quinta-feira, 21 de março de 2024

Jan-Werner Mueller* - A ‘zumbificação’ dos partidos políticos

Valor Econômico

Transformar seu partido em uma autocracia é um primeiro passo lógico para também transformar seu país em uma

Entre seus atos finais como presidente do Comitê Nacional Republicano (RNC), Ronna McDaniel, pediu aos seus colegas que apoiassem as duas pessoas escolhidas por Donald Trump para substituí-la. Após aplausos efusivos, ela anunciou que nem se daria ao trabalho de perguntar se havia algum “não”. Foi um momento revelador: os procedimentos destinados a garantir um processo democrático dentro do partido foram totalmente substituídos pela aclamação.

Trump não é o único líder populista de extrema direita a ter subjugado um partido político à sua vontade. O sequestro da máquina de um partido é um padrão comum entre os populistas e aspirantes a autocratas, e a história mostra que isso pode ter consequências realmente terríveis para um sistema político democrático. Afinal, transformar seu partido em uma autocracia é um primeiro passo lógico para transformar seu país em uma autocracia.

William Waack - Bolsonaro beira o autoengano

O Estado de S. Paulo

As defesas ‘técnica’ e ‘política’ do ex-presidente enfrentam enormes obstáculos

É altíssima a probabilidade de Jair Bolsonaro ter a prisão decretada em futuro não distante. As duas linhas de defesa enfrentam barreiras formidáveis, e o principal problema é ele mesmo.

A defesa “técnica” acha que os inquéritos da Polícia Federal contêm erros de origem, como afirmar que a falsificação de cartões de vacina seria passo rumo ao golpe de Estado. Mas os investigadores apresentaram no caso específico dos cartões de vacinação um conjunto bem detalhado que vai dar trabalho para sua equipe de criminalistas.

No âmbito “técnico” da acusação de tentativa de golpe de Estado, a defesa enfrenta depoimentos contundentes de ex-comandantes das Forças Armadas que falaram como testemunhas – pesam mais do que delações. Supõe-se que a PGR montará uma peça única de denúncia, compondo com os tais cinco eixos de atuação dos investigadores um “conjunto da obra”, que vai de joias e vacinas a golpe de Estado.

Eugênio Bucci* - Consumindo Cuba

O Estado de S. Paulo

Se o país hoje desliza para o malogro, desliza menos porque perdeu um embate político e mais por ter deixado de ser objeto do desejo das massas consumidoras internacionais

Frequentadores habituais de Havana reconhecem que a ilha de Fidel Castro enfrenta a sua pior crise. Quase tudo se esvai. Da revolução que tomou o poder em 1959, quando os guerrilheiros de Sierra Maestra marcharam sobre as ruas da capital sob os aplausos de um povo sorridente e esperançoso, resta pouco além de repartições burocráticas, escassez generalizada e gabinetes de vigilância política.

Os maiores entusiastas dessa longa história de arrebatamentos sabem disso. “É desesperador. Ninguém em Havana aponta saídas”, declarou Frei Betto ao jornalista Mario Sergio Conti (Folha de S.Paulo, 1.º de março). O frade dominicano, autor do best seller Fidel e a Religião (Editora Brasiliense, 1985), traduzido em mais de 30 países, inclusive em Cuba, é uma celebridade local. Basta ele sair por las calles para que venha alguém puxar assunto. O afeto ainda é o mesmo, o calor do olhar e dos abraços ainda aquece, mas os sorrisos perderam o brilho, a esperança minguou e os aplausos escassearam. Nas palavras de Conti, Cuba está “sem futuro à vista”.

Maria Hermínia Tavares - As pesquisas e seus usos

Folha de S. Paulo

Interpretação dos números requer mais do que palpites

Três institutos de pesquisa de opinião registraram queda na aprovação do governo do presidente Lula. Os resultados são inquestionáveis; já sua interpretação requer mais do que palpites, ainda quando bem-informados. Sendo as sondagens —vá lá o chavão— retrato dos humores do momento, convém apreciá-las na sequência de outros levantamentos ao longo do tempo e cotejá-los com avaliações similares de governantes de outras democracias.

É o que sustentou o sociólogo Antonio Lavareda, tarimbado analista da matéria, no podcast "O Assunto É", no ar desde a semana passada sob o comando da jornalista Natuza Neri.

Baseado em estudo do Ipespe Analítica, ele apontou que, em conjunto, os 37 levantamentos de diferentes institutos desde fins de janeiro de 2023 revelam oscilações em torno dos 50% de aprovação, indicando ser bastante estável a atitude dos brasileiros em relação ao governo. E, por retratar a opinião da população adulta, é de fato superior à margem de votos com os quais Lula venceu Bolsonaro em 2022.

