sábado, 5 de outubro de 2024

Luiz Gonzaga Belluzzo - Bets e mercados financeiros

CartaCapital

Os homens de negócio jogam um jogo que é um misto de habilidade e de sorte, e cujos resultados médios são desconhecidos pelos jogadores

As bets, casas de apostas online, assumiram a liderança nos debates travados na Terra Brasilis. Antes de se entregarem ao vício das bets, os brasileiros experimentaram as incertezas do jogo do bicho, as angústias do jogo de cartas ou das roletas. Diga-se, os chamados “jogos de azar” sempre frequentaram os espaços da ambição que incomoda o espírito de homens e mulheres. Restringir aos brasileiros o hábito vicioso das apostas é uma impropriedade. Assim como é impróprio inquinar de viciosas apenas as apostas dos jogos de azar. Essa crítica moralizante esconde os impulsos que comandam as decisões nas economias monetário-financeiras capitalistas.

Hélio Schwartsman - Paradoxos eleitorais

Folha de S. Paulo

Nenhum sistema de votação é perfeito, mas alguns são melhores do que outros

Uma das coisas mais difíceis na democracia é contar os votos. Não me refiro obviamente ao delírio bolsonarista segundo o qual as urnas eletrônicas seriam manipuladas. O sistema eleitoral brasileiro só melhorou depois que elas foram adotadas. Tenho em mente aqui um problema que é a um só tempo mais sutil e mais profundo.

Ao menos desde de Condorcet, no século 18, e de Arrow, no 20, sabemos das dificuldades para transformar somas de preferências individuais em decisão coletiva sem gerar paradoxos.

Dora Kramer - O inesperado faz surpresas

Folha de S. Paulo

Eleição não se ganha de véspera, e por isso mesmo as urnas revelam tantas surpresas

Eleição não se ganha nem se perde de véspera, embora seja esta a ocasião em que mais se especula sobre quem vai comemorar vitórias ou amargar derrotas. Isso ficou mais forte desde que o advento das pesquisas de intenção de votos tomou conta da cena.

Antigamente, na pré-história dos anos 1980, quando o Brasil começou a retomar eleições diretas nos estados (1982), nas capitais (1985) e à Presidência da República (1989), a medição da vontade do eleitor era fruto do trabalho da imprensa, com repórteres à caça do "clima" país afora.

Alvaro Costa e Silva – Na reta final, Eduardo Paes pula do muro

Folha de S. Paulo

Com crescimento de Ramagem, eleição no Rio se 'nacionaliza' e esquenta na reta final

Cláudio Castro protagonizou um episódio de comédia ao fazer o papel do espião trapalhão em mais uma tentativa de ajudar Alexandre Ramagem —cuja campanha a prefeito baseia-se na segurança pública— e livrar a própria cara das críticas sobre a dificuldade do governo estadual em conter a violência.

Castro publicou um vídeo mostrando, em detalhes, as novas viaturas descaracterizadas que sua gestão vai entregar à PM, especificamente ao setor de inteligência. As imagens revelaram como são os carros que deveriam ser usados de maneira "disfarçada". Só faltou exibir os números das placas: "Nem parece viatura, né? A ideia é exatamente essa. São 38 carros sem caracterização alguma", disse o governador com pinta de Peter Sellers interpretando o inspetor Clouseau na série "A Pantera Cor-de-Rosa".

Bolívar Lamounier - Ousar ou perecer

O Estado de S. Paulo

Se as instituições e os eleitores acordarem para os riscos que inexoravelmente teremos de enfrentar no médio prazo, já será alguma coisa

Meus caros amigos e amigas leitores por certo se lembram do Brasil, um país que em certa época chegou a ter bons governos e progredir.

Pois é, aquele país parece estar desaparecendo. A continuar como está, o que se pode entrever é que cedo ou tarde ele se renderá à jogatina, à ferocidade de certas indústrias e ao banditismo propriamente dito.

Mesmo no nível municipal, guardamos na memória algumas boas campanhas e autoridades dignas dos cargos que vieram a ocupar. Neste ano da graça de 2024, se o voto não fosse obrigatório, com certeza teríamos uma baixa recorde no comparecimento.

A parte pensante de nossas elites, notadamente os economistas, tem feito incontáveis alertas sobre a gravidade da crise que se delineia no horizonte. Se tal tendência não for contida por líderes de maior calibre e de forma ousada, a situação de médio prazo não será para almas frágeis. Num rápido apanhado, creio ser necessário destacar dois pontos: a eleição presidencial de 2026 e a Constituição de 1988.

