*Luiz Werneck Vianna (1938-2024), Sociólogo,
“Abrir a arca do tesouro”. Blog Democracia Política e novo Reformismo, 8 de
fevereiro, 2023.
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
domingo, 1 de junho de 2025
Opinião do dia – Luiz Werneck Vianna*
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
Revisão completa de renúncias fiscais se tornou mais urgente
O Globo
Estimativa da Receita eleva em 47%, para R$
800 bilhões, o total de isenções de impostos federais em 2025
Têm sido recorrentes, desde o início do atual governo, as tentativas do Ministério da Fazenda de cobrir rombos fiscais com aumento de impostos, num esforço por ampliar a arrecadação, em vez de promover um programa de controle de gastos confiável. A alta no Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) é apenas a última medida num rol extenso que inclui taxas sobre importações via internet, gasolina e etanol, diesel e biodiesel, exportações de petróleo, apostas esportivas, armas e munições, painéis solares, veículos elétricos e híbridos, fundos exclusivos e offshore, além de medidas para aumentar a base de cobrança de impostos sobre o lucro das empresas. A lista é longa, não para de crescer — mas, curiosamente, não inclui a oportunidade mais óbvia diante do governo: uma revisão exaustiva das renúncias e isenções fiscais que beneficiam toda sorte de setor da economia.
Sistema disfuncional - Merval Pereira
O Globo
Enquanto os três Poderes não trabalharem na
mesma direção, não teremos um país com equilíbrio econômico e social
A crise institucional que estamos vivendo nos
leva inexoravelmente a uma reforma do sistema político-eleitoral que devolva o
equilíbrio entre os Poderes da República. Se não formos nessa direção,
continuaremos com um Executivo inoperante, um Legislativo dominante e um
Judiciário empoderado em consequência da permanente disputa entre os dois
primeiros. Vivemos um parlamentarismo de fancaria, que chegou em resposta a um
hiperpresidencialismo que relegava a segundo plano o Legislativo, governando
com decretos-lei, medidas provisórias e outros instrumentos que dispensam o
sistema de pesos e contrapesos da democracia.
Durante muitos anos o Legislativo foi literalmente comprado pelo Poder Executivo, vejam-se os casos do mensalão e do petrolão, ou manobrado pelo presidente do turno liberando verbas em troca do apoio parlamentar, ou as contingenciando como uma espécie de castigo aos não obedientes. O que está acontecendo hoje, com os partidos políticos controlando uma quantidade enorme de verbas e esnobando indicações para postos no governo federal, tem a ver com uma das distorções de nosso sistema partidário.
João Campos é uma promessa de renovação da esquerda – Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense
O país vive um interregno de lideranças políticas renovadoras e a legenda precisa repensar o seu papel na política brasileira para ultrapassar a polarização Lula versus Bolsonaro
Prefeito
do Recife, João Campos é novo presidente nacional do PSB. Aos 31 anos,
reeleito com 78% dos votos no ano passado, numa ampla coalizão, ocupa um cargo
que já foi de seu bisavô, Miguel Arraes (1916-2005), e de seu pai, Eduardo
Campos (1965-2014). Formado em engenharia civil pela Universidade Federal de
Pernambuco, foi deputado federal de 2019 a 2020, quando concorreu e venceu a
disputa pela Prefeitura.
Sua ascensão representa uma tentativa de renovação geracional na política brasileira, se comparada aos demais partidos de esquerda, mesmo considerando que o comando do PSB, até então a cargo de Carlos Siqueira, é compartilhado com políticos mais experientes: o vice-presidente Geraldo Alckmin; os governadores Carlos Brandão Junior (Maranhão), João Azevedo Filho (Paraíba) e Renato Casagrande (Espírito Santo); e os ex-governadores Paulo Câmara (Pernambuco), Márcio França (São Paulo) e Rodrigo Rollemberg (Distrito Federal).
Treze dias que abalaram o país - Bernardo Mello Franco
O Globo
Da renúncia de Jânio à solução
parlamentarista, Brasil esteve à beira de uma guerra civil
Em 25 de agosto de 1961, Jânio Quadros chocou
o país ao renunciar à Presidência. Sem maiores explicações, alegou que “forças
terríveis” o impediam de governar. O vice-presidente João Goulart estava no
exterior, e os ministros militares avisaram que ele não tomaria posse. No Rio
Grande do Sul, o governador Leonel Brizola distribuiu armas à população e
prometeu resistir em nome da legalidade.
“A renúncia de Jânio quase leva o país a uma guerra civil”, resume a socióloga Maria Victoria Benevides em depoimento à nova série documental “1961”, de Amir Labaki. Em três capítulos, a produção reconstitui a crise que terminou sem derramamento de sangue, mas pavimentou o caminho para o golpe de 1964.
