Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
sábado, 22 de novembro de 2025
sexta-feira, 21 de novembro de 2025
Opinião do dia – Theodor W. Adorno* (Radicalismo de direita)
Talvez alguns entre os senhores me
perguntarão ou me perguntariam o que penso sob o futuro do radicalismo de
direita. Penso que essa pergunta é falsa, pois ela é demasiado contemplativa.
Nessa forma de pensar, que vê de antemão essas coisas como catástrofes
naturais, sobre as quais se fazem previsões assim como sobre furacões ou sobre
desastres meteorológicos, há já uma espécie de resignação na qual as pessoas
desligam-se enquanto sujeitos políticos, há aí uma má relação de espectador com
a realidade. Como essas coisas vão evoluir e a responsabilidade sobre como elas
vão evoluir – isso depende, em última instância, de nós. Agradeço pela atenção.
*Theodor W. Adorno (11/9/1903-6/8/1969),
filósofo, sociólogo, musicólogo e compositor alemão. É um dos expoentes da
chamada Escola de Frankfurt, juntamente com Max Horkheimer, Walter Benjamin,
Herbert Marcuse, Jürgen Habermas, entre outros. Conferência realizada no dia 6
de abril de 1967, a convite da União dos Estudantes Socialista da Áustria.
“Aspectos do novo radicalismo de direita”, p.76. Editora Unesp, 2020.
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
Por que estados e municípios aplicaram no Master?
Por Folha de S. Paulo
Entidades previdenciárias fizeram aportes
vultosos no banco agora quebrado, o que exige investigação
Cumpre também esclarecer os motivos para a
falha dos órgãos reguladores, sobretudo o BC, em identificar e prevenir o
problema
Com
decretação da liquidação extrajudicial do Banco Master pelo Banco Central,
o país começa a conhecer em detalhes os caminhos e participantes que levaram ao
descalabro financeiro que agora penaliza poupadores e pensionistas.
Os primeiros valores divulgados já são
alarmantes: cerca de R$ 41 bilhões a serem cobertos pelo Fundo Garantidor de
Créditos (FGC) para um total de 1,6 milhão de investidores até o limite
individual de R$ 250 mil.
Há muito mais a saber na investigação de fraude estimada em R$ 12 bilhões, envolvendo carteiras de crédito consignado falsificadas, criadas por meio de associações fantasmas. Será preciso mapear os canais de influência que permitiram ao banco, como se suspeita, inflar ativos.
A saída é o federalismo cooperativo, por Fernando Luiz Abrucio*
Valor Econômico
É preciso ter articulação institucionalizada,
constante, com planejamento conjunto e aprendizado mútuo entre os entes para se
combater o crime organizado
A trajetória do projeto de lei antifacção na
Câmara Federal foi uma estrada pavimentada por erros. A escolha politizada do
nome do relator parece ser o maior deles, mas talvez tenha sido só o primeiro
equívoco. Algo pior ocorreu do ponto de vista da política pública. O deputado
Derrite escolheu inicialmente um modelo que dificultava a cooperação entre
estados e União, quando o crime organizado só pode ser combatido juntando
esforços. Depois ele tentou matizar isso nas seis versões de uma peça
legislativa frágil e apressada. Ao final, a Polícia Federal continuou
enfraquecida e nada de inovador foi criado para ampliar as parcerias
federativas. Seguindo essa linha, as facções só podem agradecer aos deputados.
Os equívocos da Câmara provavelmente vão ser corrigidos pelo Senado. A escolha do senador Alessandro Vieira para relator já demonstra a completa diferença de critérios de seleção. Enquanto o deputado responsável pelo projeto o subordinou à discussão da eleição presidencial de 2026, Vieira tem optado por um caminho diferente, não se filiando automaticamente nem ao governo nem à oposição. Mais do que isso: já como presidente da CPI do Crime Organizado tem priorizado a discussão técnica e a conversa com especialistas - Derrite não ouviu nenhum importante estudioso do assunto. Vieira tende a produzir uma peça legislativa mais consistente, sem respostas rápidas e populistas, gastando o tempo necessário para pensar no país, e não nas torcidas partidárias do jogo eleitoral.