Miguel Reale Júnior - Revisão das leis dos crimes ambientais

O Estado de S. Paulo

Cumpre alterar a Lei 9.605/98, discernindo entre o que cria perigo à incolumidade humana, animal ou vegetal e o que é mera desobediência a ditames regulamentares

A crise climática, a irromper no futuro, já chegou. Para enfrentá-la, proclamam que se deve aumentar a pena dos crimes ambientais. A questão é mais complexa, pois cumpre alterar grande parte da Lei n.º 9.605/1998, discernindo entre o que cria perigo à incolumidade humana, animal ou vegetal e o que se resume a ser mera desobediência a ditames regulamentares.

Sem dúvida, cabe a intervenção do legislador, sancionando, como medida preventiva, situação propícia a aflorar perigo ao meio ambiente. Muitas dessas ações constituem infrações obstáculo, de cunho administrativo e não penal, precauções para impedir atividade prévia à ofensa ao meio ambiente.

Carlos Andreazza - Moody’s e o voo de galinha

O Estado de S. Paulo

A Moody’s que dá é a mesma que tirará. Já vimos essa fita. Serve-nos aqui o clichê da comparação entre fotografia e filme. A agência aumentou o grau de confiança no Brasil observando o impulso da galinha ao disparar seu voo. Boa foto.

A galinha alçou-se tirando mais as patas do chão do que se projetava. Salto que surpreende; surpresa cujo encanto faz negligenciar o fato de ser uma galinha quem se lança. Galinha manjada. Que já deu seus pulos no passado.

A Moody’s deu pouca importância ao fato de ser uma galinha quem se alavanca, donde talvez a pouca relevância ao exercício de memória sobre como fora a aterrissagem do bicho quando da armação artificial de voo anterior. Não foi bem uma aterrissagem. Pagamos por ela até hoje. Catamos as penas até hoje.

Eduardo Affonso - Que voto útil é esse?

O Globo

Integrantes da elite pensante, outrora conhecida como ‘intelligentsia’, supõem deter a reserva de mercado da democracia

Os 13 anos de bipartidarismo forçado, durante a ditadura militar, parecem ter deitado raízes mais profundas em nosso sistema político (ou na nossa psique) que os 45 de pluralidade partidária que vieram depois. Tomamos gosto pelo clima de “cara ou coroa”, “par ou ímpar”, “ou isso ou aquilo”, como se cada eleição majoritária fosse um plebiscito.

Nem a introdução dos dois turnos arrefeceu esse ânimo. A ideia de ter de dialogar com potenciais aliados, repactuar propostas, negociar (no melhor sentido!) e buscar convergências para alcançar maioria numa segunda rodada soa perda de tempo. Por que não resolver a parada logo de cara, deixando aos (muitos) perdedores as batatas? É tentador ganhar no arrastão, sem ter de aprofundar o debate e acolher maior diversidade de ideias.

Pablo Ortellado - Mão pesada contra as crianças

O Globo

Precisamos fazer o balanço crítico de excessos na resposta do Estado brasileiro a ataques a escolas

Uma reportagem publicada na semana passada pelo jornal The New York Times mostrou que, depois de um atentado numa escola no estado americano da Georgia, mais de 700 crianças foram presas por fazer ameaças —inclusive ameaças não críveis, como trotes.

No dia 4 de setembro, um adolescente de 14 anos invadiu uma escola na área metropolitana de Atlanta e atirou em mais de 11 pessoas . Dois estudantes e dois professores foram mortos. O crime chocou os Estados Unidos. Como costuma acontecer nesses casos, o atentado foi seguido de uma explosão de novas ameaças. Devido ao “efeito contágio” — o estímulo a novos ataques gerado por um atentado bem-sucedido —, as autoridades foram obrigadas a levar cada ameaça a sério e a investigá-las.

A reportagem do New York Times mostrou que, nesse esforço investigativo e repressivo, muitos excessos foram cometidos contra crianças que aparentemente apenas passavam trotes. Um menino no estado de Ohio, de apenas 10 anos, enviou uma mensagem pelo Snapchat dizendo que haveria tiroteios em escolas próximas. Foi preso enquanto estava na escola por provocar pânico e ficou num centro de detenção juvenil por dez dias, sem entender o que estava acontecendo. Não foi a única criança presa por passar um trote. As operações policiais nos Estados Unidos levaram à prisão de 700 — 10% delas com menos de 12 anos.

Carlos Alberto Sardenberg - Questão de confiança. Ou de desconfiança

O Globo

A despesa obrigatória consumirá cada vez mais o Orçamento, sobrando menos para investimentos e custeio

Não é propriamente uma questão de fé. Há muitos números envolvidos neste caso. Mas é, certamente, uma questão de confiança. A seguinte: você acha que o governo executará as regras do arcabouço fiscal e alcançará as metas de equilíbrio das contas públicas? Para complicar, não é um caso de sim ou não. Qualquer resposta vem com uma adversativa, para o sim, e um complemento, para o não.

