segunda-feira, 16 de julho de 2012

Reformas :: Aécio Neves

A vida pública, muitas vezes, nos reserva lições díspares e antagônicas.

Designado pelo presidente do Senado, José Sarney, tive a honra de representar o Congresso Nacional na cerimônia de concessão, pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, do importante prêmio John W. Kluge ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Como destacou o senador Cristovam Buarque, o prêmio equivale, em importância, a um Nobel no campo das ciências humanas. Não se trata de reconhecimento apenas ao sociólogo, ao pensador e à sua densa obra acadêmica, mas também ao líder que foi capaz de, à frente do país, criar bases para um novo patamar de desenvolvimento nacional.

Retornei à Brasília onde, na manhã seguinte, ocorreria a sessão de julgamento do processo de cassação do mandato do então senador Demóstenes Torres.

Sob o impacto de situações tão opostas, é inevitável a reflexão sobre o ambiente político e o conjunto das reformas adiadas, que o país reclama e que precisam ser feitas. Especialmente a reforma política, entendida no seu sentido mais amplo, mas também a dos próprios ritos legislativos.

São questões que devem ser enfrentadas com coragem, com a mesma responsabilidade e visão de futuro com que Fernando Henrique conduziu as reformas econômicas nos anos 90, deixando o precioso legado da estabilidade, que vem sendo preservado, independentemente de quem esteja no poder.

Precisamos de ampla reforma política que respeite a população, valorize os partidos e a sua capacidade de representação da sociedade, mas que também alcance os próprios processos legislativos.

Neste campo poucos avanços puderam ser anotados nos últimos anos. Permanecem à espera da vontade política do governo federal questões de fundo, situadas na raiz dos problemas, nas falhas evidentes de um sistema que envelheceu e não corresponde mais às necessidades de um país que se modernizou e quer continuar avançando.

Como, infelizmente, temos um Parlamento movido quase que exclusivamente pela vontade da maioria governista, e o governo, claramente, não deseja mudanças, têm sido inúteis as tentativas de garantir mais transparência e agilidade a matérias importantes para o país. A iniciativa que regulamenta o uso das medidas provisórias e que, apesar de aprovada no Senado, permanece paralisada na Câmara dos Deputados, é um exemplo.

A questão central é que o Palácio do Planalto não consegue se libertar das suas conveniências políticas imediatas para se concentrar nas políticas de Estado, aquelas que guardam o interesse público, preservam a grandeza das instituições e sobre as quais se constrói não um governo, mas uma nação.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Comunismo no poder e fora dele:: Renato Janine Ribeiro

O comunismo parece coisa antiga, que talvez subsista, com seus ideais, apenas em Cuba. Estive recentemente na China e, embora a retórica do regime fale em comunismo, sua prática está a mil léguas deste. De todo modo, ele marcou o século XX e deixou sua marca na sociedade atual. Vale a pena perguntar por que, no poder, ele foi ditatorial e totalitário, enquanto, na oposição, contribuía para os direitos trabalhistas, os direitos sociais e mesmo a democracia. Esse é o grande paradoxo do comunismo.

Nisto, ele se distingue do fascismo. É verdade que ambos, no poder, instituíram Estados policiais, campos de concentração e mataram milhões, sobretudo no período que vai de 1917, data da Revolução Russa, a 1953, quando morreu Stálin. Mas o fascismo, na oposição, já usava da extrema violência. Na Itália, dava óleo de rícino a beber aos inimigos. Na Alemanha, tomava as ruas com militantes bandidos. Não há diferença entre o fascismo na oposição e no governo: vejam a truculência dos nazistas gregos, hoje. Estão na oposição e já fazem mal; imaginem no governo.

Já o comunismo, na oposição, defendia direitos. É possível que essa diferença entre ele e o fascismo esteja no discurso, no texto, na doutrina de cada um. A doutrina comunista é bela. Muitos de seus críticos reconhecem isso - bela, dizem, mas irrealizável, utópica. Aliás, segundo alguns, o comunismo teria gerado o mal justamente porque propôs um bem inatingível. Não conseguindo implantar o mundo perfeito, utilizou a violência na tentativa de alcançá-lo. Como não extirpasse do ser humano a vontade de lucrar, de ter mais, tentou arrancar esse traço de caráter à força. Daí que, como tantos visionários antes e depois, ao longo dos tempos, o comunismo tenha se tornado cruel exatamente porque pretendia ser bom. Não admitiu uma bondade que não fosse a sua, ou melhor, não admitiu uma humanidade que não fosse boa como a sua.

O comunismo permitiu humanizar o capitalismo

Pode ser esta a explicação para os males do comunismo. Talvez! Mas permanece o fato de que ele delineou uma utopia - também no sentido bom, e original, da palavra. Já os fascistas jamais propuseram uma sociedade justa para a humanidade. O que propuseram, e continuam propondo na voz dos vários movimentos semifascistas que hoje há na Europa, como a Frente Nacional na França, foi uma sociedade supostamente vantajosa (o que não quer dizer moralmente boa) para um único grupo étnico. Os fascistas são, por definição, ultranacionalistas e xenófobos. Odeiam o estrangeiro, o diferente, o divergente.

O fascismo é o egoísmo tornado política. Detesta quem não é como ele. O próprio compatriota, ele só aceita se for um clone seu. Toda diferença será castigada.

O comunismo foi internacionalista. Entendia que as fronteiras nacionais foram construídas pelas classes dominantes. Pretendia uma sociedade justa, não apenas para os alemães ou italianos, mas para todos os seres humanos. No discurso comunista, há uma ética. No fascista, não.

Assim, quando os fascistas de antes e de hoje empregam a força física contra as pessoas de quem não gostam, apenas aplicam na prática a sua doutrina. Não há divergência entre o que dizem e o que fazem. Ações e palavras andam juntas. Eles prometem expulsar quem não é de seu país, reprimir quem diverge dos costumes dominantes - por exemplo, homossexuais e feministas -, eliminar quem pertence a uma raça dita inferior. Já em Mein Kampf (1925), Hitler já contava o que faria quinze ou vinte anos depois. Já os comunistas, no poder, quando agiram como os fascistas, estavam dizendo uma coisa e fazendo outra. Proclamavam a igualdade dos povos, mesmo quando submetiam várias outras nacionalidades à russa. Pregavam a liberdade, enquanto colocavam milhões a trabalhar como escravos. Isso não foi mera hipocrisia, embora em alguns casos clínicos, como o de Stálin, fosse pior que ela. Foi algo que pertenceu à essência do comunismo no poder.

Agora, por que o comunismo, na oposição, foi mais fiel a seus ideais do que quando esteve no poder? Por que ele foi melhor desobedecendo do que mandando? É verdade que falo aqui em linhas gerais. Mesmo no poder, houve comunistas leais aos ideais de humanismo que aparecem na doutrina - o húngaro Imre Nagy, o eslovaco Dubcek. Mesmo na oposição, houve comunistas que mataram dissidentes ou simples suspeitos, como Elza Fernandes, a adolescente morta em 1936 por ordem do Partidão. Mas, em linhas gerais, na oposição os comunistas defendiam as liberdades, e no poder as suprimiam. Terá sido justamente por causa do discurso deles? Seriam mais fiéis às promessas de Marx quando eram profetas desarmados do que armados? Terão sido melhores os comunistas com a pena do que com o fuzil, escrevendo e subvertendo do que decretando e impondo?

O comunismo talvez tenha sido a melhor oposição que o capitalismo pôde ter. É até provável que comunismo e capitalismo precisassem um do outro - ou que uma sociedade, para ser boa, precisasse dos dois. Isso resultou no que houve de melhor no século passado - os trinta anos gloriosos, após a II Guerra Mundial, quando o mundo (ou pelo menos o mundo então rico) mais se desenvolveu, econômica e socialmente. Mas esse duo só funcionava bem quando o capitalismo estava no poder, o comunismo na oposição. Sem esses opositores, os capitalistas teriam sangrado as classes sociais a fundo, como fizeram em tantas partes, inclusive no Brasil da ditadura. Sem o capital no poder, o comunismo seria só um totalitarismo a mais. É curioso esse equilíbrio de poderes, um em cima, outro em baixo. Curiosamente, pode ser que o comunismo - de oposição - faça falta, em nossos dias.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.

FONTE : VALOR ECONÔMICO

Cartão de crédito lidera calote dos brasileiros

No mês passado, 31% dos inadimplentes indicaram o cartão de crédito como o principal responsável por seis problemas financeiros, revela pesquisa de srviço de proteção ao crédito. O número é crescente. Em março, o índice era de 29% e, há seis meses, de 23%. As lojas não estão preocupadas porque a inadimplência está com os bancos e administradoras, segundo Emílio Alfieri, da Associação Comercial. Flávia Araujo se complicou com sua festa de casamento. "Peguei o marido, mas fui parar na lista de devedores"

Cartão de crédito lidera inadimplência

Para 31% dos consumidores pesquisados, facilidades oferecidas pelo "dinheiro plástico" ajudam a inflar a lista de atrasos no varejo

Márcia De Chiara

SÃO PAULO - O cartão de crédito é apontado pelo consumidor brasileiro como o principal meio de pagamento que o levou ao calote. No mês passado, 31% dos inadimplentes indicaram o cartão como o vilão da crise de suas finanças pessoais, revela pesquisa da Boa Vista Serviços, que administra o Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC). Em março deste ano, esse indicador para os cartões estava em 29% e, seis meses antes, em 23%.

