sábado, 2 de dezembro de 2017

Opinião do dia: Roberto Freire

Hoje, o que existe é um desânimo absoluto da população e a descrença generalizada em relação à classe política, fruto de todo o desmantelo e a corrupção que marcaram os 13 anos dos governos petistas de Lula e Dilma.

Esse sentimento gera, inclusive, uma perigosa repulsa à política e aos políticos indistintamente, o que é sempre temerário do ponto de vista democrático. Apesar de todos os problemas, a política é o instrumento pelo qual as sociedades podem mudar os seus destinos. Fora da política, não há outro caminho possível além da barbárie. Lamentavelmente, em meio a esse cenário de terra arrasada que fermenta um caldo de desilusão, os discursos populistas à esquerda e à direita, inclusive formulados por aqueles que pregam estultices como a intervenção militar no Brasil e o fechamento do Congresso, encontram terreno fértil para prosperar junto aos mais incautos.

É contra essa corrente autoritária e antidemocrática que devemos nos erguer. Temos um ano pela frente e, até lá, precisamos aprovar as reformas de que o Brasil precisa, concluir a transição que nos levará às próximas eleições e construir uma candidatura forte, competitiva e representativa de todas as forças democráticas, à esquerda e à direita, que convirjam para o centro. Que as lições de 1989 ecoem em 2018, evitando a repetição de erros do passado e mobilizando os brasileiros a recuperarem o mesmo entusiasmo daquele período.

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Roberto Freire é deputado federal por São Paulo e presidente nacional do PPS, “As lições de 1989 para 2018” , Blog do Noblat, 5/10/2017.

Bolívar Lamounier: Pega, mata, esfola

- O Estado de S. Paulo.

“...naquela comunidade, o passado raramente era discutido. Não que fosse um tabu, mas ele havia de algum modo sumido em meio a uma névoa tão densa quanto a que cobria os pântanos. Simplesmente não ocorria àqueles aldeões pensar sobre o passado – nem mesmo o recente”
Kazuo Ishiguro, em O Gigante Enterrado

Participo diariamente da discussão política pelas redes sociais. No momento, estou com um período de 740 dias ininterruptos de postagens. Pratico essa atividade por considerá-la potencialmente útil à sociedade e porque aprendo muita coisa por meio dela.

Mas devo confessar que não é fácil. É preciso paciência para aguentar a infindável repetição de certos chavões e casca grossa para responder à altura a certas grosserias que vez por outra aparecem. A um ano da eleição presidencial, é fácil perceber o aumento do que se tem chamado de atitude “antipolítica”: uma hostilidade indiscriminada contra tudo e todos, contra as instituições – no limite, contra a própria democracia. O aumento no número de postagens e comentários agressivos é facilmente perceptível. Atitudes do tipo “pega, mata, esfola” parecem estar contaminando as redes a olhos vistos. E junto com elas, vários chavões, entre os quais eu destaco o de que “os partidos são todos iguais”. Minha proposta neste artigo é explorar esses dois pontos, referindo-me em especial ao caso do PSDB.

O “pega, mata, esfola” veio à tona com inusitada virulência em razão da fala de Aécio Neves na gravação de Joesley Batista. O fato é bem conhecido: em linguagem chula, Aécio pede a Joesley um empréstimo de R$ 2 milhões, supostamente para pagar advogados de defesa no âmbito da Operação Lava Jato. Foi afastado do Senado pelo ministro Fachin, mas o ministro Marco Aurélio devolveu a questão ao plenário do Senado, que lhe restituiu o mandato. A reação das redes contra Aécio foi imediata. Centenas de postagens passaram a exigir que o Senado lhe cassasse o mandato, que o PSDB o excluísse de seus quadros e – bingo! - que a Justiça o metesse no xadrez.

Hélio Schwartsman: Terrorismo de mercado

- Folha de S. Paulo

Mercado faz terrorismo para impedir que Lula volte à Presidência. É uma hipótese interessante. Convém examiná-la melhor.

Não há dúvida de que muitos empresários e banqueiros preferem outros candidatos. É direito deles. Mas, para falar em terrorismo, seria preciso imaginar que existe coordenação entre os vários agentes que atuam no mercado e que ela tem o propósito explícito de evitar que o petista vire presidente. É essa dupla condição que eu acho difícil de satisfazer.

Não que conspirações sejam impossíveis, mas me parece mais simples explicar o que ganha ares de chantagem do mercado como uma previsão plausível dos movimentos espontâneos que investidores farão caso sintam cheiro de problemas. E Occam recomenda que prefiramos sempre as hipóteses mais simples.

Merval Pereira: Contra a corrente

- O Globo

Assim como o presidente Michel Temer, seguindo o conselho do publicitário Nizan Guanaes, está aproveitando sua vasta impopularidade para tentar aprovar reformas como a da Previdência, também veremos na próxima campanha presidencial candidatos teoricamente sem chances de vitória, como o economista João Amoêdo, do Partido Novo, fazendo discursos contramajoritários, no sentido de enfrentar a opinião pública aparelhada.

Há uma vasta literatura na ciência política que mostra que candidatos não defendem reformas que representem um prejuízo, pelo menos aparente, aos potenciais eleitores, mesmo que saibam, como hoje, que uma reforma como a da Previdência é imprescindível para a reorganização do Estado brasileiro. O próprio presidente Temer, ou seu ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, são exemplos contrários a essa tese. Temer aposta no efeito benéfico das reformas na economia para tentar se reeleger, na esperança de que a percepção do eleitorado em relação a seu governo se altere pelos efeitos da melhoria econômica no cotidiano do cidadão comum.

Se não der para reverter a impopularidade e a má imagem pessoal — 86% o consideram corrupto, segundo a mais recente pesquisa do Ibope —, Meirelles se coloca como alternativa. O provável candidato do PSDB à Presidência da República, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, está até o momento, disposto a arrostar a tradição de que candidato que defende teses impopulares não se elege, se colocando a favor de um regime geral de Previdência, sem diferenças para os servidores públicos.

João Domingos: O fator Previdência

- O Estado de S. Paulo.

Começam a ser criadas as condições minimamente favoráveis à reforma

No universo de incertezas que tomou conta da política brasileira a menos de um ano da definição de qual grupo assumirá o poder no País, e quem o comandará, uma certeza paira sobre todos: a reforma da Previdência terá impacto direto na eleição presidencial.

