terça-feira, 7 de abril de 2009

PENSAMENTO DO DIA

Encontramos na resolução petista a seguinte afirmação: "Os neoliberais que nos antecederam no governo do Brasil, que ainda governam Estados brasileiros e cidades muito importantes, que têm forte presença no Congresso Nacional (...)". Ora, ora, ora, se não são os vícios de uma esquerda de pensamento antidemocrático se manifestando na expressão "ainda".Como se as conquistas do recente processo de democratização do país -o pluripartidarismo e a convivência de vários partidos no comando de Estados e municípios- fossem uma excrescência, e não a normalidade da vida democrática, e como se ao governo Lula se opusesse apenas uma corrente do pensamento político nacional."

(Alberto Goldman, vice-governador de S. Paulo, em artigo na Folha de S. Paulo, domingo, comentando a Resolução política da Direção Nacional do PT)

Danças regionais

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


A reunião de ontem da Sudene foi uma amostra perfeita do jogo regional em que se transformam as eleições no Brasil. O governador de Minas, Aécio Neves, pretendia que a reunião com os governadores do Nordeste fosse uma oportunidade para evidenciar seus laços com a região. Lula levou para a festa de Aécio sua candidata, Dilma Rousseff, que redescobriu recentemente as vantagens de ser mineira de nascimento. Foi o bastante para o locutor da solenidade dizer que o próximo presidente da República, tudo indica, sairá de Minas. Dilma já havia sido apresentada à região recentemente pelo presidente Lula, que, num comício em Salgueiro, Pernambuco, lhe ensinou: “Dilma, se você olhar na cara dessa gente, vai perceber que o sertanejo é diferente do povo de outros estados”.

Aécio quer demonstrar aos nordestinos que tem melhores condições de entender seus problemas do que o governador de São Paulo, José Serra, já que Minas tem uma região incluída no Nordeste, enquanto o subtexto da candidatura de Aécio acusa os paulistas de dominarem o país, crescendo às custas das outras regiões.

A estratégia de Aécio corresponde ao que o presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, descobriu por experiência própria: Minas é o reflexo do Brasil. Tem sua parte nordestina na região do Vale do Jequitinhonha, e por isso faz parte da Sudene; ao mesmo tempo, é a segunda economia do país (disputando com o Rio), com uma região fortemente industrializada, grande influência paulista na divisa com São Paulo; Juiz de Fora é muito ligada ao Rio de Janeiro; e o estado tem no agronegócio uma parte influente de sua economia.

Se o resultado do primeiro turno na eleição de 2006 no país repetisse o de Minas, aliás, Lula teria vencido no primeiro turno: teve 50,80% (48,6% no país), contra 40,6% (41,6% no país), o que é um indicativo de que o governador Aécio Neves pode decidir a eleição.

Os governadores do Nordeste, hoje, são na maioria esmagadora da base aliada do governo: os petistas Jaques Wagner (BA), Marcelo Déda (SE) e Wellington Dias (PI); os do PSB Eduardo Campos (PE), Wilma Faria (RN) e Cid Gomes (CE); e os peemedebistas do Espírito Santo, Paulo Hartung, e da Paraíba, José Maranhão, além do pedetista Jackson Lago (MA).

Desses, apenas Hartung pode ser considerado um potencial dissidente, com ligações fortes com os líderes do PSDB, partido do qual é oriundo, especialmente os governadores de Minas, Aécio Neves, e de São Paulo, José Serra.

O pedetista Jackson Lago, devido às disputas com o grupo do senador José Sarney no Maranhão, pode ser uma dissidência regional da visão nacional do partido, que tende a apoiar a candidatura oficial do governo.

Mas não tem muito espaço entre os tucanos, pois substituiu o governador Cássio Cunha Lima, cassado por abuso de poder econômico.

Aécio Neves tem também uma base bastante forte no PSB, partido que poderia apoiar sua candidatura caso ela prevalecesse no PSDB.

Mas o apoio de Ciro Gomes, em vez de fortalecê-lo no PSDB, enfraquece.

Os problemas regionais entre o PT e o PMDB para a montagem de palanques regionais podem facilitar a composição com os tucanos de uma parte expressiva do PMDB.

O Palácio do Planalto considera que estados como São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Pernambuco e Mato Grosso do Sul são refratários a uma união com o PT, sendo o caso de São Paulo o mais delicado, e não apenas pela importância de ser o maior colégio eleitoral do país, dominado pelos tucanos e democratas.

A delicadeza da posição de seu presidente nacional, o deputado Michel Temer, é um ponto sensível nas negociações.

Ele foi o último na lista de deputados eleitos pelo PMDB no estado, e depende de um bom entendimento com o presidente regional, Orestes Quércia, para se reeleger.

Por isso, estaria interessado em ser o representante do partido na chapa oficial, como vice. Mas o PMDB do Senado, que sempre foi o fiel da balança no apoio ao governo, não gosta da ideia de que o partido na Câmara, que sempre foi mais identificado com os tucanos, ganhe tal relevância.

O caso do PMDB da Bahia é outro difícil de ser resolvido, pois o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, tem uma relação desgastada com o governador Jaques Wagner e o PT baiano, embora tenha uma relação pessoal boa com o presidente Lula.

Ta m b é m em M i n a s o PMDB tem dificuldades, pois o ministro das Comunicações, Hélio Costa, lidera as pesquisas, mas o PT tem dois fortes candidatos ao governo, o ex-prefeito Fernando Pimentel e o ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias. Mas aí o espaço para acordos é reduzido, pois o governador Aécio quer fazer de seu supersecretário, Antonio Anastasia, o sucessor.

Até no Rio de Janeiro, onde o governador Sérgio Cabral é um dos principais aliados do governo federal, o PT coloca obstáculos, com o prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias, querendo disputar o governo. O mais provável, porém, é que Lindberg seja obrigado a desistir pela direção nacional.

Também no Pará a governadora petista Ana Julia Carepa não está se entendendo com o peemedebista Jader Barbalho, que quer se candidatar ao Senado.

Todas essas potenciais dissidências já estão sendo exploradas pelo governador de São Paulo, José Serra, que estaria se utilizando de um interlocutor especial dentro do partido, o presidente regional em São Paulo, Orestes Quércia, outro sinal de como o jogo de forças da política brasileira não respeita ideologias nem programas partidários.

Em contrapartida, também o governador Aécio Neves se aproxima do Democratas, partido que até recentemente desdenhava nas composições políticas que poderiam levá-lo à candidatura. Essa “dança das cadeiras” ainda está longe de terminar.

Na rota das bandeiras

Raymundo Costa
DEU NO VALOR ECONÔMICO


Há um discurso subjacente nas discussões sobre a sucessão presidencial que ameaça contaminar a campanha de 2010, se o candidato do PSDB for José Serra: o de que São Paulo está há 16 anos no poder, é hora de mudar e de acabar com a hegemonia paulista. Êsse discurso ganhou contornos mais fortes com a nota publicada ontem, nos jornais, por associações empresariais do Espírito Santo intitulada "Em Defesa do Pacto Federativo".

Em resumo, reclama da perda de receitas para São Paulo: até agora, importações feitas por empresas paulistas por meio dos portos capixabas recolhiam o ICMS no Espírito Santo. A Decisão Normativa nº 3 da Secretaria de Fazenda de São Paulo mudou esse status quo e o tributo passou a ser cobrado pelo fisco de São Paulo. Antes de oficializar a medida, a secretaria já autuava empresas que recolhiam aos cofres capixabas o tributo referente às importações na "modalidade por conta e ordem".

"Precisamos, sim, restaurar o espírito de Pacto Federativo, sob pena de criarmos um ambiente de desestruturação do Brasil", diz a nota, antes de enviar um recado com o endereço do Palácio dos Bandeirantes como destinatário: "É preciso que o governador de São Paulo mantenha-se atento aos compromissos políticos com a União".

O senador capixava Renato Casagrande (PSB) é mais explícito: "Esse é um comportamento que desequilibra a federação e traz um componente de complexidade política para o José Serra", diz. "A responsabilidade acaba caindo sobre o governador". Segundo Casagrande, medidas como a Decisão Normativa nº 3 são reveladoras de que a visão de quem está no Bandeirantes é a de que "o Brasil termina na divisa de São Paulo".

O discurso antipaulista estava subjacente até poucos dias atrás, quando o governador Aécio Neves, de Minas Gerais, tratou de lhe dar cores mais fortes ao convocar Serra a sair em sua companhia pelo Brasil: "Não se constrói um projeto para o país a partir de alguns gabinetes da avenida Paulista", declarou então o tucano, que disputa com Serra a indicação do partido para concorrer ao lugar de Lula, na eleição de 2010.

Em 2002, quando Serra disputou o cargo, esse discurso apareceu no Norte e no Nordeste. O senador Antonio Carlos Magalhães, morto em 2007, dizia que o paulista não gostava dos nordestinos - "um discurso oligarca", segundo um dos mais fiéis aliados de Serra, o baiano Jutahy Junior (PSDB). No Norte, Serra ainda hoje tem problemas com o Amazonas, por causa de posições assumidas na Assembleia Nacional Constituinte em relação à Zona Franca de Manaus.

Em conversas recentes sobre 2010, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifestou a interlocutores que compartilha da impressão segundo a qual José Serra, por ser um candidato muito identificado com São Paulo, terá problemas na eleição a partir do momento em que for explicitada "a veia paulista" do governador (em contrapartida Lula já ouviu que em São Paulo há um antilulismo e um antipetismo de enlouquecer).

A questão capixaba já envolveu até o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, acionado por seu ex-ministro Guilherme Dias, hoje secretário do governo do Espírito Santo, a mediar o contencioso com Serra. O argumento é que, devido à crise, o momento é ruim para todos, tanto que todos estão abrindo mão de IPI para manter o emprego na indústria de São Paulo. O ICMS sobre as importações por conta e ordem representa 26% do PIB do Espírito Santo, um dos Estados que mais cresceram nos últimos anos.

O deputado Arnaldo Madeira (PSDB) reage com bom humor toda vez que ouve falar sobre os "16 anos de São Paulo no poder", o que, aliás, é recorrente. Costuma responder que um era carioca (FHC) e o outro é pernambucano (Lula) e que há mais de 100 anos não há um presidente de naturalidade paulista. O último foi Rodrigues Alves (1902-1906) - Washington Luís era de Macaé (RJ), Jânio Quadros, de Campo Grande (MS), FHC é do Rio de Janeiro e Lula, de Garanhuns (PE).

É uma relação que também pode ser feita com outro viés: nenhum dos últimos presidentes vindos de São Paulo foi eleito com uma plataforma paulista na campanha: Jânio era o arauto da moralidade (vassourinha), FHC foi eleito e reeleito pelo Plano Real e Lula chegou com o esgotamento do poder tucano.

