terça-feira, 22 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Crise fiscal é causa do esvaziamento da Bolsa de Valores

Por O Globo

Com juros nas alturas, os papéis de renda fixa se tornam, aos olhos do investidor, mais atraentes que as ações

Persiste o esvaziamento da Bolsa de Valores brasileira, a B3. Entre o início de 2022 e novembro do ano passado, 36 empresas saíram dela. No momento, estão previstas seis novas ofertas públicas para compra das próprias ações por companhias abertas que desejam fechar seu capital. Não há muito mistério sobre a principal causa desse esvaziamento. A taxa de juros elevadíssima, necessária para o Estado brasileiro tomar dinheiro emprestado no mercado de modo a financiar o desequilíbrio nas contas públicas, torna os papéis de renda fixa um investimento muito mais atraente que as ações.

Juros altos são letais para mercados acionários. A capitalização por meio do lançamento de ações costuma ter custo mais baixo que empréstimos bancários, ainda mais num país em que o juro básico, mesmo tendo sido cortado pelo Banco Central para 13,75% ao ano, pode significar um rendimento real de quase 10% ante uma inflação na faixa de 4,2%. Mas ela se torna inviável se não houver investidores interessados.

Em escala global, o mesmo mecanismo se repete. Preocupados com a explosão da dívida pública dos Estados Unidos, resultado da incúria fiscal do governo Donald Trump, e com a inflação impactada pela escalada no preço do petróleo, os investidores têm exigido rendimento maior para comprar títulos do Tesouro americano. Os juros pagos por papéis de longo prazo ultrapassaram 5% na semana passada, nível mais alto desde 2007. No dia seguinte, o Fed aumentou o juro básico para 4%. Na outra ponta dessa gangorra, as bolsas de Reino Unido, França, Alemanha e de Nova York têm sofrido.

Os Estados Unidos se tornaram a maior economia do planeta porque criaram uma cultura de investimento em ações, abrindo amplo canal de financiamento às empresas. No Brasil, a Bolsa apresenta subvalorização crônica. O índice preço/lucro (P/L), que calcula quanto o investidor recupera em dividendos do dinheiro aplicado numa ação, mostra a distância da B3 para Wall Street. Em 31 de agosto, o P/L brasileiro era de 8,07, ante 19,5 do americano. A diferença é mais um desincentivo para empresas abrirem capital. Um mercado depreciado desestimula a oferta de ações, pois é preciso oferecer descontos para atrair investidores.

Em economias maduras, mesmo que as ações oscilem, empresas de capital aberto bem administradas e rentáveis, com políticas consistentes de pagamento de dividendos, têm como competir no mercado de capitais com outras opções de investimento. Nada comparável acontece no Brasil. Aqui, na prática desapareceu o próprio mercado primário em que empresas abrem o capital. Em maio, uma empresa de gás do grupo Cosan realizou sua oferta pública inicial de ações na B3. Era algo que não ocorria havia cinco anos.

O movimento tem sido inverso: empresas recompram as próprias ações aproveitando a baixa cotação. Das 36 que saíram da B3, duas migraram para Wall Street emitindo papéis lastreados nas ações, que também podem ser negociados no Brasil. Com menos ações à venda, a B3 bateu sucessivos recordes de valorização no ano passado, transmitindo a sensação ilusória de um mercado pujante. A realidade é que os juros altos têm atrofiado o mercado acionário, impedindo que empresas se valham dele para se capitalizar e as empurrando a créditos bancários muitas vezes impagáveis, num movimento vicioso. Só a disciplina fiscal do Estado pode desarmar essa armadilha.

Combate ao tráfico na Amazônia exige iniciativa de integração regional

Por O Globo

Brasil deve traçar estratégia com Peru, Bolívia e Colômbia para enfrentar organizações criminosas na região

É urgente que o governo articule uma iniciativa diplomática com países vizinhos, em especial Colômbia, Peru e Bolívia, para enfrentar o tráfico na Amazônia, hoje polo de distribuição de drogas. Essa é a principal conclusão do estudo “Amazônia brasileira: novos corredores e controle do narcotráfico transnacional”, da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC). As organizações criminosas há muito atravessaram as fronteiras. Sem integração regional, nenhuma política conseguirá enfrentá-las. “O narcotráfico na Amazônia se transformou em problema complexo e dinâmico”, diz Gabriel Funari, coordenador da GI-TOC na região.

