segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Filantropia brasileira enfrenta desafio, por Preto Zezé

O Globo

Quando o recurso chega à ponta, vem preso a rubricas que não pagam gestão nem quem mantém a luz acesa

Participei, na quarta-feira passada, em São Paulo, de um encontro do Think Tank do Bem, a convite de Elie Horn e Aron Zylberman. Desde 2024, o grupo estimula empresários a doar, iniciativa louvável num país com tamanha concentração de renda. Saí de lá com uma inquietação: todo mundo falava de financiamento e quase ninguém falava de território.

Quando falo em território, muita gente entende endereço, pedaço de chão, mancha no mapa. Não é disso que falo. Território é inteligência. É gente que administra crise todo dia sem ter feito curso de gestão, resolve conflito sem chamar mediador, pega o estigma e devolve carisma, trabalha na escassez e, ainda assim, produz abundância, com um saber que não veio dos bancos da universidade e resolve, no cotidiano, o que a teoria não resolveu. Governança territorial é essa inteligência viva dirigindo o que se faz naquele lugar.

O modelo atual manda o dinheiro para quem já está organizado, e quem está organizado quase nunca está no território. Ganha edital quem pode manter alguém dedicado a escrever projetos, o que exige um dinheiro que só existe porque já se ganhou antes. E, quando o recurso chega à ponta, vem preso a rubricas que não pagam gestão nem quem mantém a luz acesa; então, a organização se reformula para caber no formulário e acaba com o financiamento. Financia-se estrutura de fora e precariedade dentro, e à favela sobra o papel de público-alvo, coadjuvante da própria história.

Soma-se a isso a obsessão pela escala, como se Amapá e Rio Grande do Sul precisassem fazer a mesma coisa do mesmo jeito. Mas os fazeres são muitos, porque cada lugar aprendeu a enfrentar seus problemas com o que tinha à mão. A governança territorial não anula essa diferença para caber todo mundo na mesma caixa. Reconhece a solução de cada canto e conecta uma à outra, formando uma rede.

O Estado é burocrático porque segue normas e responde a órgãos de controle — esse é o papel dele. Mas vamos deixar o território à margem por causa disso? Vácuo não existe, e, onde o poder público não se organiza, outra força se organiza, como estamos vendo país afora. A filantropia tem uma vantagem: pode criar regras próprias, experimentar e assumir riscos, fortalecendo o que o território já inventou em vez de repetir o edital.

Isso muda a pergunta: não é o que financiar, mas o que esse financiamento será capaz de sustentar. Disse a Aron Zylberman, do Instituto Cyrela, que a doação precisa se conectar a um plano de negócio e funcionar como capital de partida, financiando autonomia em vez de dependência permanente, chegar à ponta com menos atravessadores e virar estrutura, gestão e renda.

Porque o social não é favor nem bondade apartada do negócio. Nas favelas, isso é evidente: o pequeno empreendedor emprega o vizinho, compra de outro morador, movimenta a renda local e, quando a crise chega, não tem área social para cortar.

Talvez seja esse o desafio da filantropia brasileira: fazer a doação deixar de ser alívio temporário e passar a financiar autonomia duradoura. O que está em jogo não é apenas quanto se doa, mas quanto chega e o que permanece depois que o dinheiro acaba. Território que recebe recurso do jeito certo não fica pedindo para sempre, começa a bancar o próprio caminho.

 

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