segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Possível aliança com Kassab causa racha no PT

Dirigentes petistas protestam contra apoio do prefeito de SP à candidatura de Haddad; Lula é a favor do acordo

Tatiana Farah

SÃO PAULO. O aceno de apoio do prefeito Gilberto Kassab (PSD) à candidatura do ex-ministro petista Fernando Haddad na campanha paulistana tem causado fissuras no PT. A aliança é defendida pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e por nomes nacionais do partido, como o líder do PT na Câmara, Candido Vaccarezza, mas rejeitada pela base. O racha ficou evidente com a vaia a Kassab na sexta-feira e foi agravado por protestos petistas anteontem.

"Ê, Haddad, não queremos o Kassab", entoavam dirigentes locais do partido, na noite de anteontem, na festa que marcou os 32 anos do partido em São Paulo.

Entre os cerca de 300 participantes, todos com voto na convenção municipal que decidirá sobre a aliança no dia 2 de junho, dezenas usavam adesivos com o "veto" ao prefeito do PSD. A manifestação ocorreu um dia depois de Kassab ser vaiado na festa do PT em Brasília.
Para os dirigentes do PT, o protesto em São Paulo é mais grave que a vaia em Brasília porque partiu de lideranças locais.

À plateia de sábado, Haddad afirmou que a militância havia mandado "um recado de preocupação, mas ao mesmo tempo de esperança". E reafirmou em discurso o que havia conversado privadamente com Kassab em Brasília, que o patrimônio petista era sua própria unidade. Unidade agora ameaçada pela proposta de apoio do prefeito.

— Eu disse a ele (Kassab) que o patrimônio que tenho pra disputar essa eleição é o PT unido e com vontade de ganhar as eleições.

Ele compreende. Se nós não preservarmos nossa unidade, não temos chance de vitória — disse Haddad, afirmando que a unidade é "um patrimônio que precisa ser preservado antes de qualquer outro".

Kassab não foi à festa paulistana, mas era o nome mais citado, e criticado, entre os participantes.

O resultado foi o constrangimento de Haddad, que, a cada cumprimento, era questionado sobre o prefeito.

— O prefeito fez um gesto que, na minha opinião, não foi bem compreendido. Ele hierarquizou prioridades de maneira muito transparente. Ele não disse ao PT que estava pronto pra uma aliança neste momento — disse Haddad, lembrando que o partido é a terceira opção de Kassab e sua prioridade é o apoio a eventual candidatura do tucano José Serra, seu padrinho político.

As manifestações públicas da senadora e ex-prefeita Marta Suplicy, que disse não subir em palanque com Kassab, acirraram os ânimos petistas, embora Haddad tenha feito questão de dizer que tem "120% de certeza" de que a senadora se engajará em sua campanha. Por outro lado, a pressão forte feita por Lula, Vaccarezza, o presidente do PT estadual, deputado Edinho Silva, e o prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho, tem deixado dirigentes municipais incomodados.

— Kassab está causando um constrangimento ao PT. Saímos unidos de um processo que caminhava para as prévias e isso vai causar tumulto — disse o deputado Carlos Zarattini, que desistiu da prévia, a pedido de Lula, para fortalecer a candidatura de Haddad.

Tanto os que defendem Kassab quanto seus opositores acreditam que, ao encerrar o tratamento contra o câncer na laringe, Lula vá fazer manifestações públicas de apoio à aliança.

Já a presidente Dilma Rousseff não se posicionou. A expectativa é que ela atue pouco na campanha municipal.

— Se Lula entrar de cabeça, ele vira o jogo. Mas a vaia e esse protesto sinalizam que a situação não está fácil — disse um alto dirigente municipal.

Defensor da aliança, o deputado Vicente Candido afirmou: — Achei a vaia deselegante, mas era de se esperar. Estamos construindo uma aproximação.

O governo Kassab não é marcado pela corrupção. É conservador, mas tem boas práticas.
Em entrevista sábado, Kassab minimizou a vaia e o protesto de Marta, que sequer participou da festa em Brasília.

Ele disse ter sido bem recebido pelos dirigentes e por parte expressiva da militância, não se sentindo constrangido: — É natural que alguns entendam que seja difícil essa aliança.

Em nada abala o respeito que temos pelo PT, as alianças que temos no plano nacional e a continuidade do diálogo.

FONTE: O GLOBO

Violência e confronto marcam votação de ajuda à Grécia

Milhares de manifestantes sitiaram o centro de Atenas, ontem, enfrentando a polícia nas horas que antecederam a sessão do Parlamento da Grécia que analisaria um novo plano de austeridade para enfrentar a crise. A indignação se concentrava no corte de 22% do salário mínimo do país, uma exigência da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional para liberar o novo pacote de socorro, avaliado em € 130 bilhões. Os manifestantes se reuniram na Praça Syntagma, a principal da capital, e entraram em confronto com a tropa de choque, trocando pedras e coquetéis molotov, de um lado, e golpes de cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo, de outro. Prédios foram incendiados

Grécia vive confronto antes de votação

Entre as novas medidas de austeridade exigidas pelo FMI e pela União Europeia está um corte de 22% no salário mínimo do país

Andrei Netto

PARIS - Cerca de 80 mil manifestantes sitiaram o centro de Atenas, ontem, enfrentando a polícia nas horas que antecederam a sessão do Parlamento da Grécia que analisaria um novo plano de austeridade para enfrentar a crise. A indignação se concentrava no corte de 22% do salário mínimo do país, uma exigência da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI) para liberar o novo pacote de socorro, avaliado em € 130 bilhões.

Ainda sem a resposta sobre a votação, o governo já projeta fechar o acordo com credores privados para o corte da dívida nesta semana. A sessão legislativa que analisaria o novo plano de rigor foi aberta no fim da tarde de ontem e se prolongou por toda a noite. Às 23h, ainda não havia resposta sobre a aprovação ou não das medidas.

Do lado de fora, cerca de 25 mil pessoas, segundo dados da polícia, e 80 mil, de acordo com sindicatos, se reuniram na Praça Syntagma, a principal da capital, para protestar contra as medidas. Depois de dois dias de greve geral, nos quais os transportes públicos e parte do comércio foram paralisados, os manifestantes voltaram a entrar em confronto com as tropas de choque, trocando pedras e coquetéis molotov, de um lado, e golpes de cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo, de outro.

Dentro do Parlamento, a pressão da opinião pública se refletiu na atmosfera das discussões, mas os deputados mais uma vez tendiam a aceitar o ultimato da troica, o grupo formado pela UE, pelo Banco Central Europeu (BCE) e pelo FMI. A aprovação era esperada para o início da madrugada, porque o governo ainda conta com uma maioria na Casa suficiente para levar adiante o programa de austeridade - em torno de 236 votos, de um total de 300

A principal medida, o rebaixamento do salário mínimo - que agora passa a € 586 (R$ 1.330) - chega a significar um corte de 32% para jovens menores de 25 anos. O objetivo da medida é combater o desemprego, hoje em 20%, e recuperar a competitividade do país por meio da redução do custo do trabalho em 15% no horizonte de 2015.

Os deputados deveriam aprovar ainda a aceleração do programa de privatizações, que deverá arrecadar neste primeiro semestre € 4,5 bilhões por meio da venda de empresas nacionais de fornecimento de gás e água, de exploração de petróleo e de jogos de azar. A realização das vendas é uma das maiores exigências da UE e do FMI, que reclamam do atraso do programa de privatizações. Em 2011, os leilões deveriam ter arrecadado € 5 bilhões, mas se limitaram a € 1,3 bilhões.

Às medidas se somam a redução de € 300 milhões do orçamento do Ministério da Defesa, a extinção de 500 prefeituras e a contratação de inspetores fiscais para combater a evasão de impostos. Os novos cortes são o quinto plano de austeridade do país, que juntos somam € 169 bilhões. Durante as negociações entre os deputados, o ministro de Finanças, Evangelos Venizelos, chegou a afirmar que, se a lei não fosse adotada, "o país iria à bancarrota".

Credores. Caso o novo plano seja de fato aprovado, o governo do primeiro-ministro, Lucas Papademos, chefe do Partido Socialista (Pasok), ganha sobrevida até as eleições legislativas previstas para o fim deste semestre. Com os recursos da UE e do FMI, a Grécia deve honrar o reembolso dos títulos da dívida soberana com vencimento em março, um total que chega a € 14,5 bilhões.

Depois de mais uma semana de alta tensão política, o governo grego volta as suas atenções para o acordo com os credores privados para o corte de cerca de € 100 bilhões em dívidas, que vem sendo negociado há várias semanas. Segundo Evangelos Venizelos, a previsão é de que o documento seja submetido ao Parlamento até 17 de fevereiro - com dez dias de atraso em relação às últimas previsões.

Atenas espera que a aprovação permita ao fórum de ministros da zona do euro (Eurogrupo) determinar a liberação de novos recursos. "Queremos que a Grécia receba o sinal verde até a próxima reunião", disse Venizelos. "Se (a aprovação) não ocorrer até 17 de fevereiro, não poderemos lançar oficialmente a operação de troca de títulos."

