quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Desemprego já atinge 8,35 milhões

• Com queda na renda, busca por vagas dispara e taxa de desocupação no país vai a 8,3%

Normalmente, no fim do ano, o desemprego cai, mas tenho sérias dúvidas se vai cair, nada aponta para isso. O mais provável é taxa crescer mais João Saboia Professor da UFRJ

Lucianne Carneiro, Lucas Moretzon – O Globo

Disparou a busca por vagas, e o desemprego alcançou 8,3% em junho. Já são 8,35 milhões de desempregados no país. A procura por trabalho disparou no Brasil no segundo trimestre do ano. Sem geração de vagas suficientes, a taxa de desemprego subiu para 8,3% no segundo trimestre, o maior nível da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE, iniciada em 2012. No segundo trimestre do ano passado, o desemprego tinha sido de 6,8%, e nos primeiros três meses deste ano, 7,9%. Ao mesmo tempo, a qualidade do emprego existente piorou: o contingente de empregados com carteira assinada — e direitos trabalhistas garantidos — caiu quase um milhão, enquanto o daqueles que trabalham por conta própria cresceu em magnitude semelhante.

Ao todo, 8,354 milhões de pessoas estavam desempregadas no país no período de abril a julho. Foram mais 1,587 de trabalhadores no grupo do que um ano antes, alta de 23,5%. Na comparação com o primeiro trimestre de 2015, o aumento foi de 421 mil pessoas. Ao mesmo tempo, a população ocupada ficou em 92,2 milhões de pessoas, uma variação de apenas 0,2% nas duas comparações, que é considerada estabilidade pelo IBGE.

Menos 1 milhão de carteiras assinadas
Já a força de trabalho — que considera quem está empregado e quem está em busca de vaga — chegou a 100,566 milhões de pessoas no segundo trimestre, um aumento de 1,747 milhão de pessoas frente ao segundo trimestre de 2014 (1,8%) e de 609 mil pessoas (0,6%) em relação aos primeiros três meses deste ano. Significa que tem muito mais gente procurando emprego, o que pressiona o mercado de trabalho e eleva a taxa de desemprego.

— Boa parte das pessoas procurando emprego estava fora do mercado e, possivelmente, voltou por causa das dificuldades que os outros membros famílias encontram no mercado de trabalho, que está cada vez mais difícil, e da queda do rendimento das famílias — explica o professor de economia da UFRJ, João Saboia.

Segundo o pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia, da FGV, Rodrigo Leandro de Moura, o crescimento da força de trabalho é causado pela perda nos rendimentos diante da alta de preços:

— Há mais pessoas desempregadas e, ao mesmo tempo, a inflação corrói os salários. Isso contribui para que as condições financeiras das família estejam se deteriorando e obriga quem estava fora do mercado de trabalho a procurar emprego, para ajudar no orçamento familiar.

O coordenador das pesquisas de emprego do IBGE, Cimar Azeredo, destaca ainda o impacto da baixa criação de vagas. Ele reconhece que pode haver mais pressão nos próximos meses, porque parte dos demitidos ainda não voltou a procurar vaga, porque está “sobre a rede de proteção”, ou seja, recebendo seguro-desemprego.

— Houve até geração de postos de trabalho, mas inferior ao necessário para manter o desemprego estável. O mercado de trabalho tem reflexo do cenário econômico — afirmou Azeredo.

O emprego com carteira assinada foi fortemente afetado: o total de trabalhadores nesse grupo caiu 2,6% em relação ao segundo trimestre de 2014, ou quase um milhão de pessoas a menos (971 mil). Ao mesmo tempo, quase um milhão de pessoas (989 mil) passou a trabalhar por conta própria, uma alta de 4,7% em relação ao segundo trimestre de 2014:

— Hoje se vive um período muito similar ao que viu lá atrás, em 2003, com aumento da taxa de desocupação, estabilidade na população e aumento dos trabalhadores por conta própria.

Para Saboia, a ampliação de trabalhadores por conta própria é ruim, por representar claro aumento da informalidade:

— Durante dez anos, houve o processo de formalização do trabalho, que é o crescimento da carteira assinada. Agora vemos uma reversão disso e crescimento do trabalhador por conta própria. Normalmente, no fim do ano, o desemprego cai, mas tenho sérias dúvidas se vai cair, nada aponta para isso. O mais provável é taxa crescer mais ainda.

O rendimento médio do trabalhador brasileiro ficou em R$ 1.882, o que representa uma queda 0,5% em relação ao primeiro trimestre e alta de 1,4% na comparação com o segundo trimestre de 2014. Segundo o IBGE, no entanto, o resultado ficou estável nas duas comparações.

O desemprego subiu em todo o país. Em São Paulo, a taxa alcançou 9%, a maior da série histórica iniciada em 2012. O estado concentra 23,1% da força de trabalho e 25,29% dos desempregados. No Rio de Janeiro, a taxa subiu para 7,2%, contra 6,4% no segundo trimestre do ano passado e 6,6% no primeiro deste ano. O Nordeste é a região com a maior taxa, 10,3%.

— São Paulo é um dos principais centros industriais do país. E tem efeito farol, o que acontece ali se reflete depois em outras regiões — diz Azeredo.

Saída de Temer da articulação é definitiva, afirmam aliados

• Mesmo afastado, vice atuou para evitar votação de pauta-bomba

Isabel Braga, Fernanda Krakovics e Simone Iglesias - O Globo

-BRASÍLIA- A saída do vice Michel Temer do comando da articulação política fez o governo correr contra o prejuízo ontem. A saída, segundo aliados de Temer, é definitiva e ele se dedicará à sua atuação como vice. Em conversas internas, a avaliação é que o vice e seu principal auxiliar na articulação, o ministro Eliseu Padilha (Aviação Civil) devolveram a “batata quente” das nomeações de cargos para a presidente Dilma e seus assessores mais próximos.

Temer explicou que agora ele se dedicará a se encontrar com lideranças políticas para tratar dos grandes temas do país. Perguntado por uma jornalista se seu afastamento do controle da articulação política como um todo abre caminho para pavimentar um processo de impeachment contra Dilma, Temer disse ser “absolutamente falso” esse entendimento. O vice afirmou que sua relação com Dilma não ficou arranhada.

— A presidente Dilma fez um pedido, naturalmente enalteceu gentilmente minha colaboração nessa primeira fase, mas concordou plenamente que estamos em uma segunda fase e devo exercitar outra espécie de atividade, ainda na coordenação política. Não há embaraço — disse.

O Palácio do Planalto, por sua vez, tenta passar a impressão de que nada mudou.

Ontem, Temer atuou e conseguiu evitar uma derrota do governo na votação de uma das propostas da chamada pautabomba: a emenda constitucional que impede que o governo federal ou o Congresso imponha medidas que impactem os cofres de estados e municípios. O problema para o Planalto é que isso libera os parlamentares para aprovar medidas populistas que impactem os cofres federais. Temer acionou o líder do PMDB, Leonardo Picciani (RJ), para construir um acordo e inviabilizou o movimento do presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e seus aliados que pretendiam votar a emenda ainda esta semana no plenário da Casa. Temer conseguiu até mesmo convencer o relator da emenda, deputado André Moura (PSC-SE) a modificar seu texto. O relator deverá apresentar hoje o novo texto.

Risco de interrupção do mandato de Dilma diminui no Congresso

Por Raymundo Costa - Valor Econômico

BRASÍLIA - O risco da presidente Dilma Rousseff sofrer um processo de impeachment a curto prazo está afastado, segundo avaliam dirigentes partidários, líderes do Congresso e o Palácio do Planalto. "O oxigênio foi dado ao paciente", disse ao Valor um senador com trânsito no governo e na oposição, referindo-se às apreensões com os desdobramentos da crise manifestadas por entidades de classe empresariais como a Fiesp e a Firjan, grupos financeiros como o Bradesco e o Itau, além de empresas da área de comunicação - preocupações que foram recepcionadas no Congresso, especialmente pelo Senado. "Se o oxigênio dado será suficiente para retirar o paciente da UTI é outra coisa", complementou o mesmo congressista.

É essa dose de oxigênio que explica o esboço de reação feito pela presidente Dilma Rousseff, ao anunciar a redução no número de ministérios, cortes de cargos comissionados e a promessa de uma reforma ministerial que dê aos partidos pastas mais fortes. Ontem a presidente liberou R$ 500 milhões de restos a pagar de emendas parlamentares ao orçamento e preencheu cargos que já estavam negociados por Michel Temer, antes de o vice deixar a função de coordenador político do governo.

O ministro Eliseu Padilha, que ainda acumula a Secretaria da Aviação Civil com a de Relações Institucionais, disse a amigos, em tom de lamento, que "os tempos da burocracia e da política são diferentes". A liberação já poderia ter ocorrido e evitado o desgaste que levou à saída de Temer da coordenação. O próprio Padilha vai começar a dar meio expediente na SRI e meio na SAC. A Secretaria de Relações Institucionais deve ser extinta na reforma planejada por Dilma, pois praticamente perdeu a função com a aprovação do orçamento impositivo. A SRI era o balcão.

O paradoxo da situação é que a saída de Temer reduziu a margem de apoio da presidente no PMDB, mas ela foi beneficiada pelas manifestações empresariais. A Agenda Brasil não é necessariamente para ser executada, mas é uma boia lançada pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, para a presidente se agarrar e a partir dai tentar se recompor politicamente no Congresso e apresentar um programa efetivo de recuperação da economia. Mas há ideias que podem ser aproveitadas.