Crianças – Dorrit Harazim
O Globo
Elas nunca iniciam guerras, mas são as mais
indefesas, não só em Gaza, como na Ucrânia ou nas favelas brasileiras
Golda Meir deveria conhecer a força do apego
humano a um chão. Dedicara a vida à criação do Estado de Israel antes de
tornar-se a primeira e única mulher a chefiá-lo. Nascida na Kiev da
antiga Rússia imperial
(que depois se tornaria parte da União Soviética, implodiria com o comunismo e
ressurgiria como capital da atual Ucrânia), a líder
sionista chegou a ser portadora de passaporte palestino à época do Mandato
Britânico na região.
— Os velhos morrerão, e os jovens haverão de
esquecer — garantiu a colonos judeus que se assentaram em terras palestinas e
se inquietavam com a rebelião dos expulsos.
Estava errada. Os velhos foram morrendo, sim. Mas não sem antes passar às gerações seguintes os nomes e as lembranças de um vilarejo, um teto, uma oliveira perdidos. Enquanto houver herdeiros desse mapa da memória palestina, o apego ao chão e ao direito de nele viver continuarão a ser repassados aos mais jovens. Ou, como escreve a tunisiano-britânica Soumaya Ghannoushi, especialista em política do Oriente Médio, “enquanto houver crianças, a Palestina vive”.
Bets e segurança: a distorção fiscal que ameaça o interesse público - Raul Jungmann*
Correio Braziliense
A omissão regulatória não só abre espaço para evasão fiscal e lavagem de dinheiro por parte das bets, como também representa a perda de uma janela histórica para financiar setores estratégicos sem aumento de carga tributária
O Brasil enfrenta uma crise fiscal aguda, na
qual medidas improvisadas, como o aumento do IOF (Imposto sobre Operação
Financeira), são adotadas para tentar equilibrar as contas públicas. Criado com
função regulatória, o IOF não pode funcionar como válvula de escape para fechar
o caixa da União, especialmente porque essa ferramenta encarece o crédito,
atrapalha as operações financeiras e de alocação eficiente de recursos e
distorce os preços relativos da economia.
Em 2018, quando ministro da Segurança Pública, lideramos a criação do Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP), com a promulgação da Lei nº 13.756. A lógica era simples: construir um mecanismo permanente, estável e não tributário de financiamento para programas estruturantes de segurança, inteligência e modernização das forças policiais. Inspiramo-nos nas boas práticas internacionais que desvinculam a proteção social de ciclos fiscais — e elegemos as loterias como uma fonte segura e escalável de recursos.
Convicção ou companheirismo? – Eliane Cantanhêde
O Estado de S. Paulo
Quem são os dois generais que o Exército
ainda espera que sejam absolvidos do golpe?
Ao não tornar réus o general Nilton Diniz
Rodrigues e o coronel Cleverson Ney Magalhães, a Primeira Turma do Supremo
abriu uma porta – ou lançou uma esperança – para que outros militares sejam
absolvidos ao longo do julgamento pela tentativa de golpe. Os dois mais citados
por chefes e colegas no Exército são os generais da reserva Augusto Heleno e
Estevam Theophilo Gaspar de Oliveira.
Há uma percepção de que o relator do golpe no STF, Alexandre de Moraes, teve dúvidas sobre os “kid pretos” Nilton e Cleverson, citados numa reunião do grupo sobre o golpe, e se informou com a cúpula do Exército, inclusive com o comandante Tomás Paiva, antes de votar pela absolvição. Logo, a consulta pode se repetir no julgamento.
O novo capítulo da guerra econômica - Lourival Sant’Anna
O Estado de S. Paulo
Nova retaliação de Trump preocupa mercado de capitais por afugentar investidores
As implicações da política econômica e da
ideologia de Donald Trump para os negócios e as relações internacionais ganham
novas nuances. A possibilidade de a Justiça barrar a aplicação de tarifas
lineares, a proposta de taxar os lucros de empresas estrangeiras e a ameaça de
sanções contra autoridades que restringem a atuação das redes sociais abrem
novo capítulo na guerra econômica.
O presidente do STF, Alexandre de Moraes, foi notificado pelo Departamento de Justiça de que suas ordens “não podem ser executadas nos EUA”. A advertência foi provocada pela suspensão, no Brasil, da plataforma Rumble, que presta serviços para a Truth Social, de Trump. A Rumble se recusou a tirar do ar vídeos que, segundo Moraes, atacavam as instituições democráticas e disseminavam desinformação. A mesma acusação levou à suspensão do X no ano passado.