Madeira chama a atenção para um detalhe: embora seja apontado como o mais paulista dos atuais candidatos a presidente, esse filho de imigrantes italianos da Mooca é atualmente o mais nacional dos políticos paulistas, como demonstraria sua passagem pelo Ministério da Saúde, quando deu atenção aos Estados em geral.

O deputado tucano acha que as queixas sobre o poderio paulista são discriminatórias, todos fazem guerra fiscal contra São Paulo e reclamam quando os paulistas reagem, e têm no momento um caráter eleitoral. "Por que ninguém, por exemplo, aceita o princípio democrático de cada homem um voto?", pergunta, numa referência ao fato de o voto de um eleitor do Acre ou de Roraima valer mais que o de um paulista.

Serra parece atento à questão: desde que assumiu o governo paulista já fez acordos tributários com oito Estados brasileiros, independente do partido a que é filiado o governador: Mato Grosso (PR), Mato Grosso do Sul (PMDB), Rio de Janeiro (PMDB), Rio Grande do Sul (PSDB), Ceará (PSB), Alagoas (PSDB), Pernambuco (PSB) e Paraná (PMDB).

O que interessa é que a eleição presidencial de 2010, ao contrário do que deixam antever alguns movimentos preliminares, não se transforme num contencioso entre Estados. Afinal, por mais baixas que tenham sido as campanhas desde 1989, o país sempre saiu delas um pouco melhor.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

Código venal

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Só os privilégios de parlamentares e funcionários do Congresso divulgados desde o início deste ano legislativo já seriam suficientes para produzir um alentado compêndio sobre imposturas das mais variadas naturezas.

Se a essas informações mais recentes acrescentarem-se tantas outras anteriormente conhecidas, as ainda desconhecidas e as que ainda virão ao conhecimento do público, teremos à disposição uma verdadeira enciclopédia com verbetes de A a Z sobre condutas claramente inaceitáveis em qualquer parte, mas aceitas como normais no Poder Legislativo.

A cada nova denúncia, o Parlamento reage alegando que este ou aquele fato, ato ou situação atendem às regras vigentes na corporação. São de uso corrente, incorporadas ao cotidiano da corporação, "perfeitamente legais", regulares, pois.

Caso típico deste código cujas regras não resistem a um exame superficial feito com lupa embaçada é o aluguel de aviões particulares mediante a "troca" das cotas de passagens aéreas pelo pagamento das horas fretadas.

Os senadores acham naturalíssimo tal procedimento. Alegam que o escambo não é ilegal e invocam o testemunho de diretores da Casa para argumentar que tudo é feito dentro da mais completa correção.

Há ofícios comprovando, assinaturas avalizando, tudo na mais perfeita ordem burocrática, dentro, evidentemente, da ordem estabelecida e emoldurada dentro do sistema de regalias vigente naquele ambiente já definido como o melhor dos paraísos.

Ali é normal pagar hora extra nas férias porque assim reza a cartilha dos procedimentos internos. É normal achar que passagem em avião de carreira ou aluguel de jatinho obedecem à mesma concepção de instrumento de trabalho. É normal a existência de conselhos, comissões, diretorias e secretarias de fachada para justificar o pagamento de gratificações à corporação ávida por mais vantagens além daquela já oferecida pelo emprego estável e vitalício.

É normal o acúmulo da função pública e prestação de serviços privados. É normal transferir a passagem do parlamentar para o uso de amigos. É normal um pai "preocupado" entregar à filha um celular público para uso privado no exterior. É normal pagar a conta só depois da descoberta, esconder o valor gasto e dar por encerrado o assunto. É normal maquiar informações de gastos com serviços médicos para esconder o recorde de despesas.

Aqui fora, na vida - esta sim - normal, nem uma só dessas condutas é aceita como natural. Qualquer pessoa que se aproprie do bem de outrem é passível de sanção pelas leis - estas sim - normais que regem a sociedade como um todo.

Mas no Congresso é diferente. Há um código de leis todo próprio, pelo qual o que não é expressamente proibido no manual específico é permitido a partir da convicção de que quem consegue acesso, por concurso, eleição ou indicação, a uma instituição pública, passa a habitar um mundo onde todas as regalias são permitidas, desde que bem sustentadas por um ato normativo.
E um aguçado espírito de selvageria cívica.

Geografia

Em 2010, tudo indica, o critério para a composição de chapas eleitorais vai privilegiar a questão, já demonstra o desejo da cúpula tucana de juntar os governadores de São Paulo e Minas Gerais numa chapa puro-sangue.

A escolha de candidatos a presidente e a vice de um mesmo partido eram até pouco tempo atrás evidência de falta de estratégia, visão sectária ou pura e simples incapacidade de conquistar adesões. O parâmetro pesava menos ou era deixado de lado em nome de outros valores.

Em 1994 Marco Maciel foi vice de Fernando Henrique Cardoso muito mais pela filiação ao PFL do que pela naturalidade nordestina.

Em 2002, José Alencar entrou na chapa de Lula por ser um grande empresário, capaz de ampliar o eleitorado do PT no País todo e não por ter certidão de nascimento e domicílio eleitoral em Minas.

Agora, a cartilha aconselha que se escolham candidatos a vice capazes de mobilizar o eleitorado de determinadas regiões a fim de suprir carências dos titulares de chapa ou reforçar muito suas preferências ao ponto de desequilibrar o jogo do adversário.

Os tucanos acham que, com José Serra de presidente e Aécio Neves na vice, "fecham" o Sudeste e compensam a vantagem de Lula no Nordeste.

Pela mesma razão, Lula procura para Dilma Rousseff um vice de São Paulo. Se for do PMDB tanto melhor, porque "amarra" o partido à chapa oficial e acrescenta muitos minutos ao horário eleitoral de rádio e televisão.

Sondado por Dilma a respeito dias atrás, o presidente da Câmara, Michel Temer, ponderou se não seria mais prudente escolher alguém do Nordeste. Ouviu da ministra que por lá a cobertura está garantida: "Temos o nosso Lula."

É o que pensa também a oposição ao avaliar que não adianta apostar em vice do Nordeste para tirar a diferença.

Marcito

Carlos Heitor Cony
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


RIO DE JANEIRO - "Pendurada a espada, os velhos marechais deveriam recolher-se a particulares limbos de glória, cercados da ternura de suas famílias e do silêncio de seus concidadãos. Pendurada a espada, os velhos marechais deveriam cristalizar-se como estátuas dignas, merecedoras do respeito dos que por elas passam, mas sem perturbar o fluxo de vida que lhes corre nos pés. Ao fim de uma vida árida e dura, o silêncio é o que lhes convém. E à nossa paciência também".

Este é o final da crônica de Marcio Moreira Alves publicada no "Correio da Manhã" de 7 de maio de 1964, em cima do golpe daquele ano. Marcito comentava uma entrevista do marechal Odílio Denys, um dos esteios do poder militar que se instalava no país. Em dezembro de 1968, como deputado federal, faria o discurso que serviria de pretexto para o AI-5.

Já não falava diretamente aos marechais, mas aos cadetes de maneira geral, relembrando de certa forma a greve das mulheres de Atenas que se negavam aos covardes da ocasião.

Quando seu primo, Afonso Arinos, telefonou-me para dar a notícia de sua morte, eu já perdera o prazo de mudar minha crônica de domingo. Gostaria de escrever mais e melhor sobre a amizade que nos uniu, nas redações, nas celas da PE, no dia a dia de uma convivência em que conheci um dos homens mais puros e possuídos no seu amor à justiça.

O golpe de 64 contou com o apoio da sociedade e da mídia. Marcito foi a brilhante exceção que, após uma tarefa profissional em Recife, escreveu a série mais tarde publicada em livro: "Torturas e Torturados".

Foi um divisor de águas. A partir das denúncias de Marcito, ninguém teria o direito de ignorar o que se passava e que aumentou com o tempo e o modo.

O repórter do Brasil

Villas-Bôas Corrêa
Jornalista
DEU NO JORNAL DO BRASIL


A morte do escritor e grande repórter, poliglota, um homem do mundo Marcio Moreira Alves, Marcito, não surpreendeu aos seus amigos que acompanhavam a marcha implacável da doença sem volta. A última vez que estive com ele foi no Hospital Samaritano, onde fui fazer uma radiografia. Internado para o tratamento sem esperança, seus parentes não deixaram dúvidas quanto à sentença, com a provação de meses ou mais de ano de provação.

De lá sai com o desfile na memória das muitas fases do nosso longo relacionamento. Meses antes, estivemos juntos, por acaso, em seminário em hotel de luxo de Angra dos Reis, quando em dupla bem humorada sobre a eterna mixórdia política, não arriscamos previsões sobre a decadência moral do Congresso e que contamina os três poderes.

A cassação do mandato de deputado federal Marcio Moreira Alves, pelo discurso no pequeno expediente, na abertura da sessão de 2 de setembro de 1968, quando defendeu o boicote ao militarismo, com o não comparecimento à parada de 7 de setembro foi o ansiado pretexto do endurecimento da ditadura militar, com a edição do AI-5, o mais radical dos vários desatinos do regime de exceção. Marcito conseguiu escapar da prisão e da tortura viajando para o exterior, em bem articulada manobra com a ajuda de parentes e amigos.

Com o AI-5, redigido pelo ministro Gama e Silva, o mais extremado dos radicais e imposto ao presidente Costa e Silva, a ditadura militar tirou a máscara e entrou no lento desgaste que se arrastaria até o final dos seis anos de mandato do general-presidente João Figueiredo.

O pequeno expediente é o espaço para os recados dos deputados aos seus eleitores. Em geral, comunicações de poucos minutos, nas quais ninguém presta atenção. Tanto que a repercussão do discurso de Marcito chegou aos quartéis muitos dias depois, em cópias mimeografadas encomendadas pelos comandos da linha dura. E se a ditadura é o oposto da democracia, não causa espanto que tenha violado, na atropelada de rédea solta, o princípio da imunidade parlamentar, garantida pela inviolabilidade das opiniões, palavras e atos dos parlamentares.

Depois de muitas voltas, Marcito voltaria ao Congresso, em 1988, para fazer o que mais e melhor sabia: a cobertura política. Após algum tempo de artigos no O Estado de S.Paulo e no Jornal do Brasil, ancorou em O Globo e propôs ao então redator-chefe, Evandro Carlos de Andrade, voltar a fazer reportagens sobre o tema "o Brasil Profundo", percorrendo o país para o levantamento dos gargalos ao seu desenvolvimento. Evandro deu a resposta num desafio: "Nunca li nada que se pareça com isso. Se eu gostar, você fica; se não gostar, volta às crônicas".

