domingo, 13 de agosto de 2023

Merval Pereira - Feitiço contra feiticeiro

O Globo

Setores militares que pensavam em controlar Bolsonaro, um capitão de passado questionável, acabaram controlados por ele.

A campanha presidencial de Bolsonaro em 2018, que a princípio parecia um exotismo sem maiores consequências, fazia parte de uma estratégia de militares da ativa e da reserva para a retomada do poder pelo voto.

Bolsonaro convenceu esse grupo, que tinha no General Villas Boas, então comandante do Exército, o articulador principal. O núcleo militar reunia-se em um escritório em Brasília, e dava apoio técnico e estratégico à campanha, sob a articulação do General Augusto Heleno. Esse núcleo militar considerava que Bolsonaro era o único capaz de derrotar o PT, aproveitando que o então ex-presidente Lula estava na prisão.

Os encontros de Bolsonaro com seus seguidores, em todos os aeroportos em que chegava nas viagens de campanha, viralizaram pouco a pouco na internet, e de ações orquestradas com o recrutamento de militares de escalões inferiores transformaram-se em eventos espontâneos. Na aparência a estratégia deu certo, pois Bolsonaro foi eleito, e colocou militares em postos chave.

Ao agradecer de público ao General Villas Boas, dizendo, com a sutileza que o caracteriza, que jamais revelaria o que conversaram, Bolsonaro deixou explícita a ajuda que recebera do militar, um ícone entre os seus. “Ele é incontrolável”, disse-me certa vez o próprio General Villas Boas, entre risos, justificando certos comportamentos de Bolsonaro ainda na campanha.

Bernardo Mello Franco – O último voo do Muambão

O Globo

Investigação sobre joias mostra que ex-presidente não viajou apenas para boicotar a festa do sucessor

Os relógios marcavam 14h02 quando o avião presidencial decolou da Base Aérea de Brasília. A dois dias do fim do mandato, Jair Bolsonaro deixava o país rumo a Orlando, nos EUA. Era seu último ato como chefe do Executivo.

O capitão não deu satisfações sobre o abandono do cargo. Aliados disseram que ele simplesmente não queria entregar a faixa ao sucessor. Parecia uma explicação incompleta, apesar do seu conhecido desprezo pela democracia.

O general João Figueiredo, o último dos ditadores, também fez birra ao deixar o poder. Para boicotar a posse de José Sarney, não precisou botar o pé no jato. Bastou sair do palácio por uma porta lateral.

Adversários arriscaram outra tese para o voo de 30 de dezembro de 2022. Bolsonaro teria se mandado para evitar uma prisão iminente. Sem foro privilegiado, ele ficaria mais próximo de acertar contas com a Justiça. Ainda assim, não haveria motivo para uma fuga tão apressada.

Míriam Leitão - Amazônia, PAC e joias roubadas

O Globo

Em mais uma semana intensa no Brasil, o país ficou diante de dilemas ambientais e do espantoso esquema de roubo de joias

O que é polêmico do ponto de vista ambiental entrou no PAC, mas com a rubrica “em estudos”. Isso reduz a contradição de uma semana que começou com uma cúpula amazônica e terminou com o lançamento do plano de investimento que tem projetos de petróleo no mar da Amazônia e obras que cortam a floresta. Há polêmicas no governo Lula, mas do lado da velha administração bolsonarista, o que se abriu foi um fosso profundo que começa a engolir os principais articuladores de golpes contra a democracia e contra o patrimônio nacional. Isso tudo em apenas uma semana nesse país intenso chamado Brasil.

Sexta-feira, o governo lançava o PAC no Rio, com a atenção do país presa nas tenebrosas transações reveladas entre o ajudante de ordens de Bolsonaro, seu pai general, outros militares e o advogado do ex-presidente. Todos sob a suspeita de subtrair da Pátria presentes, joias, valores. Notadamente, valores. O escândalo rasgou mais um pouco a imagem das Forças Armadas. Líderes militares se deixaram atrair pela partilha de poder oferecida por um governo desqualificado, em várias dimensões.

Elio Gaspari - Os empresários debocharam da CPI

O Globo

O caso das Americanas é a maior fraude corporativa acontecida em Pindorama

As Comissões Parlamentares de Inquérito têm má fama por causa dos momentos de teatralidade de alguns de seus integrantes. A CPI da rede varejista Americanas está mostrando que figuras da elite empresarial de Pindorama são capazes de superar o desembaraço de um cabo eleitoral de vereador da periferia. Na semana passada deram-se dois episódios significativos.

Num, Márcio Cruz, o ex-CEO de operações digitais da rede, foi convocado para depor na terça-feira. Não apareceu, nem se explicou. O presidente da CPI, deputado Gustinho Ribeiro (Republicanos-SE), determinou sua condução coercitiva e, horas depois, seus advogados informaram que ele comparecerá à reunião desta semana. Ganha um fim de semana num paraíso fiscal quem souber quem foi o çábio que o aconselhou a tratar uma convocação do Congresso como se fosse chamado de engraxate.