A droga se aproveita da baixa vigilância na região desde os anos 1990, segundo o estudo. Foi quando os cartéis colombianos de Cali e Medellín, enfraquecidos, cederam espaço e avançou o narcoterrorismo, liderado pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Não foi por acaso que Fernandinho Beira-Mar, líder do Comando Vermelho (CV) no Rio, acabou preso em 2001 na Colômbia, perto da Venezuela, numa região controlada pelas Farc. Beira-Mar negociava a troca de armas por cocaína. Duas décadas e meia depois, o estudo mostra como o CV se fortaleceu, ampliou sua presença na região e passou a usar portos do Amapá como base para despachar drogas ao mercado europeu.

Em março do ano passado, um submarino artesanal do tráfico, carregando 6,6 toneladas de cocaína de alta pureza, foi apreendido perto do arquipélago dos Açores. A carga, avaliada em R$ 2,2 bilhões, partira de Macapá. Traficantes também têm contratado mergulhadores profissionais para esconder drogas no casco de navios. Em abril de 2024, a Polícia Federal encontrou 150 quilos de cocaína no compartimento para captar água de um navio atracado no porto de Santana (AP), a 18 km de Macapá. Em junho de 2025, 400 quilos foram apreendidos numa área rural de Macapá. Mergulhadores se preparavam para esconder a droga em navios com destino a Portugal.

O CV entrou na Amazônia para driblar a vigilância de portos do Sudeste e se aproximar das fronteiras com países produtores de drogas. No Amapá, não existe escaneamento de contêineres, e inspeções são esporádicas. Corromper fiscais é mais fácil. O CV também evita choques com o PCC na “rota caipira” — pela qual drogas despachadas da Bolívia, Peru e Paraguai entram no Brasil via Mato Grosso do Sul e Paraná, trafegam por estradas vicinais até chegar a grandes rodovias rumo a portos como Santos.

A rota do Rio Solimões já não é a única na Amazônia. Não são apenas os rios que servem para transporte. Pistas de pouso clandestinas abertas na floresta facilitam receber drogas em pequenos aviões que vêm do outro lado das fronteiras — serviço que pode ser pago com o ouro de garimpos ilegais, também explorados pelo CV. Esse mesmo ouro pode servir para lavar o dinheiro das operações criminosas. Como as atividades ilegais se conectam, o combate a elas também precisa ser integrado e planejado em escala transnacional.

Concessões ao setor privado precisam ser ampliadas

Por Folha de S. Paulo

Governo Lula faz número recorde de 50 leilões de infraestrutura; há atrasos em projetos que somam R$ 204 bi

Aporte agregado no setor deve se aproximar de R$ 300 bilhões em 2026 ou 2,3% do PIB; o país precisaria de algo próximo de 4% a 5% do PIB

As concessões de infraestrutura ao setor privado avançaram de forma consistente. A melhora da regulação feita na gestão anterior e a não interrupção dos leilões neste terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mostram que, ao menos nesse campo, prevaleceu algum pragmatismo.

Mesmo assim, atrasos são recorrentes. A meta de 13 leilões de rodovias foi reduzida para apenas 7 neste ano. Os 8 previstos no setor ferroviário foram deixados, na maior parte, para o próximo ano, com investimentos projetados de R$ 154,9 bilhões.

Quanto aos portos, de 18 projetos anunciados, poucos foram a mercado, e aportes esperados de ao menos R$ 20,8 bilhões acabaram adiados. As hidrovias federais também continuam emperradas. No total, ao menos R$ 204 bilhões em investimentos devem ficar para o próximo mandato.

Análises morosas, modelagens que precisam ser refeitas e filas no Tribunal de Contas da União (TCU) se somam a agências reguladoras pouco aparelhadas e com déficit de pessoal. Há asfixia orçamentária e interferências políticas nas nomeações, o que enfraquece a capacidade técnica.

Por certo, o tema é complexo, ainda mais em contratos antigos e mal dimensionados que exigem renegociações detalhadas.

Felizmente, o governo Lula se apoiou em avanços regulatórios anteriores e conseguiu realizar um bom número de leilões. Entre 2023 e 2025, foram 50 certames de rodovias, portos e aeroportos —mais do que os 45 de Jair Bolsonaro (PL) e os 26 de Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Rodovias responderam por R$ 247 bilhões em investimentos contratados; portos, por R$ 15,5 bilhões. São cifras importantes para um Estado deficitário com declinante margem orçamentária para obras públicas.

