terça-feira, 24 de abril de 2012

"Volta Lula" ou "fica Dilma" :: Eliane Cantanhêde


O Datafolha brindou Dilma com duas excelentes notícias: sua popularidade bate recordes, mas o eleitor quer Lula em 2014.

O motivo de comemoração pela aprovação de 64% é óbvio: nunca antes na história do Datafolha um presidente chegou a tanto nessa mesma fase de governo.

Já a festa porque a maioria (57%) prefere Lula em 2014 a ela (32%) não tem nada de óbvia, mas talvez seja até mais importante: além de governar, de ser obrigada a demitir uma penca de ministros herdados e de ter de conviver com uma CPI, Dilma tem que administrar um dado político fundamental -o ego do padrinho.

A pesquisa ajuda a acalmar a ansiedade e a espantar os fantasmas de Lula, que, nas conversas com aliados, não para de reclamar da imprensa, da oposição e da "elite". Quanto mais Dilma acerta e cresce, mais ele alimenta a paranoia de que tentam "desconstruir a sua imagem".

Lula está absolutamente convencido de que foi o melhor presidente da história da humanidade, mas os adversários (entre os quais inclui a imprensa) não reconhecem. Insistem em dizer que o mensalão existiu, que ele impôs ministros que Dilma teve de defenestrar e que seu governo foi marcado por uma alegre convivência com fichas-sujas e oligarcas.

Ele não suporta ver a sua criatura se tornando mais admirada do que o criador. Sente-se injustiçado, senão perseguido, e reage com mágoa e rancor. Seu apoio à CPI é resultado desse sentimento: "doa a quem doer", ou seja, "doa ou não em Dilma".

O Datafolha é um bálsamo para as dores de Lula, que agora pode vangloriar-se pela escolha de Dilma como sucessora e continuar sentindo-se o "mais", o "melhor", o "mais amado", o "candidato dos sonhos".

Bálsamo para Lula, alívio para Dilma, que é cheia de dedos com Lula, ouvindo-o, reverenciando-o, mantendo-o no pedestal.

O resto é questão de tempo: até 2014, o "volta Lula" deve lentamente deslizar para o "fica Dilma".

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

A Europa no seu labirinto:: Clóvis Rossi


A austeridade pura e dura perde, mas resta o problema de como financiar os Estados

Dois eventos do fim de semana demonstram que a Europa está entalada não apenas em uma crise econômica, mas também política e até anímica. Primeiro, a eleição francesa. Perde o presidente identificado com a rígida política de austeridade imposta pela Alemanha.

Segundo, a queda do governo holandês, forçada pela extrema direita que dava apoio externo a uma coligação de liberais e democrata-cristãos. A extrema direita rejeita a austeridade e por isso descolou-se dos partidos que querem ampliá-la.

Falando apenas da França, Andrés Ortega, um dos mais lúcidos analistas espanhóis, escreve para "El País": "O resto dos europeus devemos agradecer por estas eleições: entrou na campanha a necessidade de que a Europa tenha uma política de crescimento, e não só de austeridade. Está se abrindo caminho para a ideia (...) de que a austeridade cega e bruta não assegura crescimento, mas o contrário, e ao final obrigará a mais austeridade e condenará à depressão".

De fato, o primeiro colocado na França, o socialista François Hollande, foi claro ao defender a tese de que a disciplina fiscal é, sim, necessária, mas é também insuficiente (na verdade, é daninha) se não houver crescimento.

Hollande repetiu no domingo que vai defender a mudança do pacto fiscal europeu para incluir crescimento, além da austeridade.

Com essa tese, ficou em primeiro lugar. Mas é preciso levar em conta que os candidatos antissistema (a extrema direita, a esquerda de Jean-Luc Mélenchon e candidatos nanicos) levaram algo em torno de 35% dos votos, mais que Hollande (28,6%).

Dá para entender esse labirinto quando se considera que a gestão Sarkozy foi a evidência de que a austeridade nem produz crescimento nem está reduzindo deficit e dívida. O crescimento médio do quinquênio foi inferior a 1% ao ano; o desemprego pulou para 10%, o mais alto em 12 meses; a dívida passou de 64,8% do Produto Interno Bruto para 86,2%; e o deficit foi para 5,7%, quase o dobro dos 3% que são o teto autorizado pelo tratado que instituiu o euro.

Fica então combinado que austeridade, por si só, não está dando resposta nem às angústias do eleitor nem aos temores do mercado de que a dívida fique impagável.

O problema é que estimular o crescimento, como parece pedir o eleitor, custa caro, ainda mais que é preciso manter o Estado de Bem-Estar Social de que a Europa se orgulha -e com razão.

O Estado francês não consegue, desde 1974, cobrir o que gasta apenas com o que arrecada. Precisa tomar dinheiro nos mercados, que, obviamente, cobram mais.

O diferencial entre o que a França paga para rolar sua dívida na comparação com o padrão que é a Alemanha passou de praticamente zero em 2006 para 1,90 ponto percentual em novembro, quando a crise grega ardia, caiu para 1,41 ponto na semana passada, mas subiu ontem para 1,54.

Se os mercados continuarem a votar na contramão do voto dos eleitores contra a austeridade pura e dura, o labirinto europeu ficará ainda mais complexo, como dito aqui mesmo há uma semana.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Dúvida francesa:: Míriam Leitão


A França parou de crescer, o desemprego subiu, a dívida aumentou com a crise de 64% para 87% do PIB, o gasto público é alto e os impostos já são bem elevados. Governar o país nos próximos cinco anos não será fácil, mas a esquerda e a direita disputarão ferozmente nestas duas semanas até o segundo turno. O quadro que saiu das urnas é favorável ao Partido Socialista de François Hollande. A incerteza continuará até a eleição parlamentar.

A decisão a ser tomada pelo eleitorado francês no dia 6 de maio não encerra a definição de como será o governo. Como a França é um regime semipresidencialista, o Parlamento tem muito poder. Se Hollande ganhar, mas não conseguir maioria no legislativo, terá que se formar um governo que eles chamam de coabitação, em que a governabilidade é ainda mais difícil. Por outro lado, quem negocia com a Europa é o presidente. O interlocutor de Angela Merkel no comando da crise mudará se o Partido Socialista ganhar. Hollande já se posicionou contra propostas que foram firmadas entre os dois países.

A diferença de percentual de votos entre François Hollande e Nicolas Sarkozy foi muito pequena no primeiro turno, mas Hollande sai como favorito nesta corrida final. A primeira vantagem será na distribuição de votos. Os 10% de Jean-Luc Mélenchon, de extrema-esquerda, devem ir quase integralmente para Hollande, que deve ficar também com 1/3 dos votos do partido de centro de François Bayrou, e outro terço deve se abster. A espantosa votação de 18% de Marine Le Pen vai preferencialmente para Sarkozy, mas uma parte vai se abster, e outra parte tende a votar na esquerda. Nem todo voto de Le Pen é ideológico. Um percentual é de protesto.

Sarkozy fez ontem acenos aos eleitores de Le Pen. Para atrair os votos ideológicos da Frente Nacional, ele terá que ir mais para a direita, o que o fará perder votos do centro. Já Hollande poderá caminhar para o centro.

A segunda vantagem de Hollande é o desgaste de Sarkozy depois de cinco anos de governo. Tem ainda a maldição da crise, que está derrubando governos em toda a Europa. Já tiveram que entregar seus cargos para a oposição o britânico Gordon Brown, o grego Papandreau, o espanhol Zapatero. Caiu também o governo italiano de Berlusconi.

Sarkozy pode crescer no debate, porque Hollande é conhecido por sua falta de carisma. Por isso, o presidente atual propôs três confrontos. Hollande quer apenas um.

Para ajustar as contas, os dois candidatos prometeram aumentar os impostos sobre os mais ricos, só que Hollande chegou a falar em 75%, o que é muito até para um país acostumado com altas alíquotas de Imposto de Renda. A diferença entre os dois é de quem cobrar e de que forma recolher esse imposto extra que recairia sobre grandes empresas e os mais ricos. Os dois prometeram construir mais habitação para reduzir o preço dos imóveis.

Na educação, Hollande promete criar 60 mil postos de trabalho; já Sarkozy promete não renovar 50% das vagas de professores que forem se aposentando, exceto os do ensino fundamental. Para criar mais empregos, Hollande quer eliminar incentivos fiscais às horas extras e dar incentivo fiscal para a empresa que contratar jovens. Sarkozy quer implementar o que ele chama de pactos de competitividade entre empregadores e trabalhadores. Nenhum dos dois tem proposta convincente para enfrentar o desemprego, que era de 7% antes da crise e agora está em 10%, e entre jovens é 21%. Nenhum dos dois prometeu reformas estruturais que realmente enfrentem a crise.