Dorrit Harazim -A casa caiu

O Globo

Daqui para a frente são só notícias amargas para o capitão que o Brasil manteve por quatro intermináveis anos no poder

Lá pelos idos de 1940, a mineradora sul-africana De Beers Consolidated lançou aquela que é considerada a campanha publicitária mais bem-sucedida do século XX:

— A diamond is forever.

Seja pela pegada sentimental (como prova de amor), seja por sugerir valor monetário eterno, a campanha em 23 línguas faz sucesso até hoje. E a pedra, sem nunca perder o brilho, afaga corações e bolsos. É na política que ela causa estragos, por não ser ali seu lugar. Foi numa manhã de outubro de 1979 que o presidente da França, Valéry Giscard d’Estaing, no poder havia cinco anos e com o horizonte acenando para uma futura reeleição, viu-se fulminado pela manchete do satírico parisiense Le Canard Enchaîné:

— Quando Giscard embolsava os diamantes de Bokassa.

Logo abaixo, o fac-símile da ordem de entrega de um mimo faiscante de 30 quilates, emitida em 1973 pelo déspota da República Centro-Africana, Jean-Bedel Bokassa. Destinatário: Giscard, então ministro das Finanças. A ordem estipulava inclusive o valor do regalo: 1 milhão de francos, algo como US$ 4,4 milhões em dinheiro de hoje. Foi uma bomba de que ele nunca mais se recuperaria. Perdeu a pose e a reeleição para o socialista François Mitterrand.

Luiz Carlos Azedo - Bolsonaro tem fascínio por ouro e pedras preciosas

Correio Braziliense

A Polícia Federal pediu ao Supremo a quebra de sigilo fiscal e bancário do ex-presidente da República, que deve ser ouvido no inquérito que apura a venda e recompra de joias da União nos EUA

O ex-presidente Jair Bolsonaro está numa situação muito difícil, por causa da história das joias que recebeu de presente da Arábia Saudita, as quais tentou vender e não conseguiu — ou teria vendido e comprado de volta, segundos os fatos revelados até agora. A Polícia Federal (PF) classifica como "organização criminosa" o suposto esquema de venda ilegal de joias e bens de luxo da União para favorecer o ex-presidente da República.

Presentes oficiais de governos estrangeiros são considerados acervo do Estado. A Arábia Saudita e outros monarquias árabes costumam dar joias de presentes aos governantes amigos. O destino dado aos presentes não é um problema deles. Os presentes recebidos por Bolsonaro não são de sua propriedade e, agora, servem de materialidade para o provável indiciamento do ex-presidente, por querer aumentar o patrimônio pessoal por meio da alienação de bens públicos.

Celso Rocha de Barros – A Federal pegou Jair

Folha de S. Paulo

Bolsonaro pediu 'Me chama de corrupto!', PF chamou

Bolsonaro gostava de provocar pedindo: "Vai, me chama de corrupto!". A Polícia Federal chamou.

Segundo a PF, Mauro Cid, ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, vendia clandestinamente joias doadas ao Brasil e entregava o dinheiro para o ex-presidente.

Nessa movimentação de muamba, Cid teria sido ajudado por seu pai, um general do Exército brasileiro. Em uma mensagem obtida pela PF, Cid diz que seu pai estava com US$ 25 mil, originários da venda das joias, prontos para serem entregues a Bolsonaro. Cid acrescenta que seria melhor fazer a entrega em mãos, sem passar pelo sistema bancário.

Bruno Boghossian - A evolução da rachadinha

Folha de S. Paulo

Vigarice rasteira das joias reproduziu apetite por transformar dinheiro público em vantagens particulares

Perto das 9h da manhã de 30 de dezembro, Mauro Cid fez uma tentativa final de pôr as mãos num conjunto de joias apreendido pela Receita Federal. O auxiliar de Jair Bolsonaro ligou para um servidor do Planalto e pediu um documento que poderia ser usado para liberar o presente do governo saudita. Não conseguiu.

O coronel tinha pressa. Às 14h02, ele decolaria para a Flórida num avião da FAB ao lado do então presidente. No bagageiro, estavam itens dados a Bolsonaro por autoridades estrangeiras ao longo do mandato e que, segundo a Polícia Federal, seriam vendidos nos EUA. Faltou o kit retido no aeroporto de Guarulhos.

Muniz Sodré - Desarmando um vexame

Folha de S. Paulo

Relatório do Exército sobre a intentona de janeiro é ensaio prático de cegueira

"La putenza caca n'muca alla giustizia". A tradução literal deste provérbio sardo talvez seja por demais chula, mas o dialeto torna ao menos pitoresco o significado: o poder faz algo execrável na boca da Justiça. É o que se depreende do vexaminoso inquérito do Exército sobre os atos golpistas de janeiro. Internamente, angélica paz. Fora, no acampamento protegido, havia furtos, denúncia de estupro e porte ilegal de armas, mas militarmente "não foram identificados aspectos que pudessem comprometer a segurança orgânica dos aquartelamentos". Logo, nenhuma responsabilidade pelo exterior dos quartéis.