O debate esquentou nesta semana quando a agência de classificação de risco Moody’s, uma das três mais importantes, elevou a nota de crédito do Brasil. E surpreendeu a maioria dos economistas brasileiros.

Nota de crédito mede a capacidade de um país pagar sua dívida pública. Não zerar, é claro, pois nenhum governo consegue fazer isso. Mas é preciso ter capacidade de honrar a dívida regularmente, o que significa pagar em dia as prestações e os juros.

Poesia A que está sempre alegre, de Charles Baudelaire

 

Música | Samba de utopia (Jonathan Silva)

 

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Governo faz bem em bloquear bets irregulares

O Globo

Antecipar suspensão das empresas de apostas que não solicitaram registro ajuda a inibir efeitos nocivos

Foi acertada a decisão do governo de antecipar para este mês o bloqueio de empresas de apostas, ou bets, que não se regularizaram junto à União ou aos estados no prazo estipulado — a suspensão estava prevista apenas para janeiro de 2025. Na quarta-feira, o Ministério da Fazenda divulgou uma lista com 93 empresas legalizadas, responsáveis por 205 bets, além de 18 autorizadas a atuar nos estados. Agora só falta a Anatel tomar as providências técnicas para impedir as irregulares de atuar.

O governo demorou a agir, embora fosse evidente a confusão que reinava no setor. Prova disso é haver bets patrocinadoras de alguns dos maiores clubes de futebol do país e ostentando suas marcas nos uniformes dos times que nem aparecem na lista de empresas legalizadas divulgada pelo governo.

Fernando Abrucio - Debate é a antessala do novo governo

Valor Econômico

Falta de um processo mais amplo de educação política na sociedade, que deve ser prévia aos processos eleitorais

Quem acompanha a eleição na cidade de São Paulo geralmente não tem dúvida de que os debates atuais têm sido os piores de todos os tempos. O nível de violência física e verbal foi inédito. Um dos candidatos, Pablo Marçal, veio para confundir, não para explicar, buscando desmoralizar a democracia. O descrédito da discussão foi ampliado pelo uso recorrente de pegadinhas sobre a trajetória dos candidatos, tentando colocar todos na mesma vala, o que é uma mentira. No fim, faltou responder o principal: como seria o governo de cada um deles? Esta é a pergunta que deveria estar no centro dos debates.

Se a utilidade dos debates pudesse ser definida em poucas palavras, a melhor definição é a produção de informação para definição do voto de acordo com o que se espera do exercício do cargo público em questão. Numa eleição municipal, o debate tem de servir para que os eleitores saibam como deverá ser o governo de cada um dos concorrentes a prefeito. Há outros elementos que podem ser julgados, porém, eles serão secundários frente ao conhecimento da agenda prioritária, das soluções para as políticas públicas e do modo de governar que será adotado.

José de Souza Martins - O que está em jogo nas eleições municipais

Valor Econômico

Em São Paulo, estará em jogo se o Brasil será por longo tempo um país autoritário ou um país democrático

Dentro de dois dias realizam-se as eleições municipais no Brasil inteiro. Em 5.569 municípios serão eleitos prefeitos e vereadores. Embora essas eleições pareçam de importância menor em relação às forças políticas nelas envolvidas, na verdade estará em jogo, no dia 6, o destino político da República, não só o das comunas locais. Em São Paulo, estará em jogo se o Brasil será por longo tempo um país autoritário ou um país democrático.

A esdrúxula propaganda eleitoral de um candidato alude à importância de uma vitória bolsonarista para que Bolsonaro volte ao poder. Uma pessoa envolvida tão claramente nas sucessivas tentativas de golpe de Estado é estandarte da continuidade do golpe violador da Constituição e das leis da ordem política.

Até um bispo e um padre católicos apelaram pelo voto contra o PT para barrar o avanço político do “materialismo histórico e ateu”. Sob o abrigo da liberdade de opinião suspeitam da suposta, descabida e inverídica ameaça de Lula e do PT à religião.

Luiz Carlos Azedo - O Rio não é para principiantes; São Paulo, pode ser

Correio Braziliense

Paes (PSD) disputa a reeleição no Rio com possibilidades de vencer no primeiro turno; Nunes (MDB) corre o risco de ficar fora do segundo turno em São Paulo

Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, mais conhecido pelo nome artístico Tom Jobim, como todos sabem, foi compositor, pianista, violonista, arranjador, flautista e cantor brasileiro, entre os melhores e mais influentes da história de nossa música popular. É o autor de uma das frases mais antológicas sobre as peculiaridades nacionais: “David, o Brasil não é para principiantes”, disse, em meados 1960, ao fotógrafo norte-americano David Zingg, que decidira morar no Brasil. Pura antropologia.