O senador José Serra (PSDB-SP), por exemplo, estima que o governo poderia economizar cerca de R$ 10 bilhões apenas com a revisão dos contratos públicos - uma das propostas das agenda. Renan adotou esta medida ao assumir o Senado, um universo bem menor, e conseguiu uma economia de R$ 530 milhões.

Renan disse aos aliados que está disposto a ajudar no esforço para a saída da crise. "Se cair, cai de maduro. Nós não vamos derrubar", disse o senador a interlocutores, segundo apurou o Valor. Além da Agenda Brasil, Renan também ajudou para que o Tribunal de Contas da União (TCU) ampliasse o prazo de defesa do governo sobre as contas do exercício de 2014.

No Palácio do Planalto a expectativa é que o TCU reverta a tendência manifestada até agora e aprove as contas, com ressalvas e recomendações para que os erros não sejam repetidos neste ano. Fontes do tribunal afirmam que dificilmente o TCU deixará de recomendar a rejeição das contas, mas pode amenizar nos adjetivos.

A avaliação dos senadores é que as contas de 2014 deixaram de ser um risco imediato para o impeachment da presidente. Mesmo que o TCU recomende sua rejeição, Renan já avisou que não pretende votar a sugestão do tribunal. A palavra final, neste caso, é do Congresso. Como não há precedentes, caberá a Renan Calheiros estipular os ritos da votação.

O "oxigênio" dado ao paciente é visto no Congresso, talvez, como a derradeira oportunidade para a presidente Dilma Rousseff retomar a condução da política. Por trás da ajuda a Dilma está a ideia de que o impeachment "mata" a presidente, mas não "mata" o modelo econômico praticado pelo Partido dos Trabalhadores (PT), pelo menos, desde a crise de 2008, considerado centralizador e intervencionista.

Segundo um dos senadores envolvidos nas conversações tripartites - Congresso, governo, empresários - não é exato dizer que o "PMDB do Senado" está no comando do projeto para ajudar Dilma a se recompor. Trata-se de um esforço mais amplo a partir da compreensão de que não será bom para as instituições democráticas do país tirar um segundo presidente da República, em apenas 30 anos de normalidade democrática contínua, após o fim do regime dos generais.

Num ambiente onde o escândalo da tarde supera a crise da manhã, ninguém é capaz de fazer apostas seguras sobre o futuro do governo. A avaliação de senadores é que Dilma reagiu bem ao fazer a autocrítica de seus erros na condução da política econômica e anunciar que o governo fará sua parte no esforço para reequilibrar as contas públicas. Mas já voltou ao errar na política ao deixar claro que Temer saiu não porque concluiu a votação do ajuste fiscal, mas por acreditar que ele se colocou como opção, para o caso de substituição da presidente.

A liberação de R$ 500 milhões ajuda inclusive a reativar pequenas obras espalhadas por milhares de municípios, mas é pouco diante do total de R$ 4,6 bilhões previstos. "É uma injeção na veia contra o desemprego nos pequenos municípios", disse o ministro Padilha. Ainda não há expectativa sobre quanto ainda pode ser liberado até o final do ano, mas Padilha argumentou, no governo, que "o barato às vezes sai caro", ou seja, o Tesouro economiza um pouco ao segurar o pagamento das emendas, mas leva de troco da Câmara uma "pauta bomba" que custa muito mais.

Oposição adia decisão sobre impeachment

Por Raquel Ulhôa – Valor Econômico

BRASÍLIA - Sem ambiente político favorável à aprovação de processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff neste momento, a oposição adiou a decisão sobre o rumo a ser defendido. A reunião dos partidos de oposição com juristas e lideranças de outros partidos - inclusive PMDB - para discutir o assunto, anunciada pelo senador Aécio Neves (PSDB-MG) na semana passada, não tem data para ser realizada. Faltam elementos técnicos para justificar a abertura do processo e votos. A oposição sozinha não tem. Precisa atrair deputados da base governista para atingir o quórum necessário (2/3 dos 513 deputados federais). Além disso, a própria oposição não está totalmente convencida se a melhor saída é o impeachment.

Essa avaliação foi feita ontem, durante almoço, entre Aécio e lideranças do PSDB e do DEM. Feitas as contas, a conclusão é que não chegariam a 200 os votos a favor do impeachment. São necessários 342. Se não for suprapartidário, o processo não avançará. Os oposicionistas avaliaram que o governo agregou apoios importantes recentemente, como de banqueiros, entidades representativas ao setor produtivo e empresários. Faltam votos, ambiente político favorável e elementos técnicos.

Presidente do PSDB, Aécio deu entrevista, na qual manifestou confiança na abertura, pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), de investigação sobre suposto uso de dinheiro de propina pela chapa de Dilma na campanha eleitoral de 2014 e no resultado do julgamento do Tribunal de Contas da União (TCU), considerando irregulares as contas do governo Dilma Rousseff de 2014. O resultado do TCU poderia embasar pedido de impeachment. Já o do TSE, abrir caminho para a cassação da chapa Dilma-Temer.

Na entrevista, Aécio afirmou que a crise se agrava e o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, está cada vez mais fragilizado e desautorizado a cada votação, sem condições de impor sua agenda sequer à base aliada do Palácio do Planalto. Disse que a presidente Dilma Rousseff está "nas cordas" e não fala a verdade, quando se mostra surpresa com o tamanho da crise econômica.

"Aquilo que a presidente disse talvez seja a única das verdades: nos preparemos, porque teremos um ano de 2016 extremamente ruim para a economia e principalmente para os brasileiros, porque a crise que era econômica já é social. O desemprego continua avançando de forma muito rápida e nós sabemos o que isso impacta na vida das famílias e pessoas, com inflação alta e juros na estratosfera. Essa é a herança macabra do governo petista. Inflação saindo do controle, desemprego na estratosfera, juros escorchantes, e enfim, um desgoverno", disse Aécio.

Com relação a Levy, o tucano o considera cada vez mais fragilizado. "Começam a ser adotadas no país, novamente, medidas inspiradas naquela nefasta 'nova matriz econômica', que governou o país ao longo dos últimos anos [governo Luiz Inácio Lula da Silva], como a decisão recente dos bancos públicos de, de forma subsidiada, financiarem setores específicos da economia".

Aécio disse, ainda, que o ministro foi nomeado por causa da "necessidade emergencial" da presidente de escolher alguém com interlocução com o mercado, para resgatar a credibilidade do governo. Mas isso, para ele, virou coisa do passado e o sentimento da oposição é que o país é uma "uma nau desgovernada".

Merval Pereira - Freio de arrumação

- O Globo

O TSE definiu ontem uma maioria para abrir uma ação de investigação sobre as contas da campanha eleitoral da presidente Dilma em 2014, mudando de patamar a atuação do Tribunal com relação ao pedido do PSDB para impugnar o diploma da chapa vitoriosa por abuso de poder político e econômico.

A ministra relatora, Luciana Lóssio, no entanto, pediu vista do processo, o que impediu que a decisão fosse anunciada. O PSDB deu um freio de arrumação no seu proselitismo pelo impeachment da presidente Dilma e decidiu aguardar que o ambiente político fique mais favorável a uma ação mais efetiva.

Isso quer dizer que aguardará a decisão de um dos tribunais de controle para definir o que fazer, transferindo sem data a reunião com opositores e juristas para debater o assunto.

Pesou na decisão não apenas a divisão dos tucanos, mas, sobretudo, a posição do PMDB, que continua dividido quanto ao governo Dilma, com um grupo pressionando para que o partido antecipe sua convenção nacional para definir deixar o governo.

Os tucanos continuam negociando nos bastidores com os peemedebistas sobre a possibilidade de um eventual governo Michel Temer, pois não pretendem assumir a dianteira de uma eventual ação contra a presidente Dilma.

O PSDB considera que os movimentos nos tribunais de controle são no sentido de investigar as contas da campanha eleitoral para presidente e do último ano do primeiro governo Dilma Rousseff, criando um ambiente propício a demonstrar que houve abuso de poder para vencer as eleições, seja nos gastos excessivos ferindo a Lei de Responsabilidade Fiscal, seja mesmo o financiamento irregular das campanhas, inclusive utilização de dinheiro desviado da Petrobras para tal fim.

O ministro Gilmar Mendes, do STF e do TSE, tem aprofundado nos últimos dias suas ações sobre as contas da campanha eleitoral do P T, enviando ao procurador- geral da República pedido de investigação sobre gastos feitos por empresas fantasmas, além de pedir investigações específicas.

Ontem mesmo, ele pediu para o Ministério Público de São Paulo investigar indícios de irregularidades no pagamento de R$ 1,6 milhão pela campanha de Dilma Rousseff a uma empresa que havia sido aberta apenas dois meses antes das eleições presidenciais. A suspeita é que a empresa seja fantasma e que não teria prestado os serviços referentes ao pagamento.

Gilmar Mendes já havia prorrogado por mais um ano o prazo para que as contas eleitorais da presidente Dilma permanecessem disponíveis na internet. A decisão foi motivada por suspeitas de irregularidades, que ele considera “gravíssimas”, como o pagamento de R$ 20 milhões a uma gráfica fantasma ou a uma firma, a Focal, para montar palanques presidenciais, no valor de R$ 25 milhões. Essas empresas têm ligações com a que ele mandou investigar em São Paulo ontem.