O banco francês BNP Paribas analisou os programas dos candidatos. Sarkozy promete colocar as contas em ordem até 2016, com dois terços do ajuste via cortes de gastos e um terço por aumento de receita. Hollande quer um ano a mais de tempo e tem estratégia que depende mais do crescimento econômico porque metade do seu ajuste será por aumento de arrecadação. Mas eles não detalharam onde passarão a tesoura. O ajuste será difícil porque a economia está crescendo pouco. O BNP projeta alta de 0,5% este ano e 1% em 2013. Isso deve elevar o desemprego para 10,6%.

Ontem foi dia de queda das bolsas e a França era um dos motivos, mas não o único. O mundo está mais pessimista e o dia foi de somar preocupações. Na Holanda, o primeiro-ministro não teve consenso para as medidas de austeridade e renunciou. O PMI da Zona do Euro - índice das intenções de compra dos gerentes das empresas, que antecipa a atividade industrial - mostrou contração. Da China vieram números da produção industrial que dividiram opinião no mercado: alguns analistas acham que não foram tão ruins, outros lembram que não mostram retomada do crescimento. O PIB da Espanha fechou no negativo o primeiro trimestre do ano, levando o país à recessão. A França também divulgou números negativos na indústria, mostrando que está se confirmando o cenário de estagnação. A incerteza no país ainda permanecerá por algum tempo, e se Hollande ganhar haverá uma dose a mais de dúvida até que se saiba como afinal ele governará. Todas essas notícias ruins somadas, as bolsas caíram.

É nesse contexto que acontecem as eleições francesas, que têm roteiro de romance de suspense. Tudo começou com a prisão de Dominique Strauss-Khan, do Partido Socialista, por acusação de estupro de uma camareira em Nova York, quando ele liderava as pesquisas com 60% das intenções de voto. As duas próximas semanas serão emocionantes na França.

FONTE: O GLOBO

A estupidez da inteligência :: Vladimir Safatle


"Uma das lições que Hitler deixou é como, às vezes, é estúpido ser inteligente." Eis uma frase de Adorno e Horkheimer que os franceses deveriam meditar. Os filósofos de Frankfurt aludiam a essas explicações articuladas e cheias de dados que provavam, de maneira absolutamente convincente, a impossibilidade dos nazistas chegarem ao poder na Alemanha.

Em 2002, após o resultado das eleições francesas que colocou a extrema direita de Jean-Marie Le Pen no segundo turno, lembro-me de ouvir explicações da mesma natureza.

Um professor universitário amigo demonstrava, por exemplo, que o problema todo fora a inépcia do governo socialista em marcar eleição em época de feriado escolar, o que teria aumentado a abstenção dos professores.

Como no caso de Adorno e Horkheimer, ninguém queria ver o óbvio, a saber, que havia uma enorme faixa de eleitores racistas, xenófobos dispostos a, agora, falar em voz alta. Faixa que devia ser combatida como prioridade política número um, em vez de "analisarmos sem preconceitos".

Exatos dez anos depois, um fenômeno semelhante acontece. Agora, a França é o país europeu que tem a extrema direita mais forte (17,9% para sua candidata, Marine Le Pen).

No entanto esse número é muito maior, já que seu presidente, Nicolas Sarkozy, é daqueles que não sente dor no coração quando mobiliza os sentimentos mais baixos da população (como a islamofobia, a caça a ciganos e os discursos sobre "o homem africano que não entrou na história").

O verdadeiro objetivo maior dessa eleição era retirar a Frente Nacional da posição de definidor da pauta do debate político. O único candidato que compreendera isso foi o esquerdista Jean-Luc Mélenchon, que levou uma batalha solitária contra os temas da extrema direita e em favor de uma sociedade mestiça. Ele chegou a aparecer em terceiro lugar nas pesquisas, mas perdeu fôlego na reta final.

A razão para tal esgotamento lança luz sobre a estupidez da inteligência. Um dos traços maiores dessa eleição foi a exposição da inutilidade dos intelectuais.

Em vez de insistir na importância de retirar a Frente Nacional da cena política, os mais midiáticos se deleitaram em atirar contra Mélenchon e seus traços "jacobinos" (como o fez Michel Onfray e os verdes) ou fazer pregação suicida pelo voto nulo (como o fez Alain Badiou), como se estivéssemos em 68, com suas brigas entre a esquerda libertária, os comunistas e a miríade de grupelhos.

Com isso, os intelectuais de esquerda só serviram para desmobilizar e fazer vista grossa diante de uma catástrofe anunciada. Prova de que a inteligência é sempre a última a ver o abismo. Há de perguntar quem precisa de inteligência parecida.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Extrema-direita faz cair governo holandês


Premier renuncia ante pressão sobre ajuste exigido pela EU

Deborah Berlinck

GENEBRA. A crise na Europa continua castigando quem está no poder. Um dia após o presidente Nicolas Sarkozy sofrer uma derrota no primeiro turno das eleições francesas, ontem foi a vez de o governo da Holanda cair. Só nos últimos três anos, foram 15 os líderes europeus enxotados pela crise. Os holandeses são os únicos, junto com os alemães, a manter a nota AAA, a máxima dada pelas agências de classificação de risco.

Já na República Tcheca, o primeiro-ministro Petr Necas, de centro-direita, está por um fio. Acuado por divisões e brigas na coalizão por medidas de austeridade impopulares, Necas convocou o Parlamento na próxima sexta-feira a dar um voto de confiança sobre seu governo. Ele anunciou ontem que provavelmente já assegurou a maioria dos votos.

Na Holanda, ironicamente, quem se viu forçado a renunciar foi Mark Rutte, o primeiro-ministro que mais criticou os vizinhos por fracassarem em ajustar suas contas. E Rutter caiu por ter falhado em aprovar, no fim de semana, um pacote de austeridade para reduzir o déficit a menos de 3%, nível exigido pela regra europeia.

O pacote que Rutte negociava previa cortes em ajuda a outros países e aumento da idade de aposentadoria dos holandeses de 65 para 66 anos. O principal aliado do primeiro-ministro, o populista de extrema-direita Geert Wilders, conhecido crítico da União Europeia, abandonou o encontro do fim de semana em protesto, alertando que seguir à risca regras europeias só vai prejudicar a economia holandesa.

Geert Wilders critica "ditadores de Bruxelas"

Ainda não há data para novas eleições, mas a oposição pressiona para que seja o mais breve possível. Amanhã, Rutte vai discutir com o Parlamento a data, bem como medidas provisórias para manter as finanças em ordem. Uma das agências de classificação de risco, a Fitch, alertou que a Holanda poderá perder um dos seus três A, como aconteceu com a França, dependendo do pacote de orçamento definido.

A crise no governo da Holanda é o exemplo mais vivo de um debate que divide hoje a Europa. A discussão é se as grandes economias, como a Holanda, deveriam adotar medidas de austeridade que estão causando trauma em Grécia, Espanha e Portugal.

Muitos economistas - e também a presidente Dilma Rousseff - alertam que, se todos os Europeus partirem para a austeridade, o continente não vai ter como retomar o crescimento.

Na Holanda, o Banco Central quer disciplina para manter as contas em ordem. Mas Wilders, do Partido para a Liberdade (PVV), deu um basta:

- Não queremos que nossos aposentados sofram por causa dos ditadores em Bruxelas.

A vice-presidente da Comissão Europeia, a holandesa Neelie Kroes, do mesmo partido de Rutte, chamou Wilders de hipócrita. Holanda e Alemanha, lembrou, foram os que mais lutaram para que a UE adotasse uma regra limitando em 3% o déficit de cada país no bloco.

O ministro das Finanças da Holanda, Jan Kees de Jager, disse que ainda é possível chegar a um acordo no Parlamento para mais cortes no Orçamento de 2013. A Holanda vai apresentar sua proposta de gastos a Bruxelas no dia 30 de abril.

- Mostraremos aos mercados financeiros que décadas de disciplina orçamentária na Holanda vão permanecer - disse Jager, antes de o premier apresentar a renúncia à rainha Beatrix.

Os mercados reagiram mal à confusão na Holanda e aos últimos indicadores das economias do continente. Ontem, de Paris e Frankfurt a Milão e Madrid, as bolsas sofreram violentas oscilações.

FONTE: O GLOBO

Crédito foi fraco em março:: Vinicius Torres Freire


Banca estatal já respondia por dois terços do aumento do crédito desde outubro. Terá fôlego para mais?

O crédito para pessoas físicas não deve ter crescido quase nada em março. Sim, maio já está aí, mas apenas nesta semana sai o balanço oficial das operações de crédito daquele mês. A estimativa do março murcho foi divulgada ontem pelos economistas da Febraban, a associação nacional dos bancos.