Se a proposta for aprovada, seja ela enxuta, mais ou menos enxuta, ou até aguada, os defensores da reforma previdenciária sairão fortalecidos e terão uma bandeira para apresentar ao eleitor. Poderão dizer, por exemplo, que eliminaram privilégios do setor público em relação ao setor privado, que tiveram responsabilidade na preservação do sistema, evitando o colapso iminente, e que a economia conseguida com a reforma poderá ser usada para novos investimentos públicos.

Em caso de derrota da proposta, os defensores da reforma sairão da votação enfraquecidos, não só porque os contrários vão dizer que evitaram a retirada de direitos dos trabalhadores e aposentados, mas também porque, na última votação importante da atual legislatura, não tiveram competência para vencer. A consequência para a eleição será sentida durante toda a campanha.

Julianna Sofia: Privilégios

- Folha de S. Paulo

A decisão de uma juíza federal de suspender a campanha publicitária da nova Previdência que tem o mote do "combate a privilégios" bagunça ainda mais o coreto para a votação da proposta. Não que a mixórdia já não seja tamanha.

Pouca gente aposta em avanço na Câmara neste ano, principalmente após levantamento desta Folha mostrando que 220 deputados são contrários à mudança de regras. Depois do Carnaval de 2018, há menos chance ainda. Mas a propaganda, estimada em R$ 20 milhões, vinha encorajando o Palácio do Planalto a torrar mais R$ 70 milhões com publicidade, pois o marketing agressivo começava a reduzir a rejeição à reforma.

A juíza —e servidora— Rosimayre de Carvalho considera a peça manipuladora. Diz que ofende funcionários públicos. "Será uma das reformas mais profundas e dramáticas para a população brasileira." O diretor-geral da Polícia Federal, Fernando Segovia, procurou o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, para defender a corporação na reforma, alegando que "perder direitos neste momento seria péssimo para o policial que hoje enfrenta a corrupção".

Dora Kramer: Dois na gangorra

- Revista Veja

Lula e Bolsonaro, duas faces de uma moeda que tende a se depreciar

Por falta de opções não morrerá pagão o eleitorado em 2018, tal o volume de candidaturas à Presidência da República em oferta no mercado. Tem de tudo: deputado, senador, governador, advogado, ex-presidente, subcelebridades, falastrões, canastrões e tem até gente séria.

Quanto à quantidade, portanto, estaremos atendidos. Já a qualidade da mercadoria são os quinhentos sobre os quais o bom-senso nos aconselha a pesar muito bem pesados e a medir muito bem medidos todos os produtos, a fim de fazer uma boa escolha e não repetir bobagens do passado.

Pode até parecer pouco crível àqueles que atribuem por princípio a condição de nulidade a uma figura do mundo do entretenimento, mas Luciano Huck não tem dito tolices por aí. Não será candidato (no que faz bem, dadas as dimensões da máquina de moer carne de uma campanha), mas pretende participar e para isso se preparou buscando aprender e se informar sobre as principais questões em aberto no país.

PIB indica retomada consistente

Investimentos avançam após quase quatro anos de queda

Analistas elevam projeções de crescimento em 2017 e 2018

O IBGE informou que a economia brasileira cresceu 0,1% no último trimestre, mas o resultado foi melhor do que parece. Retirando a queda da agropecuária, que se deu por questões sazonais, o PIB avançou 1,2%, confirmando uma recuperação consistente do crescimento. Após 15 trimestres de queda, os investimentos subiram 1,6% de julho a setembro. E o consumo das famílias teve a terceira expansão seguida. Após a divulgação do resultado, analistas revisaram suas projeções e já estimam alta do PIB acima de 1% neste ano e de até 3,2% em 2018. Mas alertam que essa melhora vai depender do cenário político e da aprovação da reforma da Previdência.

PIB indica recuperação consistente

Mesmo sem agropecuária, que puxou 1º semestre, crescimento segue tendência de aceleração

Marcello Corrêa, Daiane Costa, Rennan Setti e Bárbara Nascimento / O Globo

-RIO E BRASÍLIA- O crescimento de apenas 0,1% parece indicar o contrário, mas a economia brasileira ganhou fôlego no terceiro trimestre, e o país consolidou o processo de retomada. O número resume o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) frente os três meses anteriores, porém mascara dados positivos: o investimento voltou a crescer após 15 trimestres, o consumo se manteve em alta, impulsionando o comércio, e a indústria está no azul. Para analistas, o cenário é positivo, embora a economia só deva se recuperar completamente da recessão em 2019.

Nas contas da economista Silvia Matos, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), uma forma de expressar melhor o pulso da economia é calcular a variação do PIB sem incluir a agropecuária na conta. O setor, que responde por 5,7% da atividade econômica, foi o motor do primeiro trimestre, com alta de 12,9%, e ajudou a frear o resultado do terceiro trimestre, com retração de 3%.

O resultado do cálculo mostra que, sem esse efeito que acaba distorcendo os resultados, o PIB vai bem. Cresceu 0,4% no primeiro trimestre, 0,5% no segundo e, agora, 1,2% no terceiro trimestre — em uma tendência clara de aceleração.

— O PIB está ótimo. O dado agregado engana bastante. Da mesma forma que tivemos um falso positivo (no primeiro trimestre), temos um “falso 0,1%” no terceiro trimestre. É um número bem positivo, tanto que indústria e serviços cresceram fortemente no trimestre. Pelo lado da demanda, foi muito espalhado. E, finalmente, vimos investimento crescendo depois de anos de contração — destaca Silvia Matos.

PIB cresce 0,1% no 3º trimestre, mas tendência anima mercado

Alta foi a terceira consecutiva e projeções apontam para crescimento do PIB superior a 1% no ano

Daniela Amorim, Denise Luna, Vinicius Neder, Célia Froufe, Francisco Carlos de Assis, Karla Spotorno, Maria Regina Silva e Eduardo Rodrigues / O Estado de S. Paulo

RIO E SÃO PAULO - A economia brasileira registrou no terceiro trimestre sua terceira alta seguida. Entre julho e setembro, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 0,1%. Apesar de modesto, o número foi bem recebido pelo mercado, que revisou projeções para cima e agora fala em crescimento até superior a 1% no ano. O IBGE reviu os números do primeiro e do segundo trimestres e concluiu que a economia cresceu mais do que o anunciado anteriormente. Entre janeiro e março, a alta do PIB passou de 1% para 1,3%. Entre abril e junho, foi de 0,2% para 0,7%. Além disso, alguns indicadores sinalizam que a retomada do crescimento começa a ganhar consistência. Os investimentos registraram a primeira alta (1,6%) ante o trimestre anterior, após 15 períodos de queda. O com
sumo das famílias repetiu o ritmo de crescimento (1,2%) do segundo trimestre.