O resultado de junho para os cartões supera de longe a importância dos carnês e boletos bancários (22%) e dos cheques (24%)como vilões da inadimplência. Em março, o cartão já havia desbancado o carnê e passou a liderar o ranking dos meios de pagamento que levaram o consumidor a engrossar a lista da inadimplência.

Especialistas ressaltam que o avanço do uso do cartão sobre outros meios de pagamento e a multiplicação dos plásticos explicam parte do resultado.

Este ano deve fechar com 193,2 milhões de cartões de crédito, segundo projeções da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs). A marca supera a população do País que, de acordo com o Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) somou 190,7 milhões de pessoas. Significa que cada brasileiro, do bebê de colo ao idoso, carrega mais de um cartão de crédito na carteira.

Se forem considerados os cartões de crédito e os de lojas, o total de plásticos até dezembro deve atingir 462 milhões, o equivalente a 2,4 cartões por pessoa, segundo a Abecs. Levando-se em conta o total de cartões de crédito e de lojas em relação à População Economicamente Ativa (PEA), isto é, aquela em idade produtiva, o número de cartões por brasileiro sobe para 4,4.

Juros. Além da multiplicação dos plásticos, a elevada taxa de juros cobrada pelos cartões joga mais lenha na inadimplência dessa linha de crédito. Dados do Banco Central mostram que o calote do cartão acima de 90 dias atingiu 29,5% em maio, a maior marca em 12 anos. Durante 28 meses seguidos, de fevereiro de 2010 a junho deste ano, a taxa média de juros do cartão ficou estacionada em 10,69% ao mês, revela pesquisa da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac). A resistência da taxa de juros do cartão, a mais alta entre as várias linhas de crédito ao consumidor, vai na contramão até da taxa básica de juros, a Selic, que já caiu três pontos porcentuais entre dezembro de 2011 e a semana passada.

"O cartão é o meio de pagamento vilão da inadimplência", afirma o diretor do SCPC, Fernando Cosenza, responsável pela pesquisa trimestral que consulta 1.100 inadimplentes para traçar seu perfil. Ele ressalta que, na edição de junho, o cartão de crédito foi uma unanimidade entre os consumidores como principal meio de pagamento que levou à inadimplência. Em todos os estratos de renda (alta, média e baixa), entre homens e mulheres e também entre trabalhadores formais e informais.

Cosenza diz que a facilidade de se obter crédito no cartão, que é pré-aprovado e está na carteira do consumidor, combinada à falta de informações centralizadas do sistema financeiro sobre os limites totais de crédito concedido a cada consumidor por cartão, agravam o quadro da inadimplência.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Metalúrgicos da GM de São José podem parar produção

SÃO PAULO - Os metalúrgicos da GM de São José dos Campos (SP) devem parar a produção hoje por cerca de duas horas. A decisão será confirmada em assembleia marcada para a entrada do primeiro turno, com 4.000 trabalhadores.

O protesto é consequência da ameaça de fechamento do setor de montagem de veículos, que pode resultar no corte de 1.500 operários. O sindicato da categoria pediu ao governo que cancele a redução de IPI dada à montadora. As vendas da GM acumulam queda de 6,8% de janeiro a maio, ante igual período de 2011.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Brics: tema que não pode ser esquecido:: Luiz Carlos Mendonça de Barros

Vivemos um período ímpar na história recente das economias de mercado. A longa crise que atingiu as nações mais ricas do mundo, em meados de 2008, fez com que a ligação de racionalidade entre o curto prazo e o futuro, que sempre caracterizou o chamado capitalismo moderno, se rompesse. Com isso, o metabolismo das economias de mercado mudou de forma radical e mergulhamos em um período difícil para o analista que procura olhar mais longe.

Costumo resumir o que sinto em relação a isso com um pensamento muito simples: os mercados hoje não conseguem olhar para o futuro, pois esperam - a qualquer momento - o fim do mundo e o mergulho em uma crise terminal nas maiores economias do planeta.

Nesta coluna de julho para o Valor vou fugir desse sentimento, que o leitor sabe não ser o meu. Quero projetar as lições de hoje em um horizonte mais longo, pois assim poderemos conhecer mais sobre o que nos espera mais à frente. Aliás, ontem ao rever um filme fantástico de Luchino Visconti - "Il Gattopardo" -, essa ideia de olhar para além dos acontecimentos de curto prazo e procurar visualizar as transformações estruturais que estão acontecendo na economia mundial, ficou ainda mais clara para mim.

Em recente publicação o banco americano JP Morgan apresentou a evolução do PIB mundial nos primeiros 11 anos deste século sob a ótica da divisão entre a evolução dos países desenvolvidos e a dos emergentes. Os números resgatam - e reafirmam - um tema que foi muito popular até três anos atrás e que hoje caiu no esquecimento: o chamado descolamento entre esses dois mundos.

Faço a seguir um pequeno resumo dos números que estão na publicação do Morgan e, a seguir, uma projeção para a segunda década do século se o mundo não acabar.

Uma primeira observação sobre esses números é que eles foram construídos com a metodologia chamada de PPP, em que se usa a chamada paridade do poder de compra das moedas dos vários países para medir o PIB de cada país. Se usarmos para tal as taxas de câmbio de mercado, os números são diferentes, embora a direção seja a mesma.

Com essa segunda metodologia, o PIB do mundo desenvolvido representava, em 2011, 65% do mundial contra 52,1% na metodologia PPP. Em 2000 esses números eram respectivamente de 79,5% para os desenvolvidos e 20,5% para os emergentes, o que mostra um crescimento destes ainda maior quando se usa as taxas de câmbio de mercado.

Outra observação importante que podemos inferir dessa diferença entre as duas metodologias é que, a taxa de câmbio média do mundo desenvolvido, dólar e euro principalmente, terá que se desvalorizar pelo menos 15% nos próximos anos na medida em que esse processo de mudanças se consolidar e, principalmente, se o mundo não acabar. Finalmente fica claro pelos números da tabela que o processo de mudanças no mundo continua muito forte e que o mundo nos próximos anos vai ser muito diferente da fotografia de hoje.

Mas a fotografia de 2011, tirada pela equipe do JP Morgan, irá envelhecer muito rapidamente em função do agravamento da crise de crescimento que viverão as economias desenvolvidas nos próximos anos.

Os mercados hoje não conseguem olhar para o futuro, pois esperam - a qualquer momento - o fim do mundo

Por isso pedi ao economista Fábio Ramos da Quest que projetasse para a próxima década, em função das expectativas de crescimento disponibilizadas pelo FMI e dos dados do trabalho do Banco JP Morgan, a distribuição do PIB mundial entre nações desenvolvidas e emergentes. E os números que aparecem são impressionantes.

Pelo critério PPP a economia chinesa ultrapassa a americana em 2018, e não em 2025 que era a previsão de três anos atrás. O PIB dos principais emergentes ficará maior do que o do mundo rico em 2019, com uma antecipação de cinco anos sobre as previsões anteriores. Ou seja, a crise no mundo desenvolvido que estamos assistindo não apenas interrompeu - ou enfraqueceu - o fenômeno do descolamento que vínhamos assistindo mas acelerou sua intensidade.

Os números mostram também que o fenômeno dos emergentes é basicamente uma dinâmica asiática. Poderíamos inclusive ir mais longe e dizer que ele é provocado pelo crescimento da China. Não por outra razão todos os olhos - que ainda estão abertos - estão voltados para esse país. Embora o Brasil participe pouco dele em termos numéricos, a influência da demanda chinesa chega a nós via os chamados termos de troca. Os preços mais elevados das commodities tem pouca influência na taxa de crescimento brasileira - por nossa culpa - mas dão sustentação à conta corrente externa que é peça relevante para o equilíbrio macro econômico. Quando o pesadelo que vivemos hoje passar, os analistas e os investidores vão acordar para um mundo diferente, como aconteceu com Don Fabrizio Corbera, príncipe da casa Salina, na Sicília no fim do século XIX e início do século XX na história contada por Giuseppe di Lampedusa no livro "Il GattoPardo."

Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, é diretor-estrategista da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Nara Leão - O barquinho

Aprendizado:: Ferreira Gullar

Do mesmo modo que te abriste à alegria
                      abre-te agora ao sofrimento
                      que é fruto dela
                      e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
                    que da alegria foste
                                                 ao fundo
                     e te perdeste nela
                                                 e te achaste
                                                 nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
                                                e em tua carne vaporize
                                                toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.

De Barulhos (1980-1987)

domingo, 15 de julho de 2012

OPINIÃO DO DIA – Aécio Neves: avaliação de Dilma

O governo parou. Digo uma coisa que nem deveria dizer, mas o governo do Lula era melhor do que o governo da Dilma do ponto de vista dos resultados. As pessoas faziam algumas coisas. Agora, no setor de infraestrutura, que já não andava bem, não acontece absolutamente nada. Na área da saúde, o governo investe 10% a menos do que investia há dez anos. Na hora que começarem a comparar os indicadores, num ambiente econômico que já não será de euforia, mas de extrema preocupação, as pessoas vão perceber que caminhamos para um fim de ciclo.