De acordo com o ministro, esse mesmo prazo significa o limite máximo para a liberação dos recursos da UE e do FMI, caso contrário o reembolso das dívidas, com vencimento em 14 e 20 de março, pode atrasar - levando o país à ameaça de moratória. "Se não acontecer, o país entrará em falência. E isso significará um país sem sistema bancário", advertiu Venizelos.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

A ditadura esfola a Grécia:: Clóvis Rossi

Democracia faz como os Estados Unidos, que protegeram quem menos pode; a Europa os castiga

A União Europeia está dando mais um aperto na ditadura que impôs à Grécia. Para quem não se lembra, foi a UE quem derrubou George Papandreou, o primeiro-ministro legítimo, eleito fazia dois anos, para colocar em seu lugar o tecnocrata Lucas Papademos, sem passar pelo indispensável escrutínio das urnas.

O interventor nomeado faz tudo o que pede a troica UE/Banco Central Europeu/FMI, os ditadores de plantão. Não adianta nada.

É só conferir os números:

1- A dívida grega saltou para 159,1% do PIB, no terceiro trimestre de 2011, 20 pontos percentuais a mais que um ano antes, quando os ajustes impostos pelos europeus já estavam em curso;

2- A economia grega retrocedeu 5,5% em 2011 e uma nova contração é inevitável neste ano. Com a economia recuando, ninguém consegue pagar suas dívidas;

3- O desemprego já está em 20,9%, só atrás da Espanha na Europa. E só pode aumentar porque uma fatia do novo plano de ajuste exige a demissão de mais 150 mil funcionários públicos até 2015.

Mas a Europa não olha para os fatos e prefere apertar mais a ditadura, ao exigir que o Parlamento grego aprove o novo programa de austeridade, embora seja uma Câmara "pata manca" (as eleições para renová-la estão marcadas para abril). Ora, é elementar na democracia que um programa que afeta a vida do país anos à frente seja votado por um Parlamento renovado, não por um em fim de mandato.

O mais triste é que 11 de cada 10 análises sobre a Grécia culpam os gregos -e apenas os gregos- pela sua tragédia. A história convencional é a de que a Grécia viveu uma esbórnia de consumo financiada pelo endividamento e agora tem que pagar com dor. Não deixa de ser verdade, mas é só parte da verdade.

Primeiro, consumir é a música que mais toca no capitalismo. Logo, os gregos só fizeram o que é de praxe no sistema hegemônico. Segundo, tomaram empréstimos não porque tenham assaltado os bancos, mas sim porque os bancos os ofereceram sem olhar responsavelmente para a capacidade do tomador de devolvê-los algum dia.

Vejamos agora como funcionam as coisas em uma democracia: nos EUA, os bancos também foram irresponsáveis na concessão de créditos hipotecários (as famosas "subprime", origem da grande crise de 2008/09). Abusaram também na execução das hipotecas, quando o tomador não conseguia pagar.

O que fez o governo? Forçou uma negociação pela qual os bancos terão que pagar US$ 26 bilhões para aliviar o drama de 2 milhões de pessoas que ou já perderam suas casas ou estão na iminência de perdê-las porque não conseguem pagar as hipotecas. Ou, posto de outra forma: protegeu-se quem menos pode, e puniu-se quem mais pode.

Na Grécia, ao contrário, quem paga a crise são os trabalhadores de salário mínimo, a ser reduzido, e os aposentados, cujos vencimentos serão cortados. Os bancos só cedem anéis para poderem manter os dedos gordos, ainda mais engordados pelos juros obscenos que cobram para rolar a parte da dívida grega que não será reestruturada.

Ditadura -ainda mais ditadura de mercado- é assim.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Dois milhões elegem rival de Chávez

Numa votação que superou as expectativas da oposição venezuelana, mais de dois milhões de pessoas foram às urnas ontem escolher o candidato único que vai enfrentar o presidente Hugo Chávez nas eleições de 7 de outubro. O governador Henrique Capriles Radonsky aparecia como franco favorito. Chávez permaneceu calado durante o dia e até cancelou seu "Alô Presidente" na TV.

Chávez já tem rival

Em votação surpreendente, oposição venezuelana elege Capriles candidato presidencial

Numa votação inédita no país e com comparecimento recorde às urnas, os venezuelanos elegeram ontem o governador de Miranda, Henrique Capriles Radonsky, de 39 anos, como o rival de Hugo Chávez nas eleições presidenciais de 7 de outubro. Cerca de 2,9 milhões de opositores participaram das primárias; e Capriles obteve 1,8 milhão de votos, contra os cerca de 867 mil do segundo colocado, o governador do estado de Zulia, Pablo Pérez, informou o Conselho Nacional Eleitoral (CNE). A Mesa de Unidade Democrática (MUD), coalizão que reúne os partidos de oposição e organizou as primárias, comemorou a quantidade de votantes — quase o triplo das melhores previsões da oposição. Durante o pleito, os oposicionistas denunciaram que funcionários públicos haviam sido pressionados por aliados do atual governo a não votarem. Mas mais de 100 observadores internacionais garantiram a legitimidade do evento.

Já era tarde da noite na Venezuela, madrugada no Brasil, quando Capriles — ao lado dos outros quatro derrotados — faria seu discurso de vitória. Partidários de Hugo Chávez dizem que o governador representa uma elite política antiquada e desacreditada, que nunca deu atenção às camadas menos favorecidas da população no passado e que nunca conseguirá derrotar o presidente nas eleições de outubro. Segundo analistas, no entanto, as chances da oposição nunca foram tão boas. Com todos os 18 milhões de eleitores registrados no país — além daqueles no exterior — tendo o direito de participar da votação multipartidária, foi a força da oposição que esteve em jogo. Até outubro, Capriles tentará impedir a terceira reeleição de Hugo Chávez e pôr fim aos seus13 anos de governo.

Chávez cancela "Alô Presidente"

Além de Capriles e Pérez, disputaram ontem as primárias a deputada María Corina Machado, o ex-diplomata Diego Arria e o ex-líder sindicalista Pablo Medina.

Agora, ainda mais com quase três milhões de pessoas tendo manifestado o seu descontentamento com o governo, espera-se uma campanha acirrada. Segundo fonte ouvida pelo GLOBO, o presidente da Venezuela já conta com a ajuda do marqueteiro brasileiro João Santana, responsável pelas campanhas presidenciais de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2006, e de Dilma Rousseff, em 2010. Uma equipe do brasileiro já estaria trabalhando em Caracas.

A ideia é que o vencedor do pleito de ontem tenha o apoio de todos os partidos da oposição que, matematicamente ao menos, seriam capazes de derrotar Chávez, mas nunca estiveram unidos em uma eleição presidencial. Nas eleições legislativas de 2010, a coalizão bateu o partido governamental por uma pequena margem mas, por regras eleitorais internas, conquistou 67 dos 165 assentos do Congresso.

— Matematicamente, Chávez foi derrotado muitas vezes — afirma o editor do jornal "TalCual" e um dos mais ferrenhos opositores do governo, Teodoro Petkoff. — O problema é transformar essa possibilidade matemática em uma possibilidade política.

Para Petkoff, tal pessoa capaz de derrotar Chávez teria que ser um socialdemocrata com habilidade de enfrentar o atual presidente, eventualmente com "palavrões", se preciso.

— Neste domingo seremos protagonistas — afirmou Capriles. — Estamos frente a um processo inédito em nosso país que nos fortalece como sociedade.

De fato, o normalmente loquaz Chávez chegou a cancelar o seu programa dominical "Alô, presidente".

Ele visitou o estado de Arágua para celebrar o 198, aniversário da Batalha da Vitória contra as forças espanholas e limitou- se a dizer que a "Venezuela deve manter sua independência".

Há alguns dias, no entanto, o presidente, que afirmou haver superado o câncer diagnosticado no ano passado, procurou minimizar o processo eleitoral da oposição ao sugerir que a abstenção poderia ser histórica.

Por temor de que poderia haver represálias contra os eleitores por parte do governo — o maior empregador do país —, a oposição já havia prometido apagar os registros dos votantes. Ainda assim, o secretário geral da Confederação dos Trabalhadores da Venezuela, Manuel Cova, denunciou ontem que funcionários públicos teriam sido pressionados a não participar do pleito convocado pela oposição.

As ameças , no entanto, não surtiram efeito, e as longas filas para votar fizeram a MUD prorrogar em pelo menos uma hora o prazo de votação.

Venezuelanos que vivem no exterior também participaram da votação. Em Miami, onde se concentra a maior população fora da Venezuela, estima-se que cerca de 20 mil pessoas tenham comparecido às urnas. "Quem disse que não pode haver uma primavera venezuelana?", escreveu, em artigo, o escritor peruano Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de Literatura e crítico ferrenho do chavismo.

