domingo, 2 de agosto de 2026

O futuro em jogo, por Merval Pereira

O Globo

Já está ficando claro que a economia, seja qual for o presidente eleito, necessitará de uma ampla reforma para conter o déficit público.

Sempre tivemos uma base de cerca de 40% dos eleitores que escolheram votar contra Lula nas eleições presidenciais de que participou desde 1989. Com candidatos como Collor ou Aécio Neves, esse número subiu, e não havia extrema-direita nessas disputas. Com o surgimento de Bolsonaro, a retórica foi estressada e a essa massa de votantes antilulistas agregou-se uma atuação violenta, tanto física quanto verbal, e antidemocrática, o país ficou claramente dividido.

A eleição de 2026 pode ser a última com essa característica, pois Lula, se eleito, já estará com 85 anos em 2030, e não poderá se candidatar a um quinto mandato. Bolsonaro, sem a anistia que seus aliados prometem, estará fora da disputa política e terá constatado que não basta indicar um candidato para vencer. No PT, não há sinais de que o pós-Lula trará algum líder do seu tamanho, e assim como os partidos que Brizola criou - PTB e PDT - não são forças políticas relevantes hoje, o PT pode continuar existindo, mas não terá importância política. O mesmo aconteceu com o PSDB, que hoje não é o mais pálido reflexo da época de Fernando Henrique Cardoso.

A eleição de 2030 pode ser o recomeço de um ciclo partidário, e seria bom que o Congresso a ser eleito este ano não se preocupasse apenas com as emendas parlamentares, e fizesse uma reforma geral que incluísse a partidária, necessária a que o país retome a possibilidade de fazer parte de um mundo democrático civilizado, com regras claras e contenções, que hoje parecem não existir, inclusive no Judiciário e no Executivo.

Já está ficando claro que a economia, seja qual for o presidente eleito, necessitará de uma ampla reforma para conter o déficit público. O cotidiano nos mostra que também no plano social teremos que fazer mudanças mais profundas, pois já não bastam benefícios que não mudam a estrutura da sociedade, que continua desigual em níveis inaceitáveis. A começar pela educação, base de qualquer mudança estrutural que se pretenda fazer no país.

É surpreendente que sucessivos governos não consigam melhorar o nível educacional de nosso ensino, que deveria ser o ponto principal de qualquer governo. É exemplar desse descaso a campanha presidencial que fez o ex-ministro Cristovam Buarque em 2006, jocosamente apelidado de “candidato de uma nota só” porque tratava basicamente da questão educacional, que obteve apenas 2,4% dos votos. Vinte anos depois, a situação continua sem solução, apesar dos avanços que já tivemos, desde o acesso à escola até o financiamento do ensino fundamental e básico. Os resultados de nossos estudantes nos testes internacionais continuam sendo lastimáveis em comparação com outros países.

Não se ouvem propostas dos candidatos para um projeto de futuro para o país, problemas antigos continuam a nos assombrar, novos surgem, o imediatismo da política ditando as retóricas populistas dos candidatos. Segurança pública e corrupção são a bola da vez, assim como já foram a saúde, a educação. Flavio Bolsonaro não consegue montar sua chapa para a eleição de outubro, e fica claro que as dificuldades do candidato continuam. Todos os acontecimentos recentes o prejudicam e neutralizam a capacidade do bolsonarismo de mobilizar apoios.

Se, apesar de tudo, Flavio se mostrar resiliente e capaz de chegar ao segundo turno com competitividade, vai atrair os apoios que se negam agora. O problema é que ninguém acredita que ele possa chegar bem. Lula, com a novidade de o filho estar sendo investigado pela Polícia Federal, com o apoio do ministro do Supremo André Mendonça, pode perder votos, os independentes serem estimulados a voltar para a direita. Está tudo indefinido e, na indefinição, Flavio perde para Lula, que além da sua história, tem a máquina pública a seu favor e vai abusar do poder de ser incumbente, como todos fazem. Até agora, Flavio tem demonstrado pouca firmeza, sem conseguir apoio dentro de sua gente. Se tivesse conseguido Teresa Cristina para vice, estaria de volta ao jogo.

 

2 comentários:

ADEMAR AMANCIO disse...

Tomara que este radicalismo entre direita e esquerda acabe em 2030,não vejo a hora,essa bobagem já deu.

Anônimo disse...

Fico observando o jornalista Merval Pereira, tão conceituado , fazer todo uma narrativa já considerando o Lula vitorioso e o Flávio Bolsonaro derrotado a imprensa realmente hoje tem lado e é o lado do PT e da esquerda isso é uma lástima o bom jornalismo na grande mídia parece que morreu ou será que foi todo mundo comprado pelas verbas do sidônio da comunicação oficial?