Aécio Neves, senador (PSDB-MG) . Entrevista Blog do Josias, 14/7/2012

Manchetes de alguns dos principais jornais do Brasil

O GLOBO
Brasil Grande - Empreiteiras terão incentivo para ampliar indústria bélica
Mensalão: réus escapam de improbidade
Grampo revela como Cachoeira comprou casa
O Estado imobilizado

FOLHA DE S. PAULO
PF aponta indício de suborno na obra da Norte-Sul
Reeleição de Dilma não é conceito pleno, afirma Temer
Para manter apoio, presidente assume articulação política

O ESTADO DE S. PAULO
Produção industrial recua 5 anos e deve cair ainda mais
Defesa de Duda Mendonça no mensalão acusa Valério
Anos de chumbo: Busca do lugar errado
Exportações estão em baixa, apesar do câmbio

CORREIO BRAZILIENSE
Trabalho: Faltam doutores
Ditadura vigiava correspondentes estrangeiros

ESTADO DE MINAS
Grandes só nos problemas
Suplentes de deputados de olho na vaga de titulares.
Retenção nos portos encarece mercadorias

ZERO HORA (RS)
Tristes Retratos
Análise Viral
Made in China

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
Igarassu de carona na Fiat
Mendonça Filho rejeita rótulo de conservador

O que pensa a mídia - editoriais dos principais jornais do Brasil

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Mensalão: réus escapam de improbidade

Os réus do mensalão, que serão julgados criminalmente no STF em agosto, estão conseguindo se livrar, em outras instâncias da Justiça, de processos por improbidade, conta Vinícius Sassine. Em alguns casos, existem erros grosseiros, enquanto outras ações se arrastam.

Réus no mensalão se livram de ações de improbidade

Lentidão da Justiça e erros grosseiros atrasam andamento de outros processos contra acusados

Vinicius Sassine

BRASÍLIA - Prestes a ir a julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), os réus do mensalão conseguiram se livrar, até agora, de condenações em outras frentes de investigação abertas pelo Ministério Público Federal (MPF). Processos que tramitam na primeira instância da Justiça Federal com base na Lei de Improbidade Administrativa estão emperrados e não há, a médio prazo, perspectiva de julgamento. As ações geraram pilhas de papéis espalhados por diferentes varas e recheados de erros de instrução jurídica, o que vem favorecendo a defesa dos acusados. No caso do STF, os ministros começam a julgar o caso em 2 de agosto, com perspectiva de veredicto no mês seguinte.

Os quatro integrantes do chamado núcleo central do esquema - José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil no governo Lula; José Genoino, ex-presidente do PT; Delúbio Soares, ex-tesoureiro; e Sílvio Pereira, ex-secretário-geral do partido - e o operador do mensalão, Marcos Valério de Souza, são acusados de improbidade administrativa em cinco processos na Justiça Federal de Brasília. Nesses processos de origem cível, as sanções por atos de improbidade podem ser a suspensão dos direitos políticos por até dez anos e o ressarcimento dos danos causados ao patrimônio público. No caso do STF, a ação penal prevê pena de prisão.

Por diferentes razões, que vão além da estratégia dos advogados ou das provas colhidas nos autos, os réus estão longe de uma condenação. Uma das ações está parada porque o MPF incluiu erroneamente um homônimo de um dos acusados de improbidade. Em vez de Lúcio Bolonha Funaro, a pessoa incluída, citada e depois excluída do processo foi Lúcio Funaro. A Justiça ainda não localizou o verdadeiro acusado. A busca é feita desde 2009.

Tramitação de processos é lenta

Outro processo, em tramitação na 6 Vara Federal de Brasília, ficou sem qualquer movimentação de 18 de maio de 2011 a 25 de maio deste ano. Antes, em setembro de 2010, a Corregedoria do Tribunal Regional Federal (TRF) da 1 Região já havia determinado o "cumprimento dos prazos processuais". "A ação foi proposta em 2007 e, a despeito de sua notória relevância para o interesse público, ainda não se chegou sequer à fase de recebimento de denúncia", manifestou-se nos autos o procurador da República Paulo Roberto Galvão de Carvalho. "A ação no STF já está em fase de julgamento, não havendo justificativa para a delonga deste processo", sustentou o procurador.

Dirceu, Genoino, Delúbio, Sílvio e Marcos Valério foram excluídos de um dos processos porque o juiz federal responsável, Alaôr Piacini, entendeu que eles já são réus em ações semelhantes. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) confirmou essa decisão, em maio deste ano, e apontou "erro grosseiro" no recurso proposto pelo MPF. Como a decisão não foi de mérito, o processo deve continuar a tramitar. Por enquanto, está parado na Coordenação de Recursos do TRF.

Outros dois processos sob a responsabilidade de Piacini estão suspensos desde 2009. O magistrado entendeu que os autos devem ser conectados, por se tratar de uma mesma acusação e ter réus em comum, os que formam o núcleo central do esquema.

- Vou dar celeridade nos processos quando os autos retornarem. Mas, se houver absolvição no STF, na ação penal, não há razão para punir na cível, embora as esferas sejam independentes - diz Piacini.

A estratégia do MPF foi propor cinco ações de improbidade com a repetição das acusações para os integrantes do núcleo central e a individualização da denúncia por partido. Supostos beneficiários do repasse de dinheiro para a compra de voto no Congresso e do apoio ao governo respondem a ações distintas, conforme a sigla: PT, PP, PR (antigo PL), PTB e PMDB.

Coordenador da área cível da Procuradoria da República do Distrito Federal, o procurador Carlos Henrique Martins defende a estratégia de pulverizar ações. Sustenta que réus excluídos poderão ser reintegrados ao processo na análise do mérito e diz que casos como o do homônimo "podem ocorrer".

Além dos cinco réus, respondem às mesmas acusações de improbidade administrativa 32 pessoas, entre integrantes dos núcleos político, operacional e financeiro do esquema. A grande maioria enfrentará também o julgamento no STF a partir do dia 2 de agosto. Uma das exceções é Sílvio Pereira, excluído da ação penal num acordo para cumprimento de pena alternativa. Ele continua réu em quatro das cinco ações que tramitam na Justiça Federal. O ex-deputado federal José Janene (PP-PR), falecido em 2010, ainda figura como réu em uma das ações de improbidade. O MPF quer a intimação do espólio do ex-deputado como substituto na ação.

Único réu do mensalão a disputar uma eleição este ano, o deputado federal João Paulo Cunha, candidato do PT à prefeitura de Osasco (SP), responde a duas ações de improbidade. Numa, arrolou como testemunhas de defesa o deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-SP), atual ministro dos Esportes, e Geddel Vieira Lima, ex-ministro da Integração Nacional. Eles deveriam ter comparecido à Justiça em setembro de 2011, o que não ocorreu. Oitivas de testemunhas por carta precatória atrasam o andamento do processo. João Paulo e Marcos Valério são réus em dois processos em Brasília. Em Minas, Valério é réu em mais seis processos, ainda sem sentenças.

Uma condenação por improbidade em segunda instância deixa inelegível o acusado, prevê a Lei da Ficha Limpa. As ações referentes aos réus do mensalão apuram vantagens indevidas em função dos cargos públicos, inclusive com suspeita de enriquecimento ilícito.

FONTE: O GLOBO

Defesa de Duda Mendonça no mensalão acusa Valério

Nas alegações finais encaminhadas ao Supremo Tribunal Federal (STF) para o julgamento do mensalão, a defesa de Duda Mendonça sugere que o empresário Marcos Valério teria feito outras remessas para o exterior além dos recursos depositados na conta do publicitário nas Bahamas. Os advogados de Duda afirmam que "é falacioso" o argumento de que seu cliente foi o único que recebeu valores no exterior

Defesa de Duda sugere que esquema de Valério irrigou mais contas no exterior

Alegações finais entregues ao STF sustentam que é "falacioso" o argumento de que só o marqueteiro de Lula em 2002 tenha recebido pagamentos fora do País

Eduardo Kattahe Fausto Macedo

Nas suas alegações finais encaminhadas aos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal, a defesa de Duda Mendonça sugere que o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza pode ter feito outras remessas para o exterior além dos recursos depositados na conta de uma offshore criada pelo publicitário nas Bahamas.

Em agosto de 2005, no auge do escândalo do mensalão, durante depoimento à CPI dos Correios, Duda Mendonça afirmou aos parlamentares que, do pacote de R$ 25 milhões fechado com o PT para a campanha de 2002, cerca de R$ 10, 5 milhões foram depositados no ano seguinte na conta da Dusseldorf Company, vinculada ao BankBoston em Miami.

Contestando a acusação da Procuradoria-Geral da República (PGR), versão sustentada também pela defesa de Valério, os advogados do publicitário afirmam que "é falacioso o argumento de que eles (os acusados, Duda Mendonça e sua sócia, Zilmar Fernandes) foram os únicos que receberam valores no exterior e que, por essa razão, mentiram ao afirmar que agiram assim por determinação de Marcos Valério".

No documento de 16 páginas encaminhado em abril ao Supremo, os advogados Tales Castelo Branco e Frederico Crissiúma - que posteriormente deixaram a representação dos réus - destacam que a revelação "dessas operações só veio à tona em razão da confissão dos acusados". "O que ocorreu, na verdade, é que o Ministério Público Federal e a CPMI dos Correios não foram capazes de descobrir outros pagamentos efetuados por Marcos Valério no exterior. Isso não significa, em absoluto, que outras situações irregulares não possam ter ocorrido, ainda mais considerando-se a identificação das "unidades externas do Banco Rural, formais e clandestinas", como o Ministério Público Federal anotou em alegações finais."