Vinicius Torres Freire - Aas ideias políticas de ‘o mercado'

Folha de S. Paulo

Gente da finança tem avaliações muito equivocadas sobre o problema fiscal do país

A "opinião" mais importante de "o mercado" é aquela que aparece nos preços dos ativos financeiros, nos movimentos de compra e venda: no dinheiro.

Para simplificar, é aquele pensamento, por assim dizer, que se manifesta objetivamente nas taxas de juros dos empréstimos para o governo, na taxa de câmbio ("preço do dólar"), no preço das ações e outros menos cotados ou de impacto mais discreto.

Não tem lá muita relevância prática a opinião política dessas pessoas que administram ou assessoram a administração do dinheiro mais ou menos grosso, afora em casos específicos de lobby pesado de gente pesada.

Fernanda Torres - Vontade

Folha de S. Paulo

Flerta-se com a possibilidade do extermínio sumário das nossas Faixas de Gaza

Li "Guerra e Paz" tardiamente, intimidada tanto pelas mais de 1.500 páginas da obra-prima de Tolstói quanto pelo glossário de nomes, sobrenomes e apelidos do romance.

O príncipe Nicolai Andreiévitch Bolkónski pode aparecer como o Príncipe, ou Nicolai, ou Andreiévitch ou Bolkónski; pai de outro príncipe, Andrei, também Bolkónski, que além de atender pelas mesmas alcunhas do genitor, volta e meia é chamado de Nicolaiévich, filho de Nicolai.

Para não se perder no enredo, é aconselhável ter uma tabela periódica dos personagens à mão. Uma vez vencida a dificuldade, no entanto, "Guerra e Paz" se revela um daqueles amigos inesquecíveis, dos quais o leitor sente saudade mesmo antes de virar a última página.

O que a minha ignorância não contava era que, ao fim da saga, Tolstói arrematasse o livro com uma tese sobre a vontade inarredável dos povos. Segundo a teoria, Napoleão seria mero agente de uma ânsia coletiva da população de se mover para o leste, assim como a resistência de Kutuzov e a subsequente vitória de Wellington, em Waterloo, seria o contrafluxo desse impulso, em direção ao oeste.

Poesia | O Amor, quando se revela, não se sabe... de Fernando Pessoa

 

Música | Dorina - Fidelidade Partidária, de Wilson Moreira e Nei Lopes

 

quarta-feira, 20 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Milei precisa saber lidar com limites políticos

Folha de S. Paulo

Reformas liberais são necessárias na Argentina, mas derrotas no Legislativo mostram que confronto é estratégia perigosa

Javier Milei completa cem dias à frente do governo argentino pouco depois de sofrer mais uma derrota legislativa que mostra seus limites políticos. Foi rejeitado pelo Senado o Decreto de Necessidade e Urgência (DNU), que declara emergência pública até o fim de 2025 e promove alterações profundas na regulação da economia do país.

A votação por 42 a 25 (quatro abstenções) contra o texto piora a já conflituosa relação entre o mandatário e o Legislativo. O placar revela dificuldades mesmo com parlamentares de centro-direita à princípio simpáticos ao novo governo, que tampouco são poupados pela retórica agressiva de Milei.

Mesmo com a rejeição, o decreto continua em vigor até que os deputados se pronunciem, o que ainda não tem data para ocorrer. Mantidas por ora, as novas regras —que eliminam subsídios à energia, removem congelamentos, cortam despesas públicas, abrem mercados e contêm o poder dos sindicatos— funcionam como pilar ainda frágil da nova política econômica.

Luiz Carlos Azedo - O cartão de Bolsonaro provocou o "efeito borboleta"

Correio Braziliense

O ex-presidente pode, sim, ser condenado por falsificar um documento do SUS, mas não é um Al Capone. É um líder político, que se diz perseguido e mobiliza seus apoiadores

Um dos mais famosos casos de investigação criminal é a prisão de Al Capone, o mafioso que comandou o crime organizado em Chicago no fim da década de 1920 e começo da década de 1930. O gangster ítalo-americano nasceu em Nova York e sucedeu Johnny Torrio no comando da máfia norte-americana, que controlava a venda ilegal de bebidas alcoólicas, proibidas nos Estados Unidos na época da Lei Seca.