Marcito fez reportagens memoráveis, com a garra de grande repórter e o texto de escritor. E sem que soubesse ou que alguém previsse, que estava, como um profeta, antevendo a decadência do Congresso e da reportagem política que agora chega ao fundo do poço enlameado.

LULA E A SEMANA SANTA

FH: 'Com todo o carisma, ganhei dele'

Gilberto Scofield Jr.
DEU EM O GLOBO


Ex-presidente diz não saber se Lula é o político mais popular do mundo

WASHINGTON. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou ontem que “é difícil, mas não impossível” para o PSDB enfrentar o presidente Lula, um cabo eleitoral definido pelo presidente dos EUA, Barack Obama, como o político mais popular do mundo. O ex-presidente falou da disputa no seminário “Drogas e democracia: rumo a um novo paradigma”, realizado pelo instituto de pesquisas políticas Brookings Institution, em Washington.

Perguntado por jornalistas se não era difícil para a oposição disputar o eleitorado com um político tão popular, ainda que não diretamente envolvido na disputa, o ex-presidente foi pouco modesto:


— Difícil é, mas ele foi oposição a mim e eu ganhei. Impossível, não é. — disse. E minimizou os elogios de Obama: — Fiquei contente. Acho bom que o Brasil tenha um político popular. Não sei se corresponde, não sei se é o mais, mas é um dos mais.

Para ele, no PSDB, os governadores José Serra e Aécio Neves têm carisma e simpatia para disputar a Presidência: — O carisma é importante, mas não é a única coisa. Com todo o carisma do presidente Lula, eu ganhei dele no primeiro turno. Duas vezes. Então, depende do momento, das circunstâncias. Não basta o carisma.

É necessário que a pessoa tenha capacidade de sensibilizar o eleitorado.

Segundo ele, Lula errou ao antecipar a campanha para tentar promover a sua candidata, a ministra Dilma Rousseff: — A discussão é prematura. Infelizmente, o presidente Lula provocou o debate da sucessão antes da hora. Tudo o que ele faz, que a ministra Dilma faz, dizem que é eleitoral. Por quê? Porque o debate é antes da hora. Nossos governadores têm que se poupar.

Eles estão trabalhando.

O presidente Lula tem suas razões, porque escolheu uma candidata desconhecida, resolveu forçar um pouco o calendário.

Mas não está na hora ainda.

O presidente de honra do PSDB disse que não poderia afirmar quem entra em que lugar numa possível chapa conjunta, ainda que admita que tanto Serra como Aécio sejam candidatos.

Segundo ele, se os dois não chegarem a um acordo, a decisão será levada para o partido.

Freire diz que PF não vai acuar a oposição

Valéria de Oliveira
DEU NO PORTAL DO PPS

Freire: Lula tenta dividir o país entre ricos e pobres


"Nós sempre fomos perseguidos pela polícia porque éramos comunistas; não vamos agora deixar que nos preguem a pecha de ricos porque nunca fomos", disse o presidente do PPS, Roberto Freire, ao rebater as declarações do diretor da Polícia Federal, Luiz Fernando Corrêa , de que as críticas ao trabalho da PF vêm dos que têm dinheiro. "Agora, com a democracia, não podem mais perseguir comunista, estão querendo dizer que somos ricos! Ora, parem com isso; não entrem no ridículo", reagiu Freire.

Ele o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), estiveram reunidos com o presidente do STJ, César Asfor Rocha, na manhã desta segunda-feira, para falar sobre os excessos cometidos pela PF nas investigações. "Foi uma boa conversa; sentimos que o STJ também tem preocupações sobre ações da PF que ultrapassem o permitido, aquilo que é legal", contou Freire. Para o presidente do PPS, os excessos não ajudam na eficácia das investigações da polícia.

Sem acuar

Freire disse que a oposição não quer acuar a Polícia Federal, como insinuou o diretor da instituição. "O que não pode é qualquer autoridade pensar que acua a oposição; pelo menos o PPS não ficará acuado".

"Essa demagogia de ricos ou brancos de olhos azuis ou pobres precisa acabar. A Justiça tem uma venda nos olhos justamente para não discernir se [o réu] é rico ou pobre, negro ou branco; as autoridades públicas precisam acabar com essa demagogia", declarou o presidente do PPS.

Freire afirmou ainda que o exemplo para que esse comportamento ocorra vem do presidente Lula. "Ele [Luiz Fernando] só está fazendo isso porque tem o exemplo do ‘cara’", disse, ironizando a brincadeira que o presidente Obama fez com Lula.

Lula, na avaliação de Freire, desde o início do governo tem a prática de dividir o país entre ricos e pobres nos seus discursos demagógicos, "o que não ajuda em nada o país". Ao mesmo tempo, afirma o ex-senador, o presidente brasileiro "circula entre banqueiros, nas altas rodas e até mesmo a realeza".

O PPS, frisou Freire, não debita apenas à polícia a responsabilidade por excessos praticados em investigações. "Desde o primeiro momento, distribuímos a responsabilidade com quem tem responsabilidade, ou seja, polícia, Ministério Público, juiz. Criticamos toda e qualquer autoridade que cometeu equívocos e leviandades". Freire garantiu que o partido vai buscar a reparação por excessos "até o fim" e exigir que se investigue a responsabilidade.

LULA E O FEIJÃO


DEU NA GAZETA DO POVO (PR)

LULA: ''Dez vão ter de comer o feijão que era para cinco''

Christiane Samarco e Eduardo Kattah
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Adotando a sempre popular comparação entre governo e família, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem, em Minas Gerais, que a queda na arrecadação se compara à mãe que "colocou o feijão no fogo para cinco pessoas e, de repente, chegam dez". Para um bom entendedor, meia palavra bastava, mas o presidente fez questão de concluir o raciocínio diante de uma plateia de prefeitos e governadores: "Ou seja, todos nós vamos ter de comer a metade do que estava previsto a gente comer".

Depois da comparação, Lula convidou os prefeitos a "apertar o cinto", mas emendou com um discurso otimista sobre a perspectiva de melhora da economia, uma vez que já existiriam "pequenos sinais de recuperação", afirmou. "Vamos sempre trabalhar com a ideia de que nós vamos ter um segundo semestre melhor do que o primeiro, (ou melhor), um segundo trimestre melhor do que o primeiro, e um terceiro melhor do que o segundo". A esperança, acrescentou, é "chegar ao fim do ano com a situação normalizada".

BIODIESEL
O discurso foi feito durante a inauguração da terceira usina de biodiesel da Petrobrás, batizada de Usina de Biodiesel Darcy Ribeiro. Montes Claros também sediou a reunião do Conselho Deliberativo da Sudene. Segundo Lula, o importante "é que cada prefeito, cada governador e cada ministro saiba que reduzindo a receita, (isso obriga) a reduzir a distribuição (de bens e serviços)".

Remoção

Ali Kamel
DEU EM O GLOBO


A gente chega a uma idade em que o passado já é grande o suficiente para que o ceticismo aumente bastante.

Não, não estou deprimido, mas apenas imaginando se algum dia o Rio de Janeiro terá os seus habitantes vivendo condignamente, sem favelas e com um nível mínimo de segurança.

Quando eu era jovem, acreditava que todos os problemas eram devidos à falta de democracia: votando, não seria possível que uma população larga continuasse a viver em locais onde não é possível viver. Mas, então, uma desgraça se abateu sobre nós. Graças a uma visão completamente míope, torta, mas bem-intencionada, consolidou-se a crença de que as favelas seriam urbanizáveis. No primeiro governo do Rio de Janeiro eleito depois do golpe militar, Darcy Ribeiro, por quem nutro uma simpatia enorme, chegou a cunhar a frase que apenas na boca de alguém como ele não se tornava o suprassumo da perversidade: “Favela não é problema; é solução.” Brizola, então, deitou e rolou: em vez de trabalhar por moradias dignas, com subsídios do estado, como seria apropriado a um socialista, optou por uma solução de mercado. Mas de mercado selvagem, sem lei: levantou a proibição que impedia a construção em alvenaria nas favelas, ou, em outras palavras, permitiu que o que era provisório se tornasse permanente. O que os pobres fizeram? Gastaram a poupança deles, que poderia ter sido canalizada para um programa subsidiado de casas populares, em cimento e tijolo para continuar a morar em locais inabitáveis.

O que era crença virou certeza, e todo o espectro político que governou o Rio (cidade e estado) manteve a mesma política: de um lado, os governadores Moreira Franco, Marcello Alencar, Garotinho, Rosinha e, agora, Sérgio Cabral; de outro, os prefeitos Cesar Maia, Luiz Paulo Conde e, agora, Eduardo Paes. Todos, sem exceção, tentando transformar água em vinho, para evitar uma metáfora pior.

Creio que um programa como o Favela Bairro pode funcionar apenas em comunidades planas, grandes ou pequenas, onde o arruamento é possível, onde o acesso fácil pode ser obtido. Mas o programa e seus congêneres se mostraram ineficazes quando se tentou aplicá-los em morros.

Agora mesmo, Cabral, Lula e Paes vão gastar uns poucos milhões para continuar tentando o impossível: tornar dignas favelas como a Rocinha, o Cantagalo, o Alemão. Tudo errado. O dinheiro é pouco se comparado a outras obras. Vão gastar R$ 175 milhões na Rocinha e gastaram R$ 408 milhões no Engenhão, esta é a escala de prioridades de nossos governantes.

Pensem na tal Cidade da Música, de Cesar Maia, que consumiu R$ 550 milhões e ainda é somente osso. O que me angustia enormemente é que a coisa persiste.

O plano do governo para a expansão do metrô, agora, é levá-lo da Praça General Osório, em Ipanema, até a Gávea, para que, algum dia, ele se encontre com a linha que vai até a Barra.

A obra total custará R$ 3 bi e beneficiará 800 mil pessoas. Será isso “a” prioridade? Agora, parece-me que não: seria melhor transformar os trens de subúrbio em metrô de superfície para atender a 3 milhões de pessoas a um custo de R$ 2 bilhões.

O que angustia é que, se tivesse havido um senso de prioridade, o governo não teria de escolher entre essas duas obras, ambas prioritárias.

Como? Os R$ 958 milhões do Engenhão e da Cidade da Música teriam sido suficientes para a compra de 60 trens com ar-condicionado e velozes.

Como já há aprovado no Banco Mundial um financiamento de R$ 506 milhões para a compra de 30 trens, hoje faltariam apenas 68 composições para que as cinco linhas da rede ferroviária do subúrbio (210 quilômetros) fossem completamente transformadas em metrô de superfície. Quando se compara o benefício que o Engenhão e a Cidade da Música trouxeram à cidade com o que seria proporcionado pelo metrô de superfície, dá uma angústia danada. Como mostrou Sérgio Magalhães aqui nesta página, se os subúrbios tivessem um moderno meio de transporte, eles seriam uma área atraente para se morar, estariam muito próximos do Centro e da Zona Sul (em termos de tempo), o que viabilizaria a construção de bairros populares decentes e habitáveis ao longo das linhas do trem.