A frase foi adotada como um mantra por todos que procuram explicar alguma coisa que não tem um sentido lógico na vida brasileira, devidamente adaptada para elevar o status profissional de quem a profere: “O Brasil não é para amadores”. Jobim, carioca da Tijuca, e o baiano João Gilberto faziam parte do grupo de músicos, compositores e cantores que criaram a bossa-nova, no apartamento de Nara Leão, então com 15 anos, na Avenida Atlântica, em Copacabana: Sylvia Teles, Roberto Menescal, Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli.

Vera Magalhães - Eleição de SP e o futuro da política

O Globo

Uma vitória sobre dois bolsonaristas na cidade mais importante do país equivaleria a uma chancela ao governo Lula

Muito já se escreveu de prognóstico furado tentando projetar a política nacional a partir de pleitos municipais, que acontecem dois anos antes das disputas presidenciais. Nem é totalmente verdade que as campanhas nas cidades funcionem como plebiscito a respeito da avaliação do governo federal de turno nem o cômputo de prefeituras e assentos em câmaras municipais projetam maiores ou menores chances de partidos e campos político-ideológicos.

Mas se tem uma eleição que agrega esses componentes nacionais mais que as outras, e em 2024 mais que em qualquer ano, é a que acontece na capital paulista.

A centralidade que a disputa paulistana adquiriu se deve, em grande parte, aos eventos bizarros e à figura exótica de Pablo Marçal. Por isso mesmo, a depender da configuração do segundo turno e, depois, do resultado final das urnas, esse fenômeno tem maiores ou menores chances de se expandir para o resto do Brasil, com consequências variáveis para as lideranças políticas até aqui estabelecidas ou que estavam em construção.

Bernardo Mello Franco - Saturnino e a honradez

O Globo

“A política é fascinante, mas a literatura é mais saudável”, disse gestor que dirigia o próprio Fusca e decretou a falência do município em 1988

A três dias da eleição municipal, o Rio perdeu seu primeiro prefeito escolhido nas urnas. Roberto Saturnino Braga morreu ontem aos 93 anos. Era um político à moda antiga, que acreditava no debate de ideias e na convivência civilizada com os adversários.

Saturnino se elegeu deputado em 1962, pelo velho PSB. Depois do golpe militar, entrou na mira da ditadura e foi impedido de concorrer à reeleição. Em 1974, candidatou-se ao Senado pelo MDB. Contrariando as próprias expectativas, venceu com folga e se juntou à linha de frente da oposição ao regime.

Com a redemocratização, filiou-se ao PDT de Leonel Brizola e se elegeu prefeito do Rio em 1985. O mandato foi breve e tumultuado. Ele rompeu com o governador, enfrentou uma crise financeira e teve que decretar a falência da cidade. Conhecido como um gestor honesto, que dirigia o próprio Fusca, deixou o cargo com os servidores em greve, sem receber salários. No Jornal do Brasil, Millôr Fernandes cunhou uma frase que o perseguiria até o fim da vida: “O homem que desmoralizou a honradez”.

Flávia Oliveira - Um canto carioca

O Globo

É lição de solidariedade, política de saúde bem planejada, empenho de servidores públicos

O Rio de Janeiro inteiro, dor e delícia, tragédia e compaixão, coube na saga de dona Maria Elena Gouveia por um fígado. Moradora de Belford Roxo, 69 anos, ela foi diagnosticada com câncer e doença hepática grave. Recebeu indicação para transplante e aguardava, havia três meses, como primeira da fila. A ligação redentora veio na noite de segunda-feira, 30 de setembro. O protocolo exige deslocamento imediato para o hospital.

No caso de dona Maria Elena, a cirurgia seria realizada no Hospital Adventista Silvestre, em Santa Teresa, área central da capital, distante 40 quilômetros do município onde mora, na Baixada Fluminense. A paciente deveria chegar no início da madrugada na unidade de saúde, mas só conseguiu se apresentar depois do amanhecer de terça-feira, 1º de outubro. Uma troca de tiros na região a impediu de sair de casa. Belford Roxo registrou, de janeiro a agosto deste ano, 120 mortes violentas, segundo dados oficiais do Instituto de Segurança Pública (ISP-RJ). No primeiro semestre, o Instituto Fogo Cruzado contou 269 tiroteios na Baixada.

Vinicius Torres Freire – O que querem os homens de Marçal?