Além da fabricação e do contrabando de bebidas, Al Capone comandava uma rede criminosa cujas atividades envolviam agiotagem, cafetinagem, extorsões e venda de drogas. Preso em 1931, faleceu em 1947. O filme Os Intocáveis (1987), de Brian de Palma, durante duas horas descreve a atuação dos policiais que investigaram e prenderam Al Capone, não em razão dos muitos crimes que cometeu, porém, por causa de uma fraude na declaração de Imposto de Renda.

Vera Magalhães - Nísia fica, mas até quando?

O Globo

Lula resiste a pressões e mantém ministra, mas desgaste evidencia dificuldades na gestão e inabilidade na política

O presidente Lula resolveu bancar a permanência no posto da ministra da Saúde, Nísia Trindade. Resiste, assim, à maior pressão já feita pela cabeça de um titular do primeiro escalão do atual mandato — e não localizada apenas no Centrão, mas disseminada por todas as siglas da base aliada, com apoiadores também na classe médica.

A avaliação do Planalto é que ceder ao clamor pela substituição da ministra em meio à crise sanitária do recorde de casos e óbitos de dengue seria não uma concessão, mas uma “rendição” ao Congresso, que pretende comandar a área que abarca a maior quantidade de recursos do Orçamento.

Descrita pelo ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, como “um luxo para o Brasil”, Nísia tem um currículo que justifica o aposto. Cientista social e professora universitária, foi à frente da Fundação Oswaldo Cruz de 2017 a 2022 que ela se tornou um símbolo em defesa da ciência durante a pandemia de Covid-19. Foi essa condição que a credenciou para assumir o ministério, numa clara determinação de Lula de marcar com nitidez a diferença na condução que daria à pasta, sobretudo ao Programa Nacional de Imunizações, em relação ao negacionismo de Jair Bolsonaro.

Bernardo Mello Franco – Crime sem castigo

O Globo

Juiz citou "legítima defesa" ao livrar policiais que balearam e arrastaram faxineira no asfalto

Numa manhã de domingo, Cláudia Silva Ferreira saiu de casa com R$ 6 para comprar pão. Era seu dia de folga com as crianças. Durante a semana, ela acordava às 4h30 e dava duro num hospital. Com o salário de faxineira, desdobrava-se para criar quatro filhos e quatro sobrinhos.

A caminho da padaria, foi atingida por tiros disparados pela PM. A pretexto de socorrê-la, os agentes a jogaram no porta-malas e partiram em disparada. O bagageiro se abriu, e o corpo da mulher negra, de 38 anos, foi arrastado pelo asfalto em alta velocidade. Apesar dos alertas desesperados de motoristas e pedestres, a viatura levou 350 metros para parar.

Elio Gaspari - Lula olhou para a quitanda

O Globo

O governo vai bem, tropeçando nos delírios

Assustado com as últimas pesquisas, Lula reuniu o ministério e felizmente não lançou planos, pediu aos ministros que não o fizessem e fixou-se na exposição do que vem sendo feito. Lula aproximou-se da sábia receita do professor Delfim Netto:

— Você tem que abrir a quitanda todo dia às 6 da manhã, colocar as berinjelas no balcão e conferir o caixa para ver se há troco para as freguesas.

Gerindo a quitanda, o ministro da Educação, Camilo Santana, pôs de pé o programa de ajuda aos jovens do ensino médio. Foram destinados R$ 2,5 bilhões para a criação de cem novas unidades de institutos federais de ensino. A renda dos trabalhadores melhorou, a inflação está contida, e a economia vai em frente, devagar. Isso resultou da simples administração da quitanda. Ela sempre precisa de um gerente. Se ele for também um profeta, melhor; mas, só com visões, ela quebra.

As grandiloquências de Lula na política internacional ou com o delírio da iniciativa Nova Indústria Brasil, coisa de profeta.

Zeina Latif - Sinais mais promissores na economia precisam ser cultivados

O Globo

É preciso recalibrar a política econômica, com menos artificialismo fiscal e promovendo um ambiente de negócios mais saudável ao investimento

Uma das dificuldades enfrentadas por analistas de conjuntura econômica é diferenciar os fatores transitórios dos mais duradouros que impactam a atividade econômica. Além da sazonalidade (como a decorrente de feriados) e de ruídos de curto prazo (como condições climáticas impactando a safra), há a componente cíclica (como flutuações de demanda que respondem às políticas monetária e fiscal) e a de tendência de longo prazo (associada às condições da oferta ou ao potencial de crescimento do país).

O crescimento econômico sustentado está associado à tendência da série, e não aos demais componentes.

Sob esse prisma, vale analisar as surpresas recentes nos dados de atividade econômica. Há razões para acreditar na existência de elementos mais duradouros, e não apenas transitórios, sinalizando um maior vigor da economia em relação ao passado recente.

