O Estado de S. Paulo
Como mudar a sociedade sem fazer terra arrasada das instituições – liberal-democráticas – que nos trouxeram até aqui?
A transmissão e a recepção de uma cultura política no ocaso constituem tema espinhoso, especialmente quando “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Revisitar tais processos, no entanto, pode ser útil quando menos porque por aí ronda a tentação da novidade pela novidade. Os arautos da perdição asseveram não só que a Carta de 1988 é papel velho, mas também que existem demiurgos capazes de propor soluções para transformar maus políticos e cidadãos desavisados em figuras republicanas irretocáveis.
A cultura antiga a que me refiro é a do
comunismo brasileiro, em particular a do PCB. Tornada objeto histórico no seu
conjunto, deixou como legado pontos de referência vivos e incontornáveis. O
modo como essa cultura foi recebida – às vezes incorporada, outras tantas
recusada – seria obra, entre outros atores, da formação partidária que a sucede
no tempo e marca, como nenhuma outra, o nosso século 21. Por isso, a
revisitação não é uma operação interna à própria esquerda – PCB e PT –, o que
por si só chamaria a atenção, mas algo que afeta o entendimento da política
corrente.
É possível encontrar um desses marcos
incontornáveis num ensaio de 1979 escrito por Carlos Nelson Coutinho, em plena
saída do autoritarismo. Seu título, tornado quase canônico, na verdade vinha de
Enrico Berlinguer, dirigente do Partido Comunista Italiano. A “democracia como
valor universal” cancelava, ou devia cancelar, o qualificativo “burguesa” com
que muitos à esquerda ainda a tratavam. Instituições, regras e procedimentos
contam – e muito. Na linguagem da época, não haveria um caminho democrático
para o socialismo. A democracia seria, de fato, o caminho do socialismo, com
exclusão de soluções anacrônicas, como, para dar exemplo à mão, uma
inadmissível “ditadura do proletariado”.
A história de um país não se faz com um
ensaio ou os debates que suscita. Seguiram-se movimentos de massa, a eleição de
Tancredo Neves, a Constituinte e a Nova República. A troca de bastões, à
esquerda, era visível a olho nu. O contraste não podia ser mais nítido: o PCB
apoiara Tancredo e, reduzido a uma pequena bancada, empenhou-se na elaboração
da nova Constituição; o PT expulsara os deputados que foram ao Colégio
Eleitoral e, não obstante sua participação, votaria contra a redação final da
Carta. No entanto, tradições envelhecem e merecem perecer. Os comunistas já
eram o passado que só volta por seus pontos de luz. O que irrompia era uma nova
força: o PT, seu líder inquestionável, sua teoria de Brasil em que confluíam
muitos elementos díspares, inclusive a desconfiança em relação à “democracia
formal”.
Formas institucionais não seduzem o ator
jovem tomado pela vontade de se afirmar contra todo o passado e abrir um tempo
inaugural. É aqui que se insinuam algumas das muitas maneiras de viver e
propagar a antipolítica, como o viés salvacionista ou a pretensão do monopólio
das virtudes públicas. Numa visão benévola, seriam as dores do parto da nova
formação, ainda antes de tomar a estrada do amadurecimento. Mais
realisticamente, costuma-se apontar nestes casos o predomínio de um “espírito
de cisão” que, deixado a si mesmo, faz cometer erros mais ou menos graves –
entre eles, acreditar piamente na própria excepcionalidade e abominar o mundo
comezinho de alianças e compromissos.
Neste ponto é que nos ocorre a lembrança de
uma segunda voz dotada de imensa autoridade. A vitória petista de 2002, início
de um inédito ciclo que, com interrupções, vem até hoje, não foi acontecimento
exótico numa democracia moderna. Luiz Werneck Vianna, no calor da hora, apontou
que terminava ali, de uma vez por todas, a sedução da aventura fora da política
democrática. Em resumo, não somos um país de fracassos, uma sociedade fechada
aos “de baixo”, um Estado que não inclui quem aceita as regras do jogo.
Ao contrário, Werneck Vianna, talvez o mais
destacado formulador marxista da política de frente, indicava a possibilidade
de uma absolvição da História por parte dos vencedores de 2002, seus
intelectuais e a cultura que, com avanços e recuos, estavam a propor. Nesta
reconciliação – e no bom combate para dirigir uma sociedade complexa e plural
–, residia a esperança de superação dos traumas deixados por uma modernização
aos trancos e barrancos, com as injustiças com que todos temos de nos haver
cotidianamente. Uma modernização sem o moderno, ainda segundo nosso autor.
Nem todas as provas foram vencidas com
louvor, muito pelo contrário. As insuficiências explicam este momento de
cansaço cívico e existencial. Estamos presos a uma sensação de democracia
incompleta e precocemente envelhecida, estimulando os cavaleiros da fortuna a
explorar os flancos expostos. Apatia e polarização “congelada” convivem numa
mistura insólita, o que reforça a oportunidade de consultar as vozes que nos
antecederam. Ouvi-las não significa repetir suas respostas. Preservado o núcleo
de tais respostas, cabe recuperar a pergunta original: como mudar a sociedade
sem fazer terra arrasada das instituições – liberal-democráticas – que nos
trouxeram até aqui?
*TRADUTOR E ENSAÍSTA, COEDITOR DAS ‘OBRAS’ DE GRAMSCI NO BRASIL

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