Com o apoio do plenário do TSE que recebeu ontem, o ministro Gilmar Mendes está liderando as ações de investigação da recente eleição presidencial.

No TCU, também avança a análise sobre as “pedaladas fiscais” do governo, e o relator Augusto Nardes tende a não conceder mais 15 dias para as explicações do governo, pois considera uma ação protelatória. Vai, no entanto, conversar com os demais ministros para que a decisão tenha o apoio da maioria.

Eliane Cantanhêde - Temer sai de fininho

- O Estado de S. Paulo

Sabe aquela história de que, quanto mais você fala em desgraça, mais você atrai desgraça (toc toc toc)? Pois é. Tanto a presidente Dilma Rousseff insistiu em atribuir a crise econômica a “fatores externos” que os fatores externos passaram a ser realmente um grande fantasma sobre a já mal assombrada economia brasileira. As incertezas na China começam a abalar o mundo todo, particularmente os fornecedores de commodities, caso do Brasil. Logo, o que está ruim ainda pode piorar.

É por isso que a presidente passou a admitir, num dia, que demorou muito a perceber a gravidade da crise e, no outro, que 2016 não vai ser nenhuma maravilha. Nós todos já sabíamos disso, mas, partindo da presidente, uma presidente que nunca admite nenhum erro, a sensação é ainda mais preocupante.

Bem, é nesse clima que o ministro do STF e do TSE Gilmar Mendes toca adiante os questionamentos sobre a campanha de Dilma em 2014, o delator e ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa e o delator e doleiro Alberto Youssef põem mais lenha nessa fogueira e as orelhas da senadora Gleisi Hoffmann – que foi chefe da Casa Civil de Dilma no primeiro mandato – começam a arder.

Dilma está se esforçando para salvar o mandato, com suas viagens pelo País, suas entrevistas e discursos, as investidas para manter o PIB sob controle e a abertura dos cofres para neutralizar a base aliada. Mas parece que, quanto mais ela sopra, mais a fogueira cresce e as labaredas se espalham.

Pois não é que foi justamente nesse ponto da crise que o vice-presidente Michel Temer decidiu lavar as mãos e deixar a coordenação política para lá? Ele pode ter mil e uma razões objetivas, mas é impossível conter a onda de interpretações, deduções, projeções e fofocas que tomou conta do mundo político e começa a extrapolar para o mundo dos investimentos.

A bem de Temer, diga-se que ele tem mesmo sido de “extrema lealdade”, conforme a própria Dilma já declarou. Também a bem de Temer, diga-se que ele sempre se comprometeu em assumir a coordenação para garantir o ajuste fiscal, não para todo o sempre. E, finalmente, a bem de Temer, ele andava se queixando muito da “política miúda”. Em recente almoço, confessou que nunca viu uma coisa dessas, com uma fila de deputados se engalfinhando pelos cargos, mesmo os inexpressivos (deputados e cargos...).

Após essas ressalvas, é preciso dizer que elas, isoladamente ou em conjunto, não apagam as evidências de que o PMDB tem dado passos porta afora do governo e de que a saída de Temer da coordenação – contra a vontade da presidente – é não só um passo, mas um pulo para a independência do partido em relação ao PT, ao governo, a Dilma. Não por acaso, o braço direito de Temer na coordenação, Eliseu Padilha, também está de saída.

Nunca é demais lembrar que foi o próprio Temer quem lançou a tese de que “alguém” tem de reunificar as forças políticas, nem que, como já foi dito aqui neste espaço, a solução Temer, a la Itamar Franco, é o centro das articulações dos que torcem para Dilma cair, ou dos que simplesmente constatam que ela não teria como se sustentar por mais três anos e meio.

Logo, só há uma conclusão em relação à decisão do vice de sair da coordenação política de Dilma, mas continuar ativamente nas articulações políticas e no Congresso: Temer não vai precipitar nada, mas também não vai, digamos, fugir às responsabilidades constitucionais. Pelo sim, pelo não, o vice está se colocando à disposição, para eventualidades.

Só que... não há uma campanha eleitoral da presidente e outra do vice e as contas de 2014 são o maior perigo rondando Dilma neste momento. Chapa é chapa e, se der zebra por aí, os dois são inseparáveis.

Dúvida atroz. E o José Sérgio Gabrielli, hein? Se ele nunca viu, não ouviu falar nem tem de responder pelos bilhões pra cá, bilhões pra lá debaixo das suas barbas, para que serve a presidência da Petrobrás?

Dora Kramer - Falta fio terra

- O Estado de S. Paulo

Na campanha pela reeleição a presidente Dilma Rousseff dizia-se “estarrecida” diante de qualquer fato ou ato para o qual não tivesse resposta. Na entrevista dada na segunda-feira aos jornais de circulação nacional, Dilma trocou o estarrecimento pelo susto para se justificar sem, no entanto, se explicar.

Disse que foi surpreendida tanto pelo tamanho da crise econômica quanto pela dimensão do esquema de corrupção na Petrobrás e, assim, considerou-se em dia com explicações devidas sobre fatos ocorridos e atos cometidos em seu governo.

Muito mais que pedidos de desculpas – penitência objetivamente inútil, pois o caso não é de absolvição de pecados, mas de correção efetiva – a presidente continua devendo ao País esclarecimentos consistentes para a origem, e soluções realistas para a saída da crise.

Até agora não fez uma coisa nem outra e as respostas dadas aos jornalistas indicam que não o fará enquanto a corda, embora bamba, ainda se sustenta. À crise econômica, Dilma segue atribuindo os motivos a fatores externos e imprevisíveis, assim como reconhece que continua sem horizonte de previsibilidade.

Em bom português, isso significa que o governo não tem planejamento. Atua ao sabor dos ventos, adota o voluntarismo como critério para tomada de decisões e age quando já é tarde. Foi o que disse a chefe da Nação que preferiu adotar a pregação do otimismo à deriva quando ouvia de todos os lados alertas sobre a gravidade da situação do País, moral, política, econômica e administrativamente falando.

Os realistas, a cuja análise do cenário o Planalto foi obrigado a se render, eram, na concepção palaciana, pessimistas a serviço da tese do “quanto pior, melhor”. Mesmo quando integrantes do governo. Em 2013, o então presidente da Câmara de Políticas de Gestão ligada à Presidência, Jorge Gerdau, alertou para a impossibilidade de o País ser administrado numa estrutura assentada em 39 ministérios.

“Quando a burrice, a loucura ou a irresponsabilidade vão muito longe, de repente sai um saneamento. Provavelmente estamos no limite desse período.” Vaticínio certeiro. Desprezado, contudo. Gerdau não foi ouvido. Deixou a função na Câmara de Gestão – da qual, aliás, não se viu a produção de um alfinete – e tornou-se um adepto da candidatura presidencial de oposição em 2014.

Agora, dois anos depois, premida pelas circunstâncias, a presidente anuncia a redução do número de ministérios. Não diz, no entanto, como será feita a dita “reforma administrativa”, não explicita quais serão as pastas atingidas e, sobretudo, não explica as razões pelas quais o governo Lula criou oito ministérios ao tomar posse em 2003, acrescidas de outras cinco na gestão atual.

A motivação, sabemos: necessidade de acomodar afilhados (petistas ou não) na máquina pública, uma vez que a opção do governo foi atuar a partir do manejo orçamentário no lugar do convencimento programático.

O caminho supostamente mais fácil acabou se revelando mais “custoso”. Custou a autoridade moral do PT e levou junto a boa imagem do partido junto à sociedade. Quando o governo se dispõe a reduzir ministérios e a quantidade de gente nomeada em cargos de comissão, emerge como inevitável a dúvida: o que vai prevalecer, o conceito político ou os ditames administrativos de eficiência?

A presidente não disse. Mais uma vez infringindo a regra política da eficácia, segundo a qual a decisão só é anunciada depois de a combinação acertada. A inversão da norma – anunciar e combinar depois – pode criar mais problemas e atritos em campo onde se pretendiam construir consensos e soluções. Em resumo, falta ao governo fio terra

Hélio Schwartsman - Fofocas, ministérios e mitos

- Folha de S. Paulo

Na entrevista que concedeu a veículos de comunicação, a presidente Dilma Rousseff fez algumas reflexões sobre o caráter da fofoca como agente promotor da sociabilidade, que atribuiu ao livro "Sapiens - Uma Breve História da Humanidade", do historiador israelense Yuval Noah Harari.

De fato, Harari expõe a teoria de que a linguagem humana, que parece ter surgido 70 mil anos atrás, evoluiu não só para que as pessoas dividissem conhecimento sobre o mundo –a manada de bisões está na clareira perto do rio–, mas principalmente para que trocassem informações sociais, isto é, para que fofocassem, cimentando a coesão do grupo.

Só que o autor vai além e apresenta sua tese de que notícias sobre bisões e vizinhos são apenas parte da história. Para ele, o que possibilitou a cooperação social em escalas antes inimagináveis foi ao poder da linguagem de transmitir informações sobre coisas que não existem, como deuses, direitos etc. Segundo Harari, o que verdadeiramente permitiu que o homem deixasse de ser um primata sem nada de especial para tornar-se a espécie dominante do planeta foi sua capacidade de forjar realidades ficcionais, que resultaram em instituições fortemente motivadoras como religião, nação, dinheiro.

