segunda-feira, 17 de agosto de 2026

A eleição será decidida pelos endividados, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Candidatos precisam apresentar propostas para 50% da população que está com nome sujo na praça

Entre vários números preocupantes da economia brasileira, um deles é dramático: o país tem 83,9 milhões de pessoas negativadas no Serasa. Isso significa 51% dos CPFs ativos atualmente. E, à exceção dos menores de 18 anos e dos maiores de 70, a maioria desses endividados vai votar em outubro. São eles que decidirão quem subirá a rampa do Palácio do Planalto em 5 de janeiro de 2027.

Nas eleições americanas de 1992, o consultor político James Carville deu um conselho ao jovem democrata Bill Clinton, que desafiava George H. Bush em sua tentativa de reeleição: “É a economia, estúpido”.

A mensagem, escrita em letras garrafais num cartaz pregado na parede do comitê de campanha em Little Rock, Arkansas, lembrava ao candidato que ele deveria sempre destacar os efeitos da recessão sobre a população durante entrevistas e debates. A tática deu certo. Clinton derrotou Bush e desde então o mote vem sendo repetido a cada pleito, em qualquer lugar do mundo.

De lá para cá, porém, as questões econômicas vêm influenciando as escolhas dos cidadãos de formas diferentes, pois nem sempre variáveis como inflação e emprego são indicativos diretos do bem-estar da população.

Na disputa de 2024, a inflação nos Estados Unidos tinha caído de 9,1% no auge do pós-pandemia, em junho de 2022, para 2,4% ao ano. Já a taxa de desemprego estava em 4%, patamar considerado de pleno emprego. No entanto, mais do que a senilidade, a economia foi considerada determinante para a desistência de Joe Biden e o retorno de Donald Trump à Casa Branca.

Naquela época, “affordability” foi o termo utilizado para resumir a insatisfação do eleitor com a situação econômica. Apesar do sucesso do Fed em conter a inflação sem agravar o desemprego, os reajustes de preços acumulados ao longo da gestão Biden, assim como as taxas de juros, elevadas em relação a seu padrão histórico, afetavam drasticamente a capacidade de pagamento dos consumidores.

Aqui no Brasil, talvez estejamos observando fenômeno similar. A inflação, ainda que acima do centro da meta, está relativamente sob controle (4,44% ao ano) - o que é um mérito, considerando o choque na cotação do petróleo depois do início da guerra no Oriente Médio. O desemprego, em 5,4%, continua entre os mais baixos da série iniciada em 2012.

Ainda assim, a avaliação do governo e a intenção de voto em Lula patinam. E a explicação para isso pode estar no endividamento expressivo e na preocupante inadimplência prevalentes entre os brasileiros.

O raciocínio é simples: mesmo com uma taxa de ocupação elevada - tanto entre os formais e os MEIs, quanto nos sem carteira que complementam com bicos os benefícios governamentais - e com a contenção da pressão altista dos preços nos supermercados, as pessoas estão estranguladas com os boletos em atraso e os pagamentos de juros, que vêm sendo reduzidos em doses homeopáticas pelo Copom.

Não é à toa que as pesquisas têm captado que medidas do governo como a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais, o Desenrola e o fim da taxa das blusinhas têm tido fôlego curto na avaliação dos eleitores.

As causas para chegarmos a este ponto podem ser resumidas em três forças. De um lado, aproximadamente 40 milhões de indivíduos se bancarizaram a partir da pandemia graças ao auxílio emergencial, à popularidade do Pix e à proliferação dos aplicativos bancários. Como esse novo público era em sua imensa maioria de baixa renda e escolaridade limitada, sem conhecimentos básicos sobre os produtos financeiros, tornou-se presa fácil de ofertas de crédito abusivas de bancos e fintechs - sim, o sistema financeiro tem bastante culpa pela inadimplência recorde. Para piorar, bets e canetas emagrecedoras (legais e ilegais) induziram novas rodadas de descontrole das finanças pessoais.

Apesar de o endividamento ser um dos principais problemas do país, não se veem nas declarações dos candidatos à Presidência da República propostas concretas para lidar com esse problema de dezenas de milhões de pessoas e centenas de bilhões de reais.

Discutir saídas para a armadilha da inadimplência é um imperativo social, econômico e financeiro.

Social, porque são milhões de brasileiras e brasileiros que vivem estressados vendo seus ganhos serem corroídos por juros extorsivos.

É também um desafio econômico, pois o endividamento drena recursos que poderiam ser empregados no consumo, estimulando setores que estão rateando.

Por fim, é preciso conter a escalada da inadimplência para evitarmos uma crise bancária. Quem alerta é o Fundo Monetário Internacional, que na sua mais recente avaliação sobre a estabilidade do sistema financeiro (FSAP, na sigla em inglês) brasileiro recomendou a adoção de práticas responsáveis de concessão de crédito e limites mais rígidos na rolagem das dívidas.

Economistas do mercado cobram de Lula e seus adversários soluções para estabilizar a dívida do governo. No entanto, um desafio muito mais complexo e urgente está em outro tipo de endividamento: o das famílias. E sobre ele quase ninguém fala.

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