O Globo
É sobre Ed Sheeran que recai a dúvida de como
atravessar o rio da vida que agora se impõe à sua frente
“Ninguém pode construir em teu lugar as
pontes que precisarás passar para atravessar o rio da vida — ninguém, exceto
tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que
se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria tua própria
pessoa; tu te hipotecarias e te perderias. Existe no mundo um único caminho por
onde só tu podes passar. Onde leva? Não perguntes, segue-o!”
A consideração tem pedigree nobilíssimo (Nietzsche) e volta e meia surge na tela de quem navega na web entre citações de autoajuda. Ainda bem, senão seria preciso enfronhar-se na obra possivelmente impenetrável de que foi pinçada (“Schopenhauer como educador”, de 1874). A consideração nietzschiana tem mil e uma utilidades — serve tanto para desancar os juízes do nosso Supremo Tribunal Federal como para, aqui, explicar o dilema que na semana passada incendiou a cena musical planetária.
Tudo começou com a celebrada Loop Tour 2026
do pop star britânico Ed Sheeran,
iniciada em janeiro na cidade de Auckland, Nova Zelândia,
com encerramento previsto para dezembro na Cidade do
México. Do total de 59 shows da turnê, os primeiros foram na Oceania, 27
seriam nos Estados
Unidos e 15 na América Central e do Sul (dois deles, nos dias 5 e 6 de
dezembro, na arena Nubank Parque em São Paulo).
Para quem não acompanha de perto o universo
dos megastars, Sheeran, de 35 anos, é mega, mas de índole reservada. Os fãs
planetários que lhe renderam US$ 875 milhões na turnê anterior gostam
justamente do estilo low
profile do ídolo de cabelos ruivos — ele se apresenta tocando
apenas violão (ou guitarra acústica) e uma loop
station (pedal de efeitos). Os 15 primeiros shows da Loop Tour na
América do Norte (3 no Canadá
e 12 nos Estados Unidos) foram só alegria. A encrenca se deu no início de
setembro, em duas apresentações no Met Life Stadium, de Nova Jersey, o mesmo
que abrigou a estreia do Brasil e a final da Copa do Mundo deste ano.
Naquelas duas noitadas, o rapper americano de
origem irlandesa Macklemore, escalado para abrir o show de Sheeran na turnê
inteira, informou ao público que aceitara a convocação para ter a oportunidade
de dizer duas palavras ao mundo: “Free Palestine” (Palestina Livre).
Duas palavras consideradas tóxicas pelo bilionário Robert Kraft, dono do
Gillette Stadium (nos arredores de Boston), onde a Loop Tour tem agendados dois
shows na próxima semana. Mas sem Macklemore, dispensado por ordem do dono da
bola. A notícia explodiu feio. Na sequencia, as demais bandas de abertura de
Sheeran se retiraram em solidariedade ao rapper.
Kraft, dono também do time New England
Patriots, multicampeão de futebol americano, além de uma fortuna estimada pela BBC em US$ 15 bilhões
(R$ 77 bilhões), teria ido além de seu latifúndio direto. Ele teria alertado o
popstar que outros proprietários de arenas da NFL poderiam proibir as
apresentações se a participação do rapper não fosse vetada. O jogo é bruto, e o
ônus recairia sobre a turnê. Pelas estimativas de Bill Zysblat feitas ao
Financial Times, Sheeran poderia ser multado em US$ 5 milhões e US$7 milhões
por espetáculo que eventualmente viesse a cancelar — e dificilmente teria
cobertura de seguradora para no show.
A posição de Kraft, um dos mais preeminentes
filantropos judeus dos Estados Unidos, além de aliado de Donald Trump, segue a
lógica de quem não quer, ou não consegue, separar antissemitismo de
antissionismo. Além disso, o rapper Macklemore andava atravessado na garganta
do magnata desde 2014, quando se apresentou envergando um narigão prostético,
barba preta e peruca de caricatura, desculpando-se posteriormente.
A posição de Macklemore, defensor há tempos
da causa palestina, tampouco é nova.
É sobre Ed Sheeran que recai a dúvida de como
atravessar o rio da vida que agora se impõe à sua frente: prosseguir com a
turnê de olhos vendados para o mundo? Ou cancelar parcial ou integralmente o
resto da Loop Tour para remendar o que talvez não seja mais consertável? Até
agora, a estratégia de manter-se ao largo da política (“I am not Mr.
Political”, frase cunhada em 2017) combinava com o postar manso que atrai
multidões. Ao mesmo tempo, ele se beneficiava indiretamente do posicionamento claro
pró-Palestina das bandas de abertura que o acompanham.
Não mais. Terá de optar. Não apenas ele,
como, em algum momento, cada um de nós.
— Existem, por certo, atalhos sem números, e
pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te
custaria tua própria pessoa — escreveu Nietzsche.
Duas palavras compreensíveis em qualquer
idioma — Palestina livre — continuam a ser deliberada e sistematicamente
arrancadas de seu significado mais simples e cristalino. Elas pedem apenas
isso: uma Palestina livre.

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