Essa noção de que ficções podem produzir consensos sociais talvez explique os últimos passos do governo Dilma. Na segunda-feira, o Planalto anunciou o corte de dez ministérios, gesto que a presidente classificava como de "cegueira tecnocrática" durante a campanha eleitoral, e, pela primeira vez, a mandatária ensaiou um mea-culpa econômico, atitude que vinha até aqui evitando. No discurso oficial, o culpado pela crise era o baixo crescimento mundial. Agora ela já admite que pode ter errado.

Não dá para recriminar Dilma por buscar uma saída, mas minha impressão é que ela já abusou tanto dos mitos e ficções que eles agora perderam sua força agregadora.

Bernardo Mello Franco - A lorota venceu

- Folha de S. Paulo

É possível encher o espaço desta coluna com declarações da presidente Dilma Rousseff e seus aliados contra a ideia de cortar ministérios. A sugestão circulou em diversos momentos, mas sempre foi tratada com desprezo no Planalto.

Uma boa oportunidade surgiu depois dos protestos de junho de 2013, quando a popularidade presidencial sofreu o primeiro tombo. Pressionada pelas ruas, Dilma foi aconselhada a enxugar a máquina em sinal de austeridade. "Há um consenso hoje na questão do número exagerado de ministérios", disse o então presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, sugerindo o fim de 14 pastas.

A presidente escalou Jaques Wagner, então governador da Bahia, para responder em seu nome. "Não é reduzindo ministério que se dá eficiência à máquina pública", disse ele. Dois anos depois, o peemedebista e o petista esqueceram a divergência e foram premiados com a mesma moeda. Hoje, eles são 2 dos 38 ministros do governo Dilma.

O tema voltou na campanha de 2014, quando Aécio Neves e Marina Silva prometeram passar a navalha na Esplanada. Como nenhum deles se encorajou a nomear as pastas que seriam sacrificadas, a presidente se sentiu à vontade para contra-atacar.

"Tem gente querendo reduzir ministérios. Um deles o da Igualdade Racial, outro o que luta em defesa das mulheres. Eu acho um verdadeiro escândalo querer acabar", disse, em setembro. No mês anterior, ela definira a promessa dos adversários como uma "cegueira tecnocrática".

Reeleita, Dilma teve nova chance de reduzir o time, mas bateu o pé. "Outra lorota", disse em novembro, ao ser questionada sobre os rumores de que enxugaria o segundo escalão. Ela insistiu que a medida não geraria "economia real" para o governo.

Ao voltar atrás, Dilma deixou duas hipóteses em aberto. Ou mentiu antes, ao dizer que não precisava cortar ministérios, ou mente agora, ao agir contra suas convicções. Em qualquer dos casos, a lorota terá vencido.

Luiz Carlos Azedo - O espectro da Lava-Jato

• A oposição adiou a reunião que estava programada para discutir a proposta de impeachment de Dilma Rousseff. PSDB, DEM, PPS e SD chegaram à conclusão de que nada acontecerá sem a participação do PMDB

- Correio Braziliense

A Operação Lava-Jato, que investiga 48 políticos com foro privilegiado, ronda o Congresso Nacional e o Palácio do Planalto. A saída do vice-presidente Michel Temer da articulação política do governo foi vista por todos como mais um fator de enfraquecimento da presidente Dilma Rousseff, mas a cúpula do PMDB decidiu afrouxar a corda com o Palácio para evitar que seu afastamento fosse interpretado como uma ruptura com o governo. Até o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que vinha numa escalada de confronto, pegou leve nesta semana com o Palácio do Planalto.

Por essa razão, a oposição adiou a reunião que estava programada para discutir a proposta de impeachment de Dilma Rousseff. Os líderes do PSDB, DEM, PPS e SD, que haviam convocado a reunião, chegaram à conclusão de que nada acontecerá sem a participação do PMDB e resolveram esperar os desdobramentos da saída de Michel Temer da articulação política do governo. A tensão no Congresso, porém, não diminuiu nem um pouco.

Na Câmara, a cena política foi roubada pela CPI da Petrobras, que promoveu uma acareação entre o doleiro Alberto Yousseff e o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto da Costa. Ambos aderiram à delação premiada e reiteraram seus depoimentos à Polícia Federal e à própria CPI, em alguns aspectos contraditórios. O choque de versões mais importante foi em relação ao suposto repasse de R$ 2 milhões desviados de contratos com a Petrobras da cota do PP para a campanha da presidente Dilma Rousseff, a pedido do ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil Antônio Palocci.

Segundo Youssef, um dos delatores da Lava-Jato estaria detalhando ao Ministério Público Federal quem pediu o dinheiro para a campanha petista na eleição presidencial de 2010. O doleiro, entretanto, não quis dizer o nome do delator. Negou, porém, a afirmação de Costa de que fora ele, Yousseff, quem lhe pedira para arrecadar dinheiro para a campanha de Dilma. “Esse assunto me veio através do Alberto Youssef. Eu autorizei repassarem os R$ 2 milhões da cota do PP para a campanha de 2010. Eu ratifico integralmente os meus depoimentos. Todos eles”, disse o ex-diretor da Petrobras.

Yousseff contestou: “Eu vou me reservar ao silêncio com referência a esse assunto porque existe uma investigação do Palocci, e logo vai ser revelado e será esclarecido o assunto. Tem outro réu colaborador que está falando, eu não fiz esse repasse. Assim que essa colaboração for notificada, vocês vão saber realmente quem foi que pediu recurso e quem repassou esse recurso”, disse aos parlamentares. O doleiro negou envolvimento com o ex-ministro Antônio Palocci ou qualquer outra pessoa ligada ao petista, mas disse que o ex-presidente do PSDB Sergio Guerra (PE) recebeu R$ 10 milhões para encerrar a CPI da Petrobras anterior.

Campanhas eleitorais
Entre os senadores, porém, a notícia do dia foi o despacho assinado pelo juiz federal Sérgio Moro, responsável pelas ações penais da operação na primeira instância, que encaminhou ao Supremo Tribunal Federal (STF) documentos que podem ser provas de que a senadora Gleisi Hoffmann (PT) teria sido beneficiada pelo esquema investigado pela Operação Lava-Jato no Ministério do Planejamento.

Detectou-se o pagamento de propina através de um acordo firmado entre o Ministério do Planejamento e a empresa Consist Software para gestão de empréstimos consignados, que localizou documentos no escritório de advocacia de Guilherme Gonçalves, que prestou serviços à senadora nas campanhas eleitorais de 2010 e 2014. Os valores recebidos pela Consist teriam sido utilizados para efetuar pagamentos em favor de Gleisi Hoffmann.

De acordo com a Polícia Federal e o Ministério Público Federal, o ex-vereador de Americana (SP) Alexandre Romano e empresário Milton Pascowitch eram os operadores desta irregularidade. Foi apreendida uma planilha que citava o “Fundo Consist” e repasses a Gleisi Hoffmann e pessoas de sua confiança. A senadora foi chefe da Casa Civil no primeiro mandato da presidente Dilma.

A propósito, o ministro Gilmar Mendes, relator da contas da presidente Dilma Rousseff na campanha de 2014, determinou ontem que o Ministério Público de São Paulo investigue uma empresa que recebeu R$ 1,6 milhão da campanha de reeleição da presidente Dilma. Relatório da Secretaria de Fazenda de São Paulo sobre a empresa Angela Maria do Nascimento Sorocaba-ME, para apuração de “eventual ilícito”, foi remetido ao MP. A empresa foi aberta em agosto do ano passado e, até setembro, recebeu R$ 3,6 milhões. Desse total, notas no valor de R$ 1,6 milhão foram emitidas em nome da campanha eleitoral de Dilma. O PT nega irregularidades.

Rosângela Bittar - Enquanto o lobo não vem

• Lula recolheu-se à espera de clareza para definir o futuro

- Valor Econômico

Aqui mesmo, especialistas em interpretação de pesquisas eleitorais decretaram há poucos dias a impossibilidade de o ex-presidente Lula ter uma candidatura a presidente bem sucedida, em 2018, nas condições que tem hoje, com o governo Dilma Rousseff no andamento cadenciado de um paquiderme. Sem contar outros percalços que o têm incomodado, como citações de seu nome em denúncias da Operação Lava-Jato e, principalmente, o choque de ver sua imagem reproduzida em bonecos vestidos de presidiários, como ocorreu na última manifestação popular de 16 de agosto. Essas situações mais do que fragilizam e tornam vulnerável o ex-presidente, o tem deixado perplexo.

O vaticínio muda, porém, se Lula for um político de oposição. Aí terá fôlego, e é por isso que torcem seus amigos. Para que seja criado o cenário em que o ex-presidente seja o candidato que vá fazer o ataque ao descalabro do governo; ter um adversário em quem jogar a responsabilidade pela crise econômica, política e moral que assolou o país, agora agravada, finalmente, como sempre foi alegação recorrente, pela crise mundial. Realismo pragmático.

Lula, na oposição, voltaria a ser muito forte, avaliam seus críticos e seus amigos, sem exceção. A campanha apresentaria uma dose elevada de vitimização, já sem o peso do fracasso do governo, com a vantagem de que, sendo a situação do país tão grave, é certo que ninguém resolveria os problemas em dois anos. Não há mágico, de qualquer partido, que o faça, saia a presidente Dilma Rousseff por impeachment ou por renúncia.