Religião e incertezas, por José de Souza Martins*
Valor Econômico
Dados do censo revelam vacilações e
incertezas quanto à fé
Os dados preliminares e incompletos do Censo
Demográfico de 2022 sobre religiões no Brasil, agora divulgados, na diversidade
de grandes grupos de crença (e descrença) trazem indícios de vacilações e
incertezas quanto à fé e, provavelmente, ao lugar da fé na vida dos diferentes
grupos populacionais.
Em princípio, os dados censitários indicam a persistência do declínio da proporção de católicos no conjunto da população. E indicam a multiplicação geométrica da proporção de evangélicos. Ao mesmo tempo, num país supostamente religioso como o Brasil, não deixa de surpreender o número dos sem religião, sem contar os que não sabem definir sua religião ou que não a declararam. A que se deve agregar indicações de outras fontes sobre os que têm fé mas não perfilham uma confissão determinada: os chamados “desigrejados”.
Lula se veste com as roupas e armas de Jorge, por Andrea Jubé
Valor Econômico
Indicação de Messias ao STF prorroga a temporada de embates do governo com o Congresso
A indicação do ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, para a vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) prorroga a temporada de embates do governo com o Congresso, em meio à ressaca governista ante a aprovação do relatório do deputado Guilherme Derrite (PP-SP) ao PL Antifacção na Câmara dos Deputados.
Em questão de horas após a indicação de Messias, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), anunciou a inclusão na pauta de terça-feira (25) do projeto que regulamenta a aposentadoria dos Agentes Comunitários de Saúde e de Combate às Endemias - uma verdadeira bomba fiscal. Foi a primeira retaliação de Alcolumbre, que havia trabalhado pelo seu antecessor no cargo, o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG).
Incêndio na Zona Azul foi o anticlímax de uma COP tropical pautada pela esperança, por Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense
Apesar de tudo, a COP30 deixa legados. O
evento recolocou a Amazônia no centro da discussão climática, demonstrando que
na floresta também se decide o futuro do planeta
A COP30, em Belém, encerra-se sob um clima
melancólico, simbolizado pelo incêndio no Pavilhão dos Países da Zona Azul,
porém, deixa avanços que merecem ser registrados, mesmo em meio às dificuldades
políticas, diplomáticas e climáticas. O incidente ocorrido na véspera do
encerramento — rapidamente controlado e sem vítimas — tornou-se uma metáfora
perfeita da conferência: um evento intenso e plural, com grande participação de
ambientalistas, cientistas, povos originários e indígenas, no entanto,
vulnerável às tensões e contradições que atravessam a agenda climática global.
A evacuação da Blue Zone, principal área de negociações, suspendeu trabalhos justamente quando se esperava uma definição sobre o chamado "Mapa do Caminho", documento crucial para orientar a eliminação gradual dos combustíveis fósseis nas próximas décadas. Ainda que a ausência deliberada de uma delegação oficial do governo Trump e as resistências de China, Índia e Arábia Saudita tenham travado o processo, uma coalizão de 82 países, unindo Norte e Sul globais, manifestou-se a favor de uma referência concreta à transição energética — movimento que reposiciona o debate e pressiona os grandes emissores.
No Congresso, Lula x Tarcísio já começou, por Raquel Landim
O Estado de S. Paulo
Se Derrite saiu vitorioso, ponto para
Tarcísio também, que poderá apresentar como seu o marco legal
A direita ainda espera o aval de Jair Bolsonaro para seu candidato para 2026, mas no Congresso já tivemos uma prévia da disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Tarcísio de Freitas.
O presidente da Câmara, Hugo Motta, deu
início ao confronto ao escolher o deputado Guilherme Derrite (PP-SP) para
relatar o PL Antifacção.
A despeito de ter experiência na área, ele é
também secretário de segurança pública de São Paulo e sua indicação foi vista
pelo PT como uma operação política para tirar a autoria do projeto do colo do
presidente e jogar no do governador de São Paulo. O governo fez o que pode,
apontando os erros do projeto como o enfraquecimento da Polícia Federal e da
Receita.
Derrite não se importou de ir admitindo os recuos e apresentou nada menos que seis versões do projeto.
As muitas guerras de Lula, por Eliane Cantanhêde
O Estado de S. Paulo.