A caminho de uma crise como a de 2008? - J. R. Mendonça de Barros
O Estado de S. Paulo
Os mercados de risco insistem em avaliar que as tarifas do Trump não são um grande problema
A probabilidade de uma crise financeira, nos
moldes da de 2008, está se elevando rápido. E são várias as razões para isso.
A incerteza segue gigantesca: poucos dias após o anúncio de um acordo EUA/China sobre tarifas, Trump dispara dois torpedos que desmontaram o ambiente de cordialidade. O Executivo americano anunciou diretriz dificultando as exportações de chips, ao lado da ameaça de cancelamento dos vistos dos mais de 270 mil estudantes chineses registrados nas universidades americanas.
Ademais, as relações diplomáticas em geral
seguem agressivas com todo o mundo, exceto Rússia e Israel. Basta lembrar as
emboscadas armadas para os presidentes da Ucrânia e da África do Sul na sede do
governo.
O mundo reage, procurando diminuir sua dependência de exportações para os Estados Unidos e o volume de suas posições compradas em títulos do Tesouro americano. Entretanto, dado o tamanho da maior economia do mundo, isso só será feito lentamente, ao longo do tempo.
Direita mentiu sobre liberdade de expressão estelionato - Celso Rocha de Barros
Folha de S. Paulo
Direita mentiu, e culpa de ofensiva
autoritária é de quem ficou do lado dos Elon Musks desse mundo
A liberdade de expressão está sob ataque
nos Estados
Unidos. Trump está destruindo a autonomia universitária, prendendo
estudantes por suas opiniões políticas e ameaçando recusar
visto de entrada no país para quem criticar seu governo em redes sociais.
A culpa dessa ofensiva autoritária é de quem
ficou do lado dos Elon Musks desse mundo, contra os Alexandres de Moraes desse
mundo, dizendo que defendia a liberdade de expressão.
Se você fez escândalo quando as contas golpistas em redes sociais foram suspensas em 2022, lamento, foi você quem prendeu os jovens estudantes americanos pró-Palestina. Se você deu razão aos bolsonaristas contra Alexandre de Moraes, você declarou guerra a Harvard. Se você disse que Elon Musk tinha razão contra o STF brasileiro, ou se opôs aos "fact-checkers", você é pessoalmente responsável pelo estabelecimento de censura política na concessão de vistos americanos.
A guerra dos impostos recomeça - Vinicius Torres Freire
Folha de S. Paulo
Gasto tributário de meio trilhão de reais
beneficia mais o quarto mais rico do país
Em junho de 2024, o presidente Luiz
Inácio Lula da
Silva ficou mal impressionado ao saber do tanto de imposto que se deixa de
pagar por concessão legal. No caso, tratava-se do que se classifica como
"gasto tributário", certo conjunto de isenções de tributos para
cidadãos, empresas e outras instituições.
Desde então, certa propaganda de esquerda
dizia que havia se achado um pote de ouro no fim do arco-íris, dinheiros que,
se tirados de ricos, resolveriam com facilidade os problemas das contas
públicas, com justiça social.
Mexer nessas isenções pode diminuir o escândalo de injustiça na distribuição da renda e tapar buracos das contas públicas. Mas, para ser ameno, há muita fantasia a respeito.
Congresso tem o mando de campo – Dora Kramer
Folha de S. Paulo
Entre Lula e seus pares, Motta e Alcolumbre
ficam com quem lhes deu o comando do Parlamento
Por incrível que pareça, o governo ainda
subestima o Congresso mesmo depois de os fatos terem dado
repetidas mostras de que essa desatenção resulta em derrotas certas.
O presidente da República e o ministro da
Fazenda pelo visto acreditaram que a mudança de comando no Parlamento alteraria
a correlação de forças, devolvendo ao Palácio do Planalto o poder da
iniciativa, da influência e da condução do processo decisório.
Só essa crença explica que Fernando Haddad (PT) tenha achado que poderia dar um drible no Legislativo e Luiz Inácio da Silva (PT) tenha assinado decreto de aumento do IOF fiando-se na amizade de Hugo Motta (Republicanos) e Davi Alcolumbre (União Brasil) firmada nas asas do avião presidencial mundo afora.
Os mitos pelos quais vivemos - Hélio Schwartsman
Folha de S. Paulo
Livro mostra pontos fracos de raciocínios que
tentam justificar a adoção de valores liberais
A maioria dos valores liberais que nos são
caros estão calcados em mitos, que não resistem a uma análise lógica. Isso vale
para a democracia, a igualdade republicana, direitos humanos e até
mesmo para os discursos de reparação histórica. Essa é a tese de "The Myths We Live By", do filósofo Peter Cave.