Ruy Castro - 100% Millôr

Folha de S. Paulo

Não sei o que ele estaria achando de chegar aos 100. Só sei que, de qualquer jeito, não haveria hipótese

Foi Paulo Francis quem me apresentou a Millôr Fernandes. O ano era 1968 e ambos colaborávamos na revista Diners, dirigida por Francis. Quase todas as tardes, a redação da Diners fervia de notáveis que iam oferecer colaborações: de luminares da velha esquerda, como Octavio Malta, Antonio Callado, Franklin de Oliveira, aos da nova, como Fernando Gasparian, Glauber Rocha, Flavio Rangel. Já Millôr era independente. Eu tinha 20 anos e era como fizesse ali um intensivo de política, com a vida real entrando pela janela do 5º andar ---ao som das bombas e correrias da polícia contra os estudantes lá embaixo, na esquina de Rio Branco com Ouvidor.

Marcos Lisboa* - Estado e desenvolvimento

Folha de S. Paulo

Porto Digital e agronegócio têm em comum desenvolvimento de novas tecnologias e cuidado no desenho da intervenção pública

Existem exemplos no Brasil de combinação de políticas públicas, empreendedorismo privado e inovações tecnológicas que permitem aumentos recorrentes da produtividade, da renda das famílias e de crescimento econômico.

Esta coluna trata de duas experiências de sucesso: o Porto Digital do Recife e o agronegócio. Ambas têm em comum o desenvolvimento de novas tecnologias e o cuidado técnico no desenho da intervenção pública.

A forma da intervenção pública tem detalhes específicos em cada caso, revelando a necessidade da análise cuidadosa das características do setor e das condições de contorno.

No fim dos anos 1990, Recife tinha um excelente centro de formação em ciência da computação. Entretanto, a falta de empregos em tecnologia resultava na emigração de técnicos bem formados.

Surgiu a proposta de criar um polo de tecnologia, ou Ecossistema Local de Inovação (ELI), que incentivasse o empreendedorismo e a inovação em temas de ciência da computação.

Eliane Cantanhêde - O celular do general, cobras e lagartos

O Estado de S. Paulo

PF espera nomes, endereços e valores no celular do general Cid. E o Exército teme muito mais!

O clima no Exército é de perplexidade e desolação diante da avalanche de denúncias contra o tenente-coronel da ativa Mauro Cid e, agora, da confirmação de que o pai dele, general da reserva Mauro Lourena Cid, era parte do esquema de venda de joias no exterior. E vem mais: as revelações do celular do Cid pai, apreendido pela Polícia Federal, e a possível delação do hacker Walter Delgatti.

O general Cid foi do Alto Comando do Exército, antes de ir para a reserva e para a Apex em Miami, responsável, vejam só, por importações e exportações. Quando o filho caiu em desgraça, pelos escândalos na condição de ajudante de ordens do então presidente Jair Bolsonaro, ele voltou para Brasília, vivia no QG Exército e ganhou apoio dos velhos companheiros. Imagine-se o que não há no celular dele!

Pedro S. Malan - O velho novo PAC?

O Estado de S. Paulo

A contribuição do novo PAC para o Brasil não advirá de seu possível uso como instrumento de retórica nas campanhas eleitorais que se avizinham

O papel do investimento público pode ser fundamental para romper pontos de estrangulamento em infraestrutura, sinalizar novas oportunidades de investimento ao setor privado, para sugerir áreas em que ambos, público e privado, podem atuar conjunta ou complementarmente. Dito isso, é sabido que quando tudo é prioritário nada é prioritário. Desde pelo menos os anos 50 (primórdios do BNDES e da Petrobras, governo JK) é conhecida a importância da seletividade e do critério na escolha de projetos. E, mais importante, da capacidade de execução, eficiência no gerenciamento, cobrança e avaliação de resultados.

Rolf Kuntz - Credibilidade

O Estado de S. Paulo

Prenúncios bem vistos por tanta gente, como o recente corte de juros pelo BC, podem ser menos entusiasmantes para quem valoriza a memória

Bom sinal para o governo, para o consumidor e para os empresários, o novo corte de juros foi um lance arriscado para o Banco Central (BC), principal protetor da moeda e supervisor do sistema financeiro. Pressionado e injuriado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o chefe do BC, Roberto Campos Neto, coordenou a recente deliberação do Copom, o Comitê de Política Monetária, em condições especialmente difíceis. Anunciada a redução de 0,5 ponto porcentual, o dobro da estimada pela maior parte do mercado, a dúvida se espalhou: decisão política, técnica ou meio a meio? A participação de dois novos diretores, carimbados publicamente como representantes da Presidência da República, favoreceu a desconfiança.

