O Globo
Deste Brasil que tão bem entendeu e amou, ele
leva mais que admiração: leva gerações inteiras de amigos
Não há idade ou hora justa para a partida de um amigo — nem para quem parte, nem para quem deve continuar a tocar a vida. “A eternidade está no momento”, ensina Walt Whitman no monumental “Folhas de relva”. É na soma de momentos compartilhados que descobrimos nossas profundezas e limites, que nos temperamos ou transcendemos. E isso ocorre mais claramente no fluir da amizade, esse complexo entrelaçamento afetivo capaz de nos proporcionar uma ventura única.
Nem mesmo os gregos da Antiguidade, tão
dedicados a definir e catalogar a amálgama de sentimentos humanos, conseguiram
isolar e nomear a amizade. Ela escapuliu da sabedoria da época, e acabou
incorporada sob o guarda-chuva da palavra philia, designação também para amor.
Milênios depois, já temos a palavra, mas a dificuldade em defini-la continua
quase inalterada — apesar de amizade ser um componente tão essencial a uma
vivência plena. Nossa espécie se agrupa em coletivos maiores que nossa família
biológica não apenas para aumentar as chances de sobrevivência. Também pelo
impulso de explorar as fronteiras do afeto espontâneo. Só que o sentimento de
amizade, além de essencial, também é fugidio, não contempla a todos. Tomem-se
as infinitas mandingas para encontrar um grande amor, ou apenas um marido, e a
pouca procura por amigo. Talvez por imaginarmos já tê-los em número suficiente
para o dia a dia, dispensando as camadas mais profundas de um ombro amigo.
Dois anos antes de conhecer seu companheiro
de vida Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, então com apenas 19 anos, se
propôs a dissecar a natureza do amor em relação à amizade. À época, ela talvez
já tivesse lido Rainer Maria Rilke, para quem o modelo idealizado de uma
relação afetiva estava ancorado no “compromisso de duas pessoas tomarem conta
da solidão do outro”. Na formulação da intelectual francesa, esse nó afetivo
deveria ser construído com duas liberdades e a simples alegria de saber que o
outro existe.
Um bonito inventário da convivência com sua
primeiríssima “melhor amiga de infância”, Élisabeth Zaza Lacoin, dos 9 aos 20
anos, consta do primeiro volume de sua autobiografia, “Memórias de uma moça
bem-comportada” (Nova Fronteira). Foi a rebelde menina Zaza quem bagunçou a
convenção até então aceita pela comportada Simone, de que num coração humano
bem ordenado a amizade ocupava posição honrosa, mas inferior ao esplendor
misterioso do amor e à dignidade sagrada da devoção filial. Era, portanto, um
sentimento secundário. A convivência com Zaza mudou a amiga.
— Convenções, rotinas e a categorização
cuidadosa das emoções foram varridas, e fui tomada por uma enxurrada de
sentimentos que não cabiam em código algum — escreveu ela.
Simone descobriu que uma amizade pode ser
mais segura e resistente que um romance, livre dos “grandes ódios do amor, do
orgulho irremediável, das rupturas apaixonadas, das torturas mútuas, sem
introduzir ciúmes, exigências e dúvidas. (...) Eu não exigia que Zaza tivesse
sentimentos tão definidos a meu respeito: para mim, bastava ser sua melhor
amiga. A admiração que sentia por ela não me diminuía aos meus próprios olhos”.
Zaza morreu aos 21 anos de doença indefinida e sua presença no viver de
Beauvoir jamais se extinguiu.
Zuenir Ventura morreu aos 95 anos na
terça-feira passada. Não cabe aqui elencar sua dimensão como jornalista,
escritor, professor, acadêmico, cidadão brasileiro. Aqui só cabe a alegria de
saber ter sido sua amiga. No passar de olhos pelo salão nobre da Academia
Brasileira de Letras onde seu corpo foi velado, só se viam amigos do amigo
Zuenir. Isso porque ele era um colecionador de amizades. Brasil afora, por onde
passava, elas brotavam em seu encalço — genuínas, gratuitas, sem qualquer
interesse material, apenas movidas pela alegria da descoberta de um baita ser
humano.
Seu maior talento talvez tenha sido esse.
Numa época em que qualquer like digital já é tido sofregamente como sinal de
amizade, Zuenir morreu com uma fartura extraordinária de amigos verdadeiros,
analógicos. Deste Brasil que tão bem entendeu e amou, ele leva mais que
admiração: leva gerações inteiras de amigos. Zaza precisou de Simone para ser
reconhecida e viveu pouco o prazer da amizade. Zuenir, felizmente, pôde ter
vida longa para praticar seu arrastão afetivo. Quem ganhou fomos nós.

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