Quando isso estivesse feito, quando os subúrbios estivessem a poucos minutos das áreas ricas do Rio de Janeiro (como ocorre nas grandes capitais do mundo), a remoção de favelas inviáveis deixaria de ser um palavrão: morros inabitáveis, como Dona Marta, Pavão, Pavãozinho, Cantagalo, Vidigal, parte da Rocinha, parte do Alemão, para citar apenas alguns poucos, poderiam ter as suas populações realocadas em bairros decentes, com transporte bom e barato. Trocariam uma casa dependurada numa ribanceira, cercada por becos impossíveis de ser urbanizados, por bairros populares decentes e de fácil acesso.

Parece sonho? Olhando para o passado, parece mesmo fantasia.

Mas olhando para o futuro, ainda dá para sonhar. Por exemplo, eu dava como certo que ninguém mais no Rio queria ouvir falar em remoção. Mas quando li, na coluna do Ancelmo Gois, que “remoção foi satanizada, mas não deveria”, eu percebi que alguma coisa pode estar mudando. Afinal, o Ancelmo tem sido um dos nossos melhores radares.

"Privilégios exorbitantes"

Yoshiaki Nakano
DEU NO VALOR ECONÔMICO

A verdade dos fatos é que a atual crise financeira teve como causa a excessiva expansão de crédito e liquidez nos Estados Unidos, país emissor de moeda reserva internacional, e com isso desorganizou o sistema internacional de pagamentos. A crença na ideia mítica de mercados autorregulados e eficientes levou à retração dos órgãos de controle e na desregulação do sistema financeiro, particularmente com a criação do chamado sistema bancário paralelo (shadow banking). E este sistema paralelo multiplicou, através de inovações financeiras, o volume e valor de ativos financeiros em escala global desenvolvendo um imenso mecanismo de criação de liquidez (dólar) doméstica e global. A crise agora está destruindo este sistema.

Assim, logicamente a atual crise financeira deveria ser a crise do dólar. Não é à toa que o presidente do Banco do Povo da China publicou um artigo defendendo a criação de uma nova moeda de reserva e pagamentos internacionais com valor estável e oferta controlada por um organismo global, desvinculada do interesse nacional de qualquer país.

Da mesma forma, os Estados Unidos, isoladamente e unilateralmente, não conseguem mais exercer sozinho o seu "poder imperial" e impor, sobre o resto do mundo, suas decisões, como queria o presidente Bush, tanto é que a nova secretária de Estado Hillary Clinton já mudou bastante a forma de abordagem das questões internacionais, pelo menos na retórica. Nem mesmo o G-7, em que os EUA partilham o seu "poder imperial" com outras nações desenvolvidas, têm legitimidade e poder de atuação global. Com a emergência da China e o despertar de outras nações como a Índia, Rússia, Brasil e outros, o G-7 teve que ser expandido para G-20. Assim, a reunião do G-20 na semana passada tem um significado histórico muito importante, pois é o reconhecimento da emergência da China e de outras nações e que, daqui para frente, as questões econômicas internacionais terão que ser partilhadas como um grupo maior de nações.

O presidente Obama anunciou também na reunião do G-20 que o mundo não poderá mais viver da excessiva expansão de consumo americano, isto é, da excessiva expansão de crédito (dólar) traduzido internacionalmente nos seus gigantescos déficits em transações correntes. Com a crise temos uma nova era.

Disse acima que a atual crise financeira é a crise do sistema de criação de dólar. Mas a crise do dólar ainda não se materializou - nem ninguém espera que ele venha ser substituído no curto prazo. É uma questão complexa e para entendê-la é preciso lembrar que o país ou organismo emissor de moeda tem aquilo que de Gaulle chamava de "privilégios exorbitantes", referindo-se aos ganhos de seignorage e outros que os EUA passaram a ter com a imposição do dólar como moeda reserva. Estes "privilégios exorbitantes" não se conseguem gratuitamente e é preciso ter pelo menos dois requisitos fundamentais: desenvolver instituições com credibilidade e confiança e condições materiais para exercício efetivo de poder policial para que, sob sua proteção, todos os participantes do sistema aceitem um pedaço de papel, um registro eletrônico, um passivo ou uma promessa como tendo valor e ser aceito universalmente como meio de pagamento internacional.

Para melhor entender esta questão em jogo vejamos como os EUA passaram a ter "privilégios exorbitantes". Já na Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos eram um país rico com pretensões expansionistas e sua elite dirigente revelava aquilo que se chamou de "presunção imperial". Como grande vitorioso, obtém uma hegemonia política mundial absoluta, e com tropas de ocupação em praticamente todos os países importantes, com exceção de poucos países como a França e Suíça. Logo após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos conseguiram, sem dificuldade, impor o dólar como moeda reserva internacional, inicialmente lastreado em ouro. Não só manteve tropas de ocupação nos países, como espalhou pelos mares do mundo porta-aviões exercendo, de fato, o poder policial global. Tendo a economia mais poderosa e desenvolvida do mundo e, após a Grande Depressão, um sistema bancário forte e eficiente, constituído através de regulação e controle, conseguiu conquistar a credibilidade e confiança no dólar. Tornou-se, a rigor, o centro do império global, arcando inclusive com os custos militares para "manter a paz" e um ambiente "pacífico" para as transações econômicas mundiais.

Com isso, os Estados Unidos além do ganho de seignorage global, passaram a ter outros "privilégios exorbitantes". Passaram a ser os "banqueiros do mundo", com um sistema financeiro com credibilidade e confiança. Seus passivos - ativos detidos pelos estrangeiros - são sempre em dólar, moeda que emite, e rendem uma taxa de juros muito menor do que os ativos que Estados Unidos detém no exterior. Além disso, os ativos detidos pelos estrangeiros nos Estados Unidos são financeiros enquanto que aqueles que detêm no exterior, cerca de 70%, são ativos reais, em moeda local de cada país. Nos últimos 15 anos, este diferencial de rendimento foi de cerca de 3,3%. E como seus passivos são em dólar, qualquer desvalorização desta implica em transferência de riqueza para os Estados Unidos. Com isso, os Estados Unidos tornaram-se os importadores em última instância, com o privilégio de ser o único país do mundo que pode consumir e absorver muito mais do que produz, isto é, ter déficits em transações correntes permanentemente, nem necessariamente ampliar o seu passivo externo líquido. Na condição de uma crise no balanço de pagamentos dos Estados Unidos, com crise do dólar e sua desvalorização, isto significaria prejuízo para os demais países detentores de ativos em dólar.

É por isso que a China começa a dar sinais de inquietação, mas com muita cautela. Mesmo com a crise financeira e excessos que tanto o Fed como o Tesouro estão sendo obrigados a cometer, o dólar continuará reinando. A substituição dos Estados Unidos e a retirada de seus "privilégios exorbitantes" não será tarefa fácil. Menos ainda a construção de uma alternativa. Com a crise do dólar, o que vamos certamente assistir será um período de maior desarmonia com a contestação do poder de enforcement global americano, sob o qual as transações e contratos aconteciam com alguma segurança e garantia.

Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas - FGV/EESP, escreve mensalmente às terças-feiras.

Melhora futura

Panorama Econômico :: Miriam Leitão
DEU EM O GLOBO

A previsão de uma queda de 3% na produção industrial deste ano não é uma notícia tão ruim quanto se imagina. Para fechar neste patamar, o país terá que ter recuperação ao longo do ano, ou uma redução forte da queda. O primeiro trimestre pode terminar com um tombo de 13% a 14% na produção industrial. Portanto, a previsão de -3% embute a expectativa de melhora

Na divulgação de ontem do Boletim Focus, do BC, que inclui previsões de uma centena de bancos e consultorias, a previsão ficou em uma queda de 3,06% na produção industrial no ano.

O Bradesco acha que vai ser de 3,5%. Isso parece uma péssima notícia, mas tem de ser temperada pelo que está acontecendo. Março, na opinião do Bradesco, pode ter terminado com 10% de queda na produção industrial comparado com o mesmo mês do ano passado.

Isso fecharia o trimestre com 13,9% de queda.

Nos dois primeiros meses deste ano a produção industrial caiu 17% na comparação com os mesmos meses de 2008. A produção de carros subiu forte em março e, mesmo assim, termina o trimestre com quase 17% de queda.

Alguns setores sentem a queda mais que outros, alguns estados foram mais atingidos que outros, como mostraram os dados da produção industrial regional divulgados ontem pelo IBGE. Os dois estados que mais caíram no primeiro bimestre foram Minas e Espírito Santo.

Em parte, isso é o que aconteceu com a siderurgia, que sofreu uma devastação neste começo de ano.

— O aço está na base de várias cadeias industriais das manufaturas e de transformação.

Por isso, sente o impacto de forma instantânea — diz José Armando Campos, ex-presidente da ArcelorMittal no Brasil, hoje no conselho do grupo.

O país tem 14 altos-fornos, seis estão desligados. A Usina Siderúrgica de Tubarão, no Espírito Santo, tem três fornos e desligou um; a UsiminasCosipa tem cinco e está com três parados. A GerdauAçominas tem dois e está com um parado, a CSN tem dois e desligou um. Normalmente, o setor trabalha com 85% da capacidade instalada ou mais, só que no primeiro trimestre de 2009 usou apenas 47% da capacidade. Vendeu, no mercado, 48% menos e a exportação caiu 52%. As vendas para a América Latina, que é a região mais importante de destino das exportações brasileiras de aço, foram 76% menores.

— A América Latina é a região mais aberta ao produto exportado pela China.

A Europa identificou subsídio e os Estados Unidos impuseram direitos compensatórios (sobretaxa) ao produto chinês — diz José Armando, preocupado com a ideia do presidente Lula de fazer um comércio bilateral nas moedas nacionais dos dois países, o que facilitaria a capacidade da China de subsidiar o produto que exporta.

José Armando acha que ao longo do ano, na virada entre o segundo e o terceiro trimestre, a situação pode melhorar.

— Este primeiro momento foi de desestocagem. Depois virá a recomposição de estoques e, quando acontecer isso, as nossas vendas melhorarão — diz ele.

O Departamento Econômico do Bradesco registrou, no seu último boletim, que, na verdade, a maioria dos analistas está intrigada com o fato de a queda da demanda não ter sido tão forte assim, o que deveria ter reduzido os estoques.