Folha de S. Paulo

Candidato faz mais sucesso entre homens, mais jovens e eleitores de renda mais alta

Em uma eleição com diferenças de votos tão pequenas como na disputa pela Prefeitura de São Paulo, é uma temeridade avançar hipóteses sobre o perfil do eleitor dos candidatos. No entanto, há alguns traços notáveis no eleitorado, em particular no de Pablo Marçal (PRTB).

Cerca de 60% de seus eleitores são homens. No caso de Guilherme Boulos (PSOL) e de Ricardo Nunes (MDB), as diferenças de voto entre gêneros é tão pequena e engolida pela margem de erro que não vale a pena fazer a distinção.

Marçal lidera com 31% entre os eleitores de 16 a 24 anos, embora no caso das categorias de idade as margens de erro sejam grandes (Boulos tem 21%, Nunes, 18%). Entre os eleitores de 25 a 59 anos, as diferenças são mínimas. Entre os maiores de 60, idosos, Boulos fica com 34% (Nunes tem 31%, Marçal, 18%). É um sinal destes tempos que um esquerdista tenha mais a preferência de idosos; que uma espécie de liberalismo messiânico agrade a mais jovens.

Bruno Boghossian - Bolsonarismo empurra Marçal contra Nunes

Folha de S. Paulo

Gangorra na direita deixa aberta disputa pelo 2º turno, e nem Boulos pode ficar aliviado

Uma migração de eleitores bolsonaristas deu impulso final à candidatura de Pablo Marçal (PRTB) e se tornou uma ameaça séria para Ricardo Nunes (MDB). A capacidade do influenciador de renovar os apelos aos simpatizantes do ex-presidente será decisiva na disputa por uma vaga no segundo turno.

A batalha por esses votos teve uma mudança significativa, segundo a nova pesquisa do Datafolha. Há uma semana, Marçal e Nunes dividiam praticamente ao meio o eleitorado de Jair Bolsonaro: 43% declaravam voto no influenciador, e 39% no prefeito. Agora, Marçal abriu vantagem, com o apoio de 51%, contra 32% de Nunes.

Ruy Castro - Banana no lugar do voto

Folha de S. Paulo

É o que Ricardo Nunes pode ganhar de seus eleitores vendedores de cachorro-quente

Num dos 150 debates de que participaram nas últimas semanas, Ricardo Nunes acusou Guilherme Boulos de não poder ser prefeito de São Paulo por não ter condições de administrar "nem um carrinho de cachorro-quente". Ao denunciar a suposta incapacidade administrativa de Boulos, Nunes se traiu e revelou sua opinião sobre os carrinhos de cachorro-quente —para ele, a forma mais baixa, desprezível e reles de comércio.

Por que Ricardo Nunes despreza os honestos carrinhos de cachorro-quente? Será que não vê nenhum valor na arte de botar a salsicha para ferver, calcular o ponto exato do cozimento, abrir um pão ao meio, depositar nele a salsicha e escoltá-la com o molho, adrede preparado, de cebola, tomate e pimentão? O que Nunes sabe de picar ingredientes de modo a que adquiram o equilíbrio que irá determinar o seu sabor? E se o cliente também quiser mostarda? Como tratar a salada para harmonizá-la com a mostarda e a meiga textura da salsicha?

Eliane Cantanhêde - Uma eleição, muitas emoções

O Estado de S. Paulo

Sustos, surpresas e curiosidades até a reta final numa eleição que favorece a direita

A eleição de 2024 é uma das mais eletrizantes, e não mais pela insistência do empate triplo em São Paulo, mas também pela reviravolta em Belo Horizonte e as surpresas no Rio na última hora. Os partidos da direita e do Centrão parecem levar a melhor, a esquerda patina e o PT, particularmente, não está bem na foto.

Dos 5.569 municípios, 103 têm mais de 200 mil habitantes, entre eles, 26 capitais. Na grande maioria, as eleições se encerram no primeiro turno deste domingo, mas nessas 103 há possibilidade de segundo turno, caso nenhum candidato obtenha 50% ou mais dos votos válidos, excluídos os nulos e brancos.

Bruno Carazza- Disputa municipal será prévia para 2026?

Valor Econômico

Apesar de evidências de influência sobre pleito seguinte, não é bom partidos contarem com isso

Eleições municipais são bons preditores do resultado para as eleições federais dali a dois anos, revelam os estudos empíricos. E é nessa máxima que se fiam deputados federais e senadores, a ponto de suspenderem por meses o seu trabalho no Congresso Nacional para se dedicarem a pedir voto para aliados que disputam prefeituras e vagas nas Câmaras municipais de todo o país.

Existem muitos caminhos pelos quais a política local afeta a nacional (e vice-versa). Carreiras políticas, alianças, cabos eleitorais, estruturas partidárias, descentralização de recursos orçamentários, execução de políticas e obras públicas, distribuição dos fundos partidário e eleitoral, preferências do eleitorado - essas são apenas algumas das armas do arsenal à disposição de partidos e candidatos para turbinar campanhas no plano municipal, estadual e federal.