Vera Rosa - A nova batalha entre o STF e os militares

O Estado de S. Paulo

Há divergências sobre a prisão de oficiais que souberam do plano de golpe e nada fizeram

O Supremo Tribunal Federal (STF) vai punir o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros militares que armaram a trama golpista de 8 de janeiro de 2023. Trata-se de um desfecho dado como certo pela caserna. Nos bastidores, porém, integrantes do Alto Comando do Exército mostram preocupação com o julgamento de oficiais que, embora sabendo do plano para impedir a posse do então presidente Lula, nada fizeram.

Há no STF uma divergência em relação a esse ponto. Decano da Corte, o ministro Gilmar Mendes, por exemplo, classificou os depoimentos de ex-comandantes militares como “extremamente graves”. Não foi só: disse que quem participou de reuniões para organizar a ruptura institucional será alvo de processo neste semestre.

Maria Cristina Fernandes - Lei de Acesso à Informação abriu pistas para indiciar Bolsonaro por fraude em cartão de vacinação

Valor Econômico

Dado que deu origem à investigação é resultado de inúmeros pedidos apresentados à CGU

indiciamento do ex-presidente Jair Bolsonaro pela fraude no cartão de vacinação contra a covid-19 não é o mais grave no conjunto de acusações que pesam sobre si, mas foi a partir dela que se desenrolou o novelo que desaguou na presente investigação sobre a tentativa de golpe de Estado.

É emblemático ainda por ter sido provocado pelo uso da Lei de Acesso à Informação. Não se deu a partir de um “vazamento” para a imprensa, mas da busca de informações de uma penca de jornalistas que se valeram de um canal, gerenciado pela Controladoria-Geral da União, para ter acesso a um dado público.

Os pedidos de LAI chegaram à CGU durante o governo Bolsonaro e foram negados pela Presidência da República com o argumento de que a “intimidade” do titular deveria ser preservada. Não havia intimidade, lembra o atual titular da CGU, Vinícius de Carvalho, em torno de um tema — o rechaço à vacina — sobre o qual o próprio presidente fazia questão de alardear.

Fernando Exman - Segurança pública em debate no Planalto

Valor Econômico

Problema demanda urgente atenção e preocupa milhões de brasileiros

O anúncio da homologação da delação do assassino de Marielle Franco e Anderson Gomes gerou, além de um alívio para qualquer pessoa preocupada com o combate ao poder paralelo que desafia o Estado e a democracia no Brasil, um fato positivo na área de segurança pública do governo. O momento não é bom. É um dos setores mais criticados pela população e para virar a página de vez, avaliam fontes do governo, seria preciso efetivar a captura dos dois fugitivos do presídio de Mossoró (RN). Mas a reunião ministerial da segunda-feira (18) deu algumas pistas da estratégia que o Executivo pretende adotar para mitigar essa situação.

Em seu discurso de abertura, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva citou o programa “Pé de Meia”, que prevê pagamento mensal de R$ 200 aos alunos que permanecerem estudando, e afirmou que prefere fazer esse tipo de desembolso a construir cadeias e tentando resgatar os jovens do narcotráfico. Na sequência, mencionando o programa de escola em tempo integral, deixou uma mensagem para tentar tranquilizar as mães que precisam deixar seus filhos sozinhos enquanto trabalham.

Lu Aiko Otta - Crédito para puxar economia e popularidade

Valor Econômico

Economia começou o ano com mais vigor e com isso melhoraram as projeções do mercado para 2024

Na estratégia de reação à queda na popularidade do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a ordem é sair da defensiva e entregar à população o que foi prometido nos palanques e nas cerimônias no Palácio do Planalto.

Na área econômica, o plano é focar nas propostas que estão em análise no Congresso, chegar a um novo entendimento com os Estados em torno de suas dívidas com o Tesouro Nacional e lançar novas medidas de estímulo ao crédito para pessoas e empresas.

Martin Wolf* - A traição de Donald Trump à Ucrânia

Valor Econômico

Entregar a Vladimir Putin uma vitória não conquistada e imerecida só prejudicará os EUA

Donald Trump, ainda não mais do que um candidato à presidência dos Estados Unidos, poderá em breve dar ao seu amigo Vladimir Putin uma vitória sobre a Ucrânia. Isso seria incrível se não estivéssemos acostumados a tais ultrajes. Alguém imaginava, antes do surgimento de Trump, que um homem que tivesse tentado anular o resultado de uma eleição presidencial seria o candidato republicano da eleição seguinte?