Cave corre riscos. Especialmente nos tempos
histéricos em que vivemos, a problematização de ideias liberais pode ser lida
como um ataque a elas, e não como um exame crítico, que, pelo menos no âmbito
da filosofia, é sempre bem-vindo. No mais, Cave, embora toque em feridas, em
nenhum momento sugere que devamos abandonar democracia, igualdade diante da lei
ou direitos humanos. Pelo contrário, ele é detentor de impecáveis credenciais
humanistas.
O ponto central é que muitos dos raciocínios costumeiramente utilizados para justificar instituições têm mais buracos do que um queijo Emmental. Tomemos o caso da democracia.
Um berçário de arapongas - Muniz Sodré
Folha de S. Paulo
Diversidade étnica que faz do brasileiro um
cidadão universal e facilidade para se obter documentos contribuem para o país
ser base de espiões
Fato espantoso: enquanto o filme "O Agente Secreto" fazia sucesso em Cannes, a Polícia Federal desmontava uma rede de espionagem russa no país. O choque deve-se à raridade do fato entre nós. Mas persiste na memória coletiva o caso vexaminoso dos nove chineses que, três dias após o golpe de 64, foram presos como espiões, supostamente armados com agulhas envenenadas, prontos para atacarem não se sabia o quê (eram agulhas de acupuntura). Torturados, condenados a dez anos de prisão, confirmou-se depois que eram uma delegação comercial de algodão. Um escândalo diplomático, fiasco dantesco, prenúncio das violências da ditadura.
Caixões ao relento – Ruy Castro
Folha de S. Paulo
A Via Veneto do filme 'A Doce Vida' era de estúdio. Hoje, a verdadeira está morta e, talvez, nunca tenha existido
É como se os fantasmas de Federico Fellini, Marcello Mastroianni e Anita Ekberg tivessem sido despejados de seu habitat —Fellini, o cineasta, com suas câmeras; Marcello, o jornalista, com seu caderninho de telefones das maiores mulheres da Europa; e Anita, a deusa descalça, de preto longo e busto continental. O cenário é o Café de Paris, em Roma, território de "A Doce Vida", o filme com que Fellini parou o mundo em 1960 —o Vaticano tentou proibi-lo, os liberais o defenderam, e todo mundo quis vê-lo para conferir. Mas há muito não há mais a doce vida. Não aquela que Fellini mostrou.
Nova edição de 'O Capital' reaviva debate sobre traduções de Marx
Carolina Azevedo / Folha de S. Paulo
Versão dos anos 1980, coordenada por Paul
Singer, é reeditada pela editora Ubu
[Resumo] Tradução consagrada de "O
Capital", obra-prima de Karl Marx, publicada nos anos 1980 no Brasil volta
agora às livrarias, com texto revisado, pela editora Ubu. Nova edição reacende
debate a respeito das qualidades e dos problemas das versões brasileiras, como
a publicada pela Boitempo uma década atrás, que virou alvo de controvérsias
quando se soube que seu tradutor era amigo de Olavo de Carvalho e pesquisador
de autores antimarxistas.
Em um texto intitulado "Como não
traduzir Marx", Friedrich
Engels escreve que, para traduzir "O Capital", não basta
conhecimento razoável do alemão literário: "para entendê-lo, deve-se ser,
de fato, um mestre do alemão".
Ciente disso, a editora Ubu acaba de
relançar, em edição revisada, uma consagrada tradução da obra-prima de Karl
Marx, realizada por Flávio R. Kothe e Regis Barbosa, com coordenação e revisão
do economista Paul Singer.
Publicada originalmente entre 1983 e 1985
pela editora Abril, a tradução surge no contexto dos chamados "seminários
de Marx", grupo de estudos formado em 1958, na faculdade de filosofia da
USP, para analisar "O Capital".
O grupo reunia professores e alunos interessados em explorar um "marxismo rigoroso mas não dogmático", como escreve Roberto Schwarz, que "afrontava o direito de exclusividade que os partidos comunistas haviam conferido a si mesmos" sobre os clássicos marxistas. Além de Schwarz, integraram o grupo Ruth e Fernando Henrique Cardoso, José Arthur Giannotti, Octavio Ianni, Bento Prado Jr., Michael Löwy e Paul Singer, que morreu em abril de 2018.
sábado, 31 de maio de 2025
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
Ultimato de Motta abre oportunidade ao Congresso
O Globo
Mais que apenas rever alta do IOF,
parlamentares devem adotar agenda para recobrar saúde fiscal do Estado
O ultimato do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), ao governo para encontrar alternativas ao aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) oferece ao Congresso a oportunidade de se tornar protagonista de uma ampla reforma das contas públicas. Mantida a situação atual, a dívida não parará de subir, e a economia continuará presa à armadilha de baixo crescimento e juros altos. Derrubar a alta do IOF dará o recado necessário a um governo sempre disposto a aumentar a pesada carga tributária para cobrir despesas extravagantes. Mas é evidente que a saúde fiscal do Estado não será recobrada apenas com tal medida.