FONTE: O GLOBO

Pequenas grandes coisas:: Eliane Cantanhêde

Minha filha caçula, orientadora pedagógica e psicóloga de crianças e adolescentes, chorou emocionada ao ouvir pelo rádio a entrevista que o estudante Vitor Soares Cunha deu ao sair do hospital, depois de ser agredido covardemente por jovens como ele.

Vitor, 21, aluno de desenho industrial, passeava com um colega na Ilha do Governador, no Rio, quando viu cinco rapazes bem alimentados espancando um mendigo. Filho de uma assistente social (coincidência?), não pensou duas vezes ao tentar impedi-los. A violência irracional voltou-se contra ele.

Foram socos e pontapés violentos e ininterruptos, atingindo, sobretudo, a cabeça e o rosto de Vitor mesmo quando ele já estava caído no chão, totalmente indefeso.

Depois de horas de cirurgias, placas de titânio na testa e no céu da boca, 63 pinos para recompor os ossos da face e ainda com o risco de perder os movimentos do olho esquerdo, Vitor saiu com sua mãe do hospital e disse, com uma simplicidade atordoante, que não se sentia heroico e que faria tudo novamente.

"Pelo menos uma, duas, três pessoas vão pensar alguma coisa, vão ensinar para os filhos deles. Não adianta pensar que uma atitude vai mudar o mundo, mas pequenas coisas vão mudando", declarou.

Não podemos nem devemos desperdiçar episódios, personagens e frases assim, fundamentais para reforçar que, além do Estado, dos poderosos e dos ídolos, cada um de nós tem de dar o exemplo e ter responsabilidade diante do país e do outro. Uma delas, possivelmente a mais nobre, é a de criar os filhos para o bem.

A comparação entre Vitor e seus agressores nos faz refletir. O Brasil e o mundo serão muito melhores quando pais e escolas educarem as crianças para fazer a coisa certa sem se sentirem heróis, não para se arvorarem fortes e machos ao trucidar um ser humano -ou um animal- jogado na rua, no abandono e na dor.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

O desafio de um comunista verde

Quem é o economista encarregado de organizar a conferência da ONU que pode juntar até 50 mil ambientalistas na cidade

Sergio Besserman, "O produto da Rio-92 foi muito robusto. Ele abriu as negociações sobre clima, biodiversidade e Agenda 21. A Rio +20 foi convocada sem um mandato tão relevante"

‘Vinte anos depois, existe uma sociedade civil conectada no tema. Participou da Rio-92, quem veio à cidade. Agora, da Nova Zelândia, o cara poderá assistir à conferência.’

‘Sou de esquerda radical. Isso não tem nada a ver com um pensamento estatizante. Tem a ver com abraçar árvores. Eu abraço árvores e observo pássaros.’

Artur Xexéo

Presidente do Grupo de Trabalho da Prefeitura para a Rio +20, o economista Sergio Besserman Vianna, de 54 anos, tem dificuldades em definir suas funções. A pompa do nome do cargo, por exemplo, parece fazê-lo temer que passe a impressão de que é responsável sozinho por toda a estratégia da conferência da Organização das Nações Unidas que, entre os dias 13 e 22 de junho, vai tomar conta da cidade. Talvez por isso, trate logo de dividir seus encargos.

- Junto com o vice-prefeito e secretário do Meio Ambiente, Carlos Alberto Muniz, eu lido com a questão do conteúdo e com as relações com a sociedade - tenta definir.

Imediatamente, cita outras estrelas desta fase preparatória da Rio +20:

- O secretário de Turismo e presidente da Riotur, Antonio Pedro Figueira de Mello, é a cara do evento. O secretário de Conservação, Carlos Roberto Osório, é quem prepara a cidade...

Quando o interlocutor pensa que não falta mais responsável algum pela conferência, Besserman continua aumentando o número de manda-chuvas:

- É um evento do governo federal. O Rio é apenas a cidade-anfitriã. A Rio +20 é do Itamaraty...

Vargas e a causa do nascimento

Com tanta gente envolvida, afinal, o que faz Sergio Besserman na conferência?

- Meu papel é ficar fustigando, articulando...

Se o negócio é fustigar, articular, o prefeito Eduardo Paes encontrou o homem certo. É isso que Sergio Besserman aprendeu a fazer em casa, com os pais, sempre ligados a alguma causa política, e é o que ele vem fazendo na carreira desde que chegou ao Departamento de Economia da PUC, no fim dos anos 1970, e onde ficou até a metade da década de 80, período em que por lá circulavam Pérsio Arida, Gustavo Franco, Pedro Malan, Edmar Bacha... Fustigava-se e articulava-se muito naquela época na PUC. Foi de lá que Besserman saiu com uma dissertação de mestrado sobre o segundo Governo Vargas, premiada pelo BNDES. Hoje, ele justifica com bom humor o interesse pelo tema.

- Se não fosse o Vargas, talvez eu não tivesse nascido. Quando namorados, minha mãe era uma comunista extremada; e meu pai, um comunista racional. Ela era mais contra o Getulio Vargas do que o próprio Carlos Lacerda. Eles acabaram rompendo o namoro. Com o suicídio de Vargas, o Partido Comunista mudou tudo. Minha mãe ficou mais maleável, eles reataram o namoro, e eu nasci!

O poder de fustigar e articular de Besserman está sendo posto à prova na Rio +20. É um evento grandioso, quase tão grandioso quanto a Rio-92, realizada há 20 anos e que justifica o "+20" da conferência de agora.

- Pelo lado diplomático da ONU, a Rio +20 está um degrau abaixo da Rio-92. Há 20 anos, tivemos uma cúpula de chefes de Estado. Agora, teremos uma conferência das Nações Unidas. Mesmo assim, uma enorme quantidade de chefes de Estado virá, pela importância do tema, desenvolvimento sustentável, e pela memória da Rio-92. Além disso, o mundo ao redor da Rio +20 é muito maior que o que cercava a Rio-92. 

Há 20 anos, tínhamos a ONU no Riocentro e as Organizações Não Governamentais (ONGs) no Aterro. A sociedade civil global ao redor da Rio +20 é mais ampla. Temos ONGs, os maiores movimentos do mundo, redes de empresas, redes de cidades, organizações de jovens... E, 20 anos depois, existe uma sociedade civil conectada no tema. O mundo está conectado. Participou da Rio-92, quem veio à cidade. Agora, da Nova Zelândia, o cara poderá assistir à conferência.

Do vermelho ao verde

A Rio +20 pode ser comparada com a COP 15, a 15ª Conferência das Partes, realizada em Copenhage há pouco mais de dois anos. A comparação assusta, pois a conferência em Copenhage não foi um primor de organização.

- Eles esperavam dez mil pessoas, e apareceram 45 mil. Por falta de acomodação, teve delegado que precisou dormir na Suécia - relata Besserman, para, em seguida, utilizar de novo o bom humor e afastar qualquer preocupação com o fato de algo parecido acontecer no Rio. - Escandinavos resolvem tudo de última hora, sempre acreditam que podem dar um jeitinho. Nós, brasileiros, somos mais organizados.

E adianta alguns números que fazem a conferência no Rio deixar a de Copenhage no chinelo:

- Se tudo der errado, teremos 25 mil credenciados na cidade. Se der certo, teremos 50 mil. Estes serão só os credenciados. Pode multiplicar este número por quatro ou cinco.

A tese premiada de Besserman valeu-lhe um emprego no BNDES, onde fez carreira e se mantém até hoje. Para o trabalho na prefeitura, foi "cedido" pelo banco, situação que também ocorreu na época em que esteve no IBGE, onde organizou o Censo de 2000. Foi durante a Rio-92 que ele começou a se interessar por ambientalismo e que o comunisno herdado dos pais - "sou comunista desde os 12 anos", orgulha-se - começou a desbotar o vermelho e ganhar coloração esverdeada.

- Sou de esquerda radical. Isso não tem nada a ver com um pensamento estatizante. Tem a ver com abraçar árvores. Eu abraço árvores e observo pássaros. Quem vai se ferrar com a crise ambiental não é a natureza. Este é um problema da Humanidade. E é um problema igual para todos? Claro que não. É um problema que se abate sobre os pobres. O vermelho do século XXI é verde.

É este comunista verde quem descreve como funcionará, geograficamente, o evento que terá o Rio como abrigo. A conferência em si acontecerá no Riocentro. Em torno da área, estarão mais três "equipamentos". Na região que a prefeitura sonha em ver conhecida como Parque dos Atletas, mas que a população sempre chamará de Cidade do Rock, ficará uma espécie de feira, com estandes de empresas. Na Arena de Jacarepaguá, serão realizadas as assembleias da sociedade civil. E "se houver demanda por mais espaço", será utilizado o autódromo. Longe do Riocentro, o Vivo Rio e o MAM "estão nas mãos do Itamaraty", para a realização do plenário da Cúpula dos Povos. E o movimento social - as entusiasmadas ONGs de 20 anos atrás - está reivindicando, mais uma vez, o Aterro. O Itamaraty também reservou quatro armazéns do Cais do Porto, mas ainda não há nada programado oficialmente para o local.

