O jornal Catetear Notícias *Ivan Alves Filho é
historiador, membro do Cidadania
Luiz Carlos Prestes Filho: Será que
negligenciamos a importância do fascismo na formação da sociedade brasileira?
Será que o fascismo é um elemento constituinte da nossa sociedade?
Ivan Alves Filho: Creio que a
presença fascista seja uma questão real na vida republicana brasileira. De
um lado, ela toma por base toda uma tradição autoritária desenvolvida no país
desde os tempos da escravidão. Tivemos um governo imperial que se prolongou por
quase cinquenta anos. E, depois, apresentamos uma prática republicana nem tão
republicana assim. E isso desde os seus primórdios. Basta citar a repressão aos
revoltosos de Canudos, na última década do século XIX, e também aos comunistas,
logo que estes se organizaram em partido político.
Essas práticas despontam entre nós toda vez
que nos deparamos com crises de corte institucional. Daí estarem presentes hoje
na vida brasileira. As ambiguidades do governo Vargas, em seu início,
contribuíram para o surgimento do Integralismo, por exemplo. Evidentemente,
havia o quadro internacional, com a ascensão de Mussolini e seu agrupamento
fascista ao poder na Itália, no começo da década de 20. Logo em seguida, viria
a tomada do poder pelos hitleristas na Alemanha, em 1933. Porém, esse contexto
internacional não explica tudo. Eu escrevi certa vez que o nazismo me intrigava
muito, tendo levado cerca de 20 anos para entender a sua natureza. Morei na
Alemanha nos anos 70 e procurava ver, na Cinemateca da cidade de Colônia, os
documentários e reportagens da época nazista. Difícil de compreender como o
povo alemão caiu naquela esparrela. Afinal, a Alemanha era um país industrializado
e dotado de uma grande tradição cultural; a terra de Wolfgang von Goethe, Karl
Marx e Hermann Hesse. Com o tempo, fui percebendo que a Inglaterra também era
um país desenvolvido economicamente – a pátria da Revolução Industrial –,
possuindo ainda uma invejável tradição cultural, e cito aqui nomes como William
Shakespeare, Jane Austen e Charles Darwin. Como explicar, então, que a
Inglaterra não tenha sucumbido à praga nazista? Só encontro uma resposta: as
instituições liberais-democráticas se mantiveram de pé, contrariamente ao que
ocorrera na Alemanha, durante a República de Weimar. Ou a Inglaterra não viu
surgir em seu solo o Liberalismo? As ideias de John Locke, por exemplo, datam
do século XVII, quando não havia sequer burguesia industrial, mas a país sofria
com o Absolutismo.