Fernando Schüler* - A vida não é uma corrida

Revista Veja

Em nossas infinitas diferenças, somos todos capazes

A meritocracia virou uma espécie de patinho feio do debate atual. Michael Sandel diz que ela tem um “lado sombrio”, pois, entre outras coisas, promoveria a “desigualdade”. Nos esportes, na economia, nos concursos de beleza, na educação. Eu mesmo me lembro disso, no colégio, em Porto Alegre. Quem tinha letra boa podia usar caneta, quem não tinha escrevia com o lápis. A mesma coisa com a leitura. Quem sabia ler direito era liberado mais cedo para o recreio. Lembro que aquilo me fez ficar horas lendo em voz alta, no meu quarto, e (ao que me recordo) não gerou nenhum grande trauma. Anos atrás, fui a uma escola charter, no Harlem, em Nova York, e deparei com o ranking dos alunos em todas as paredes, matéria a matéria. Na entrada da escola, um boneco do Obama. Os melhores alunos iriam para Washington, no fim do ano, em uma visita à Casa Branca. Perguntei à diretora se aquela meritocracia toda não gerava algum problema na cabeça dos alunos, e ela me olhou sem muita paciência. Acho que ela não iria concordar muito com os críticos da meritocracia. O último que li foi David Brooks, no The New York Times, culpando a meritocracia pela eleição de (sempre ele) Donald Trump.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Lula deu aula de civilidade em lançamento do PAC

O Globo

Desagravo a governador Cláudio Castro, vaiado pela plateia, traz recado necessário à democracia

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode ser criticado por um sem-número de motivos — do apego a ideias econômicas equivocadas às práticas políticas retrógradas. Mas, ao longo de sua história, ele deu inúmeras provas de uma qualidade que o distingue no mundo de hoje: o respeito à democracia, a crença no diálogo. É uma qualidade essencial diante de um ambiente conflagrado pela polarização, que tem tornado mais difícil às instâncias políticas atender às necessidades urgentes do Brasil.

Na última sexta-feira, no lançamento do novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) no Rio de Janeiro, Lula deu uma prova de maturidade política e uma aula de civilidade ao repreender a plateia pela reação agressiva com o governador Cláudio Castro (PL). Adversário político do PT e aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro, Castro era vaiado todas as vezes em que seu nome era mencionado. Chegou a desistir de discursar no evento, apesar de o Rio ser o estado contemplado com mais recursos do PAC (e o escolhido para o lançamento do programa).

Poesia | Rosa de Hiroshima - Vinicius de Moraes

 

Música | Roberta Sá - Boca em boca

 

sábado, 12 de agosto de 2023

Oscar Vilhena Vieira* - O exercício da democracia defensiva

Folha de S. Paulo

Ele é necessário, mas sua prática deve ser feita com cautela

"As instituições brasileiras têm se demonstrado mais efetivas na defesa da democracia do que as norte-americanas."

A constatação não foi feita por um brasileiro ufanista, mas pelo professor Steven Levitsky, autor do festejado livro "Como as Democracias Morrem" (2018), em recente seminário em São Paulo. A possibilidade de que Donald Trump venha a se candidatar nas próximas eleições, mesmo que seja condenado pelos diversos crimes pelos quais está sendo julgado, aponta para a fragilidade dos mecanismos de autodefesa da democracia norte-americana.

No Brasil, por sua vez, testemunhamos, ainda que aos trancos e barrancos, uma postura combativa por parte tanto do TSE como do STF na defesa da democracia e do processo eleitoral, assim como pela independência do próprio Poder Judiciário. São exemplos dessa postura defensiva dos tribunais a instauração de inquéritos voltados a apurar atos antidemocráticos, o policiamento do processo eleitoral, assim como o julgamento daqueles que atentaram contra o Estado democrático de Direito durante a intentona de 8 de janeiro.

Dora Kramer - A tropa no choque

Folha de S. Paulo

Convocação de Rui Costa fez governo levar a sério potenciais riscos da CPI do MST

tratoraço do governo sobre a CPI do MST pareceu desperdício de munição, dado que a comissão vinha sendo vista no Palácio do Planalto como mero palco para bolsonaristas dançarem ao som de uma orquestra de lacrações em série, sem maiores chances de desdobramentos danosos.

Foi assim, mas deixou de ser quando a oposição conseguiu aprovar a convocação do ministro da Casa Civil, Rui Costa. Aí o alerta foi aceso, tanto em decorrência dos questionamentos a ele sobre suas relações com os sem-terra enquanto governador da Bahia quanto a novas convocações que acentuassem a leniência dos petistas com ilegalidades do movimento.

Demétrio Magnoli - Tenda do Mago

Folha de S. Paulo

Incorporação de 'terapêuticas alternativas' ao SUS impede diagnósticos de enfermidades reais

Numa esquina perto de casa surgiu uma faixa de propaganda de uma certa Tenda do Mago, que vende "produtos esotéricos, místicos e religiosos". É um negócio inútil: já existe uma mais poderosa Tenda do Mago, de alcance nacional, ramificada em todas as capitais e em 3.024 municípios (54% do total). O nome oficial dela é PNPICs (Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares). Seus produtos esotéricos, místicos e religiosos são pagos com dinheiro do SUS –ou seja, teu, meu, nosso.

