segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Difícil moralidade, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

A sociedade brasileira acha-se, por assim dizer, anestesiada, congelada em termos de ética na política

Há muito tempo, talvez as pessoas nem mais se lembrem, havia um partido que defendia a ética na política, sendo ela uma bandeira ostentada com coragem. Insurgia-se contra os partidos, considerados de direita, que abocavam para si uma parte dos recursos públicos, navegando na ilegalidade e na impunidade. Clamava, com toda a razão, por uma regeneração da política, colocando-se como seu porta-voz e representante. Criou toda uma aura que marcou aquela época e lhe pavimentou o caminho para o poder. Ora, lá chegando, o PT começou a trilhar os passos daqueles que criticava, arriando a bandeira que deixou, assim, de tremular. Hoje, nem disso mais se fala.

Apesar da Lava Jato, que escancarou a corrupção e a imoralidade de Lula e do PT, e talvez por isso tenham os seus atores caído na desgraça, o atual presidente conseguiu assegurar a sua reeleição, com o partido perpetuando-se no poder. O então juiz Sergio Moro fez uma enorme contribuição à história do País, não tendo, apesar disso, sido reconhecido pelos seus enormes acertos. A moralidade, do ponto de vista da estratégia política, tornouse, então, um instrumento descartável, como se não mais tivesse nenhuma utilidade.

De nada adianta, diante dos assuntos recorrentes de imoralidade, como os mais recentes de seu chefe de Gabinete, Marcola, e de um senador muito próximo a ele, o presidente simplesmente declarar que foi declarado inocente em seu julgamento, como fez de novo recentemente. Age como se tivesse lições a dar. Sabe-se que isso não ocorreu, mas o que houve foi a anulação de seu processo por uma suposta falha processual, a de que teria havido um problema relativo à questão do “juiz natural”. Curioso que tudo isso foi “descoberto” anos depois, apesar do próprio Supremo Tribunal Federal (STF) ter reiterado que essa questão nem se colocava. As provas abundantes do sítio de Atibaia e do apartamento do Guarujá lá estão, embora nem mais se queira falar disso. O “mensalão” e o “petrolão” aí estão para quem quiser pensar. Em todo caso, a narrativa da inocência é uma mera fake news, segundo a linguagem atual.

O filho do presidente, Lulinha o pródigo, enfrenta uma série de acusações, que remetem ao escândalo do INSS e a tráfico de influência, com sua amiga lobista atuando junto ao Palácio do Planalto, em conluio com o “Careca do INSS”, arquiteto e principal operador dessa fraude. Deve ter acreditado que com tal apelido, nada nele colaria. São pessoas idosas que foram prejudicadas e, pasmem, foram ressarcidas com o dinheiro público, dos pagadores de impostos, como se assim Lula tivesse reparado a injustiça cometida. Pagou com os recursos dos outros a fraude de seu próprio governo. Assim, é fácil ser “justo”. Agora, tudo isto explode na sala ao lado de sua própria sala, na chefia do Gabinete, graças a uma pessoa de sua estrita confiança. Ademais, chegou a declarar que se trata apenas de um “empréstimo”! Na campanha, tudo é feito agora para isolar o presidente-candidato, como se a impunidade não fosse a marca de seus governos.

Do outro lado do espectro político, o seu opositor eleitoralmente mais importante nada tem a apresentar no que diz respeito à ética. Neste sentido, para além de sua falta de projeto nacional, escancarase a mesma ausência de moralidade. No passado, pairam sobre ele ligações com as milícias, a rachadinha que supostamente praticava e a compra mal explicada de uma mansão em Brasília. Trilhando o caminho de seu adversário, também achou que poderia contar com a tolerância ao crime, visto que condenações são demoradas e, quando ocorrem, são suscetíveis de anulações a exemplo da Lava Jato. Foi aí que o passo mais arriscado foi dado, o de suas relações com o “empresário”, hoje preso, Daniel Vorcaro.

Pretender que não houve nenhum problema em pedir dinheiro para um filme sobre o seu pai, estipulado em mais de R$ 120 milhões, tendo recebido em torno da metade disto, significa zombar da inteligência alheia. Justificar que nada sabia desse enorme crime financeiro, cometido por seu banqueiro de estimação, não fica literalmente em pé. Ainda ousou cobrar a outra metade não paga quando os seus crimes e fraudes já tinham se tornado públicos. Isso significa que o Brasil se encontra sem alternativa viável, salvo se alguns dos candidatos do segundo pelotão, Caiado, Renan e Zema, ainda consigam se tornar competitivos.

Note-se que o Brasil está num nível de polarização em que candidatos que não apresentam problemas jurídicos e de moralidade não são reconhecidos como alternativas no sentido estrito. A sociedade brasileira acha-se, por assim dizer, anestesiada, congelada em termos de ética na política. Vive-se uma descrença generalizada na classe política, que mais se preocupa consigo do que com os destinos do País. O Brasil corre um sério risco de enfraquecimento de suas instituições, pois se essas não produzirem adesão, sua existência termina por ser comprometida. A complacência com questões morais por parte dos eleitores pode cobrar o seu preço. •

 

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