Resta saber qual será o resultado de tanta produção.

- O produto da Rio-92 foi muito robusto. Ele abriu as negociações sobre clima, biodiversidade e Agenda 21. A Rio +20 foi convocada sem um mandato tão relevante. É uma conferência para discutir desenvolvimento sustentável, economia verde e governança global. Ah, e também uma avaliação da Rio-92, mas isso foi bastante amortizado. Vinte anos depois, não se fez nada. A inclusão social melhorou. Quanto à questão ambiental, não se fez nada.

Conhecedor de Copacabana

Besserman sabe do que está falando. Nos últimos 20 anos, filiou-se a uma grande diversidade de organizações ambientalistas. É do conselho diretor, no Brasil, da World Wild Fund for Nation (WWF), é dos conselhos da International Conservation e da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), é "o cara da ecologia" da Fundação Roberto Marinho... Seu amor por ambientalismo só encontra rivais em três outras paixões. Uma delas é Copacabana.

- Estudo um monte de coisas. Mas, conhecer de verdade, só conheço Copacabana - diz o morador do Posto Seis.

Outra é a família. Besserman é o mais velho de três irmão. O do meio, Marcos, é médico pediatra, que trabalha com saúde pública. O mais moço era o comediante Bussunda, com quem é muito parecido fisicamente. Casado há 33 anos com Guida, também economista, ele tem dois filhos, André, de 30 anos, jornalista ambiental, e Ana Elisa, de 25, linguista.

- Ana Elisa mora nos Estados Unidos - reclama Besserman. - Tudo culpa do Bush. Ela foi fazer intercâmbio e conheceu na faculdade um rapaz beneficiado por um programa do governo que dava bolsa de estudos para quem passasse quatro anos na Guerra do Iraque. Se não fosse o Bush, não teria guerra, não teria o programa de bolsa de estudos, ela não conheceria o namorado e estaria aqui perto de mim.

A terceira paixão é o futebol. Materialista verde, Sergio Besserman é flamenguista roxo:

- Tenho dois heróis na vida: Zico e Darwin. Nesta ordem.

FONTE: O GLOBO

Reino Unido celebra bicentenário do escritor Charles Dickens

Rodrigo Russo

LONDRES - O Reino Unido celebrou na última terça-feira, dia 7, o bicentenário de Charles Dickens (1812-1870), novelista que retratou as transformações sociais da era industrial e que descreveu a vida na maior metrópole da época, a cidade de Londres.

Portsmouth, onde o autor nasceu, teve festas de rua. Londres, onde passou a maior parte da vida, teve cerimônias na abadia de Westminster, onde Dickens foi enterrado, e na catedral de Southwark.

Uma das casas em que morou, a única remanescente, na região central de Londres, hoje abriga o Museu Charles Dickens, que recebeu a visita do príncipe Charles e de sua mulher no dia 7.

O autor também é tema de uma exposição no Museu de Londres, que leva o título "Dickens e Londres" e fica em cartaz até o mês de junho.

Ali, o visitante poderá contemplar manuscritos originais de obras como "David Copperfield" e "Grandes Esperanças" ou a primeira edição de "Um Conto de Natal", cujo protagonista, o ranzinza Ebenezer Scrooge, foi eleito o personagem mais popular de Dickens por uma pesquisa da editora Penguin.

Objetos da época, mapas e telas relacionadas ou inspiradas em suas obras completam a exposição.

Ao fim das cinco galerias, é exibido um curta-metragem sobre a vida à noite em Londres, uma homenagem ao notívago Dickens, que, insone, tinha o hábito de caminhar pelas ruas da cidade durante as madrugadas.

Trajetória

Jornalista no início da carreira, soube retratar em seus livros os diversos dialetos e sotaques que faziam parte da sociedade vitoriana, além de mostrar suas injustiças.
Ele tinha conhecimento de causa para tanto: aos 12 anos, com o pai preso por conta de dívidas, começou a trabalhar em uma fábrica de graxa para sapatos, local escuro e de condições degradantes.

A compaixão pelos pobres se tornou uma das marcas de seu trabalho. Para o príncipe Charles, em comunicado oficial, "apesar dos muitos anos que se passaram, Dickens segue um dos maiores autores de língua inglesa, alguém que usou seu gênio criativo para advogar apaixonadamente por justiça social".

Claire Tomalin, autora da biografia "Charles Dickens - Uma Vida", publicada no fim do ano passado, escreveu no jornal "Guardian" uma carta celebrando o aniversário.

No texto dirigido ao escritor, Tomalin especula sobre como ele reagiria às mudanças tecnológicas do século 21 e diz que a desigualdade por ele retratada permanece.

"Você veria o mesmo abismo entre os ricos, tranquilamente aproveitando seu dinheiro e poder, e os pobres, dependendo da comida descartada pelos mercados, de doações e temendo por seus empregos."

FONTE: ILUSTRDA/FOLHA DE S. PAULO

Maria Rita - Conversa de Botequim (Noel Rosa)

Cariocas :: Carlos Drummond de Andrade

Como vai ser este verão, querida,
com a praia, aumentada/ diminuída?
A draga, esse dragão, estranho creme
de areia e lama oferta ao velho Leme.

Fogem banhistas para o Posto Seis,
O Posto Vinte... Invade-se Ipanema
hippie e festiva, chega-se ao Leblon
e já nem rimo, pois nessa sinuca
superlota-se a Barra da Tijuca
(até que alguém se lembre
de duplicar a Barra, pesadíssima).

Ah, o tamanho natural das coisas
estava errado! O mar era excessivo,
a terra pouca. Pobre do ser vivo,
que aumenta o chão pisável, sem que aumente
a própria dimensão interior.

Somos hoje mais vastos? mais humanos?
Que draga nos vai dar a areia pura,
fundamento de nova criatura?
Carlos, deixa de vãs filosofias,
olha aí, olha o broto, olha as esguias
pernas, o busto altivo, olha a serena
arquitetura feminina em cena
pelas ruas do Rio de Janeiro
que não é rio, é um oceano inteiro
de (a) mo (r) cidade.

Repara como tudo está pra frente,
a começar na blusa transparente
e a terminar... a frente é interminável.

A transparência vai além: os ossos,
as vísceras também ficam à mostra?

Meu amor, que gracinha de esqueleto
revelas sob teu vestido preto!

Os costureiros são radiologistas?
Sou eu que dou uma de futurólogo?
Translúcidas pedidas advogo:
tudo nu na consciência, tudo claro,
sem paredes as casas e os governos...

Ai, Carlos, tu deliras? Até logo.
Regressa ao cotidiano: um professor
reclama para os sapos mais amor.
Caçá-los e exportá-los prejudica
os nossos canaviais; ele, gentil,
engole ruins aranhas do Brasil,
medonhos escorpiões:
o sapo papa paca,
no mais, tem a doçura de uma vaca
embutida no verde da paisagem.
(Conservo no remorso um sapo antigo
assassinado a pedra, e me castigo
a remoer sua emplastada imagem.)

Depressa, a Roselândia, onde floriram
a Rosa Azul e a Rosa Samba. Viram
que novidade? Rosas de verdade,
com cheiro e tudo quanto se resume
no festival enlevo do perfume?

Busco em vão neste Rio um roseiral,
indago, pulo muros: qual!

A flor é de papel, ou cheira mal
o terreno baldio, a rua, o Rio?

A Roselândia vamos e aspiremos
o fino olor de flor em cor e albor.

Um rosa te dou, em vez de um verso,
uma rosa é um rosal; e me disperso
em quadrada emoção diante da rosa,
pois inda existe flor, e flor que zomba
desse fero contexto

de metralhadora, de seqüestro e bomba?

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

AVISO: O BLOG FICARÁ FORA DO AR ATÉ SEGUNDA-FEIRA

Estarei em reunião em Brasília, portanto, ausente de minha sede. Voltarei no domingo e na segunda-feira o blog entrará novamente em ação. Até lá.

Abraços
Gilvan
O editor

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

OPINIÃO DO DIA - Eliane Cantanhêde: mentira

Em Brasília, o governo federal comemora alegremente o sucesso dos leilões de privatização dos aeroportos da própria capital, de Guarulhos e de Campinas, com resultado de R$ 24,5 bilhões, bem acima das expectativas.

Indaga-se: por que o PT condenou tão acidamente a repressão do governo do PFL-DEM a um movimento semelhante na Bahia em 2001? E por que não só criticou ferrenhamente as privatizações do governo FHC como as usou contra os adversários nas campanhas de 2002, 2006 e 2010?

Ou as privatizações eram ruins e agora são boas para o país, ou o PT de Lula e agora de Dilma aderiu ao vale-tudo eleitoral e mentiu, ironizou e foi sarcástico contra uma política que não apenas aprovava como agora aplica, feliz da vida.

Eliane Cantanhêde, jornalista, colunista política. Quem te viu, quem te vê. Folha de S. Paulo, 7/2/2012.

