domingo, 20 de setembro de 2026

Os tempos de Daniel Vorcaro, por Míriam Leitão

O Globo

O rastreamento do dinheiro de Vorcaro está sendo bem sucedido. Ele agora aposta nas confusões do STF e numa troca de governo

O que Daniel Vorcaro não esperava no tempo da economia está virando realidade: o rastreamento do dinheiro externo tem sido bem sucedido e estão sendo encontrados mais ativos do que ele acreditava que o processo de liquidação conseguiria achar. O liquidante contratou empresas especializadas em rastreamento. Foi localizado um fundo que havia recebido fluxo de recursos através de vários intermediários, entre eles Antônio Carlos Freixo Júnior, o mineiro. Os ativos do fundo, na ordem do bilhão, foram congelados e serão usados como pagamento do passivo de Vorcaro. Há outros ativos sendo rastreados.

Enquanto isso, na Casa da Justiça, a vida do ex-banqueiro, que comprava políticos e juízes, tem sido facilitada pela confusão. Se todos brigam e não se sabe sequer quem está na relatoria do Caso Master no STF, Vorcaro pode fazer o que fez sexta: pedir o relaxamento da prisão. Seus advogados aguardam o tempo certo para pedir a nulidade do processo.

No Supremo Tribunal Federal todos se acusam. E todos têm razão. O ministro Alexandre de Moraes foi acusado pelo ministro André Mendonça de ter recebido mensagens de Vorcaro que deveriam ser investigadas. Mendonça tem razão. Os ministros Alexandre e Gilmar Mendes acusam André Mendonça de ter sido seletivo, e tomado decisões com finalidades eleitorais. Eles têm razão. O ministro Flávio Dino defendeu, junto a Gilmar Mendes, que todos os casos de ministros de tribunais superiores e magistrados que estejam implicados no caso Vorcaro sejam investigados. Dino tem razão. Mas ainda não se sabe o tempo em que isso acontecerá e nesse atraso ninguém tem razão.

O que dizem os que acompanham o caso Daniel Vorcaro desde o começo é que ele espera o tempo da política, apostando numa mudança de governo. Estaria contando com a confusão no STF, e um resultado eleitoral favorável, para que possa se sair melhor do que está hoje.

No processo de liquidação do banco ele não pode contar com a mesma sorte. Seu tempo acabou. O Master não existe mais, ele não poderá reverter o processo, como chegou a defender, usando seus braços no Congresso, na Justiça e no Tribunal de Contas.

— O banco em si acabou, não tem o que fazer. Mas tenho pouca dúvida de que ele está esperando um resultado eleitoral favorável para que possa reembaralhar as cartas — me disse uma fonte que acompanha o caso de dentro.

Houve um tempo em que Vorcaro achava que poderia sair da prisão e reverter a liquidação. Ficaria com um banco menor, mas como metade do passivo já havia sido pago pelo Fundo Garantidor de Crédito, ele calculava que conseguiria retomar os negócios. Se os precatórios fossem pagos poderia se reerguer de alguma forma.

Vorcaro demonstrou irritação recentemente ao perceber que os ativos que tinha no exterior estavam sendo encontrados. Ele imaginava que não existia caminho para o dinheiro. Errou. Agora alguns dos seus laranjas têm se apresentado à Justiça americana se dizendo donos reais do dinheiro e entrando em disputa com os liquidantes.

Os recursos encontrados no Brasil e no exterior serão usados para pagar credores. Primeiro, a dívida trabalhista. Em seguida será ressarcido o Fundo Garantidor de Crédito e depois os investidores qualificados como os fundos de pensão dos servidores públicos. O processo de liquidação teria conseguido ativos, aqui e lá fora, em torno de 60% do passivo.

Daniel Vorcaro nunca se mostra como culpado, e sim como um perseguido. Na verdade, nas palavras de uma autoridade que eu ouvi, ele não se apresenta como um inocente. Ele se comporta como se fosse vítima de uma injustiça.

— Afinal, ele pagou por uma proteção que não teve e hoje está preso.

Flávio Bolsonaro, de todos os competidores pela cadeira de presidente do Brasil, é o único que está diretamente envolvido no caso Master. Pediu dinheiro, foi à casa do ex-banqueiro depois que ele havia sido preso, recebeu dinheiro, e fez a ele juras de amizade eterna.

O candidato aproveita a poeira do escândalo que se espalhou pelo Planalto Central para fingir. Quando houve a sessão do Supremo, aquela que nunca terminou, ele disse o seguinte: “Ninguém mais aguenta os ministros do Lula atrapalhando a nossa democracia. Sem os ministros do Lula, a democracia vive”. Ele é filho de Jair Bolsonaro, que tentou um golpe de Estado, e sempre defendeu a ditadura militar. Nesta estranha campanha, Flávio Bolsonaro diz defender a democracia.

 

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