No depoimento à CPI - considerado bombástico e que fez a oposição suscitar a tese de impeachment do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva -, Duda Mendonça disse que os recursos foram depositados em uma conta aberta por sua agência no exterior, por determinação de Valério. O empresário mineiro, apontado como o principal operador do mensalão, rebateu afirmando que foi o próprio Duda quem exigiu que os recursos fossem depositados na conta que ele já possuía no exterior.

A denúncia do MPF sustenta que os pagamentos do mensalão obedeciam a um padrão, com saques efetuados na boca do caixa do Banco Rural, mas o processo envolvendo o marqueteiro de Lula em 2002 fugiu à regra.

"É uma falácia dizer que ele é o único que recebeu de uma forma diferente. Afirmar com toda certeza que o PT não pagou ninguém lá fora, ninguém pode dizer", insistiu Crissiúma, em entrevista ao Estado. Procurado, o advogado Luciano Feldens, novo representante de Duda Mendonça, não foi localizado.

Crimes. O publicitário e sua sócia respondem pelos crimes de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. No memorial encaminhado ao STF, a defesa sustenta que os acusados desconheciam a origem ilícita dos recursos depositados na conta Dusseldorf e que eles estavam dispensados de apresentar declaração de depósitos no exterior conforme regra do Banco Central.

Ao contestar a acusação de lavagem de dinheiro, Duda Mendonça alega, por meio dos advogados, que a ele e à sócia "sempre pareceu que os valores recebidos por seu lícito trabalho eram oriundos, na pior das hipóteses, de infração prevista na legislação eleitoral ("caixa dois" mantido no Brasil e no exterior)".

"Afinal, a relação dos acusados com o Partido dos Trabalhadores já vinha desde 2001 e todos os pagamentos sempre foram autorizados e aprovados por Delúbio Soares, diretor tesoureiro do partido. É importante acrescentar que até então o PT era visto em todo o Brasil como exemplo de ética, moralidade e combate à corrupção", argumentam os advogados.

A defesa destaca que esses eram os principais lemas do PT. Tanto que, em 2001, Duda Mendonça criou um filme "extremamente contundente", no qual "ratos roíam a bandeira do Brasil e um locutor dizia: "Ou a gente acaba com eles ou eles acabam com o Brasil. Xô corrupção!"".

É uma insinuação sem provas", afirma advogado

"Não há nenhum outro caso em que o pagamento tenha sido feito no exterior a não ser o de Duda", reagiu o criminalista Marcelo Leonardo, que defende Marcos Valério. "Ele (Duda) insinua, supõe, faz conjectura, mas não tem prova concreta. De todas as pessoas da lista de pagamentos feitos pelo Marcos Valério, atendendo ao pedido do Delúbio (Soares) para o PT e partidos da base aliada, o único pagamento no exterior foi o do Duda."

Leonardo é taxativo: "A versão dele (Duda) de que o pagamento no exterior foi por exigência do Marcos Valério ficou desmentida documentalmente".

"Primeiro, foi localizada no escritório da Zilmar (Fernandes) uma pasta com instruções sobre abertura de conta no exterior, no Banco de Boston. Segundo, com a quebra do sigilo da conta Dusseldorf ficou provado que ela tinha sido aberta em data bem anterior ao pagamento, o que revela que Duda já mantinha conta no exterior havia muito tempo. Está documentalmente demonstrado que foi ele (Duda) quem fez questão de receber lá fora."

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Produção industrial recua 5 anos e deve cair ainda mais

Dados do IBGE mostram que a indústria do País voltou ao nível de 2007, e as projeções para 2012 são de queda na produção. Em maio, o desempenho industrial foi idêntico ao de agosto de 2007 e inferior ao de outubro do mesmo ano. "É um indicador chocante, há alguma coisa de muito errado na nossa indústria", diz Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da JGP, gestora de recursos no Rio. As perspectivas de produção para o ano de sete instituições consultadas pelo Estado, incluindo os maiores bancos privados, indicam queda que varia de menos 0,5% a menos 2,2%. Nos números do IBGE, 95% do índice corresponde à indústria de transformação e 5%, à indústria extrativa

Produção industrial recua cinco anos

Em maio, o nível de atividade foi idêntico ao de agosto de 2007 e especialistas preveem que o setor deve fechar o ano em queda

RIO - A indústria voltou ao nível de cinco anos atrás, e as projeções para 2012 são de queda na produção das fábricas brasileiras. Em maio de 2012, a produção da indústria medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) foi idêntica a de agosto de 2007, e inferior a de outubro de 2007. A comparação, referente à indústria de transformação, elimina as influências sazonais.

"É um indicador chocante, há alguma coisa de muito errado na nossa indústria", diz Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da JGP, gestora de recursos no Rio de Janeiro.

Para 2012, as projeções da produção industrial de sete instituições consultadas pelo Estado, incluindo os departamentos econômicos dos dois maiores bancos privados, Itaú e Bradesco, indicam quedas que variam de menos 0,5% a menos 2,2%.

"Houve uma grande piora da indústria no último trimestre do ano passado, aí começou a melhorar, mas o problema é que despencou de novo", diz Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), no Rio.

Nos dados do IBGE, 95% do índice corresponde à indústria de transformação, a atividade manufatureira propriamente dita, e os outros 5% referem-se à indústria extrativa.

Sílvia nota que a queda da indústria da transformação acelerou-se até maio. No primeiro trimestre, ela caiu 0,7% ante o último trimestre de 2011, na série livre de influências sazonais. Já no trimestre de março a maio, a queda em relação a dezembro, janeiro e fevereiro atingiu 1,5%.

A difusão da queda pelos setores industriais, que havia caído no início do ano, também voltou a aumentar a partir de março.

Para Aurelio Bicalho de Almeida, economista do Itaú BBA, o mau número que a indústria deve exibir em 2012 deve-se em parte a uma questão estatística, ligada à queda forte no segundo semestre de 2011. Com a desaceleração adicional em 2012, a indústria provavelmente vai ficar no negativo mesmo que cresça no segundo semestre.

Segundo Octavio de Barros, diretor de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco, ainda que a produção industrial cresça em média 0,95% ao mês entre junho e dezembro, haverá uma queda no ano de 1,5% - a projeção do Bradesco, mas que o diretor diz estar em "viés de baixa".

"O desafio é grande porque a média histórica (de crescimento mensal da produção industrial) desde 1991 é de 0,23% ao mês", acrescenta Barros.

Um dos fatores apontados pelos analistas para a fraqueza da indústria é a queda na exportação de produtos manufaturados, mesmo com a recente desvalorização do câmbio. "O mundo permanece abarrotado de produtos manufaturados, e não consigo ver essa ociosidade sumindo antes de um horizonte de dois a três anos", diz Barros.

Investimentos. Almeida, do Itaú BBA, nota que a produção também é negativamente afetada pela desaceleração dos investimentos. Essa, por sua vez, além de influenciada pelos temores com a economia global, está ligada à capacidade ociosa na indústria. Com espaço para aumentar a produção no parque fabril já existente, os empresários adiam investimentos. Assim, o nível de utilização da capacidade instalada medido pela FGV está em 83,8%, enquanto o Itaú BBA considera que o nível de equilíbrio do indicador é de 85%.

Os estoques, finalmente, são outro fator apontado por Almeida para explicar a freada da indústria. Ele lembra que a sondagem da indústria da FGV apontava, em maio de 2011, uma diferença de apenas 1,6% entre as empresas consultadas que consideravam os estoques excessivos e as que os consideravam insuficientes. O indicador subiu para 8,5% em outubro, e ainda estava em 8% em dezembro, num claro sinal de estoques excessivos.

Em junho, porém, o indicador já havia caído para 3,1%. "Ainda está um pouco alto, mas já indica que estamos no caminho de ajustar os estoques", diz. Ele acha que, com esse ajuste, a queda da Selic (taxa básica) e as medidas de estímulo ao consumo do governo, a produção industrial deve ter uma retomada no segundo semestre. "Mas isso na hipótese de alguma normalização da situação internacional", acrescenta o economista.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Brasil Grande - Empreiteiras terão incentivo para ampliar indústria bélica

Governo quer multiplicar exportação de armas e reforçar segurança nacional

O governo planeja pôr o país no mapa da indústria mundial de defesa, estimulando a criação de "superbélicas verde-amarelas". Para isso, concederá incentivos fiscais e acesso diferenciado às licitações públicas. Minuta de decreto prevê que as vantagens valerão para empresas ou consórcios liderados por grupos brasileiros e cria parcelas mínimas de conteúdo nacional, revela Danilo Farbello. Além disso, o programa de compras das Forças Armadas chega a R$ 70 bilhões até 2015. O chamado já dá resultados e as maiores empreiteiras do país — Odebrecht, OAS, Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa — estão entrando com força nesse mercado, que movimenta US$ 1,5 trilhão no mundo. Segundo o general Aderico Mattioli, do Ministério da Defesa, as empresas brasileiras que atuam hoje no setor são vulneráveis.

Superbélicas verde-amarelas

Grandes empreiteiras receberão incentivo para expandir setor. Governo quer aumentar exportações

Danilo Fariello

O Ministério da Defesa fez uma convocação e as maiores empreiteiras do Brasil já asseguraram participação no desenvolvimento da indústria de equipamentos de segurança nos próximos anos. Conforme a Lei 12.958, aprovada em março, os grupos que criarem subsidiárias no setor terão vantagens tributárias e condições especiais para intermediar a incorporação de compras do governo. Odebrecht, OAS, Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez e Engevix, além da Embraer, já entraram no ramo. Os grupos Synergy e Camargo Corrêa negociam com parceiros estrangeiros o ingresso no mercado, no modelo adotado pelos outros grupos.

