domingo, 20 de setembro de 2026

Duas palavras, por Dorrit Harazim

O Globo

É sobre Ed Sheeran que recai a dúvida de como atravessar o rio da vida que agora se impõe à sua frente

“Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar para atravessar o rio da vida — ninguém, exceto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias. Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Onde leva? Não perguntes, segue-o!”

A consideração tem pedigree nobilíssimo (Nietzsche) e volta e meia surge na tela de quem navega na web entre citações de autoajuda. Ainda bem, senão seria preciso enfronhar-se na obra possivelmente impenetrável de que foi pinçada (“Schopenhauer como educador”, de 1874). A consideração nietzschiana tem mil e uma utilidades — serve tanto para desancar os juízes do nosso Supremo Tribunal Federal como para, aqui, explicar o dilema que na semana passada incendiou a cena musical planetária.

Tudo começou com a celebrada Loop Tour 2026 do pop star britânico Ed Sheeran, iniciada em janeiro na cidade de Auckland, Nova Zelândia, com encerramento previsto para dezembro na Cidade do México. Do total de 59 shows da turnê, os primeiros foram na Oceania, 27 seriam nos Estados Unidos e 15 na América Central e do Sul (dois deles, nos dias 5 e 6 de dezembro, na arena Nubank Parque em São Paulo).

Para quem não acompanha de perto o universo dos megastars, Sheeran, de 35 anos, é mega, mas de índole reservada. Os fãs planetários que lhe renderam US$ 875 milhões na turnê anterior gostam justamente do estilo low profile do ídolo de cabelos ruivos — ele se apresenta tocando apenas violão (ou guitarra acústica) e uma loop station (pedal de efeitos). Os 15 primeiros shows da Loop Tour na América do Norte (3 no Canadá e 12 nos Estados Unidos) foram só alegria. A encrenca se deu no início de setembro, em duas apresentações no Met Life Stadium, de Nova Jersey, o mesmo que abrigou a estreia do Brasil e a final da Copa do Mundo deste ano.

Naquelas duas noitadas, o rapper americano de origem irlandesa Macklemore, escalado para abrir o show de Sheeran na turnê inteira, informou ao público que aceitara a convocação para ter a oportunidade de dizer duas palavras ao mundo: “Free Palestine” (Palestina Livre). Duas palavras consideradas tóxicas pelo bilionário Robert Kraft, dono do Gillette Stadium (nos arredores de Boston), onde a Loop Tour tem agendados dois shows na próxima semana. Mas sem Macklemore, dispensado por ordem do dono da bola. A notícia explodiu feio. Na sequencia, as demais bandas de abertura de Sheeran se retiraram em solidariedade ao rapper.

Kraft, dono também do time New England Patriots, multicampeão de futebol americano, além de uma fortuna estimada pela BBC em US$ 15 bilhões (R$ 77 bilhões), teria ido além de seu latifúndio direto. Ele teria alertado o popstar que outros proprietários de arenas da NFL poderiam proibir as apresentações se a participação do rapper não fosse vetada. O jogo é bruto, e o ônus recairia sobre a turnê. Pelas estimativas de Bill Zysblat feitas ao Financial Times, Sheeran poderia ser multado em US$ 5 milhões e US$7 milhões por espetáculo que eventualmente viesse a cancelar — e dificilmente teria cobertura de seguradora para no show.

A posição de Kraft, um dos mais preeminentes filantropos judeus dos Estados Unidos, além de aliado de Donald Trump, segue a lógica de quem não quer, ou não consegue, separar antissemitismo de antissionismo. Além disso, o rapper Macklemore andava atravessado na garganta do magnata desde 2014, quando se apresentou envergando um narigão prostético, barba preta e peruca de caricatura, desculpando-se posteriormente.

A posição de Macklemore, defensor há tempos da causa palestina, tampouco é nova.

É sobre Ed Sheeran que recai a dúvida de como atravessar o rio da vida que agora se impõe à sua frente: prosseguir com a turnê de olhos vendados para o mundo? Ou cancelar parcial ou integralmente o resto da Loop Tour para remendar o que talvez não seja mais consertável? Até agora, a estratégia de manter-se ao largo da política (“I am not Mr. Political”, frase cunhada em 2017) combinava com o postar manso que atrai multidões. Ao mesmo tempo, ele se beneficiava indiretamente do posicionamento claro pró-Palestina das bandas de abertura que o acompanham.

Não mais. Terá de optar. Não apenas ele, como, em algum momento, cada um de nós.

— Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria tua própria pessoa — escreveu Nietzsche.

Duas palavras compreensíveis em qualquer idioma — Palestina livre — continuam a ser deliberada e sistematicamente arrancadas de seu significado mais simples e cristalino. Elas pedem apenas isso: uma Palestina livre.

 

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