Com esse diagnóstico em mãos, Lula aguarda, observa, mas decidiu não jogar a toalha ainda com relação ao governo Dilma. Segundo seus próximos, ainda tem tempo para esperar melhor desfecho das tentativas de ressurreição que a presidente ensaia, algumas por conselho dele, ainda aos trancos, com uma equipe cuja atuação o ex-presidente e o país decididamente não compreendem, pela arrogância, equívocos e fracassos sucessivos. Enquanto Dilma reagir, porém, Lula manterá na gaveta o projeto futuro-garantido.

À presidente foi dado oxigênio intenso no início de agosto, quando os banqueiros Roberto Setubal e Luiz Trabuco lideraram empresários da comunicação e da indústria, senadores, judiciário, economistas de elite de todas as tendências e se uniram em concertação de apoio, contra o impeachment. Com as manifestações populares, Dilma engasgou. Mais uma vez, não soube responder às ruas. Veio em seu socorro a Agenda Brasil, peça de força marqueteira a impulsionar a votação da última medida do ajuste fiscal no Congresso. Na semana seguinte, sucumbiu à crise da articulação política do vice-presidente Michel Temer, sabotado pelos conselheiros presidenciais, que desejavam seu afastamento desde sempre mas participavam da cena teatral de tripulantes do mesmo barco.

Novamente os banqueiros retomaram a mão, Roberto Setúbal reergueu numa entrevista a liderança da já desgastada concertação na proximidade do perigo. Dilma começou de novo a se mexer. Assistiu a sucessivas tentativas de desestabilização do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, entrando na onda dos alquimistas palacianos, sem saber, ou querer, debelar boatos. Quando o fez, foi, como é sempre, um gesto tardio. Dilma cumpre o script das salas contíguas: entregou cargos que não entregava nos acordos do vice-presidente e liberou uma dinheirama de emendas que relutava pagar, recuou no pagamento do décimo-terceiro de aposentados, avalizando assim as rasteiras a Temer e Levy, decidindo ampliar espaços dos ministros que forçam ajuste pelo aumento de impostos e não corte de gastos.

Mas a presidente não deixa isso claro. Ninguém poderá dizer que ela tem finalmente uma política. Dá a entender a Lula que mudou, mas não mudou. Parece acolher as teses de um, mas toca as do outro. É o governo quem sabota o governo.

Para manter o moral, na hipótese de persistência da crise política, Dilma levantou a cabeça e foi à luta na armação de uma ofensiva. Michel Temer havia deixado claro que sua retirada visava romper o cansaço com a humilhação que lhe impingiram ministros petistas do Palácio, que o desautorizavam e executavam acordos diferentes dos por ele firmados. Na roda de conselheiros, porém, prevaleceu e ainda vigora o registro, para o partido, para o público e para o governo, de tentativa de golpe do vice, que queria o impeachment para assumir a presidência. Dilma disse não ter acreditado na versão, mas fez uma frase que denunciou seu conselheiro: "Temer não falou aquilo (o vice chamara por "alguém" para unir o país) com a intenção que lhe atribuíram". Só faltou dar o nome de quem atribuiu. Puro pretexto.

Na operação mais recente Dilma lançou a ideia de fazer estudos sobre uma reforma administrativa com a extinção de dez ministérios, o contrário do que pregou há menos de um ano, na campanha eleitoral. Uma reforma no momento tão fantasiosa quanto a Agenda Brasil do Senado Federal. Seria acompanhada da demissão de mil titulares de cargos comissionados. Reações imediatas, recuos imediatos: Dilma disse que não sabe quem será morto, ou mesmo se "alguém" será morto. A reforma é manobra diversionista. Pacote acompanhado, no mesmo dia, de um também tardio mea culpa por não ter sabido avaliar a crise econômica.

Dilma não está fazendo nada que o ex-presidente Lula não lhe tenha sugerido quando saiu horrorizado de um encontro com o ex-presidente José Sarney e os senadores Renan Calheiros, Eunicio Oliveira, Romero Jucá, Eduardo Braga e Jader Barbalho. Lula lhe contou as queixas que ouvira sobre a atuação do serpentário petista do Palácio do Planalto. Indicou atitudes e ela prometeu mudar. Depois disso, e das manifestações, Lula se afastou.

Com o veredito de que seu futuro é garantido mas na oposição, Lula está olhando o governo de longe. Decidiu permanecer recolhido por um tempo, à espera de clareza e resultados. Nem que seja, como definiu um colaborador, "o empate". Não precisa haver a goleada que ele próprio acredita ter dado no governo. Mas não precisa também degradar-se. Buscar apoio na dissidência da Força Sindical, como o fez o ministro Miguel Rossetto, em rapapé a Juruna, em São Paulo, foi considerado um marco do fim de linha do governo Dilma por amigos do ex-presidente Lula.

Elio Gaspari - O olho da crise está no bunker

• ‘Dilma sai’ e ‘Dilma fica’ simplificam o problema, embaralham as cartas e escondem a essência
das dificuldades

- O Globo

Tendo produzido uma crise econômica e política, a doutora Dilma e o PT mostram-se dedicados a agravá-la. Chamaram Joaquim Levy para cuidar das contas e puxam-lhe o tapete. Chamaram Michel Temer para cuidar da articulação política e cortaram-lhe as asas. Nos dois casos, os doutores contribuíram para a própria fritura. Levy esqueceu-se de traçar a linha da qual não recuaria. Temer saiu-se com a sibilina declaração de que se precisava de “alguém que tenha capacidade de reunificar a todos”. ( Ele?) Por mais que esses episódios tenham feito barulho, não justificam a encrenca que deles resultou.

Antagonismos fazem parte da rotina de qualquer governo, em qualquer época. O que distingue a barafunda da doutora Dilma é a sua capacidade de criar novos problemas magnificando os velhos. O governo não demorou para perceber a gravidade da crise econômica que alimentou; tentou negá-la, e deu no que deu.

A crise política tem duas peculiaridades. Uma vem do PT, a outra é de Dilma. O PT não faz alianças, recruta súditos, ou sócios. Dilma, por sua vez, chegou à Presidência da República sem jamais ter vivido o cotidiano de um parlamento.

A experiência parlamentar parece uma trivialidade, até um desdouro. Não é bem assim. Tome-se o exemplo de dois hierarcas do Executivo: Delfim Netto e Roberto Campos. Como czares da economia, mandaram como ninguém. Foram para o Congresso e viraram outro tipo de pessoa, mais tolerantes, livres de algumas certezas que o poder lhes dera. No Executivo, o sujeito acha uma coisa, manda fazer e ponto final. O trem-bala, por exemplo. No Congresso, o mesmo sujeito vai para uma reunião, expõe seu ponto de vista e é contraditado por outro parlamentar, um idiota, talvez ladrão. Deverá ouvi-lo respeitosamente e habituar-se a perder calado, caso seu adversário consiga mais votos que ele. No palácio, manda quem pode e obedece quem tem juízo. No Congresso, manda quem tem maioria.

A falta de experiência parlamentar (o caso de Dilma) ou a incapacidade de preservar alianças (o caso do PT) influi no metabolismo dos palácios, transformando-os em bunkers: “Nós estamos certos e todos os outros estão errados.” Em seguida, dentro do bunker, estabelece-se uma competição de egos.

“Eu estou certo e meu rival dentro do governo é a causa de todos os males.”

Desgraçadamente, uma vez criada a mentalidade do bunker, o mundo em volta deixa de ter importância. Briga-se pela briga. O exemplo extremo dessa patologia pode ser encontrado no bunker mais famoso de todos os tempos, o da Chancelaria do III Reich, em 1945. Aquilo é que era bunker, a oito metros de profundidade. Hitler e seu “núcleo duro” enfurnaram-se nele em janeiro e de lá o Führer comandava sua guerra, tendo Martin Bormann como seu braço- direito. Velho rival do espalhafatoso marechal Hermann Goering, no dia 25 de abril Bormann teve o seu momento de esplendor e conseguiu demiti- lo de todos os cargos, expulsando- o do partido.

Os russos estavam a poucos quarteirões de distância. No dia 30 de abril, o Führer matou-se e uma semana depois o poderoso Bormann deixou o bunker. Enfim vencera, fora designado testamenteiro de Hitler e chefe do Partido Nazista. Morreu na rua, a pouca distância do bunker.

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Elio Gaspari é jornalista

José Nêumanne - Na Pátria do Pixuleco nem inferno é o limite

- O Estado de S. Paulo

Em plena campanha, a candidata à reeleição Dilma Rousseff afirmou, sem medo de ser contrariada, que seria capaz de "fazer o diabo" para ganhar eleições. Foi uma das poucas verdades que disse ao longo de todo o pleito - talvez a única. Prometeu o paraíso nos trópicos e está entregando uma conjunção infernal de crises: política, econômica e, sobretudo, moral.