Hélio Schwartsman - Fogo amigo

Folha de S. Paulo

Luta pela igualdade de gêneros produziu revés para as mulheres, com a adoção, pela Dinamarca, do alistamento militar obrigatório para todos

Era uma questão de tempo até que acontecesse. A necessária luta pela igualdade entre os gêneros produziu um revés para as mulheres. A primeira-ministra da DinamarcaMette Frederiksen, anunciou que, a partir de 2026, as mulheres do país estarão sujeitas ao serviço militar obrigatório, que por ora vale só para os homens.

Na Dinamarca, os militares, homens e mulheres, são recrutados principalmente em bases voluntárias, mas cerca de 5.000 rapazes ainda são convocados a cada ano por um sistema de loteria. Pelos planos de Frederiksen, que deverão passar sem problemas no Parlamento, a obrigatoriedade atingirá também as mulheres e o tempo de serviço será ampliado de 4 para 11 meses.

Vinicius Torres Freire - Argentina no azul, povo no vermelho

Folha de S. Paulo

País tem superávit com arrocho feroz, que não vai durar sem plano econômico e político

Pela primeira vez, desde 2011, o governo da Argentina conseguiu gastar menos do que arrecada e ainda pagar a conta de juros em um bimestre. Teve superávit primário e nominal.

Javier Milei conseguiu tal façanha provisória porque, grosso modo, arrochou de modo feroz o valor de aposentadorias e pensões, de salários de servidores e de benefícios sociais.

Em relação ao primeiro bimestre de 2023, a despesa com Previdência caiu 31% em termos reais —isto é, além da inflação. O gasto com servidores, quase 12%. Somadas as despesas com Previdência (aposentadorias, pensões) e com benefícios sociais (como "bolsas" para famílias), a baixa foi de 24%. Cerca de 60% da redução de despesa veio daí. É o que se pode calcular das estatísticas fiscais até fevereiro.

Wilson Gomes* - Arenas políticas digitais

Folha de S. Paulo

Isso porém não quer dizer que a política institucional possa ser ignorada

Tem acontecido com muita frequência. A paisagem política institucional de um país, que se manteve constante por décadas, muda de um dia para a noite com o advento de uma nova força política. "Esta é a noite em que acabou o bipartidarismo em Portugal", anunciou o líder do Chega, André Ventura, repercutindo a mesma declaração de ruptura da velha ordem que se vem repetindo em toda parte desde 2016.

Daí decorrem os registros de inconformidade ou surpresa da maioria política não radical em sociedades de regimes democráticos. A que se seguem indagações sobre em que as democracias estão falhando e o que progressistas e liberais não conseguiram prever.

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* - Preparem-se, vem aí as tais eleições democráticas

As regras eleitorais para as eleições municipais estão prontas. Concorrerão candidatos a prefeito, vice-prefeito, vereador de 5.500 municípios brasileiros e   um grupo de senadores que estão concluindo os oito anos de mandato parlamentar.   As Eleições serão realizadas no dia 6 de outubro e eventuais segundo turno ocorrerão no dia 27, último domingo do mesmo mês, mas apenas nas cidades com mais de 200 mil eleitores, onde os candidatos a prefeito atingir a metade mais um dos votos válidos. 

O Congresso estuda ainda as propostas para acabar com a reeleição para os cargos de prefeito, governador e presidente da República e que ampliam o mandato de senadores de 8 para 10 anos. Para acelerar a tramitação, o encaminhamento da questão caberá senador Marcelo Castro (MDB-Pi), designado relator da PEC 12 de 2022, aquela que trata do fim da reeleição e que está parada na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça).

Poesia | Pátria Minha, de Vinicius de Moraes

 

Música | Desesperar Jamais - Ivan Lins & Mariana Aydar

 

terça-feira, 19 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Elo de Bolsonaro com trama golpista ficou mais evidente

O Globo

Acusações de ex-chefes do Exército e da Aeronáutica contra ex-presidente revelam militares leais à Constituição

É da mais alta gravidade a suspeita de que Jair Bolsonaro, ministros, militares e integrantes de seu governo planejaram um golpe de Estado depois da derrota no segundo turno das eleições de 2022 e tentaram atrair para a trama a cúpula das Forças Armadas. Não há pior acusação contra um governante num regime democrático. Os depoimentos prestados à Polícia Federal pelos então chefes do Exército, general Marco Antônio Freire Gomes, e da Aeronáutica, brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, ganham credibilidade por vir de onde vieram — comandantes militares que resistiram ao golpismo. A acusação de envolvimento de Bolsonaro foi explícita e complica a situação do ex-presidente na Justiça.

