inscritos para disputar as eleições gerais se autodeclaram pretos ou pardos. E o total de pessoas negras eleitas aumentou 11,4% em relação a 2018.

Esse desempenho foi fruto direto de mudanças promovidas na lei eleitoral. Em 2020, o TSE decidiu que o dinheiro do Fundo Especial de Financiamento de Campanha e o tempo de propaganda eleitoral gratuita seriam distribuídos proporcionalmente ao total de candidatos negros dos partidos.

Lourival Sant’Anna - Combustível para o papel de vítima e herói

O Estado de S. Paulo

Trump contribui para que os rivais contestem a superioridade do sistema americano

O atentado contra Donald Trump representa um impulso formidável para a jornada do ex-presidente de volta à Casa Branca. A tentativa de assassinato de um dos principais candidatos a presidente dos EUA a menos de quatro meses das eleições reforça também a percepção de desfuncionalidade da democracia americana, fartamente utilizada pelos adversários do país.

Do ponto de vista eleitoral, não é uma mudança de rumo: é um combustível potente e inesperado para o papel de vítima e de herói que Trump já havia adotado desde a campanha de 2020, que coincidiu com a pandemia de covid.

O ataque, cuja autenticidade e gravidade são inquestionáveis, dá materialidade à ideia de uma conspiração nacional e internacional para impedir que o bilionário salve os americanos da esquerda, do establishment e da China, e “faça a América grande de novo”.

Diogo Schelp - O atentado e o mártir

O Estado de S. Paulo

O atentado pode ser a motivação que faltava para o eleitor sair de casa e votar em Trump

O poder eleitoral da martirização é inegável. Jair Bolsonaro sobreviveu a um grave atentado a faca em 2018 e isso contribuiu para sua vitória eleitoral por pelo menos três motivos.

Primeiro, porque serviu à narrativa de que ele enfrentava interesses obscuros e poderosos e estava disposto a se sacrificar por essa luta. Segundo, por colocá-lo no centro das atenções da campanha. Terceiro, por eximí-lo da obrigação de participar de debates.

Os dois últimos pontos não se aplicam ao americano Donald Trump, que escapou por um triz de ser assassinado durante um comício eleitoral no sábado, dia 13. Mas o primeiro, o da martirização, tem tudo para ser decisivo para a volta do ex-presidente à Casa Branca.

Denis Lerrer Rosenfield - Alergia ao mercado

O Estado de S. Paulo

Lula e o PT terminam por impor o ‘seu’ mercado, o do compadrio, em que os ‘compadres’, espécie de companheiros, são líderes empresariais assim beneficiados

Lula da Silva nem bem ouve a palavra mercado que já imediatamente tem uma reação alérgica, cujos sintomas mais evidentes são uma verborreia incontida sobre as forças oposicionistas capitaneadas pelo que compreende ser esse tal mercado. Isso se qualquer compreensão é possível, salvo se considerarmos um esquerdismo anticapitalista dos mais rudimentares, no que é seguido pelo seu próprio partido. É como se fosse o novo líder, a ser reconhecido, de um novo movimento global, cujas ideias atrasadas levaram aos desastres comunistas do século 20. O atraso aparece com a roupagem do progresso. Progressistas são, nesse sentido, regressistas.

Luto | Desbravador de carioquices: relembre trajetória de Sérgio Cabral, que colecionou marcas na cultura do Rio

João Vitor Costa, Madson Gama e Maria Fortuna / O Globo

Jornalista e escritor, que morreu na manhã deste domingo, também foi Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado

Sérgio Cabral nasceu em Cascadura, no subúrbio do Rio. Mas em um bairro vizinho, Cavalcanti, que moldou sua personalidade, onde aprendeu a soltar pipa e a jogar bola. De lá, a bordo dos trens da chamada “linha auxiliar”, atual ramal de Belford Roxo, ele balançava pelos trilhos para desbravar a cidade. Vascaíno e mangueirense, mas com apreço pela Portela, ganhou o país como jornalista, escritor, compositor e pesquisador. Empregou sua verve e seu intelecto para se tornar um defensor (ferrenho!) da cultura carioca, além de um guardião da memória da Música Popular Brasileira.

A carreira de jornalista começou em 1957, como estagiário do Diário da Noite. O “foca” (como são chamados os repórteres iniciantes) chamou a atenção ao resolver um problema. O então redator-chefe João Rocha sofria para reduzir a chamada de uma matéria sobre a liberação de verba do então presidente Juscelino Kubitschek para uma cidade de Minas Gerais, após fortes chuvas. Escondido, Cabral fez o título “JK promete dar o que temporal tirou” e colocou na mesa do chefe.

“Sou jornalista graças a este título”, relembrou ele em uma entrevista à Associação Brasileira de Imprensa (ABI), em 2008. “Ele (João Rocha) olhou aquilo espantado e perguntou quem tinha feito o título. Quando respondi que tinha sido eu, ele virou-se imediatamente para o Geraldo de Barros, secretário de redação, e indagou: ‘O Sérgio Cabral já foi registrado?’ Com a resposta negativa, sentenciou: ‘Então, registra amanhã!’”, contou Cabral à ABI.

Sérgio Cabral - O Partido do samba (Brasileiros e Militantes)

 

Poesia | Ó Eu! Ó Vida! - Walt Whitman

 

Música | Tom, Vinicius, João Gilberto & Os Cariocas - Garota de Ipanema / Devagar com a Louça