A economia brasileira registrou no terceiro trimestre sua terceira alta seguida. Entre julho e setembro, o produto interno bruto (PIB) cresceu 0,1%. Apesar de modesto, o número foi bem recebido pelo mercado. Um dos motivos do otimismo é que o IBGE revisou os números do primeiro e do segundo trimestres e concluiu que a economia cresceu mais que o anunciado anteriormente. Dessa forma, entre janeiro e março, o PIB passou de 1% para 1,3% de alta. Entre abril e junho, foi de 0,2% para 0,7%.

Investimento sobe, e PIB se mantém positivo no ano

Com revisão de números do IBGE, recessão de 2014 a 2016 deixa de ser a mais aguda do país

Novos dados indicam que recente recessão não foi a pior da história

Gustavo Patu / Folha de S. Paulo

A diferença está na casa depois da vírgula, mas importa para o registro histórico: com a revisão de números feita pelo IBGE, a recessão de 2014-16 deixou de ser a mais aguda já medida no país.
Essa marca havia sido estabelecida pelo Codace, um comitê de economistas abrigado na Fundação Getulio Vargas que se dedica a determinar a duração e a intensidade dos ciclos econômicos.
Em outubro, o grupo calculou que a crise mais recente havia durado 11 trimestres –igualando o recorde de 1989-92– e provocado uma queda do Produto Interno Bruto de 8,6%, um pouco maior que os 8,5% de 1981-83.

O percentual foi apurado com base na série histórica de evolução do PIB divulgada um mês antes. Esses dados, porém, passam por reavaliações e ajustes periódicos, como aconteceu agora.

MENOS TRÁGICO
Com as novas contas do IBGE, o desempenho do Brasil no ano passado passou a parecer ligeiramente menos trágico –uma queda do PIB de 3,5%, em vez dos 3,6% medidos anteriormente.
No início de novembro, também já havia mudado a medida da retração de 2015, de 3,8% para 3,5%.
Dessa maneira, as novas estatísticas oficiais apontam que, do segundo trimestre de 2014 ao último de 2016, a produção e a renda do país encolheram 8,2%.

Mesmo antes dessa revisão, o epíteto de "maior recessão da história" já se mostrava questionável.
Em primeiro lugar, porque só há valores do PIB detalhados por trimestre a partir dos anos 1980. Mesmo cifras anuais só começaram a ser calculadas na década de 1940.

Míriam Leitão: Retomada lenta

- O Globo

O resultado do PIB foi menor do que o projetado. Esperava-se 0,3% de alta e foi 0,1%, o que não é nada. No entanto, os outros números juntos contam que o país está mesmo deixando a recessão para trás. O investimento cresceu depois de quinze longos trimestres de queda, quase quatro anos. O consumo em alta reflete o que a pesquisa do emprego mostrou esta semana: a massa de rendimentos cresceu.

Houve ontem à tarde uma onda de revisão para melhor da previsão do PIB deste ano, entre consultorias e bancos. Parece estranho já que o número do trimestre veio menor do que o esperado. É que o IBGE divulgou índices mais altos para os outros dois trimestres anteriores. É por isso que a taxa ficou quase estável. É efeito estatístico após a revisão para melhor dos períodos passados. Pelas novas contas, o país cresceu entre janeiro e março 1,3%, com a expansão ainda maior da agricultura naquele período. A taxa de abril a junho subiu para 0,7%. É por isso que os dados do terceiro trimestre, comparados a esses melhores, ficaram menores do que o previsto.

No terceiro trimestre, a agropecuária encolheu 3% e derrubou a média. Sem esse segmento, o PIB teria avançado 0,6%. Por isso, os especialistas preferem comparar com um horizonte mais longo. Frente ao mesmo período de 2016, a economia cresceu 1,4% no terceiro trimestre, após a alta de 0,4% na pesquisa anterior. É para esse recorte que os economistas têm olhado nas suas revisões.

Adriana Fernandes: Desembarque da reforma

- O Estado de S.Paulo

Dilema do governo continua sendo mesmo a falta de cacife para pagar a fatura

O Palácio do Planalto e seus aliados começaram a preparar o movimento de desembarque da reforma da Previdência. Cada um a seu modo.

Se no jantar de amanhã com o presidente Michel Temer e lideranças ficar de fato constatado que o governo não tem condições de colocar a PEC da reforma em votação nas próximas semanas, as saídas e desculpas já estão sendo construídas.

O Planalto jogará no colo do Congresso e, sobretudo, dos tucanos o ônus pela falta de votos e a responsabilidade dos riscos econômicos para o País da sua não aprovação. Não só em 2018, mas principalmente para o próximo presidente eleito. Temer vai lavar as mãos e dizer que fez de tudo para aprová-la. A culpa será do Congresso, dirá ele.

Já as lideranças dos partidos aliados ensaiam o discurso de que, mesmo sem a reforma da Previdência, o Congresso tem como avançar na votação de uma agenda de projetos que podem melhorar o ambiente econômico até que a reforma volte a ser discutida em 2019. É a pauta “o que temos para hoje”.

Manuel Bandeira: Trem de Ferro

Café com pão
Café com pão
Café com pão

Virge Maria que foi isso maquinista?

Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força
(trem de ferro, trem de ferro)

Oô...
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
Da ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!
Oô...
(café com pão é muito bom)

Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
Oô...
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matar minha sede
Oô...
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô...

Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...
(trem de ferro, trem de ferro)

Antônio Nóbrega: 100 Anos de frevo (2007)

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Opinião do dia: Montesquieu

É preciso observar que o que chamo de virtude na república é o amor à pátria, isto é, o amor à igualdade. Não é absolutamente virtude moral, nem virtude cristã, é virtude política; e essa é a mola que faz mover o governo republicano. Chamei, portanto, de virtude política o amor a pátria e à igualdade.




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Montesquieu (1689-1755), ‘Do espirito das leis’, p.31, Editora Nova Cultura, 2005

Roberto Freire: Previdência, uma reforma inadiável

- Diário do Poder

Vencida a etapa da aprovação das mudanças na legislação trabalhista, já sancionadas pelo presidente da República e que representam um enorme avanço, o Congresso Nacional deverá se debruçar sobre outro tema essencial da agenda de modernização levada a cabo pelo atual governo. A reforma da Previdência, tão necessária quanto urgente, vem sendo debatida pelas forças políticas no Parlamento e deve ser votada ainda este ano na Câmara, o que sinaliza o compromisso do Legislativo com medidas que consolidem a recuperação econômica do país e sedimentem uma maior racionalidade das contas públicas. Para que se tenha uma ideia, em 2016, o rombo causado pela Previdência sobre as contas da União, dos Estados e dos municípios atingiu nada menos que R$ 305,4 bilhões.