No saneamento, o maior volume de leilões está nas mãos de estados e prefeituras, com grande fluxo de concessões e parcerias viabilizadas pelo marco legal de 2020, tão combatido pela esquerda estatizante.

Desde então, 70 certames já ocorreram. Restam 31 projetos, com R$ 66,3 bilhões previstos e alcance de 631 municípios, incluindo blocos em Rondônia, São Paulo, Goiás e Ceará.

O setor talvez seja o que mais diretamente foi impactado pela abertura ao capital privado depois de décadas de ineficiência.

Os avanços até aqui, porém, não bastam. O investimento agregado em infraestrutura chegou a cerca de R$ 280 bilhões em 2025 e deve se aproximar de R$ 300 bilhões em 2026 —ou 2,3% do PIB.

O país precisaria de algo próximo de 4% a 5% do PIB, de forma sustentada, para reduzir o déficit acumulado nos vários setores.

A capacidade estatal está esgotada diante do esmagamento do Orçamento público por despesas obrigatórias. O custo de capital elevado, alimentado por uma política gastadora que reforça a persistência de juros altos, encarece os projetos. Será preciso avançar mais nas concessões.

Canadá e UE desafiam Trump com parceria inédita

Por Folha de S. Paulo

Presidente da Comissão Europeia propõe que país se torne o primeiro membro associado do bloco

Aliança é resposta à guerra comercial e a ameaças dos Estados Unidos à ordem global; adesão de potências médias, como o Brasil, é aventada

Se Donald Trump imaginava um mundo submisso aos EUA ao impor tarifaços, intimidar nações e atropelar as regras de convivência internacional desde a sua posse, agora colhe uma reação inédita articulada entre a União Europeia e o Canadá.

Na quarta (16), a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou a intenção de elevar a relação com o Canadá ao mais alto nível e propôs que o país se torne o primeiro membro associado ao bloco, ressaltando que não se trata de união contra um ator global específico.

No dia seguinte, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, também declarou que o objetivo da aliança não é rivalizar com as grandes potências, mas buscar maior resiliência para se opor ao controle de mercados e às ameaças à soberania, à integridade territorial e à democracia.

A precaução de Carney e de Von der Leyen, ao omitirem os EUA e Trump durante o anúncio, cumpriu o protocolo da diplomacia. A mensagem, porém, foi bem entendida. Em Washington, o republicano repetiu seu agressivo modus operandi: chamou a iniciativa de "ridícula" e ameaçou os europeus com pesadas tarifas.

A costura dessa parceria começou antes de Trump impor tarifas de 50% a uma série de produtos canadenses, em agosto, e ser surpreendido pela retaliação de Ottawa. Suas bravatas de converter o vizinho no 51º estado americano e de ocupar a Groenlândia, território da Dinamarca, já eram suficientes para motivar a aliança.

No Fórum Econômico Mundial de Davos, em janeiro, Carney sugeriu a união das potências médias ante a política comercial dos EUA e outros riscos à ordem mundial. "Quem não estiver à mesa estará no cardápio", alertou. A ideia de estender esse tipo de parceria a outros países —entre eles Japão, Coreia do Sul, Indonésia, Reino Unido e Brasil— já entrou no debate europeu.

A aliança não atribui ao Canadá a condição de membro pleno da UE. Mas abre caminho para o aprofundamento do acordo de livre comércio de 2016 e a cooperação nas áreas de minerais críticos, indústria espacial e de defesa, inteligência artificial, segurança energética e sistemas de pagamento —todas, igualmente, de interesse dos EUA.

Tal junção de esforços não responde apenas ao atual mandato de Trump. Reflete preocupações mais duradouras, como a ascensão da China e a permanência de medidas disruptivas da primeira gestão do republicano, mantidas por Joe Biden, a começar pelo bloqueio americano ao Órgão de Apelação da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Os enrolados do Desenrola

Por O Estado de S. Paulo

Renegociação de dívidas alivia os encalacrados, mas não resolve o problema. Lula, no entanto, prefere dobrar a aposta a admitir um erro e agora quer comprar dívidas para perdoá-las

Para a surpresa de ninguém, a segunda edição do Desenrola, programa de renegociação de dívidas lançado pelo governo Lula neste ano, começou a fazer água. Embora tenha repactuado R$ 28,37 bilhões e reduzido os débitos para R$ 5,71 bilhões entre o início de maio e o fim de agosto, três em cada dez operações firmadas no âmbito do programa nesse mesmo período já estão com parcelas em atraso, segundo o jornal O Globo. A reportagem se baseia em dados do Fundo Garantidor de Operações (FGO), instrumento por meio do qual os novos empréstimos são garantidos e que é acionado pelos bancos em caso de atraso no pagamento das prestações.