Abril terá sido muito melhor? Ao menos na propaganda, os bancos públicos teriam começado a pisar no acelerador na segunda semana do mês. Os privados, na terceira semana, se tanto. Mas desde outubro de 2011 já eram as instituições financeiras estatais que vinham liderando a concessão de empréstimos.

Entre o fim de setembro e fevereiro, os estatais responderam por cerca de dois terços do aumento do estoque de crédito (do aumento total do dinheiro emprestado e não pago no período).

Nos 12 meses anteriores, a situação era mais ou menos "normal". Os bancos privados respondiam por pouco mais da metade do aumento do estoque de crédito.

A campanha de Dilma Rousseff contra os juros altos foi detonada quando o governo percebeu que a recuperação econômica não viria no primeiro trimestre de 2012. A presidente e seus economistas atribuíram parte do marasmo à lerdeza dos bancos privados e à alta das taxas de juros verificada desde novembro, na contramão da taxa básica, a Selic, que caía desde agosto.

Teria sido possível virar o jogo ainda em abril?

A pergunta tem mais interesse político do que econômico. Não será o comportamento mais ou menos agressivo dos bancos em um ou dois meses que vai determinar o crescimento da economia neste ano. Mas o resultado da campanha do governo contra a banca privada pode dizer alguma coisa sobre as condições da concorrência no setor bancário e alterar a "correlação de forças" do debate político-econômico.

Isto é, se houver mais crédito e juros menores depois da "bronca" da presidente e da campanha da banca estatal, o governo e os adeptos de políticas mais intervencionistas vão ficar por cima da carne seca.

Não se trata de dizer que o governo terá provado que todas as suas queixas tinham fundamento.

De fato, entre o fim de 2011 e o início de 2012 os bancos estatais e os privados estavam se comportando mais ou menos como entre 2008 e 2009, meses de crise muito feia no mundo e de medo no Brasil. Os estatais seguraram a peteca da economia; os privados se retraíram.

Mas em 2008-09 houve seca forte de crédito externo, as indústrias demitiam em massa, havia boatos sobre bancos micados no Brasil e não era então absurdo pensar que haveria depressão mundial.

No fim do ano passado o ambiente ficou tenso na finança do mundo. O medo foi grande o bastante até para intimidar o investimento de empresas aqui do Brasil. Porém é um exagero quase ridículo comparar o terror de 2008 com o susto de 2011. De resto, o crédito no fim de 2011 crescia ainda a 18% ao ano, em termos nominais.

Os bancos privados dizem que inadimplência alta e persistente, perspectiva de crescimento mais baixo e redução da demanda (da capacidade de endividamento do consumidor) foram os motivos da retranca no início de 2012 e da alta de juros. Mas tal situação ainda não havia mudado muito até abril.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Mais dos mais ricos:: Celso Ming


Toda crise financeira apresenta à sociedade uma enorme conta a pagar. E o primeiro impulso é sempre cobrar mais dos mais ricos. O problema é que não é fácil colocar em prática um projeto que, muitas vezes, traz mais prejuízos do que benefícios.

O argumento de que é preciso reduzir a desigualdade de renda por meio de tributação mais justa retorna sempre ao debate público, especialmente em temporadas eleitorais, quando o objetivo de uma corrente é caracterizar o adversário como "o candidato dos ricos".

Nessas duas semanas, por exemplo, planos de cobrar ainda mais dos mais ricos sofreram duas derrotas, uma em cada lado do Atlântico.

Dia 17, foi rejeitado no Senado dos Estados Unidos encaminhamento de projeto de lei defendido pelo presidente Barack Obama que impõe alíquota de 30% no Imposto de Renda cobrado dos contribuintes que obtêm o equivalente ou mais de US$ 1 milhão de renda anual. E na França, diante da forte probabilidade de vitória no segundo turno do socialista François Hollande, que também quer cobrar mais impostos dos endinheirados, há notória fuga de capitais para países vizinhos – efeito que o próprio Hollande provavelmente não quisesse provocar.

A proposta do presidente Obama está sendo chamada de Regra Buffett, em alusão ao bilionário americano Warren Buffett – o primeiro a defender a cobrança de mais impostos sobre os super-ricos. Ele argumentou publicamente que sua própria secretária vem sendo mais esfolada pelo Fisco americano do que ele próprio.

Na França, François Hollande apresentou como proposta de governo a taxação em 75% das rendas anuais superiores a 1 milhão de euros. Bastou que as pesquisas o apontassem como favorito para que se verificassem as tais transferências de capitais para a Bélgica, Suíça, Londres e Luxemburgo.

Em geral, projetos desse tipo produzem mais complicações do que resultados práticos. Se a Regra Buffett fosse aprovada, o Tesouro americano não arrecadaria mais do que US$ 47 bilhões por ano. E, no entanto, o rombo orçamentário da União previsto para este ano fiscal é de US$ 1,3 trilhão para uma dívida pública de US$ 16,7 trilhões. Dentro do Partido Democrata, do presidente Obama, há dúvidas de que esses US$ 47 bilhões adicionais valham o preço do desgaste político.

Na França, os cálculos são de que a mordida na renda dos riscos não atingiria mais do que 3 mil pessoas e só aumentaria em 300 milhões de euros as receitas anuais da França – uma gota d"água no atual déficit de 100 bilhões de euros anuais do seu orçamento e de sua dívida pública, hoje de 1,6 trilhão de euros.

Um dos principais assessores de Hollande chegou a reconhecer à agência Reuters que a alíquota de 75% do Imposto de Renda sobre os mais ricos teria mais efeito simbólico do que prático.

Dada a evasão fiscal em curso somada à que provavelmente ocorrerá se o vencedor for Hollande, essa novidade geraria mais estragos do que benefícios para a economia da França.

Pelo seu baixo retorno e pelo seu potencial criador de atritos políticos também vem sendo abandonada em todo o mundo (mais ainda não no Brasil) a ideia de criar uma taxação especial sobre as grandes fortunas.

CONFIRA


Nesta segunda-feira, o mercado de ações enfrentou baixas generalizadas ao redor do mundo. O gráfico acima mostra o tombo de sete delas.

Razões do abalo. Foram dois os fatores responsáveis por derrubar a confiança dos mercados: (1) a vitória do candidato socialista François Hollande no primeiro turno das eleições para a presidência da França; e (2) o fracasso das negociações do primeiro-ministro da Holanda, Mark Rutte, na tentativa de garantir cortes no orçamento, o que o levou a entregar seu cargo à rainha Beatriz.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Lorca, poeta da imagem:: José de Souza Martins


Malandragem, de 1949, é uma das mais evocativas fotografias de German Lorca, feita num botequim da esquina da Rua Almirante Barroso com a Rua Bresser, no bairro do Brás. Ele, já casado, morava quase ao lado. Debruçava-se na janela de sua casa, à noite, com a esposa, para ouvir Nelson Gonçalves. O cantor havia morado na Almirante Barroso, antes de mudar para o Rio. Ocasionalmente, voltava para visitar o barbeiro, ali vizinho, de quem fora cliente e era amigo. Ia para o boteco bater papo e deixava-se ficar. Então, a pedidos, soltava a voz: "Boemia, aqui me tens de regresso... (...) Voltei para rever os amigos, que um dia eu deixei a chorar..."
Fui rever Malandragem na retrospectiva da obra de Lorca em preto e branco, que se realiza no Museu de Arte Moderna, no Ibirapuera, até 27 de maio. Embora a mostra reúna fotos feitas em diversas localidades e até fora do Brasil, a cidade de São Paulo é a grande personagem do imaginário poético e afetivo de Lorca. Se em algumas vezes ele cria a situação que lhe permita fotografar na perspectiva do que para Henri Cartier Bresson é o momento decisivo, a armadilha visual para capturar o sujeito da imagem, em outras ele faz expressivas fotografias de um repórter, que se deixa capturar pelo momento decisivo que o chama. Lorca é o mestre da estética da imaginação e da oportunidade. Justamente, Revolta dos passageiros, de 1947, é a foto de um inesperado bonde em chamas, cercado pelos bombeiros, nas proximidades do Gasômetro. Lorca trabalhava no centro da cidade. Ao ver a fumaça, saiu correndo pela Rangel Pestana abaixo para fazer em tempo uma das mais notáveis fotografias de rua de São Paulo, na moldura esfumaçada do protesto popular. A mesma prontidão de Cortiço no Brás, na ternura de um garotinho descalço que olha para o lado, atraído pela presença do inesperado fotógrafo.
O olhar de Lorca passeia pelas ruas, na preferência pelos dias de chuva, os olhos postos no reflexo das poças d'água, do pedestre tão urbano. E, quando se ergue, retém as linhas retas invasivas e frias, como em Fábrica de asfalto e Telhados. Ele explora com sensibilidade a janela de sua casa, no Brás, em dias de sol e dias de chuva. Garimpa as criações dos reflexos, as deformações eloquentes em detalhes, como em Reflexo na janela. O confinamento doméstico nas horas de descanso empurra o inquieto artista na direção da busca de tesouros visuais em minúcias que só ele pode ver. Inquieto até hoje, nos seus belos e monumentais 90 anos de idade, que discorre com uma memória invejável sobre os momentos e inspirações de cada uma de suas fotos.
Lorca mantém viva a tradição modernista, inventiva e criativa do Foto Cine Clube Bandeirante, de que foi destacado membro na mesma geração de Thomas Farkas e de Geraldo de Barros.
FONTE: O ESTADO DE S. PAULO/ CIDADES, 23/4/2012