Lula anunciou Messias no dia errado, na hora errada, e pode colher derrotas
Em mais uma semana tensa, com derrotas,
oposição alvoroçada e atropelos, inclusive na COP 30, o presidente Lula
encomendou mais uma crise com o Congresso e aumentou o mal-estar com o
Judiciário ao oficializar Jorge Messias para o Supremo. Mesmo a comemoração do
recuo nos 40% de produtos agrícolas deixa dúvidas. Assim, Lula viaja para o
G-20 na África do Sul, no próximo sábado, com o incêndio em Belém controlado,
mas o circo pegando fogo.
Lula demorou para anunciar Messias, escolheu
o dia errado, irritou seu aliado mais estratégico no Congresso, arriscou-se a
uma derrota histórica e a uma sequência de bombas fiscais no Senado, até aqui
sua terra firme para escapar do pântano na Câmara.
Como na nomeação de Cristiano Zanin, seu advogado na Lava Jato, a de Messias, advogado-geral da União, era líquida e certa desde sempre. Lula foi adiando o anúncio para ganhar, além de tempo, uma votação ou outra no Senado – como a isenção do IR até R$ 5.000,00. É incrível, mas depois de meses e de toda a pressão por uma mulher negra no STF, anunciou Messias justamente no Dia da Consciência Negra.
Belém e Brasília: a saga das discussões, por Fernando Gabeira
O Estado de S. Paulo
Tanto os negociadores de Belém como os de Brasília estão diante de fatos complexos, situações que foram longe demais para serem resolvidas numa mesa de debate
Belém–Brasília. Dois grandes desafios na mesa
de negociação. Na última, o problema da segurança pública no Brasil. Em Belém,
as consequências das mudanças climáticas. O caso brasileiro tinha tudo para ser
mais fácil. Não são mais de cem países em cena. É apenas o Brasil num momento
especial: a proximidade das eleições.
Em Belém, a conjuntura também é negativa para amplos acordos. Alguns países, como os europeus, estão às voltas com custos militares. Quase todos os outros são pressionados internamente com problemas diversos, além da questão ambiental. Interessante que, em Belém, o que fragmenta, quase sempre, é o interesse nacional. A Arábia Saudita, por exemplo, aceita a ideia de superar os combustíveis fósseis, mas recusa qualquer tipo de compromisso como, por exemplo, data para encerrar o uso ou mesmo questionamento sobre os subsídios.
O governo do 'eu sozinho', por Vera Magalhães
O Globo
Nomeação de Messias, que desagrada
Alcolumbre, mostra estilo de gestão baseado na autossuficiência, mesmo em
condições adversas
Lula resolveu testar, na reta final do
terceiro mandato, um novo estilo de governar: autossuficiência na adversidade.
É o tipo de opção que cai bem em filmes de ação, aqueles em que o herói se vê
sozinho na mata ou num país hostil e resolve enfrentar bandidos, zumbis ou a Yakuza
na base do “eu sozinho”. Para governar, não parece ser uma receita muito boa.
As coisas vão mal com a Câmara, e o Senado parece ser o último bastião de (mínima e circunstancial) governabilidade? Então vamos implodir as pontes também com o Senado. Parece ter sido esse o raciocínio a recomendar ao presidente a ideia de designar para o STF o candidato rival do preferido de Davi Alcolumbre no exato momento em que tramita na Casa presidida por ele um dos projetos mais importantes para o governo no palanque de 2026.
Prenda-me se for capaz, Por Bernardo Mello Franco
O Globo
Condenado por tentativa de golpe, deputado
repousa em condomínio de luxo em Miami
Alexandre Ramagem foi condenado a 16 anos de
prisão por integrar o núcleo da quadrilha que tentou dar golpe de Estado no
Brasil. A dias de ir para a cadeia, mandou-se para a Flórida, onde agora
repousa num condomínio de luxo com lago artificial e praia particular.
O ex-diretor da Abin não é o primeiro da turma a evaporar do país. Nos últimos meses, quatro parlamentares bolsonaristas embarcaram rumo aos Estados Unidos para escapar do alcance da lei.