O deputado Arhur Maia (PPS-BA), que vem realizado um brilhante trabalho como relator da proposta de reforma (PEC 287/2016), concluiu recentemente uma nova versão do texto em que são garantidos dois pontos fundamentais para o andamento do projeto: a fixação de uma idade mínima para a aposentadoria e a unificação das regras para os servidores públicos e os trabalhadores da iniciativa privada. O novo relatório, um pouco menos abrangente do que o original, reduz o tempo de contribuição na iniciativa privada, mas mantém as regras de transição e as idades mínimas para aposentadoria no futuro.

A reforma da Previdência faz parte de um pacote de medidas fundamentais para tirar o Brasil do atoleiro. O texto é resultado de um amplo debate com as bancadas de todos os partidos e representa a possibilidade de o país economizar R$ 600 bilhões nos próximos dez anos – aliviando o déficit previdenciário que hoje ameaça a aposentadoria de milhões de brasileiros e a própria sustentabilidade do sistema. Para além de enfrentarmos a grave crise fiscal, há também a necessidade de coibirmos privilégios inaceitáveis de corporações muito fortes, em especial no Legislativo e no Judiciário.

Marco Aurélio Nogueira: A unidade difícil e os dilemas do PSDB

- O Estado de S. Paulo

Unidade política é sempre algo dinâmico, que depende de gestos permanentes de aproximação e entendimento. Pisa-se em ovos. Quando se dá um passo, no momento seguinte tudo parece desmoronar e é preciso dar novos passos ou até mesmo começar do zero. Em partidos políticos, o tema é crucial.

Partidos políticos são organizações que necessitam de unidade, sem a qual respiram com dificuldade. Podem consegui-la de modo burocrático, com a imposição de diretrizes da cúpula sobre as bases e a institucionalização do silêncio interno. E podem consegui-la de modo democrático, mediante o aprofundamento de discussões e a busca coletiva por pontos de convergência, que vão sendo assimilados pelas direções até um ponto em que viram pensamento comum, diretrizes.

Quando são substantivas, divergências não se suprimem por decreto nem por conclamações unitaristas. Chegam mesmo a ser produtivas, na medida em que forçam a que a discussão avance e as posições se esclareçam. Quando são pontuais, precisam ser processadas à base de muitas interações, concessões e boa vontade das partes. E quando refletem tão-somente a busca por poder, espaço e controle tendem a ser desagregadoras e a requerer esforços que muitas vezes não são suficientes para dar conta do recado, levando a mais tensão e desagregação.

O grande problema é que quase sempre essas divergências se misturam. A dimensão substantiva se confunde com a pontual e ambas são requalificadas pela luta por poder. Fica difícil separar uma da outra, que se retroalimentam. Nesse ponto, a crise interna se agudiza e ameaça fazer sangrar o organismo todo.

*Fernando Gabeira: O choro privilegiado

- O Estado de S.Paulo

Se a maioria não consegue impor uma decisão, desperta uma certa compaixão...

Há coisas na democracia brasileiro que não entendo bem. Uma delas é essa possibilidade que o Supremo dá ao ministro com voto vencido de pedir vista e adiar a decisão da maioria. Talvez essa dificuldade se explique pelo fato de ter uma experiência parlamentar, na qual defendi causas minoritárias.

No Parlamento, depois que a maioria se manifesta, o resultado é proclamado e só resta ao perdedor fazer uma declaração de votos, o direito de espernear, como dizíamos no plenário. Daí não entendo por que o ministro Dias Toffoli pode adiar a proclamação de um resultado indiscutível numericamente. Tenho a impressão de que, se me fosse dada a chance de bloquear uma decisão majoritária, hesitaria.

De certa forma, eu me sentiria numa brincadeira que perdeu a graça. Se a maioria não consegue impor uma decisão majoritária, acaba despertando certa compaixão pela sua fragilidade.

Os defensores do foro privilegiado já perderam a batalha. Deveriam contentar-se com o choro e abrir mão de manobras protelatórias. Adiar a decisão apenas atrasa uma experiência que já foi decidida, no debate pela imprensa, nas redes sociais, nos movimentos cívicos e nas pesquisas de opinião.

César Felício: A luta do ontem contra o anteontem

- Valor Econômico

Lula, Bolsonaro e Alckmin passados em revista na FGV

"Estamos perdidos". Assim começou sua fala na noite de quarta-feira Yoshiaki Nakano, em um seminário realizado na Fundação Getulio Vargas em que se uniram cientistas políticos e economistas para analisar o cenário político a curto e médio prazo. Secretário da Fazenda que fez um duro ajuste em São Paulo durante a administração de Mário Covas, na segunda metade dos anos 90, Nakano por vezes é descrito como um interlocutor frequente do governador e presidenciável tucano Geraldo Alckmin, mas na realidade estão distantes.

O juízo que Nakano faz de Alckmin é severo. E não provém de desconhecimento do personagem, pelo contrário. O economista considera conhecê-lo o suficiente. Em resumo, Nakano é cético em relação à disposição do governador de liderar um processo de reforma do Estado caso se torne presidente. Duvida de sua capacidade de resistir a uma captura de interesses clientelistas.

Para o economista, o Brasil vaga na incerteza. "Vivemos muito mais do que uma crise política. Temos um presidencialismo de coalizão que virou o clientelismo da compra de votos. O presidente só quer sobreviver no poder, o diretor da Polícia Federal virou um sindicalista em defesa dos privilégios da categoria e a qualidade da burocracia do Estado é infinitamente pior que a da classe política. Os políticos são mais competentes em conseguir o que se propõem", disse.

Com déficit público equivalente a 9% do PIB pela proa, o Brasil se prepara para a disputa do ontem contra o anteontem. "Já que olhar para frente dá desespero, resta olhar para trás", diz Nakano. Neste balaio entra Lula, que evoca tempos felizes da década passada e lutas travadas em meados do século 20 e entra Bolsonaro.

Lula e Bolsonaro protagonizaram a noite na FGV. O destino jurídico de Lula é a pedra angular. "Se Lula participar da eleição, vamos viver a radicalização. Ou se é a favor dele, ou se é contra. Sem ele, o caminho está aberto para outras discussões", opinou o economista Marcelo Kfouri.