As seis cordas:: Federico Garcia Lorca

A guitarra
faz soluçar os sonhos.
O soluço das almas
perdidas
foge por sua boca
redonda.
E, assim como a tarântula,
tece uma grande estrela
para caçar suspiros
que bóiam no seu negro
abismo de madeira.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

OPINIÃO DO DIA - Werneck Vianna: apropriação


 Nessa forma de presidencialismo, a coalizão deve-se dar em torno de políticas, e não de interesses avulsos e fragmentados, como na nossa experiência atual, a qual, ao ratear benefícios e prebendas a granel, com a pretensão de garantir insulamento para a política decisionista e tecnocrática do Executivo, franqueia as estruturas do Estado à apropriação por parte de particularismos privatísticos, quando não do crime organizado por meio de redes de estilo mafioso.

A História contemporânea é farta em exemplos no sentido de mostrar que, por trás da projeção nacional dos Estados bem-sucedidos, há uma República, destino para o qual nos tangem os fatos, já desavindos com essa democracia de interesses que converteu a política num processo penal sem fim.

WERNECK VIANNA, Luiz, professor-pesquisador da PUC-Rio. O Cachoeira e a gota d'água, em O Estado de S. Paulo, 22/4/2012 

Manchetes de alguns dos principais jornais do Brasil

O GLOBO
Entre socialista e Sarkozy, voto radical decidirá 2º turno francês
Mesmo investigada, Delta ganhou contratos
Empreiteira tem mais oito megaobras de PAC e Copa
Vasco vence e põe Fla de férias

FOLHA DE S. PAULO 
Brasil cobra mais rigor de Irã em caso de pedofilia
Réus podem se livrar de penas em 5 crimes do mensalão
Kassab só cumpre 1/3 das metas anunciadas

O ESTADO DE S. PAULO
Grupo de Cachoeira acumulou R$ 30 milhões, aponta Receita
Serviços têm menor procura e preços caem
ANS estuda novas regras para planos empresariais

VALOR ECONÔMICO 
Exportador inseguro com dólar
Empresas reestatizadas na Argentina dão prejuízo
Guerra de preços chega aos bancos
Brasil tentará convencer a China a segurar vendas
Juro menor reduz prêmio no Tesouro Direto
Receita atrasa liberação de importações

CORREIO BRAZILIENSE 
Planos de Saúde – Cardiologistas suspendem atendimentos
Taxas de juros
Caciques estão fugindo da CPI

 ESTADO DE MINAS 
Quando maus-tratos passam a ser tortura
Minas perde R$ 330 mi para obras em BRs
CPI não terá participação de estrelas dos partidos 
MP apura descumprimento da contratação de jovens

 ZERO HORA (RS)
 Relatório revela por que maioria dos crimes não é investigada por DPs
 Piratini: Casa Civil muda para ter visibilidade na área social

 JORNAL DO COMMERCIO (PE) 
Governos discutem drama da estiagem

O que pensa a mídia - editoriais dos principais jornais do Brasil

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Socialista Hollande bate Sarkozy no 1º turno e amplia favoritismo na França


Disputa pelo Eliseu. Apuração revela ainda crescimento recorde da extrema direita, que dá a Marine Le Pen condição de se converter no fiel da balança para o segundo turno do dia 6; discursos de candidatos finalistas são endereçados a eleitores radicais

Andrei Netto

PARIS - Numa eleição marcada pela alta mobilização popular e pela ascensão surpreendente da extrema direita, o candidato do Partido Socialista (PS), François Hollande, confirmou a expectativa e venceu o primeiro turno das eleições à presidência da França com 28,63% dos votos - totalizadas 99,9% das urnas.

Com 27,08% da preferência, Nicolas Sarkozy tornou-se o primeiro chefe de Estado da história do país a chegar em segundo lugar nesta etapa do pleito e agora depende dos votos da candidata radical Marine Le Pen, da Frente Nacional (FN), para tentar conquistar a reeleição.

O resultado oficial ainda dependia dos votos do exterior, mas os índices apontados pelo Ministério do Interior já estavam virtualmente definidos. Os dados revelaram o crescimento recorde da extrema direita, que reuniu 18,01% dos votos, a maior votação da FN desde sua criação, em 1972. As urnas também indicaram um bom desempenho da extrema esquerda, embora inferior ao esperado pelas pesquisas da última semana. Jean-Luc Mélenchon, candidato da coligação Frente de Esquerda, que inclui o Partido Comunista (PCF), reuniu 11,13% dos votos, registrando o melhor desempenho de um partido radical de esquerda desde 1981. Já o centrista François Bayrou, do Movimento Democrático (Modem), foi a decepção, com 9,11%, em quinto lugar.

A vitória de Hollande sobre Sarkozy já era celebrada na sede do PS no fim da tarde, quando o Estado conversou com militantes e líderes políticos. Os discursos se dividiam, entretanto, entre a satisfação pela vitória parcial e a preocupação com o crescimento de Marine, o que deverá obrigar os socialistas a reorientar a campanha nas próximas duas semanas, levando em conta os temas do eleitorado extremista.

Em seu primeiro discurso, em Tulle, cidade do sudeste da França, Hollande criticou seu principal oponente e acenou a quem votou na extrema direita. "O primeiro turno representa uma sanção ao mandato que chega ao fim", disse o socialista, em referência a Sarkozy. "Nunca, nem em 2002, a Frente Nacional havia atingido um nível tão elevado. É um novo sinal que convoca a mudanças na república."

Minutos depois, Sarkozy falou à sua militância, reunida em um teatro de Paris - que explodiu em vibração quando o escore da Frente Nacional apareceu nos telões, esperando contar com essa reserva de votos. Ciente de que depende do apoio da extrema direita para se reeleger, o chefe de Estado fez uma primeira ofensiva sobre esse eleitorado.

"Os franceses expressaram um voto de crise, testemunhando suas inquietudes, seus sofrimentos e suas angústias frente a este novo mundo que está se desenhando", analisou o presidente, usando a seguir todas as bandeiras da direita radical: "Estas angústias, estes sofrimentos, eu os conheço, eu os compreendo. Elas dizem respeito a nossas fronteiras, à luta contra a transferência de empresas para o exterior, ao controle da imigração, à valorização do trabalho e à segurança". Sarkozy ainda desafiou seu oponente a aceitar a realização de três debates de TV, na expectativa de bater o socialista na frente das câmeras e reverter a desvantagem.

Convertida em fiel da balança, Marine Le Pen mostrou-se emocionada com o resultado de sua primeira campanha, na qual superou o melhor porcentual obtido por seu pai, Jean-Marie Le Pen, em 2002. Em seu discurso, ela já ensaiou o lançamento de sua candidatura à presidência em 2017 e tentou buscar apoios na esquerda radical. "É apenas o início de nosso combate. É o começo de uma grande reunião de patriotas de direita e de esquerda, de apaixonados pela França e defensores de sua identidade", disparou a extremista, sem manifestar apoio a nenhum dos dois lados ainda na disputa. "Frente a um presidente em fim de mandato, líder de um partido consideravelmente enfraquecido, nós agora somos a única e verdadeira oposição à esquerda ultraliberal, laxista e libertária."

A candidata prometeu se manifestar no dia 1.º sobre quem apoiará no segundo turno do dia 6, quando pretende realizar uma passeata pelas ruas do país em homenagem ao Dia do Trabalho.

Bayrou, por seu lado, afirmou que vai discutir com os dois finalistas ao longo da semana para então revelar a quem apoiará. Já Mélenchon e a candidata do Partido Verde (Europe Ecologie-PV), a jurista Eva Joly, abriram voto em favor do socialista "para bater" o atual presidente.

De acordo com o cientista político Philippe Chriqui, especialista em opinião pública, o primeiro turno da eleição foi um referendo pró ou contra Sarkozy, que tem a aprovação de apenas 36%. Ele foi rejeitado tanto pela esquerda, que somou 44% dos votos, quanto por um segmento da direita, que preferiu o FN. Para o especialista, o 2.º turno se anuncia difícil para o presidente. "Diante de tal rejeição, Sarkozy tem poucas chances. O objetivo para ele será sobretudo o de não sair humilhado da eleição."