Mas nenhuma das mentiras que ela contou em palanques e debates na TV é comparável à sua reação aos protestos do domingo 16 de agosto dos revoltados com a corrupção e com seu padim Lula, indignados com seu partido de adoção, o PT, e insatisfeitos com a má gestão de seu desgoverno. Em vez de dar alguma satisfação aos manifestantes, mandou uma trinca de porta-vozes falar por ela. Foram eles seu porta-voz, Edinho Silva, acusado na Operação Lava Jato de ter recebido dinheiro sujo para a campanha dela, da qual ele era tesoureiro; e os líderes de seu desgoverno na Câmara, José Guimarães (PT-CE), chamado pelo ex-presidente de Lula de "aloprado" após um assessor ter sido preso no aeroporto com dólares na cueca e irmão de José Genoino, ex-presidente de seu partido e condenado por corrupção pelo Supremo Tribunal Federal; e no Senado, José Pimentel (PT-CE), que ninguém sabe de onde vem nem para onde vai. O tal trio classificou como manifestações de "intolerância" os protestos pacíficos, dos quais não participaram os anarquistas black blocs de junho de 2013 e em que não se registrou, por isso mesmo, nenhum ato de vandalismo.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, cobrou da presidente o "gesto de grandeza" da renúncia. O apelo serviu de senha para conter o oportunismo em duas mãos da oposição, dividida entre o golpismo do senador Aécio Neves (PSDB-MG), tentando antecipar a eleição presidencial, e a esperteza de Geraldo Alckmin (PSDB-SP), que prefere deixar o desgoverno dela desabar sobre nossas cabeças descobertas até 2018. "Vamos deixá-la sangrar", disse o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP).

Mas não provocou nenhuma reação da chefona do governo. Como esperar um "gesto de grandeza" de uma presidente incapaz sequer de reconhecer os próprios erros? Ou de corrigir, de forma satisfatória, a trajetória errática da condução de sua política econômica? Ela deu uma guinada para a direita nomeando Joaquim Levy ministro da Fazenda. E logo em seguida convocou o fantasma da origem da catástrofe, que ela encomendou a Guido Mantega no primeiro mandato, ao distribuir benesses à indústria automobilística, cujos operários têm retribuído o patrocínio do próprio desemprego com índices espetaculares de rejeição, que foi de 84% no ABC na pesquisa do Datafolha com índice nacional de 71%.

Posterior à pesquisa, o desemprego do mês passado foi o pior de todos os meses de julho nos anos anteriores. Com a perspectiva de chegar o fim do ano com 1 milhão de brasileiros sem emprego, a tendência é seus índices de popularidade desabarem, aumentando em proporção similar a intolerância da cidadania à corrupção, sobre a qual Dilma e seus asseclas calam. Mas os fatos se sucedem de forma espantosa: as notícias de que a Camargo Corrêa devolverá R$ 700 milhões às estatais tungadas e de a UTC ter vencido licitação na BR com um preço 795% maior que o dos concorrentes não levaram Dilma a reconhecer o óbvio.

E agora, ao confessar que não percebeu a dimensão da crise na campanha, insinuando que sofremos aqui o efeito do desabamento chinês, a presidente já merece receber - juntos - os Prêmios Nobel da Economia, por importar uma crise um ano antes de ser produzida; da Física, por ter antecipado o efeito à causa; e da Literatura. Pois superou Jonas, considerado pelo Prêmio Nobel Gabriel García Márquez o inventor da ficção porque contou à mulher que fora engolido e expelido por uma baleia. Comparado com Dilma, o profeta bíblico é um repórter sem imaginação.

Na campanha, o marqueteiro João Santana produziu um vídeo em que mãos peludas de banqueiros furtavam a comida da mesa do trabalhador, referindo-se a Neca Setúbal, assessora da adversária Marina Silva. Um ano depois, tornada a terra prometida o deserto de desesperança geral, Roberto, irmão de Neca e presidente do Itaú-Unibanco, disse à Folha de S.Paulo que a saída da reeleita do poder provocaria "instabilidade". Com lucro líquido de R$ 20,242 bilhões no ano passado, 29% acima do resultado de R$ 15,696 bilhões de 2013, talvez ele tema que a "instabilidade" que infelicita centenas de milhares de trabalhadores sem holerite, este ano, vá bater às portas do seu banco.

Dilma, que se jacta de ter resistido à tortura na ditadura, adotou na tal campanha o codinome de Coração Valente. Recentemente, ao lado de Barack Obama, na Casa Branca, disse desprezar delatores, referindo-se a colaboradores da Justiça na Operação Lava Jato, o único empreendimento público do Estado brasileiro a merecer respeito da cidadania.

E a guerrilheiros que, torturados, deram informações a torturadores que os levaram a companheiros de armas. No entanto, não contestou o coronel Maurício Lopes Lima, que ela havia acusado de ter quebrado seus dentes, no DOI-Codi da Rua Tutoia. Lima negou e até fez blague, dizendo em entrevista ao Portal IG, citada pelo jornalista Luiz Cláudio Cunha no jornal Já, de Porto Alegre: "Se eu soubesse naquela época que ela seria presidente, eu teria pedido: 'Anota meu nome aí. Eu sou bonzinho'". A frei Tito o tal oficial apresentou o DOI-Codi como "a sucursal do inferno".

Dilma também não contestou o relatório apresentado pelo Exército à Comissão da Verdade, que ela constituiu, assegurando que nada aconteceu de irregular em suas dependências. A ditadura acabou, mas as vítimas das pedaladas e outras artimanhas de seu desgoverno nesta Pátria do Pixuleco vivem um inferno em cuja porta, ao contrário do de Dante Alighieri, não têm mais esperança nenhuma a deixar.

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*José Nêumanne é jornalista, poeta e escritor

Vinicius Torres Freire - "Erros", Dilma, 2014 e 2016

• Intriga ameaça controle de despesas no ano que vem e atinge Levy; Dilma 'sabia' da crise

- Folha de S. Paulo

Quando o governo vai mal das pernas e muito mal da cabeça, qualquer escorregão em casca de bananinha-ouro dá em tombo feio. Pior ainda quando o pessoal do Planalto despeja bananas no caminho dos colegas, digamos, de governo. Estão embanando Joaquim Levy, ministro da Fazenda, por esporte político, "demarcação de território"; até divergências normais de governo se tornam muito maiores que as de costume.

O rolo agora se deve à discussão sobre a origem do dinheiro para fechar as contas de 2016 no azul, pois as deste ano já foram para o vinagre. Sem um Orçamento decente para o ano que vem, a credibilidade dos economistas de Dilma 2 vai se esfarelar. Levy quer um plano duradouro e maior de corte de gastos, bidu, caçando receitas via impostos maiores para completar o pacote, se inevitável.

No Palácio do Planalto dos assessores "políticos" de Dilma, o plano é o inverso. Pior que isso, gente do palácio vaza suas "visões alternativas", o que logo se torna boato que escorre pelas mesas dos rapazes do mercado e por corredores do Congresso.

Parte dos conflitos é real e evidente, mas há gente que faz questão de enfatizar o quão Levy é "intransigente", "sem tato político", o que redunda em derrotas ou imputações de reveses, tais como ter de pagar a antecipação do "13º" de aposentados e pensionistas. Ou, como ficou evidente ontem, com a promessa de pagamento de meio bilhão de reais em emendas parlamentares, anunciado pelo articulador micropolítico do governo, Eliseu Padilha (PMDB).

Dadas a intriga e as derrotas reais do ministro, um sumiço devido a uma gripe ou uma visita à filha, reais ou fictícias, dão em boatos, "especulações de mercado" e, mais importante, em descrédito ainda maior que do governo Dilma 2 vá sair uma política econômica capaz de no mínimo evitar desastre ainda maior no curto prazo.

Levy pretende reduzir despesas obrigatórias, até porque não há alternativa a não ser acabar com o resto do escasso investimento federal (que deve cair de 30% a 40% neste ano) ou aumentar impostos, coisa que o ministro quer evitar ao máximo.

Aparentemente, não há disputa maior com Nelson Barbosa, ministro do Planejamento. Há oposição no Planalto e nos ministérios das Cidades e dos Transportes. Educação deve levar um talho grande também. Embora não esteja claro como tal coisa vá ser feita, a ideia é controlar as despesas da Previdência (pensões?).

Tais gastos no grosso crescem vegetativamente (mais aposentados etc.) e, no caso das aposentadorias, são em dois terços reajustadas pelo aumento do salário mínimo. A não ser em novo caso de revertério radical da presidente, em 2016 o reajuste deve ser de quase 10%, em ano em que a inflação deve cair abaixo de 6% e a receita do governo deve ficar, em termos reais, na mesma, uma encrenca.

O "erro" de Dilma
Diga-se o que se quiser dos economistas de Dilma 1. Mas até eles, ou a maioria deles menos um, apresentaram à presidente, antes da metade de 2014, um plano de evitar a derrocada final das finanças federais. Se por mais não fosse (alheamento radical?), Dilma Rousseff sabia, sim, do desastre que provocava.

Míriam Leitão - Os antecedentes

- O Globo

Quem comparar o que a presidente Dilma falava há um ano e o que ela disse esta semana concluirá que são duas pessoas. O que dizia é o oposto do que diz. Os casos de divórcio entre a então candidata e os fatos foram muitos na campanha. No “Jornal Nacional” do dia 19 de agosto de 2014, Dilma afirmou que a inflação era zero e que pelos “indicadores antecedentes” o país estava retomando o crescimento.

Em entrevista aos três maiores jornais na segunda-feira, Dilma disse: “Fico pensando o que é que podia ser que eu errei”. Ela mesma respondeu que o erro foi ter demorado tanto a perceber a crise. Em seguida, justifica o erro. “Não dava para saber em agosto. Não tinha indício de uma coisa dessa envergadura.”