Um país sem elites - Marco Aurélio Nogueira*
O Estado de S. Paulo
O Brasil não reconhece mais a si próprio, não
consegue compreender a profundidade das mudanças em curso e não faz escolhas
inteligentes
Nenhuma sociedade pode ser indiferente à sua
história. Ela transmite características que condicionam o modo como as
sociedades vão se forjando. Pode até mesmo fornecer certas “vantagens”. É
preciso, portanto, avaliar com rigor o “peso do passado”.
No imaginário brasileiro, porém, o passado seria uma maldição. Fomos nos acostumando a selecionar aspectos particularmente nefastos de nossa história – a escravidão, as ditaduras, as desigualdades reproduzidas ao longo do tempo – para, então, concluir que estamos avançando com bolas de chumbo presas aos pés, levando-nos a buscar modelos externos (países europeus ou os Estados Unidos) para nos inspirar. Com isso, deixamos de lado o que houve de virtuoso e “vantajoso” antes.
Sobre Marina Silva e mais além - Paulo Fábio Dantas Neto*
Veio-me um pensamento distinto ao ler o
artigo de Kramer na mesma coluna da FSP, nesta sexta-feira, 30, intitulado
"Marina como troféu na prateleira".
Dialogar com um texto de tão aguda e experiente articulista é o pretexto
que escolhi para reinaugurar esta coluna, que não publicava há três meses.
Acompanho inteiramente a colunista quando ela
aponta a impaciência que a visão da ministra Marina Silva sobre o "manejo
das questões ambientais" causa ao governo que integra e ao próprio
presidente. Também acompanho as suas avaliações de que a ministra tem perdido
todas as batalhas internas e externas que tem travado. E a de que daí resulta
um sinal de desprestígio da ministra, do qual senadores, oposicionistas e
governistas, adversários de suas teses, tiram proveito para desacatá-la.
Nesse sentido, é feliz a definição de Kramer sobre os fatos ocorridos esta semana no Senado como uma "afronta suprapartidária". Do mesmo modo, é fiel aos fatos apontar o contraste entre a fragilidade da ministra, comunicada pela falta de apoio do próprio governo (é fato que o líder do governo na Casa evitou se envolver na querela) e a força e firmeza de Marina na discussão ocorrida, culminando com sua digna e altiva retirada do recinto. É fato também que, apesar de ter se saído bem, é provável que continue a acumular derrotas fáticas, não só em face da maioria adversária no Congresso, como pela inclinação do presidente da República a temer o poder do presidente do Senado. Por fim, é arguta a percepção da colunista de que Marina seguirá sendo exibida pelo governo como troféu para o mundo ver, enquanto objetivamente o próprio governo ajuda a "passar a boiada" que sua ministra tenta conter.
À margem dos nossos cinco séculos - Bolívar Lamounier
O Estado de S. Paulo
Nosso triste percurso culminou no chamado
Centrão, e não podemos descartar a hipótese de um partido dos ‘leiloeiros’
Escrevo esta crônica duas vezes por mês na vã
esperança de prestar algum serviço intelectual ao Brasil e, principalmente,
como reconhecimento pela honra que este grande jornal me proporciona.
Não sendo propriamente um guerreiro, devo confessar que às vezes me vejo abatido pela dificuldade de encontrar um fio condutor e tendo a atribuir esse fato à montanha de deficiências que acumulamos em nossos 525 anos de história. Que a situação em que nos encontramos tem muito pouco de alvissareiro é óbvio. Com algum esforço e aproveitando alguns bons momentos, poderíamos cogitar um futuro com mais chances de sorrir do que de chorar. O problema é que mal sabemos quem somos.
Riscos do populismo judicial - Oscar Vilhena Vieira
Folha de S. Paulo
Judiciário compromissado com a Constituição é
essencial para o funcionamento da democracia
Neste domingo (1°), os mexicanos irão às
urnas para eleger cerca de 900 juízes federais, 1.800 estaduais e locais, além
dos nove membros da Suprema Corte. Essa é a primeira fase de um processo que
busca substituir todos os atuais magistrados mexicanos por juízes eleitos.
Esse experimento inusitado é decorrência de uma ampla reforma constitucional promovida pelo então presidente López Obrador, sob o argumento de que o Judiciário mexicano era elitista, corrupto, inoperante e cercado de privilégios, sendo necessário democratizá-lo.