Ainda ontem, as primeiras pesquisas de intenção de voto para o segundo turno confirmaram a expectativa de vitória socialista. Para o instituto Ifop, Hollande deve se tornar presidente da república com 54,5% dos votos, contra 45,5% de Sarkozy.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Entre socialista e Sarkozy, voto radical decidirá 2º turno francês


Vantagem de Hollande sobre presidente foi inferior a 2 pontos; extrema-direita fez 18%

Pela primeira vez desde 1958, um presidente francês que busca a reeleição ficou em segundo no lº turno: com 27,1% dos votos, Nicolas Sarkozy foi superado por François Hollande, que teve 28,6%. Mas o presidente conservador aposta nos eleitores de Maríne Le Pen, de extrema-direita, que alcançou mais de 18% dos votos, para inverter o quadro no 2º turno, em 6 de maio, e começou a cortejá-los com um discurso anti-imigração. O socialista Hollande, por sua vez, obteve apoio velado de Jean-Luc Mélenchon, da extrema-esquerda, 4º colocado, que pediu a seus eleitores que derrotem Sarkozy. Pesquisas sobre o 2º turno dão hoje ampla vantagem a Hollande.

Sarkozy se agarra à direita

Presidente francês corteja eleitores de Marine Le Pen para reverter derrota para Hollande

Deborah Berlinck

Ao vencer o primeiro turno da eleição presidencial francesa, o candidato do Partido Socialista (PS), François Hollande, deu um importante passo em sua ambição de comandar a sexta maior economia do mundo nos próximos cinco anos, batendo o presidente conservador Nicolas Sarkozy por 28,8% a 26,1%. Mas a vitória veio acompanhada de uma má surpresa: a extrema-direita de Marine Le Pen, líder da Frente Nacional (FN), superou todas as expectativas ao conquistar o seu maior apoio até hoje num pleito presidencial, 18,5%.

Isso aumentou as chances de Sarkozy na disputa do segundo turno, em 6 de maio, embora as pesquisas hoje indiquem uma vitória com folga para Hollande, de 54% contra 46%. O campo situacionista se surpreendeu com este novo cenário e não perdeu tempo. Logo após a divulgação das primeiros resultados, o presidente-candidato e os porta-vozes de seu partido, o UMP, adotaram o discurso que vai marcar sua campanha nas próximas duas semanas: uma guinada para a direita.

- As pessoas expressaram um voto de crise que dá testemunho de suas preocupações, seu sofrimento e sua ansiedade em face do novo mundo que está se formando. Esta eleição é sobre o respeito às nossas fronteiras, os controles à imigração e a valorização do trabalho e da segurança. Neste mundo que muda tão rapidamente, a preocupação das pessoas sobre a preservação de seu modo de vida é a questão central desta eleição . Eu faço um apelo a todos os franceses que colocam o amor à pátria acima de suas preferências partidárias, a se unirem a mim. Viva a República! E viva a França! - disse Sarkozy, ovacionado no Palácio da Mutualité, em Paris.

Diante dos militantes em Tulle, na região da Corrèze, Hollande acusou o presidente de fazer o jogo da extrema-direita e de ser responsável pela alta votação da FN, e apelou para a união das forças de esquerda para o segundo e decisivo turno. Lembrou que mesmo nas eleições de 2002, quando a extrema-direita chocou o país ao alcançar o segundo turno e deixar de fora o candidato socialista Lionel Jospin, o partido nunca havia obtido tantos votos.

- Este é um novo sinal que chama a um sobressalto na República - disse para seus militantes.

Em contraste com o discurso nacionalista de Sarkozy, Hollande ressaltou a importância de sua eleição para a recuperação da economia europeia e global.

- Minha tarefa final , e eu sei que estou sendo observado bem além de nossas fronteiras, é colocar a Europa de volta na trilha do crescimento econômico e do emprego - afirmou.

Pior desempenho de um governante

Com os resultados de ontem, Sarkozy se tornou o primeiro presidente candidato a um segundo mandato, no período da Quinta República, iniciada em 1958, a não vencer o primeiro turno da eleição. Para reverter a atual vantagem de Hollande, além do apoio da ultradireita, conta com a confrontação direta com seu adversário.

- Essas próximas duas semanas devem permitir a vocês fazer uma escolha com clareza. Eu proponho que três debates sejam organizados. Sobre as questões econômicas, as questões de sociedade, as questões internacionais - sugeriu.

Hollande recusou. Foi definitivo ao afirmar que não aceitará mais do que um debate entre os dois candidatos, "para durar o quanto for preciso".

A partir de agora, a vitória dependerá do apoio que esquerda e direita conseguirão dos partidos que ficaram de fora do segundo turnoe, principalmente, dos eleitores dessas legendas. Marine Le Pen se tornou uma peça fundamental para as pretensões de Sarkozy. Mas a nova líder da extrema-direita, que ontem superou a votação de seu pai, Jean-Marie Le Pen, no pleito de 2002 (16,9%), manteve o suspense. Ela se autoproclamou "chefe da oposição", e disse que somente em 1º de maio, Dia do Trabalhador, cinco dias antes da votação decisiva, anunciará sua indicação de voto para o segundo turno. As primeiras sondagens apontam que 60% dos eleitores da extrema-direita votarão em Sarkozy no segundo turno, e 18% escolherão Hollande. Essa migração não é suficiente para reverter a vantagem do socialista, que conta com a adesão quase total dos eleitores de outros candidatos de esquerda.

O principal deles, Jean-Luc Mélenchon, teve um desempenho abaixo do esperado. Nas pesquisas, ele brigava cabeça a cabeça pelo terceiro lugar com Marine, mas na votação acabou num distante quarto, com apenas 11,7% dos votos.

Visivelmente decepcionado com seu desempenho, Mélenchon evitou citar ontem o nome de Hollande. Mas fez um forte apelo a seu eleitorado para derrotar Sarkozy, e frisou, sem pedir nada em troca:

- Eu peço a vocês para não hesitarem, peço para que se mobilizem e façam como se se fosse um voto para que eu ganhasse a eleição.

Entre outros nomes da esquerda, a ecologista Eva Joly (2,3% dos votos) manifestou seu apoio nominal ao candidato socialista para o segundo turno.

De maneira vaga, o centrista François Bayrou, do MoDem, que obteve 8,8% do total de sufrágios - menos do que o previsto pelas pesquisas -, disse apenas que "assumirá suas responsabilidades" para a fase final do pleito. Em relação aos simpatizantes de seu partido, a partilha, ainda segundo as pesquisas, é igualitária: 50% para cada um dos candidatos.

O temor de uma anunciada fraca participação dos eleitores neste primeiro turno não se confirmou. Os franceses se mobilizaram para votar no domingo, com um índice de abstenção de 20%, pouco acima dos 16,2% registrados no primeiro turno de 2007, mas abaixo dos 28,4%, em 2002, e dos 21,6% de 1995.

Jean-Claude Gaillardon, de 61 anos, aposentado há seis meses, considerou o resultado "excelente":

- A única chance para Sarkozy era vencer o primeiro turno. Democracia é alternância. É a alegria que volta para nós depois da vitória de François Mitterrand, em 1981 - disse, otimista, em meio a celebração militante em frente à sede do PS, na rua Solférino, na capital francesa.

O entusiasmo não é partilhado por Norah, de 73 anos, também na comemoração socialista:

- Vejo com muita preocupação a escassa margem de avanço neste primeiro turno. É pouco para assegurar a vitória no segundo turno.


Nada está decidido, afirma chanceler

No quartel-general da campanha de Sarkozy, os fiéis escudeiros do UMP respiravam aliviados com o resultado bem menos catastrófico que o previsto pelas sondagens, que apontavam vantagem de até cinco pontos para Hollande e cerca de metade dos votos para a esquerda. O chanceler Alain Juppé festejava que "nada está decidido". Mas como disse a professora de história aposentada Françoise M., de 65 anos, a batalha ainda está "longe da vitória".

- É preciso que ele (Sarkozy) dê uma guinada para a direita em todos os temas, levando em conta a importante votação de Marine Le Pen. É a última chance para a França e para os franceses - avaliou.

Amélie Pochouny, de 28 anos, é funcionária da Disneilândia de Paris, com uma remuneração mensal de 1.180, pouco menos que um salário mínimo.

- Não fossem Mitterrand e a esquerda, talvez eu tivesse um trabalho melhor na Disneilândia... Talvez tivesse feito melhores estudos... Talvez ganhasse mais hoje.