É certo que as declarações não encerram a apuração. Os investigadores ainda precisam ouvir todas as versões e buscar novas provas antes de apresentar uma denúncia. Mas os dois relatos implicam Bolsonaro no planejamento e na execução do plano golpista. Ele foi acusado de, em mais de uma reunião, ter apresentado aos comandantes das Forças Armadas documentos elaborados para emprestar um verniz de legalidade à ruptura institucional e obter apoio deles à virada de mesa.

Luiz Carlos Azedo - Lula é prisioneiro de uma “jaula de cristal”

Correio Braziliense

Sim, Lula administra uma herança maldita de Bolsonaro, mas já está há 15 meses no poder e, como ele próprio reconhece, ainda não mostrou os resultados que os eleitores esperam

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não é dono das suas circunstâncias. Foi eleito num contexto que já não é mais o mesmo, para o bem e para o mal. Por exemplo, no plano internacional, a situação mudou para pior, com o surgimento de conflitos nos quais o rumo dado à política externa esbarrou em obstáculos que não estavam no horizonte, como as guerras da Ucrânia e de Gaza, e, agora, as eleições na Rússia e na Venezuela. Esses episódios desnudaram um viés terceiro -mundista da política externa que cheira a naftalina.

Ontem, na reunião ministerial, Lula relevou esses assuntos, porém, fez uma cobrança generalizada em relação aos ministros, sobretudo à atuação de Nísia Trindade. Em ambos os casos, as circunstâncias também são diferentes. A economia surpreende os próprios agentes econômicos, com a inflação controlada, mercado de trabalho aquecido, arrecadação em alta e um crescimento mais robusto do que se imaginava, apesar da oposição que Haddad sofre do PT e alguns ministros palacianos.

Andrea Jubé - Lula é cobrado a reocupar o centro

Valor Econômico

Presidente teria ouvido de um ministro não petista que “o governo tem que ser o maestro da narrativa”

Em determinado trecho da manifestação aos ministros, na reunião desta segunda-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que é preciso melhorar o desempenho e a comunicação do governo para atrair a fatia da população que considera a sua administração apenas “regular”.

Pesquisas de três institutos divulgadas nas duas últimas semanas - Quaest, Ipec e Atlas Intel - atestaram o derretimento da avaliação do governo. A pesquisa Ipec (ex-Ibope), publicada no dia 8 de março, mostrou uma queda de 5 pontos percentuais na avaliação positiva da gestão Lula.

Segundo o Ipec, 33% dos entrevistados consideram o governo ótimo e bom (eram 38% em dezembro); 32% classificam a gestão petista como ruim ou péssima (eram 30%); e 33% a avaliam como regular (eram 30%). No contexto dessas pesquisas, Lula observou que as obras de maior visibilidade do governo, como a ampliação do Bolsa Família, o reajuste real do salário mínimo, a retomada de contratos do Minha Casa, Minha Vida voltados para a faixa 1, a volta da Farmácia Popular e programa Pé de Meia (para alunos de baixa renda do ensino médio) são direcionados aos brasileiros com renda mensal de até dois salários mínimos.

Mario Mesquita* - Os vários desenhos da economia

Valor Econômico

Se as perspectivas para a atividade econômica são mais favoráveis, o mesmo não pode ser dito quanto à inflação

O debate sobre conjuntura econômica brasileira está esquentando, focado nos temas tradicionais, atividade, inflação, desafios fiscais e política monetária.

Em relação à atividade, as discussões giram em torno da possibilidade do crescimento em 2024 repetir a taxa observada em 2023, sem desaceleração. As projeções dos analistas que respondem a pesquisa Focus, do Banco Central, sobre o crescimento do PIB em 2024 começaram o ano em 1,6%, estão agora em 1,8%, e têm sido revisadas para cima sucessivamente. As economistas do Itaú recentemente elevaram a projeção de 1,8% para 2%.

Eliane Cantanhêde - O ‘fator Garnier’

O Estado de S. Paulo

Novo temor: o almirante Almir Garnier desmentir e incriminar Freire Gomes e Baptista Jr.

Há um alívio nas Forças Armadas com a separação entre o joio golpista e o trigo legalista, depois que o general Freire Gomes e o brigadeiro Baptista Jr., ex-comandantes do Exército e da FAB, confirmaram a tentativa de golpe e que o então presidente Jair Bolsonaro a liderava pessoalmente. A preocupação, agora, é com um novo depoimento do almirante Almir Garnier, o único dos três comandantes que apoiou o golpe e colocou “as tropas da Marinha” à disposição de Bolsonaro para a aventura.

