domingo, 27 de setembro de 2026

'Amor' por Vorcaro explica omissão de Alcolumbre, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O problema não é a amizade, mas o reflexo que essa relação tem sobre as atitudes do presidente do Senado

A negligência deliberada é evidência da atuação de Davi Alcolumbre em favor do irmão fraudador

Estava demorando para Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) entrar na dança das influências de Daniel Vorcaro. Entra não por ser amigo do vigarista —pode acontecer com qualquer um. Cai na roda do escândalo por suas atitudes como presidente do Senado.

As mensagens divulgadas pela revista Veja dizem muito a respeito da conduta passivo-agressiva de Alcolumbre no transcorrer da crise que atinge os três Poderes.

Por exemplo, fornecem ao ministro Cristiano Zanin as evidências que ele alegou inexistentes ao negar pedido do senador Alessandro Vieira (MDB-SE) para que o Supremo Tribunal Federal desse aval à instalação de uma CPI para investigar o caso Master.

Zanin pediu provas da omissão, como se o silêncio diante de um requerimento com assinaturas e fato determinado na conformidade do regimento não comprovasse a negligência deliberada.

As expressões de "amor", "gratidão" e juras de fraternidade eterna entre Alcolumbre e Vorcaro iluminam o sigilo imposto a informações sobre visitas de personagens do caso ao Senado e declarações do presidente da Casa nas duas únicas ocasiões em que se pronunciou sobre o assunto.

Na primeira, disse que não tinha de "achar nada" sobre o abalo à República. Na segunda e derradeira antes de anunciar "providências" contra os mensageiros, foi à tribuna para ameaçar falar umas verdades, sem dizer sobre o quê ou a respeito de quem.

Atos de intimidação que em tempos normais causariam no mínimo estranheza vindos do chefe de um Poder ao qual caberia razão e sensibilidade no trato de uma situação de gravidade ímpar. Mas, como sabemos, não vivemos tempos normais e os desatinos diluíram-se no cipoal de disparates diários.

Estabelecida a natureza da ligação entre o presidente do Congresso e o fraudador-mor, abre-se o caminho para se saber mais sobre o aporte de R$ 400 milhões do fundo de pensão dos servidores do Amapá —presidido por ex-funcionário de Alcolumbre— no banco podre do amigo digno de amor e gratidão.

 

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