O Globo
Em terceiro mandato, petista não cultivou
arco democrático que o elegeu
Em 2022, quando derrotou Jair Bolsonaro por
uma pequena margem de votos, Lula leu mal o resultado. O que era uma vitória
apertada vinda de um arco democrático, o PT e Lula tomaram como uma
consagração. Consagração foi, afinal o sujeito passou quase dois anos na cadeia
acusado de corrupção e se elegeu presidente pela terceira vez. É vitória para
ninguém botar defeito, mas não é suficiente.
Lula 3.0 não cultivou o arco democrático que o elegeu. A diferença entre o arco democrático e a coligação governista pode ser testada pelo lugar onde fica o ex-ministro Pedro Malan. Ele pertence ao arco, mas não pertence ao bloco que poderia ser chamado de governista.
O PT desperdiçou a oportunidade de governar
com uma coligação mais inteligente e criativa do que a pobre polarização em que
se caiu.
Faltando menos de dez dias para o primeiro
turno ele acordou. O eleitor também acordou. Se não é ele, é Bolsonaro. O
antipetismo que elegeu o ex-capitão em 2022 encolheu em 2026, até porque
surgiram fatos que alimentam um antibolsonarismo. No início de outubro de 2018,
Bolsonaro tinha 32% das preferências, segundo o Datafolha. O petista Fernando
Haddad tinha 21%. Aquele Brasil bolsonarista desmanchou-se, mas não acabou.
Lula vive um paradoxo, é o candidato que vai
melhor nas pesquisas, mas seu governo é mal avaliado por 40% contra e 34% a
favor, segundo o último Datafolha.
Lula revelou um certo cansaço com a campanha.
Não era fadiga física, era cansaço do modo campanha. Um sinal desse cansaço é o
bordão desafiador: “É esse país que vocês querem?” O eleitor sabe que é ele
quem manda, não é preciso ser desafiado.
De certa maneira, Lula foi capturado pela
polarização bolsonarista. Podendo ampliar sua base, estreitou-a ou engordou-a,
recorrendo ao Centrão.
Faltou criatividade ao petismo, mas ele teve
a sorte de ganhar um adversário incapaz de formular uma ideia nova ou de buscar
um novo aliado.
Ministro folião
Em 24 de fevereiro de 2024 publicou-se aqui a
seguinte nota:
“O ministro Kassio Nunes Marques é um folião
aplicado. No último carnaval esteve em Salvador, de onde voou para o Rio e
assistiu o desfile de segunda-feira no camarote Arpoador. Hospedou-se no Fasano
e moveu-se naquilo que chamou de ‘nosso aviãozinho’.
Na segunda-feira desfilou a Mocidade
Independente, cujo patrono é o contraventor Rogério Andrade. Em agosto de 2022,
Nunes Marques revogou a prisão preventiva de Andrade, em decisão confirmada por
seus colegas da segunda turma do STF. O sobrinho do falecido Castor de Andrade
não pôde desfilar com sua tornozeleira eletrônica. Contentou-se vendo Fabíola,
sua mulher, passar pela Sapucaí como rainha da bateria.”
Passou o tempo e soube-se mais. Quem cacifava
todo o carnaval do ministro era o banqueiro Daniel Vorcaro.
No carnaval seguinte, Nunes Marques voltou a
ser mimado pelo banqueiro.
Vorcaro se valia dos serviços de uma senhora
chamada Rayanna. No dia 28 de fevereiro ela informou a Vorcaro:
“As meninas estão prontas” e ele deu-lhe um
endereço. Uma semana depois, uma menina cobrava pelos serviços que prestou a
“kassio”. Coisa de “10 né”.
Nunes Marques nega ter recebido esses favores
e diz que nunca votou em caso que envolvesse o banco Master.
Além dos favores noturnos, Daniel Vorcaro
tinha também um expediente diurno com cifras do andar de cima. O contrato de
serviços advocatícios da mulher de um desembargador pagava até R$ 427 milhões.
O apartamento para onde deveriam ir as
“meninas” pertencia a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, o maior doador pessoa
física da campanha de Tarcísio de Freitas para o governo de São Paulo, em 2022,
com R$ 2 milhões, e de Jair Bolsonaro, com R$ 3 milhões. Zettel está preso.
Supremo
A corrosão do STF está pior do que se
imaginava. Falta pouco, muito pouco, para que algumas excelências saiam no
tapa.
A única mulher do Pretório Excelso é a
ministra Cármen Lúcia, que não usa toga acetinada nem vai a farofas no
além-mar. Já na bancada masculina, com pelo menos três machos alfa (Gilmar, Fux
e Toffoli), a qualquer momento o tempo pode fechar.
Na origem dos desentendimentos há uma forte
carga de ciúme, que os homens gostam de atribuir às mulheres.
Uma maneira de baixar a tensão seria combinar
com Gilmar Mendes que ninguém o investiu na função de bedel da Corte.
Até porque se fosse para ter bedel, a sério,
esse personagem seria o servidor mais atarefado de Brasília.
Presidente na ONU
Desde que a ONU existe as assessorias dos
presidentes brasileiros torcem para que seus discursos na assembleia geral
tenham alguma repercussão na imprensa americana. Perda de tempo.
Nos anos 80 do século passado era embaixador
na ONU Sérgio Corrêa da Costa, um diplomata de vitrine. Durante meses ele
cultivou o chefe da seção de editoriais do The New York Times.
Em setembro de 1982 o presidente João
Baptista Figueiredo foi à ONU, discursou e o Times gostou. O jornalista ligou
para o embaixador e avisou-o de que no dia seguinte teria uma boa surpresa.
No dia seguinte o Times publicava um
editorial elogiando o discurso do general João Baptista Figueiredo. Começava
assim:
Está certo o presidente “José Figueiredo...”
Não se falou mais no assunto.
Um veterano do New York Times lembra que não
eram comuns editoriais tratando do Brasil. Um dos mais falados foi publicado no
dia 3 de abril de 1964. Seu título dizia tudo: “Finis for Goulart:” chamava o
ex-presidente de “incompetente” e “irresponsável”.
Com toda probabilidade, o autor do editorial
é o jornalista Herbert Matthews, famoso por ter entrevistado Fidel Castro no
alto da Sierra Maestra em 1958, quando o governo dizia que ele estava morto.
Matthews era quem cuidava da América Latina.
Tarcisio no 1º turno
Uma eventual vitória do governador Tarcísio
de Freitas no primeiro turno pode atrapalhar a vida de Flávio Bolsonaro no
segundo turno. Sobretudo se no dia 25 de outubro der praia.
A carta das apostas
As casas de apostas que compraram outorgas ao
governo por R$ 2,5 bilhões vão brigar na Justiça para recuperar a franquia ou
receber o dinheiro de volta.
Os deuses do jogo maltrataram as casas de
apostas. Jogaram no colo da Justiça a proteção às casas de tavolagem.
Era tudo o que a magistratura não precisava.

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