Hélio Schwartsman - O futuro do golpismo

Folha de S. Paulo

Depoimentos de oficiais-generais não devem afetar base de eleitores bolsonaristas convictos

Os depoimentos do general Antônio Freire Gomes e do brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Júnior dão cor e textura à tentativa de golpe capitaneada por Jair Bolsonaro e seus seguidores, mas não creio que mudem muito as perspectivas penais do ex-presidente. O STF, afinal, em todas as decisões relativas aos ataques de 8 de janeiro, já dera sinais de que uma eventual condenação de Bolsonaro era questão de tempo. Um placar de 9 a 2 me parece verossímil.

As falas dos dois ex-comandantes também não devem mudar muito o pensamento dos cerca de 25% de eleitores que se dizem bolsonaristas convictos. Já comentei aqui o trabalho do psicólogo Drew Westen, que mostra que militantes políticos parecem sentir prazer sempre que conseguem apaziguar uma dissonância cognitiva relativa a seu líder. Os circuitos cerebrais utilizados, os sistemas de recompensa, são os mesmos envolvidos na dependência de drogas.

Dora Kramer - A verdade não absolverá

Folha de S. Paulo

Quando militares revelam urdiduras do golpe, cai a versão de perseguição política

O avanço das investigações, o que vai sendo revelado pouco a pouco sobre as preparações golpistas do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), nos mostra muita coisa.

Também já torna possível que pessoas presentes na avenida Paulista em 25 de fevereiro para corroborar a tese da injustiça considerem a hipótese de terem sido enganadas.

Não digo os fanáticos nem os adeptos da ruptura institucional, mas aqueles que por alguma razão acreditavam que Bolsonaro fosse vítima de narrativa oposicionista. Os depoimentos dos ex-comandantes do Exército e da Aeronáutica à Polícia Federal não permitem que se fale em perseguição política.

Alvaro Costa e Silva -Tarcísio, o candidatíssimo

Folha de S. Paulo

Governador de São Paulo constrói imagem de Bukele à brasileira

O cenário do bolsonarismo revela um Tarcísio em alta e um Jair emparedado. Com a certeza de que o tempo se esgota e a cana dura se aproxima, o ex-presidente exibe a face de um golpista fracassado, enquanto seu principal herdeiro político ergue a construção de uma imagem —o Bukele à brasileira.

Bolsonaro se esforça para passar uma impressão de frieza. Alimenta a algazarra da perseguição, conversa por videochamada com Trump, implora para reaver o passaporte, viajar a Israel e beijar a mão de Bibi.

Trata o PL como seu puxadinho doméstico. No fim de semana esteve no Rio fazendo campanha em territórios dominados pela milícia. Deu a ordem de que a ex-primeira-dama Michelle só poderá ser candidata ao Senado, de preferência por Brasília ou na vaga do aliado Sergio Moro, se este perder o mandato.

Paulo Sérgio Pinheiro* - Gaza: o que virá depois de um cessar-fogo provisório?

Folha de S. Paulo

Nenhum crime pode ser interrompido com data marcada para continuar

Passados cinco meses de bombardeios maciços e operações militares terrestres de Israel, resultando em mais de 30 mil mortes de palestinos, entre as quais 10 mil crianças, a Faixa de Gaza tornou-se um campo de ruínas. Além da destruição de 6 hospitais e 12 universidades, tudo o que dizia respeito à vida social foi arrasado: mesquitas, tribunais, escolas, arquivo histórico, museus, centros culturais. A infraestrutura civil de água, esgoto e eletricidade também foi aniquilada.

As ordens militares de evacuação da população resultaram em deslocamento forçado do norte para o centro, logo alvo de bombardeios, para o sul e, dali, para Rafah —agora também sob ataque.

Todo esse quadro é agravado por impedimentos, por parte dos israelenses, para a distribuição de ajuda humanitária —apesar de uma das medidas provisórias impostas pela Corte Internacional de Justiça (CIJ) ter obrigado Israel a facilitar o acesso do apoio internacional à região.

O volume de ajuda humanitária entrou em colapso em razão dos ataques de Israel a policiais —suspeitos de serem militantes do Hamas— que vigiam os comboios. Nas últimas semanas, 62 caminhões entraram em Gaza —bem abaixo dos 200 por dia que Israel se comprometera a liberar, ainda que se estime que para atender às necessidade básicas da população seriam necessários 500 veículos.

Paul Krugman* - Por que os americanos ainda estão pessimistas em relação à economia?