É um resultado desolador, mas bastante previsível, haja vista a eficácia limitada da primeira edição do Desenrola. Lançado em julho de 2023, o programa até funcionou no curto prazo, mas bastaram 18 meses para que os níveis de inadimplência retomassem o patamar anterior, segundo estudo publicado por pesquisadores do Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppead-UFRJ) e da Fundação Getulio Vargas (FGV). Segundo eles, a literatura mostra que programas como esse até aliviam as condições de liquidez dos endividados, mas não atacam suas causas, isto é, a falta de resiliência financeira e a baixa capacidade de pagamento dos encalacrados.

Para quem enfrenta uma situação pontual de descontrole financeiro, iniciativas como o Desenrola podem até funcionar, mas quem está na informalidade ou tem renda baixa e instável muitas vezes está em um círculo vicioso de endividamento e inadimplência há anos, no qual dívidas mais novas servem apenas para pagar as mais antigas. Levantamento da Serasa Experian divulgado em outubro do ano passado mostrou que 65% dos brasileiros tinham mais de um cartão de crédito, e a maioria deles utilizava essa estratégia justamente para ampliar seu limite de compras.

Há problemas de toda ordem a serem enfrentados. Não são raras as situações em que aposentados tomam crédito para ajudar familiares e acabam por perder o controle de sua vida financeira. Há quem cometa o equívoco de apostar em bets na vã expectativa de pagar suas dívidas e acaba por perder o pouco dinheiro que tinha.

Parte da população estava fora do sistema bancário há poucos anos e não consegue identificar situações que só tendem a agravar sua situação financeira, como a facilidade para contratar crédito por meio de aplicativos, o pagamento do mínimo da fatura de cartão e o uso frequente do limite do cheque especial.

Para completar, as altas taxas de juros e o aumento do custo de vida no pós-pandemia deixaram o que já era ruim ainda pior. Mas o governo, sedento por votos que garantam a reeleição de Lula, vai dobrar a aposta em medidas inócuas para problemas bem mais graves. A mais nova política em estudo, segundo admitiu o ministro da Fazenda, Dario Durigan, ao jornal Extra, é usar o Tesouro Nacional ou uma empresa estatal para comprar dívidas mais antigas das famílias, assumidas no auge da covid-19.

Ainda não está claro se a política será lançada antes ou depois da eleição, mas ela envolveria a aquisição, com deságio, de débitos com baixíssima possibilidade de recuperação para serem perdoados. A intenção é limpar não apenas o nome dos endividados, mas também o balanço dos bancos, cada vez mais rígidos na concessão de novos empréstimos em razão da inadimplência.

O risco de todas essas iniciativas está justamente no incentivo perverso ao endividamento. Não há razão para um endividado se esforçar em quitar sua dívida e evitar cair nessa armadilha novamente se ele sabe que o governo, mais cedo ou mais tarde – e, sobretudo no período eleitoral –, virá em seu socorro.

Qualquer iniciativa dessa natureza, especialmente se ela envolve recursos públicos, como é o caso, deve prever medidas que impeçam as instituições financeiras de se aproveitar da vulnerabilidade e o desconhecimento desse público para incentivar comportamentos perniciosos. O problema é que Lula se recusa a enxergar que incentivo desmedido ao consumo como estratégia de crescimento econômico é uma das causas dessa crise.

Supremo atua como Justiça Eleitoral

Por O Estado de S. Paulo

Ao se pronunciar antes do TSE sobre o reajuste do Bolsa Família, Gilmar Mendes força mais uma vez os limites da prevenção e da supervisão do STF sobre a Justiça Eleitoral na campanha

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes escolheu uma semana peculiar para pregar a imparcialidade da Justiça Eleitoral. Depois de acusar, em seus perfis, seu colega André Mendonça de atuação político-eleitoral e chamá-lo de “pixuleco” e “boneco de campanha”, advertiu que magistrados envolvidos em “proselitismo partidário” deveriam avaliar se têm condições de permanecer no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O sermão seria bem menos desconcertante se, na véspera, o próprio Mendes não tivesse instrumentalizado o Supremo para dar à campanha de Lula uma mão amiga sobre uma controvérsia que a Justiça Eleitoral ainda examinaria.