Exatamente naquele agosto, em que a presidente acha que não dava para saber, o jornalista William Bonner fez a seguinte pergunta para ela, com riqueza de dados e indícios de crise de grande envergadura:

“A inflação anual, neste momento, está no teto daquela meta estabelecida pelo governo, está em 6,5%. A economia encolheu 1,2% no segundo trimestre deste ano e tem uma projeção de crescimento baixo para o ano que vem. O superávit deste primeiro semestre foi o pior dos últimos 14 anos. Quando confrontada com esses números a senhora diz que é a crise internacional. Aí, quando os analistas dizem que 2015 vai ser um ano difícil, um ano de acertos de casa, que é preciso arrumar a economia brasileira e, portanto, isso vai impor sacrifício, vai ser um ano duro, a senhora diz que isso é pessimismo. E aí eu lhe pergunto: a senhora considera justo, olhando para os números da economia, ora culpar o pessimismo, ora culpar a crise internacional pelos problemas? O seu governo não tem nenhum papel, nenhuma responsabilidade nos resultados que estão aí?”

 Dilma respondeu: “Bonner, primeiro, nós enfrentamos a crise, pela primeira vez no Brasil, não desempregando, não arrochando os salários, não aumentando os tributos, pelo contrário, diminuímos, reduzimos e desoneramos a folha. Reduzimos a incidência de tributos sobre a cesta básica. Nós enfrentamos a crise, também, sem demitir. Qual era o padrão anterior...”

Bonner: “Mas o resultado, no momento, é muito ruim, candidata.”

Dilma: “Não, o resultado no momento, veja bem...”

Bonner: “Inflação alta, indústrias com estoques elevados, ameaça de desemprego ali na frente.”

Dilma: “Veja bem, Bonner. Eu não sei, eu não sei da onde que estão seus dados, mas nós estamos...

” Bonner: “Da indústria, candidata.” Dilma: “Nós temos duas coisas acontecendo. Nós temos uma melhoria prevista no segundo semestre. Vou te dizer por quê.”

Bonner: “Isso não é ser otimista em contrapartida ao pessimismo que a senhora critica?”

Dilma: “Não. Não. Você sabe, Bonner, tem uma coisa em economia que chama os índices antecedentes. O que que são os índices antecedentes? A quantidade de papelão que é comprada, a quantidade de energia elétrica consumida, a quantidade de carros que são vendidos. Todos esses índices indicam uma recuperação no segundo semestre, vis-à-vis ao primeiro. Além disso, a inflação, Bonner, cai desde abril, e, agora, ela atinge, hoje, se você não olhar pelo retrovisor e olhar pelo que está acontecendo hoje, ela atinge 0%. Zero.”

Este é um exemplo. Em todas as entrevistas, Dilma foi confrontada com os dados, em todas ela os negou e atacou adversários que apontavam a necessidade de ajuste, que defendiam o corte de ministérios e a redução dos gastos do governo. Era possível saber. Difícil era ignorar os abundantes indicadores antecedentes de que o Brasil estava entrando numa crise pelos erros cometidos pelo governo.

A distância da realidade continua, ainda agora. Na entrevista de segunda-feira, ela defendeu o expresidente Lula e disse que a oposição incentiva contra ele uma “intolerância inadmissível”. E acrescentou: “A intolerância é a pior coisa que pode acontecer numa sociedade, porque cria o “nós” e o “eles”. Isso é fascismo.” Quem mais incentiva essa divisão é o grupo político da presidente. Aliás, houve um comício em 2014 em que o ex-presidente Lula gritou do palanque: “agora é nós contra eles”. Isso depois de citar como sendo “eles” dois nomes de jornalistas: o de William Bonner e o meu.

Cristiano Romero - Uma crise produzida no Brasil

• Fundamentos da crise atual não estão fora do país

- Valor Econômico

Soa a tática diversionista a tentativa da presidente Dilma Rousseff em afirmar que demorou a perceber a gravidade da crise econômica e que, por isso, seu governo não reagiu antes para mitigar os efeitos da turbulência. Mais uma vez, Dilma tenta convencer o distinto público de que a crise surgiu fora do país e que, portanto, é um evento fora do controle de seu governo.

A presidente usou o mesmo argumento, em agosto de 2011, quando decidiu mudar a política econômica que herdara dos governos FHC e Lula. A alegação era a de que a Europa, atingida severamente pela crise mundial de 2007-2009, estava novamente entrando em depressão. Em que pese o baixo crescimento europeu no período, a tal crise nunca veio, mas o Brasil não perdeu a oportunidade de viver uma aventura.

Quando escolheu Dilma candidata do PT à sua sucessão, Lula sabia das ressalvas da então ministra à política econômica. Nas reuniões internas, desde o primeiro mandato, Dilma verbalizava oposição feroz ao caráter "neoliberal" daquela política, que se amparava no tripé superávit primário, câmbio flutuante e metas para inflação.

Foi por essa razão que o então presidente chamou o ex-ministro Antonio Palocci para chefiar a campanha, dialogar com empresários e banqueiros e assumir cargo estratégico (o de chefe da Casa Civil) no futuro governo. Lula achava que, tendo Palocci a seu lado, Dilma não mexeria em seu legado.

Os primeiros seis meses da nova administração representaram, de fato, uma continuidade quase perfeita do governo Lula. O ambiente interno, contudo, era hostil ao tripé. Havia muito mais críticos àquela política do que defensores. Em junho, Palocci deixou o cargo e, dois meses depois, o rumo das coisas começou a mudar.

Num movimento inesperado, o Banco Central (BC), a despeito do descontrole das expectativas inflacionárias, cortou a taxa básica de juros (Selic) e adotou meta informal - baixar a Selic, em termos reais, a 2% ao ano até 2014. Em pouco mais de um ano, mesmo com a inflação girando em torno do limite de tolerância (6,5%), o BC reduziu os juros para 7,25% ao ano e cumpriu a promessa feita a Dilma.

Ainda em 2011, o Ministério da Fazenda adotou várias medidas para forçar uma desvalorização do real. Em seguida, passou a administrar a taxa de câmbio. O objetivo era dar maior competitividade à indústria. Além disso, foram adotadas medidas protecionistas, como a elevação de alíquotas de importação e a imposição de políticas de conteúdo nacional.

Quando, ao longo de 2012, ficou claro que o setor produtivo não reagia favoravelmente àqueles estímulos, a área econômica começou a adotar medidas a esmo para acelerar o crescimento a qualquer preço. Setores específicos foram beneficiados com desonerações e o BNDES recebeu novos aportes do Tesouro para conceder crédito subsidiado.

Foi ali que o governo decidiu abrir mão da política de geração de superávits primários, condição necessária para a redução da dívida pública como proporção do PIB. Ao fim de 2012, o Tesouro enfrentou sérias dificuldades para entregar a meta fiscal fixada em lei, o que acabou ensejando a adoção da contabilidade criativa e das "pedaladas fiscais".

No início de 2013, depois de avisar que manteria a taxa Selic em 7,25% por "tempo suficientemente prolongado", o BC se viu diante de uma forte inflação de demanda provocada pelo excesso de estímulos ao consumo. E começou a elevar os juros, conduzindo o mais longo ciclo de aperto monetário desde a implantação do regime de metas.

Em maio de 2013, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) sinalizou pela primeira vez, desde a crise de 2008, que começaria a desmontar a política monetária expansionista adotada cinco anos antes. Praticamente todas as moedas começaram a perder valor frente ao dólar, mas não houve crise alguma.

Naquele momento, a presidente Dilma abandonou a meta de juros. Cedeu na política monetária, mas não na fiscal. Tinha uma reeleição pela frente e, por isso, abriu o cofre. Com a "nova matriz econômica", derrubou a níveis historicamente baixos os índices de confiança de empresários e consumidores. Produziu uma crise genuinamente nacional, sem participação do setor externo.

O gráfico abaixo mostra que o ICI, índice do Ibre-FGV que mede a confiança dos consumidores brasileiros, está em queda desde meados de 2013 e, hoje, é muito menor que o de um grupo representativo de países emergentes e desenvolvidos.

"Talvez, em função da resiliência do mercado de trabalho nos primeiros anos do governo Dilma, a confiança tenha mantido tendência ascendente, com poucas exceções, entre 2005 e 2012, atingindo, neste último ano, os maiores níveis, ao contrário da maioria dos outros países, em que a confiança do consumidor não retornaria, após 2008-2009, ao nível anterior", explica Aloisio Campelo Jr., superintendente adjunto de Ciclos Econômicos do Ibre. "Depois disso, houve queda sistemática até chegarmos aos mínimos históricos de hoje. O gráfico reforçaria a interpretação de que teríamos passado por uma fase idiossincraticamente melhor para o consumidor brasileiro, que agora está sofrendo fortemente, enquanto a sensação em outros países não é ruim no momento."

Rompimento à vista – Editorial / O Estado de S. Paulo

Bem a seu estilo, cauteloso e elegante, depois de encontro com Dilma Rousseff na segunda-feira, o vice-presidente Michel Temer anunciou o que já havia antecipado em conversas com correligionários: deixou a “articulação política do governo”, como se convencionou designar a missão de que fora incumbido pela presidente da República. Ou seja, de negociar com os partidos aliados o toma lá dá cá indispensável à recomposição da base de apoio ao Planalto no Congresso. 

Para conter a repercussão de sua decisão nos limites do movimento tático que ela significa no conjunto de seu relacionamento político com o governo, Temer foi categórico: “Não vou desembarcar do governo, até porque sou o vice-presidente”. Mas sua atitude sinaliza, sim, um primeiro passo em direção ao rompimento da aliança de seu partido com o governo do PT, a ser formalizada se e quando ocorrerem, num futuro provavelmente não muito distante, as condições políticas apropriadas.