Merval Pereira: Democracia em crise

- O Globo

O economista Eduardo Giannetti da Fonseca defendeu ontem, em palestra na Academia Brasileira de Letras (ABL), que o patrimonialismo que domina o Estado brasileiro é a principal causa da disfunção de nossa democracia e, por isso, a Operação Lava-Jato tem importância como a principal ação corretiva de uma situação que predomina desde que o Brasil foi descoberto pelos portugueses.

O painel de que ele participou, dentro do ciclo “Brasil, brasis” da ABL, tinha o título genérico de “Crise e metamorfose da democracia” e foi coordenado pela escritora e acadêmica Rosiska Darcy de Oliveira. Ao apresentar os participantes, Giannetti e o ex-presidente do Supremo Ayres Britto, Rosiska ressaltou a atualidade do tema do debate, já que a democracia estava em xeque em várias partes do mundo, devido à falta de credibilidade dos políticos e à sensação de que eles não representam os cidadãos.

Ela lembrou que nas últimas eleições pelo mundo a radicalização política foi a tônica, levando à eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e ao aumento de votação em partidos extremistas, à esquerda e à direita, em diversos países da Europa. Outro aspecto ressaltado por Rosiska é o fenômeno, disseminado pelo mundo, do voto de protesto, que se reflete no aumento dos votos brancos e nulos e o não voto, com o aumento das abstenções.

São tendências já sentidas no Brasil com o aumento gradativo dos votos brancos e nulos nas últimas eleições, inclusive a mais recente, para governador do Amazonas, quando votos brancos, nulos e abstenções registraram quase 50%.

Bernardo Mello Franco: Batalha final

- Folha de S. Paulo

Na segunda-feira, Deltan Dallagnol declarou que a eleição de 2018 será a "batalha final" da Lava Jato. Ele descreveu o Congresso como a "maior ameaça" à operação. Em seguida, defendeu a escolha de parlamentares "identificados com a agenda anticorrupção".

A indicação de candidatos a deputado ainda não faz parte das atribuições do Ministério Público. O procurador informou que não se tratava disso. "Não há tentativa de politizar um trabalho que é técnico, imparcial e apartidário", afirmou. Dois dias depois, um ato em Brasília sugeriu que a coisa pode não ser bem assim.

Grupos de apoio à força-tarefa foram ao Congresso lançar uma campanha para influenciar as eleições parlamentares. A iniciativa foi batizada de "Tchau, queridos", uma referência ao slogan usado nas passeatas a favor do impeachment.

Fernando Abrucio: PSDB tem de reconstruir sua identidade

- Valor Econômico

As eleições de 2018 serão fundamentais para o futuro de PSDB. Depois de perder quatro disputas presidenciais, o partido tem chances de voltar ao poder, mas enfrentará adversários e obstáculos importantes no meio do caminho. E se conseguir voltar ao Palácio do Planalto, terá de dizer qual é, enfim, o seu plano de governo.

O fato é que o ideário tucano ficou confuso nos últimos anos, contendo ainda hoje indefinições e ambiguidades. A escolha do novo presidente da legenda será o primeiro passo de um longo caminho para reencontrar a identidade perdida ao fim do governo de Fernando Henrique Cardoso.

Obviamente que o Brasil mudou muito nos últimos anos e não dá para o PSDB simplesmente voltar ao lugar em que estava no início da década passada. Houve avanços em vários indicadores sociodemográficos, porém ainda há problemas marcantes em várias áreas. É preciso descobrir o que deu certo - e há lições positivas da era petista - e o que deu errado, definindo claramente, sem ficar em cima do muro, o que deve ser feito para melhorar a situação da população. Em outras palavras, é preciso dizer que modelo de Estado deve ser adotado para garantir, concomitantemente, crescimento econômico e maior igualdade social.

Eliane Cantanhêde: Ou vai ou racha

- O Estado de S.Paulo

Alckmin se consolida e atrai governo e PMDB. Mas isso custa caro...

A semana consolidou o protagonismo de Geraldo Alckmin no PSDB e na eleição presidencial, irradiando articulações com outros partidos, particularmente o PMDB, e para governos estaduais, particularmente o de São Paulo. João Doria, por exemplo, acionou seu plano B: a disputa pelo Palácio dos Bandeirantes.

Depois de deslizar ladeira abaixo na disputa com o padrinho Alckmin pela vaga de presidenciável tucano, Doria vem aí para sua sucessão. Aliás, os dois vão juntos a Brasília, no mesmo avião, para a convenção tucana que elegerá Alckmin presidente do PSDB e, provavelmente, o indicará candidato ao Planalto.

A costura, no entanto, desagrada a setores do PSDB, depende fortemente do PMDB e será uma nova pedreira para Alckmin e Doria, agora unidos para sempre, até que a morte – ou turbulências na campanha – os separe. Vai que Alckmin se consolide politicamente, mas não se viabilize eleitoralmente? Doria estará a postos.

Reinaldo Azevedo: Quando a vaca cruza com o jumento

- Folha de S. Paulo

Da extrema esquerda à extrema direita, reivindica-se a novidade como valor em si

Aqui e ali leio e ouço reclamações sobre a "velha política". Da extrema esquerda à extrema direita, reivindica-se a novidade como valor em si, como categoria política ou de pensamento. Até conservadores fazem dela um fetiche, o que é coisa de hospício.

Jair Bolsonaro, por exemplo, quer-se o novo, especialmente agora que arrumou um Paulo Guedes para chamar de seu, uma fórmula que, segundo o economista e financista, junta a "ordem" (suponho que seja o militar reformado) com o "progresso" (acho que se refere, com modéstia peculiar, a si mesmo).

A facilidade com que nossos "sedizentes" liberais se juntam a autoritários é já uma tradição. Lembrando um poema-piada de Oswald de Andrade, a um liberal à moda brasileira ocorreria vestir o índio, mas nunca despir o português.

Ao se referir ao rebento que nasceria do casamento ("hétero", o deputado frisou; Deus do céu!) de Bolsonaro com Guedes, Elio Gaspari lembrou a suposta resposta de Bernard Shaw a Isadora Duncan quando esta lhe teria proposto que tivessem um filho, que nasceria, então, com o cérebro dele e o corpo dela. Teria declinado do convite alertando para o risco de a criança ter o corpo dele e o cérebro dela.

Míriam Leitão: Necessidade imediata

- O Globo

Atuação do governo e do Congresso ameaça sabotar a recuperação. O desemprego, depois de atingir o pico de 13,7%, vem caindo e estava, ao fim de outubro, em 12,2%. A massa de rendimentos no começo do 2016 registrava queda de 4%, agora está em alta de 4,2%. O mercado de trabalho começa a se recuperar da destruição em massa de postos de trabalho iniciada em dezembro de 2014. Mas o Brasil faz o errado de imediato e posterga o certo, e isso enfraquece a recuperação.