O Mandado de Injunção 7.300, ajuizado em 2020 para cobrar do governo a regulamentação da renda básica, já havia transitado em julgado e estava arquivado desde 2024. No dia 16 passado, a Defensoria Pública da União pediu providências sobre a atualização do Bolsa Família. No dia seguinte, Lula editou o decreto que elevou o piso do benefício em 15%. Ato contínuo, a Advocacia-Geral da União (AGU) pediu ao STF que reconhecesse também a compatibilidade do reajuste com a Lei das Eleições. Mendes concordou no mesmo dia.

O mandado de injunção tratava da política de renda, a lei do Bolsa Família prevê atualização periódica e o próprio Supremo já discutira, em 2021, a incidência do art. 73, § 10, da Lei das Eleições, que proíbe a distribuição gratuita de bens, valores ou benefícios por parte da administração pública no ano em que se realizar eleição. A manobra questionável está no salto entre uma orientação geral e sua aplicação a um decreto concreto, editado 17 dias antes do primeiro turno e com pagamentos às vésperas do segundo turno, enquanto finalidade eleitoral, uso promocional e abuso de poder ainda estavam em discussão. O precedente de 2021 pressupunha ausência de abuso; em 2026, essa premissa estava justamente por ser examinada.

O TSE não perdeu sua competência. Ainda pode apreciar tanto o § 10 do art. 73, sobre a distribuição de benefícios em ano eleitoral, quanto o inciso IV, que veda seu uso promocional em favor de candidato, além de eventual desvio de finalidade e abuso de poder. Mas terá de fazê-lo sob constrangimento, após um ministro do STF já ter declarado que aquele decreto específico não afronta uma das principais restrições eleitorais invocadas contra ele.

O ex-ministro Marco Aurélio Mello, relator original do mandado de injunção, resumiu a situação com crueza: processo arquivado é “processo findo, processo morto”. Se causas encerradas continuam disponíveis para fatos que ainda nem existiam quando foram julgadas, a prevenção pode ganhar vida própria e o sorteio perde sua função. Some-se a isso a decisão individual, tomada em horas, sobre tema que envolvia uma eleição e a aplicação de precedente do plenário.

Em fevereiro, a Maridt, ligada à família do ministro Dias Toffoli, já recorrera a expediente semelhante: ressuscitou uma ação arquivada sob relatoria de Mendes para barrar a quebra de sigilo determinada por uma CPI. O padrão é inquietante: processos mortos podem virar atalhos para relatorias sob medida.

Mendes exige do TSE atuação “imparcial e apartidária” e ameaça com suspeição quem se desviar desse padrão. Sua própria intervenção, porém, favoreceu uma medida de grande interesse eleitoral para Lula. Isso torna legítimo perguntar por que o rigor contra a politização dos outros convive com tamanha elasticidade no uso do próprio poder.

Mendes já defendeu que o infame inquérito das fake news permanecesse aberto “pelo menos até as eleições”. Ao comentar a possibilidade de um Senado favorável ao impeachment de ministros, pontificou que o “todo institucional” caminharia em outra direção. Agora reivindica para o STF uma função de “supervisão” eleitoral. São contextos diferentes, mas neles reaparece a ideia de uma Corte autorizada a administrar os riscos produzidos pelo jogo político.

Independentemente do favorecido da vez, se o atalho virar regra, cada disputa sensível estimulará uma corrida ao Supremo: quem chegar primeiro tentará entregar ao TSE uma controvérsia já marcada por alguma decisão monocrática da Corte superior. Hoje beneficia Lula; amanhã servirá a outro governo, ministro ou candidato.

Fronteira fora de controle

Por O Estado de S. Paulo

Aviso americano sobre a violência em MS dá a medida do poder alcançado pelas facções

Uma extensa área de Mato Grosso do Sul está sob o nível máximo de alerta de segurança para viagens de cidadãos dos Estados Unidos. O Estadão informou que a decisão foi tomada em meio à escalada da guerra entre o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) pelo controle das rotas da cocaína. O aviso do governo americano inclui Corumbá, considerada uma das principais portas de entrada de turistas no Pantanal. Para o Estado de Mato Grosso do Sul e para o País, é obviamente uma péssima notícia.

O alerta, o mais grave na classificação norte-americana, abrange uma faixa de 160 quilômetros a partir das fronteiras com Paraguai e Bolívia, de Mundo Novo a Corumbá. A maior parte do Brasil permanece no nível 2, de cautela. A exceção feita ao Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense não vale para todo o Pantanal, como o nome pode sugerir. Corumbá e Ladário continuam na área desaconselhada.