Onde o tempo não passou - André Gustavo Stumpf
Correio Braziliense
Políticos de todos os quilates e ideologias
carecem de uma atualização de seus conceitos políticos. Precisam ser
contemporâneos de seu tempo
O debate da ministra Marina Silva com os senadores, antes e além das questões pessoais ou eventuais grosserias, demonstrou algumas verdades. O governo não se mobilizou para defender sua ministra do Meio Ambiente. Ela foi jogada às feras e ficou só. Os senadores não conseguiram conduzir um questionamento coerente, do que derivaram os ataques pessoais. Por último, a ministra perdeu a oportunidade para expor os motivos pelos quais até hoje não autorizou o asfaltamento da BR-319, a rodovia que liga Manaus a Porto Velho e, por consequência, ao resto do país. Uma boa oportunidade perdida por todos, inclusive pelo governo Lula, que vive na corda bamba. Não consegue defender a ministra nem avançar nas questões ambientais. Fica estacionado no discurso de boas intenções.
O que não entendo nos conservadores – Pablo Ortellado
O Globo
Não consigo entender a condescendência com o
golpismo e com os golpistas
Nos últimos dez anos, tenho tentado entender
a polarização política e um de seus polos: os conservadores. Não é curiosidade,
é dever profissional. Entendi algumas coisas — e o que aprendi me ajudou a
respeitá-los. Mas pelo menos uma coisa não consigo entender. Não sei se não
entendo porque olho de fora, porque não sou conservador. O cientista político
Cas Mudde chama a atenção para o fato de a direita ser o único grupo político
que não é estudado por simpatizantes, mas por adversários. Isso certamente deve
criar uma barreira ao entendimento.
Compreendo bem a importância que os conservadores dão ao combate à corrupção. Corrupção é roubo do patrimônio público, é um tipo especialmente abjeto de roubo. Entendo também a indignação desse campo contra a esquerda, porque o PT não fez a autocrítica que deveria sobre seus malfeitos — uma parte dos simpatizantes do partido tergiversa e outra menospreza os roubos na Petrobras. Quando olho para isso, também sinto raiva do PT.
Como vai você, geração 80? - Eduardo Affonso
O Globo
Somos um grupo que não poderá dizer que seus
heróis morreram de overdose (ainda que os inimigos estejam no poder)
Quando nasci, minha avó era uma velhinha de
60 anos. Cabelos brancos, presos com uma travessa, chinelos baixos, vestido
desenxabido, de florzinhas miúdas (que, no interior de Minas, se chamava
maria-mijona). Varizes, muitas. Rugas, incontáveis. Olhos cansados,
frequentemente em busca dos óculos que estavam bem ali, na ponta do nariz. Suas
netas — hoje com bem mais de 60 e também já avós — vão à academia, andam de
salto alto, fazem uso de tecnologias inimagináveis naquele passado longínquo,
que foi ontem.
O imortal Austregésilo de Athayde — que parecia ter mesmo o dom da imortalidade — chegou aos 90 anos quase como símbolo de uma era extinta. Aos 92, o ator Othon Bastos vive o auge da carreira — lotando teatros, aplaudido de pé — com a peça que diz, já no título, a que veio: “Não me entrego, não”.
O ‘lenga-lenga’ e a política ambiental – Carlos Alberto Sardenberg
O Globo
Está claro que a atual legislação e seus
processos precisam de reforma para se tornar mais ágeis e eficientes
A ministra Marina Silva diz que o Projeto de
Lei aprovado no Senado desmonta totalmente o sistema de licenciamento ambiental
vigente no Brasil. Para ela, o atual regime é robusto e tem produzido bons
resultados. Por isso, pede a ação do governo a que pertence para combater
aquele projeto. O problema imediato está na base do governo. Partidos que a
integram — e têm ministérios — votaram pelo projeto que, de fato, muda
radicalmente as regras ambientais.
Mas há outro obstáculo, maior e mais difícil.
Esse sistema que a ministra considera robusto é aquele mesmo que o presidente
Lula, em pessoa e há pouco tempo, chamou de “lenga-lenga”. Lembram? O
presidente estava reclamando que o Ibama —
órgão subordinado ao ministério de Marina — atrasava, talvez até de propósito,
a autorização para a Petrobras procurar
petróleo na Margem Equatorial.
A contradição é total. Aquilo que a ministra considera fases técnicas de um processo de licenciamento, o presidente chamou de “lenga-lenga”. Logo, cabe a pergunta: qual é a posição efetiva do governo, a de Lula ou a da ministra?
