segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Angela Bittencourt: Previdência chega à agenda parlamentar

Valor Econômico

Governos estaduais sacodem B3 com saída para finanças

A economia brasileira apresenta resultados gradativamente melhores há alguns meses. É fato que os indicadores de confiança mostram resultados também positivos mês a mês. Contudo, a atividade apanhou tanto que a maioria desses índices ainda diminui o pessimismo para, numa segunda etapa, aumentar o otimismo. O Brasil parece estar em território negativo, mas é impressão.

Na semana passada, a carga de questões não resolvidas que o país arrasta teve um alívio com a conclusão do julgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4). A defesa de Lula recorre da sentença, ampliada para 12 anos e um mês de prisão em regime fechado, mas o julgamento de fato foi encerrado.

O ano de 2018 começou com dois eventos na prateleira para dar baixa - julgamento de Lula e reforma da Previdência. Um deles já foi. A reforma da Previdência já será motivo de debate amanhã, terça, entre o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun, e deputados na residência da presidência da Câmara. A ideia de Maia é colocar o tema em discussão na retomada dos trabalhos e, em votação, dia 19 ou 20 de fevereiro.

Marcus Pestana: Minas à beira do abismo fiscal

- O Tempo (MG)

Aproximam-se as eleições estaduais. Daqui a poucos meses elegeremos o novo governador de Minas. Em geral, os processos eleitorais são marcados por um turbilhão de promessas. Mas o próprio processo de aprendizagem vacina a população contra a demagogia e as promessas mirabolantes. O agravamento sem precedentes da crise fiscal recomenda muita atenção ao eleitor e uma boa dose de prudência aos futuros candidatos.

Na última campanha, em 2014, o atual governador prometeu, entre outras coisas, concluir os hospitais regionais, reabrir usinas de álcool no Triângulo, implantar unidades de educação infantil (Umei) nos 853 municípios, criar o Bilhete Único na região metropolitana, construir as linhas 2 e 3 do metrô e criar 77 centros de especialidades médicas. Nada disso saiu do papel.

Ao contrário, o que vimos foi um governo capenga, em situação pré-falimentar, confiscando recursos das prefeituras, atrasando salários dos servidores, perdendo credibilidade junto a fornecedores. Sem falar na inexistência de um programa de obras relevante. Os atrasos na folha e o não pagamento integral do 13º são os melhores termômetros do estrangulamento vivido pelo Tesouro estadual. Todos os sinais amarelos se acenderam. Caminhamos a passos largos para uma situação semelhante à vivida recentemente pelo Rio de Janeiro.

Juíza Frossard explica que teoria das provas dá a certeza: tríplex é de Lula

- Diário do Poder

Circunstâncias e indícios compõem a prova, diz juíza Frossard

A corajosa juíza aposentada Denise Frossard, que meteu na cadeia os bicheiros do Rio de Janeiro, lembrou àqueles adoradores de Lula, que reclamam da ausência de escritura do tríplex do Guarujá, que no crime de homicídio, por exemplo, “não se tem o retrato do momento do crime, mas são as circunstâncias, os indícios, que vão compor, tecnicamente, a prova. Assim, “circunstância é o que está ‘em torno’, circum stare". A informação é do colunista Cláudio Humberto, do Diário do Poder.

“Várias circunstâncias formam um indício”, ensina Denise Frossard, “várias indícios formam uma prova. É a Teoria das Provas”.

A Teoria das Provas vem do Direito Romano, milenarmente usada e aceita. “É uma ciência”, informa a experiente juíza carioca.

No caso do tríplex do Guarujá, a Teoria das Provas prevaleceu, para se aceitar a propriedade do imóvel, de fato, pelo réu condenado Lula.

Ficou provado por documentos e testemunhas, inclusive delatores, que a OAS atuou como laranja de Lula, mantendo a titularidade do imóvel.

"O PT desmoralizou a esquerda", diz o historiador José Murilo de Carvalho

Por Bruno Villas-Bôas | Valor Econômico

RIO - A seguir, os principais trechos da entrevista do cientista político, historiador e membro da Academia Brasileira de Letras José Murilo de Carvalho ao Valor:

Valor: A eventual prisão do petista representaria o fim do lulismo, o fim da presença de Lula na política brasileira?

José Murilo de Carvalho: É cedo para afirmar. Vai depender muito do comportamento dele. De qualquer modo, políticos com apelo popular (Getúlio Vargas, Juan Domingo Peron) tendem a ter longa vida, pelos menos na memória coletiva.

Valor: O que isso representa para a esquerda brasileira?

Carvalho: O fato de o PT, com, no mínimo, a aprovação de Lula, ter-se deixado atrair pelas práticas de malfeitos, causou um grande dano à esquerda e à política brasileira. País com o grau de desigualdade como o nosso precisa de um partido forte de esquerda que saiba promover reformas estruturais de redistribuição de renda. Aderindo a práticas anti-republicanas, contra suas próprias propostas iniciais, o PT desmoralizou a esquerda. Precisa reinventar-se, coisa que sua liderança atual não parece estar disposta a fazer.

Valor: Existe eventual herdeiro dessa tendência?

Carvalho: Não vejo.

Valor: Como fica a questão da presença do Lula na história do Brasil? Com o Lula será lembrado dentro de 50 anos?

Carvalho: A biografia política dele ainda está incompleta. Até agora é um empate: uma fase brilhante, seguida de outra constrangedora. Ele ainda tem tempo para desempatar em uma ou outra direção.

Valor: O lulismo pode ser considera de esquerda ou está dentro de uma construção política mais tradicional?

Carvalho: Chamo de políticas de esquerda aquelas que reduzam a desigualdade por meio de reformas estruturais e não apenas por um distributivismo vizinho do clientelismo. Nos governos do PT não houve aumento de impostos sobre heranças e sobre grandes fortunas, não houve alteração nas faixas do imposto de renda e na redução de impostos indiretos etc.

Condenação afasta PR de aliança com ex-presidente Lula

Por Raphael Di Cunto e Marcelo Ribeiro | Valor Econômico

BRASÍLIA - Único partido de fora da esquerda que realmente cogitava apoiar a tentativa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de retornar ao Palácio do Planalto, o PR já dá como certo, nos bastidores, que a aliança não vai para a frente após a condenação do petista por unanimidade no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), o que prejudicou a estratégia jurídica do PT.

O discurso oficial no partido é de que a decisão será só em abril ou maio, quando o quadro eleitoral estiver mais claro e o recurso de Lula ao próprio TRF-4 provavelmente já julgado, mas reservadamente dirigentes partidários dizem que não há chance de o PR embarcar numa aventura jurídica. As chances de apoiar um outro nome do PT também são mínimas, quase nulas.

Lula conversava com o ex-deputado Valdemar Costa Neto, principal comandante do PR, embora não tenha cargo de direção desde que foi condenado no mensalão, para reeditar a vitoriosa aliança que o levou à vitória em 2002, com o empresário José Alencar, então no partido, como vice-presidente. O PR queria a vaga de novo caso apoiasse o petista agora.

Parlamentares próximos à cúpula do PR dizem, contudo, que a decisão unânime do TRF-4 reduziu drasticamente os recursos judiciais que Lula poderia usar para concorrer. "A possibilidade de se aliar ao Lula fica enfraquecida caso ele só consiga ser candidato por meio de uma liminar", diz o líder do PR na Câmara, deputado José Rocha (BA). "Não vejo consistência em tocar uma candidatura que já começa muito questionada", pontua.

Comparada com 1989, eleição de 2018 ocorrerá em um Brasil bem diferente

Rodrigo Vizeu / Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Por sua imprevisibilidade e profusão de potenciais candidatos, a eleição presidencial de 2018 tem sido constantemente comparada com a de 1989. O surpreendente anúncio de Fernando Collor de que deseja disputar de novo, após ter vencido o primeiro pleito do país pós-redemocratização e sido tirado do cargo em 1992, soma-se às já fartas semelhanças entre as duas votações.

Collor poderia voltar a concorrer contra Lula, outro que deseja um repeteco de 1989 (e de 1994, 1998, 2002 e 2006...), embora suas chances de disputar estejam reduzidas devido à Lei da Ficha Limpa.

Há ainda a sombra de um presidente impopular: Michel Temer hoje, José Sarney ontem, que atrapalha pré-candidatos de siglas governistas.

Com a ditadura terminada havia apenas quatro anos, o discurso de direita nacionalista foi representado em 1989 por Enéas Carneiro, que não chegou a 1% dos votos.

Hoje, com o regime extinto há mais de três décadas, Jair Bolsonaro, declaradamente entusiasta de Enéas e do período militar, chega a liderar, por enquanto, no cenário sem Lula. Apesar do desempenho do deputado, o Brasil de hoje aposta mais na democracia do que antes, embora haja tendência de queda no apoio.

O Brasil de agora e o de 1989 acumulam outras diferenças significativas. Com a Constituição democrática então recém-promulgada, o país daquele ano era menos urbano, de população menos longeva e com mais analfabetos e mortalidade infantil. Mas também era menos violento e tinha menos desemprego.

Era ainda um país consideravelmente mais pobre. A inflação, agora controlada, chegou a quase 2.000%.

O Brasil de hoje é menos dependente da televisão para se informar. Cerca de um terço dos brasileiros têm TV por assinatura, e é amplo o acesso à internet e às redes sociais, com tudo que isso significa em termos de diversidade de fontes de informação e, também, de notícias falsas.

Marina pede a políticos ‘respeito às instituições’

Para ex-ministra, o ‘rouba, mas faz’ foi ampliado para o ‘rouba, mas é de esquerda’ e ‘rouba, mas está fazendo reformas’

Leonardo Augusto / O Estado de S.Paulo

BELO HORIZONTE - Pré-candidata à Presidência da República pela Rede Sustentabilidade, a ex-ministra Marina Silva criticou o que chamou de “atitude do rouba, mas faz”. Atualmente, segundo ela, essa questão foi ampliada para o “rouba, mas é de esquerda”, “rouba, mas é de direita” e “rouba, mas está fazendo reformas”.

As declarações foram dadas em entrevista à Rádio Super Notícia, de Belo Horizonte.

Questionada sobre a condenação, em segunda instância, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de quem foi ministra do Meio Ambiente entre 2003 e 2008, e a possibilidade de o ex-chefe ter sua candidatura registrada na disputa presidencial de 2018, ainda que seja preso, Marina disse que a situação exige dos líderes políticos e da sociedade em geral “respeito às instituições”.

“A minha posição sempre foi de defesa das investigações, sempre dizendo que as pessoas só serão culpadas depois do veredicto, com base nos autos, que devem ser dados técnicos e, obviamente, cabendo a todos respeitá-lo”, afirmou.

Antes do julgamento do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), a Rede divulgou nota na qual afirmava que acompanhava “com muita apreensão o clima de hostilidade” que se formava em torno da decisão da 8.ª Turma do tribunal, ressaltava o apoio à Lava Jato e concluía que “todos são iguais perante a lei”.

Marina, cuja pré-candidatura à Presidência foi lançada pela legenda em dezembro do ano passado, é apontada como uma das beneficiárias de eventual ausência de Lula na disputa deste ano. Com a decisão colegiada da 8.ª Turma do TRF-4, o petista poderá ficar inelegível com base na Lei da Ficha Limpa.

‘O PT deveria compreender que já cumpriu o seu papel’

Sem pré-candidato definido para a Presidência da República, o presidente nacional do PSB avalia que chegou a hora de o partido de Lula apoiar um dos antigos aliados históricos. Em entrevista ao GLOBO, Siqueira disse ainda que é muito difícil unidade entre as legendas de esquerda no primeiro turno e tratou como inevitável a candidatura própria ao governo de São Paulo, com ou sem apoio do PSDB

Karla Gamba e Geralda Doca / O Globo

• Nessa pré-campanha, o PSB já sabe se vai apoiar alguém ou ter candidato próprio a presidente?

Em um primeiro momento, nós estamos consolidando um quadro interno, com nove candidaturas de governadores, que podem chegar a dez, e todas competitivas. As candidaturas seriam em São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Distrito Federal, Tocantins, Sergipe, Pernambuco, Paraíba e Amazonas. Com esse cacife nós podemos ter uma candidatura própria, mas temos que avaliar isso com os próprios candidatos. Será que ela vai ser útil e contribuir para este quadro? Se for, ótimo! Se não, o que vamos fazer? Nesse sentido nós estamos sendo procurados desde o final do ano passado. Primeiro pelo governador Alckmin, depois foi pelo Ciro, depois a Marina, o Álvaro Dias e também a Manuela D'Ávila. Se nós não tivermos candidato, temos que fazer uma escolha entre esses.

• Quais seriam os nomes mais cotados para o caso de uma candidatura própria? O ex-ministro Joaquim Barbosa tem adiado sua resposta...

Tem o Beto Albuquerque, tem o Aldo Rebelo e tem uma conversa paralela com o ministro Joaquim Barbosa. Em relação à Rede, de Marina, nós achamos incompreensível que eles desejem o nosso apoio, mas tenham rompido recentemente com o governo do Distrito Federal e com o governo de Pernambuco. Parece que é um sinal contrário querer o apoio para a candidatura à presidência e ao mesmo tempo romper com dois dos três governos estaduais do partido.

• O que muda no campo dos partidos de esquerda com a condenação do ex-presidente Lula?

A esquerda é diversificada e, numa eleição de dois turnos, os partidos vão buscar seus projetos próprios ou vão se agregando a outros. Não creio na unidade da esquerda no primeiro turno. Se tivesse que haver unidade, o PT deveria compreender que já cumpriu seu papel e tem que apoiar outros candidatos de esquerda, não necessariamente ter que ser apoiado por eles. Essa é uma questão democrática dentro da própria esquerda, e o PT tem uma visão exclusivista, pensa sempre em torno dele próprio e não em torno de seus parceiros. O reflexo maior disso foi que, quando chegou o seu governo, em vez de colocar como seus aliados estratégicos os partidos que lhe apoiaram desde 1989, escolheu o PMDB.

Partidos historicamente alinhados a Lula vivem o dilema da falta de rumo

Para analistas, insistir com petista pode prejudicar esquerda nas urnas

Bruno Calixto, Gabriela Varella e Ruan de Sousa Gabriel / O Globo

A condenação em segunda instância do ex-presidente Lula não apenas redefinirá o tamanho da liderança do petista como também levará os partidos de esquerda a um dilema sobre o caminho que devem trilhar. Oito dos mais destacados analistas políticos do quadro nacional, de formações e filiações diversas, concordam que Lula está no jogo com um tamanho menor do que no passado. E que o futuro deste campo político está cercado de dúvidas.

Candidato ou não, preso ou não, o petista seguirá relevante na sucessão presidencial. Mas é o grau de corrosão que sua imagem pública sofrerá com a condenação que determinará sua capacidade de atrair ou transferir votos, avalia o cientista político Marco Aurélio Nogueira, professor de Teoria Política na Universidade Estadual Paulista.

— Supondo que a candidatura seja impugnada ou que Lula seja preso, terá um efeito muito grande sobretudo na vida política eleitoral, mas também na vida política como um todo. Não é pouco importante — afirma Nogueira.

Para o filósofo José Arthur Giannotti, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), a crise do petismo pode ser a oportunidade para o exercício de uma autoanálise renovadora nos partidos de esquerda.

— Se o PT começar a fazer a autocrítica que alguns de seus membros, como Olívio Dutra, já começaram, podemos pensar que a Lava-Jato realmente teve sucesso na higienização do sistema político brasileiro — analisa o filósofo.

A esquerda e o esquerdismo: Editorial/O Estado de S. Paulo

Se o brasileiro que se considera de centro não tem ainda uma candidatura presidencial que represente seus ideais mais caros, como constatamos neste espaço no domingo retrasado (ver Um vazio a ser preenchido), o eleitor que defende os ideais da esquerda democrática tampouco tem melhor sorte.

Não há hoje, na ampla oferta de candidatos e partidos do chamado campo “progressista” que almejam o poder, nenhum que rejeite toda e qualquer ditadura, que preze a Constituição e que consiga superar seus limites ideológicos radicais para se apresentar como governante de todos os brasileiros, e não apenas da patota. Ao contrário, os partidos mais proeminentes entre os que se dizem de esquerda fazem campanha sistemática contra as instituições democráticas, como se estas fossem instrumentos de uma guerra política das “elites” contra o “povo”. Segundo esse ponto de vista, nenhuma derrota política que essa turma tenha sofrido ou venha a sofrer é aceitável, pois só pode ser resultado de um complô contra os interesses do “povo” – de quem o PT, o PSOL e quejandos se consideram os únicos e legítimos intérpretes. Afinal, sua teoria e prática conseguem ser ainda mais vazias que a da desusada luta de classes.

Decisão consistente: Editorial/O Globo

A folha dos servidores é a segunda maior despesa primária do Orçamento, só superada pela Previdência

Era inevitável que a iniciativa do governo Temer de adiar reajustes salariais do funcionalismo da União e elevar a contribuição previdenciária dos servidores, de 11% para 14%, atrairia feroz resistência. Assim agem corporações sindicais em geral e, em particular, as do funcionalismo, em que PT e CUT têm grande presença.

Liminar concedida pelo ministro do STF Ricardo Lewandowski suspendeu os efeitos da medida provisória que congela salários e reajusta a contribuição previdenciária, mas o mérito ainda será julgado. O debate continua. E as carências fiscais também.

Afinal, há razões objetivas para o governo haver tomado essa decisão. A principal, o fato de a folha de salários dos servidores ser a segunda maior despesa primária do Orçamento, apenas superada pela Previdência. Logo, em uma situação de grave crise fiscal, assim como é tentada a imprescindível reforma do sistema de seguridade, é forçoso o governo conter o crescimento da folha e, como fazem muitos estados, elevar a contribuição previdenciária do funcionalismo. A medida está incluída nas exigências da União à unidade da Federação que deseje aderir ao programa de recuperação fiscal. Com toda a razão.

A urna como arma: Editorial/Folha de S. Paulo

Um expediente clássico e muitas vezes eficaz para regimes autoritários em busca de verniz de legitimidade consiste em chamar o povo às urnas —e, sejam lá quais forem os meios, sair vencedor. Eis o caso da Venezuela do ditador Nicolás Maduro, que anunciou a antecipação do pleito presidencial, a ser realizado até o dia 30 de abril.

A manipulação do calendário eleitoral tem se dado de forma despudorada desde que a oposição surpreendeu e obteve a maioria das cadeiras na Assembleia Nacional, em dezembro de 2015.

De lá para cá, a catástrofe social e econômica gestada pelo chavismo só se agravou, mas o governo esmerou-se para que, magicamente, isso não resultasse em votos contrários nas disputas seguintes.

Primeiro, adonou-se do Conselho Nacional Eleitoral, que adiou por quase um ano as eleições estaduais, num momento em que as forças opositoras se viam fortalecidas pelo triunfo legislativo.

Nesse ínterim, não por acaso, elegeu-se um arremedo de Assembleia Constituinte, num processo flagrantemente fraudulento, boicotado pela oposição e condenado pela comunidade internacional.

Fiscal melhora, mas não afasta risco de insolvência: Editorial/Valor Econômico

O quadro fiscal brasileiro mostra uma melhora nada desprezível a partir do final do ano passado e, pelo que tudo indica, os principais indicadores deverão ter um desempenho mais favorável em 2018 do que o inicialmente previsto. São boas notícias, que merecem ser comemoradas depois de uma sequência de seis anos desapontadores. Mas seria um erro concluir, a partir de flutuações cíclicas de indicadores fiscais, que o desequilíbrio estrutural nas contas públicas esteja equacionado.

Segundo adiantou o jornalista Ribamar Oliveira, em nota publicada no Valor PRO, serviço de informações em tempo real do Valor, na última quarta-feira, o Ministério da Fazenda espera que a dívida bruta do governo geral feche em 75% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2018. Essa projeção foi confirmada, no dia seguinte, pela secretária do Tesouro Nacional, Ana Paula Vescovi, que informou em entrevista coletiva que no novo cenário central da Fazenda o indicador encerrará este ano em 74,8% do PIB. Pelo último dado, de novembro, a dívida bruta está em 74,4% do PIB.

A projeção da Fazenda é mais favorável do que a apresentada algumas semanas antes pelo Banco Central, que prevê que a dívida bruta terminará o ano em 79,8% do PIB, muito próximo da perigosa marca de 80% do PIB. Uma parte menor da diferença de projeções entre Fazenda e BC se deve, possivelmente, a questões técnicas, como o uso de diferentes deflatores. Outra diferença importante é que, nas contas da Fazenda, está incluído o pagamento antecipado de R$ 130 bilhões de dívidas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) com o Tesouro.

Manuel Bandeira: Gesso

Esta minha estatuazinha de gesso, quando nova
— O gesso muito branco, as linhas muito puras —
Mal sugeria imagem de vida
(embora a figura chorasse).
Há muitos anos tenho-a comigo.
O tempo envelheceu-a, carcomeu-a, manchou-a de pátina
[ amarelo-suja.

Os meus olhos de tanto a olharem,
Impregnaram-na da minha humanidade irônica de tísico.
Um dia mão estúpida
Inadvertidamente a derrubou e partiu.
Então ajoelhei com raiva, recolhi aqueles tristes fragmentos,
[ recompus a figurinha que chorava.
E o tempo sobre as feridas escureceu ainda mais o sujo
[ mordente de pátina...

Hoje esse gessozinho comercial
É tocante e vive, e me fez agora refletir
Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu

Dudu Nobre - Chora viola, chora

domingo, 28 de janeiro de 2018

Opinião do dia: Marco Aurélio Nogueira*

Nas tratativas que haverá, o PT terá de redefinir o slogan “eleição sem Lula é fraude”, que provoca atrito com todos os que decidirem permanecer a sério na disputa. A estratégia mais afastou do que agregou. O slogan talvez alimente o radicalismo e a passionalidade de alguns militantes, mas é um bumerangue que precisará ser desativado. Sob pena de fazer o PT desidratar. A “radicalização” anunciada por Gleisi Hoffmann terá de se haver com a perspectiva de sobrevivência política do partido.

O problema é que a sociedade está saturada de polarização política. Há um cansaço cívico (ético-político) diante da manutenção do caso Lula no centro da vida nacional. O que coloca um ponto de interrogação na eventual manutenção da estratégia de judicialização radicalizada da candidatura do ex-presidente.

Apostar no desgaste das instituições, em particular da Justiça e das eleições, não é a opção mais razoável. Como, de resto, ficou evidente ao longo do próprio processo que culminou na condenação de Lula em segunda instância.
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*Professor titular de teoria política e coordenador do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais da Unesp. “Depois do julgamento”, O Estado de S. Paulo, 27/1/2018.

Bolívar Lamounier*: O Brasil na encruzilhada

- O Estado de S.Paulo

Seremos capazes de aproveitar a chance de recuperação que parece estar se formando?

A condenação de Lula pelo Tribunal Federal da 4.ª Região (TRF-4) no dia 24 do corrente tem o potencial de alterar em profundidade o quadro político, dividindo-o em dois cenários claramente opostos: um, extremamente negativo e o outro, assaz alvissareiro. A premissa geral, em ambos os casos, é a de que a força eleitoral de Lula tem sido o principal obstáculo à superação da crise que o Brasil vive há vários anos. Nesse sentido, designarei o primeiro como um cenário de aprofundamento e o segundo como um cenário de superação da crise.

O ponto nevrálgico do primeiro começa com as possíveis reações do Partido dos Trabalhadores (PT) e seus satélites de esquerda à condenação de Lula – notadamente a explícita incitação à violência – e se completa com acidentes de percurso mais ou menos previsíveis. O segundo vai no sentido oposto, caracterizando-se por um adequado equacionamento das dificuldades previstas no primeiro e delineando uma boa oportunidade de deslancharmos de vez na trilha da recuperação.

Que o PT, seus pequenos aliados de esquerda, os chamados “movimentos sociais”, uma ala do clero e dos movimentos sindical e estudantil encetarão reações raivosas, disso não há dúvida. Nada permite supor que se disponham a fazer uma reavaliação sincera dos precários fundamentos conceituais de sua ideologia.

Tais setores se inclinam para o confronto, são adeptos da ação direta e de uma atitude ambígua em relação ao regime democrático. O lançamento da candidatura Lula logo após a sentença do TRF-4 é um indicativo da estratégia que tentarão articular.

Fernando Gabeira: Delírios tropicais

- O Globo

Ouvindo pelo rádio o julgamento de Lula, parece que a novela não terá fim

Seguir na estrada um longo julgamento como o de Lula é curioso. Há momentos em que a internet vai para o espaço e as emissoras de rádio desaparecem com zumbidos e estalos insuportáveis. O interessante é ouvir muitos programas diferentes, na medida em que passamos pelo raio de ação das emissoras. Não é a mesma coisa que a Coreia do Norte, onde aquela mulher com trajes típicos anuncia os foguetes de Kim Jong-un. A cobertura é bem desconstraída, até um pouco vaga. Num dos programas, o comentarista reclamava: o juiz está chamando cozinha de kitchen, usando a palavra em inglês.

Imediatamente, alguém vem em socorro e explica que Kitchen é marca da cozinha, a mesma comprada para o tríplex de Guarujá e o sítio de Atibaia, ambos atribuídos a Lula. Em seguida, começam as projeções. Alguns calculam que os recursos vão demorar tanto que Lula poderá ser presidente antes de todos serem julgados.

Isso não confere com minha visão. Mas o que fazer? Havia também uma grande excitação sobre o resultado, algo que para mim era previsível, tanto que já tinha escrito sobre essa novela e esperava o seu fim para que se possa discutir o que importa: a reconstrução do país.

O que senti ao longo do caminho, ouvindo fragmentos de debates, foi uma sensação de, para muitos comentaristas, a novela não pode acabar nunca. Os recursos, restam os recursos. Cada recurso será um capítulo à parte da novela e assim, segundo eles, vamos ter confusão até o fim da campanha de 2018.

Ranier Bragon: Os calculistas

- Folha de S. Paulo

É muita hipocrisia reunida, mas seja compreensivo: você provavelmente não faria muito diferente se estivesse no lugar deles.

Qual foi a reação dos concorrentes de Lula à confirmação da condenação do petista pela harmoniosa trinca de magistrados do TRF-4?

Ressalvando que nem toda a farinha é do mesmo saco, o cálculo eleitoral definiu o dito e o não dito.

Aspirantes a liderar uma renovação da esquerda, Guilherme Boulos (possível candidato do PSOL) e Manuela D'Ávila (PC do B) foram os únicos a defender Lula de forma enfática e a criticar a popularíssima Lava Jato.

Já o verborrágico Ciro Gomes (PDT), igualmente desejoso de eventual espólio lulista, evitou bater na investigação. Mas lamentou a sorte do "amigo e ex-presidente", dizendo torcer para que ele reverta a decisão.

Até agora quem mais herdaria os votos de Lula, a ex-aliada Marina Silva (Rede) também não rasgou dinheiro. Exercendo uma de suas principais habilidades, falou, falou e não deixou claro seu ponto de vista —defendeu as investigações, mas não citou o nome Lula uma única vez.

Eliane Cantanhêde: Guerra insana

- O Estado de S.Paulo

Ao bombardear a Justiça, PT corre o risco de se isolar e virar grupelho radical

O Judiciário brasileiro avançou ao máximo no combate à corrupção, ao começar a investigar e prender políticos ilustres, mas só agora vira alvo ostensivo de um bombardeio, ao condenar, em primeira e segunda instâncias, o líder mais popular desde a redemocratização, ninguém menos que Luiz Inácio Lula da Silva. Petistas se armam até os dentes e conclamam aliados e militantes para uma guerra insana contra juízes, magistrados e procuradores.

Já no mensalão, as baterias focaram o Supremo, até mesmo contra o ex-ministro Joaquim Barbosa, que foi nomeado por Lula e pode ser tudo, menos tucano ou adversário histórico do PT. Depois, na Lava Jato, voltaram-se para Sérgio Moro, de uma nova geração de juízes, desconhecido e fora do eixo Rio-São Paulo-Brasília.

Barbosa foi atacado enquanto presidia o STF e condenava José Dirceu e outros nomes de peso do PT. Moro passou a personalizar o “mal”, o juiz que persegue politicamente Lula, depois de corajosamente se debruçar sobre a implosão da Petrobrás.

Merval Pereira: Ambições liberadas

- O Globo

Lula condenado faz com que alianças saiam do armário. A virtual inelegibilidade do ex-presidente Lula, que depende apenas de tempo, não de interpretações jurídicas sobre a Lei da Ficha Limpa, que é inequívoca, está levando a que forças partidárias comecem a remontar suas alianças políticas para a eleição presidencial de 2018, fazendo com que saiam do armário ambições até agora reservadas. Entre elas estão candidaturas de partidos historicamente caudatários do PT e a de Marina Silva, da Rede, que está perdendo a cerimônia em relação ao partido que ajudou a fundar e a suas lideranças, inclusive Lula, a quem sempre preservou.

Até mesmo o PSDB ensaia passos mais ousados, como o seu presidente e candidato oficial à Presidência da República, governador Geraldo Alckmin, sugerir que o partido pode deixar de ter um candidato próprio ao governo do estado de São Paulo para apoiar seu vice, Márcio França, do PSB, em troca do apoio nacional dos socialistas à sua candidatura.

O PSB, que já apoiara o candidato do PSDB na última eleição presidencial, voltaria a estar longe do PT de Lula, especialmente diante do impasse jurídico existente. Se não der certo essa manobra, que é de difícil execução pois os tucanos governam São Paulo há 20 anos e não querem abrir mão disso, o PSB pode apoiar o ex-presidente do STF Joaquim Barbosa.

Samuel Pessôa: Ainda o custo da corrupção

- Folha de S. Paulo

Maiores acordos coletivos com investidores nos EUA

Na coluna da semana passada, tratei dos custos da corrupção. Afirmei que combatê-la não tem potencial para fazer aparecer no caixa do Tesouro Nacional R$ 200 bilhões por ano, como tem sido divulgado. Terminei a coluna afirmando que a ligação mais forte entre receita do governo e corrupção é indireta, por meio do desestímulo da corrupção ao crescimento econômico e deste para o caixa do Tesouro.

Exemplifiquei com o caso da Petrobras. Dos R$ 44 bilhões de perdas documentadas com a construção das refinarias Abreu e Lima e Comperj, somente R$ 6 bilhões deviam-se à corrupção.

Diversos leitores apontaram que os R$ 38 bilhões restantes precisavam ser contabilizados também como custo da corrupção. Segundo esses leitores, seria muita ingenuidade minha atribuir esse desperdício "à incompetência pura e simples e problemas de gestão do Estado". Esses projetos foram desenhados com o objetivo de gerar oportunidade para corrupção.

O argumento dos leitores faz sentido. É possível que o desenho desses e outros projetos tivessem como objetivo aumentar as oportunidades de corrupção.

Míriam Leitão: Primeiro entre iguais

- O Globo

STF precisa evitar impressão de agir por casuísmo. O movimento do Supremo Tribunal Federal de rever a prisão após condenação em segunda instância, agora que o ex-presidente Lula foi condenado, é casuísmo. Mostra que a lei não vale para todos. O sinal dado é que Lula é pessoa pela qual se deve mudar um entendimento em vigor. Ele passa a ser, na cidadania brasileira, superior aos outros, ou, como preferem os doutos, primus inter pares.

Lula não está sozinho nessa torcida para que mude o entendimento do Supremo. Há políticos, empresários, servidores, investigados, denunciados ou condenados pela Lava-Jato que querem que continue a existir essa interminável avenida recursal, pela qual sempre caminhou a impunidade brasileira para os crimes de colarinho branco. Imagine só a torcida na cela de Sérgio Cabral ou de Eduardo Cunha. Há torcida também até no Planalto, afinal, ao fim do mandato o ex-presidente Michel Temer enfrentará os processos dos quais fugiu recentemente quando o Congresso recusou as denúncias do Ministério Público.

Há várias questões postas diante desse nó cego em que o país está. Dois ex-presidentes estavam, na quinta-feira, no palco de uma reunião partidária quando o PT fez repetidas afirmações de que não respeitaria a decisão judicial. A promessa foi afrontar o Judiciário e responder à sentença com luta de rua. O que significa não respeitar decisão do Judiciário? Nada. É retórica de palanque apenas, porque se a ordem for de prisão será cumprida, e se a decisão for de inelegibilidade assim será. Ninguém pode ser candidato sem sê-lo pela lei eleitoral. A decisão de entregar o passaporte foi cumprida no começo da sexta-feira, distanciando discurso e gesto.

Hélio Schwartsman: Tempos dementes

- Folha de S. Paulo

O projeto era ambicioso: banir a religião e a metafísica da filosofia, colocando-a em pé de igualdade com a matemática e com a física. É claro que não deu certo. Mas a história de como essa empreitada fracassou é fascinante e traz uma série de "insights" relevantes para os dias de hoje.

Estamos falando do Círculo de Viena, um influente grupo de intelectuais que se reunia primeiramente em cafés da capital austríaca e, depois, numa sala da universidade local nos anos 1920 e 1930 para discutir os grandes problemas filosóficos e científicos. Quem conta sua história com maestria é o matemático austríaco Karl Sigmund no delicioso "Exact Thinking in Demented Times" (pensamento exato em tempos dementes).

O Círculo de Viena, comumente identificado ao positivismo lógico, tinha seu núcleo nos filósofos Moritz Schlick e Rudolf Carnap, nos matemáticos Hans Hahn e Karl Menger e no economista Otto Neurat, mas influenciou e foi influenciado por um time de celebridades muito mais amplo, que inclui Albert Einstein, Bertrand Russell, Ludwig Wittgenstein, Kurt Gödel e Karl Popper, com as quais dialogava constantemente.

Sigmund consegue criar uma narrativa ao mesmo tempo envolvente e didática, juntando os vários dramas humanos (Schlick, por exemplo, foi assassinado por um aluno) com discussões mais técnicas sobre lógica e filosofia. O que torna "Exact Thinking..." mais próximo dos dias atuais é o fato de que os membros do Círculo, independentemente de terem abraçado um projeto impossível que hoje vemos como ingênuo, combatiam o dogmatismo numa época em que ele estava dando as cartas. Como boa parte dos integrantes do grupo tinha ascendência judaica e praticamente todos nutriam simpatias pela esquerda, eles foram rapidamente dispersos pela ascensão do nazismo.

Sorte dos americanos e ingleses, que absorveram o maior contingente desses quadros.

Elio Gaspari: Lula tenta a velha mágica do medo da rua

- O Globo

Manipulador do medo, Lula bota gente na rua e se oferece como pacificador. Desde que entrou na política, Lula mostrou-se um hábil manipulador do medo que o andar de cima tem da rua. Ele põe sua gente na praça, estimula bandeiras radicais e se oferece como pacificador. Quando os radicais passam a incomodá-lo, afasta-se deles. Essa mágica funcionou durante mais de 30 anos, mas mostrou sinais de esgotamento a partir de 2015, quando milhões de pessoas foram para a rua gritando “Fora, PT!”. Ele quis reagir mobilizando o que supunha ser seu povo, mas faltou plateia.

Agora o mágico reapresentou o truque. Ele informa que não tem “razão para respeitar” a decisão do TRF-4. Sabe-se lá o que isso quer dizer. Se é uma zanga pessoal, tudo bem. Pode ser bravata, pois ele cancelou a viagem à Etiópia e entregou o passaporte à polícia. Isso é coisa de quem respeita juízes.

Enquanto Lula é vago em suas ameaças, João Pedro Stédile, do MST, é mais direto: “Aqui vai o recado para a dona Polícia Federal e para a Justiça: não pensem que vocês mandam no país. Nós, dos movimentos populares, não aceitaremos de forma nenhuma que o nosso companheiro Lula seja preso”. A ver.

Em 2015, Lula defendia a permanência de Dilma Rousseff dizendo que era um homem da paz e da democracia, mas “também sabemos brigar, sobretudo quando o Stédile colocar o exército dele nas ruas.” Viu-se que o temível exército de Stédile não existia. Na parolagem catastrófica da época, o presidente da CUT, Vagner Freitas, dizia que “se esse golpe passar, não haverá mais paz no país.” Houve. (A CUT remunerava seus manifestantes. Um deles, imigrante da Guiné, tinha o boné da central, mas não falava português. Estava na Avenida Paulista porque recebera R$ 30.)

Luiz Carlos Azedo: A batalha perdida

- Correio Braziliense

Pode haver uma ultrapassagem da radicalização, típica de um processo de eliminação das diferenças, e a construção de um novo consenso, no qual a moderação, o pluralismo e a tolerância prevaleçam

Na Espanha do rei José II, no século XIV, segundo José Ortega e Gasset, todos os seres tinham o direito e o dever de serem o que eram, fossem “dignificados ou humildes, abençoados ou malditos”. O judeu ou árabe eram, para as demais pessoas, “uma realidade, dotada do direito de ser, com uma posição social só sua e seu próprio lugar na pluralidade hierárquica do mundo”. No limiar do século seguinte, porém, judeus e mouros foram obrigados a deixar a Espanha pelo rei católico Fernando II. Segundo o filósofo espanhol, essa foi a gênese da primeira geração moderna. “De fato, é o homem moderno que pensa ser possível excluir determinadas realidades e construir um mundo segundo as próprias preferências, à semelhança de uma ideia pré-concebida”, ressalta.

O exemplo é citado pelo filósofo polonês Zygmunt Bauman ao abordar a relação entre verdade, ficção e incerteza no mundo contemporâneo (O mal-estar da pós-modernidade, Zahar). A tolerância em relação às diferenças no mundo pré-moderno era resultado de uma visão conservadora do tipo “tudo já está em seu lugar”. O rei Fernando da Espanha foi precursor de uma estratégia “que seria aplicada, com maior ou menor zelo e com maior ou menor êxito, ao longo da história moderna e em todas as partes do globo”. A destruição da diferença era o pressuposto da nova ordem. Mas a guerra contra a diferença e a pluralidade foi perdida em todo lugar. “A história moderna resultou, e a prática moderna continua resultando na multiplicação de divisões e diferenças.”

Celso Ming: Desvio de rota

- O Estado de S.Paulo

Não é mais possível aceitar que o único projeto do PT e das esquerdas brasileiras seja o de salvar o Lula.

Há tanta coisa a reconstruir, a começar pelas ruínas financeiras da Previdência Social, que hoje comprometem gravemente a aposentadoria das novas gerações. Seguir afirmando que esse rombo foi criado pelas elites é tentar ignorar a trombada que vem vindo aí.

Há, por exemplo, uma indústria a reidratar depois de tantos anos de descuido, de despejo de recursos nas contas bancárias de meia dúzia de futuros campeões nacionais e de tantas barbeiragens em matéria de política industrial produzidas pelos governos do PT.

Se o agro tivesse sido confiado ao MST e ao João Stédile, o Brasil não estaria produzindo 240 milhões de toneladas de grãos. E não teríamos hoje mais do que o jogo miúdo que mal supera programas de economia de subsistência e a sistemática destruição de experimentos agrícolas de empresas e de institutos de pesquisa.

O mundo passa por impressionantes mudanças tecnológicas, que estão dizimando empregos e criando novas formas de atividade econômica e de trabalho. E, no entanto, as esquerdas comportam-se como os taxistas contra o Uber, contra o Cabify e contra os aplicativos. Aferram-se à preservação do imposto sindical e à manutenção de postos de trabalho de profissionais que vão sendo substituídos por formas novas de atividade remunerada. Bancários, carteiros e telefonistas são ocupações em extinção (ou em forte redução), e não há como mudar esse jogo.

Vinicius Torres Freire: Povo comum está menos desanimado

- Folha de S. Paulo

Quando Dilma Rousseff se reelegeu, a confiança dos consumidores aumentou, mais ou menos, a depender da pesquisa. Mas houve, sim, alguma reanimação popular entre meados do ano e outubro de 2014, como costuma acontecer quando se elege um presidente.

Notícias de reviravolta de promessas e programas da campanha do PT, o estelionato eleitoral, provocaram um choque imenso no povo comum. Logo no início de 2015, começaria a derrocada rápida do ânimo dos consumidores e do prestígio político da então presidente, o que contribuiu para derrubar a economia e provocar aversão profunda a Dilma.

E daí? Dilma Rousseff? 2014? Arqueologia? Não só.

A expectativa de melhoras na economia enfim voltou ao nível da breve esperança daquele outubro da reeleição de Dilma.

Especula-se muito sobre os efeitos da economia em eleições, embora raramente se defina bem o que se quer dizer com "economia" e "efeito". Mesmo que a economia, entendida como crescimento do PIB, ande bem, o povo pode ir mal. Até um ditador-general o reconheceu em pleno "milagre econômico", quando a economia cresceu mais de 10% ao ano, entre 1970 e 1975.

A economia ainda vai mal; o povo, ainda pior. Mas os ânimos mudam. Não quer dizer que se trate de boa notícia para o governismo, que ao menos por enquanto causa repulsa ao eleitorado por motivos diversos e intensos.

Ricardo Noblat: Picaretas do Congresso torcem por Lula

- Blog do Noblat

Se ele pode, por que eu não posso?

Em 1993, aspirante a candidato a presidência da República nas eleições do ano seguinte, Lula disse uma frase sobre o Congresso que depois se tornaria famosa: “Há [ali] uma maioria de 300 picaretas que defendem apenas seus próprios interesses”.

Suprema ironia! Entre 2003 e 2010, ele governou o país em aliança com a bancada picareta do Congresso. E depois de se tornar inelegível ao ser condenado pela segunda instância da justiça em Porto Alegre, Lula virou a esperança de salvação para os picaretas.

Menos enrascados do que ele, uma vez que nenhum foi condenado até hoje, os picaretas torcem para que Lula se dê bem. Para que não seja preso. Para que uma decisão dos tribunais superiores permita que ele concorra à sucessão do presidente Michel Temer.

A ficha de Lula: Editorial/Folha de S. Paulo

Com estreita margem para recursos em instância superior, a condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a mais de 12 anos de cadeia impõe sobre o ambiente político uma variável cuja importância, neste momento, não se pode aquilatar com precisão.

Parece plausível que, mesmo após o veredito unânime do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, boa parte dos cidadãos dispostos a reconduzir Lula ao Planalto não se incline a desistir do voto —enquanto o próprio petista, em aparência ao menos, mantém-se empenhado na candidatura.

A persistir essa situação, configuram-se óbvias tensões. A Lei da Ficha Limpa, de 2010, veta, como é sabido, o registro eleitoral de condenados em segunda instância.

É de presumir que não poucos, entre os próprios entusiastas do lulismo, tenham visto nesse dispositivo um instrumento de moralização da vida pública.

Ou porque acreditem ainda na inocência do líder, ou porque esperavam da Ficha Limpa eficácia exclusiva contra seus adversários, o fato é que dificilmente estariam prontos a aceitar, agora, que seja aplicada contra o ex-presidente.

Num outro paradoxo, as decisões do Supremo Tribunal Federal preconizando a prisão imediata dos condenados em segunda instância obtiveram forte apoio da opinião pública. Voltam-se, agora, contra um político a quem se pode acusar com justiça de muita coisa —mas não de ser impopular.

O Brasil de volta, segundo Temer: Editorial/O Estado de S. Paulo

O presidente Michel Temer levou a Davos a mensagem necessária a respeito do Brasil pós-populismo. O Brasil está de volta, disse ele a uma plateia de executivos e investidores. Mas a mensagem vale para toda a comunidade – empresarial e política – relevante para um país em busca de integração efetiva na ordem global do século 21. Não por acaso, foi o mesmo tipo de mensagem apresentado pelo presidente argentino, Mauricio Macri, representante de um país também saído, há pouco tempo, de mais uma desastrosa experiência populista.

O governo brasileiro nunca deixou de ser representado na reunião do Fórum Econômico Mundial. Mas sua presença, nos anos finais do período petista, foi marcada pela rejeição dos valores do liberalismo econômico e político, da abertura comercial e, portanto, dos padrões contemporâneos de integração.

Num dos últimos anos, o ministro da Fazenda nem sequer apareceu. Davos, segundo explicou na ocasião o ministro de Relações Exteriores, único representante do primeiro escalão, era um local para pessoas em busca de promoção. Ele disse isso, na sua simplicidade, a dois jornalistas brasileiros participantes, no dia anterior, de um encontro com o secretário do Tesouro dos Estados Unidos.

A agenda desses e de outros jornalistas estava carregada, naqueles dias, de entrevistas e eventos com ministros e chefes de governo de países avançados e emergentes orientados por planos ambiciosos. Todos em busca de promoção pessoal?

A volta mencionada pelo presidente Michel Temer significa, portanto, mais que um mero retorno a um ponto geográfico. Indica uma volta à sensatez, à convivência normal entre pessoas, organizações privadas e entidades políticas preocupadas com objetivos básicos como a cooperação, a prosperidade e a segurança.

Crise no Facebook é por falta de critérios do jornalismo: Editorial/O Globo

Empresa altera algoritmo, para limitar a rede a interações entre amigos e familiares, ao constatar ter sido utilizada na disseminação de notícias falsas contra Hillary

Ninguém deixa de ser impactado pela revolução digital em que está o mundo, e que, por certo, não terá fim. Como em mudanças tecnológicas profundas, negócios viram ruínas, outros surgem ou se adaptam para sobreviver. Acabam e aparecem novos ofícios, e a vida anda, com mudanças também nos planos da cultura e do comportamento.

Esta revolução tem o epicentro nas comunicações, com impacto estrondoso nas empresas jornalísticas. O salto dado na microeletrônica armou o estilingue que lançou esta indústria numa viagem de transformações vertiginosas. As tradicionais empresas jornalísticas se reinventam, enquanto navegam, à frente, gigantes digitais do novo tempo, liderados por Google e Facebook. Companhias hoje mastodônticas que de fato romperam barreiras — como mecanismo de busca e na montagem da mais ampla rede social eletrônica do planeta. São poderosos sorvedores da publicidade que migra da mídia impressa.

Mas tecnologia por si só não dá todas as respostas. O alerta é emitido pelo momento difícil por que passa o Facebook, de Mark Zuckerberg. São mais de 2 bilhões, algo superior em 45% à população da China, que se conectam pelo Face, convertido em máquina de fazer dinheiro a partir do conhecimento dos hábitos dos que passam pela rede. São informações valiosas para anunciantes.

PT quer frente de esquerda, mas partidos mantêm planos

Embora lideranças petistas falem na formação de uma ampla frente de esquerda, partidos que se aliaram ao PT em eleições passadas, como PCdoB e PDT, não estão dispostos a retirar os nomes que já lançaram para a Presidência da República – Manuela D’Ávila e Ciro Gomes, respectivamente. A tendência é de que haja pulverização de candidaturas de esquerda na sucessão de Michel Temer. Um dos objetivos dessas siglas é manter suas bancadas na Câmara.

Eleição. Líderes do PCdoB, PDT e PSOL recusam apelo de petistas após confirmação da condenação de Lula no TRF-4 e dizem que vão manter suas pré-candidaturas à Presidência

Siglas rejeitam proposta do PT de aliança de esquerda

Felipe Frazão / O Estado de S. Paulo.

BRASÍLIA - O PCdoB, o PDT e o PSOL, que manifestaram apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula no julgamento do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), afirmam que não vão aderir à proposta do PT de uma “ampla” aliança de esquerda na eleição presidencial deste ano. Apesar de defender o direito de Lula se candidatar novamente ao Planalto, os dirigentes partidários ouvidos pelo Estado disseram que não vão desistir das candidaturas próprias, o que deve pulverizar o campo ideológico na disputa.

Ao insistir na candidatura de Lula, a Executiva Nacional do PT aprovou resolução que defende “uma ampla e sólida aliança” da esquerda em torno do líder petista. O documento foi divulgado na quinta-feira passada, um dia depois de a 8.ª Turma do TRF-4 confirmar a condenação por corrupção passiva e lavagem de dinheiro e ampliar a pena imposta a Lula para 12 anos e 1 mês de prisão. Com a condenação pelo colegiado, a tendência é de que Lula – líder nas pesquisas de intenção de voto – seja enquadrado na Lei da Ficha Limpa e fique inelegível.

O PT promete levar a candidatura do ex-presidente até às últimas consequências, mas os antigos aliados PCdoB e PDT não aceitam abrir mão das pré-candidaturas presidenciais da deputada gaúcha Manuela D’Ávila e do ex-ministro Ciro Gomes, respectivamente.

O PSOL convidou para ser candidato à Presidência o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, nome ligado a Lula. Se aceitar, Boulos repetirá a estratégia de voo solo que o PSOL adota desde sua fundação, em 2004, fruto de uma dissidência da legenda petista.

“O PT é um partido que sempre buscou hegemonia. Nunca tive a ilusão de que eles poderiam apoiar o Ciro. Se não for o Lula, eles vão lançar outro candidato”, disse Cid Gomes, exministro da Educação no governo Dilma Rousseff e irmão de Ciro. “O PT quer lançar uma frente contando que o candidato seja deles. Tem sido a prática nos últimos anos”, afirmou o vice-presidente do PDT e líder da bancada na Câmara, André Figueiredo (CE).

‘Esquerda só tem chance com apoio de Lula’

Historiador diz que candidato do campo que chegar ao segundo turno neste ano vai precisar da ajuda do ex-presidente

- O Estado de S. Paulo.

Lincoln Secco, professor de História Contemporânea  da USP

Julgamento. A condenação tem significados diferentes, porque o PT precisa resolver um problema mais de curto prazo, que é qual vai ser o candidato substituto. Agora, para Lula, para militância, para parte da sociedade que o apoia, a condenação reforça a biografia dele, com toda a certeza. O julgamento, para os seus apoiadores, passou imagem de que ele é um perseguido político, uma vítima do sistema. A gente tem de lembrar que o Lula é um mito popular. Isso explica o apoio que eles dão.

Forças. À primeira vista, todos os concorrentes do Lula de centro esquerda saíram fortalecidos: Ciro Gomes, eventualmente outros nomes, como Marina Silva. Os candidatos que disputam a centro esquerda. Agora, a Marina apoiou a decisão do tribunal e não sei se isso é inteiramente bom. Esses candidatos que querem lucrar com a retirada do Lula da cena eleitoral vão ter que cortejar o eleitorado do Lula. Se o PT não conseguir transferir os votos do Lula para outro candidato ou grande parte dos votos, a extrema direita sai favorecida, porque o sistema político como um todo está caótico. Há hoje muita coincidência de voto entre Lula e Jair Bolsonaro.

Eleição. A candidatura de Lula é a defesa política do ex-presidente, ao mesmo tempo da manutenção do PT como um partido relevante no cenário político. Se você tem um candidato com 35% de intenção de voto, ele garante que o partido continue em evidência para a disputa de 2018. A campanha dele surtiu efeito: ele está à frente nas pesquisas. Ele não vai poder concorrer, mas essa campanha vai permitir que o PT possa construir aos poucos uma campanha alternativa para transferir os votos do Lula.

Consenso. Acho difícil que a esquerda chegue a um consenso em torno de um nome, a convergência só deve acontecer mesmo em um segundo turno. Até porque os outros partidos também precisam sobreviver e lançar seus próprios candidatos. Agora, é interessante perceber como essa relação do Lula, da esquerda com os setores populares, é personalista. Sem o apoio do Lula, o candidato da esquerda pode até chegar a um segundo turno, mas só tem chance de se eleger se tiver o apoio dele. Lula não só tem o maior capital político da esquerda, como agora, para o setor que o apoia, ele virou um mito mais forte ainda, mártir, vítima. Especialmente se ele for preso. Isso favorece bastante o papel dele na eleição.

Prisão. Para a biografia de Lula, a prisão só prejudica quem já não gostava dele. Para quem o apoiava, pode reforçar a tese de “mito”. O PT, por outro la- do, soltou uma nota muito tímida (sobre a condenação). Eu esperava que fosse com maior radicalismo verbal. Esse tipo de reação extralegal, de resistência, só aconteceria com um gesto do próprio Lula. Para que isso seja efetivo, o líder tem de aderir. E esse radicalismo não é do histórico dele, ele é conciliador. Tem de separar isso da verborragia de campanha, que é natural.

História. (Se fosse escrever uma sequência do livro ‘História do PT’) Na verdade é mais um marco histórico na trajetória do PT. Como o governo Temer ajudou o PT a se recuperar eleitoralmente e como preferência partidária, a história dele continua. Continua sendo a principal agremiação da esquerda. A queda da Dilma retardou a renovação da esquerda. Em 2013, começaram a surgir novos movimentos e organizações de esquerda. Mas o processo de impeachment fez de novo a esquerda se aglutinar em torno do PT.

Lideranças. (Se o ex-presidente for preso abre espaço) Para novas lideranças, sem dúvida, abre espaço. Mas não é necessariamente uma renovação. Renovação vai demorar mais, por- que vai se dar dentro do PT. Ele continua o principal partido da esquerda.

‘Saída de petista abre espaço para candidaturas’

Para cientista político, discurso de vitimização é de difícil sustentação, mas transferência de voto não é desprezível

- O Estado de S. Paulo.

José Álvaro Moisés, professor de Ciência Política da USP

Julgamento. (A condenação no TRF-4) Para o ex-presidente Lula foi um enorme revés. Na medida em que os desembargadores num contexto colocaram mais o julgamento amplo, relativo às responsabilidades do ex-presidente desde o escândalo do mensalão, ficou mais difícil para ele continuar com a narrativa da vitimização. Na democracia, quem comete ilícitos é julgado e condenado.

Refundação. O PT que nasceu como um partido que tinha como objetivo a refundação da política brasileira perdeu seu principal argumento que era o de um partido de esquerda capaz de reorganizar a política nacional, voltado-se, principalmente, para a justiça social. Mas o PT incidiu no hábito conservador política que tanto e tradicional criticava. da O PT se misturou com essa elite. Não sou eu quem disse isso, quem disse foi o ex-governador do Rio Grande do Sul Olívio Dutra (em entrevista ao Estado na quarta-feira).

Instabilidade. Eu não estou na turma que vê na condenação do Lula, no recolhimento do passaporte dele ou em uma eventual prisão algo que deveria ser evitado para não se criar instabilidade e tensão social. A democracia não pode ser uma brincadeira que, dependendo do personagem, os procedimentos adotados podem ser modificados. Lula não é o único. Outros políticos foram condenados, e até presos, e o discurso do “golpe” não foi evocado. Agora, a Justiça vai mostrar que preza pela igualdade de tratamento dando prosseguimento aos casos envolvendo nomes do MDB, PSDB e outros partidos.

Eleições. A decisão do julgamento criou uma situação nova no campo da centro esquerda. A saída do ex-presidente Lula da corrida presidencial modifica o cenário e abre espaço para um potencial fortalecimento de nomes como Ciro Gomes, Manuela D’Ávila e Marina Silva. Isso, claro, se esses nomes tiverem um discurso capaz de capturar o prestígio do ex-presidente Lula.

Transferência. A possibilidade de Lula transferir seus votos para o ex-governador da Bahia Jaques Wagner ou para o exprefeito de São Paulo Fernando Haddad não é uma hipótese desprezível. Mas o PT como um todo vai estar diante de outras questões que podem dificultar um sucesso eleitoral. O PT vai ter de explicar o seu papel na Lava Jato, no mensalão, nos desvios na Petrobrás.

Forças. Toda vez que existe um movimento de deslocamento de alguma força política, existe a possibilidade de crescimento de outra força. Embora os candidatos tenham sido cautelosos, até mesmo o governador Geraldo Alckmin (PSDB), em relação ao resultado no TRF-4, abriu-se um espaço para a requalificação de outras candidaturas, como a do governador, por exemplo. Quem quiser ocupar o espaço pela eventual saída do Lula do páreo vai ter de incorporar em seu discurso aspectos de justiça social e distribuição de renda.

Prisão. A prisão do Lula pode ter enorme impacto. Ele é um líder popular muito prestigiado pelos seus eleitores que podem, até pela narrativa escolhida pelo PT, não compreender com clareza o motivo da condenação. Não compartilho do receio do ministro Marco Aurélio Mello de que uma eventual prisão de Lula incendiaria o País. Vai ter protestos, que, aliás, são legítimos, mas não a ponto de se incendiar.

Desobediência. Quando o Lula diz que não vai aceitar o resultado de um julgamento, isso introduz um elemento de tensão na disputa eleitoral. Isso significa que um contingente importante de um partido relevante não aceita o resultado de uma parte das instituições democráticas. A Justiça é a possibilidade de igualdade perante a lei. Para um partido que defende igualdade é estranho que pregue essa desobediência.

O mapa dos votos no lulismo

A condenação de Lula pelo TRF-4 e um possível impedimento de sua candidatura abrirão uma disputa por cerca de 53 milhões de eleitores. Adversários precisarão transferir votos principalmente de cidades com até 50 mil habitantes.

Os 53 milhões de votos e seus muitos destinos

Saída de Lula levaria adversários a travar luta por eleitores em cidades de até 50 mil habitantes

Fernanda Krakovics, Marco Grillo e Daniel Lima / O Globo

A condenação em segunda instância do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tornou possível o veto à sua participação na eleição presidencial, fará com que um a cada três eleitores tenha, provavelmente, que optar por outro candidato. É um grupo formado por cerca de 53 milhões de brasileiros, segundo a pesquisa mais recente do Datafolha, divulgada em dezembro de 2017. O cálculo do GLOBO levou em consideração o cenário em que o petista aparece com 36% das intenções de voto, disputando contra seus principais opositores, e a base de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que mostra um colégio eleitoral de 146 milhões de pessoas.

Ao longo dos pouco mais de 13 anos de PT no comando do Palácio do Planalto, o lulismo expandiu as fronteiras do eleitorado clássico do partido desde a fundação até a chegada ao poder, em 2002. Os outros candidatos precisarão conquistar a preferência de um segmento composto, majoritariamente, por moradores de municípios com até 50 mil habitantes. O maior apoio a Lula se dá na faixa que tem renda familiar de até dois salários mínimos e baixa escolaridade. Além disso, a popularidade de Lula no Nordeste é maior do que nas outras regiões.

O recorte das pesquisas de intenção de voto mostra também que as mulheres não brancas e com mais de 44 anos endossam mais a candidatura do petista. Na maior parte dos casos, segundo o Datafolha, são donas de casa e aposentadas que administram baixos orçamentos familiares. Menções ao desemprego como principal problema do país são muito mais frequentes do que no restante da população, assim como a percepção de que a situação econômica, tanto do Brasil quanto a pessoal, piorou nos últimos meses.

Lula deslocou o apoio majoritário ao PT dos grandes centros urbanos para o interior do país, e esse é o cenário no qual vai se travar uma fundamental disputa pelos votos que poderão eleger o próximo presidente do Brasil.

Com base na pesquisa mais recente, divulgada no início de dezembro, o diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino, afirma que o principal efeito da eventual saída de Lula da disputa é o aumento da crise de representação. Segundo ele, 29% dos eleitores do ex-presidente votariam em branco ou nulo nesse cenário.

— Tudo isso a confirmar, em próxima pesquisa, com o fato concreto da condenação. Essas tendências internas podem ter mudado — ressalta Mauro Paulino.

Ainda tendo como parâmetro o levantamento divulgado em dezembro, o diretor-geral do Datafolha afirma que a pré-candidata da Rede, Marina Silva, seria, depois dos votos brancos e nulos, a principal beneficiada se Lula for impedido de concorrer, herdando 25% de seus votos.

Transferência de votos não é automática

Para especialistas, quanto mais cedo for eventual troca, melhor para o PT

Fernanda Krakovics e Marco Grillo / O Globo

O potencial de transferência de votos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, caso sua candidatura à Presidência seja barrada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), será decisivo para o desempenho do candidato petista escolhido como substituto ou do aliado que o PT venha a apoiar. A pesquisa Datafolha mais recente, divulgada em dezembro, mostrou que essa migração não é automática. Especialistas ouvidos pelo GLOBO acreditam que o momento em que o apoio for anunciado será decisivo — quanto mais cedo, mais chances de ser efetivo.

O apoio de Lula a um candidato, sem os pesquisadores especificarem nomes, levaria 29% do total de eleitores a votar nesse político para presidente. Outros 21% talvez escolhessem o indicado, enquanto 48% não votariam de jeito nenhum no preferido de Lula e do PT.

Mas, a partir da apresentação dos nomes ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad e do ex-governador da Bahia Jaques Wagner, a taxa de conversão de apoio de Lula em intenções de voto cai na comparação com o apoio genérico. O suporte de Lula a Wagner faria com que 13% votassem nele com certeza, e 19% talvez optassem pelo petista. Uma fatia de 63%, porém, não votaria no ex-governador com o apoio de Lula. No caso do endosso do ex-presidente a Haddad, 14% votariam com certeza no ex-prefeito de São Paulo, 21% talvez escolhessem sua candidatura, e a maioria, 61%, não votaria nele.

— Quando confrontados com os nomes do Haddad e do Jaques Wagner, a taxa diminui pela metade porque eles são pouco conhecidos fora das regiões onde atuam. O dilema do PT é em que momento fazer essa mudança (de candidato). Qualquer nome do PT precisaria de um tempo para se tornar conhecido e convencer a população de que vai cumprir as promessas esperadas do Lula — pontua o diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino.

Estrategista de Macron conversa com PPS e Partido Novo

Isabel Fleck / Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Um dos principais nomes por trás da eleição do presidente francês, Emmanuel Macron, o estrategista Guillaume Liegey vem ao Brasil nesta semana e espera sair do país com novos clientes.

Liegey, que já esteve no país em novembro, terá desta vez pelo menos 15 encontros com políticos e partidos, entre eles o PPS, que sonha lançar para o Planalto o apresentador Luciano Huck.

Para o estrategista, que cuidou da campanha do "outsider" Macron, o apresentador brasileiro tem um "perfil muito interessante".

"Ele é um profissional respeitado na sua área e tem uma visão muito nova sobre política", disse à Folha o francês, que chega a São Paulo na segunda (29) e também se encontrará com o pré-candidato do partido Novo à Presidência, João Amoêdo.

Liegey menciona o fato de Huck já ter uma pequena projeção nas pesquisas, como ocorria com Macron. Em sondagem do Ibope do fim de outubro, o apresentador aparecia com 5% das intenções de voto –empatado com o governador de São Paulo e pré-candidato do PSDB, Geraldo Alckmin. Dez meses antes das eleições na França, o então candidato Macron tinha cerca 10% das intenções.

'BASE BOA'
"É importante você começar com um capital, uma base boa [de votos] sobre a qual se pode trabalhar", afirmou.

O presidente do PPS, o deputado federal Roberto Freire (SP), que se reunirá com o francês, admite que a experiência de Liegey poderia ser aproveitada se Huck decidir se candidatar.

"Vamos admitir que possa ocorrer essa hipótese [candidatura de Huck], aí algo que você analisou, que teve conhecimento, que experimentou, tudo isso pode vir a influenciar", disse Freire. Ele, no entanto, afirma não haver hoje conversas com o apresentador sobre a possibilidade de que concorra.

Apesar de recentes declarações de que as eleições deste ano seriam uma oportunidade para "reocupar o espaço" de uma classe política que "derreteu", Huck afirmou, no começo de janeiro, "não ser candidato a nada".

Para Freire, "elementos" vistos na disputa francesa podem se repetir em 2018 no Brasil, como uma resistência dos eleitores em relação a políticos tradicionais. "É algo que a gente pode imaginar que terá uma certa presença na nossa campanha aqui também."

Goethe: Livro do amor

O mais singular livro dos livros
É o Livro do Amor;
Li-o com toda a atenção:
Poucas folhas de alegrias,
De dores cadernos inteiros.
Apartamento faz uma secção.
Reencontro! um breve capítulo,
Fragmentário. Volumes de mágoas
Alongados de comentários,
Infinitos, sem medida.
Ó Nisami! — mas no fim
Achaste o justo caminho;
O insolúvel, quem o resolve?
Os amantes que tornam a encontrar-se.
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Johann Wolfgang von Goethe, in "Divã Ocidental-Oriental"
Tradução de Paulo Quintela

Maria Rita - Amor e música