FONTE: O GLOBO

Mesmo investigada, Delta ganhou contratos


Após identificar fraude de empreiteira, governo fechou negócios no valor de R$ 758 milhões

Apesar de ter tomado conhecimento em 2010 de uma fraude que deu R$ 5 milhões de prejuízo aos cofres da União, o governo federal fechou 31 novos contratos com a Delta — hoje uma das principais envolvidas no escândalo de corrupção no caso Demóstenes-Carlinhos Cachoeira. As ordens de serviço, todas para o Dnit, somaram R$ 758 milhões.

Depois de fraudes, mais dinheiro

Denunciada por corrupção em 2010, Delta continuou a fechar contratos com governos

André de Souza

Após ser apontada como líder de um esquema de corrupção que desviou milhões de reais dos cofres da União e veio a público em agosto de 2010 - na Operação Mão Dupla, feita pela Controladoria-Geral da União (CGU) com a Polícia Federal (PF) - a construtora Delta continuou assinando contratos de alto valor com órgãos federais. Desde que o governo tomou conhecimento das graves irregularidades cometidas pela empreiteira em obras de rodovias no Ceará, foram assinados 31 novos contratos com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), no valor total de R$ 758 milhões.

A Operação Mão Dupla identificou fraudes em licitações, superfaturamento, desvio de verbas, pagamentos de propina, pagamentos indevidos e uso de material de qualidade inferior ao contratado em obras de infraestrutura rodoviária sob o comando do Dnit feitas pela Delta e outras 11 empreiteiras. A investigação resultou na prisão do então superintendente do Dnit no Ceará, Joaquim Guedes Martins Neto, que, segundo a CGU, tinha, em 2008, "rendimento incompatível com a renda auferida pelo agente público", e do diretor da Delta Aluízio Alves de Souza.

Na época, a CGU informou que detectara "um prejuízo estimado em R$ 5 milhões aos cofres públicos da União, afora o risco social decorrente da execução de obras de infraestrutura rodoviária fora das devidas especificações técnicas". No sábado, o ministro da CGU, Jorge Hage, reconheceu que as irregularidades apontadas pela Mão Dupla são graves. Mas isso não impediu que o Dnit celebrasse novos contratos com a Delta, sendo três deles (no valor total de R$ 9,6 milhões) no Ceará, onde foram detectadas as irregularidades em 2010. Trata-se da conservação e da recuperação de trechos das BRs 116, 437 e 230.

Os contratos firmados desde agosto de 2010 são para construção, duplicação, adequação ou manutenção de 19 rodovias em 17 estados. Além disso, em setembro de 2010, através de consórcio com outras duas empresas, a Delta conseguiu fechar com a estatal Valec um contrato de R$ 574,5 milhões para tocar as obras do lote um da Ferrovia Oeste-Leste, na Bahia. O Dnit e a Valec são ligados ao Ministério dos Transportes.

A empreiteira ganhou destaque recentemente no noticiário por suas ligações com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, preso pela PF em fevereiro na Operação Monte Carlo. Hoje, a CGU promete abrir processo administrativo contra a Delta. O resultado dessa investigação poderá tornar a empresa inidônea, o que implica a proibição para firmar novos contratos com o governo federal.

Além do Ceará, foram assinados contratos entre o Dnit e a Delta para obras em Alagoas, Amazonas, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rondônia, Sergipe e Tocantins. Dos 31 contratos, apenas um, de R$ 115 milhões, em Goiás, foi paralisado. Desse valor, o Dnit já pagou R$ 8,8 milhões à Delta.

Vinte e cinco contratos, no valor de R$ 611,7 milhões, constam como ativos. Outros três foram cadastrados no início de 2012 e totalizam R$ 13,6 milhões, mas as obras ainda não começaram. Dois contratos, no valor de R$ 17,8 milhões, já foram concluídos. Desse montante, R$ 15,6 milhões foram pagos à construtora, segundo o próprio Dnit. Em agosto de 2010, na Operação Mão Dupla, a PF cumpriu 52 mandados de busca e apreensão, 23 de prisão temporária e um de prisão preventiva. Houve ainda o afastamento cautelar de oito servidores públicos e sequestro de bens em Fortaleza e no interior do Ceará. A CGU analisou oito contratos e detectou irregularidades em sete, referentes a quatro obras, dentre as quais duas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Uma delas é a duplicação de uma ponte na BR-304, sobre o Rio Jaguaribe, no município de Aracati, orçada em R$ 30 milhões. A obra foi iniciada pela Delta em 2002 e, por sete anos, as fundações permaneceram de molho nas águas do rio, enquanto a travessia era feita pela ponte velha. A Delta, que desistiu de construir a ponte, alegou "elevação dos custos que dificultaram a realização do projeto inicial previsto no edital". Segundo Hage, o processo admistrativo disciplinar contra o então superintendente regional do Dnit no Ceará e outros seis servidores pode resultar em demissão. Na última sexta-feira, o Ministério Público Federal propôs ação penal contra os servidores do Dnit no Ceará e contra a Delta por formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, corrupção passiva e ativa com base nos resultados da Operação Mão Dupla. Procurado para manifestar-se sobre a assinatura dos contratos, o Dnit informou, por meio da assessoria, que vai esperar a decisão da Justiça e da CGU para tomar medidas em relação à Delta. "A empresa não é considerada inidônea ainda", destacou a assessoria.

O grande número de contratos com órgãos públicos obtidos pela Delta se refletem em seu faturamento. Dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) mostram que até 100% dos ganhos da construtora vêm de contratos com o setor público. Entre as seis maiores empreiteiras do Brasil, a Delta é a única que se dedica quase exclusivamente à construção de pontes, viadutos, estradas, túneis, aeroportos e projetos de saneamento. A construtora teria realizado obras para a iniciativa privada nos anos de 2007, 2008 e 2011, mas manteve um percentual acima de 97% de projetos destinados a prefeituras, estados e União. Os maiores percentuais de crescimento da Delta ocorreram em 2006/2007 (67%) e em 2009/2010 (51%).

Colaboraram: Fábio Vasconcellos e Renato Onofre

FONTE: O GLOBO

Empreiteira tem mais oito megaobras de PAC e Copa


Investigada na CPI do Cachoeira, a Delta participa de outras três obras para a Copa do Mundo e de pelo menos cinco grandes obras do PAC, em contratos que somam cerca de R$ 2,4 bilhões. Entre as obras para o mundial tocadas pela empreiteira está a Transcarioca, que ligará o Aeroporto Tom Jobim à Barra. A Delta também participa da Ferrovia Oeste-Leste.

Delta participa de quatro grandes obras para a Copa

Contratos para cinco obras do PAC somam R$ 1,3 bilhão; a maior participação é na Ferrovia Oeste-Leste

Mônica Tavares

Além da construção do Maracanã, a construtora Delta participa de três outras obras fundamentais dentro dos preparativos para a Copa do Mundo, com contratos que somam R$ 1,198 bilhão. São obras de mobilidade urbana no Rio, Belo Horizonte e Fortaleza. A construtora também está presente em cinco grandes obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em contratos que somam R$ 1,363 bilhão.

No Rio, a empreiteira é responsável pela implantação da Transcarioca, que ligará o Aeroporto Internacional Tom Jobim à Barra da Tijuca passando pela Penha. Feito em consórcio com a Andrade Gutierrez, o contrato soma R$ 798 milhões. Apesar dos crescentes rumores de que abandonaria a obra, a Delta não confirma a informação. Em nota divulgada ontem, a prefeitura do Rio deixou claro que o contrato prevê uma alternativa:

"O contrato assinado com o município estabelece que, se uma das empresas decidir sair, a outra - neste caso, a Andrade Gutierrez - assume todas as responsabilidades pela obra, sem causar qualquer prejuízo à cidade." A prefeitura ressalta, no entanto, não ter sido informada de qualquer decisão da Delta sobre abandonar a obra.

Em Belo Horizonte, uma das obras importantes para os jogos de 2014 está sendo executada pela Delta. Trata-se da ligação do aeroporto de Confins à região hoteleira e ao centro da capital, com a implantação do BRT (Trânsito Rápido de Ônibus). Em consórcio com a Construtora Cowan, a empreiteira foi contratada pela prefeitura do município para realizar a parte principal da obra. O contrato, no valor de R$ 170 milhões, começou a vigorar em março de 2011 e vai até abril do próximo ano.

Enquanto as obras no Rio e em Belo Horizonte já andam a pleno vapor, as de Fortaleza sequer começaram. Prevista para ter início em duas semanas, a construção da Via Expressa em Fortaleza, com túneis e viadutos, deve render R$ 145 milhões à Delta.

Além das obras da Copa, a Delta está presente em grandes obras do PAC. Entre essas, a maior participação é na Ferrovia Oeste-Leste dentro do Consórcio com a SPA Engenharia e Convap, com contrato de R$ 574 milhões. A ferrovia terá 1.527 km de extensão e fará uma conexão com a Ferrovia Norte-Sul.