Manchetes de alguns dos principais jornais do Brasil

O GLOBO
Na Bahia, Exército corta luz, água e comida de grevistas
Judiciário quer Previdência própria
PF indicia 22 no caso do banco de Silvio Santos
Privatização: PT reage às críticas tucanas
Ministério veta vídeo sobre Aids na internet

FOLHA DE S. PAULO
PMs em greve na Bahia combinaram atos de vandalismo
PF indicia 22 por suspeita de fraude no PanAmericano
TJ paulista barra punição a juízes que furaram fila de pagamentos
Após proibição de médicos, Lula desiste de desfilar na Gaviões da Fiel
Privatização não é mais obra do demônio, diz FHC

O ESTADO DE S. PAULO
Cresce cerco do Exército a policiais em greve na Bahia
Dilma cancela visita a obra parada
Contratos suspeitos com ONGs somam R$ 755 milhões
Privatização não é questão ideológica, diz FHC
Panamericano: inquérito da PF tem 22 indiciados

VALOR ECONÔMICO
PT cede um espaço inédito na disputa direta por capitais
Mercado vê juro neutro abaixo de 6%
Cresce déficit de derivados de petróleo
China quer promover uso do yuan na AL

CORREIO BRAZILIENSE
Distritais têm mais grana para torrar
Votos a favor da lei seca
Garantias aos doentes de Chagas
Associação volta à Justiça pelo aumento salarial
PMs: Governadores temem greve no carnaval
Lei da Copa não muda ponto que adiou votação

ESTADO DE MINAS
Na mira do mosquito
Confins: Aeroporto está fora da rota das privatizações
Família quer documentos médicos sobre a morte

ZERO HORA (RS)
TCE aponta desperdício em estradas
Incursão à cidade do medo
Transplantes no país dobram em 10 anos

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
Dilma aperta empreiteiras
Falta espaço no Recife para o Minha Casa
Oficiais podem aderir à greve na Bahia

O que pensa a mídia - editoriais dos principais jornais do Brasil

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

A era do oportunismo :: José Serra

As últimas semanas trazem acontecimentos reveladores de um aspecto peculiar da "luta política" no Brasil, como a entendem o PT e o governo que ele lidera. Poderia ser resumido em dois conceitos: o relativismo como ideologia e a tática de recolher dividendos políticos sem se envolver diretamente, tirando, como se diz, a castanha do fogo com a mão do gato.

A moral da fábula do macaco esperto, que, faminto, mandava o bichano recolher as castanhas das brasas esteve visível nos sucessivos movimentos na USP. A chamada extrema esquerda desencadeou ações violentas e o petismo saiu a criticar a "falta de diálogo" e a "falta de democracia" que supostamente estariam na raiz dos distúrbios.

De olho no voto moderado, o PT não quer para si os ônus do radicalismo ultraminoritário, mas pretende sempre recolher os bônus de se apresentar como a solução ideal para evitar essa modalidade de movimento político. Como se, em algum lugar do mundo ou momento da História, o extremismo, de direita ou de esquerda, tivesse sido contido apenas com diálogo e negociação. É um discurso conveniente, pois se apresenta como alternativa "racional" de poder. Uma vez lá, os tais movimentos serão cooptados na base da fisiologia e, se necessário, da repressão. Os críticos exigirão "coerência" e o partido fará ouvidos moucos.

Mas a vida é mais complicada do que esses esquemas espertos. À medida que vai acumulando força, o PT precisa lidar com desafios concretos e, aí, surge a utilidade do relativismo. Querem um exemplo? Quando um governante adversário cuida de garantir o cumprimento da lei e manter a ordem pública, o aparato de comunicação sustentado com verbas públicas sai a campo para denunciá-lo, atacá-lo, desgastá-lo a qualquer custo. Quando, porém, esse governante é do PT ou aliado próximo, a posição se inverte.

Se o adversário cumpre a lei, é acusado de "criminalizar os movimentos sociais"; quando um deles cumpre a mesma lei, então são eles a criminalizar. Assim, os PMs em greve na Bahia governada pelo PT são chamados de "bandidos". Cadê o exercício do entendimento, a tolerância? Em São Paulo, em 2008, o PT ajudou na organização de uma marcha de policiais civis grevistas rumo ao Palácio dos Bandeirantes - marcha que, felizmente, não atingiu os objetivos sangrentos almejados.

Em Estados governados pelo petismo e aliados, são rotineiras as reintegrações de posse, mas quando precisam ser feitas em São Paulo, por exemplo, a mando da Justiça e sempre sob sua supervisão, o PT - e eis de novo a história das castanhas - cavalga o extremismo alheio para denunciar inexistentes violações sistemáticas dos direitos humanos. Nunca ofereceu uma possível solução ao problema social específico, mas se apresenta incontinenti quando sente a possibilidade de sangue humano ser vertido e transformado em ativo político.

Vivemos uma era em que o oportunismo político do PT acabou ganhando o status de virtude. Perde-se qualquer referência universal ou moral de certo e errado e essa separação é substituída por outra. Se é o partido que faz, tudo será sempre correto - os fins justificam os meios, seja lá quais forem esses fins. Se é o adversário, tudo estará sempre errado, pois suas intenções sempre seriam viciosas. A política torna-se definitivamente amoral.

É uma lógica que acaba derivando para o cômico em algumas situações. No atual governo, os ministros foram divididos em duas classes. Alguns são blindados, podem dar de ombros quando são alvo de acusações; outros são lançados ao mar sem muita cerimônia. Quando é do PT, especialmente se for do grupo próximo, a proteção é altíssima. Mas se tiver a sorte menor de ser apenas um "aliado" - conceito que embute a possibilidade de se tornar futuramente um adversário -, logo aparecem os vazamentos dando conta de que "o Palácio" mandou o infeliz se explicar no Congresso, a senha para informar aos leões que há carne fresca na arena.

Essa amoralidade essencial se estende às políticas públicas. Em 2007, quando governador de São Paulo, aflito com o congestionamento aeroportuário, propus ao presidente Lula e sua equipe a concessão à iniciativa privada de Viracopos, cujo potencial de expansão é imenso. Nada aconteceu. Na campanha eleitoral de 2010, a proposta de concessões foi satanizada. Pois o novo governo petista a adotou em seguida! Perdemos cinco anos! E a adotou privatizando também o capital estatal: o governo torna-se sócio minoritário (49% das ações) e oferece crédito subsidiado (pelos contribuintes, é lógico) do BNDES. Tudo o que era pra lá de execrado passou a ser "pragmatismo", "privatização de esquerda".

O ridículo comparece também à internet, onde a tropa de choque remunerada, direta ou indiretamente, com dinheiro público e treinada para atacar a reputação alheia desperta ou se recolhe em ordem unida, não conforme o tema, mas segundo os atores. São os indignados profissionais e seletivos. Como aquelas antigas claques de auditório, seguindo disciplinadamente as placas que alternam "aplaudir", "silenciar" e "vaiar".

Vivemos tempos complicados, um tanto obscuros, algo assim como "se Deus está morto, tudo é permitido" - e chamam de "pragmatismo" o oportunismo deslavado. A oposição, a despeito de notáveis destaques individuais, confunde-se no jogo, dado o seu modesto tamanho, mas também porque alguns são sensíveis aos eventuais salamaleques e piscadelas dos donos do poder. Um adesismo travestido de "sabedoria". A política real vai se reduzindo a expedientes necessários à manutenção do poder e à mitigação do apetite dos aliados. A conservação do statu quo supõe uma oposição não mais do que administrativa e burocrática. Parece que a nova clivagem da vida pública é esta: estar ou não na base aliada, de sorte que a política se definiria entre os que são governo e os que um dia serão.

Não sou o único que pensa assim, mas sou um deles: política também se faz com princípios, programa e coerência. E disso não se pode abrir mão, no poder ou fora dele.

*Ex-prefeito e ex-governador de São Paulo

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Discussão semântica:: Merval Pereira

Mudou o paradigma, e é bom que isso tenha acontecido, superamos essa discussão inútil, estéril, ideológica sobre as privatizações que dominou as últimas eleições presidenciais. Mas será que conseguiremos sair mesmo desse impasse vazio? Pela reação dos petistas, parece que não. Estão todos na defensiva, tentando explicar que “concessão” não é o mesmo que “privatização”, uma discussão semântica ridícula.

Concessão tem a ver com o tipo de serviço que o Estado vende. Serviços públicos como rodovias, distribuição de energia elétrica — um monopólio natural — só podem ser vendidos via concessão.

No governo Fernando Henrique ou neste, as privatizações desses setores tiveram de ser feitas por concessão por prazo determinado, não poderiam ter sido feitas de outra maneira.

É o artigo 175 da Constituição que define: "serviços públicos são concedidos ou explorados diretamente pela União".

Por isso, na telefonia, o que era serviço público foi concedido, o que não era foi vendido.

O que define se é privatização ou não é o controle, e os consórcios que venceram o leilão dos aeroportos terão o controle das operações.

A Infraero será minoritária e, mesmo assim, entrou nessas privatizações como um arranjo político, para os petistas poderem dizer que o governo ainda tem uma ingerência no setor.

Considerados de "segurança nacional", os aeroportos demoraram a ser privatizados, causando um grande transtorno à população, por questões ideológicas anacrônicas, e hoje alguns petistas tentam justificar a decisão dizendo que o espaço aéreo ainda continuará sendo controlado pela Aeronáutica.

O que há de ruim nessa privatização é que não foi feito um planejamento de reestruturação do sistema aeroviário brasileiro.

Por exemplo, é preciso aperfeiçoar as ligações entre São Paulo, Rio e o Nordeste, e o aeroporto internacional do Rio ainda não foi licitado, nem nenhum do Nordeste.

Minas é outro estado fundamental na malha aérea brasileira que ficou para depois. A ampliação dessa rede aérea exigirá também controladores de voos bem treinados, e isso não temos nem na quantidade suficiente para atender às nossas demandas atuais.

O que o governo está fazendo, no momento, é vender os ativos sem ter uma lógica para o país, com o objetivo de garantir as obras para que tenhamos um mínimo necessário para sediar a Copa do Mundo.

Com o risco de manter uma gestão ruim se a Infraero tiver influência política nos consórcios.

Quando as telecomunicações foram privatizadas, no governo Fernando Henrique, houve uma reorganização do sistema.

Outra alteração importante, a se registrar nessa mudança de paradigma, foi a de usar o preço de outorga mais alto para definir o vencedor.

Quando fizeram as primeiras concessões de rodovias, com Dilma ainda à frente da Casa Civil, os petistas festejaram a "mudança de critérios".

Exigiram tarifas mais baixas, para supostamente beneficiar o usuário, e deu no que deu: as obras nessas rodovias não saem do lugar, pois o pedágio não cobre os custos e mais os investimentos, mas a agência reguladora não retoma as concessões apesar de ninguém cumprir os editais.

O PT utilizou os mesmos métodos do PSDB, os fundos de pensão entraram firme na parceria, pois precisam de bons investimentos.

E o governo usou o BNDES para garantir o financiamento dos vencedores.

A única diferença foi a manutenção da Infraero no controle de 49% dos aeroportos, espécie de concessão aos petistas contrários às privatizações, mas nada indica que esse seja um bom caminho, pois a Infraero não controlará os aeroportos e ainda terá que arcar com uma parte substancial dos investimentos, para o que não tem recursos.

O governo não tem dinheiro para investir em aeroportos, em infraestrutura, assim como não tinha dinheiro para desenvolver a Vale.

A presidente Dilma, quando ainda era candidata, disse célebre frase em encontro com intelectuais no Rio: "Fazer concessões no pré-sal é privatizar, é dar a empresas privadas um bilhete premiado." Muito aplaudida, ela fingiu que não sabia — e é provável que a plateia que se maravilhou com sua afirmação não soubesse — que o governo Lula já licitara, utilizando o sistema de concessão, vários blocos do pré-sal.

Com relação à Vale, é importante relembrar a história de como o governo petista não quis reverter a privatização por razões técnicas.

Em 2007, o deputado Ivan Valente (PSOL) fez projeto nesse sentido, analisado na Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio da Câmara.

O relator foi José Guimarães (PT), aquele mesmo cujo assessor foi apanhado com dólares na cueca num aeroporto na época do mensalão.

Pois seu voto foi pela rejeição ao projeto, alegando em primeiro lugar que "não há como negar que a mudança das características societárias da Companhia Vale do Rio Doce foi passo fundamental para estabelecer uma estrutura de governança afinada com as exigências do mercado internacional, que possibilitou extraordinária expansão dos negócios e o acesso a meios gerenciais e mecanismos de financiamento que em muito contribuíram para este desempenho e o alcance dessa condição concorrencial privilegiada de hoje".

Segundo o petista, "a privatização levou a Vale a efetuar investimentos numa escala nunca antes atingida pela empresa, (...) o que, naturalmente, se refletiu em elevação da competitividade da empresa no cenário internacional".

Guimarães assinalou que, com a privatização, a Vale fez seu lucro anual subir de cerca de US$ 500 milhões em 1996 para aproximadamente US$ 12 bilhões em 2006. Em 2010, o lucro da empresa foi de US$ 30 bilhões .

Também a arrecadação tributária da empresa cresceu substancialmente: em 2005, a empresa pagou R$ 2 bilhões de impostos no Brasil, cerca de US$ 800 milhões ao câmbio da época, valor superior em dólares ao próprio lucro da empresa antes da privatização.

Em 2011, só de uma disputa judicial que perdeu, a Vale pagou cerca de R$ 6 bilhões em impostos atrasados.

FONTE: O GLOBO

Estreita vigilância:: Dora Kramer

Os Ministérios da Justiça e da Defesa monitoram de perto a mobilização de policiais militares em vários Estados onde há risco de greves e já fazem um planejamento para o envio de tropas no caso de os governadores pedirem auxílio para a garantia da ordem pública.

Há 4 mil homens na Bahia desde a semana passada, quando o governador Jaques Wagner pediu ajuda em função dos tumultos de rua provocados por grevistas e da ocupação da Assembleia Legislativa por policiais amotinados.

Diante do risco de ocorrerem greves também no Rio de Janeiro, Espírito Santo, Pará, Paraná, Rio Grande do Sul e Alagoas, o governo federal programa possíveis deslocamentos levando em conta um efetivo de até 10 mil soldados da Força Nacional mais o que for preciso de pessoal do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

Embora o governo abrace a tese de que a greve da Bahia e as ameaças em outros Estados façam parte de uma mobilização nacional para forçar a votação da emenda constitucional (PEC 300) que institui o piso salarial para policiais militares e bombeiros, não prevê outra ação de caráter nacional além da garantia da ordem.

Segundo alta autoridade da área federal de segurança, não há o que fazer a não ser aguardar que os governadores consigam resolver o problema de modo pontual com as corporações dos respectivos Estados, "dentro das possibilidades orçamentárias de cada um".

Segurança pública é função estadual e, portanto, não haveria como a União agir sem que se configurasse uma intervenção. Oficialmente, Brasília mantém distância regulamentar, mas, na prática, atua.

De um lado, em consonância com a presidência da Câmara dos Deputados na decisão anunciada de manter a PEC 300 fora da pauta de votações; de outro, em conformidade com os governadores na posição de não negociar anistia para grevistas que tenham ou venham a se envolver em crimes.

No caso específico da Bahia, há um evidente pisar em ovos na abordagem do assunto em virtude do desgaste político que o episódio rende ao governador Jaques Wagner, do PT.

Não só pelo fato de o partido ter apoiado a greve de dez anos atrás quando o governador (César Borges) era um adversário, mas também porque os petistas precisam se equilibrar entre o discurso "duro" contra a quebra de hierarquia e a hesitação em utilizar efetivamente a força do Estado contra os grevistas e arcar com os riscos de imagem resultantes de atos mais violentos.

Isso sem contar o evidente constrangimento em função da demora do governador em reconhecer a amplitude do movimento. Não se fala em "erro de avaliação" de Jaques Wagner. Fala-se, isso sim, em "informações incompletas" que teriam sido passadas a ele pelos comandos igualmente interessados nas reivindicações salariais.

Quanto ao principal, a solução que será dada à greve dos policiais baianos, no governo federal o que se diz é que o nome do jogo agora é paciência e negociação.

Por "questão de estratégia" não é revelado se há ou não intenção de haver desocupação forçada da Assembleia Legislativa, caso não se consiga resolver o impasse na base do diálogo.

Na realidade, a impressão que dá é que há pouco de estratégia e muito de torcida para que os grevistas sejam vencidos pelo cansaço sem que o governador tenha necessidade de trocar o discurso "duro" por ações mais efetivas ou que precise ceder além do inicialmente pretendido.

Alegar que a motivação é nacional e que a mobilização tem motivações políticas regionais, além de uma contradição em termos - a PEC 300 não faz parte de pauta das negociações em curso na Bahia nem no Rio - não constrói caminho para a solução necessária para um cenário de total insegurança pública.

Balança. A permanência de Fernando Bezerra à frente do Ministério da Integração Nacional não é uma questão resolvida.

Pode vir a sair sim, mas longe das circunstâncias de denúncias e mais próximo do prazo de desincompatibilização de candidatos às eleições municipais.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

"C'est ça" :: Eliane Cantanhêde

Depois de tantas idas e vindas, o governo está finalmente para bater o martelo a favor dos caças Rafale, da Dassault francesa, para renovar a frota da FAB. O anúncio deve ser ainda no primeiro semestre, mas só depois de 6 de maio, data do segundo turno da eleição presidencial na França.

O empurrão final foi a decisão da Índia de comprar 126 Rafale, tirando a Dassault do sufoco. É a primeira encomenda internacional do seu jato, restrito até hoje à própria Força Aérea francesa. Com escala de produção, o preço dos aviões tende a cair também no negócio com o Brasil, esvaziando uma das maiores restrições a eles: o custo do produto e, sobretudo, da manutenção.

Em seguida ao anúncio do negócio dos franceses com os indianos, Celso Amorim (Defesa) foi coincidentemente à Índia, citando em nota a vitória da Dassault e destacando que 108 dos 126 caças "serão construídos no próprio país [a Índia], com transferência tecnológica". A expressão "transferência tecnológica" é um mantra do arrastado programa FX-2, de compra dos aviões.

Lula esteve com a caneta na mão duas vezes para assinar o contrato com os franceses. Na primeira, recuou depois do vexame de anunciar a opção antes de concluído o relatório técnico da FAB. Na segunda, quando a Folha divulgou o resultado desse relatório, com o Gripen sueco em primeiro lugar, o F-18 dos EUA em segundo e o Rafale em terceiro e último.

Ao assumir, Dilma usou o bom argumento do corte de Orçamento para estudar o negócio. A vitória do Gripen na FAB passou a ser considerada e o F-18 voltou à roda. Mas, durante um ano, cristalizaram-se duas certezas no governo: 1) o Gripen é só um projeto e a Suécia tem peso político zero; 2) é impossível confiar na promessa de transferência de tecnologia dos EUA, sujeita aos humores do Congresso e à alternância de poder.

Tudo indica que os Rafale vêm aí.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Dilma cancela visita a obra parada

A presidente Dilma Rousseff cancelou em cima da hora viagem a Missão Velha, divisa do Ceará com Pernambuco, onde visitaria trecho das obras da ferrovia Transnordestina. O palco da festa fora montado num ponto em que a construção está parada, relata a enviada especial Tânia Monteiro. Sindicalistas dizem que, dos 813 funcionários contratados, restam apenas 190. Outra obra, a transposição do Rio São Francisco, também está parada. A esse respeito, Dilma disse que, a partir de agora, vai "cobrar metas e resultados concretos"

Planalto aborta visita de Dilma a obra da Transnordestina ao constatar abandono
Reportagem do "Estado" flagrou na estrada de Missão Velha, no Ceará, caminhão que transportava as grades utilizadas para palanque; região também é marcada pela paralisia do projeto

Tânia Monteiro

MISSÃO VELHA (CEARÁ) - Grades de proteção para afastar a multidão, toldos e um palanque foram desmontados às pressas na manhã de quarta-feira, 8, depois que a presidente Dilma Rousseff cancelou a viagem a Missão Velha, no sertão do Cariri, divisa do Ceará com Pernambuco, porque o palco da festa fora montado num trecho de obra paralisada da ferrovia Transnordestina. O Planalto abortou a escala da presidente no local para evitar constrangimentos, diante da constatação de abandono da obra.

O Estado percorreu alguns trechos da obra em Missão Velha, que seria visitada nesta quinta-feira, 9, por Dilma. As cenas relembram o abandono já constatado pela reportagem do jornal em dezembro, quando percorridos trechos da transposição do Rio São Francisco. Na quarta-feira, ao inspecionar obras do projeto no Nordeste, Dilma afirmou que quer "obras controladas".

Na ponte 01 de Missão Velha, que está sendo construída, apenas quatro empregados foram encontrados trabalhando no local, pouco antes das 10 horas da manhã, 24 horas antes da visita da presidente. O trecho é de responsabilidade da Odebrecht.

No meio do caminho da estrada de terra que liga Juazeiro do Norte a Missão Velha, a reportagem cruzou na quarta-feira com um caminhão que transportava as grades que seriam usadas na montagem do palanque da cerimônia com a presidente Dilma.

Segundo o representante do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Pesada do Ceará (Sintepav) no Cariri, Evandro Pinheiro, dos 813 funcionários que estavam empregados no início de dezembro, nos três trechos de obras da Transnordestina, restam hoje apenas 190.

Nas obras da transposição, no Ceará, a situação é ainda pior: dos 1.525 trabalhadores registrados em novembro restaram só 299 em Mauriti, município visitado por Dilma ontem.

"Nem se percebe que tem gente trabalhando aqui. Eles (os quatro trabalhadores) estão aqui para não dizerem que está tudo parado. Aqui tinha de ter ao menos 40 ou 50 pessoas", disse o presidente do Sintepav-CE, Raimundo Nonato Gomes. "Prova de paralisação é que nem tem mais vigia na obra e o refeitório foi desativado, como vocês podem ver", acrescentou ele.

Cícero Roberto Gomes Bezerra foi um dos demitidos pela Odebrecht em janeiro. "Não estou fazendo nada. É um desespero. Tenho muita preocupação com o futuro dos meus filhos. Já procurei trabalho em Pernambuco, Ceará e na Paraíba. As obras estão todas paradas. O jeito é tentar ir para São Paulo porque tenho três filhos para sustentar e não posso ficar aqui esperando eles voltarem, que ninguém sabe quando vai acontecer." Cícero foi demitido em janeiro. Antes, já havia sido dispensado de obra da transposição em Mauriti.

Reflexos. A cidade de Missão Velha já sente os reflexos dessas demissões nos trechos da Transnordestina. Cícero Antonio Gorgonha, dono da Mercearia e Casa de Frios Gorgonha, disse que o faturamento do restaurante caiu R$ 10 mil por mês com a diminuição do movimento. "Estão entregando as casas que alugaram e parando de comprar. Muita gente foi embora. É uma grande perda para o comércio que estava cheio de esperança com as obras", desabafou Gorgonha.

No Restaurante Tempero Mineiro, o movimento caiu 30%, segundo Demi, que não quis informar o sobrenome. Ele disse que em dezembro tinha 20 funcionários e já demitiu 6 deles.

Na quarta-feira, em Juazeiro, a presidente justificou porque cancelou a visita à área da Transnordestina: "Quero ver o maior trecho em andamento que é de Eliseu Resende até Salgueiro e de Salgueiro até Suape". O ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho, anunciou que vários contratos da Transnordestina e da transposição serão rescindidos com empreiteiras para "não estourar os limites legais" de aditivos de 25% dos valores totais da obra.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

A transposição que Dilma não vai ver

Dilma Rousseff está hoje no Nordeste. Não foi à região para inaugurar nada, nem anunciar nenhuma novidade. Foi apenas ver de perto um dos fracassos mais retumbantes da qual foi protagonista, não apenas como presidente, mas desde que "gerenciava" o governo Lula: as obras da transposição do rio São Francisco.

O cenário que a aguarda é de desolação. Obras paralisadas; empreendimentos que se desintegram semanas depois de serem "concluídos"; municípios inteiros submetidos à penúria; comunidades que agora vivem pior do que antes da chegada dos canteiros das empreiteiras.

A transposição é projeto muito antigo, e também polêmico. Parte dos estados nordestinos era contra; parte muito a favor. Lula decidiu tocá-la a partir de 2007. Vangloriou-se de estar fazendo algo que, desde Dom Pedro, não se conseguia.

"Eu digo sempre que o Lula de dona Lindu conseguiu fazer a obra que o Imperador, filho do rei Dom João VI, não quis fazer", disse ele, em um de seus últimos atos na presidência, em dezembro de 2010. Lula não conseguiu coisa nenhuma; para existir, a transposição ainda tem de comer muita poeira.

Atualmente, a maior parte dos 14 lotes de obras está parada, à espera de aditivos contratuais. Desde o ano passado, as máquinas foram sendo desligadas. O total de empregados caiu de 9 mil para 3.900, se tanto. As construtoras argumentam que os valores negociados com o governo mostraram-se insuficientes para bancar as obras. Para voltar ao trabalho, espetaram uma nova fatura bilionária no governo petista, que topou pagar.

Os custos da transposição já subiram mais de 50% sem que uma gota de água irrigasse o semiárido. O valor passou dos R$ 4,5 bilhões iniciais para os atuais R$ 6,9 bilhões. Um dos pecados originais da transposição foi ter sido iniciada sem que houvesse sequer projetos básicos das obras. Em campo, a realidade que as empreiteiras encontraram era bem diferente da prevista.

O improviso já resultou em acidentes graves, como o desmoronamento de parte do túnel de Cuncas, que com seus 15 km corta a divisa entre Ceará e Paraíba, em abril do ano passado. Em localidades como Montevidéu, no município de Salgueiro (PE), as obras afetaram o açude que garantia o abastecimento para a população, agora sem água.

A obra da transposição é alvo de pelo menos dez investigações do Ministério Público Federal. As primeiras ações foram propostas em 2005 e os inquéritos apuram desde fraudes em licitações até a remoção de índios de locais por onde passam as obras.

Hoje, cinco anos depois do seu início, apenas 58% da transposição foi feita, segundo o Jornal do Commercio, de Recife, em série de reportagens que vem sendo publicada desde domingo. Inicialmente, a conclusão deveria ocorrer neste ano, mas já se sabe que, na melhor das hipóteses, ficará para o sucessor de Dilma inaugurar os 713 quilômetros de canais do empreendimento, em 2015.

"A transposição do São Francisco é uma amostra exemplar do padrão de gestão petista. Decisões são tomadas não com base em cálculos econômico-financeiros ou estudos sobre a importância e a urgência do projeto para a região e para o país, mas tendo em conta os interesses do PT e de seus aliados de ocasião", comentou O Estado de S.Paulo em editorial no primeiro dia de 2012.

Dilma ordenou a seus assessores que mantivessem sob discrição sua ida ao Nordeste hoje. Ela passará por Pernambuco - Floresta e Cabrobó - e Ceará - Juazeiro do Norte e Mariti. Tudo bem diferente da caravana pomposa na qual acompanhou Lula em outubro de 2009 - cercada de ministros, uísque, roda de viola e tapetes vermelhos - para promover sua candidatura presidencial.

O mais nefasto é o uso e o abuso que o PT faz do dinheiro público para enganar o público, iludir pessoas que só pedem um pouco de atenção oficial e comunidades que gostariam de progredir honestamente. A transposição é obra necessária, mas as gestões de Lula e de Dilma a transformaram em mais um estelionato a figurar na ficha corrida do partido.

Fonte: Instituto Teotônio Vilela

Mais dilmismo centralizador no Executivo. E o comando político e eleitoral de Lula:: Jarbas de Holanda

Frustrou-se a grande reforma ministerial prometida pela presidente Dilma Rousseff, que configuraria o que chegou a ser previsto como um “novo começo” ou “o primeiro ano” do seu governo. Cujo primeiro escalão seria bem menor e composto por nomes da escolha pessoal dela, inclusive os representativos das legendas não de esquerda da base aliada, inclusive o PMDB, que apenas os chancelariam. E tal reforma seria facilitada pelo desgaste dos partidos com as demissões de ministros em face das denúncias de irregularidades ou “mal feitos”. Mas o “novo começo”, mesmo com o crescimento da popularidade de Dilma – favorecido pela soma dos indicadores econômicos do dia a dia com a competente instrumentalização das referidas demissões – defrontou-se com um obstáculo poderoso, tão logo emitiram-se sinais de tentativas de implementação. O ex-presidente Lula, às advertências feitas à sucessora sobre os riscos de desmonte da base parlamentar governista, adicionou a recomendação de que pequenas mudanças ou “ajustes” operacionais teriam de respeitar as alianças montadas para a eleição dela e sobretudo os limites de um governo de continuidade.

É imaginável que Dilma Rousseff – juntando o voluntarismo que em grande medida mantém ao empenho de afirmar a imagem de gestora que buscar afirmar – tenha pensado em confrontar o antecessor e padrinho. Logo se deu conta, porém, da inviabilidade disso. Por um conjunto de fatores – da indisputável (por ela) liderança de Lula no PT até a enorme dependência que tem em relação a ele para seu relacionamento no Congresso. Assim, o possível seria, adiando ou descartando de vez a ideia de “novo começo” do governo, forçar uma ampliação do controle do Executivo além dos limites definidos por Lula, em troca do pleno reconhecimento do comando dele sobre as questões e as relações político-partidárias e eleitorais.

Há fortes evidências do acerto em torno dessa troca. Quanto à cota de Dilma, ao invés da reforma do Ministério prometida, a persistência dos 38 titulares e da mesma representação partidária, mas com o aumento do poder de decisão de secretários-executivos de confiança da presidente e vinculados diretamente ao Palácio do Planalto. Acerto (entre os dois comandantes) que começa a gerar e pode desdobrar sérios conflitos com as direções dos partidos. E a centralização dilmista, bem referenciada pelo salto de Maria das Graças Foster à presidência da Petrobras, vai envolvendo outros cargos diretivos em diversos ministérios e nas estatais. E sendo justificada por “critérios técnicos”, que via de regra privilegiam quadros do PT, reduzindo o peso dos outros partidos aliados.

Na outra ponta do acerto, consagra-se – com o completo respaldo da presidente – o papel de Lula no comando da definição e do encaminhamento de candidatos e de alianças para as eleições municipais de 2012, estreitamente vinculadas as mais importantes aos objetivos do lulopetismo no pleito presidencial de 2014. Emblemático desse respaldo foi o deslocamento de Dilma para evento realizado no Rio em louvor do ministro da Educação Fernando Haddad, que deixava o cargo, num ato promovido para a projeção da candidatura dele a prefeito de São Paulo. Esse comando, que se estende a decisões sobre a composição do Ministério, é incontrastável também no PT. No qual, até o mensalão Lula tinha de dividi-lo com José Dirceu, mas que agora é exercido com tal força que ele está conseguindo encaminhar com sucesso uma aliança com o “reacionário” Gilberto Kassab em favor de Haddad, empurrada pela goela abaixo dos petistas paulistanos.

Jarbas de Holanda é jornalista

Maria Rita - Tá perdoado

A reprodução da oligarquia política de PE (2) :: Michel Zaidan Filho

Há quase um consenso, entre os observadores econômicos do estado, de que houve uma profunda diversificação da matriz econômica de Pernambuco. Saímos de uma agroindústria ineficiente e de baixa produtividade para um parque produtivo moderno, capaz de atrair investimentos de grande porte, sejam públicos ou privados. Nacionais ou estrangeiros. Estamos vivendo uma "lua de mel" econômica, como nunca mais se viu na região. O que não ocorreu em Pernambuco foi a correspondente renovação e diversificação da matriz política, oligárquica, familista, atrasada, que mantem e aprofunda a polarização histórica que caracteriza a vida política do estado. Polarização que, hoje, já não possui nenhuma conotação ideológica ou programática. É como se Pernambuco tivesse aderido a uma modalidade incompleta de gerencialismo, mas conservando uma boa dose de patrimonialismo na política e no estado.

A tão esperada terceira via nunca vingou entre nós. O Partido que poderia ter desempenhado este papel salutar na renovação da vida política regional tornou-se um mero coadjuvante de um dos lados predominantes, sem força, sem unidade, sem vontade política para romper com o "statu quo".

Esta mistura de familismo e gerencialismo parece ter sido o ponto máximo de nossa evolução política. O ex-governador Miguel Arraes de Alencar não só morreu, mas levou consigo o que restava de espírito público, de política de desenvolvimento regional integrada, de preocupação com as questões sociais, mesmo banhado nas contradições e ambiguidades do nacional-desenvolvimentismo. A mudança veio com a Aliança de Jarbas Vasconcelos com os pefelistas e com a assunção de uma agenda privatizante, apoiada na guerra fiscal, no fundo público e na precarização do trabalho. Essa agenda preparou o caminho para essa modalidade espúria de gerencialismo caboclo, alimentada por uma pirotecnia de estatísticas e publicidade, destinada a convencer a opinião pública de uma pseudo-unanimidade em torno da ação do dirigente estatal. Certamente, que o dirigente estatal pode sempre alegar que tem 95% de apoio popular, com base nessa propaganda. Mas não tem os 100%. Nos fazemos parte desses 5% que não compartilham com esse modelo de gestão. E não precisamos pedir licença a ninguém, para discordar dessa ou das gestões anteriores.

Quando dizemos que não compartilhamos desse "estilo" de administração é porque não aceitamos que a prestação de serviços públicos essenciais (como saúde, educação, segurança, habitação etc.), tutelados juridicamente pelo Estado - segundo a Constituição Federal - sejam transferidos, sem mais, para entidades privadas (sejam ou não filantrópicas). Que o SUS - uma conquista da sociedade brasileira - seja desmontado em prol de uma fundação privada de amigos do governador. Que a educação pública seja entregue a fundações empresariais, que cobram para prestar seus serviços educacionais. Que a política ambiental seja destruída, com a conivência dos órgãos de fiscalização e punição dos crimes ambientais, em benefício de empresas que querem se instalar no estado. Que o pacto federativo e a cobrança e o compartilhamento de tributos possam fazer as vezes de política industrial. E, sobretudo que o governo tome como a sua maior obra o patrocínio de alguns jogos de pouca importância na futura Copa do Mundo no Brasil.

É inadmissível que diante dos inúmeros e ingentes problemas enfrentados pelo povo pernambucano, o primeiro mandatário do estado faça de sua administração um mero ativo - de alta especificidade - para utilizá-lo na sucessão presidencial. Pernambuco merece respeito, a natureza merece respeito, o contribuinte merece respeito. E acima de tudo, o direito de discordar, de não aceitar ou compartilhar dessa "política", merece respeito. Pior do que os liberticidas que mandam processar os insatisfeitos e críticos de sua gestão são os pseudo-democratas que pagam, estipendiam com dinheiro público esbirros, sequazes, gente desqualificada para atacar pela colunas dos jornais aqueles que têm a coragem de dizer não a esse tipo de gestão. É de se perguntar como ficará Pernambuco, depois que o "moderno coronel do PSB" for se juntar a Kassab, Aécio Neves, Beto Richa e outros para barganhar espaço político na próxima sucessão presidencial?

Michel Zaidan Filho é professor da UFPE.