Quando a virtude cega, por Pablo Ortellado
O Globo
Passamos a aceitar, quase sem escândalo, que
uma instituição cultural possa estigmatizar publicamente uma ativista ambiental
pelos feitos de um tio-bisavô
A Bienal de São Paulo anunciou o cancelamento de uma atividade que aconteceria no dia 6 de novembro, no contexto da COP30, reunindo a princesa Esmeralda da Bélgica e o fotógrafo João Farkas. Os dois fariam um debate sobre arte e conservação ambiental. João Farkas é fotógrafo, autor do livro “Amazônia ocupada”. Esmeralda de Réthy é jornalista e ativista ambiental, presidente do Fundo Rei Leopoldo III para Exploração e Conservação da Natureza.
Trump discrimina menos o Brasil, por Vinicius Torres Freire
Folha de S. Paulo
EUA incluem produtos alimentícios brasileiros
na lista do 'destarifaço' mundial
Conversa sobre itens industriais e barreiras
não tarifárias deve ser mais difícil
O Brasil enfim entrou no trem de corte de
impostos de importação dos Estados Unidos, "tarifas", o expresso da
impopularidade de Donald Trump,
diminuída por queixas a respeito do custo de vida. Com quase uma semana de
atraso, o presidente americano cancelou aquele
imposto extra de 40% sobre certos produtos brasileiros. Atraso:
na sexta passada, Trump mandara
reduzir a zero, para o mundo inteiro, Brasil inclusive, aquelas "tarifas
recíprocas" de 10% sobre produtos alimentícios e fertilizantes.
Boa notícia, em termos. Além do "destarifaço" para carne de boi, café, certas frutas, outros produtos alimentícios e de peças e partes de aviões, o tom do decreto de Trump que anunciou o "destarifaço" parcial indica que as relações com o Brasil estão menos amargas. Trump ainda escreve que "...o alcance e a gravidade das políticas, práticas e ações recentes do governo do Brasil constituem ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos". Mas esse resumo dos dissabores foi reduzido e não indicou vontade de bater mais.
Nada além do interesse eleitoreiro, por Dora Kramer
Folha de S. Paulo
O protagonismo da segurança pública no debate
eleitoral interdita a chance de providências efetivas
Ocupados em demarcar palanques, políticos de
direita e de esquerda ignoram as urgências da população
A segurança pública está no topo das preocupações da
população e por isso é candidata a figurar como principal tema das eleições de
2026. Como a campanha já começou, é exatamente esse protagonismo o que
interdita providências efetivas.
Uma bandeira em disputa impossibilita qualquer tentativa de unificação de propósitos e integração de ações, requisitos básicos para estruturação e organização do Estado para enfrentar o problema da criminalidade que assola o país.
Só a direita é extremista? Por Hélio Schwartsman
Folha de S. Paulo
Aceito provocação de leitor e tento explicar
critérios para uso de ultra e extremo na política
Não é a veemência com que se defende uma
ideia que caracteriza o extremismo, mas a natureza do posicionamento
O leitor Guilherme Fernandes me cutuca:
"Prezado Helio, Bom dia! Queria um esclarecimento. O que significa
ultradireita, além de alguém com quem vc não concorda? Pergunto isso pois,
raramente, vejo Boulos sendo descrito como extrema esquerda… ou Jean Willys…".
Aceito a provocação. Costumo reservar o prefixo "ultra" e o adjetivo "extremo" para grupos ou indivíduos com atuação contra o sistema. E o que significa ser antissistema? Essa é uma categoria que comporta uma ampla gama de ações, que vão desde não aceitar derrotas eleitorais até tentar implementar medidas que violam ou debilitam cláusulas pétreas do Estado liberal democrático e de Direito.
Meus leitores bolsonaristas, por Ruy Castro
Folha de S. Paulo
Nunca escrevi a favor de qualquer governante,
de direita ou de esquerda
Com Bolsonaro aprendi que a corrupção é
fichinha diante da ameaça à democracia
Sempre que faço alguma restrição à esquerda nesta coluna, meus fieis leitores bolsonaristas (todos os cinco) me honram com comentários entusiasmados, em que me cumprimentam pelo que não escrevi ou me atribuem uma súbita conversão à direita. Um dia saberão que, em quase 60 anos de profissão, em jornais, revistas e livros, nunca escrevi uma palavra a favor de qualquer governante, seja presidente, seja governador, seja prefeito, de direita ou de esquerda. Prefiro escrever contra.
Vamos conversar sobre adaptação para resiliência/sobrevivência? Por Antônio Márcio Buainain*
Jornal da Unicamp
A COP-30 seguirá seu curso — necessária,
simbólica, global, mas a verdadeira prova do nosso futuro não está nos
pavilhões das conferências
ACOP-30 está em andamento, ocupando os noticiários com imagens de delegações, mesas redondas e discursos que, por alguns dias, empurram o clima para o centro da agenda pública global. Como sempre, há a expectativa de que, desta vez, os compromissos ambiciosos se traduzam em algo mais concreto: planos de ação robustos, com financiamento adequado e capacidade real de implementação. Esses encontros são importantes — criam pressão política, mobilizam recursos, sinalizam intenções. Mas é curioso como, mesmo com toda essa liturgia global, seguimos discutindo a mudança climática num plano abstrato demais, distante da materialidade das decisões. Falamos do planeta quando deveríamos falar também da paisagem; discutimos o sistema climático quando deveríamos discutir o território, onde as pessoas vivem, trabalham, produzem e enfrentam, de forma concreta, os efeitos das transformações.
quinta-feira, 20 de novembro de 2025
Opinião do dia - Jürgen Habermas* (Os direitos humanos)
Naturalmente, essa ideia transcendente de
justiça introduz uma tensão problemática no interior de uma sociedade política
e social. Independentemente da força meramente simbólica dos direitos
fundamentais em muitas das democracias de fachada da América do Sul e de outros
lugares, na política dos direitos humanos das Nações Unidas revela-se a
contradição entre a ampliação da retórica dos direitos humanos , de um lado, e
seu mau uso como meio de legitimação para as políticas de poder usuais, de
outro.”
*Jürgen Habermas (Düsseldorf, 1929) é um filósofo e sociólogo alemão, ‘Sobre a Constituição da Europa’ (2011), pp. 31-2, Editora Unesp, 2012.
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
Ruína do Master expõe incúria de fundos públicos
Por O Globo
Não há justificativa para Previdência do funcionalismo investir em papéis do banco que todos sabiam definhar
É fundamental que a polícia investigue com rigor os investimentos dos fundos de Previdência de estados e municípios em títulos do Banco Master, cuja liquidação extrajudicial foi decretada nesta semana. De outubro de 2023 a dezembro de 2024, R$ 1,9 bilhão foi aplicado em papéis do Master por 18 fundos do funcionalismo público — metade disso pelo Rioprevidência, do governo do Rio de Janeiro. As dificuldades do Master eram conhecidas, e não há justificativa plausível para tais investimentos. No fim do ano passado, o Tribunal de Contas do Estado do Rio apontou irregularidades e fez um pedido para o Rioprevidência suspender novas aplicações no Master. Foi ignorado. Não há notícia de que o governador Cláudio Castro (PL-RJ) tenha se esforçado para proteger o patrimônio dos funcionários do estado.
Linguagem simples, por Merval Pereira
O Globo
Juridiquês” é uma maneira empolada de
explicar as decisões do Judiciário e geralmente quer revelar uma sofisticação
de linguagem que não passa de presunção, sem conexão com a realidade.
A busca por “linguagem simples” ganhou força com a assinatura, pelo presidente Lula, da lei que proíbe o uso da linguagem neutra na administração pública em todos os níveis, como União, estados e municípios. A regra determina que órgãos públicos sigam a norma culta, sem usar “novas formas de flexão de gênero e de número das palavras da língua portuguesa, em contrariedade às regras gramaticais consolidadas, ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp) e ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, promulgado pelo Decreto nº 6.583, de 29 de setembro de 2008”.
A lei vale para todos, por Julia Duailibi
O Globo
O fato de ele ser ex-presidente influenciará
os próximos passos. Mesmo sem qualquer previsão legal
Jair Bolsonaro deverá ser preso nos próximos
dias. A discussão agora é se a pena de 27 anos e três meses começa a ser
executada em regime fechado ou se ele continua em casa, onde cumpre prisão
cautelar num outro processo, em que seu filho Zero Três foi denunciado e se
tornou réu.