A vasta lista das PICs abrange homeopatia, termalismo social, antroposofia, dança circular, Reiki, Shantala, aromaterapia, constelação familiar, imposição de mãos e florais, entre outras crendices chiques. A Medicina Tradicional Chinesa, uma tradição milenar inventada por Mao Tse-tung 70 anos atrás, está dentro, é claro. João de Deus ficou fora, graças a deus.

Alvaro Costa e Silva - O guru do Méier, 100

Folha de S. Paulo

Millôr nunca escreveu um romance porque não quis

Na quarta (16), quando transcorre o centenário de seu nascimento, os admiradores de Millôr Fernandes poderão escolher um Millôr preferido para homenagear. As opções são muitas: jornalista, escritor, cartunista, pintor, teatrólogo, tradutor, roteirista, poeta, frasista, humorista e, englobando tudo, guru. Guru do Méier, como se autodeclarava.

Há o risco de que uma categoria seja esquecida: a de atleta. Aos 14 anos, faz-tudo em O Cruzeiro, Millôr era o que a gíria carioca chama de "piscina" —o cara que, ao chegar onde mora, bate na parede e volta para o trabalho. Passava o dia inteiro na revista, estudava à noite no Liceu de Artes e Ofícios, pegava bonde e trem, andava quilômetros. Enfim em casa, ouvia da avó: "Tem sardinha no fogão".

Hélio Schwartsman - Quem lê lê

Folha de S. Paulo

Formação de público leitor depende mais de genes do que de livros baratos

Por não estar nas redes sociais, perco muitos dos debates que mobilizam o mundo digital —o que talvez não seja tão mau. Quando o assunto vale a pena, porém, ele costuma chegar às mídias tradicionais, que acompanho. Foi assim que, com semanas de atraso, tomei ciência da polêmica lançada pelo influenciador Felipe Neto, que se queixou do preço dos livros no Brasil. "Precisamos de uma população leitora, mas tá cada dia mais difícil. Livrarias fechando, preços disparando... Como esperar q o povo leia desse jeito? Livro não pode ser artigo de luxo", postou Neto.

A discussão sobre o preço dos livros é relevante. Não conheço o mercado bem o bastante para me meter nela, mas creio que há um problema na premissa do influenciador. É legal ter acesso aos lançamentos literários, mas não penso que a formação de um público leitor dependa do mercado editorial.

Carlos Alberto Sardenberg - A política dos truques

O Globo

Nos governos petistas tornou-se bem conhecida a ‘contabilidade criativa’. Pois parece que a imaginação avançou

O Novo PAC tem uma pegada ambiental. Como exatamente? Bem, o governo promete algo como um arcabouço institucional que deve induzir práticas sustentáveis nos investimentos e programas públicos e privados. Uma generalidade. Os planos de exploração do petróleo na Margem Equatorial são, em contrapartida, bem concretos.

São exatos 19 poços a explorar, incluindo aquele colocado na área mais sensível, a foz do Amazonas, cuja licença ambiental foi negada pelo Ibama. A estatal comparece no PAC com planos de pesados investimentos em petróleo, tudo carbono puro.

A contradição está na cara. Há um discurso ambiental, metas não específicas de descarbonização e investimentos definidos na direção contrária. Parece que estamos falando de dois governos. E estamos mesmo, pelo menos nesse caso. E mais: um governo tentando enganar o outro.

Pablo Ortellado -Como encerrar a guerra às drogas?

O Globo

Legalização que estamos iniciando precisa vir com política de desestímulo

A guerra às drogas fracassou. O combate impiedoso ao tráfico não foi capaz de reduzir o consumo e ainda promoveu uma explosão da população carcerária que é injusta, onerosa e alimenta o crime organizado. O Brasil, com 832 mil presos, tem a terceira maior população carcerária do mundo em números absolutos e a 26ª em números relativos (per capita). Cerca de 25% dos nossos presos foram acusados de tráfico.

Nos últimos anos, o cenário de fracasso generalizado tem levado vários países a descriminalizar o uso. Nos Estados Unidos, país que liderou a guerra às drogas entre os anos 1970 e 1990, a descriminalização começou pela legalização do uso medicinal da Cannabis em alguns estados e aos poucos está levando à legalização do uso recreativo.

Eduardo Affonso - A Lua e a lama nos obituários

O Globo

Respeito consiste, principalmente, em não fazer do morto, de sua trajetória, um pretexto para desfilar nossos preconceitos

Fernando Pessoa já ensinava, por meio de Ricardo Reis:

— Para ser grande, sê inteiro: nada/Teu exagera ou exclui.

Vale para quando ostentamos virtude no finado Twitter; vale para quando não deixamos entrever sequer um fiapo de nossa vidinha besta no Instagram. Deveria valer também para quando nos cabe falar da vida alheia —principalmente de uma vida que acaba de se encerrar.

