quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Eleição descamba para temas aleatórios, por Vera Magalhães

O Globo

Captura da campanha por assuntos inflados artificialmente, como guerra religiosa que foi parar no STF, mostra falência da política e esgotamento da atual polarização

Quando parecia que a eleição deste ano não tinha como ficar mais distante dos problemas reais do país, ela foi dragada por uma escalada sem pé nem cabeça que começou num boato sobre Nossa Senhora Aparecida e terminou, como sempre e como tudo, no plenário do Supremo Tribunal Federal (STF).

A guerra santa se fundiu à guerra aberta entre ministros da Corte, num epílogo que nem as mentes mais criativas poderiam imaginar para uma campanha em que as atenções estiveram muito mais voltadas à lista de favorecidos por um banqueiro preso por fraude financeira que às propostas para o futuro do Brasil.

De uma hora para outra, uma nova sessão de um STF já conflagrado passa a ter tanta possibilidade de interferir nos rumos do pleito quanto o debate do dia seguinte entre os candidatos à Presidência da República.

Esse estado de coisas é prova cabal do esgotamento da polarização entre dois grupos políticos que falharam em acenar ao eleitor com esperança, combustível que costumava guiar o voto antes do ódio e do desejo de aniquilação do outro, sentimentos que se impuseram pelo menos desde 2018.

Por mais que indicações dadas por Flávio Bolsonaro de que, se eleito, poderia patrocinar ou incentivar discussões já propostas no passado, sem sucesso, para rever feriados católicos ou a designação de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil, a celeuma em torno disso foi inflada por Lula e pela esquerda de forma absolutamente bizantina.

Além de não ser fato que Flávio tenha efetivamente proposto algo nesse sentido, espanta que seja isso, e não um caminhão de outras coisas mais preocupantes que ele já disse efetivamente que fará — como indultar o pai e os demais condenados por tentativa de golpe —, a chocar os eleitores que professam essa ou aquela fé. Outra demonstração alarmante do descolamento em relação à realidade que tem guiado esta corrida eleitoral.

Que Lula, que sempre condenou, ao menos no gogó, o uso político da fé, tenha se aferrado a Nossa Senhora como um devoto que nunca foi é mais um indício do grau de desespero que tomou sua campanha e seu governo diante do risco concreto de derrota.

É inadmissível que um governante coloque no mesmo caldeirão doses cavalares de populismo fiscal, usando a tinta da caneta até não sobrar uma gota, e um proselitismo religioso indisfarçado para tentar recuperar terreno nos campos da popularidade e da intenção de votos. pratiSe são esses os remédios, resta a pergunta óbvia: o que esse político ainda tem a oferecer a um país com tantas carências? Por que se recusa a debater essas ideias, em vez de recorrer a mandrakarias?

E por que o temor de confrontar sua biografia, com três mandatos presidenciais e uma vida política escrutinada — para o bem e para o mal — há décadas, com a de um senador até ontem obscuro, cujas conquistas políticas até aqui derivam apenas e tão somente do sobrenome e com uma ficha corrida que também não foi trazida à luz nesta campanha marcada por obscurantismo e diversionismo.

Em vez de travarem esse embate de projetos e trajetórias olho no olho, os dois candidatos que lideram as pesquisas recorrem a ministros do STF cada vez mais alinhados a grupos políticos e a narrativas falsas sobre questões religiosas, que deveriam ficar fora dos palanques, porque não dizem respeito à definição de políticas públicas num Estado laico. É vergonhoso e perigoso ao mesmo tempo.

Parecia que o vexame de 15 de setembro seria o degrau mais baixo a que o Supremo desceria para que seus integrantes, entrincheirados, evitassem um mínimo de prestação de contas à sociedade sobre sua conduta e suas relações.

Mas não: a guerra santa das redes sociais foi transposta para os tribunais, opondo, de um lado, um ministro “terrivelmente evangélico” e seus aliados e, de outro, um declaradamente católico e seu afã de participar do processo político de que deveria ter se retirado quando foi nomeado para voltar à magistratura.

É assim que o país se aproxima do momento de ir às urnas. O grau de imprevisibilidade diante de uma disputa completamente irracional é tal que praticamente só resta clamar: seja o que Deus quiser.

 

3 comentários:

Anônimo disse...

Lula só foi presidente graças a sua chatice. Foi a forma encontrada para ficar livre dele. Insistiu tanto e continuaria insistindo eternamente em ser o que realmente ele não tem, capacidade para governar. Afinal, é um semi analfabeto.

Anônimo disse...

Só no Brasil mesmo.

Mais um amador disse...

Hahahahah