Cada país tem o Congresso que merece - Nelson Motta
O Globo
Repórteres e cronistas de política deveriam
receber um adicional de insalubridade em seus salários. O nível nunca esteve
tão baixo entre as bancadas de interesses
“Não reclamem do atual Congresso, o próximo será sempre pior.” É o axioma de Ulysses Guimarães, um dos maiores e melhores congressistas de nossa História, que tem sido robustamente comprovado pelos fatos nas últimas décadas. A prova é que nunca tivemos um Congresso tão ruim como o atual, pior até que a sinistra leva que o antecedeu, quando o Congresso foi invadido por bárbaros a serviço de si mesmos, por personagens bizarros, das mais bizarras crenças e causas e interesses. São eles que mandam, o Congresso tem cada vez mais poder e dinheiro, e paradoxalmente, ou não, nunca foi tão poderoso, e tão ruim. No amplo espectro partidário, com raras exceções. Claro que eles estão lá porque foram escolhidos livremente em eleições democráticas. Teoricamente seriam representantes do povo que os elegeu, mas na prática representam eles mesmos e seus interesses, cada vez mais rasteiros e danosos ao povo, que vota cada vez pior. Um círculo viciado e sem perspectivas de melhoras. Os melhores e mais experientes jornalistas de política são testemunhas de acusação. Cada país tem o Congresso que merece.
Resultado do PIB 1º trimestre reforça viés de alta para projeções de 2025 – Míriam Leitão
Por Ana Carolina Diniz / O Globo
O PIB cresceu
1,4% no primeiro trimestre de 2025 em relação ao quarto trimestre de 2024, segundo
dados divulgados pelo IBGE.
Na comparação anual, a economia avançou 2,9%, resultado que, embora abaixo da
expectativa de 1,5%.
Com o resultado, as projeções para o PIB de 2025
passaram a ter um viés de alta, mas com expectativa de desaceleração gradual
nos próximos trimestres. Luis Otávio Leal, sócio e economista-chefe da G5
Partner, por exemplo, manteve a previsão de crescimento de 2,3% neste ano, mas
é possível adicionar um viés de alta para a estimativa do ano.
Para Natalie Victal, economista-chefe da
SulAmérica Investimentos, o "carrego" estatístico deixado pelo
resultado — estimado em 2,2% — deve levar a revisões altistas no consenso de
mercado, aproximando-se da projeção da casa, de 2,5% para o ano.
- O cheiro inicial é que deve levar a revisões altistas do consenso em direção aos nossos 2,5%. No entanto, o PIB faz com que nossa visão sobre o balanço de riscos da nossa projeção fique mais equilibrada.
Trump contra a Europa - Demétrio Magnoli
Folha de S. Paulo
A narrativa do presidente americano sobre a
União Europeia escorre de uma lagoa de ódio
50%. A tarifa brandida por Trump contra a
União Europeia (UE) representaria um embargo comercial. A ameaça surge junto
com a trégua tarifária firmada com a China. O presidente dos EUA devota genuíno
ódio à UE –e tem seus motivos para isso.
"A União Europeia foi formada com a finalidade de tirar vantagem dos EUA. É este o seu propósito –e eles fizeram um bom trabalho nessa direção." A UE existiria para extrair benefícios unilaterais do comércio com os EUA e, ainda, para terceirizar os custos de sua segurança militar. O diagnóstico de Trump sintetiza uma visão de mundo.
Legalizar sem estimular - Hélio Schwartsman
Folha de S. Paulo
Projeto do Senado que limita publicidade de
bets é um avanço, mas versão inicial que bania a propaganda era melhor
Tudo é relativo. O projeto de lei aprovado
pelo Senado que restringe
a publicidade de bets é preferível à situação atual, em que reclames
correm soltos em TVs, rádios e internet, mas eu ainda acho que a versão inicial
da proposta, que bania qualquer forma de propaganda, incluindo patrocínios, era
melhor.
Não digo isso por moralismo. Defendo há décadas a legalização e a regulamentação do jogo, assim como a de drogas para uso recreativo. E é justamente desse paralelismo que extraio meu argumento antipublicidade.
Eduardo Bolsonaro transfere gabinete do golpe para os EUA - Alvaro Costa e Silva
Folha de S. Paulo
Campanha para que governo Trump aplique
sanções é parte do plano para salvar o capitão
O plano de ação estava delineado desde o
início do ano. O objetivo: "proteger o líder", como descreveu um
aliado de Bolsonaro, criando um ambiente que impeça uma ordem de prisão e possa
torná-lo apto às eleições de 2026.
Daí o empenho na aprovação do projeto de anistia aos presos do 8/1, tão abrangente que alcançaria quem tivesse participado de atos passados e futuros. Cogitou-se alterar a Lei da Ficha Limpa, reduzindo o tempo de condenação. A agenda corporativista foi utilizada para pedir a suspensão da ação penal contra o deputado Ramagem, adrede trancando o processo da trama golpista.