Morte não implica a canonização automática do morto. Não é remissão dos pecados, não concede indulgência plenária. Não transforma água em vinho, rascunho em arte final. Mas respeito é bom — e não se confunde com bajulação. Entre a hagiografia e o vilipêndio, há bom espaço para uma análise equilibrada.

Bolívar Lamounier - Lamento por um país já quase irreformável

O Estado de S. Paulo

Vejo o Brasil como um país especializado em perder oportunidades, a mais evidente das quais, no passado recente, sendo o ciclo de governos petistas que teve início em 2003

A mediocridade política em que o Brasil vive já há vários anos reduz o debate público à inútil contraposição entre “otimistas” e “pessimistas”.

Os escritos que tenho postado neste espaço são regularmente agraciados com o epíteto de “pessimistas”, que aceito de bom grado. De fato, quem olha à nossa volta ou reflete sobre nossa história não tem muito a festejar. Na outra ponta, “otimistas” são os pascácios herdeiros intelectuais do conde Afonso Celso (Por que me ufano de meu país) e os empresários, notadamente os do setor industrial, que fazem das tripas coração tentando criar o que chamam de um bom “clima de negócios”. Tarefa hercúlea.

Meus caros leitores poderão objetar que, afinal de contas, o Produto Interno Bruto (PIB) vai crescer 2,4% este ano e que o setor agrícola está se diversificando de um modo promissor. Isso é muito bom. Apenas peço vênia para lembrar que o modesto crescimento do PIB previsto para este ano se deve quase totalmente às commodities (um pequeno número de produtos primários exportados em larga escala para um pequeno número de países, notadamente para a China) e que esse setor nem de longe abranda nosso desesperante problema de desemprego. Acrescente-se que o governo, só para equilibrar as contas públicas, é forçado a levar até o limite a sua fúria arrecadatória. O que os “otimistas” têm a festejar é, portanto, o fato de o Lula atual ter deixado de lado sua antiga ingenuidade e se rendido sem pejo ao Centrão. Isso é melhor?

Eliane Cantanhêde - Grande beneficiário da quadrilha fica evidente

O Estado de S. Paulo

PF confirma esquema no Planalto para vender joias e presentes no exterior e repassar dinheiro a Bolsonaro

O tenente-coronel da ativa Mauro Cid entregou o ouro para a Polícia Federal, ao revelar, em mensagem por celular, que estava usando seu pai, o general da reserva Mauro Lourena Cid, para enviar US$ 25 mil em dinheiro vivo para o ex-presidente Jair Bolsonaro nos Estados Unidos. Fica evidente que ele é o grande beneficiário da quadrilha instalada no Palácio do Planalto para vender joias e presentes no exterior e reverter o dinheiro para o próprio presidente da República, durante e depois do mandato.

“Tem vinte e cinco mil dólares com meu pai. Eu estava vendo o que que era melhor fazer com esse dinheiro, levar em ‘cash’ aí. Meu pai estava querendo inclusive ir aí falar com o presidente (...) E aí ele poderia levar. Entregaria em mãos. Mas também pode depositar na conta (...). Eu acho que quanto menos movimentação em conta, melhor né? (...)”, diz o texto do coronel enviado a um outro assessor de Bolsonaro, em janeiro de 2023, sobre um pedacinho do valor obtido com as vendas ilegais.

João Gabriel de Lima - A floresta e os que moram dentro dela

O Estado de S. Paulo

É necessário levar à COP-30, em Belém, propostas que façam a diferença para quem vive na floresta

Itaquera quer dizer “pedra dura”, em língua tupi. É também o nome de uma comunidade ribeirinha situada no Estado de Roraima. Ela faz parte do município de Rorainópolis, que tem 33 mil quilômetros quadrados – uma área maior que a da Bélgica. As trinta e poucas famílias que moram lá vivem da pesca e do artesanato em madeira.

A Cúpula da Amazônia, realizada nesta semana em Belém (PA), reuniu os líderes dos oito países que abrigam a maior floresta tropical do planeta. Decisões importantes foram tomadas, como a criação de órgão que forneça dados para as políticas públicas da região – uma espécie de IPCC amazônico. Os países terão liberdade para elaborar planos de descarbonização de acordo com suas realidades.

Marcus Pestana* - Uma jabuticaba de boa qualidade

O grande jornalista e ex-deputado federal, pivô da crise que resultou no AI-5, em 1968, Márcio Moreira Alves, cunhou certa vez uma frase que ficou famosa “tudo aquilo que só existe no Brasil e não é jabuticaba, é bobagem”. Anos mais tarde, o professor e ex-secretário da Receita Federal, Everardo Maciel, escreveu um “Desagravo às jabuticabas”, associando a metáfora ao não menos famoso “complexo de vira-latas”, descrito por Nelson Rodrigues, para tipificar o nosso arraigado complexo brasileiro de inferioridade. Disse Everardo Maciel: “É irracional não acolher experiências bem-sucedidas de outros países, tanto quanto é medíocre e ingênuo refugar soluções apenas porque são, na versão difamatória, jabuticabas”. Digo isso, porque falarei de uma jabuticaba que julgo de boa qualidade, que plantei no Congresso Nacional na época em que, com muito orgulho, representei o povo mineiro.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Novo PAC poderá provocar mesma ressaca do velho