“Em nossa opinião, a queda acentuada das exportações, desde o último trimestre de 2008, ajuda a explicar essa disparidade.” A demanda interna teve um choque, caiu bastante, mas no começo deste ano já começou a melhorar, o que ainda não afetou a produção industrial, que continua em queda forte. “Apesar de a demanda externa representar apenas 30% da produção brasileira, o comércio exterior sempre ajudou a formar expectativas.” O banco acredita que haverá uma “aceleração considerável nos próximos trimestres”. O banco acha que “essa aceleração será puxada pela demanda doméstica, sustentada pelo crescimento da massa salarial, mas só será viável com a contribuição de alguma retomada das vendas externas daqui para diante”.

Se não houvesse essa recuperação e continuasse no mesmo ritmo de fevereiro, isso produziria uma queda de produção industrial no ano de mais de 13%, o que ninguém está prevendo.

Portanto, a produção industrial será menor que em 2008, mas a queda será reduzida até o fim do ano.

A MB Associados está mais pessimista, acha que a a produção industrial vai cair 4,5% este ano. Mas, para isso, acha que, depois dos 17% de queda no primeiro bimestre, a produção ficará até novembro, em média, 3,4% menor que no mesmo período do ano passado, e em dezembro sobe 10% na comparação com dezembro de 2008, que foi horrível. Aí, termina em 4,5% de queda.

Há quem esteja bem mais pessimista. O CSFB acha que o PIB de 2009, em vez de cair 0,2%, que é a mediana das previsões do Focus, vai cair 2%. De qualquer maneira, os relatórios dos bancos e as conversas com empresários e com analistas mostram que a maioria acredita que o ano melhorará ao longo dos próximos meses. Não se pode dizer que o pior passou, mas é melhor saber que 2009 vai melhorar nos próximos meses, que o contrário.

A crise chega à poupança

Vinicius Torres Freire
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Poupança teve mais depósitos que saques durante estirão do PIB; neste ano, teve primeiro trimestre negativo desde 2006

AS PESSOAS estão tirando mais dinheiro da caderneta de poupança. As pessoas tiraram muito dinheiro dos fundos de investimento em 2008. Em fevereiro, os fundos deram mais sinais de vida. Agora, em, março, voltaram a receber menos aplicações.

Para onde o dinheiro vai? Vira "seguro-desemprego" privado? Paga contas da pequena empresa, que está faturando menos? No ano passado, durante o tumulto da explosão da crise, era comum ouvir em bancos e empresas que pequenos e médios empresários estavam sacando dos fundos a fim de pagar contas.

Sim, como dizem os economistas, trata-se de uma "evidência anedótica", e há pouca pesquisa sobre a vida dos negócios menores. Mas poupança no vermelho não parece um indício de que a vida vai bem.

Caderneta de poupança é preferência nacional. É "pop", é simples e previsível. O comum dos brasileiros não tem informação suficiente para lidar com bancos e seus fundos; alguns dos mais velhos, por sua vez, ficaram escaldados com décadas de maluquices na economia e preferem não arriscar. Aliás, para ser preciso, o comum dos brasileiros não tem dinheiro para poupar, mas passemos.

O que importa aqui é que o saldo da poupança, a diferença entre depósitos e retiradas, foi negativo em março passado. Mesmo com as notícias de que a caderneta se tornou mais atrativa, dada a queda dos juros de mercado (para o aplicador, entenda-se). Pode ser um movimento aleatório. Mas não parece.

Em cada mês de setembro de 2006 a março de 2008, os depósitos superaram os saques (a "captação líquida" foi positiva). Foi o período "no azul" mais longo da poupança desde 1995, o primeiro ano inteiro depois do Plano Real. Foi também o período do estirão do PIB.

Em abril de 2008, foi sacado R$ 1,8 bilhão (para um saldo, no mês anterior, de R$ 242,6 bilhões). Em março de 2008, houvera o primeiro grande remelexo visível da crise, com a quebra do banco de investimentos Bear Stearns e outras notícias assustadoras que tiveram repercussão na mídia de público mais amplo. Mas as pessoas voltaram a depositar e, mesmo em outubro de 2008, depois da explosão da bomba atômica financeira em Wall Street, o saldo negativo foi de apenas R$ 284 milhões.

Neste ano, a poupança ficou no vermelho em janeiro e em março. No ano, a "captação líquida" está negativa em R$ 582 milhões (para um saldo total de R$ 274,7 bilhões). É o primeiro trimestre de captação líquida média no vermelho desde junho de 2006. Não deve ser por acaso.

Nos fundos de investimento mais "pop", a situação parou de piorar. Nos últimos 12 meses, a "captação líquida" ficou no vermelho em R$ 80 bilhões (o patrimônio líquido dos fundos está agora em torno de R$ 1,16 trilhão). No ano, está positiva em R$ 11,2 bilhões. Mas os fundos de renda fixa, os mais "pops", com patrimônio de R$ 343 bilhões, voltaram ao vermelho em março; os DI perdem desde fevereiro. Os fundos de curto prazo captaram muito pouco. A exceção positiva foram os fundos multimercado. Esses quatro tipos de fundo equivalem a mais de 71% do mercado. Mas, para os clientes dos fundos mais "pop", DI, renda fixa e curto prazo, parece estar sobrando, na média, menos dinheiro.

E Nelsinho Baptista disse não

Juca Kfouri
DEU NA CBN


O Grêmio tentou tirar o técnico Nelsinho Baptista do Sport, às vésperas do jogão contra o Palmeiras.

Ouviu um sonoro e surpreendente, para o Grêmio, não.

Sonoro porque Nelsinho fez o que poucos fazem: resolveu cumprir seu contrato com o clube pernambucano.

Surpreendente, para o Grêmio, porque seus cartolas imaginaram que ao oferecer mais dinheiro do que o técnico recebe no Recife, ele iria para Porto Alegre, já que, como o Sport, o time gaúcho também está bem na Libertadores.

Mas Nelsinho Baptista foi eticamente impecável.

Pena que não se possa dizer o mesmo do Grêmio.

Que agora terá de contratar outro treinador, já enfraquecido por saber que não foi a primeira opção.

Campeão brasileiro pelo Corinthians em 1990, campeão da Copa do Brasil pelo Sport no ano passado, campeão japonês, campeão paranaense, duas vezes campeão paulista, campeão goiano, pernambucano, Nelsinho Baptista acaba de conquistar mais um título importante em sua carreira: a de homem de palavra.

Campeões nacionais, no Brasil ou no Japão, e estaduais, existem muitos.

Homens de palavra, no futebol, são cada vez mais raros.

Carinhoso

Pixinguinha/ Braguinha
Com João Gilberto
Vale a pena ver o vídeo

Clique o link abaixo

http://www.youtube.com/watch?v=Pzvrg-vLz94

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1292&portal=

segunda-feira, 6 de abril de 2009

PENSAMENTO DO DIA

“É um dever estar ao lado dos trabalhadores, que pedem respeito aos seus direitos e tem medo de perder seu trabalho. Onde há um trabalhador, um pobre ou um desempregado aí, deve estar um progressista.”

( Dario Franceschini, Secretário-Geral do Partido Democrata italiano, sobre a manifestação de rua, em Roma, convocada pelo movimento sindical, sábado passado, em defesa do emprego, em protesto contra a crise mundial, para quase dois milhões de pessoas.)

Perdendo a batalha da memória

José de Souza Martins*
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO / ALIÁS

A durabilidade da incômoda lembrança do regime militar e do golpe de Estado ocorrido há 45 anos, certamente tem muito a ver com as violações dos direitos humanos e dos direitos políticos dos cidadãos nas prisões arbitrárias, na tortura, nas penas descabidas, nas execuções sumárias, nos banimentos, um legado de feridas incuráveis. Mas tem a ver, também, com um conjunto de fatores intervenientes referidos a conflitividades que não se reduziam ao pretexto do golpe, a de uma ameaça comunista. À medida que o tempo passa, a memória desses fatores e a própria memória de um cotidiano de acomodações autodefensivas em face da violência do regime vão se perdendo. Sobretudo, porque o marco de compreensão que temos do processo histórico brasileiro é redutivo e pobre. Tudo que ultrapassa o bipolarismo de direita e esquerda tem que ser a ele reduzido, senão ficamos confusos e perdidos. Num país em que, historicamente, no Império, eram os conservadores que executavam os projetos dos liberais, não é de estranhar que certas esquerdas façam as vezes da direita e que a direita se proponha a concretizar programas de esquerda. Aqui, tudo parece trocado. Nessa perspectiva pobre e insuficiente, é muito difícil levar em conta a importância que teve nas tensões do regime autoritário o amplo conflito ideológico nos partidos de esquerda; os conflitos entre capitalismos num momento em que o capital se globalizava e se expandia; os conflitos e tensões no interior das diferentes igrejas.

A ditadura militar foi claramente anticatólica, apesar da enorme contribuição que a Igreja Católica dera para a concretização do golpe de Estado com as rumorosas Marchas da Família com Deus pela Liberdade, um clamor de multidões na rua em favor da deposição do presidente Goulart. Tanto a Igreja Católica quanto as igrejas protestantes estavam interiormente divididas, parcelas das próprias hierarquias sensibilizadas pela miséria, pelas injustiças, pela falta de liberdade, pelo colonialismo. Nascia já em meados dos anos cinquenta uma visão moral e religiosa da política, que teria repercussões na África e na América Latina. A Confederação Evangélica do Brasil chegara a lançar um documento sobre “A Responsabilidade Social das Igrejas”, um apelo a que seus fiéis abandonassem o confinamento em que viviam, nas respectivas igrejas, alheias aos sindicatos e à política.

Mesmo naqueles em cuja boca o discurso era radical, a demanda social e política, no fundo era conformista. A demanda de reforma agrária embutia uma demanda de extensão dos direitos trabalhistas ao campo. O que aparecia como luta pelo socialismo, era na verdade uma luta pela superação capitalista do capitalismo retrógrado e colonial. Pouco tempo depois do golpe, veio ao Brasil para uma conferência na Fiesp o subsecretário de Estado americano, Walt Rostow. Sua conferência foi para defender a melhora no nível de renda da população rural pobre para que houvesse uma ampliação significativa do mercado interno, o único modo de incrementar a industrialização do País. Ora, isso não era muito diferente do que as esquerdas haviam defendido antes do golpe. A diferença estava na organização política da mudança e não na mudança pretendida. As esquerdas, com Jango, queriam isso e queriam uma reforma agrária. A ditadura também.