A visão de que eleições não são fatos isolados, mas se enquadram numa disputa contínua por poder, em rodadas sucessivas que se alternam com novos ou velhos jogadores a cada dois anos, é comprovada por diversas pesquisas acadêmicas aplicadas. Em 2012, por exemplo, George Avelino, Ciro Biderman e Leonardo Barone demonstraram que a eleição de prefeitos em 2008 teve um forte efeito sobre os resultados no pleito estadual de 2010, indicando que uma boa base municipal traz benefícios para seus partidos nas eleições posteriores.

Andrea Jubé - Para Siqueira, voto útil dificulta apoio de Tabata

Valor Econômico

Para presidente do PSB, esquerda deveria ir para o divã após 2º turno

Atuando na política há quatro décadas, com 35 deles filiado ao Partido Socialista Brasileiro (PSB), o presidente da legenda, Carlos Siqueira, é um observador experiente da cena política nacional. Neste ano, ele completou dez anos na presidência do PSB, função que assumiu após a morte trágica de Eduardo Campos na campanha de 2014. Ele recebeu a coluna para uma conversa na sede do PSB nessa quinta-feira, a três dias das eleições.

Siqueira já se acostumou aos apelos dos candidatos nos últimos dias pré-eleição por mais recursos para a campanha. Quando ouve a reclamação de que o adversário gastará o dobro ou o triplo na campanha, ele responde ter convicção de que o postulante do PSB vencerá o adversário mesmo com menos dinheiro, e porque é mais preparado para o cargo.

Maria Cristina Fernandes - Disputa põe em xeque as bases dos pivôs da polarização e turbina a de seus avalistas

Valor Econômico

Marçal ofusca bolsonarismo e fortalecimento do Centrão pode ameaçar governabilidade de Lula

O avanço da metade à direita do espectro partidário sobre as bases municipais do país é um resultado fora da margem de erro. Convém aguardar o que dizem as urnas de domingo para dimensioná-lo, mas é possível esquadrinhar os caminhos que levam a este desfecho e a viela estreita para que dele se depreendam causa e efeito.

A primeira evidência é que as bases locais da política são tradicionalmente mais conservadoras e a eleição municipal favorece largamente o incumbente. A segunda é a proporção de candidatos lançados por partidos à direita. O PL de Jair Bolsonaro e Valdemar Costa Neto lidera entre as legendas que mais ampliaram o número de candidatos, tirando o Novo, cujo crescimento estratosférico (ver tabela) se deve à pequenez de 2020, agora refastelada, pela primeira vez, no fundo partidário.

César Felício - Disputa mostra avanço da direita, força do Centrão e tendência à continuidade

Valor Econômico

Quatro partidos despontam como predominantes no cenário nacional - União, PSD, PP e MDB

A eleição municipal deste ano, a se confirmarem os resultados das pesquisas, tende a ter três eixos: o avanço eleitoral da direita, a tendência forte à reeleição e o predomínio de quatro partidos no balanço partidário: União Brasil, PSD, PP e MDB. A força da direita se mede nas capitais e em grandes cidades, em especial naquelas em que o atual prefeito é politicamente frágil e com baixa avaliação de gestão no período da pré-campanha.

O avanço de candidatos mais à direita fica claro em capitais como São Paulo, Belo Horizonte e Fortaleza. As duas primeiras são governadas por vices que assumiram ou por morte do titular ou por renúncia. Nem Ricardo Nunes (MDB), em São Paulo, e nem Fuad Noman (PSD), na capital mineira, tinham experiência prévia em disputas majoritárias ou expressão política. No caso de José Sarto (PDT), em Fortaleza, o problema, além da gestão mal avaliada, foi o enfraquecimento de seu partido, com a ruptura dentro do grupo que era liderado pelo ex-governador Ciro Gomes.

Isso catapultou para os primeiros lugares Bruno Engler (PL) na capital mineira e André Fernandes na cearense e abriu espaço para Pablo Marçal (PRTB) ser tão bem-sucedido em São Paulo. Na pesquisa Datafolha divulgada ontem, Nunes e Marçal aparecem com 24%, empatados tecnicamente com Guilherme Boulos (Psol), que tem 26%. Em Belo Horizonte, a liderança de Engler é compartilhada com Mauro Tramonte (Republicanos) e Noman em um inédito empate triplo, com 21%.