O Globo

Em vez de ampliar gasto público e criar manobras contábeis, governo deveria tratar de atrair investimento privado

Chama a atenção o ineditismo da escolha do Theatro Municipal do Rio para relançar o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), marca dos governos petistas que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenta ressuscitar. Para transformá-lo em bandeira política, o governo faz de tudo para torná-lo o maior possível. Estarão sob o PAC investimentos de empresas públicas, como a Petrobras, e projetos de parcerias público-privadas. Tudo somado, o programa resulta em R$ 1,7 trilhão, cifra sob medida para reforçar o discurso do Planalto.

Carimbar qualquer obra como se fosse do PAC é o de menos. O país precisa de investimentos em infraestrutura. O erro, mais uma vez, é achar que o crescimento econômico precisa ser puxado pelo gasto público, como querem os petistas. Em sua encarnação anterior no Planalto, o partido já seguiu esse caminho, produzindo dívida e recessão.

Poesia | Machado de Assis - Minha Musa

 

Música | Ibrahim Ferrer - Perfidia

 

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Opinião do dia – Raymundo Faoro* (Um pouco de nossa formação)

Dom Pedro, ao passar de regente a Defensor Perpétuo do Brasil (13 de maio de 1822), trata de reorganizar as bases do listado, com o auxílio do gabinete José Bonifácio (janeiro de 1822 a julho de 1823). O encontro da nação com o príncipe importou, desde logo, na continuidade da burocracia de dom João, a burocracia transplantada e fiel ao molde do Almanaque de Lisboa, atrelada ao cortejo do futuro imperador. Sobre ela, nacionalizada nos propósitos mas não nos sentimentos, irá repousar a estrutura política do país. A confluência eufórica do 7 de setembro — onde se juntam sem se fundirem os liberais e os realistas — mal esconde os três rumos possíveis de opinião: os liberais (José Clemente Pereira, Gonçalves Ledo e Januário da Cunha Barbosa), embriagados pelos modelos revolucionários, os homens do estamento tradicional, rançosos de absolutismo, e, entre as duas vertentes, a conciliação precária de José Bonifácio. Flutuando entre todas, o príncipe, aclamado e coroado imperador (1.° de dezembro), com a autoridade preexistente ao pacto constitucional. A dispersa, desarticulada e fluida nação encontra, instalado no Rio de Janeiro, um arcabouço fechado, disposto a exercer uma vigilante ditadura sobre o país. O banho liberal, irradiado dos acontecimentos portugueses e brasileiros dos dois últimos anos, não permitia, entretanto, a passiva adoção do sistema absolutista. Não consentiam as circunstâncias, de outro lado, potencialmente desagregadoras, a cópia do modelo teórico do liberalismo europeu ou da democracia norte-americana. A organização do Estado entrelaça-se, dentro das tendências em conflito e sob o dilaceramento centrífugo das capitanias, ao cuidado superior de manter e soldar a unidade política do país, tarefa gigantesca e incerta diante dos obstáculos geográficos e dos valores provinciais não homogêneos. Apoiado no estado-maior de domínio, restos da corte de dom João VI, com os remanescentes dos militares e funcionários residentes no Rio de Janeiro, forte pelo apoio das províncias e do interior, solidariedade assegurada pela presença de José Bonifácio, o Defensor Perpetuo põe em movimento uma revolução do alto, "que o gênio de Turgot, poucos anos antes, concebera, como recurso extremo para salvar Luís XVI, aos rumores profundos de 89. Invertidas as suas fontes naturais, as reformas liberalíssimas, ampliando todas as franquias do pensamento e da atividade, iriam descer a golpes de decretos, à maneira de decisões tirânicas". Na cúpula, a estrutura absolutista, obsoleta e sem calor, procura acomodar-se à teoria política. "Vimos, de um salto" — sentiu Euclides da Cunha, em genial intuição — "da homogeneidade da colônia para o regime constitucional, dos alvarás para as leis. E ao entrarmos de improviso na órbita dos nossos destinos, fizemo-lo com um único equilíbrio possível naquela quadra: o equilíbrio dinâmico entre as aspirações populares e as tradições dinásticas."

*Raymundo Faoro (1925-2003), "Donos do Poder", 3ª Edição, p. 329-330. Editora O Globo, 2001.

Vera Magalhães - Lula mira no Rio diante de revés de Bolsonaro

O Globo

Turnê de lançamento do PAC, concessões a Castro e Paes e retomada de investimentos em óleo e gás fazem parte da estratégia de retomar liderança no Estado

Luiz Inácio Lula da Silva está em turnê no Rio. A solenidade com pompa e circunstância do novo PAC será apenas o clímax de uma visita estendida, planejada para marcar uma ofensiva política do presidente no estado com o qual viveu uma história de amor em seus mandatos anteriores — que acabou sem final feliz para ele e os parceiros de então.