O efeito do golpe foi o de reorientar o curso da história do Brasil. Impôs a opção por um modelo de capitalismo diverso daquele do nacional-desenvolvimentismo, um capitalismo dominado pelo mercado e não pela política. Fechou as portas de um desenvolvimento nacionalista voltado para dentro. A tranca foi prender, confinar, expulsar, banir, matar. É nas entrelinhas das histórias das vítimas dessa opção que podemos ver e compreender o Brasil vencido. Mas foi nele e não no passado que surgiram as bases sociais do que veio a ser a redemocratização. Quase como um símbolo desse truncamento, lembro da figura do General Euryale de Jesus Zerbini que tentou levantar sua guarnição no Vale do Paraíba, nas horas do golpe, para marchar sobre o Rio de Janeiro e fechar o caminho aos golpistas insurretos que vinham de Minas Gerais para consumar a deposição de Goulart. Zerbini foi preso, reformado e privado de seu destino. Exilou-se na Faculdade de Filosofia da USP onde foi fazer o curso de Filosofia. Lembro dele com cadernos e livros nas mãos, sentado numa das cadeiras do corredor, a cabeça branca, esperando o início das aulas da tarde. A maioria daqueles jovens não sabia quem ele era.

Seria imensa deturpação se a memória dos anos cinzentos do regime militar ficasse circunscrita a simplificações ingênuas, esquemáticas e redutivas e nos levasse a exaltar a exceção para esquecer o rotineiro, sofrido e difícil. A busca de heróis a qualquer preço, nesse caso em particular, deixa de lado que houve um exílio interno, dos muitos que nas universidades, nas igrejas e nas fábricas permaneceram tecendo no dia a dia a preservação de valores democráticos, o ideal da justiça social e das transformações sociais e políticas, da luta miúda e surda travada nas salas de aula, à vista de espiões e delatores, nos salões de paróquia, nas privadas e pátios de fábrica em que se sussurrava as mensagens da resistência possível e necessária, em que se forjava a consciência cotidiana das contradições e das injustiças, em que um brasileiro dizia e outro brasileiro escutava.

Estamos perdendo a batalha da memória cotidiana do período ditatorial, um cotidiano alterado pela necessidade da vigilância permanente, da desconfiança e do medo. Ela está sendo perdida para o novo oficialismo, que reconta a história contemporânea do Brasil seletivamente, desinteressado em relação ao fato de que a redemocratização foi ganha na retaguarda e não na vanguarda apenas. Foi ganha nos insistentes e persistentes movimentos sociais que se multiplicaram e expressaram a resistência mais do povo ao autoritarismo, não raro muito longe das fragmentadas ideologias de compreensão circunscrita aos iniciados.

*José de Souza Martins, Sociólogo, Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, é autor de Retratos do Silêncio, Coleção “Artistas da USP”, Editora da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008; Reforma Agrária: o Impossível Diálogo, Edusp – Editora da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2000; Exclusão Social e a Nova Desigualdade, Editora Paulus, São Paulo, 2007; Sociologia da Fotografia e da Imagem (Editora Contexto, 2008); A Sociedade Vista do Abismo (Novos estudos sobre exclusão, pobreza e classes sociais), Editora Vozes, Petrópolis, 2008; A Sociabilidade do Homem Simples (2ª edição revista e ampliada, Contexto, 2008); A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34, 2008.

Crise ameaça hegemonia do PMDB

Raymundo Costa e Raquel Ulhôa, de Brasília
DEU NO VALOR ECONÔMICO

Há dois meses no comando do Legislativo, o PMDB atravessa uma crise que ameaça paralisar o Congresso e o bom desempenho do partido nas eleições de 2010. A crise é mais grave no Senado, onde o presidente José Sarney (AP), precocemente enfraquecido, não consegue dar uma resposta definitiva às denúncias que minam a autoridades dos senadores e põem em xeque o modelo patrimonialista de gestão do Parlamento. A sucessão presidencial e nos Estados alimentam um racha que pode desestabilizar de vez a já minguada maioria do governo Luiz Inácio Lula da Silva no Senado.

Em fevereiro, o PMDB conquistou a hegemonia no comando do Congresso, depois de sair também como o grande vitorioso das eleições municipais de 2008. Na Câmara, um acordo com o PT levou à eleição tranquila do deputado Michel Temer (SP) para a presidência. No Senado, o PT se juntou ao PSDB contra a candidatura de Sarney. O pemedebista venceu, mas a eleição deixou sequelas. Nem bem sentou-se na cadeira, Sarney teve de abrir mão de um antigo colaborador: Agaciel Maia, ex-diretor-geral do Senado e dono de uma cinematográfica mansão no Lago Sul, um bairro nobre de Brasília, que não registrara em seu nome.

Daí até a revelação de que o Senado abrigava 181 diretorias, inclusive uma de garagem, foi um passo. A burocracia, fiel a Agaciel e aos próprios privilégios, sentiu-se atacada. Também os derrotados na eleição que Sarney venceu não aceitaram o resultado. Na quinta-feira, quando o Senado conseguiu votar, a duras penas, projetos importantes como a Lei dos Precatórios, uma nova denúncia abalou as bases na quais procurava-se assentar a retomada da rotina: o senador Tasso Jereissati (CE), tucano de primeira linha, usava sua cota de passagens para alugar jatinhos.

Os senadores cobram providências de Sarney, mas também o PMDB se mostra perplexo com a inanição de seu presidente de honra: da atual bancada de 19 senadores, 17 vão tentar a reeleição em 2010 e sentem-se ameaçados pela crise. Mas não só eles. Dois terços das 81 cadeiras do Senado estarão em disputa. A normalidade interessaria, portanto, a todos, mas não é bem assim: a situação saiu de controle. Senadores do PT e do PSDB, por exemplo, anteveem dificuldades para se reeleger e "alimentam o caos", para de alguma maneira tirarem proveito na eleição.

O PMDB, em geral, não vê saída a curto prazo para a crise. O que preocupa o Palácio do Planalto, pois se trata da ala - o grupo do Senado - mais ligada ao governo e já comprometida com a candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Além disso, pemedebistas acham que se o presidente da Câmara, não se viabilizar como vice na chapa de Dilma, fica mais difícil a aliança do PMDB com o PT. Isso porque a sorte de Temer ficará nas mãos do ex-governador Orestes Quércia, hoje aliado do governador de São Paulo e eventual candidato tucano a presidente, José Serra. Nunca é demais lembrar que Michel Temer entrou na última vaga de deputado federal por São Paulo, nas eleições de 2006.

O tucano José Serra, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o presidente do diretório do PMDB de São Paulo, Orestes Quércia, têm procurado colocar panos quentes na crise - não interessaria a eles o acirramento da disputa neste momento, quando o PMDB, embora majoritariamente com Lula, ainda não se definiu com relação à sucessão presidencial de 2010.

A crise no Congresso, de fato, pode afetar as alianças eleitorais do próximo ano para presidente, como acreditam alguns senadores. Mas é mais fácil que o contraditório nos Estados determine quem vai com quem na primeira eleição presidencial sem Lula na cédula, desde 1989. Está nas mãos de Dilma, a candidata preferida de Lula, um levantamento segundo o qual há pelo menos cinco Estados em que a união PT-PMDB é considerada "caso insolúvel": São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Pernambuco e Mato Grosso do Sul.

Há dificuldades também em Minas, onde o ministro das Comunicações, Hélio Costa, assumiu a dianteira das pesquisas, mas a cabeça da chapa ao governo é reivindicada tanto pelo ex-prefeito Fernando Pimentel como pelo ministro Patrus Ananias (Desenvolvimento Social). No Rio de Janeiro, o PMDB não abre mão da reeleição do governador Sérgio Cabral, mas o prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias (PT), pretende se lançar ao cargo. Até no Pará há dificuldades no relacionamento da governadora Ana Julia (PT) com o cacique pemedebista Jader Barbalho, que pretende voltar ao Senado.

No olho do furacão, o que preocupa os pemedebistas é que até agora não há um disgnóstico claro do que precisa ser feito para reabilitar o Senado com a opinião pública. Nas reuniões da bancada do PMDB, várias propostas são feitas, mas de forma dispersa e sem continuidade. "Há um desnorteamento", diz um integrante da bancada no Senado.

A previsão é que a crise não tenha solução rápida e ponha a perder um projeto que o próprio Lula havia delineado para o PMDB, em 2009, véspera de ano eleitoral: uma repaginação da imagem do partido, corroída por episódios como a disputa renhida por cargos, exemplificada pelas ações do deputado Eduardo Cunha (RJ) nas nomeações para Furnas e seu fundo de pensão, ou o escândalo que levou o senador Renan Calheiros (AL) a renunciar à presidência do Senado, em 2007. Escândalo, aliás, que ainda hoje permeia as disputas no Senado e agrava o desgaste na imagem do PMDB.

Acuado, o PMDB nem sequer recorreu ao "achado" de Temer que permite a ele e a Sarney desafogar as pautas da Câmara e do Senado, independente do "trancamento" provocado por medidas provisórias não votadas. Em vez de "ir para o enfrentamento com a oposição, Temer preferiu esperar por uma palavra definitiva do Supremo Tribunal Federal (STF).

Socorro aos municípios

EDITORIAL
DEU NO ZERO HORA (RS)


As dificuldades financeiras enfrentadas por muitos municípios brasileiros, particularmente os que dependem dos repasses de verbas federais, hoje em queda, são reais e precisam ser enfrentadas. No momento em que a questão se transforma em prioridade da Câmara dos Deputados, porém, o risco a ser evitado é de que as providências atropelem a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), o que ocorreria se fosse autorizada qualquer ajuda sem observância ao rigor desse dispositivo.

Uma das consequências da crise financeira mundial e de suas sequelas no Brasil foi a drástica redução dos repasses do Fundo de Participação dos Municípios, resultado da queda na arrecadação federal. O dramático dessa redução é que ela afetou com gravidade centenas de municípios entre os mais pobres do país. Por uma distorção histórica, permitiu-se a criação de municípios que só conseguem sobreviver graças aos recursos que a União lhes repassa, situação que incide sobre cidades de todos os Estados do país, de Norte a Sul. Sem condições financeiras para organizar e manter suas estruturas administrativas e prover os serviços que são de sua atribuição, tais municípios foram criados irresponsavelmente. Para cumprirem suas funções, dependem crucialmente da ajuda que vem dos cofres federais. Sempre que tais recursos escasseiam, prenuncia-se uma crise. Como agora. Segundo estimativas da Confederação Nacional dos Municípios, os repasses do primeiro trimestre deste ano foram de R$ 11,9 bilhões, R$ 1,7 bilhão menos que no mesmo período de 2008.

São reduções significativas, especialmente para as cidades que estruturaram seus serviços, tendo em vista a injeção sistemática desses recursos. Trata-se de uma questão grave, que exige um enfrentamento responsável, sem cair na tentação de usar o problema dos municípios para demagogias eleitoreiras. Como o próximo ano é de eleições, o momento é propício para que deputados e senadores façam acenos irresponsáveis. É preciso que, também nessa questão, prevaleçam o bom senso e o espírito público. A compensação para os municípios prejudicados pela desoneração do Imposto de Renda e do Imposto sobre Produtos Industrializados, concedida pela União, particularmente na compra de automóveis, tornou-se um dever. Afinal, de cada cinco municípios do país, quatro têm estrita dependência desses repasses e vão precisar do socorro que está sendo articulado em Brasília. É fundamental que, na construção de uma proposta de ajuda, se mantenham as conquistas que já se incorporaram à própria saúde financeira dos municípios, em especial as da Lei de Responsabilidade Fiscal.