A segunda maior participação é na obra de Transposição do Rio São Francisco - em consórcio com a EIT e Getec - valor de R$ 265 milhões. A transposição é uma obra bastante polêmica, que começou em 2007 e desvia as águas do rio São Francisco em Pernambuco para a Bahia, Rio Grande do Norte, Bahia e Ceará.

Além disso, a Delta tem participação na duplicação da rodovia BR-060, em Goiás e em dois lotes da BR-101 em Sergipe, que tem 204 km de extensão. A BR-101 é a segunda maior rodovia do país, com quase 4.200 km cortando todo o litoral.

A empresa também tem contratos de manutenção e e conservação de rodovias em todo o país. Somente em janeiro e fevereiro deste ano foram assinados três novos contratos, sendo dois para trabalhos no Ceará, nas BR-116 e BR-437 e outro no Paraná na BR-158, no total de R$ 7,8 milhões.

O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) informou que aguarda a decisão da CGU sobre a idoneidade da construtora para posicionar-se a respeito da participação da construtora nessas obras.

A Delta informou ontem que vai tentar manter-se nas obras do PAC. Em nota, afirma que "tem feito um enorme esforço para seguir com todos os projetos que toca, honrar todos os compromissos, manter todos os postos de trabalho de seus mais de 25.000 colaboradores, cumprir todos os prazos de entrega das obras contratadas, ao mesmo tempo em que se defende na Justiça, na mídia e no Parlamento".

FONTE: O GLOBO

Governistas veem como inevitável convocação de ex-diretor do Dnit


Investigações de CPI sobre atuação de Carlinhos Cachoeira no órgão podem atingir Palácio do Planalto

Eugênia Lopes

BRASÍLIA - Governistas e oposicionistas estão convictos de que o Palácio do Planalto acabará atingido pelas investigações que a CPI do Cachoeira dificilmente deixará de fazer sobre obras executadas pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit).

Principal braço do Ministério dos Transporte, o órgão deverá ser alvo de apuração porque o ex-diretor Luiz Antonio Pagot acusou assessores do Planalto de atuar para derrubá-lo, supostamente deixando vazar informações de interesse da organização do contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.

A avaliação é que, diante das declarações de Pagot, não há como evitar sua convocação para depor na CPI. O ex-diretor do Dnit afirmou, em entrevista ao Estado, que o subchefe de Assuntos Federativos da Secretaria de Relações Institucionais, Olavo Noleto, e o porta-voz da Presidência da República, Thomas Traumann, repassaram dados de reunião sigilosa da presidente Dilma Rousseff com a cúpula dos Transportes, em 5 de junho de 2011.

Pagot alegou que, como diretor do Dnit, afetou interesses da Delta Construções, o que teria motivado retaliação do grupo de Cachoeira que culminaria em sua demissão. "As declarações do Pagot são um sintoma de que as pessoas começam a falar quando estão com receio", observou o líder do DEM na Câmara, Antonio Carlos Magalhães Neto (BA).

Enquanto a oposição se prepara para convocar Pagot e, dessa forma, tentar atingir o Planalto, os governistas alegam não ter muito a fazer. "Como não deixar convocar o Pagot?", disse um aliado, ao observar que vai funcionar "uma CPI do Dnit dentro da CPI do Cachoeira".

Um dos alvos da oposição é a empreiteira Sanches Tripolini, que teria conquistado um volume significativo de contratos no Dnit. O avião da construtora também teria sido utilizado pelos hoje ministros Paulo Bernardo (Comunicações) e Gleisi Hoffmann (Casa Civil), durante a campanha de 2010. Essa notícia começou a circular em agosto do ano passado. Na época, em nota, o casal negou que tenha usado a aeronave durante a campanha de Gleisi ao Senado.

Relatoria. A CPI do Cachoeira deverá ser instalada na quarta-feira. Tanto governo quanto oposição pretendem receber, primeiro, toda a documentação das operações Vegas e Monte Carlo, da Polícia Federal. Só então serão convocados os envolvidos no esquema do contraventor. "No primeiro momento vamos organizar o time para não ser uma CPI contra o governo", afirmou o líder do PT na Câmara, Jilmar Tatto (SP). Ele quer anunciar amanhã o nome do relator da CPI.

Um dos cotados é o ex-líder Paulo Teixeira (SP), que está na Itália e deverá chegar hoje ao Brasil. O nome de Odair Cunha (PT-MG) começou a ser bombardeado pelos aliados com o argumento de que ele não conseguiu impedir a convocação da ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, na Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara, há duas semanas.

Lideranças dos partidos da base não escondem a preferência pelo ex-líder do governo Cândido Vaccarezza (PT-SP) para a relatoria. Mas seu nome não seria considerado o ideal por Dilma.

Aliados também não escondem a preocupação com a eventual derrota do governo na votação do Código Florestal, prevista para quarta-feira.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Dilma busca agenda para rivalizar com CPI


Raymundo Costa e Fernando Exman

BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff está decidida a evitar que a instalação da CPI do Cachoeira paralise a agenda do governo e atrapalhe a tramitação dos projetos de interesse do Executivo no Congresso. Nesta semana, a presidente protagoniza uma maratona de eventos públicos pelo país. Em outra frente, os líderes do governo no Parlamento terão a missão de assegurar a aprovação das propostas consideradas estratégicas pelo Palácio do Planalto. A CPI deve começar os trabalhos na quarta-feira e terá seis meses de duração, com o término previsto coincidindo com o fim da campanha eleitoral.

A partir de agora Dilma disputa a atenção da imprensa e da população com a CPI que investigará as ligações de agentes públicos e empresas com o suposto esquema ilegal de jogos de azar chefiado pelo empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Os holofotes estarão mais voltados a eventuais irregularidades praticadas por empreiteiras e empresas contratadas pelo governo do que ao cumprimento do cronograma de obras, entregas de moradias do Minha Casa, Minha Vida ou divulgações dos resultados do programa Brasil Sem Miséria.

Os auxiliares da presidente recorrem a uma imagem para explicar o esforço do governo. Quando ocorre uma enchente, dizem, deve-se construir a contenção em volta da casa. É isso que faz Dilma: mostrar que o governo continua governando, independentemente da CPI. Além disso, Dilma tem procurado se informar sobre os contratos de empreiteiras supostamente ligadas a Cachoeira, como a Delta Construção, com o governo, especialmente no PAC.

Dilma avisou os ministros que a CPI não deve servir de justificativa para a paralisação do governo, e alertou que continuará convocando os subordinados para reuniões no Palácio do Planalto e cobrando as ações deliberadas anteriormente. Segundo a presidente, a partir da instalação da CPI há uma pauta política. Mas a pauta executiva deve continuar andando.

Nos próximos dias a presidente deve participar, em Sergipe, da cerimônia de anúncio do acordo entre a Vale e a Petrobras para a exploração de uma mina de carnalita - minério do qual se extrai cloreto de potássio, matéria-prima para a produção de fertilizantes. Ela também deve divulgar um reforço no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) da Mobilidade Urbana. "Vamos botar o bloco na rua", diz um auxiliar de Dilma, que em geral é mais comedida que seu antecessor em matéria de marketing.

Na quinta-feira, a presidente irá ao Rio de Janeiro para realizar duas atividades. A primeira será uma cerimônia de balanço do Brasil Sem Miséria, programa considerado como uma das meninas dos olhos do governo Dilma. A segunda será uma visita a São João da Barra, para "faturar" a celebração da extração do primeiro litro de óleo feito pela OGX no Porto do Açu.

No âmbito político, depois que ministros petistas tiveram reuniões com o presidente do PT, Rui Falcão, e se envolveram na disputa interna pelo cargo de relator, Dilma pediu para o primeiro escalão do Executivo não se envolver de corpo e alma nos assuntos da CPI. A presidente negou, a auxiliares, que tenha articulado uma operação abafa, diz acreditar na separação entre os Poderes e que é legítimo o Legislativo criar uma comissão para investigar "malfeitos". Por outro lado, não quer perder a bandeira da moralidade, que vem contribuindo para os altos índices de aprovação da presidente junto ao eleitorado. Tanto que nos avisos aos ministros é sempre lembrado que "cada um cuida da sua vida", um alerta de que não protegerá quem tiver envolvimentos com irregularidades apontados pela CPI.

A CPI deve será instalada na quarta-feira, um dia depois de os líderes partidários indicarem seus integrantes. Nesses dois dias o governo terá também uma prova dos desafios que enfrentará no Congresso durante os próximos meses. O Senado, por exemplo, deve votar amanhã a Resolução 72, que tenta acabar com a chamada "guerra dos portos". O governo também tenta acelerar a tramitação da Lei Geral da Copa. Na Câmara, as atenções se concentrarão nas discussões sobre o relatório do Código Florestal, do deputado Paulo Piau (PMDB-MG).