Folha de S. Paulo

Democratas precisam superar a falsa narrativa de que o país está indo mal

Você está numa situação melhor do que estava quatro anos atrás? Sinceramente, eu não achava que os republicanos repetiriam a famosa frase de Ronald Reagan, já que grande parte da estratégia do Partido Republicano para 2024 depende de uma espécie de amnésia coletiva sobre o último ano da presidência de Donald Trump.

Será que é realmente uma boa ideia lembrar os eleitores de como foi o segundo trimestre de 2020?

Porque foi um momento terrível: foi um momento de medo, com as mortes por Covid aumentando drasticamente. Foi um momento de isolamento, com as interações sociais interrompidas. Foi um momento de aumento da criminalidade violenta, talvez causado por essa interrupção social. Foi um momento de grandes perdas de emprego, com a taxa de desemprego atingindo 14,8% em abril daquele ano. Você se lembra da grande escassez de papel higiênico?

Merval Pereira - Disputa inglória

O Globo

Lula não consegue se colocar como opção às pessoas que não gostam de Bolsonaro e rejeitam o PT

O presidente Lula sente que a situação política não está favorável a seu governo, mas repete os erros, mesmo quando poderia evitá-los. Ao chamar Bolsonaro de “covardão” por não ter conseguido executar o autogolpe planejado, retira das instituições o mérito de terem impedido a ilegalidade, além de chamar mais uma vez para a briga seu adversário preferido no momento.

Seu próprio discurso é um dos problemas. Ele continua querendo fazer o contraponto ao bolsonarismo, atacando Bolsonaro pessoalmente, chamando a atenção para a disputa dos dois lados, em vez de apresentar-se como a melhor alternativa com atos. O presidente Lula exacerba o ambiente político, chama Bolsonaro para a briga, na certeza de que é boa para ele essa disputa. Mas isso cria um ambiente tenso no país, ele não procura se aproximar dos que apoiam Bolsonaro por falta de opção.

Lula não consegue se colocar como opção às pessoas que não gostam de Bolsonaro e rejeitam o PT. Ao ficar nessa disputa, restringe seu raio de ação, pode ganhar por pouco, como da outra vez, mas pode perder por pouco também, porque o país está dividido. E não consegue esvaziar o apoio a Bolsonaro — apoio que tem lógica, pois seus seguidores se sentem menosprezados, constrangidos pelo assédio dos petistas.

Míriam Leitão - E se o general desse a ordem?

O Globo

O que era uma insinuação hoje se sabe que é uma certeza. Mas ainda há muito a entender sobre a tentativa de golpe de Bolsonaro

Os comandantes de área, ou seja, das regiões militares, obedeceriam a ordem do general Freire Gomes caso ela fosse favorável ao golpe? Essa pergunta me foi respondida por um ex-comandante de área. “Uma ordem ilegal não seria cumprida”. Por mais importante que tenha sido a atuação do general Freire Gomes, é um equívoco pensar que um homem segurou a instituição, segundo avaliação que eu ouvi. Os comandantes de área são poderosos porque têm tropas. Eles é que fariam o golpe andar, se houvesse a quebra da ordem constitucional. Um almirante, que comandava tropas da Marinha em 2022, me disse que o almirante Garnier não determinou movimentação de tropas. Por que ele ofereceu apoio e não acionou seus subordinados? Há muito ainda a entender dessa intentona de Bolsonaro.

Carlos Andreazza - A incerta de Lewandowski

O Globo

Ricardo Lewandowski foi a Mossoró. De novo. Para “dar uma incerta”. Ele mesmo de paradeiro recente incerto. E então a incerta — o reaparecimento. Chegou-chegando, com aquela energia boleto-free de juiz aposentado ora parecerista. Para pegar a tropa de surpresa. (E para nos lembrar: há um governo de turno.) Um mês depois da inédita fuga de dois traficantes de presídio federal.

Palavras do ministro da Justiça e Segurança Pública, concluídos os encontros com autoridades sobre as buscas aos criminosos:

— Vim para cobrá-los. Precisava dar uma incerta, como se diz no meio militar. A polícia me garante que serão capturados, mas não sabemos quando.

Cobrado, foi cobrar. Agastado, sobrevoou a caatinga desgastada e assegurou a foto-clichê. Perdido, encontraria outros perdidos. Não os fugitivos. Os que garantem. Garantem a captura. Nalgum momento. “Não sabemos quando.” (A alternativa sendo haver hora marcada para prisão.) Sabemos que o ministro garantista desconfia do garantido — ou não teria passado a revista sem aviso prévio.

Poesia | Belo Belo, de Manuel Bandeira

 

Música | Moacyr Luz - Atravessado