O distanciamento de Michel Temer e de seu partido do Palácio do Planalto era claramente previsível desde que o governo Dilma começou a soçobrar no oceano de suas próprias contradições e incompetência. Ou seja, logo depois da posse do segundo mandato. A vocação do PMDB pós-democratização sempre foi governista, como demonstra o retrospecto dos últimos trinta e tantos anos. E o acurado pragmatismo político de suas principais lideranças é particularmente atento às ameaças ao conforto do poder.

Do ponto de vista do apego ao poder como um fim em si mesmo não há nenhuma diferença relevante entre PMDB e PT. Pois o partido de Lula, por assim dizer, “peemedebezou-se”, converteu-se ao mais despudorado pragmatismo político quando decidiu que esse era o caminho para chegar ao poder e, principalmente, lá se manter. O que distingue as duas legendas é que os peemedebistas são geralmente mais hábeis e tolerantes, até porque não têm a cínica pretensão de serem salvadores da pátria.

Foi exatamente por seus atributos políticos que Michel Temer foi contemplado por Dilma com a terceirização – mais aparente do que real – da articulação do varejo político de seu governo. Mas era esperar demais que os petistas aceitassem essa novidade de bom grado. Principalmente porque, para o PT, aliança boa é aquela em que ele manda e os aliados obedecem. Mas também não ajudou em nada a Temer a austeridade que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tem tentado impor, ainda que canhestramente, às finanças públicas. Ficou, assim, muito difícil articular o Tesouro com a compreensível ambição dos parlamentares de canalizar recursos para suas bases eleitorais. E, por sua vez, a Casa Civil do ministro Aloizio Mercadante nunca foi exatamente ágil no trabalho de encaminhar as nomeações resultantes dos acordos selados por Temer e seu braço direito, o ministro Eliseu Padilha.

Em bom português, Temer tentou remontar, sem dispor dos recursos financeiros e políticos para tal, o esquema fisiológico de apoio que Dilma, contando com tudo o que faltava ao vice, organizou formalmente, mas nunca conseguiu fazer funcionar. E isso porque os sacripantas que venderam seu apoio tiveram a esperteza de nunca entregá-lo.
Além disso, quando cometeu o sincericídio de proclamar que “alguém” deveria assumir a responsabilidade de unir os brasileiros, Temer forneceu farta munição para os petistas encherem o ouvido de Dilma com alertas sobre as “verdadeiras intenções” do vice-presidente. A partir de então, Dilma colocou um assessor de sua confiança para “ajudar” na articulação política.

Se, por um lado, Michel Temer teve todos os motivos para se sentir desprestigiado no papel de “articulador político”, por outro passou a ser pressionado por seus correligionários, especialmente o deputado Eduardo Cunha, a afastar-se do governo e logo com ele romper. Este, porém, não é o estilo de Temer, mesmo que ele esteja, no íntimo, convencido daquilo que a esmagadora maioria dos brasileiros já se deu conta: esse governo não tem salvação.
De qualquer maneira, Michel Temer entrou como um cavalheiro nesse lance de articulação política, num gesto de boa vontade e, quem sabe, de sincera homenagem à chefe do governo. A presidente Dilma Rousseff não espere atitude lhana como esta da tigrada que a cerca.

Desforra de Pessimildo – Editorial / Folha de S. Paulo

• Dilma Rousseff reconhece que errou diante da crise econômica no ano passado, mas atenua o mea-culpa com um enredo pouco crível

A presidente Dilma Rousseff (PT), quem diria, reconheceu que errou diante da crise econômica.

Segundo declarou em entrevista a esta Folha e aos jornais "O Globo" e "O Estado de S. Paulo", demorou para perceber que a situação poderia ser mais grave do que imaginava. "Talvez nós tivéssemos de ter começado a fazer uma inflexão antes", completou. Se não o fez, foi porque "não tinha indício de uma coisa dessa envergadura".

Mesmo os mais crédulos petistas terão dificuldades para acreditar na versão presidencial –mas, num paradoxo fácil de entender, preferirão se deixar enganar por esse enredo fantasioso. Do contrário, precisarão admitir que Dilma não enxergou o óbvio.

Durante todo seu primeiro mandato, não faltaram alertas sobre o esgotamento do modelo econômico que patrocinou. Em 2014, a arrecadação já caía de forma acelerada; era claro que fortes ajustes seriam inevitáveis.

Na disputa eleitoral, a campanha da petista até criou um personagem ranzinza para zombar de quem criticava o governo. Tratava-se do boneco Pessimildo, que talvez hoje a presidente queira contratar como conselheiro.

A despeito do muito que parece haver de insincero no mea-culpa de Dilma, a verdade é que, para um país imerso em profunda crise, interessa menos o que se diz do passado e mais o que se faz em relação ao futuro. Quanto a isso, a presidente deu sinais que merecem ser acompanhados com atenção.

Indicou, por exemplo, que apoia certas reformas essenciais, como a da Previdência. É sem dúvida positivo que Dilma tenha se alinhado ao diagnóstico de que o país tem um problema com o envelhecimento da população e que é necessário reduzir o peso dos gastos obrigatórios no Orçamento –55% deles referentes a aposentadorias.

Embora não tenha ido ao detalhe, presume-se que se trata de aval à proposta de estabelecer uma idade mínima para a aposentadoria que consta da Agenda Brasil, elaborada sob liderança política do Senado para preencher o vazio da pauta presidencial.

Dilma também endossou a promessa de cortar dez ministérios e mil cargos comissionados (5% do total). Anunciada pelo ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, a medida, passe o trocadilho, foi mal planejada: não se sabe sequer quais pastas serão eliminadas, muito menos que economia a iniciativa poderá promover.

Ainda assim, há algo de simbólico nesse possível corte –e a presidente mais impopular da história pode tentar recuperar, com esse gesto, alguma conexão com as ruas.

Será difícil, para não dizer impossível. Escamotear a verdade ou descumprir recentes promessas, contudo, de nada ajudarão Dilma Rousseff a retomar prestígio e credibilidade em níveis mínimos para fazer avançar uma agenda de reformas imprescindíveis ao país.

Não faltaram alertas sobre a crise econômica – Editorial / O Globo

• Presidente Dilma afirma que demorou a perceber a gravidade dos problemas, mas sempre que tomou medidas equivocadas recebeu críticas públicas

Não fosse pela confissão de que, mesmo no ano passado, quando a economia já desacelerava (teve um crescimento pífio de 0,7%), ela não percebeu a crise, a entrevista de Dilma ao GLOBO, ao “Estado de S. Paulo” e à “Folha” não teria qualquer surpresa.

Dizer que não sabia do esquema de corrupção na Petrobras, cujo Conselho de Administração presidiu, já faz parte do script. Mas admitir que não detectou problemas na economia sobre os quais há muito tempo analistas e a imprensa profissional alertavam diz muito da incapacidade da presidente de ouvir críticas e duvidar de si mesma, características imprescindíveis para o administrador, na esfera pública ou privada.

Ora, a campanha eleitoral da oposição foi bastante calcada em alertas para os problemas que se avolumavam na economia. Como os subsídios de cunho eleitoreiro ao preço de combustíveis e à conta de luz, manobras insustentáveis que desestabilizavam o caixa da Petrobras — não bastassem os desfalques do petrolão —eo Tesouro, onde foram bater os desencontros entre os custos de geração de energia e as tarifas cobradas ao consumidor.

A resposta-padrão da candidata à reeleição era que se tratava de catastrofismo de uma oposição que não sabia administrar a economia sem elevar juros, aumentar tarifas públicas, entre outras malignidades “neoliberais”.

Pois na primeira reunião do Conselho de Política Monetária (Copom), do Banco Central, dias após confirmada a vitória de Dilma nas urnas, os juros foram remarcados para cima, de 11% para 11,25%. E as taxas não pararam mais de subir (a Selic está 14,25%), para se contrapor a uma forte pressão inflacionária, em parte alimentada pelo choque tarifário que a candidata também dizia do palanque ser uma impossibilidade. Algo que a oposição faria, mas não ela.

A rigor, desde o final do primeiro governo Lula, em 2005, em que a recém-empossada ministra da Casa Civil rejeitou, por “rudimentar”, um sensato programa de ajuste das contas públicas que lhe foi encaminhado pelos ministros da Fazenda e do Planejamento, Antonio Palocci e Paulo Bernardo, foram colocados pontos de interrogação sobre as ideias macroeconômicas de Dilma.

O viés intervencionista da presidente já ficara exposto na gestão dela no Ministério de Minas e Energia. E desarrumaria bastante o setor no seu primeiro governo. Neste, com Guido Mantega na Fazenda, a presidente pôde testar na prática o modelo dos sonhos, o “novo marco macroeconômico”. Sempre sob críticas e alertas públicos.

Não surpreendeu que acelerasse a inflação, tivesse de elevar os juros, naufragasse a economia numa recessão e fosse forçada a praticar um ajuste fiscal, contra dogmas ideológicos. E tudo agora ficou ainda mais complicado devido às turbulências chinesas. A presidente disse que demorou a perceber a gravidade da crise brasileira. Mas não foi por falta de aviso.

Marisa Monte - Não vá embora

Carlos Drummond de Andrade - As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.