Entrevista | João Campos: ‘Mundo ideal é puxar centro para perto e não jogá-lo para direita’
Marianna Holannda / Folha de S. Paulo
Brasília - Prefeito do Recife e novo
presidente nacional do PSB, João Campos defende
que o ideal para a eleição em 2026 é trazer o centro para perto e não jogá-lo
para a direita.
O jovem de 31 anos foi reeleito com 78% dos
votos ano passado numa ampla coalizão e defende que Lula (PT)
reedite a frente ampla, com Geraldo Alckmin (PSB) na vice. Mas, para isso, é
preciso atrair não apenas os partidos de centro, mas segmentos da sociedade não
polarizados em torno de uma agenda comum.
João defende uma aproximação maior da igreja,
do agronegócio, de autônomos —todos setores com os quais o governo tem
dificuldade de relacionamento.
Em convenção nesta sexta-feira (30), o PSB oficializará o prefeito como presidente nacional do partido, cargo que já foi ocupado por seu bisavô, Miguel Arraes (1916-2005), e por seu pai, Eduardo Campos (1965-2014).
Viva o Cinema Brasileiro! - Marcus Pestana
Assistir a um bom filme na sala escura transforma consciências e atitudes, desperta emoções inimagináveis, alimenta fantasias. Apesar do cinema brasileiro carregar o nosso DNA, refletindo nossa originalidade e identidade nacional, é também universal pelos sentimentos humanos que reflete e desperta.
A nova geração de professores - Cristovam Buarque
Revista Veja
Qual é o papel do Estado ao atrair os jovens para o magistério?
Faz anos ouvi da então senadora Heloísa Helena: “Se o Brasil adotasse uma geração de brasileiros desde o nascimento, quando adultos eles adotariam o Brasil”. Semana passada, em um seminário promovido pelo Instituto Brasileiro Pró-Cidadania, no Recife, o professor Cesar Callegari ampliou o raciocínio: “Para fazer a educação que o Brasil precisa, é necessário formar uma nova geração de professores”. Essas duas frases se complementam e deveriam inspirar a preparação do novo Plano Nacional de Educação (PNE), para que ele não seja a repetição dos dois anteriores: burocráticos, sem ambição, sem indicação da responsabilidade por sua execução e presos à lógica de prometer mais recursos, não de definir a estratégia para darmos o necessário salto no ensino dos brasileiros, na qualidade e na equidade.
sexta-feira, 30 de maio de 2025
Opinião do dia – Theodor W. Adorno* (Radicalismo de direita)
Talvez alguns entre os senhores me
perguntarão ou me perguntariam o que penso sob o futuro do radicalismo de
direita. Penso que essa pergunta é falsa, pois ela é demasiado contemplativa.
Nessa forma de pensar, que vê de antemão essas coisas como catástrofes
naturais, sobre as quais se fazem previsões assim como sobre furacões ou sobre
desastres meteorológicos, há já uma espécie de resignação na qual as pessoas
desligam-se enquanto sujeitos políticos, há aí uma má relação de espectador com
a realidade. Como essas coisas vão evoluir e a responsabilidade sobre como elas
vão evoluir – isso depende, em última instância, de nós. Agradeço pela atenção.
*Theodor W. Adorno (11/9/1903-6/8/1969),
filósofo, sociólogo, musicólogo e compositor alemão. É um dos expoentes da
chamada Escola de Frankfurt, juntamente com Max Horkheimer, Walter Benjamin,
Herbert Marcuse, Jürgen Habermas, entre outros. Conferência realizada no dia 6
de abril de 1967, a convite da União dos Estudantes Socialista da Áustria.
“Aspectos do novo radicalismo de direita”, p.76. Editora Unesp, 2020.
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
Itamaraty agiu bem ante novo visto americano
O Globo
Até agora, não houve medida concreta contra
autoridades brasileiras, e não interessa ao país inflamar os ânimos
Tem sido positiva a postura do Itamaraty em relação à nova política de vistos anunciada pelos Estados Unidos. Na quarta-feira, o secretário de Estado, Marco Rubio, declarou que restringirá a entrada no país de autoridades estrangeiras “cúmplices na censura a americanos”, citando América Latina e Europa. Em depoimento a parlamentares americanos, ele antes mencionara a possibilidade de impor sanções contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. Apesar de ser uma medida sem cabimento, a reação da diplomacia brasileira foi serena e cautelosa, e é essencial que se mantenha assim. Por enquanto, não houve nenhuma medida concreta contra autoridades brasileiras, e o país tem outros interesses a defender na relação bilateral com os americanos, em particular no campo das tarifas. Não interessa ao Brasil inflamar os ânimos.











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