"Vamos selecionar as matérias mais importantes", comentou o líder do governo na Câmara, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP). "CPI sempre drena muito o trabalho. Então, nesse momento avalio que vamos ter que trabalhar mais."

FONTE VALOR ECONÔMICO

Oposição quer acesso a dados sigilosos do inquérito


BRASÍLIA. A oposição já tem seu arsenal para a CPI que vai investigar os negócios do bicheiro Carlos Cachoeira e tem instalação prevista para esta semana. O DEM e o PSDB prepararam dezenas de pedidos de quebra de sigilo bancário e telefônico e a convocação dos principais envolvidos no caso. A prioridade é o acesso à íntegra do inquérito da Operação Monte Carlo, especialmente às gravações e aos trechos sigilosos. Os partidos vão tentar um acordo com a base aliada para só marcar os depoimentos após a Justiça liberar esses documentos.

A estratégia visa dar munição aos parlamentares para inquirir os envolvidos no escândalo. Amanhã, PSDB, DEM, PPS e PSOL devem se reunir para sacramentar os alvos dos primeiros requerimentos. A tendência é que sejam convocados Carlinhos Cachoeira; o dono da construtora Delta, Fernando Cavendish; e o representante da empresa no Centro-Oeste, Cláudio Abreu, preso como integrante do esquema desbaratado pela Polícia Federal. Também devem ser pedidas as quebras de sigilo telefônico e bancário dos três e da Delta.

FONTE: O GLOBO

Pizza ou punição?

Pizza ou punição?


Futebol, medicamentos, combustíveis, narcotráfico, obras públicas, entidades filantrópicas, apoio parlamentar e patrocínio de estatal. Se na maioria das Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) o resultado fica muito aquém do que espera a sociedade, com poucos dos envolvidos recebendo punições por seus erros, algumas comissões trouxeram à tona grandes escândalos e impediram maiores prejuízos aos cofres públicos. Confira as principais CPIs ao longo da história da política brasileira:

1953 – Última Hora

A primeira CPI se formou para investigar as operações de crédito realizadas entre o governo de Getúlio Vargas (foto) e o jornalista Samuel Wainer, que tinha lançado dois anos antes o jornal Última Hora. Presidido pelo deputado Carlos Castilho Cabral (PSP-SP), durante cinco meses o grupo ouviu 27 testemunhas, mas os trabalhos acabaram sem nenhuma denúncia. Durante a CPI, a oposição chegou a sugerir o impeachment do presidente.

1988 – Corrupção

Somente com o fim da ditadura, o Congresso voltou a instalar uma CPI. No mesmo ano da promulgação da Constituição de 1988, um grupo foi criado para apurar supostas irregularidades no repasse de verbas em troca de apoio político. A investigação envolveu o então presidente José Sarney (PMDB-AP) e seu secretário particular, Jorge Murad. O relatório final apontou crimes de responsabilidade, mas o texto foi arquivado por falta de provas.

1992 – O "esquema" PC Farias

Instalada depois das denúncias de Pedro Collor, irmão do então presidente Fernando Collor de Mello, contra Paulo César Farias (foto), tesoureiro de campanha do presidente, a CPI do "esquema PC" foi uma das poucas que atingiu seu objetivo. Ao final, comprovou o favorecimento de companhias em obras públicas, a venda de favores e a abertura de empresas fantasmas. Um mês depois, parlamentares apresentam pedido de impeachment de Collor.

1993 – Anões do Orçamento

Uma comissão mista foi formada para investigar políticos acusados de incluir emendas no orçamento da União para enriquecimento ilícito. Foram denunciados direcionamento de verbas públicas para entidades filantrópicas ligadas a parentes e laranjas e recebimento de propinas. O esquema foi revelado por José Carlos Alves, que era chefe da Secretaria do Orçamento Federal. Seis deputados foram cassados e quatro renunciaram.

1996 – Precatórios

A CPI foi instalada no Senado para apurar problemas na emissão de títulos precatórios, negociados por prefeituras. O esquema foi descoberto em Santa Catarina e Pernambuco. Depois apareceram irregularidades envolvendo o então prefeito de São Paulo, Celso Pitta (foto). O relatório final indiciou 17 pessoas e 161 empresas. Pitta e Paulo Maluf, que também foi envolvido, foram condenados à perda dos direitos políticos.

1999 – Judiciário

O desvio de R$ 169,5 milhões veio à tona durante a CPI instalada para investigar denúncias de corrupção nos tribunais. O juiz Nicolau dos Santos Neves (foto) e o senador Luiz Estevão (DF) foram acusados de desvios de recursos para a construção de novo prédio do tribunal. O parlamentar perdeu o mandato dois anos depois. O juiz Nicolau dos Santos foi condenado a 26 anos e seis meses de cadeia por estelionato, peculato e corrupção passiva.

1999 – Narcotráfico

Com mais de 800 pessoas indiciadas, entre elas 16 deputados, seis desembargadores, empresários e policiais, a CPI durou dois anos e investigou crimes de corrupção e tráfico de drogas em vários estados do país. Apesar de gerar novos projetos para reduzir a ação do crime organizado, os resultados práticos foram criticados por aqueles que acompanharam os trabalhos, uma vez que vários denunciados ainda não receberam qualquer punição.

2003 – Banestado

"Termina em clima de pizza, de festa, em clima de Natal, ficando os culpados sem serem denunciados e pessoas inocentes violentadas no seu direito à intimidade." Foi assim que o então presidente da OAB, Roberto Busato, definiu a conclusão da CPI do Banestado, em 2004. Dois anos após seu início, a comissão apresentou relatório sugerindo o indiciamento de 91 pessoas, mas, por desentendimentos entre os integrantes, o relatório não foi votado.

2005 – Correios

Criada para apurar denúncias de corrupção nos Correios, a CPI mudou o foco ao descobrir a existência de pagamentos a deputados da base do governo, o chamado mensalão. Tudo começou com a revelação de um vídeo onde o servidor dos Correios Maurício Marinho (foto) negociava propina, afirmando ter respaldo do ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ). Foi Jefferson quem denunciou o mensalão, caso que será julgado este ano no STF.

2009 – Petrobras

Com apenas 13 sessões e menos de 20% do total de dias em atividade, a CPI da Petrobras foi criada no Senado para investigar patrocínios à empresa, supostos artifícios contábeis para pagar menos impostos e os gastos com reformas em plataformas. O relatório final não sugeriu indiciamentos ou apontou irregularidades. A oposição abandonou a CPI e fez um parecer paralelo, com 18 representações ao Ministério Público.

FONTE: CORREIO BRAZILIENSE

Réus podem se livrar de penas em 5 crimes do mensalão


Réus do mensalão podem ficar livres de punição mesmo se forem condenados. Caso recebam a pena mínima em 5 dos 7 crimes pelos quais respondem (formação de quadrilha, corrupção ativa, corrupção passiva, peculato e evasão de divisas), tais crimes estarão prescritos. Já se forem condenados com pena maior, a prescrição ocorrerá em 2015 na maioria dos casos.

No mensalão, pena mínima resulta em prescrição de crimes

Os réus são acusados de 7 crimes; em 5 deles, quem receber a punição mais baixa não vai cumprir a pena

Caso a pena aplicada for maior, no entanto, a prescrição passa a ocorrer apenas em 2015, diz Código Penal

Felipe Seligman

BRASÍLIA - Cinco dos sete crimes previstos no processo do mensalão prescreveram em agosto de 2011, caso os réus sejam condenados pela pena mínima no julgamento do maior escândalo do governo Lula.

Mas, se houver condenação no Supremo Tribunal Federal e a penalidade for maior que a mínima, a próxima prescrição só ocorrerá em agosto de 2015 na maioria dos casos, diz o Código Penal.

Nesse aspecto, não existe diferença em o julgamento ocorrer neste ano em 2013.

O caso surgiu em 2005, com a acusação de pagamentos regulares, em dinheiro, a congressistas da base aliada.

O "prazo prescricional" varia com o tamanho da pena e com o momento em que esse prazo começa a ser contado.

No caso do mensalão, o início é o recebimento da denúncia, em agosto de 2007.

Ou seja, se a pena mínima for maior que um ano e menor ou igual a dois anos, o crime prescreve em quatro anos (agosto de 2011); se for maior que dois anos e menor ou igual a quatro, ocorre após oito anos (agosto de 2015).

Os 38 réus do mensalão são acusados por sete crimes (veja quadro). Se eles forem condenados pela pena mínima em qualquer crime exceto gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro, a prescrição ocorreu já no ano passado.

Há especialistas e ministros que defendem o julgamento neste ano porque acham que a demora pode macular a imagem do STF.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO