A relativa
demora da reação guarda alguma semelhança com a prudência da diplomacia
brasileira. Afinal, ambos os países estão tradicionalmente situados na chamada
área de influência dos EUA. No caso do Canadá, mais ainda, porque tem com
aquele país uma imensa fronteira, tendo sido alvo de insólita ameaça de
anexação. Isso valoriza ainda mais a firmeza, a ousadia e a largueza de visão do
pronunciamento do primeiro-ministro. O único ponto não bem explicitado no
discurso memorável é a indeterminação, talvez deliberada, do que se pode
considerar como médias potências. Mas a afirmação final do discurso de que o
caminho proposto é “totalmente aberto para qualquer país disposto a trilhá-lo
conosco” não deixa dúvidas sobre a amplitude política e a generosidade
planetária do posicionamento.
Certamente a
amplitude não é politicamente ingênua. Sabe discernir as distintas capacidades
de reação de distintos países (daí a alusão ao protagonismo dos de porte
intermediário) mas não fecha previamente o arco da promessa. Fica evidente uma
tentativa de construir uma alternativa a artefatos da estratégia trumpista,
como o chamado comitê de paz de Gaza, uma iniciativa com clara intenção de consumar
a interdição do papel da ONU, de há muito desafiado e desgastado por grandes
potências. Em vez de clamar, retoricamente, pelo respeito ao virtual e cada vez
menos real poder arbitral daquela organização, Carney está propondo uma
articulação e ação realistas de novo tipo. E pelo desenho mesmo da proposta,
combinando interesses e valores, o reconhecimento da ineficácia da ONU como
poder arbitral não implica em desconhecer nem deixar de apoiar o papel ativo que
desempenha, através de várias organizações específicas, na promoção dos
direitos humanos no mundo e na assistência e solidariedade contínuas a
populações submetidas aos efeitos de situações de agressão e opressão.
O pronunciamento
é, por tudo isso, uma sinalização concreta para a política externa brasileira.
Se ela assumir a integridade e as implicações políticas de um discurso como
esse, estará sintonizada não apenas com o Canadá e o mundo democrático, mas com
as melhores tradições do Itamaraty.
Essa sinalização
chega em momento propício para encontrar boa guarida. A política externa
brasileira atual, desde o tarifaço de Trump, passou a demonstrar razoável sintonia
com esse discurso. O horizonte dessa sintonia é bem mais largo do que o
discurso do "Sul Global", a marca geopolítica principal que, até
poucos meses atrás, tentava guiar passos do próprio Itamaraty. Parece que a
realidade da blitz trumpista está levando o governo a achar um eixo que
articule melhor política e diplomacia. Os efeitos têm sido animadores e
justificam a expectativa de que o governo brasileiro e seu presidente acolham a
fala canadense como aceno a uma firme aliança e não como o nascimento de um
discurso rival.
A lógica pragmática
da prioridade às relações “Sul-Sul” é se amparar no banco dos Brics e na
influência chinesa para escapar das garras de Trump. Isso colocaria em segundo
plano o Canadá, assim como a UE. A conversa do canadense é outra. Para
enfrentar a ofensiva de Trump não adota o caminho de amparar-se em potências
rivais dos EUA, cujo traço comum, para além de suas vocações também imperiais,
é serem ditaduras. Com elas, relações diplomáticas e comerciais, sim,
cooperação política, não.
Nenhum interesse
pragmático justifica um compromisso seletivo com o valor dos direitos humanos.
Por essa chave de abordagem das relações internacionais cabe, por exemplo,
contrapor-se ao massacre de Israel em Gaza e não cabe fazer silêncio ou
murmurar com timidez sobre o que ocorre no Irã. Pragmatismo de interesses e de valores não
são incompatíveis. São complementares para livrar potências médias, como somos
Brasil e Canadá, de escolherem inseticidas para combater os insetos.
O pronunciamento
de Carney evoca as melhores tradições da nossa política externa, registradas em
formulações igualmente amplas, em distintos contextos. Não vou aqui exumar tais
contextos nem resgatar, pela enésima vez, as memórias de Rio Branco, Ruy
Barbosa, ou Osvaldo Aranha. Trago à lembrança San Tiago Dantas, pelo que ele
tem de mais contemporâneo. Não tanto sua experiencia no Itamaraty,
evidentemente datada, mas o legado do seu pensamento político de esquerda
positiva, formulador de uma combinação fantástica de convicção democrática,
reformismo social e - o que aqui mais interessa – visão do interesse nacional
soberano articulado com uma perspectiva cosmopolita. É dele a reflexão que
tentarei resumir, pedindo desculpas por possíveis imprecisões e servindo-me da
memória de discussões do grupo de pesquisa Ecos do Subsolo, que tive a
sorte de coordenar na UFBa.