Os motivos do alerta estão à vista. Mato Grosso do Sul registrou 368 homicídios de janeiro a agosto, 65 a mais que no mesmo período do ano passado. Segundo o Ministério Público estadual, ao menos cem mortes neste ano foram causadas pela guerra entre PCC e CV.

Criminosos chegaram a divulgar nas redes sociais uma lista de 24 pessoas marcadas para morrer. Duas foram assassinadas. Em um dos ataques, morreu uma criança de 3 anos.

PCC e CV disputam os corredores usados para levar drogas do Paraguai e da Bolívia aos grandes centros consumidores e aos portos de exportação. A extensa fronteira seca torna Mato Grosso do Sul especialmente cobiçado pelas facções. O domínio das cidades e rodovias da região significa também controlar por onde passa a droga e para onde ela seguirá. Fora de São Paulo, o Estado é o que tem mais integrantes do PCC, segundo o Ministério Público. A facção domina há anos a rota tradicional por Ponta Porã. O CV, historicamente mais forte no vizinho Mato Grosso, avançou para Mato Grosso do Sul em busca dessas mesmas rotas. À medida que o CV avançou sobre áreas de domínio do PCC, a disputa ficou mais violenta.

Os Estados Unidos já classificaram PCC e CV como organizações terroristas. Este jornal considerou a decisão legítima à luz das leis americanas, mas inadequada à realidade jurídica brasileira. A discussão quase bizantina sobre a classificação das facções não pode, porém, servir para desviar a atenção do essencial.

O País já dispõe de instrumentos para enfrentar esses bandos criminosos e conhece há muito tempo suas rotas e seus métodos. A defesa da soberania, nesse caso, dispensa bravatas contra Washington. Exige que o País faça a sua parte no combate às facções.

O governo federal e o do Mato Grosso do Sul dizem atuar de forma integrada. A escalada da violência mostra que é preciso fazer mais. Inteligência, fiscalização das rotas, cooperação com os países vizinhos e asfixia financeira das facções são tarefas urgentes, para que se evite no futuro o constrangimento de, mais uma vez, outro país recomendar a seus cidadãos que evitem uma parte do Brasil por causa do avanço das facções.

Setor privado precisa estar atento à adaptação climática

Por Valor Econômico

A coordenação entre governos e o setor privado na antecipação de desastre pode fazer a diferença em um mundo cada vez mais quente

As notícias sobre a ameaça do “super El Niño” — apenas dois anos após as devastadoras enchentes no Rio Grande do Sul — “acordaram” a sociedade para os impactos do fenômeno climático. Mas a crise climática não é apenas social, é também econômica e atinge todos os setores produtivos. A vulnerabilidade climática impõe riscos e aumentos de custos às empresas — micro, pequenas e grandes. Com os impactos das mudanças climáticas cada vez mais presentes no cotidiano de todas as partes do mundo, as empresas precisam incluir a avaliação de riscos nas discussões operacionais e de investimentos e o quanto elas estão preparadas para enfrentar a ocorrência de eventos climáticos extremos.

As companhias passaram décadas basicamente focadas na eficiência operacional e recentemente estão descobrindo que eficiência sem resiliência é como um castelo de cartas diante de um evento extremo — que pode paralisar uma fábrica por 30, 60 ou 90 dias, seja por impacto direto na unidade ou porque as vias de escoamento da produção estão bloqueadas. Adaptar-se à nova realidade do clima é urgente. Assim como o setor público (federal, estadual e municipal) parece estar começando a compreender que o preço de investir em adaptação é muito menor do que o custo da reconstrução pós-desastre, o setor privado também precisa acordar para a nova realidade climática: o custo de não agir tornou-se proibitivo, e pode definir a sobrevivência do negócio.

O setor de seguros e resseguros, por exemplo, já abandonou os modelos históricos e passou a precificar o risco de forma localizada, analisando o nível de exposição pelo CEP de cada imóvel, como consequência das indenizações bilionárias desembolsadas após eventos extremos recentes.

Mas o impacto climático não se restringe apenas à estrutura física da empresa. Como observou Marina Grossi em artigo no Valor (16/9), a resiliência das operações de uma empresa também depende da resiliência dos trabalhadores, das comunidades e dos territórios onde estão inseridas. As mudanças climáticas aumentaram a recorrência de ondas de calor, vendavais, chuvas intensas e enchentes que têm impacto na mobilidade das pessoas, na saúde (física e mental) e no custo dos alimentos. Depois do desastre de 2024 no Rio Grande do Sul, por exemplo, registrou-se um aumento no número de feminicídios, depressão e suicídios nas comunidades afetadas pelas enchentes. O El Niño daquele ano deixou sequelas mentais, algo que não se sabia antes, observou o meteorologista José Marengo (Valor, 10/8).

Ainda na saúde, os efeitos de uma onda de calor provocada pelo El Niño não acontecem na hora, mas depois, com aumento de infartes, acidentes cardiovasculares e desidratação. Os incêndios provocados pela seca e o calor aumentam os atendimentos nos pronto-socorros por doenças respiratórias, enquanto em locais afetados por alagamentos e enchentes, a água contaminada favorece surtos de doenças do aparelho digestivo. Tudo isso resulta em mais internações e um número maior de óbitos em relação à média histórica de anos sem a ocorrência do El Niño, o que se traduz em um aumento nas ausências do trabalhador e menor produtividade nas empresas. O impacto climático é, portanto, socioeconômico, e a agenda de adaptação para proteger a atividade produtiva deve ser também uma agenda de desenvolvimento social, uma vez que afeta com maior intensidade as populações mais vulneráveis, mais dependentes de serviços públicos essenciais.

No fim de julho, o governo brasileiro liberou R$ 1,3 bilhão para ações de enfrentamento aos efeitos do El Niño. Desse montante, R$ 998 milhões serão destinados a ações nas áreas de abastecimento de alimentos, segurança alimentar, saúde e monitoramento hidrológico. O restante será utilizado para financiar ações de prevenção e combate a incêndios florestais, além de reforçar a fiscalização ambiental. Trata-se de um valor ainda muito aquém do necessário para enfrentar o desafio das mudanças climáticas. Dois estudos relacionados produzidos pelo Centro Internacional Celso Furtado (Cicef) com apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS) apontou que chuvas e secas extremas provocam perdas anuais de aproximadamente R$ 110 bilhões por ano ao PIB brasileiro, enquanto o gasto climático representa apenas 1% do orçamento total das despesas primárias e dos gastos tributários federais no período de 2019 a 2024 (Valor, 20/4).

Como 95% do orçamento público é engessado por despesas obrigatórias, o setor privado pode ajudar a acelerar a corrida contra o tempo para aumentar a resiliência das comunidades do entorno aos extremos climáticos e ajudar a proteger o futuro do negócio, preservando empregos e a atividade econômica local. A capacidade de coordenação entre governos e o setor privado na antecipação de desastres — porque não há recursos infinitos, públicos ou privados, para reconstruções sucessivas — pode fazer a diferença em um mundo cada vez mais quente e sujeitos a eventos climáticos extremos. A natureza não negocia.

Assédio eleitoral segue ameaçando a democracia

Por Correio Braziliense

Trata-se de ameaça explícita à essência da democracia, que exige resposta célere e à altura. Punir os coronéis da modernidade é manter viva a confiança na legitimidade do processo eleitoral

Dia de eleição na República Velha. Reunidos nos chamados currais eleitorais, homens festejavam até serem levados à seção e exercerem o restrito direito ao voto. Escolhiam os escolhidos por terceiros e, por isso, passaram a ser conhecidos como eleitores de cabresto — em referência ao arreio colocado na cabeça de cavalos e bois para guiá-los. Com os avanços civilizatórios — incluindo a implementação do voto secreto e da participação das mulheres no pleito —, a prática foi perdendo força no Brasil, mas definitivamente não ficou no passado. Vai ganhando nova roupagem, desvirtuando o princípio da igualdade democrática e desafiando a Justiça, que alerta, inclusive, sobre o aumento em curso desse tipo de crime.

Desde o início deste ano, a Procuradoria-Geral do Trabalho recebeu 463 denúncias de assédio eleitoral, quase cinco vezes mais do que foi contabilizado no mesmo período das eleições presidenciais de 2022. A tendência é de que os casos explodam em outubro, seguindo o acirramento da disputa pelo segundo turno. Em 2022, das 3.371 denúncias registradas, 2.639 (quase 80%) se deram no mês do pleito. Mesmo sem terminar, este setembro acumula 199 denúncias, praticamente a soma de agosto (135), julho (46) e junho (26). 