Agora, diante dos graves reveses políticos e judiciais de Jair Bolsonaro, Lula investe para fincar a bandeira do governo federal na forma de investimentos e concessões no Rio, com o intuito evidente de chegar ao término de quatro anos tendo entregado mais para o estado e para sua capital que o antecessor, que tem neles sua base política.

Por mais que escorregue aqui e ali na retórica quando fala de improviso, Lula é imbatível na arte de, em cima de um palanque, entender rapidamente a maré do público e conquistá-lo para si.

Foi dessa forma que deu as mãos ao prefeito Eduardo Paes, político igualmente habilidoso, e passou um pito na plateia que começava a vaiar o governador Cláudio Castro, aliado de Bolsonaro quando foi alçado ao cargo pelo impeachment de Wilson Witzel e na bem-sucedida campanha à reeleição, mas que vem se mostrando o mais discreto dos governadores do triângulo do Sudeste agora, na fase do ocaso do capitão.

Bernardo Mello Franco - O muro de Castro

O Globo

Barreira na Linha Vermelha não é ideia boa nem nova; governador resiste a câmeras e quer enfrentar violência com tijolos

Cláudio Castro teve uma ideia para acabar com a violência na Linha Vermelha. Mandou erguer um muro nas laterais da via expressa.

Segundo o governador, a medida vai “garantir a segurança de todos que passam”. Faltou mencionar os que ficam: os moradores de bairros e favelas cortados pela autoestrada.

A Linha Vermelha cruza regiões historicamente dominadas pelo crime, como Vigário Geral e Maré. Em vez de prender os bandidos e libertar as comunidades, Castro quer escondê-las da visão dos motoristas de classe média.

A solução de segregar a pobreza não é boa nem nova. Em 2010, o prefeito Eduardo Paes mandou instalar barreiras de três metros de altura entre a Linha Vermelha e a Maré. Ao ser acusado de tentar ocultar a favela, disse que o objetivo era proteger os tímpanos de seus moradores.

Flávia Oliveira - Execução sumária

O Globo

Menino de 10 anos foi fuzilado por policiais militares quando se distraía com um telefone celular na porta de casa

Foi na exibição final de “Macacos”, monólogo que rendeu ao fenômeno Clayton Nascimento os prêmios Shell, APCA e Deus Ateu de melhor ator em teatro, que pude ver Therezinha, mãe de Eduardo. No Rio de Janeiro, quem tem empatia e memória não precisa nem de sobrenome nem de contexto para saber de quem se tratava. Ao ouvir os dois nomes, foi natural ser transportada para aqueles dias de abril de 2015 e todas as semanas, todos os meses seguintes ao drama do menino de 10 anos fuzilado por policiais militares quando se distraía com um telefone celular na porta de casa, no Complexo do Alemão.

Na peça, o ator, também autor e diretor da obra (eu disse fenômeno), encena os minutos finais da criança inocente, a dor visceral da mãe ao saber do filho morto, o encontro póstumo, que só o teatro e a fé tornam possível. Anos atrás, Therezinha se emocionou ao saber da indignação, da denúncia, da homenagem em forma de arte, e foi ao encontro de Clayton. Desde então, não é incomum vê-la no espetáculo. Naquele domingo de julho, o último da temporada carioca, ela saiu da plateia, subiu no palco e fez um apelo por justiça por seu filho, o menino de 10 anos fuzilado por policiais militares quando se distraía com um telefone celular na porta de casa, no Complexo do Alemão:

Luiz Carlos Azedo - Segurança pública e direitos humanos são velhas prioridades

Correio Braziliense

A segurança pública não pode ser tratada como um problema estadual, tanto nas cidades brasileiras quanto nas florestas da Amazônia. Exige a presença forte do governo federal

Uma das características de países de dimensões continentais como o Brasil é a dificuldade de dar um cavalo de pau do rumo das coisas. É mais ou menos como a diferença da capacidade de manobra do jet-ski para a de um graneleiro de grande porte, que vira de proa lentamente e, por causa da inércia, precisa da ajuda de rebocadores para atracar com segurança nos portos. Governos podem mudar de prioridades abruptamente, mas isso é muito raro, porque pode ser considerado um estelionato eleitoral.

O Plano Real foi um cavalo de pau na economia, mas havia uma necessidade real, por causa da hiperinflação, e um certo consenso nacional de que algo de novo deveria ser experimentado, diante do fracasso de sucessivos planos econômicos, desde o Plano Cruzado, no governo José Sarney. O Plano Collor fora um grande fracasso e o presidente Itamar Franco, que assumira a Presidência, diante da falta de horizonte, decidiu inovar. Com a transferência do então ministro de Relações Exteriores, Fernando Henrique Cardoso, para o Ministério da Fazenda, montou-se uma das melhores equipes econômicas de que se tem conhecimento.