segunda-feira, 10 de agosto de 2026

China supera EUA na opinião pública, por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

Virada se deve menos ao avanço chinês do que ao desgaste acelerado da imagem dos EUA

A reputação internacional de um país é o tipo de ativo que leva décadas para ser construído e pode ser dilapidado em poucos anos. A mais recente pesquisa global do Pew Research Center, referência mundial em pesquisas comparadas de opinião pública, documenta esse processo em tempo real. Entre fevereiro e maio, o Pew entrevistou mais de 42 mil pessoas em 36 países. O resultado, divulgado no mês passado, marca uma virada histórica: na maioria deles, a China é hoje mais bem avaliada do que os Estados Unidos, que mantêm vantagem estatisticamente significativa em apenas seis nações – Índia, Japão, Filipinas, Coreia do Sul, Israel e Polônia. Nos 20 países acompanhados anualmente, a avaliação positiva dos Estados Unidos despencou de 58%, em 2023, para 36% neste ano; a da China foi de 32% a 46%.

Seria um erro, porém, ler esses números como o triunfo do soft power chinês. A queda dos Estados Unidos, de 22 pontos, foi muito maior do que o avanço chinês, de 14 – e concentrou-se justamente entre aliados históricos de Washington. No Canadá, a parcela com opinião favorável aos Estados Unidos encolheu de 57% para 33% em três anos, enquanto a da China alcançou 44%. Alemanha, França, Espanha e Austrália, onde tradicionalmente os EUA são vistos de forma positiva, seguiram caminho parecido. Na comparação entre líderes, Xi Jinping inspira hoje mais confiança do que Donald Trump, 31% ante 21%. Na mediana global, apenas 26% acham que o governo chinês respeita as liberdades individuais de sua população. Os Estados Unidos ainda vencem nesse quesito, com 39%, mas em queda livre – na Suécia, o índice desabou de 61%, em 2021, para 27%, e houve perdas de 25 pontos ou mais em Canadá, França, Alemanha, Itália, Holanda, Coreia do Sul e Espanha.

Isso não significa que a China não tenha o que comemorar. Nos 17 países de renda média pesquisados, sua vantagem é sólida. Na mediana deles, 69% descrevem a China como parceira confiável, ante 49% que dizem o mesmo dos Estados Unidos, e 75% veem Washington como potência que interfere nos assuntos alheios – percepção que apenas 45% associam a Pequim. Os extremos dão a medida da nova geografia: no Paquistão, 90% aprovam a China e 15%, os Estados Unidos; em Israel, a proporção praticamente se inverte, 81% ante 19%.

BRASIL. A América Latina acompanha o movimento global. A imagem dos Estados Unidos piorou no último ano em cinco dos seis países pesquisados na região. No México, 59% avaliam bem a China e 40%, os Estados Unidos – e a confiança em Xi, de 35%, é mais do que o triplo da depositada em Trump, de 11%.

O Brasil aparece dividido – 47% veem os Estados Unidos com simpatia, e 46%, a China, um empate técnico. Mais revelador é o corte ideológico. Entre brasileiros de direita, 58% avaliam bem os Estados Unidos, ante 30% dos de esquerda; com a China, o quadro se inverte – 57% de aprovação à esquerda, 40% à direita. As duas potências tornaram-se, também aqui, um capítulo da polarização doméstica. Em um ponto, porém, os brasileiros convergem: 76% dizem que os Estados Unidos interferem nos assuntos de outros países; 50% dizem o mesmo da China.

CONFIANÇA. O levantamento, portanto, descreve menos uma vitória de Pequim do que uma abdicação de Washington. Na mediana dos 20 países, a confiança no presidente dos Estados Unidos caiu de 54% para 21% entre 2023 e 2026. O prestígio político extraordinário de Washington, acumulado ao longo de gerações sobretudo na Europa, mas também em outras regiões do mundo, pode evaporar em poucos anos de tarifas contra aliados, de cortes de ajuda externa e de desprezo por parcerias antigas, além de ameaças contra a integridade territorial de países como Canadá, Panamá e Dinamarca.

Depois da posse de Biden, em 2021, o próprio Pew documentou com que rapidez a imagem dos EUA pode se recuperar quando a política muda. Dificilmente, porém, a reconstrução seria tão simples desta vez. O primeiro mandato de Trump, que em retrospectiva parece quase comedido, foi tratado pelos aliados como um acidente de percurso; o segundo vem sendo lido como sinal de algo mais duradouro. E quem se surpreendeu duas vezes não volta a confiar com a mesma facilidade – boa parte dos aliados já se organiza para depender menos de Washington.

MOMENTO. O problema acompanhará mesmo um futuro governo mais convencional. Enquanto houver a possibilidade de o eleitorado dos EUA devolver o poder a alguém como Trump, os parceiros hesitarão em confiar de novo. E essa dúvida chega em péssima hora – justamente quando Washington disputa com Pequim os corações e mentes do planeta na corrida tecnológica. Em dezenas de capitais, governos decidem neste momento quais sistemas de inteligência artificial vão adotar.

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