Um outro levantamento, da Justiça do Trabalho, detalha como se dá o assédio eleitoral nos dias de hoje. Tendo como partida os dados de 2023, concluiu-se que a maioria dos crimes ocorre de forma virtual — sendo o WhatsApp o principal meio tecnológico utilizado. O curral agora é digital, com pressão para a participação em grupos de propaganda política, para o envio de conteúdos eleitoreiros e até a exigência de colocar referências a candidatos no status pessoal — uma releitura dos famosos "santinhos".

Junta-se à prática o que especialistas chamam de terror psicológico, com narrativas catastróficas a partir do resultado do pleito. A diferença é que a nova coação conta com a inteligência artificial (IA) para alimentar a desinformação em larga escala, mitigando suspeitas quanto à veracidade das ameaças. Tende a funcionar. De tão sofisticados, os deepfakes e outras armadilhas tecnológicas deixam até especialistas cismados, que dirá o trabalhador preocupado em não perder a subsistência. Ao Correio, a procuradora do trabalho Geny Helena Marques traz outra facilidade que evidencia a perversidade da prática: a maioria dos assediadores emprega profissionais mais vulneráveis, como prestadores de serviço em vigilância e limpeza.

Há de se reconhecer o esforço da Justiça e do Ministério Público para coibir o assédio eleitoral. Firmou-se, por exemplo, parceria para o compartilhamento de dados, recebimento de denúncias e articulação interinstitucional. Ainda assim, até pela velocidade com que o assédio se propaga, cresce a sensação de pleito sem lei, ao ponto de assediadores exibirem o crime nas redes sociais sem qualquer tipo de constrangimento. Trata-se de ameaça explícita à essência da democracia, que exige resposta célere e à altura. Punir os coronéis da modernidade é manter viva a confiança na legitimidade do processo eleitoral e, sobretudo, na inadmissibilidade de retrocessos humanitários.

A Assembleia da ONU e o discurso do Brasil

Por O Povo (CE)

A Organização das Nações Unidas (ONU) realiza sua 81ª Assembleia Geral, a partir de hoje, em meio a um dos contextos mais desafiadores da história. Como é tradição, o discurso de abertura será feito pelo presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, como reconhecimento ao papel histórico da diplomacia de nosso país, muito embora a razão objetiva dessa escolha não seja conhecida oficialmente.

Depois vem o representante dos Estados Unidos, como país anfitrião, e a partir daí os chefes de Governo se revezam da tribuna, em ordem de participação definida pelas letras do alfabeto.

Os líderes mundiais de hoje têm a responsabilidade de encontrar caminhos que levem ao restabelecimento da normalidade perdida em meio a guerras, conflitos, desencontros, enfim, de um quadro no qual se tem buscado ressaltar diferenças quando o adequado seria fortalecer semelhanças. Nenhum palco é mais útil ao teatro da geopolítica global do que o plenário da ONU, com seus 191 Estados-membros, a partir do que é dito em suas reuniões anuais, a despeito da perda de importância que marca o espaço nos últimos anos.

O momento exige uma espécie de freio de arrumação que recoloque as coisas nos trilhos e reduza as tensões que se espalham por todos os continentes, praticamente. Mesmo a América do Sul, que em outros tempos se mantinha distanciada das tensões bélicas, tem sido envolvida em situações que já não se consegue resolver pela conversa. Especialmente como efeito de um interesse do governo dos Estados Unidos de, nas palavras do secretário Marco Rúbio, que toca a política diplomática do país, recuperar "o seu quintal".

Diante do cenário, permeado por situações como as guerras que se espalham mundo afora, resta esperar que seja aproveitada da melhor forma possível a oportunidade rara que apresentam encontros como este na sede da ONU, nos quais a palavra ocupa o espaço da arma como instrumento de convencimento.

Claro que há uma dificuldade inicial, expressa no perfil dos líderes atuais de países determinantes para o fracasso de esforços que mirem a paz como prioridade, exemplos evidentes, e referenciais, de nomes como Donald Trump, dos Estados Unidos, e Vladimir Putin, da Rússia. Duas figuras controversas, citáveis entre muitos da realidade política contemporânea, cujos comportamentos ajudam a explicar o ar favorável às guerras e aos conflitos que se respira no mundo da atualidade.

Para além dos discursos que se repetirão ao longo dos próximos dias, uns sob atenção da comunidade internacional e outros sem qualquer holofote a acompanhá-los, espera-se que os encontros ocasionais que acontecem pelos corredores da Organização, cuja sede fica em Nova York, nos Estados Unidos, possibilitem diálogos diplomáticos para situações nas quais a disputa militar tem prevalecido. Ambiente melhor para que isso aconteça, admitamos, não há. 

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