terça-feira, 22 de setembro de 2026

Se os debates eleitorais fossem sérios..., por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Alckmin recolocou a política industrial na agenda econômica e lançou um programa com foco em inovação, produtividade, descarbonização e agregação de valor, mas terá prosseguimento?

Na coluna de 15 dias atrás, comentamos aqui a questão da industrialização. Há um debate acadêmico sobre melhor maneira de alcançar o desenvolvimento econômico nos países de renda média, como o Brasil. Alguns economistas estão de olho no setor de serviços, que é responsável pelo acelerado crescimento da economia da Índia, por exemplo. E há outros que ainda consideram a indústria de manufaturados como essencial para criar empregos e desenvolver as nações.

Se os debates da campanha eleitoral fossem sérios, candidatos deveriam se manifestar sobre temas como esse e seus desdobramentos em programas de governo. Mas esses assuntos passam longe das campanhas ou são citados genericamente, como é o caso das terras raras - por incrível que pareça, alguns tentam desenterrar enferrujadas propostas de privatização.

A discussão mais comum, infelizmente, gira em torno de acusações mútuas, que tentam colocar nos adversários a pecha de corrupto. E uma multidão de candidatos, em todos os cargos eletivos, procura ganhar votos com a promessa estridente de acabar com “marginais, criminosos e vagabundos” - só ingênuos acreditam neles, até porque alguns desses tagarelas se enquadram nessas três categorias.

Claro que temas como corrupção e segurança são importantes. Combate à corrupção domina campanhas e elege presidentes desde sempre. Jânio Quadros adotou uma vassoura no início dos anos 1960 - “Varre, varre, vassourinha/varre, varre a bandalheira/que o povo está cansado/de viver dessa maneira” era o jingle de então. O golpe de 1964 tinha entre seus objetivos teóricos combater corrução e subversão. Fernando Collor prometeu acabar com os marajás do serviço público. Bolsonaro foi filhote da Lava-Jato (e da ditadura). Todos sabemos como acabaram esses governos.

Seria muito mais importante saber quais são os projetos estratégicos que os candidatos defendem para o desenvolvimento e enriquecimento do país e dos brasileiros. Entrar com cara e coragem numa eleição presidencial e ganhar a disputa é caminho certo para levar o país a desastres políticos e econômicos, como em governos citados acima.

O economista Paulo Gala, em brilhante artigo recente, citou o exemplo da Coreia do Sul, que anunciou uma estratégia tecnológica organizada em torno de sete projetos nas áreas de energia nuclear, computação quântica, espaço e biotecnologia.

As metas coreanas têm data marcada: pouso na Lua até 2030; comercialização de reatores modulares de pequeno porte de desenvolvimento próprio até 2035; produtos de interface cérebro-computador até 2035; um computador quântico nacional de 100 qubits até 2029 e liderança global na fabricação de chips quânticos até 2035.

Pousar na lua é uma ambição desnecessária? Talvez não, considerando-se as tecnologias adquiridas em uma caminhada como essa e que ficam depois de encerradas as missões. Mas a Coreia do Sul tenta dar continuidade a sua estratégia vencedora dos anos 1960, quando era mais pobre que o Brasil e praticamente não tinha indústria nem recursos naturais. Apesar disso, criou uma das maiores siderúrgicas do mundo (Posco), que sustentou o avanço da produção naval e da indústria automobilística e financiou a Samsung para enfrentar as rivais japonesas, entre outros programas de sucesso.

E qual é a estratégia atual da Coreia do Sul? Gala explica: “É manter a mesma máquina funcionando 60 anos depois, com um Estado que continua fazendo o que sempre fez”. Ou seja, “definir direção, assumir o risco da fase pré-comercial, coordenar empresas, universidades e institutos, e sustentar cerca de 5% do PIB em P&D - uma das maiores intensidades de pesquisa do mundo. É a lógica das missões, no sentido em que [a economista italiana] Mariana Mazzucato usa o termo: o Estado não escolhe vencedores, escolhe problemas difíceis e organiza quem vai atacá-los”.

O Brasil tem alguns exemplos de sucesso com essa estratégia. A gigante Embraer, que foi sustentada pelo Estado durante décadas; a Petrobras, que domina águas profundas; a Embrapa, que reinventou o Cerrado; e Butantan e Fiocruz, que produzem vacinas em escala industrial. São casos isolados, demonstrações da capacidade brasileira.

A 12 dias das eleições, é lamentável que a maioria dos candidatos não tenha nem a noção de que deveria propor estratégias de médio e longo prazo para o país. Paulo Gala diz que o Brasil “perdeu o horizonte”, porque nosso ciclo de política tecnológica dura um mandato, o orçamento de ciência é sempre a primeira vítima de contingenciamentos e não temos metas de capacidade com data marcada em torno das quais empresas, universidades e financiamento público possam se organizar por uma década.

É justo reconhecer o trabalho do vice-presidente Geraldo Alckmin no Mdic. Ele recolocou a política industrial na agenda econômica e lançou um programa (Nova Indústria Brasil) com foco em inovação, produtividade, descarbonização e agregação de valor. Seu mérito foi devolver ao Estado um papel mais ativo na promoção do desenvolvimento industrial. Mas isso é só um começo. Terá continuidade? Ou, como diz Paulo Gala, continuaremos exportando o que a geologia nos deu e importando o que a engenharia dos outros criou?

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