Eleitoral e eleitoreiro

Fábio Wanderley Reis
DEU NO VALOR ECONÔMICO


Temos visto, no período recente, a imprensa a tomar com insistência o tema da "antecipação" da campanha eleitoral de 2010. Em conexão com ele, surge a questão de até que ponto esta ou aquela atividade dos candidatos potenciais ou dos titulares de cargos governamentais, com destaque para o presidente da República, seria atividade de campanha exercida fora dos prazos legais e passível de denúncia.

Na medida em que há leis que tratam de regular as campanhas, não é irrelevante se elas são ou não cumpridas. E é bom, em princípio, que disponhamos de uma Justiça Eleitoral guiada pela preocupação de assegurar que o processo eleitoral se desenvolva de modo apropriado. Mas são muitas as dificuldades envolvidas, e é duvidoso que nossos dispositivos legais a respeito sejam suficientes para contorná-las. Veja-se, em nosso vocabulário político, a fluidez da linha que separa o "eleitoral" supostamente legítimo do depreciativo "eleitoreiro" - e o fato de que este último é aplicado não só a práticas de campanha como tal, mas às próprias ações administrativas dos governos.

Ora, se temos democracia e eleições e se estas ocorrem com frequência, o empenho de separar o eleitoral do vil eleitoreiro é problemático. A democracia eleitoral requer que o eleitor seja informado do que faz o governo e possa usar essa informação como critério importante de sua decisão de voto. O grande argumento em favor da possibilidade de reeleição, inclusive no caso de cargos executivos, é justamente o de que o eleitor possa recompensar ou punir, com seu voto, o desempenho prévio dos titulares que se recandidatam. Embora possa haver bons motivos para restrições à possibilidade de reeleição para certos cargos, o princípio geral em jogo vale, de modo muito mais amplo, nas relações entre eleitores e partidos ou, em geral, entre eleitores e alternativas políticas diversas que se confrontem. Seja como for, é evidente a impropriedade de pretender que a comunicação relevante só venha a ocorrer em certo momento: num sentido importante, administrar democraticamente é, por definição, fazer campanha eleitoral.

Mas é também evidente que se acha em questão algo mais do que comunicação mais ou menos intensa, a saber, o conteúdo da comunicação e seu significado para os eleitores. Estudos sobre o funcionamento do Legislativo conduzidos nos Estados Unidos há tempos destacam o papel exercido pela "conexão eleitoral", envolvendo a suposição "realística" de que os parlamentares estão interessados antes de mais nada em sua própria reeleição e prontos, em razão disso, a favorecer o clientelismo e o chamado "pork barrel". O problema é como combinar a atenção realista aos interesses dos eleitores, dos quais se esperam retribuições eleitorais, com o empenho de evitar o estreito particularismo de tais extremos e seus correlatos negativos.

Vimos há pouco Jarbas Vasconcelos em denúncia veemente do caráter "eleitoreiro" de toda uma linha administrativa ou de política pública como tal, com a caracterização do programa Bolsa Família como "o maior programa de compra de votos do mundo". Qual a sugestão a depreender daí quanto à forma correta de conceber e executar políticas públicas e democráticas, em que a compra de votos não ocorresse? Certamente a de uma administração orientada com exclusividade por complexos programas de longo prazo, presumivelmente acompanhados do convite a que, ao tomar suas decisões de voto, os eleitores (em particular, é claro, a maioria de eleitores carentes, onde as eleições se ganham ou perdem) venham a situar-se sofisticadamente diante de tais programas, ponderando a articulação entre o curto e o longo prazo nas ações governamentais e em seus efeitos e apoiando os seus proponentes. Isso redunda em martelar de novo a velha tecla do anseio pela "política ideológica".

Mas as objeções são várias. Em primeiro lugar, essa demanda latente e meio surpreendente por ideologia como fator de decisão política sofisticada se choca com certa difundida avaliação positiva (justamente contra velha retórica ideológica de esquerda) do pragmatismo que supostamente leva, por exemplo, as eleições municipais a serem decididas por eleitores atentos aos ganhos imediatos que as diferentes propostas lhes oferecem. Além disso, o longo prazo não é senão uma sucessão de prazos curtos, e há urgências a serem atendidas até como condição de que se possam perseguir objetivos mais remotos (sem falar, quanto a um programa como Bolsa Família, das condicionalidades que a ele se ligam e de sua relevância direta para considerações de longo prazo). Finalmente, não há como deixar de reconhecer que os eleitores alcançados pelas políticas em questão e movidos eleitoralmente por elas são, de fato, como consequência de suas carências, os menos capazes de deliberação sofisticada sobre assuntos político-eleitorais: depois de séculos de produzir e manter uma sociedade desigual, cabe pretender cobrar sofisticação e paciência dos menos iguais, especialmente num quadro em que o que se vê entre os mais iguais é o oposto, com ganância, imediatismo e corrupção?

Anos atrás, Philip Converse resumiu em rica análise ("Popular Representation and the Distribution of Information", 1990) constatações reiteradas sobre a má distribuição da informação sobre política e suas consequências normativamente negativas para a ideia de representação. Usando a metáfora de "sinal" versus "ruído" nas relações entre representantes e bases eleitorais, Converse salientava a sugestão de que os sinais tendem a vir sobretudo das bases socio-economicamente favorecidas e mais informadas, com a implicação de que os menos favorecidos e informados seriam parcialmente "disenfranchised", ou excluídos da representação.

Mas há um sinal inequívoco a emanar destes últimos, justamente o que diz respeito a suas carências e urgências. Vale propor que tal sinal seja ignorado?

Fábio Wanderley Reis é cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve às segundas-feiras

Ópera do malandro

Fernando de Barros e Silva
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - Pelo andar da carruagem, com direito a foto ao lado da rainha e elogios a céu aberto de Barack Obama, Luiz Inácio Lula da Silva ainda acaba recebendo o Prêmio Nobel. Não o da Paz, mas o de Literatura, pelo conjunto da obra, na ausência de um de Artes Cênicas, que lhe conviria melhor.

Não há por que discordar do político mais popular do mundo -Lula é mesmo o cara. Primeiro propagou a ficção da "marolinha" e dela desembarcou sem explicações. Depois responsabilizou os "brancos de olhos azuis" pela crise. Assoprou e mordeu, falou duro ou macio, disse "A" e seu contrário, sempre conforme as conveniências. Agora, Lula tira nova casca e emerge do G20 como uma liderança, acolhido com honrarias no clube dos poderosos.

Se o colegiado supranacional contra a catástrofe mundial tivesse de escolher seu urso de pelúcia, Lula seria o melhor candidato.

Ao paparicar o operário que chegou lá, o mundo rico expia a sua culpa sem correr riscos adicionais.

Quando não se sabe bem o que fazer, mas qualquer mudança radical parece fora do horizonte, a falta de convicções pode ser uma virtude. No caso de Lula, é também um expediente de sobrevivência.

Ao dizer que ele é "boa pinta", Obama está a um passo de fazer, na figura de Lula, o elogio do jeitinho brasileiro -da nossa eterna vocação para acomodar conflitos, da arte nacional e malandra de ziguezaguear entre o sim, o não e o talvez.

Menos do que o fim do Consenso de Washington celebrado por Gordon Brown, talvez estejamos assistindo à sua "brasilianização".

O tema da "brasilianização do mundo" tem sido um tópico recorrente da sociologia. Quem, por aqui, recenseou suas várias dimensões num ensaio corrosivo foi o filósofo Paulo Arantes ("A Fratura Brasileira do Mundo", do livro "Zero à Esquerda"), que, ainda em 2001, dizia: "Na hora histórica em que o país do futuro parece não ter mais futuro algum, somos apontados, para o mal ou para o bem, como futuro do mundo". O colapso em curso tornou essa comédia ainda mais atual.

A China oferece capitalismo com ditadura

Carlos Alberto Sardenberg
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

É para reparar: uma força essencial na salvação do capitalismo é a República Popular da China, dirigida pelo Partido Comunista. O Fundo Monetário Internacional (FMI), guardião do capitalismo, precisa de capital e quem mais pode fornecer é o Banco do Povo da China, montado que está em reservas de US$ 2 trilhões.

Cumprindo esse papel, o presidente chinês, Hu Jintao, compareceu à reunião do G-20 (grupo que reúne as 20 maiores economias do mundo, entre desenvolvidos e emergentes) levando uma mala de dinheiro e uma sacola de conselhos econômicos e políticos. Os econômicos tinham endereço: os Estados Unidos. Foi divertido. Hu disse que o FMI deveria exercer mais supervisão sobre os países que emitiam moeda de reserva, de modo a garantir que mantivessem sólidas políticas.

Ora, o dólar é a moeda de 65% das reservas mundiais. Só os chineses têm mais de US$ 1 trilhão em títulos denominados em dólares - e, por isso, têm manifestado preocupação com os imensos déficits que o governo americano está abrindo para combater a crise. Como se sabe, déficits e dívidas enfraquecem as moedas.

Eis outra ironia: os chineses estão dizendo que os americanos precisam de mais austeridade e ortodoxia em sua política monetária.

Talvez por isso, o presidente Hu tenha dito que o FMI deveria começar a pensar em outras moedas de reserva, não vinculadas a governos nacionais.

Esses assuntos tiveram destaque nas reuniões internacionais, mas passaram batido os conselhos políticos sugeridos pelo primeiro-ministro Wen Jiabao.

Disse ele que o governo chinês havia dado uma resposta pronta e abrangente à crise, montando inclusive um amplo pacote de gastos, de modo muito eficiente. É uma prova, completou, da superioridade do modelo chinês de governar.

Sem qualquer constrangimento, Jiabao, comparando os sistemas, criticou o modo ocidental, por causa dos processos que exigem muita negociação e sucessivas aprovações.

Ou seja, o primeiro-ministro defendeu a ditadura contra a democracia. Na China, o governo, quer dizer, o Partido Comunista, decide e acabou. O pacote estava definido, anunciado e iniciado semanas antes da reunião do Congresso do Povo, que deveria discuti-lo, ou melhor, aprová-lo.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, cada vez que o governo Barack Obama precisa fazer alguma coisa - socorrer o sistema financeiro, por exemplo, ou a General Motors - precisa ir ao Congresso pedir a autorização e o dinheiro.

Não é nova a tese de Jiabao. Já se discutiu muito por estes lados, nos anos 70 e 80, que, em certas circunstâncias, ditaduras são mais eficientes na política econômica, nem importando se seriam ditaduras de direita ou esquerda.