Bolsonaro não tem direito a qualquer regalia por ter sido presidente. A lei não prevê isso. Ao contrário, prega que todos os brasileiros são iguais. Mas ele terá eventual direito a domiciliar se, e apenas se, ficarem comprovadas questões humanitárias, como as de saúde. Embora seja uma previsão ignorada para a maioria, ela se faz valer quando o preso tem recursos. Deveria valer para todos, mas o fato de ser aplicada a figurões não a torna ilegal. Ilegal é receber o benefício só porque ocupou o mais alto cargo da República.
Antes tarde do que mais tarde, por Malu Gaspar
O Globo
A operação da Polícia
Federal (PF) que prendeu Daniel Vorcaro e outros dirigentes do
Banco Master por falsificar títulos de crédito para encobrir um desvio de R$
12,2 bilhões do Banco de Brasília,
o BRB, foi certeira, mas o Banco Central não
precisava ter esperado até que surgisse uma fraude tão grosseira para começar a
agir.
As peripécias de Vorcaro são acompanhadas com lupa no mercado já há alguns anos, pelo menos desde 2021, quando seu banco passou a crescer vertiginosamente vendendo títulos que prometiam rendimentos extraordinários aos clientes e pagando comissões fora do comum aos corretores.
Cientistas avisam: não há mais tempo, por Míriam Leitão
O Globo
Eles cobram mais empenho para o fim do uso
dos combustíveis fósseis e Lula entra na força- tarefa para destravar as
negociações
Uma grande tempestade despencou sobre Belém logo após os cientistas fazerem mais um de seus alertas, em tom bem duro: “Estamos numa encruzilhada planetária. A COP 30 tem uma escolha: proteger as pessoas e a vida, ou proteger a indústria do combustível fóssil”, escreveram. Naquele mesmo momento, em outro lado da Blue Zone, o presidente Lula estava recebendo o ministro do Meio Ambiente da Alemanha, Carsten Schneider. Ao sair, o alemão afirmou que apoia o mapa do caminho para sair dos combustíveis fósseis. Oitenta e dois países já fizeram isso, entre eles, Reino Unido, Noruega, França, México, Quênia, Portugal e Holanda.
A hora de a América Latina se ajustar, por Assis Moreira
Valor Econômico
O custo será mais doloroso se a região
demorar a construir uma base mais sólida capaz de elevar a produtividade e
promover inclusão e sustentabilidade
A América Latina necessita realmente reconfigurar sua composição econômica para responder aos desafios atuais. É a mensagem, nada nova, mas revigorada, agora num cenário global mais turbulento, feita pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Em novo relatório sobre as perspectivas econômicas da região, na qual o Brasil tem forte peso, a constatação é de que o crescimento econômico está desacelerando na América Latina, em linha com a economia global. A expansão do Produto Interno Bruto (PIB) per capita estabilizou-se próximo ao seu crescimento potencial. A inflação persistente, as vulnerabilidades fiscais, as tensões geopolíticas e as perturbações relacionadas ao clima continuam a representar riscos, variando conforme as diferentes estruturas econômicas, composições das exportações e capacidades institucionais.
A Black Friday do Estado policial, por Maria Cristina Fernandes
Valor Econômico
Quem entrar no gabinete de Lula movido pela expectativa de arrancar panos quentes no Master corre o risco de sair com as mãos abanando
Quem entrar no gabinete presidencial movido
pela expectativa de arrancar panos quentes, tamanho é o imbricamento do caso
Master, corre o risco de sair com as mãos abanando. Lula I e II tinham um
projeto de poder. O de Lula III é um projeto de legado que passa, sim, pela
extensão do poder até 2030, mas se invalidará se abrigar as petições desta
pauta, venham do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal, da Casa Civil
ou do Ministério das Minas e Energia.
Sem preso algemado, condução coercitiva, imprensa na porta das operações, coletivas espalhafatosas ou uma máquina de conluios como a de Curitiba, é o Estado policial que está de volta. Na verdade, uma prolongada Black Friday do Estado policial, que vai garantir emoção na folhinha do calendário até o fim do primeiro semestre de 2026. Dos desdobramentos dos inquéritos que resultaram no desbaratamento das fraudes do INSS ao caso Master, passando pela operação Carbono Oculto e pela venda de sentenças no STJ, cabe tudo lá.
Bolsonaro 2026, nem com Fux ou Kassio, por Carolina Brígido
O Estado de S. Paulo
Mesmo com apoio de integrantes da cúpula do Judiciário, não há condições de reverter inelegibilidade
Jair Bolsonaro deposita em dois ministros a
esperança de ter o rosto estampado nas urnas em 2026. No Supremo Tribunal
Federal (STF), Luiz Fux é o relator de um recurso contra a inelegibilidade. Em
junho do ano que vem, Kassio Nunes Marques assumirá a presidência do Tribunal
Superior Eleitoral (TSE).
Embora ambos tenham afinidade ideológica com o ex-presidente e não economizem demonstrações públicas nesse sentido, não há caminho jurídico capaz de reverter a situação eleitoral do capitão agora.
Daniel Vorcaro e o funk ostentação, por William Waack
O Estado de S. Paulo
Daniel Vorcaro criou um “hedge” político que consistia em levar todo mundo para a festa. Nada de novo ou original. Periodicamente alguma figura de ascensão meteórica na arte de juntar dinheiro – em geral, às custas de trouxas – garante seus negócios chamando quem está próximo do cofre e/ou da máquina pública.
O que fez o ex-banqueiro sentir-se tão à vontade foram dois fatores, um de longo prazo e o outro o resultado das novas tecnologias (leia-se redes sociais). O primeiro é o velho patrimonialismo brasileiro, na forma de agrupamentos privados apelidados de partidos que entendem como ninguém de dinheiro de trouxas (contribuintes). Tem sempre dinheiro público envolvido em manobras como as de Vorcaro e de seus antecessores.
Caso Master enseja modernização do Estado, por Felipe Salto
O Estado de S. Paulo
Episódio deveria servir para que o poder público repensasse as normas atuais, endurecendo-as
Ocaso do Banco Master está sendo amplamente
discutido, graças ao bom trabalho do jornalismo brasileiro, a partir de
veículos sérios, com profissionais aptos ao exercício do ofício. É hora de
refletir e de agir sobre as brechas regulatórias; elas ainda permitem o
surgimento de monstrengos perigosos, como se vê.
A atuação firme do Banco Central é motivo de orgulho. A autonomia da instituição é essencial para a boa condução da política monetária e igualmente importante para garantir a solvência, a organização e o funcionamento do sistema financeiro. O recente episódio noticiado a respeito das pressões de parlamentares para alterar a legislação e avançar sobre diretores do Banco Central não pode ser esquecido.
Banco Master e PL Antifacção deixam Lula e Hugo Motta em rota de colisão, por Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense
A crise do Master desmontou
uma engrenagem de proteção política que vinha funcionando nos bastidores de
Brasília. O banqueiro Daniel Vorcaro investiu pesado na construção de blindagem
institucional
A aprovação do PL Antifacção por 370 votos a 110, em meio à maior operação da Polícia Federal desde o início do governo Lula, pode ser um ponto de ruptura entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que estão em rota de colisão e trocam farpas pelas redes sociais. De um lado, uma derrota legislativa contundente em um tema tão sensível, a segurança pública, mostrou a fragilidade da base de apoio do governo na Câmara e pôs em xeque sua governabilidade. De outro, revelou o grau de infiltração do Banco Master no sistema político e financeiro, com ramificações que atingem diretamente o núcleo do Centrão que hoje comanda a Câmara.
O que as eleições no Chile revelam, por Maria Hermínia Tavares
Folha de S. Paulo
Houve metamorfose nas forças políticas em
três democracias sul-americanas
É provável que o próximo presidente seja de
direita
Eleições sempre podem trazer surpresas. Mas é
provável que o próximo presidente do Chile seja
um político de ultradireita: José Antonio Kast. Embora no primeiro
turno tenha sido superado pela candidata da coligação de
esquerda Unidade pelo Chile, ele tem agora mais chances de crescer, somando os
votos de dois outros candidatos direitistas, do que sua adversária comunista
Jeanette Jara.
A possível vitória de Kast vem sendo interpretada de duas maneiras. A primeira prevê que ela selará uma virada histórica à direita na América do Sul, antecipada pela eleição de Bolsonaro em 2018 e seguida pelas vitórias de Javier Milei, na Argentina, em 2023, de Daniel Noboa, no Equador, e de Rodrigo Paz, na Bolívia, ambas em 2025.
Congresso quase inteiro está caladinho sobre o Master e o BRB, por Vinicius Torres Freire
Folha de S. Paulo
Caso Americanas, que era roubança privada,
teve CPI. Rolo com banco estatal não vai ter?
CPIs têm dado em nada, mas frente ampla de
inquéritos dificulta a vida dos malandros
O Congresso não tem vontade alguma de criar
uma CPI do Master-BRB. Um deputado federal, Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), tenta
arrumar assinaturas para o requerimento de uma Comissão Parlamentar de
Inquérito. "Não vai rolar", diz uma dúzia de seus colegas da Câmara.
Querem ver o assunto cair morto em um caixão.
Pelo menos desde que o
BRB decidiu comprar o Master, em março, se diz que Daniel Vorcaro tinha
muito amigo e contato importante em Brasília, o que em si não quer dizer nada.
Banqueiros e empresários muito maiores têm ainda mais amigo e contato
importante em Brasília. Não quer dizer que corrompam.
O silêncio parlamentar, no entanto, é sintomático.
Ministro banqueirófilo pode julgar banqueiro? Por Conrado Hübner Mendes
Folha de S. Paulo
Decisão do STF sobre Vorcaro, seja qual for,
exalará todos os cheiros da suspeita
Banqueiro acusado de crimes contra o sistema
financeiro patrocinou elites políticas, jurídicas e empresariais
Daniel
Vorcaro é acusado de crimes contra o sistema financeiro. Teria
praticado as mais desvairadas aventuras com dinheiro público e privado, fundos
de previdência estatais, recursos de aposentados, falsificado títulos de
crédito, negociado CDBs de contos de fadas.
Sob a condescendência do Banco Central, Cade, Fundo Garantidor de Créditos, além de governos municipais e estaduais que bancaram suas promessas, o Banco Master explodiu e acaba de ser liquidado pelo Banco Central. Vorcaro segue em prisão preventiva enquanto advogados trabalham juridicamente e "sócio-politicamente" para tirá-lo de lá.
Entre Belém e Berlim, por Thiago Amparo
Folha de S. Paulo
Fala condenável do primeiro-ministro da
Alemanha reflete uma visão neocolonial
Forma europeia de hierarquizar o mundo mostra
que pouco se aprendeu sobre justiça climática
Entre Belém e Berlim, não há comparação. Apenas o governo sediado em uma delas definiu que possui um problema de "paisagem urbana" (lido como referência xenófoba a imigrantes); apenas uma delas decidiu retomar a venda de armas a Israel na última segunda-feira (17); apenas uma delas reprime de forma violenta protestos pró-Palestina; e apenas o governo sediado em uma delas cometeu um genocídio na Namíbia, pelo qual deve bilhões de euros. Spoiler: não é Belém, no Pará.
Cala a boca já morreu' morreu mesmo, por Ruy Castro
Folha de S. Paulo
Há 10 anos, a ministra Cármen Lúcia libertou
as biografias no Brasil
E, ao contrário do que temiam, os artistas
não tiveram suas intimidades bisbilhotadas
Dez anos se passaram desde que, em junho de 2015, a ministra do STF Cármen Lúcia liquidou com a censura prévia que dois impertinentes artigos do Código Civil impunham às biografias produzidas no Brasil. Por esses artigos, os biógrafos eram obrigados a pedir a autorização de seus biografados ou dos herdeiros deles para investigar-lhes a vida e descrevê-la em livro. Se essa obrigação parece justa ao leigo, imagine um biógrafo alemão tendo de pedir à família de Adolf Hitler que o autorizasse a escrever uma biografia do homem. O Brasil era o único entre as democracias a praticar esse estrupício —e, não por acaso, debochado pelos de fora ao saberem que aqui era assim.












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