O Estado de S. Paulo
Virada se deve menos ao avanço chinês do que
ao desgaste acelerado da imagem dos EUA
A reputação internacional de um país é o tipo de ativo que leva décadas para ser construído e pode ser dilapidado em poucos anos. A mais recente pesquisa global do Pew Research Center, referência mundial em pesquisas comparadas de opinião pública, documenta esse processo em tempo real. Entre fevereiro e maio, o Pew entrevistou mais de 42 mil pessoas em 36 países. O resultado, divulgado no mês passado, marca uma virada histórica: na maioria deles, a China é hoje mais bem avaliada do que os Estados Unidos, que mantêm vantagem estatisticamente significativa em apenas seis nações – Índia, Japão, Filipinas, Coreia do Sul, Israel e Polônia. Nos 20 países acompanhados anualmente, a avaliação positiva dos Estados Unidos despencou de 58%, em 2023, para 36% neste ano; a da China foi de 32% a 46%.
Seria um erro, porém, ler esses números como
o triunfo do soft power chinês. A queda dos Estados Unidos, de 22 pontos, foi
muito maior do que o avanço chinês, de 14 – e concentrou-se justamente entre
aliados históricos de Washington. No Canadá, a parcela com opinião favorável
aos Estados Unidos encolheu de 57% para 33% em três anos, enquanto a da China
alcançou 44%. Alemanha, França, Espanha e Austrália, onde tradicionalmente os
EUA são vistos de forma positiva, seguiram caminho parecido. Na comparação
entre líderes, Xi Jinping inspira hoje mais confiança do que Donald Trump, 31%
ante 21%. Na mediana global, apenas 26% acham que o governo chinês respeita as
liberdades individuais de sua população. Os Estados Unidos ainda vencem nesse
quesito, com 39%, mas em queda livre – na Suécia, o índice desabou de 61%, em
2021, para 27%, e houve perdas de 25 pontos ou mais em Canadá, França,
Alemanha, Itália, Holanda, Coreia do Sul e Espanha.
Isso não significa que a China não tenha o
que comemorar. Nos 17 países de renda média pesquisados, sua vantagem é sólida.
Na mediana deles, 69% descrevem a China como parceira confiável, ante 49% que
dizem o mesmo dos Estados Unidos, e 75% veem Washington como potência que
interfere nos assuntos alheios – percepção que apenas 45% associam a Pequim. Os
extremos dão a medida da nova geografia: no Paquistão, 90% aprovam a China e
15%, os Estados Unidos; em Israel, a proporção praticamente se inverte, 81%
ante 19%.
BRASIL. A América Latina acompanha o
movimento global. A imagem dos Estados Unidos piorou no último ano em cinco dos
seis países pesquisados na região. No México, 59% avaliam bem a China e 40%, os
Estados Unidos – e a confiança em Xi, de 35%, é mais do que o triplo da
depositada em Trump, de 11%.
O Brasil aparece dividido – 47% veem os
Estados Unidos com simpatia, e 46%, a China, um empate técnico. Mais revelador
é o corte ideológico. Entre brasileiros de direita, 58% avaliam bem os Estados
Unidos, ante 30% dos de esquerda; com a China, o quadro se inverte – 57% de
aprovação à esquerda, 40% à direita. As duas potências tornaram-se, também
aqui, um capítulo da polarização doméstica. Em um ponto, porém, os brasileiros
convergem: 76% dizem que os Estados Unidos interferem nos assuntos de outros
países; 50% dizem o mesmo da China.
CONFIANÇA. O levantamento, portanto, descreve
menos uma vitória de Pequim do que uma abdicação de Washington. Na mediana dos
20 países, a confiança no presidente dos Estados Unidos caiu de 54% para 21%
entre 2023 e 2026. O prestígio político extraordinário de Washington, acumulado
ao longo de gerações sobretudo na Europa, mas também em outras regiões do
mundo, pode evaporar em poucos anos de tarifas contra aliados, de cortes de
ajuda externa e de desprezo por parcerias antigas, além de ameaças contra a
integridade territorial de países como Canadá, Panamá e Dinamarca.
Depois da posse de Biden, em 2021, o próprio
Pew documentou com que rapidez a imagem dos EUA pode se recuperar quando a
política muda. Dificilmente, porém, a reconstrução seria tão simples desta vez.
O primeiro mandato de Trump, que em retrospectiva parece quase comedido, foi
tratado pelos aliados como um acidente de percurso; o segundo vem sendo lido
como sinal de algo mais duradouro. E quem se surpreendeu duas vezes não volta a
confiar com a mesma facilidade – boa parte dos aliados já se organiza para
depender menos de Washington.
MOMENTO. O problema acompanhará mesmo um futuro governo mais convencional. Enquanto houver a possibilidade de o eleitorado dos EUA devolver o poder a alguém como Trump, os parceiros hesitarão em confiar de novo. E essa dúvida chega em péssima hora – justamente quando Washington disputa com Pequim os corações e mentes do planeta na corrida tecnológica. Em dezenas de capitais, governos decidem neste momento quais sistemas de inteligência artificial vão adotar.

Nenhum comentário:
Postar um comentário