Folha de S. Paulo
Acordo de Trump com Maduro sobre petróleo
segue a mesma lógica do que ele propõe a Flávio para o Brasil
'Madurismo entreguista' e 'bolsonarismo' são
sinônimos perfeitos
Por uma dessas ironias latino-americanas, o
Brasil vai virar a Venezuela
se Flávio
Bolsonaro for eleito presidente. Com Lula presidente, nunca virou.
Desde a invasão americana, o regime
venezuelano pode ser caracterizado como um madurismo entreguista.
Ora, "madurismo entreguista" e
"bolsonarismo" são sinônimos perfeitos.
Se você tirar de Maduro seu anti-imperialismo e seu bigode, ele estará a uma peruca do Jim Caviezel de distância de virar o Jair. Já poderá, inclusive, pedir dinheiro ao Vorcaro.
Ao contrário do que esperava a direita
venezuelana, Trump deixou a ditadura madurista em paz, em troca de um acordo
que permite aos americanos roubar o petróleo venezuelano ("ao vencedor, os
espólios", disse Trump na ONU).
Nenhum governo venezuelano que dependesse de
voto popular poderia oferecer a Trump um acordo tão lesivo à Venezuela.
Quando o acordo foi divulgado no dia 28 de
agosto, Ricardo Hausmann, professor de economia em Harvard e membro da oposição
venezuelana, postou no falecido Twitter:
"Secretário Marco Rubio:
você acaba de perder qualquer confiança que os venezuelanos tinham em você, e
isso ainda voltará para lhe assombrar. Você optou por usar o poder dos Estados
Unidos, não para libertar a Venezuela, mas para ir para a cama com
nossos opressores".
Por outra dessas ironias latino-americanas,
os dois grupos políticos sul-americanos com mais raiva de Marco Rubio neste
exato momento devem ser o PT e a direita venezuelana.
Nos últimos meses, antigos assessores de
Paulo Guedes andaram pela Faria Lima prometendo cortes de gastos gigantescos se
Flávio for eleito. Ignore, por um momento, o quão pereba o sujeito precisa ser
para ser reserva no time em que o Guedes é titular. Deixe de lado, também, o
fato de que a essa altura, em 2018, o plano econômico do Guedes era zerar a
dívida pública em um ano vendendo os imóveis da União.
O verdadeiro programa econômico de Flávio foi
escrito em Washington.
Em resumo, a proposta de Trump é que o Brasil
compre tudo dos Estados Unidos mesmo que os chineses cobrem mais barato; e
vendam tudo para os Estados Unidos mesmo que os chineses aceitem pagar mais
caro. Teremos que pedir permissão para vender nossos minérios, desistiremos do
Pix e compraremos aviões americanos piores que os feitos pela Embraer. Em
outros termos, todos os setores internacionalmente competitivos da economia
brasileira terão que começar a trabalhar para enriquecer os americanos.
O próprio Marco Rubio já nos contou que
Flávio Bolsonaro concordou em estabelecer um comitê de transição, após as eleições,
para implementar o plano.
Em entrevista recente ao ICL, o cientista
político Steve Levitsky, autor, com Daniel Ziblatt, do já clássico "Como
as Democracias Morrem", afirmou que há um risco real de Trump não
reconhecer uma vitória eleitoral de Lula.
Isso daria margem a novas ofensivas da
extrema direita global contra a democracia brasileira.
Afinal, Trump vê o autoritarismo da família
Bolsonaro como uma vantagem, pelos mesmos motivos que o fazem gostar do
autoritarismo madurista. Nenhum governo brasileiro que dependa de voto popular
poderá oferecer a Trump um acordo tão lesivo ao Brasil quanto o que Flávio já
prometeu aceitar.

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