Marco Aurélio Nogueira* - Agressões gratuitas e uma promessa emergente

Campanha eleitoral em São Paulo deixou a cidade de lado, em que pesem os esforços de Tabata Amaral

O que esperar de uma eleição como a da cidade de São Paulo em 2024? Ela chega aos dias finais com três candidatos enrolados entre si na ponta das pesquisas de intenção de votos. Correndo por fora, a candidata mais promissora.

Os ponteiros não são iguais entre si, mas pecam por características equivalentes. O deles, o fanfarrão, não interage com ninguém, é contra o centro e a esquerda, despreza a democracia e tem muito pouca coisa na cabeça. Concorre basicamente para perturbar a disputa e se cacifar ou para voos políticos mais altos, ou para alavancar seus negócios particulares.

Ricardo Nunes, prefeito atual, quer se mostrar um executor de obras pragmático, como cabe a um incumbente quando disputa a reeleição. Sua característica complicadora é que, sendo de centro, não consegue dialogar com a esquerda, campo com o qual tem relações atormentadas. Tem o apoio discreto de Bolsonaro, que, no entanto, não conseguiu manter sua tropa unida e pesa pouco na disputa.

Poesia | Se as minhas mãos pudessem desfolhar, de Federico García Lorca

 

Música | Chico Buarque - Conversa de Botequim (Noel Rosa)

 

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

O que a mídia pensa / Editoriais / Opiniões

Melhor nota de risco não é motivo para complacência

O Globo

Agência Moody’s colocou Brasil a um passo do grau de investimento, mas incerteza fiscal persiste

Não surpreende a comemoração do governo com a decisão da agência de classificação de risco Moody’s de elevar a nota do risco soberano do Brasil para o nível imediatamente abaixo ao de bom pagador, ou grau de investimento. Há apenas cinco meses, a agência alterara a perspectiva brasileira para positiva, mas não era esperado novo anúncio tão cedo. Há motivo para celebração, mas também para cautela, devido à incerteza fiscal.

Na explicação para a decisão, a Moody’s destaca o desempenho acima das expectativas. Pelos seus cálculos, o PIB crescerá 2,5% neste ano. Alicerçado nas reformas dos últimos anos, o patamar deverá continuar alto, diz a agência. É fato que as mudanças nas leis trabalhistas no governo Michel Temer melhoraram o ambiente de negócios. A independência do Banco Central na gestão Jair Bolsonaro pavimentou o caminho para uma política monetária confiável. E a nova arquitetura tributária, proposta no atual mandato de Luiz Inácio Lula da Silva e em via de ser regulamentada no Congresso, deverá elevar o potencial de crescimento da economia. Mas não foi só isso.

Maria Hermínia Tavares - A Venezuela não é aqui

Folha de S. Paulo

Nada autoriza afirmar que haja falta de compromisso de Lula e do PT com a democracia no Brasil

Nos oito anos em que exerceu a Presidência, Fernando Henrique Cardoso nunca foi criticado por manter relações cordiais com seu homólogo venezuelano Hugo Chávez. FHC gosta de contar episódios jocosos que demonstram que os dois mandatários se davam muito bem, para além dos protocolos exigidos pelos cargos que ocupavam —mesmo que já então não fosse difícil prever para onde o populismo chavista conduziria Caracas.

A diplomacia presidencial de Cardoso seguia pelos trilhos tradicionais da política exterior brasileira para a América do Sul: boas relações com os vizinhos; não interferência nos assuntos internos de cada qual; busca de convergências sobre questões regionais. Isso não impedia que o ocupante do Planalto tivesse presença internacional ativa, projetando o país como uma grande nação democrática e abrindo caminho para o pleito brasileiro por reconhecimento internacional.

Merval Pereira - O fator Marçal

O Globo

Vencendo a eleição, Marçal passará a ser o candidato da direita à Presidência da República, queira Bolsonaro ou não

A eleição para a Prefeitura de São Paulo está tão estranha que uma eventual ida do candidato Pablo Marçal ao segundo turno poderá abrir “as portas do inferno” no campo da direita. Se for contra o psolista Guilherme Boulos, deverá unir a direita e colocar em situação delicada tanto o ex-presidente Jair Bolsonaro quanto o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, principal apoiador do prefeito Ricardo Nunes.

Vencendo a eleição, Marçal passará a ser o candidato da direita à Presidência da República, queira Bolsonaro ou não. A estratégia do ex-presidente — jogar até o último momento com a esperança de que possa vir a ser absolvido pela Justiça para concorrer à Presidência, como fez Lula em 2018 — irá por água abaixo. A direita já terá seu candidato, que, para chegar à Prefeitura paulistana, terá convencido a maioria dos direitistas de que hoje é ele quem pode derrotar Lula e o PT, não mais Bolsonaro.