É certo incluir mais 18 mil pessoas dentro do inchado serviço público federal? Pois, uma proposta de emenda constitucional acaba de ser aprovada na Câmara para que servidores de Roraima e Amapá, que entraram nos serviços dos ex-territórios entre 1988 e 1993, passem a ser servidores da União. O autor da proposta é o senador por Roraima, Romero Jucá. O mesmo que fala em necessidade de ajuste fiscal em nome do governo Temer. E ele apresentou essa PEC por que? Interesse eleitoral e demagogia. Esse não é o momento de aumentar o número de servidores. Da mesma forma que, em maio de 2016, com o desemprego aumentando em avalanche no setor privado, não era hora de aprovar aumentos salariais para funcionários públicos até 2019. Agora, o governo tenta adiar o reajuste do ano que vem, mas o Congresso não se move para votar.

José de Souza Martins: Cor e preconceito

- Valor Econômico/Eu & Fim de Semana

A facilidade com que se fala em racismo no Brasil revela muita coisa e muita coisa esconde. Melhor seria falar em preconceitos, dos quais o preconceito de cor é apenas uma variante. Preconceito de cor, e não de raça, pois o preconceito de raça envolve muito mais que a cor. Envolve também marcas de origem, intuídas, mas não compreendidas. Num cenário culturalmente difuso, a mesma palavra pode significar coisas opostas.

"Negão" é um apelido e tratamento comum entre amigos da mesma cor ou de cor diferente. Ressalta a diferença, mas o tom da palavra expressa afeto e amizade. Essa palavra, usada por pessoa desconhecida ou hostil, diz o oposto e, provavelmente, pode caracterizar intuito ou disposição racista. O mesmo se dá com o "Branquelo", que pardos e pretos às vezes usam para designar um branco. Conforme a circunstância, evidencia afeto na ironia ou insulto racista, o que só pode ser decodificado por aquilo que não foi dito: o olhar, a expressão do rosto, gestos.

Celso Ming: Emprego e informalidade

- O Estado de S.Paulo

Seja como for, a queda do desemprego é indicação de recuperação da atividade econômica se consolidando

O desemprego caiu de 12,8% no trimestre móvel terminado em julho para os 12,2% no terminado em outubro.

Esse é um jeito de interpretar os números mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, a Pnad Contínua, divulgados nesta quinta-feira pelo IBGE. O outro jeito é focar uma das condições do aumento do emprego; é olhar para o lado mais negativo, digamos, e concluir que o avanço só aconteceu porque mais gente passou para o trabalho informal, aquele que não conta com registro em carteira, e, portanto, considerado precário.

Seja como for, a queda do desemprego por aqui é mais uma indicação de que, depois de quase três anos de recessão, se consolida a recuperação da atividade econômica. Mais devastador que o trabalho informal é o desemprego. Por isso, é preciso ver os números também por esse lado, aquele que só reconhece qualidade no trabalho formalizado.

Vinicius Torres Freire: Total da renda sobe com emprego ruim

- Folha de S. Paulo

O brasileiro se vira, faz bico, vira autônomo, monta algum pequeno negócio, trabalha sem carteira. Os empregos novos são ruins, está claro. Mas o total de salários, a chamada "massa de rendimentos" do trabalho, não apenas cresce como acelera, mostram os dados do IBGE para outubro, até surpreendentemente bons, nesse aspecto.

Talvez essa seja uma constatação que viremos a fazer com frequência, nos próximos anos: empregos mais precários, algum crescimento.

Por enquanto, pelo menos, não é uma situação de jogar fora, embora a precariedade do trabalho deva ser um dos motivos pelos quais o aumento da confiança do consumidor não acompanhe o ritmo e nível mais animado da confiança das empresas.

A massa de rendimentos crescia ao ritmo de 4,2% ao ano, em outubro, resultado de aumento de 1,8% no número de pessoas empregadas e de 2,5% no rendimento médio (na comparação com outubro de 2016).

Claudia Safatle: Assombrações assustam 2018

- Valor Econômico

Não aprovar reformas é ludibriar o eleitor

O país entrará o ano de 2018 em situação de grave vulnerabilidade fiscal e com os dois candidatos dos extremos - Lula e Jair Bolsonaro - somando cerca de 50% das intenções de votos para a Presidência da República. Sem a aprovação da PEC da Previdência e os candidatos à frente nas pesquisas com um discurso avesso à agenda de reformas, o quadro para 2018 torna-se propício a turbulências que remetem a 2002.

Naquele ano Lula, em meio a solavancos no mercado e alta volatilidade nos preços dos ativos, escreveu a Carta aos Brasileiros, onde comprometeu-se com a estabilidade econômica e com o respeito a contratos. Ele venceu as eleições e assumiu a Presidência com uma inflação de dois dígitos (12,63%), pressionada pela valorização do dólar, que chegou a ser cotado a R$ 4,00, em meio aos temores do mercado com o resultado das eleições. A elevação dos juros para conter a escalada dos preços produziu uma recessão no primeiro semestre de 2003, ano em que prevaleceu a ortodoxia e a economia cresceu 1,1%.

São grandes as diferenças entre aquele período e agora. Em 2002 o país não tinha reservas cambiais e carregava expressiva parcela da dívida indexada ao câmbio. Em compensação, a dívida pública bruta não era tão elevada e crescente como hoje, e o setor público vinha há vários anos com superávit primário nas suas contas consolidadas.

Para que servem os partidos?: Editorial/ O Estado de S. Paulo

Nenhum dos partidos da chamada “base aliada” do governo fechou questão sobre a reforma da Previdência. No linguajar da política, um partido fecha questão quando sua executiva nacional determina que todos os parlamentares da agremiação votem de uma determinada maneira sobre tema em discussão no Congresso – e uma eventual dissidência é tratada com rigor, podendo resultar até em expulsão. No caso da Previdência, nem mesmo o PMDB, partido do presidente Michel Temer e que tem a maior bancada da Câmara, com 60 deputados, decidiu obrigar seus filiados a votar a favor da reforma, embora tenha recomendado a aprovação.

Isso significa que os parlamentares poderão votar como bem entenderem, cada um segundo seus interesses pessoais, o que obviamente dificultará ainda mais a tarefa do governo de obter os votos necessários para a reforma. Em lugar de negociar com os partidos os termos da proposta a ser votada, será necessário atender um a um os deputados, muitos dos quais não escondem sua ânsia de obter alguma vantagem pessoal, seja na forma de verbas, seja na obtenção de algum cargo público para seus apaniguados.

O motivo das pressões de servidores contra a reforma: Editorial/O Globo

Se houver recuo diante da pressão de corporações, frustra-se o objetivo inicial das mudanças que era a equiparação entre os diversos sistemas de aposentadoria

Sintomático que, logo depois de receber o cargo de diretor-geral da Polícia Federal, Fernando Segovia tenha feito uma visita institucional ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia, para reivindicar o estabelecimento de regras específicas de aposentadoria para os policiais, na reforma que Maia, como deseja o governo e recomenda o bom senso, tenta agendar para votação em plenário ainda este mês.

O pedido de Segovia repete tantos outros feitos por corporações do funcionalismo, as que mais privilégios acumulam em salários e benefícios, de um modo geral, no país.
Também não passa despercebido que parte do PSDB, legenda até há pouco defensora irredutível da responsabilidade fiscal, haja defendido alterações na proposta já atenuada da reforma, para abrandá-la ainda com relação ao funcionalismo.

Muito o que falar: Editorial/Folha de S. Paulo

Invocando seus direitos constitucionais, o empresário Joesley Batista, do grupo JBS, manteve-se em silêncio na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que examina as circunstâncias de sua célebre delação premiada.

Contando com 34 membros titulares, entre deputados federais e senadores —dos quais ao menos oito receberam doações eleitorais da própria JBS—, a CPMI tem se transformado em instrumento para desqualificar as graves suspeitas que incidem sobre o presidente Michel Temer (PMDB).

Já ignorada pela maioria da Câmara, foge também do horizonte da comissão a sibilina conversa entre Temer e Batista, à qual se sucedeu a apreensão de uma mala de dinheiro nas mãos de um intermediário indicado pelo primeiro.

É no sentido inverso que se encaminha a maior fatia do colegiado, destacando os equívocos —de resto preocupantes e reais— da Procuradoria-Geral da República em suas diligências e acusações.

É inadiável começar a reforma da previdência: Editorial/Valor Econômico

Por qualquer aspecto que se analise a questão das contas da previdência social surge um quadro insustentável. O Congresso tem indicado que deve rejeitar a reforma e, apesar das concessões feitas pelo governo, que foram generosas, e da desidratação da proposta inicial, líderes partidários dizem que ela ainda não arregimenta os 308 votos necessários. Os políticos a consideram impopular e creem que sua aprovação é um passo seguro para que não sejam reeleitos. O argumento não é válido. Depois de atenuada, a proposta de reforma afeta agora 9,5% da população, ante 21% se o texto original fosse aprovado.

O Tesouro colocou em números a questão para mostrar mais uma vez a situação de dramático desequilíbrio das contas previdenciárias. Didaticamente, por eles é possível ver que as despesas crescem bem mais que as receitas, que manter o desequilíbrio exigirá carga pesada adicional de impostos, que o regime é injusto e beneficia quem ganha mais e que se renuncia a uma fatia considerável da arrecadação destinada à previdência. Além disso, o teto de gastos, na ausência da reforma desaba e mesmo que as receitas desvinculadas retiradas da previdenciária não o fossem, ainda assim os déficits ocorreriam e seriam crescentes.

Base vê cenário ainda incerto para aliança

Planalto quer ‘projeto único de poder’ em 2018, mas partidos aliados falam até em apoio a Lula

Igor Gadelha / O Estado de S. Paulo.

BRASÍLIA - Embora o Planalto defenda uma candidatura única à Presidência em 2018, a maioria das siglas da base aliada vê um cenário ainda incerto e evita se comprometer com nomes colocados como possíveis candidatos. Há dirigentes que falam em candidatura própria e até em apoiar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), caso ele seja candidato.

No cenário atual, os partidos de centro trabalham entre os cotados com os nomes do governador Geraldo Alckmin (PSDB) e do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (PSD). O escolhido, porém, dependerá do cenário político e econômico do próximo ano. Em entrevista anteontem, o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, afirmou que a ideia é construir uma candidatura única entre os partidos da atual base de sustentação do governo Temer para “representar esse legado”.

Como mostrou o Estado no sábado passado, o presidente Michel Temer articula a construção de uma ampla frente de centro-direita para ajudar na aprovação de pautas econômicas, principalmente da reforma da Previdência, e mantê-la unida até a disputa eleitoral de 2018.

Planalto tenta acalmar convenção tucana

Nos bastidores, governo age para evitar que evento do PSDB, marcado para o dia 9, vire palco de atos contra o presidente Michel Temer

Vera Rosa, Thiago Faria, Tânia Monteiro e Julia Lndner / O Estado de S. Paulo.

BRASÍLIA - O Planalto atua nos bastidores para evitar que a convenção do PSDB, marcada para o dia 9, seja transformada em palco de ataque ao presidente Michel Temer. Na tentativa de revestir o desembarque anunciado pelo governador Geraldo Alckmin como uma separação amigável, o Planalto espera que dois dos três ministros do PSDB deixem os cargos nos próximos dias, antes do encontro tucano.

A ideia é esvaziar o impacto político da convenção, que, dessa forma, não seria um marco do divórcio litigioso. Além disso, os governistas do PSDB lideram um movimento para que o partido feche questão sobre o apoio à reforma da Previdência, obrigando os seus deputados a votarem a favor da proposta.

Dos três ministros do PSDB, apenas o titular das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira, permanecerá no governo, na “cota pessoal” de Temer. O chefe da Secretaria de Governo, Antonio Imbassahy, deve ser substituído pelo deputado Carlos Marun (PMDB-MS) e Luislinda Valois, dos Direitos Humanos, também vai entregar o cargo.

“O PSDB não indicou os ministros. Quem indicou foi o presidente. Então, esse não é um assunto que diga respeito à convenção do partido. O PSDB vai romper com o governo com qual objetivo? Para fazer o quê?”, perguntou Aloysio. “Minha preocupação é não haver a dispersão das forças que estão agrupadas em torno de um projeto reformista”, completou.

PSDB está pacificado em torno de Alckmin, diz Doria

José Linhares Jr. / Folha de S. Paulo

SÃO LUÍS - O prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), afirmou nesta quinta-feira (30), em visita a São Luís, que o clima no PSDB nacional "está pacificado".

"Desde a semana passada o partido está pacificado ao redor do nome do governador Geraldo Alckmin. Ele deve ser presidente do partido e nosso candidato a presidente do Brasil."

Ele também relembrou dos tempos em que foi membro do governo Sarney, no comando da Embratur, e disse estranhar a aliança entre tucanos e comunistas no Estado, governado por Flavio Dino (PC do B).

Doria foi ao Maranhão a convite da Fiema (Federação das Indústrias no Maranhão). Além de dar entrevistas a programas de rádio e televisão e participar de almoço com empresários locais, o prefeito também ministrou palestra em uma universidade local.

Na TV, partido abre espaço a governador

Propaganda é prévia da pré-campanha de Geraldo Alckmin à Presidência em 2018

Silvia Amorim / O Globo

-SÃO PAULO- Com a crise moral e ética prometendo infernizar a vida de políticos e partidos na próxima eleição, o governador de São Paulo e pré-candidato do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, antecipou-se e usará a propaganda estadual do PSDB a partir de hoje para se apresentar como exemplo de “seriedade” e “trabalho”. As duas expressões são os pilares do novo slogan da campanha publicitária tucana a ser veiculada no estado de São Paulo.

— É o PSDB de São Paulo mostrando que, com trabalho e seriedade, sempre dá certo — diz Alckmin em todas as inserções que irão ao ar no rádio e na TV.

Serão quatro dias de exibição (1º, 4, 6 e 8 de dezembro) de vídeos, com 30 segundos de duração, nos intervalos comerciais. Neles, Alckmin faz uma prestação de contas do governo do qual está à frente desde 2011, destacando hospitais construídos, viaturas policiais entregues e rodovias recuperadas. Ao final, ele deixa a mensagem de otimismo “sempre dá certo” como antídoto ao pessimismo com a política que toma conta da população.

O tucano deixará o governo em abril de 2018, prazo final para que agentes públicos que querem disputar a eleição se afastem dos cargos. Antes disso, no próximo dia 9, ele será eleito presidente nacional do PSDB, após uma dura disputa entre os grupos do senador Aécio Neves (MG) e Tasso Jereissati (CE).

'Cabeça-preta' cobra Temer e Meirelles

Raphael Di Cunto | Valor Econômico

BRASÍLIA - Um dos líderes dos "cabeças-pretas", grupo mais jovem do PSDB que defendeu o rompimento com o governo, o deputado federal Daniel Coelho (PE) afirma que, antes de cobrar apoio dos outros partidos à reforma da Previdência, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (PSD), e o presidente Michel Temer (PMDB) deveriam trabalhar para que suas próprias siglas votassem a favor da proposta.

"Nenhum partido da base do governo fecha questão, nenhum tem maioria a favor. A questão não é o PSDB, a questão é Temer, que é desmoralizado, é corrupto, foi pego numa gravação mandando entregar mala de dinheiro para um deputado e tem apenas 3% de aprovação", afirmou. "O Meirelles não tem moral nenhum de falar da reforma da Previdência. A bancada dele é toda contra, com qual credibilidade vai cobrar os outros?"

Para Coelho, o governo quer empurrar a responsabilidade de votar a Previdência para o PSDB, para esconder que não tem votos na própria base, mas o partido, com 46 deputados, seria insuficiente para aprovar o projeto, mesmo que estivesse 100% fechado com a proposta - o que não está. "O problema é nos partidos da base que não têm divergência sobre o apoio ao governo e que estão com todos os deputados contemplados no governo [com cargos] e mesmo assim não votam a reforma", afirmou.

PSDB toma decisão sobre a reforma na próxima semana

Marcelo Ribeiro e Vandson Lima | Valor Econômico

BRASÍLIA - Alvo de críticas do Palácio do Planalto em função da indefinição sobre o desembarque da base aliada do governo do presidente Michel Temer, o PSDB definirá sua posição em relação à reforma da Previdência apenas quarta-feira da próxima semana, em uma reunião da Executiva Nacional com as bancadas da Câmara dos Deputados e do Senado. Ontem, após reunião com outros integrantes da Executiva, o presidente interino da legenda, Alberto Goldman, disse que um eventual fechamento de questão será adotado apenas se refletir a vontade da maioria absoluta dos presentes do próximo encontro.

"As bancadas da Câmara e do Senado e a Executiva é que vão decidir a posição definitiva do partido a respeito da reforma da Previdência", defendeu Goldman. "Nenhum partido dá apoio incondicional a nada. Somos favoráveis à reforma, mas queremos ver o novo texto do governo para decidirmos uma posição", completou.

Ainda que não tenha sido oficialmente debatido durante a reunião de ontem, o fechamento de questão sobre a proposta de emenda constitucional (PEC) que altera o sistema previdenciário, relatada pelo deputado Arthur Maia (PPS-BA), foi defendido abertamente pelo presidente do Instituto Teotônio Vilela, José Aníbal.

"Eu fecharia questão a favor da reforma. O PSDB tem que ter o protagonismo das reformas. E na Previdência, sustentabilidade e combate a privilégios. O protagonismo do PSDB tem que ficar muito bem afirmado, bem colocado nessa votação que se aproxima. O país não pode esperar. É preciso votar", defendeu Aníbal.

2018 está no centro do receio tucano

Raymundo Costa | Valor Econômico

BRASÍLIA - No fim de 2007, o PSDB tinha os votos que faltavam para aprovar a prorrogação da CPMF, o imposto do cheque criado em sua gestão (1994-2002), mas os sonegou ao governo à última hora. O PSDB temia que uma vitória do PT fosse vista, àquela altura, como um sinal definitivo de força que levaria inevitavelmente ao terceiro mandato de Lula.

Algo parecido ocorre agora, quando o PSDB se recusa a aprovar a reforma da Previdência. Com a economia em recuperação, existe o receio do pré-candidato Geraldo Alckmin de colocar no jogo quem parecia fora: o governo. A discussão imbricou de vez com as eleições de 2018 e hoje é a maior ameaça à aprovação.

A reforma do Estado já foi um princípio programático do partido. O PSDB do milênio, no entanto, é um partido como qualquer outro interessado em disputar o poder. Não por acaso enterrou o fator previdenciário, em 2015, uma das pedras da engenharia tucana para manter de pé a Previdência, quando caiu a proposta da idade mínima na reforma tucana.

Uma ala do PSDB acha precipitado o rompimento com o Palácio do Planalto, pois julga que o governo Michel Temer não está morto e seria melhor tê-lo ao lado que na oposição, em 2018. Governo é como cobra, dizem os políticos, até morta mete medo. A aprovação mesmo restrita da reforma pode qualificar o governo Temer na disputa.