A tese morreu, ou ficou adormecida, porque as ditaduras dessa época terminaram em fracassos - inclusive o regime chinês de Mao, cuja revolução cultural deixou o país na miséria, depois de um banho de sangue.

Mas, se vários países caíram na democracia, a China seguiu na ditadura. A turma de Den Xiao Ping liquidou os herdeiros de Mao, assumiu o poder e iniciou a nova era, que permitiu a chegada do capitalismo.

Com o fim do socialismo no mundo todo, a coisa ficou mais simples. É tudo capitalismo na economia, com democracia ou com ditadura na política. Não é tudo assim, preto no branco. Há zonas cinzentas, democracias com restrições ou ditaduras com relaxamentos. Mas as categorias básicas são essas mesmas.

Assim, Cingapura, por exemplo, que era uma ditadura de direita, agora é igual à China, dita de esquerda. Agora é tudo capitalismo com ditadura e forte intervenção do Estado.

É o que os chineses estão oferecendo como mais eficiente. Considerando o enorme valor que a democracia tem para o Ocidente, é evidente que eles não esperam que seu conselho seja sequer recebido.

Sua intenção é outra - barrar as pressões que o Ocidente faz para que a China inicie algum tipo de abertura. Essas pressões, é verdade, já foram mais fortes. A China chegou a sofrer sanções depois do massacre na Praça da Paz Celestial, em 1989. Com o tempo e com a ascensão do poder econômico da China, essas pressões foram diminuindo, diminuindo, até que praticamente desapareceram. De vez em quando algum governante defende o povo do Dalai Lama, mas é só.

E hoje, do alto de sua montanha de dólares, de seu PIB de mais de US$ 4 trilhões (o terceiro do mundo), o presidente Hu Jintao e o primeiro-ministro Wen Jiabao estão dizendo: chega dessa conversa, nosso sistema é assim mesmo e é o melhor. E vamos cuidar do capitalismo.

De todo modo, para não deixar margem a outras interpretações: há, sim, países capitalistas que vão muito bem com suas democracias, mesmo com os demorados e complexos processos eleitorais, legislativos e judiciários.

E quanto à eficiência do sistema chinês, falta uma opinião essencial, a do povo chinês.

Salvem o FMI!

Outra ironia da semana foi a do presidente Lula. Ele mesmo a fez. Notou como era engraçado que ele, depois de ter passado boa parte de sua vida carregando cartazes com "Fora FMI", agora participasse de um esforço de salvar e reforçar o FMI.

O Brasil do governo Lula vai emprestar dinheiro para o FMI cumprir seu papel de resgatar países em dificuldades e manter de pé o sistema financeiro. Melhor assim, não é mesmo?

*Carlos Alberto Sardenberg é jornalista

Economia em baixa, desemprego em alta

João Sabóia
DEU NO VALOR ECONÔMICO

É fundamental acompanhar de perto a geração de renda e a evolução do mercado de trabalho

O mercado de trabalho brasileiro apresentou nos últimos anos um comportamento que poderia ser considerado como excepcional: a geração de empregos com carteira de trabalho assinada no quinquênio 2004/08 atingiu mais de 7 milhões. Apesar das dificuldades do quarto trimestre do ano passado, 2008 ficou dentro do padrão médio observado no período. Ao se compararem os últimos cinco anos com o ocorrido em 2000/03, verifica-se que a média anual de geração de empregos com carteira assinada mais que dobrou, passando de 663 mil para 1415 mil anuais (ver gráfico).

Infelizmente, os bons números ficaram para trás e é preciso enfrentar a nova situação surgida em 2009, quando a economia brasileira dificilmente apresentará taxa de crescimento positiva do PIB e o mercado de trabalho sofrerá as consequências inevitáveis da recessão econômica.

Os primeiros números de 2009 já divulgados causam preocupação. Após quedas do desemprego ano após ano desde 2004, a situação no início de 2009 aponta para as dificuldades a serem enfrentadas. Em fevereiro, a taxa de desemprego levantada pela Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE voltou ao mesmo patamar de fevereiro de 2008 (8,5% e 8,7%, respectivamente). Talvez o mais preocupante seja o fato de que na Região Metropolitana de São Paulo, a principal do país, a taxa de desemprego de fevereiro último (10%) já superava com folga o valor de fevereiro de 2008 (9,3%).

E quais seriam as perspectivas para o resto do ano? Certamente, bastante preocupantes. Conforme pode ser verificado no segundo gráfico, devido a características sazonais da economia e do mercado de trabalho, a taxa de desemprego costuma crescer ao longo do primeiro semestre, voltando a cair no segundo. O crescimento da taxa mensal pode se encerrar mais rapidamente, como em 2004, 2005, 2007 e 2008, ou mais adiante no ano, como em 2003 e 2006.

Tendo em vista as dificuldades da economia neste ano, o mais provável é que já em março a taxa de desemprego tenha superado o valor do mesmo mês em 2008 e que continue a crescer e se distanciar pelo menos até meados do ano. A dimensão do aumento vai depender, de um lado, de como a economia se comportará nos próximos meses e, de outro, de como as pessoas reagirão às dificuldades encontradas no mercado de trabalho. Usualmente, quando as condições de emprego pioram, há uma tendência de que parcela da população economicamente ativa (PEA) se retire, reduzindo a pressão sobre o mercado de trabalho. Caso contrário, a taxa de desemprego poderá crescer muito. A tendência verificada desde novembro de 2008 tem sido de redução da PEA.

Dados da Pesquisa Industrial Mensal (PIM) divulgados recentemente pelo IBGE são bastante desanimadores, mostrando que em pouquíssimos meses o setor foi para o fundo do poço. Apesar do esforço feito pelo governo para minimizar os estragos, a indústria deverá levar muito tempo para retomar o nível de 2008. Atualmente, encontra-se em um nível de produção de cinco anos atrás. Seus reflexos sobre o nível de emprego são conhecidos e têm sido amplamente divulgados pela mídia.

Um segundo aspecto central a ser destacado no mercado de trabalho é a evolução do nível de rendimentos. Apesar das dificuldades dos últimos meses, o nível médio de rendimentos captado pela PME no último mês de fevereiro ainda encontrava-se 4,6% acima do observado no mesmo mês do ano passado. A média encontrada foi de R$ 1.321, enquanto a mediana não passou de R$ 748. Cabe notar que o recente ajuste do salário mínimo nacional para R$ 465 deverá proteger parcialmente os rendimentos na base da pirâmide nos próximos meses.

Para verificar os efeitos realimentadores do mercado de trabalho sobre a economia, a variável mais importante da PME a ser observada no momento é a massa de rendimentos, que informa a capacidade de consumo da população. A massa de rendimento real efetivo em janeiro de 2009 (último dado disponível) ainda encontrava-se 6,3% acima do nível de janeiro de 2008. Nos próximos meses, entretanto, os ganhos deverão definhar, quando comparados com os bons resultados de 2008.

Apesar da abertura da economia brasileira nas duas últimas décadas, ela continua relativamente fechada, dependendo em grande parte do mercado interno. Na medida em que o setor externo da economia está parcialmente bloqueado pela crise internacional, não resta ao país outra alternativa a não ser contar com o potencial de seu mercado interno, que certamente representa uma das principais vantagens nesses tempos de incertezas. A realização deste potencial, entretanto, requer que o nível de renda interna permaneça satisfatório, sendo fundamental um acompanhamento de perto do processo de geração de renda e da evolução do mercado de trabalho nos próximos meses.

João Saboia é diretor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Quase 40% pretendem demitir em São Paulo

Marcelo Rehder
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Cortes devem atingir 14,3% dos funcionários nos próximos meses

Duas em cada cinco indústrias de São Paulo pretendem demitir empregados nos próximos meses. Em média, os cortes deverão atingir 14,3% do quadro de pessoal. A má notícia vem de uma pesquisa inédita realizada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que ouviu 586 empresas entre os dias 17 de fevereiro e 17 de março.

A sondagem, no entanto, aponta uma desaceleração no ritmo das demissões. Do total de empresas pesquisadas, 47% informaram que já tinham dispensado, em média, 18,7% dos funcionários desde outubro de 2008, quando os efeitos da crise financeira mundial começaram a se acentuar sobre o País. Aquelas que pretendem promover mais demissões, e que representam 38% da amostra, dizem que o corte agora será menor, ao redor de 14%.

Para o diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da Fiesp, Paulo Francini, o pior pode já ter passado, mas a crise continua a causar estragos na atividade e no emprego industrial. "É mais ou menos como um alicate apertando o dedo", compara Francini. "Quando a pressão alivia um pouco, o sujeito diz oba, o pior já passou, mas o alicate continua apertando o seu dedo."

A pesquisa revela que o porcentual das empresas que têm planos de demitir é maior entre as que já dispensaram trabalhadores nos últimos meses. Nada menos que 56% dessas empresas dizem que vão promover novos cortes, enquanto apenas 20% das que ainda não tinham demitido agora planejam fazer ajustes de pessoal.

"A onda de uma crise não atinge todas as empresas com a mesma intensidade a ao mesmo tempo", explica Francini. "A extensão foi maior que o imaginado e muitas empresas sentem necessidade de fazer um novo ajuste, enquanto outras só começam a tomar providências agora porque a onda chegou mais tarde para elas."

O tamanho do estrago apareceu nos números do nível de emprego divulgados mensalmente pela Fiesp. Até fevereiro, as empresas do setor fecharam 236,5 mil postos de trabalho,o que corresponde a um corte de quase 10% no número de empregos que existia no Estado em setembro de 2008.

O "facão" não poupou nenhum setor industrial.O corte foi maior na indústria de produtos alimentícios, que demitiu cerca de 78 mil trabalhadores, o equivalente a uma redução de 20% no nível de emprego. O número, no entanto, deve ser analisado com cautela, pois sofreu forte influência das demissões do setor sucroalcooleiro. Por causa da sazonalidade do plantio e corte da cana-de-açúcar, as usinas contratam milhares de trabalhadores ao longo do ano e costumam demitir a maioria deles em novembro e dezembro.

Já os fabricantes de veículos automotores, reboques e carrocerias, por exemplo, sentiram a retração da demanda e dispensaram 25,5 mil empregados (-10,2%). Da mesma forma, a indústria de produtos de borracha e de material plástico colocou na rua 15,5 mil trabalhadores e o setor de confecções e artigos do vestuário mandou embora 11,8 mil trabalhadores. Entre os menos afetados, estão os empregados dos laboratórios farmacêuticos, que fecharam apenas 120 vagas, e da indústria de produtos químicos (780 dispensas).

Responsáveis por algo como 40% do Produto Interno Bruto (PIB)industrial brasileiro, as empresas do setor instaladas no Estado empregam hoje cerca de 2,350 milhões de pessoas.