O Brasil hoje tem importância quase irrisória em um mercado que movimenta US$ 1,5 trilhão por ano no mundo e que, ao lado do setor farmacêutico, detém o maior orçamento global para pesquisa e desenvolvimento. Do setor, historicamente derivam tecnologias usadas no cotidiano, desde o Fusca até a ultrassonografia. Os focos principais do governo hoje são os setores nuclear, espacial e cibernético.

O Brasil já tem empresas com tradição no setor e reconhecidas internacionalmente, como Helibrás, Avibrás e CBC. Mas a maioria é pequena, com menos de 40 funcionários, e tem poder financeiro limitado para competir globalmente. Segundo a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), só 10% das empresas que venderam ao Ministério da Defesa entre 2008 e 2010 fecharam negócios nos três anos seguidos, "expondo a inconstância das vendas mesmo para seu principal cliente, o Estado", diz a entidade.

Decreto prevê conteúdo nacional

Ao aproximar essas empresas das empreiteiras, o governo quer criar grupos competitivos com fôlego para sobreviver diante das compras intermitentes das Forças Armadas. Assim, seria evitado que pequenas e promissoras empresas do setor fossem compradas por estrangeiras, como a AEL Sistemas, produtora de suprimentos de energia para satélites, vendida em 2001 para a israelense Elbit Systems.

- As empresas do setor são vulneráveis, porque o mercado é monopsônico: as vendas são só para nós e, quando elas vão exportar, dependem do aval do governo. É um problemaço, porque elas precisam sobreviver e eu compro pouco. Elas têm de partir para parcerias e dualidade (atendendo os setores militar e civil) - disse o general Aderico Visconte Pardi Mattioli, diretor do Departamento de Produtos de Defesa do ministério.

A primeira motivação das empresas para entrar no setor foi a indicação do governo de reaparelhamento das Forças Armadas no fim de 2008. Há hoje um orçamento de compras de R$ 70 bilhões até 2015 e outras dezenas de bilhões são previstas para até 2030.

A Odebrecht foi a primeira gigante a entrar no mercado em um contrato com a Marinha para, junto com a estatal Nuclep, construir o submarino nuclear brasileiro, orçado em R$ 9,6 bilhões. As obras já começaram em Itaguaí (RJ) e o valor envolvido despertou as concorrentes.

Essas empresas estão de olho não só nas obras de engenharia civil, mas também na tecnologia adquirida pelo governo nessas compras e na possibilidade de replicá-la exportando. Por isso, as empresas têm feito parcerias com estrangeiros. A Andrade Gutierrez se associou ao grupo francês Thales e a Engevix se uniu à alemã ThyssenKrupp, enquanto as outras negociam, por exemplo, com BAE Systems, do Reino Unido, e Finmecanica, da Itália. Procuradas, nenhuma das empresas brasileiras atendeu a pedidos de entrevista e algumas se limitaram a confirmar suas ações no segmento.

Pela lei, o governo criou a Empresa Estratégica de Defesa (EED), que terá desoneração equivalente às estrangeiras do setor, além de acesso diferenciado a procedimentos de licitação pelo Ministério da Defesa. Segundo minuta de decreto a que O GLOBO teve acesso, que regulamenta a lei 12.958 e deve ser publicado nas próximas semanas, terão essas vantagens de atuar como "integradoras" das compras do governo empresas brasileiras ou consórcios liderados por grupo nacional. O decreto prevê, ainda, o meio de oferta de condições especiais de financiamento pelo governo, o que está na lei.

O texto prevê o chamado Termo de Licitação Especial, um procedimento mais ágil para as EEDs exigindo delas, por exemplo, percentuais mínimos de conteúdo nacional, comprovação de capacidade inovadora e condição financeira para ter crédito.

Pela Estratégia Nacional de Defesa, que previu em 2008 as diretrizes para a formação da indústria nacional, o governo indica que, fomentando a ação desses grandes conglomerados no setor, o Brasil pode criar grupos capazes de exportar o suficiente para aumentar a balança comercial no futuro. Países periféricos aos grandes produtores de armamento na Europa e nos EUA, como Índia e China, têm investido bilhões por ano em importações para defesa.

Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (Abimde), o país tem potencial para, em 2030, exportar US$ 7 bilhões e atender o equivalente a US$ 4,4 bilhões no mercado interno. Em 2009, exportamos US$ 1 bilhão e, as vendas internas foram de US$ 1,7 bilhão.

O almirante Carlos Afonso Pierantoni Gambôa, vice-presidente executivo da Abimde, disse que o Brasil já é reconhecido internacionalmente por nichos de excelência, como aviação, armas não letais e pistolas. Ele lembra que o movimento trazido agora pelo governo já ocorreu em outros países hoje relevantes no setor.

Falta consenso entre empresas do setor

A estratégia do governo para fortalecer a indústria nacional de defesa, porém, não é consensual entre as empresas brasileiras. Para Jairo Cândido, diretor do Departamento de Indústria de Defesa da Fiesp, o governo não deveria adquirir a tecnologia para só depois decidir como será incorporada à indústria nacional. Para ele, também é "perverso" pôr lado a lado empresas do setor e grandes empreiteiras, sem que elas escolham uma vocação específica para o segmento:

- Aquilo que deveria servir à soberania nacional está virando só oportunidade de negócios, mas não deveria se limitar a isso. Grandes empresas têm muito a contribuir e sou a favor do ingresso delas no setor, mas antes têm de dizer o que farão na área de defesa.

Ter uma indústria de defesa relevante é passo significativo no longo caminho do Brasil em busca de assento cativo no Conselho de Segurança da ONU. Para o almirante Pierantoni, o Brasil ainda conta com a vantagem de não ter histórico de posições questionáveis em conflitos e de ser simpático ao mundo, de uma maneira geral:

- Mais difícil é superarmos o entrave cultural nacional dos militares, porque muitos ainda não vêem o equipamento brasileiro com bons olhos.

FONTE: O GLOBO

Reeleição de Dilma não é conceito pleno, afirma Temer

Apesar de elogiar Dilma, o vice-presidente Michel Temer (PMDB) diz a Eliane Cantanhêde que foi criada a ideia de que todo governante tem de buscar a reeleição, mas não é "conceito absoluto". "O que vai acontecer em 2014 está distante." Temer afirma ainda que é natural haver inveja pelo fato de seu partido ocupar a Vice-Presidência

Reeleição não é conceito absoluto, diz Temer

Vice-presidente faz elogios a Dilma, mas afirma que "o que vai acontecer em 2014 está ainda muito distante"

Em recado indireto às pretensões do PSB nas eleições presidenciais, o peemedebista diz que "o apressado come cru"

Eliane Cantanhêde

Apesar de elogiar o desempenho da presidente Dilma Rousseff, o vice-presidente Michel Temer, principal líder do PMDB, disse que se criou a ideia de que todo governante tem de se candidatar à reeleição, "mas esse não é um conceito absoluto".

Segundo ele, "tudo" está em jogo nas próximas eleições presidenciais. "Quem foi bem deve se reeleger. Agora, o que vai acontecer em 2014 está ainda muito distante."

Em entrevista à Folha, na última quarta-feira, em seu gabinete, Temer também mandou um recado indireto ao governador de Pernambuco, Eduardo Campos, do PSB, cujos movimentos sugerem uma corrida ou à Vice ou à Presidência em 2014: "O apressado come cru".

Folha - Por que, enquanto o PT e o PSB estão às turras em Belo Horizonte, Recife e Fortaleza, o PMDB anda tão calado?

Michel Temer - Acho melhor agir do que falar e, na qualidade de vice-presidente, eu tenho de ser discreto, mas essa discrição não significa uma inação política.

O melhor exemplo é Belo Horizonte?

É. Contribuímos muitíssimo para a solução em Belo Horizonte, que é muito importante para o PT. Eu percebi, aliás todos nós do PMDB, inclusive o candidato Leonardo Quintão, percebemos, que deveríamos abrir mão da candidatura própria, que tinha muito significado e peso eleitoral, para fazer a aliança sólida com o PT. Uma aliança com repercussão nacional.

Para neutralizar os arroubos do PSB e do governador Eduardo Campos?

O PSB tem um papel a desempenhar no Brasil e no apoio importantíssimo que dá ao governo e acho natural que busque ampliar seu raio de ação, especialmente nas eleições municipais. Veja o PMDB: é um partido forte, significativo, pelo número de governadores, prefeitos, vereadores, por ter a maior bancada na Câmara e no Senado.

A disputa do PSB com o PT nas eleições municipais é parte do jogo de 2014 e de 2018?

Disputas locais não podem contaminar a aliança nacional. Isso precisa ficar claro.

Quando Dilma reuniu líderes de PT e PSB, dois de cada lado, as orelhas do PMDB arderam?

Se arderam, foi do lado direito, porque, quando é do lado direito, dizem que é porque falaram bem. Suponho que PT e PSB, juntos, só podem ter falado bem do PMDB.

O sr. tem certeza?

Tenho. O PMDB colabora muito com o governo e com essa aliança. Então, se se reuniram PT e PSB, eu tenho cá comigo, talvez com uma certa ingenuidade, eles só podem ter falado bem do PMDB.

E se não?

Problema deles, porque o PMDB é um partido que tem vida própria, significação política histórica.

Ao sair do encontro com o PT e Dilma, Eduardo Campos disse que querem inventar um "inimigo oculto" só para obterem favores fisiológicos da presidente. Todo mundo entendeu que falava do PMDB.

Pois o PMDB entendeu que o governador só poderia estar falando de outro partido porque, para nós, essa história de fisiologia está superada. Nesses governos de coalizão, é mais do que natural que os partidos participem do governo. Veja aí, PT, PSB, PMDB, todos participam. E, comparada numericamente com os outros partidos, a participação do PMDB é a menor.

Já que Campos falou genericamente sobre "fisiológicos", vamos falar também em tese: tem gente na aliança botando o carro à frente dos bois?

Cada um tem seu estilo. Eu acho que, em política, é preciso administrar o tempo, porque quem se apressa acaba se dando mal. O apressado come cru. A afoiteza e, mais do que a afoiteza, as palavras duras e deselegantes, acabam gerando um clima muito desfavorável para as instituições. Numa democracia, as instituições -e os partidos são instituições- deverão ser sempre preservadas.

Isso tudo é recado para Eduardo Campos?

Não... o Eduardo Campos sabe muito mais do que eu.

Como o sr. vê o embate do PSB com o PT?

Todas as notícias eram de que as queixas do PSB eram contra o PT. Depois de umas conversas é que, veladamente, começaram a dizer que a relação com o PT era boa e o problema era com os outros. Como esses outros eram indefinidos, você tem de ignorar.

O PSB recuou de atacar o PT e se virou contra o PMDB?

Sabe que eu acho que não? Até porque todas as conversas do Eduardo Campos comigo e com todos do PMDB são sempre de parceria. Então, não vejo clima de beligerância, pelo menos nas manifestações dele.

Quem estaria, então, criando esse tal inimigo oculto do PSB e do PT?

Confesso que não sei dizer. É preciso perguntar ao próprio Eduardo Campos. Aliás, seria útil, até, que houvesse uma definição, porque essa coisa, digamos, muito insinuante, em matéria política, não é nada bom.

Fala-se muito que o que está por trás é a Presidência em 2014, mas não seria a Vice?

O que está em jogo é tudo em 2014! Primeiro ponto é que, depois de instituída a reeleição no Brasil, a ideia é a seguinte: quem foi eleito tem de concorrer à reeleição, para não perder o poder. Estabeleceu-se esse conceito que não é um conceito absoluto. Segundo ponto é que, havendo a reeleição, quem foi bem no governo deve se reeleger. Agora, o que vai acontecer em 2014 está ainda muito distante. Quem está pensando só em 2014 está sendo afoito, apressado. E, aí, come cru.

Tem muita gente com inveja do PMDB e da vaga de vice?

Ser vice-presidente, em especial na atual conjuntura, tendo como companheira a presidente Dilma, é uma coisa muito boa, produtiva institucionalmente. É natural, portanto, que haja inveja, mas é um sentimento negativo. Ela se volta contra o invejoso. As pessoas devem é trabalhar de uma maneira que as habilite a ocupar os lugares, seja de vice, seja de presidente.

A disputa do PSB com o PT fortalece o PMDB?

O PMDB já está fortalecido. A grande preocupação que existe em torno do PMDB já revela sua força. Se você me perguntar se há divergências internas no PMDB, eu vou dizer: há. Mas nós sabemos administrar essas divergências.

Como o sr. se posiciona diante da resistência de Dilma aos nomes de Henrique Eduardo Alves à presidência da Câmara dos Deputados e de Renan Calheiros e Romero Jucá para a do Senado?

Posso assegurar que não há isso, até porque no Senado é regimental, a presidência cabe ao maior partido, e, na Câmara, há até um documento assinado por PT e PMDB estabelecendo que a presidência será do PMDB no próximo biênio. Dizer que a presidente Dilma não quer o Henrique é equivocado. Ela jamais me disse isso.

Foi isso que o sr. acertou com Dilma e o presidente do PT, Rui Falcão, na terça-feira?

A presidente me chamou para fazer uma avaliação geral do quadro, só isso.

Se o sr. fosse de outro partido e presidente, acharia conveniente ter o PMDB no comando das duas Casas?

Acharia, em face da lealdade do PMDB. Quando Sarney presidiu o Senado e eu presidi a Câmara, foram tempos de muita tranquilidade para o presidente Lula.

Haverá reações no PMDB se Dilma tentar impor o ministro Edison Lobão para o Senado?

Quanto à presidente ter uma ou outra preferência, é mais do que legítimo, não caracteriza interferência, mas quem decide é o Poder Legislativo.

Campos disse que Lula está acima dos partidos e não deveria entrar na campanha. Obviamente, um pedido para o ex-presidente não entrar na campanha do PT em Recife. O que o sr. acha?

Em São Paulo, seria muito útil para o [Gabriel] Chalita [candidato do PMDB] que ele não entrasse, mas não acredito nisso.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Aécio: ‘A fama de boa gerente da Dilma era mito’

Josias de Souza

Em entrevista ao blog, o presidenciável tucano Aécio Neves disse que o governo de Dilma Rousseff está “paralisado”, a fama de boa gerente da presidente revelou-se “um mito” e a administração petista, acometida de “fadiga do material”, atravessa “um fim de ciclo.”

“Se vamos ser nós que vamos sucedê-los, o tempo é que vai dizer. Mas está claro que o governo perdeu a capacidade de tomar iniciativas”, afirmou Aécio. Ele considera “legítima” a movimentação de Eduardo Campos, governador de Pernambuco e presidente do PSB. “Não gosto dessa dicotomia de PSDB e PT. Acho que o aumento do leque de opções ajuda nas decisões.”

De resto, critica a interferência de Dilma no processo eleitoral de Belo Horizonte. “Enxergaram o fantasma de 2014 em Minas. Estão me valorizando mais do que eu mereço”, ironizou. Vão abaixo, subdivididas em tópicos, as opiniões de Aécio Neves:

- Avaliação do governo Dilma: O governo parou. Digo uma coisa que nem deveria dizer, mas o governo do Lula era melhor do que o governo da Dilma do ponto de vista dos resultados. As pessoas faziam algumas coisas. Agora, no setor de infraestrutura, que já não andava bem, não acontece absolutamente nada. Na área da saúde, o governo investe 10% a menos do que investia há dez anos. Na hora que começarem a comparar os indicadores, num ambiente econômico que já não será de euforia, mas de extrema preocupação, as pessoas vão perceber que caminhamos para um fim de ciclo.

- Avaliação do desempenho da presidente: A fama de boa gerente da Dilma era um mito. Aquela imagem de administradora capaz é a que vai sair mais machucada desse período de crise. O sentimento generalizado, mesmo na base do governo, maior ainda entre os empresários, é o de que este é um governo paralisado. Isso vai ficando cada vez mais claro. O governo não fez as grandes reformas que deveria ter feito. Faltou ousadia, faltou coragem.

- Imagem do Brasil no exterior: Estive por dois dias em Washington, para a premiação do Fernando Henrique [prêmio John W. Kluge, de US$ 1 milhão, dado pela Biblioteca dos EUA]. Conversei com amerianos importantes, que acompanham a realidade brasileira. Falei com economistas da Europa, que estavam lá. A expectativa em relação ao Brasil é outra, totalmente diferente do que era há seis meses. Há, hoje, uma avaliação mais negativa sobre a capacidade do país de responder à crise. O ambiente econômico piorou e a visão geral é de que vai piorar mais.

- Fim de ciclo: Estamos ingressando numa fase de fim de ciclo. Esse ciclo atual da administração do PT, na minha avaliação, vai se encerrar. Se vamos ser nós que vamos sucedê-los, o tempo é que vai dizer. Mas está claro que o governo perdeu a capacidade de tomar iniciativas. A base política no Congresso está extremamente esgarçada. Nesta semana, o governo não conseguiu nem votar a LDO [Lei de Diretrizes Orçamentárias].

- Tempo perdido: É nos dois primeiros anos de um governo que devem ser feitas as grandes reformas. O governo não fez. E agora está patinando. Acho que ganha força um discurso alternativo pela eficiência. Essa mácula da ineficiência a Dilma vai carregar. O governo dela parou. Não sou do tipo de pessoa que torce contra. Isso quem faz é o PT. Mas é preciso dizer as coisas com clareza. E nós vamos dizer, no momento próprio. Não queremos confundir eleições municipais com o cenário nacional. Não se trata de desconhecer o que eventualmente tenha dado certo. Não faço o discurso da negação. Não se pode dizer que, do Lula pra cá, tudo deu errado. Respeito o que deu certo. Mas estamos chegando ao fim um ciclo. É preciso que se inicie outro.

- O que faria de diferente se fosse presidente? No primeiro dia, apresentaria uma agenda com duas ou três grandes reformas que eliminassem nossos grandes gargalos. As coisas não mudam do dia para a noite. Mas, já no início do governo, eu estaria propondo ao país essas reformas. A começar pela reforma do Estado, com uma grande diminuição do seu peso. É preciso abrir espaço fiscal para que haja, aí sim, o início de uma redução da carga tributária. A carga de tributos é um dos principais fatores que inibem a competividade do Brasil. Não adianta tomar essas medidas paliativas de conceder isenções pontuais para setores específicos, como o automobilístico. Tem que puxar para baixo a carga de tributos de todos os setores.

- Reforma politica: Esse é outro tema ao qual eu me dedicaria desde o primeiro dia. Eu iria para o Congresso fazer o que a Dilma não fez: negociar dois ou três grandes pontos que organizassem minimamente o quadro partidário brasileiro. Tínhamos que ter buscado uma aliança política possível, para termos o inverso do que o STF acaba de fazer. Em vez de aumentar, precisamos enxugar o quadro partidário, adotando a cláusula de desempenho, o voto distrital misto. Essa decisão do Supremo [que reconheceu ao PSD o direito de partilhar do tempo de tevê e das verbas do Fundo Partidário] já está causando um dano enorme ao país. Agora, um deputado tem preço. Elege-se por um partido e leva os votos para outro. Conforme o tempo de tevê da nova legenda, cada deputado vale X. Um partido de 12 deputados vai valer um preço nas coligações nacionais e outro preço nas coligações estaduais. Agora, 12 picaretas podem se juntar para formar um partido, calcular o valor de cada deputado conforme o fundo partidário e, depois, vender o tempo de televisão nas eleições.

- Descentralização administrativa: Essa agenda dos primeiros dias de governo teria de incluir uma política de descentralização corajosa em relação a Estados e municípios. Dá pra fazer. Na área de transportes, por exemplo, hoje não se faz nada. Por que não distribuir para os Estados a administração de rodovias federais, com a transferência dos recursos da Cide e de parte do Orçamento da União? Essa centralização do poder, para ter ganho político, é um dos maiores equívocos que os governos do PT cometem. Concentram em Brasília um poder enorme e não conseguem gerir. Esse processo vem se agravando nos últimos anos. Acentuou-se com a Dilma.

- Fadiga do material: O governo enfrenta o fenômeno da fadiga de material, comum nas administrações longas que perdem a capacidade de se renovar. Acho que eles chegarão cansados [a 2014]. Para botar uma máquina gigantesca como essa para rodar leva tempo. E o governo, até aqui, só perdeu tempo. Qual é o objetivo desse governo? Hoje, o único objetivo é a manutenção do poder a qualquer custo. A capacidade de tomar iniciativas, de fazer do governo uma estrutura pró-ativa, tudo isso desapareceu. Se a economia estivesse muito bem, talvez isso fosse minimizado. Mas o cenário inspira preocupação: a base política está desagregada não se gosta e não se articula; a economia emite sinais negativos, apontando para o aumento do desemprego; oas bras de infraesturura não acontem; os indicadores sociais patinam. Insisto: vivemos um fim de ciclo.

- Movimentação de Eduardo Campos: É absolutamente legítima a movimentação dele. Acho que ajuda. Não gosto dessa dicotomia de PSDB e PT. O aumento do leque de opções [presidenciais] ajuda nas decisões. Convém não esquecer que muitas seções regionais do PSB [partido presidido por Eduardo] são aliadas do PSDB. A começar pelo Paraná e por Minas Gerais. Mesmo em São Paulo, tirando esse apoio ao Fernando Haddad, que o Eduardo determinou, o PSB é aliado do Geraldo [Alckmin, governador tucano]. De baixo pra cima, haverá sempre setores do PSB com identidade maior conosco. Mas temos que respeitar e reconhecer que o Eduardo faz uma movimentação correta. Não contamina o processo. Ao contrário, apresenta um espaço de discussão novo. Tenho com ele as melhores relações. Eu o respeito muito.

- 2014 se imiscuiu em 2012? Não vejo isso com tanta clareza assim. É claro que algumas coincidências levam a essa leitura, sobretudo o que aconteceu em Recife, Fortaleza e Belo Horizonte. Mas, se formos analisar friamente, essas três situações mais emblemáticas, que envolvem o PSB, ocorreram por questões absolutamente locais. Em Fortaleza há um litígio do Cid e do Ciro Gomes [do PSB] com a prefeita Luizianne Lins [do PT]. Se houvesse harmonia entre eles, a ruptura talvez não tivesse acontecido. Em Recife, o Eduardo [Campos, do PSB] tentou construir a candidatura do Maurício Rands [do PT]. Não conseguiu. Veio outro nome [o petista Humberto Costa]. E o Eduardo optou pela candidatura própria [de Geraldo Júlio]. Em Belo Horizonte, depois de integrar a gestão do Márcio Lacerda [do PSB] por quatro anos, o PT arranjou um pretexto para romper. Não fomos nós que nacionalizamos a campanha em Minas, mas o PT, que chegou a um nome a partir de interferências externas.

- Vaivém do PT em Belo Horizonte: O PT dizia que o Márcio [Lacerda] rompeu a aliança. Isso não existe. Tanto é que eles pararam de dizer isso. Na verdade, houve um rompimento do PT com o Márcio. O PT tinha a vice-prefeitura e controlava 70% dos cargos da prefeitura. Esse negócio de coligação proporcional [na chapa de vereadores] foi um pretexto. Nós reivindicamos fazer coligação proporcional, o PT também. O PSB disse o seguinte: vamos sair com uma chapa sozinhos, para poder eleger uma bancada de apoio claro ao prefeito, do partido do prefeito. Nós topamos até isso, mesmo não tendo a vice. E o PT falou: ‘Não, nós queremos os votos do PSB para eleger uma bancada maior do PT. Para quê? Para o Márcio ficar refém deles.

- Intervenção federal em Belo Horizonte: Depois de romper a aliança, o PT lançou a candidatura do Roberto Carvalho. O Gilberto Carvalho [amigo de Lula e ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência sob Dilma] baixou aqui em Belo Horizonte, na terça-feira da semana passada, na base aérea, para convencer o Roberto Carvalho, em nome do Lula e da Dilma, a desistir da candidatura, que já tinha sido inclusive registrada. Ele saiu com a promessa de sabe-se lá quais vantagens. Aí começou a nacionalização da campanha em Minas. Foi iniciada por eles, não por nós. Para ter o PMDB [na coligação do PT], a Dilma entrou pessoalmente no processo, intercedendo junto ao Michel [Temer, vice-presidente da República e presidente licenciado do PMDB]. O Leonardo Quintão [que abdicou da candidatura a prefeito pelo PMDB] está achando que vai ser ministro. No PCdoB, a direção municipal votou pela coligação com o Márcio. Veio um comando de cima, do Renato Rabelo [presidente nacional do PCdoB], dizendo que não podia. E o partido voltou atrás. A pedido da Dilma o [Gilberto] Kassab [prefeito de São Paulo e presidente do PSD federal] interveio em Minas. Vai se dar mal. O PSD vai ficar conosco. O apoio deles ao Márcio foi decidido em convenção. O estatuto do PSD diz o seguinte: qualquer intervenção só pode ser feita pela Executiva do partido. E a executiva não se reuniu. Em Belo Horizonte, o PSD é adversário do PT.

- A entrada do petista Patrus Ananias na briga pela prefeitura: Reconheço que ele tem uma imagem positiva e que o cenário exigirá de nós mais atenção e mais trabalho. Mas acho que ele vai ter dificuldades. Está desatualizado sobre Belo Horizonte, não morava aqui há muito tempo. Esteve em Brasília durante os últimos sete ou oito anos. E o PT terá enorme dificuldade para justificar a mudança de posição. Na manhã do dia 30, na convenção do PSB, estavam todos lá, a começar do [Fernando] Pimentel [ministro do Desenvolvimento de Dilma]. Nessa hora, o Márcio era o melhor prefeito do Brasil. À noite, decidiram romper e o Márcio passou a ser o demônio. Será muito difícil o PT explicar por que deseja agora a interrupção de uma administração municipal muito bem avaliada, da qual participou durante quatro anos.

- Fantasma de 2014? Por que o PT mudou de posição em Belo Horizonte? Prevaleceu o interesse do PT em 2014. Enxergaram o fantasma de 2014 em Minas. Estão me valorizando mais do que eu mereço. Para fazer essa movimentação toda, com todos os riscos que correm, é porque estão vendo 2014. A Dilma não precisava intervir, poderia ter mantido o discurso dela de não envolver a estrutura federal nas eleições municipais. Nós continuaremos voltados para os interesses de Belo Horizonte. Deixaremos a nacionalização para eles, que construíram uma candidatura fora de Minas, no eixo Palácio do Jaburu-Planalto-São Paulo. Em 2010, aconteceu algo parecido na eleição de governador. O Lula [que apoiava Hélio Costa, do PMDB, contra Antonio Anastasia, candidato de Aécio] vinha para Minas raivoso. Eu disse naquela época: o mineiro tem uma tradição de ser povo hospitaleiro, recebe muito bem. Mas na hora de definir os seus destinos, o mineiro sabe fazer suas escolhas sozinho, não precisa de conselhos externos.

- Mas Dilma Rousseff não nasceu em Minas? Ela é uma mineira curiosa, que acomodou oito gaúchos no ministério [risos].

FONTE: BLOG DO JOSIAS

Para manter apoio, presidente assume articulação política

Entrando em cena

Para tentar conter tremores em sua base de apoio e se contrapor a possíveis adversários em 2014, Dilma assume a linha de frente da articulação eleitoral e política do governo

Catia Seabra, Natuza Nery

BRASÍLIA - Para tentar evitar tremores em sua base de apoio no ano eleitoral e a aprovação de projetos no Congresso que ameaçam as contas públicas, a presidente Dilma Rousseff foi obrigada a assumir uma tarefa para a qual demonstrou pouco entusiasmo nesse um ano e meio de mandato: a articulação política do governo.