Malu Gaspar - Procurando Lula

O Globo

Nesta reta final das eleições municipais, com disputas indefinidas e emboladas em capitais cruciais como São PauloBelo Horizonte e Fortaleza, não foram poucos os candidatos de partidos de esquerda que batalharam por um vídeo, fala de apoio ou pela presença de Lula num evento de campanha. O presidente da República, porém, frustrou quase todo mundo.

Nas últimas duas semanas, emendou uma viagem internacional atrás da outra e passou mais tempo entre Estados Unidos e México do que no Brasil. Também não deu nenhuma declaração sobre as eleições e foi obrigado a cancelar a live que faria com Guilherme Boulos (PSOL) na noite de ontem por causa da emergência com o avião que o trazia do México.

O resultado é que a única participação de Lula neste sprint final da campanha antes do primeiro turno será um ato com Boulos na Avenida Paulista, no sábado.

Bruno Boghossian - As eleições do crime, do caixa dois e da porrada

Folha de S. Paulo

Ameaça da inteligência artificial não é nada perto da barbárie medieval das disputas municipais

Aconteceu em Alagoas. Uma semana antes do primeiro turno, um juiz eleitoral mandou suspender a campanha no município de Taquarana. Ele relatou "agressividade exagerada", "denúncias de perseguições" e "uso de arma de fogo" na disputa. Proibiu carreatas, passeatas e comícios. Pediu o reforço de tropas federais e determinou: ninguém poderá comemorar o resultado da votação em locais públicos.

Nos gabinetes da Justiça Eleitoral, muita gente acreditou que a inteligência artificial seria o maior desafio desta campanha. Mas uma boa parte da política do país está mais próxima de tempos medievais do que de qualquer revolução tecnológica.

Míriam Leitão - Barões da energia e a nossa conta

O Globo

O governo tem errado no setor de energia em decisões que podem favorecer grupos privados e elevando a conta para o consumidor

Na energia o governo tem errado muito. Erros que podem aumentar a conta de luz no futuro. Esse setor é um campo minado de interesses privados e tem um único pagador de todas as promessas: o consumidor. Todo o cuidado é pouco. Decisões erradas do governo têm riscos e custos. Entrar em briga para que a Aneel aceite o acordo das térmicas e da Amazonas Energia é mandar o consumidor pagar R$ 8 bilhões a mais do que pagaria para viabilizar um negócio que só favorece o J&F, dos notórios Joesley Batista e Wesley Batista.

Vinicius Torres Freire - Lula 3 tira nota boa na prova

Folha de S. Paulo

Governo ri do mercado, mas Moody's elogia reformas e pede contenção de gasto social

Uma dessas firmas que dão nota para o crédito de governos e empresas concedeu um ponto positivo para a nota da dívida pública do Brasil, como se sabe. Se ganhar mais um ponto dessa firma, da Moody’s, o empréstimo de dinheiro para o governo federal deixa de ser "especulativo" para ser "investimento".

Parte de Lula 3 ficou contente com o mimo; alguns lulistas, petistas e esquerdistas também, além de tripudiarem sobre "o mercado". Os donos do dinheiro, credores do governo, obviamente discordam da Moody’s, pois as taxas de juros aumentaram horrores desde abril deste ano.

A fim de ganhar outro ponto e ser promovido de categoria, o governo teria de melhorar a "credibilidade da situação fiscal", ainda "limitada". Isto é, seria preciso conter gastos obrigatórios, tais como os de Previdência, saúde e educação.

Eugênio Bucci - É hora de acabar com a publicidade das ‘bets’

O Estado de S. Paulo

Não há como livrar as pessoas da compulsão de apostar, mas, na publicidade abusiva, ao menos nela, a gente ainda consegue dar um jeito

As casas de apostas online estão ganhando todas. O Brasil se entregou: transformou suas crianças, seus adolescentes e seus jovens em cacife de jogatina e os deu de presente para os cybercrupiês, os barões das “bets”. Não é o governo que se perdeu sozinho, não é o Legislativo que ficou sem fichas, não é o Judiciário que dormiu no ponto, não é a sociedade que se deixou engrupir – todos juntos erraram e seguem errando. A essa altura, o País inteiro já percebeu o estrago e se pergunta: existe como desfazer a besteira que foi feita?

As medidas que abriram caminho para os cassinos virtuais vieram aos poucos, em ondas sub-reptícias. Os passos se sucederam num minueto entre a gatunagem e a inépcia, até que de repente ficou explícito: a roleta digital engoliu a Nação, numa calamidade de saúde pública polvilhada com lavagem de dinheiro a céu aberto. Alguns dos parlamentares que votaram a favor de benesses agora se declaram arrependidos. Acredite se quiser. O quadro é ruim, tão feio que faz o velho jogo do bicho parecer passatempo de coroinha – santa fezinha.