Folha de S. Paulo
Novo governo pode nomear maioria dos
diretores até o início de 2028 e ter mais poder no BC
Lula 3 não deve ter tempo de preencher vagas
na autoridade monetária e no STF
Quem terá mais poder de controlar ou influenciar o Supremo a partir de 2027 é assunto maior desta eleição deplorável. O novo presidente e o Senado podem entrar em acordo ou conflito para fazer a maioria no STF, o que pode ter consequências funestas para a estabilidade política ou para a democracia. No entanto, pouca gente se lembra de que o próximo presidente da República poderá ter nomeado 6 dos 9 integrantes da direção do Banco Central até janeiro de 2028, início do segundo ano do mandato, e todos até janeiro de 2030, mudanças críticas para a estabilidade econômica.
Um presidente pode fazer estrago em muitas
outras partes. Pode tentar controlar a Polícia
Federal, como Jair
Bolsonaro. Ou reabrir a porteira da destruição da Amazônia,
um desastre em si e que deu mais poder a facções e empresas do crime
organizado (tráfico de drogas, armas, minérios, madeira, gado).
"Passar a boiada" na proteção ambiental (Bolsonaro, bis) é também
fomentar PCC,
CV etc. O caso aqui é que o STF é Poder independente; o BC é em parte
independente do governo.
O mandato de Gabriel
Galípolo como presidente do BC vai até o final de 2028. Em caso
extremo de imprudência ou ignorância, o próximo presidente da República pode
nomear diretores que atropelem Galípolo ou ideias sensatas de política
monetária (grosso modo, decisões sobre taxas de juros
e câmbio).
Além disso, o presidente do BC pode ficar em minoria no Conselho Monetário
Nacional, que baixa normas sobre o sistema financeiro. Até mercadistas
bolsonaristas, quase todos, podem ter de comer o pão que amassaram para o
diabo.
Meter a mão na política monetária dá mais
problema de imediato do que lotar o STF de amigos. A mera intenção de executar
um plano que assuste o dinheiro grosso vai causar tumulto, que dirá implementar
maluquices. Basta indicar dois nomes esquisitos para o BC que já se vai sentir
o cheiro de queimado (dólar
e juros em alta).
Em ano de dificuldades, como deve ser 2027, o
risco é ainda maior. Por outro lado, pode ser também que, justamente por causa
da dureza econômica, um governo queira dar uma guinada à moda argentina ou de
teor "nacional, popular e decolonial" (é sarcasmo, mas não muito).
Parece um desastre improvável, mas o país é contumaz na autoflagelação. Além
disso, desde os anos 1950 a defesa do "desenvolvimento nacional"
acaba em planos de subsídios para ricos e empresas, sob o PT inclusive. Mas
passemos.
Por erro político soberbo, Luiz Inácio Lula
da Silva deixou aberta uma vaga de ministro do STF (o fiasco Jorge Messias).
Sem contar decapitações por impeachment ou renúncias, uma vaga seria aberta em
2028 (a de Luiz Fux)
e outra em 2029 (a de Carmen Lúcia). A seguinte, de Gilmar Mendes,
só em dezembro de 2030. Não seria para tão logo e tão fácil fazer maioria, pois
cada um dos partidos atuais do Supremo junta no máximo quatro ministros. Um Flávio
Bolsonaro que conte com um Senado de direita e extrema direita
decerto aceleraria a tomada do STF. Um Lula 4 teria dificuldade de fazer
nomeações.
Na diretoria do BC, há duas vagas abertas
desde o início do ano —Lula 3 ainda pode indicar os nomes. Não o fez antes por
causa de conflitos do governo com o Senado e com o BC, do desinteresse pelo
assunto e da ideia petista de que vencer Flávio seria "barbada" —não
daria problema deixar o assunto para depois. Atrasos têm consequências
perigosas, escreveu Shakespeare no Henrique VI.
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