San Tiago buscava definir, de forma teórica e
de forma prática, possibilidades de uma política de não-alinhamento que
impulsionasse o Brasil como protagonista de suas experiências sociopolíticas,
em detrimento de qualquer subordinação primária a interesses externos. Na
dinâmica internacional, poder-se-ia identificar, segundo ele, grupos distintos
de acordo com seus interesses externos, entendidos enquanto aqueles interesses
que podem levar um Estado nacional a intervenções fora de seu campo interno de ação e indispensáveis para o
preenchimento de seus fins políticos. São estes: Grupo 1 - Estados potencialmente agressores: têm como tendência permanente serem determinantes na esfera de interesses internos de outros
Estados. Buscam interferir em áreas que estão sob controle de outro Estado,
sendo que a maioria dessas modalidades de influência, quando se exercem como
ações permanentes, configura o imperialismo; Grupo 2 - Estados potencialmente agredidos: aqueles que visam à preservação
da própria esfera de determinações contra interferências de outro Estado.
Almejam, portanto, a defesa da própria soberania contra todas as formas
externas de infiltração, com reivindicações anti-imperialistas. São o oposto
dos países do grupo 1.
Esses dois primeiros grupos eram extremos da linha
de política exterior, entre os quais se pode identificar o modo como os vários estados
nacionais se posicionam em relação aos outros na dinâmica política
internacional. Isso é especialmente relevante quando, para San Tiago, nenhum
Estado pode existir em isolamento absoluto, nem mesmo teoricamente, uma vez que
“a existência de um Estado Nacional pressupõe a de outros Estados Nacionais,
cujas esferas de interesses e de influência, ou coincidem convergentemente, ou
se desenvolvem paralelamente com a do Estado considerado". No caso brasileiro, a experiência nacional
identificaria o país num terceiro grupo, no qual os interesses externos
corresponderiam à necessidade de cooperação voluntária, via entendimentos com
outros Estados para o preenchimento de seus fins. Aspiração à atividade
não-compulsória que se processaria justamente pela capacidade que esse Estado
teria de oferecer reciprocidade a formas de cooperação.
Devemos notar ainda a forma como San Tiago
Dantas identificava o Brasil, a partir de uma dimensão histórica, na dicotomia
Ocidente x Oriente. Segundo ele, a experiência civilizatória realizada no nosso
meio, a partir de um processo colonizador deliberado empregado por Portugal,
iniciou um processo de transplantação da civilização ocidental. Este processo
teria sido comunicado aos povos e continuaria a orientá-los após alcançarem a
independência política, e, no caso das Américas espanhola e portuguesa, a
partir da tentativa de implantação da civilização ocidental nos trópicos,
aspecto irremediavelmente determinante da formação brasileira e das virtudes e
vícios das suas políticas interna e externa.
Essa postura
realça a ideia de "outro ocidente", termo que devemos a José
Guilherme Merquior, também um pensador instigante do Brasil. Nas percepções do
liberal Merquior e do trabalhista San Tiago a comum compreensão de que esse
outro ocidente é a praia natural do Brasil, da sua cultura nacional e da sua
diplomacia. Sintonia fina, contemporânea e mais ou menos coetânea entre dois
intelectuais cujas reflexões sobre o tema separam-se no tempo por duas décadas,
entre a dos 60 e a dos 80. Sintonia contemporânea que se pode dar também entre
pensamentos não coetâneos, hipótese acolhida no universo compreensivo de um
terceiro pensador brasileiro, Guerreiro Ramos, hoje mobilizado, com discutível
precisão, por defensores da necessidade de “descolonização” do nosso pensamento
político.
Pois é
justamente nessa hipótese que se pode ler o discurso atual de Carney como
portador de um pensamento político análogo. Sem prejuízo da intensificação das relações
comerciais com os países "do sul" (o próprio Canadá faz isso), a
reação política global contra o trumpismo tem que superar a conversa do Sul
Global. Ir além dela. Mostra que o
ocidente não é uma imagem do passado, inerte diante da ofensiva de um
presidente autocrático à frente do governo de uma potência hegemônica.
Sintonia com
esse discurso inclusivo e não demarcatório de fronteiras ideológicas é caminho
para o Brasil defender sua soberania sem negar laços tradicionais da sua
trajetória histórica, colada a destinos de lugares onde a democracia política
prosperou. Em outras palavras, outro ocidente, nunca anti-ocidente. Tomara que o atual governo possa superar suas
ambiguidades ideológicas e permitir que essa linha se desenvolva. O Brasil tem
porte para isso e diplomacia capaz de cumprir essa missão nacional.
*Cientista político
e professor da UFBa

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