segunda-feira, 28 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Existem boas ideias na educação — só falta espalhá-las

Por O Globo

Resultado do Pisa mostra que aluno valoriza os professores e costuma receber atenção deles

Nem tudo é má notícia na educação brasileira. Pelo menos a motivação dos professores é valorizada pelo aluno, como constatou a última edição do Pisa, a avaliação internacional promovida pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). No ano passado, 82% dos estudantes avaliaram positivamente seus professores, mantendo o patamar verificado em 2015 (81%). Para 78%, os docentes persistem até que o aluno entenda a lição. E 76% afirmam receber ajuda adicional, fora do tempo de aula, para compreender a matéria. Nesses quesitos, os alunos brasileiros tiveram desempenho melhor ou comparável aos da OCDE.

A metástase institucional do caso Master, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

O passivo de ilícitos passa a sobredeterminar as relações entre os três Poderes e vira moeda de troca

Presidentes, ministros e parlamentares agora calculam também os riscos de exposição e retaliação

As revelações mais recentes sobre Davi Alcolumbre acrescentam uma dimensão ainda mais grave à crise política atual. Seu comportamento podia ser explicado, em larga medida, pela dinâmica institucional de um presidente hiperminoritário diante de um Legislativo hostil. Nessa interpretação, Alcolumbre seria essencialmente o agente representativo de uma maioria parlamentar.

Essa explicação institucional não é falsa. Tornou-se, porém, claramente insuficiente.

Presença de mulheres na política fortalece a democracia, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Maioria no eleitorado, mulheres ainda ocupam espaço reduzido no poder

Candidatas negras enfrentam a pior taxa de conversão em mandato

Lá se vão 31 anos desde que a legislação eleitoral (lei nº 9.100/95) determinou que os partidos políticos devem reservar vagas para candidaturas de mulheres. Originalmente, a reserva mínima era de 20% e valia para as eleições de 1996.

No ano seguinte, a determinação foi alterada (lei nº 9.504/97) para abranger as eleições proporcionais em geral. Até que a minirreforma eleitoral (lei nº 12.034/2009) ampliou para 30% o percentual mínimo de candidaturas para cada gênero.

Dois litros por dia, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Nenhum jovem sai mais à rua sem uma garrafa d'água; seria como andar nu por aí

A pergunta é: onde ele despeja toda essa água que manda para dentro o dia todo?

O espetáculo salta aos olhos: o batalhão de jovens (jovens hoje são todos entre 10 e 40 anos) nas ruas com uma garrafa d’água. Ela pode estar num bolso da mochila, presa à alça da própria, levada na cintura ou mesmo nas mãos. O importante é ter o produto ao alcance de um gole. É como se sair de casa sem água fosse sair sem calças. Nenhum millennial será apanhado nessa condição.

Entre o sonho e o ressentimento, por Rosana Pinheiro-Machado*

Folha de S. Paulo /Ilustríssima

Percepção do papel do Estado na concretização das aspirações é decisivo no voto dos segmentos que aprenderam a desejar

Anseio de se tornar CEO de si próprio expressa, mais que ímpeto neoliberal, busca por dignidade em país que humilha pobres

Em uma análise da vitória recente da extrema direita nas eleições da Alemanha, Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, apontou que a balança comercial favorável e os empregos industriais não foram suficientes para prevenir o ressentimento daqueles que se consideram, em comparação com a média nacional, em desvantagem econômica.

A explicação desse fenômeno foi desenvolvida em um artigo de Laura Carvalho e Guilherme Klein, publicado nesta Ilustríssima, que analisa como bons indicadores da economia brasileira não se convertem em uma avaliação positiva do governo Lula (PT). Os economistas argumentam que a transformação das aspirações dos brasileiros e as novas comparações geradas por esse processo estão no centro da popularidade do presidente.

Analiso, aqui, como a capacidade de aspirar se expandiu dramaticamente entre os brasileiros nas últimas décadas. Essa mudança transformou o país e produziu efeitos não óbvios e contraditórios, cujas consequências políticas ainda não foram plenamente compreendidas, mas certamente vão estar em jogo nestas eleições.

Um assobio de amor na repressão, por Claudio Leal*

Folha de S. Paulo / Ilustríssima

Canção interpretada por Nara Leão venceu festival na TV em 1966 e virou fenômeno cultural

Versos do músico de 22 anos uniram país em fase traumática e foram louvados por Drummond

(Resumo) Em 10 de outubro de 1966, "A Banda" despontou da 2ª edição do Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, para a glória nacional, fazendo de seu autor, um jovem e tímido Chico Buarque de 22 anos, um ídolo de massa. Nos dias seguintes daquele ano, como conta a reportagem a seguir, a passagem da banda "cantando coisas de amor" foi um sopro de poesia em um Brasil acossado pela ditadura, seduzindo jovens, bicheiros, militares e nomes ilustres e díspares como Drummond, Nelson Rodrigues, dom Helder Câmara e Carlos Lacerda.

Uma canção de cinco estrofes, 33 versos e 190 palavras elevou Chico Buarque a ídolo de massa. Em 10 de outubro de 1966, "A Banda", de Chico, e "Disparada", de Theo de Barros e Geraldo Vandré, dividiram o primeiro lugar do 2º Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record.

O empate, solução ansiada por Chico, não as igualou em alcance. Defendida por Nara Leão, a marcha buarquiana virou um fenômeno cultural, como se a história da passagem de uma banda emanasse do imaginário brasileiro e a ele voltasse.

"Estava à toa na vida/ O meu amor me chamou/ Pra ver a banda passar/ Cantando coisas de amor// A minha gente sofrida/ Despediu-se da dor/ Pra ver a banda passar/ Cantando coisas de amor."

A odisseia de Chico, por Luiz Guilherme Piva*

Folha de S. Paulo / Ilustríssima

Obra de Homero parece ter marcado profundamente o músico, que levou Penélope e Ulisses para suas letras

Protagonismo de anti-herói odisseico redimido é característica distintiva de parte das canções de Chico

Quando publicou o conto "Ulisses", em 1966, Chico Buarque transformou o herói grego num sujeito simplório, com dificuldades profissionais, sonhador, meio tolo, desamparado, infantil, que volta para casa de alguma viagem como caixeiro-viajante, inglório, contando desventuras nas quais berra e bebe e briga — mas só na fantasia ou de mentira ou por malandragem— com monstros que o derrotam.

Encontra sua esposa, Penélope, fria e distante, muda, fazendo infinitamente seu tricô (como a heroína clássica), sem lhe dar atenção —afinal, ele pensa, ela deve esperar outro Ulisses, um herói de verdade. Ele quer que ela o reconheça como rei, mesmo com seus defeitos, e o acolha, console e abrace; quer que ela o bote no colo, maternal e compreensiva, e enxergue suas grandezas.

Poesia | Belo Belo, de Manuel Bandeira

 

Música | Elis Regina - Romaria