Depois de aliados dizerem-se varridos da Esplanada, por conta da chamada faxina, Dilma dedicou-se nos últimos dias à costura política.

Reaproximou-se do PMDB, articulou a agenda de votações na Câmara, instituiu um pacto de convivência com o PSB e lançou, em 24 horas, um candidato petista à Prefeitura de Belo Horizonte.

O gabinete presidencial até operava negociações, mas raramente nessa intensidade. Tanto que, em Brasília, costuma-se dizer que Lula é político e Dilma, gestora.

"A presidente está bem, está pegando o traquejo", observou o governador Cid Gomes (PSB-CE), um dos convidados da semana para um jantar de reconciliação.

Julho começou com uma reviravolta na capital de Minas, onde houve um racha na aliança entre PT e PSB estimulado pelo senador Aécio Neves (PSDB). Incomodada com os avanços do potencial adversário, Dilma telefonou ao prefeito Márcio Lacerda (PSB) com o seguinte recado: se não evitasse o racha, o PT lançaria candidato próprio, Patrus Ananias.

Na quarta, o petista era oficializado, com o apoio do PMDB e de outras siglas, aliança costurada no Palácio da Alvorada por ela e seu vice, Michel Temer (PMDB-SP).

Dilma, segundo interlocutores, fez uma conta pragmática: era preciso resistir ao que o governo via como tentativa de Aécio de desbancar o PT.

Esta é a primeira eleição de Dilma na cadeira de presidente. E, apesar de não haver relação direta com a sucessão ao Planalto, há redutos cujas ligações são quase umbilicais -como em Minas, o segundo maior eleitorado do país.

Dilma fez investidas em duas outras grandes capitais fundamentais para uma reeleição -São Paulo e Recife.

Em São Paulo, funcionou como braço auxiliar de Lula para adesão do PP, de Paulo Maluf, à chapa de Fernando Haddad. Foi ela quem enviou o ministro Agnaldo Ribeiro (Cidades) a São Paulo para convencer Maluf a apoiar o petista. A pedido dela, segundo integrantes do PP, Ribeiro também atuou em Recife, onde o partido é o único aliado do petista Humberto Costa.

Foi de olho no futuro que o governo decidiu se reaproximar do PMDB. E só após o aliado PSB romper com o PT em Recife e Fortaleza.

Os divórcios foram interpretados pelo PT como ensaio de candidatura do governador Eduardo Campos (PSB-PE) ao Planalto em 2014, hipótese negada por ele em jantar com a presidente.

No encontro, ocorrido na segunda-feira, Dilma verbalizou sua apreensão: não quer divergências circunstanciais contaminando a vida do governo no plano federal.

Segundo observadores próximos, a manutenção da governabilidade é o que move a presidente. Isso porque há, no horizonte, um risco de agravamento da crise global, com impactos inevitáveis na evolução do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro.

Eis a conta feita: o Executivo precisa aproveitar a alta popularidade de Dilma para resolver problemas em sua base no Legislativo. Assim, evita derrotas com potencial de onerar os cofres públicos.

Por ser uma das maiores forças do Legislativo, o PMDB é essencial. Tanto que Dilma decidiu apoiar a sigla para comandar a Câmara no ano que vem e concorda em chancelar o deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN). Mas o PMDB quer mais e pretende emplacar Renan Calheiros (PMDB-AL) na Presidência do Senado em 2013.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Em BH, Santana e Aécio reforçam nacionalização

Paulo Peixoto

BELO HORIZONTE - Episódios envolvendo o marqueteiro petista João Santana e o senador tucano Aécio Neves dão a dimensão que a eleição em Belo Horizonte passou a ter para PT e PSDB, reforçando a nacionalização da disputa na capital.

Marqueteiro da presidente Dilma, do ex-presidente Lula e do candidato a prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT), Santana poderá desembarcar em BH de câmera em punho para cuidar da campanha do ex-ministro Patrus Ananias (PT). As negociações estão em curso.

Aécio, principal liderança do PSDB mineiro, vai rever sua programação de viagens pelo país para se dedicar mais tempo à tentativa de reeleição do prefeito Márcio Lacerda (PSB).

A decisão já foi comunicada aos seus aliados, dada a polarização criada entre petistas e aecistas depois de o PT romper a aliança que mantinha desde 2008 com PSB e PSDB.

Pré-candidato tucano à Presidência e adversário potencial de Dilma em 2014, Aécio havia planejado aproveitar a mobilização política nos municípios para se tornar mais conhecido do eleitorado.

O rompimento da aliança em BH teve como uma das causas as pressões que Aécio fez sobre Lacerda para que o prefeito não cedesse às vontades petistas. A situação gerou reviravolta no quadro local, com reflexos na cena nacional, até porque o PSB, aliado do governo Dilma, fez a opção de ficar ao lado do PSDB de Aécio.

Patrus conversou por telefone com João Santana e aguarda a ida dele a BH para definir sua possível participação na campanha.

Ele pode tanto ser o marqueteiro principal como um consultor do trabalho que seria realizado por publicitários locais do PT.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Kassab dribla Aécio e fortalece laço com Dilma

Christiane Samarco

BRASÍLIA - Ao retirar o apoio à reeleição do prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda (PSB), para aderir à candidatura petista do ex-ministro Patrus Ananias, o prefeito de São Paulo e presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, fez dois movimentos no xadrez político da sucessão de 2014. Além de tentar puxar o tapete do pré-candidato tucano ao Palácio do Planalto, senador Aécio Neves (MG), o prefeito alinhou o PSD na base de apoio à reeleição da presidente Dilma Rousseff.

Em telefonema a Aécio, Kassab disse que houve "um apelo" de Dilma. "Eu não queria fazer isso agora, mas, se é para ficar contra alguém, que seja o PSDB, porque a Dilma e o PT deram todo o apoio ao PSD", explicou a um correligionário. "Não podemos mostrar ingratidão. Isso causaria ao partido um prejuízo desgraçado", previu,em conversas reservadas. Em defesa da intervenção para desmontar a aliança do PSD com Lacerda e Aécio, Kassab disse a deputados mineiros que a eleição em Belo Horizonte ganhara dimensão nacional. Questionado sobre a parceria com o tucano José Serra em São Paulo, respondeu de pronto que, diferentemente de Aécio, Serra não será candidato a presidente.

"Dei-me conta de que a questão local estava nacionalizada quando vi o (vice-presidente) Michel Temer comandando a operação no PMDB para retirar a candidatura do deputado Leonardo Quintão à prefeitura", contou Kassab, que entende que Aécio errou ao pressionar contra a coligação PSB-PT para eleger vereadores, o que levou os petistas a saírem da chapa de Lacerda. Foi a partir desse rompimento que Dilma entrou em cena na montagem da candidatura petista, acionando o PMDB e a sigla de Kassab. Parte da cúpula do PSD entendeu que o movimento de Aécio acabou jogando o PMDB "no colo" da presidente.

Sem garantias. Por esse raciocínio, Aécio pode ter alinhado contra ele, na corrida presidencial, os três maiores tempos de televisão no horário eleitoral gratuito: PT, PMDB e PSD. E isso, sem a garantia de que terá com ele o quarto maior tempo. Afinal, o PSB de Lacerda pode seguir no apoio a Dilma ou lançar a candidatura do governador Eduardo Campos (PE).

Acionado pelo Planalto, Campos também tentou forçar um recuo de Lacerda para manter a coligação com o PT na eleição proporcional, sem sucesso. Com o apoio dos vereadores do PSB, que não queriam perder vagas na Câmara para eleger petistas, Lacerda foi firme diante da insinuação de que a direção nacional poderia intervir para manter o PT na aliança: "Belo Horizonte não é moeda de troca. Se a parceria com o PT desarranjou em Recife e Fortaleza, que o realinhamento se dê lá. Se quiserem intervir aqui, renuncio à candidatura".

Para Aécio, foi Kassab quem errou na operação política. Com Quintão fora da corrida municipal para apoiar Patrus, a perspectiva de a eleição só se resolver no segundo turno fica mais distante. Ganha força a tática tucana de polarizar a disputa desde já, para que a definição ocorra na primeira rodada. Aécio também lembrou a Kassab, no telefonema que recebeu, que todos os deputados do PSD de Minas são da base de apoio de Lacerda e do governador tucano Antonio Anastasia. Manter esse alinhamento, aliás, foi o compromisso de Kassab quando pediu a ajuda de Aécio na montagem da nova legenda no Estado. "Essa intervenção é uma violência, mas você sabe o que faz", rebateu Aécio.

Os tucanos entendem que o erro mais grave de Kassab foi contrariar o estatuto do PSD na operação desmonte da aliança com PSB e PSDB. Ao final, o prefeito pode pagar o preço de ficar com o desgaste político e Lacerda, com o tempo de televisão do PSD. "E não me venham falar de traição e em surpresa com a recusa da coligação com o PSB para vereador", adverte o presidente do PSDB de Minas, deputado Marcus Pestana. Ele afirma que, um mês antes da convenção, disse ao presidente do PT mineiro, Reginaldo Lopes: "Você está iludindo as bases do PT com a coligação. Ela não ocorrerá e é melhor assumir isso. Se deixar para avisar depois, isso volta como bumerangue na sua testa".

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO