quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Acordão na Alerj aprova estado de calamidade, mas sem demissões

• Emenda quer proteger servidor de carreira de possível corte de pessoal

- O Globo

O decreto de calamidade financeira do estado foi aprovado pela Alerj, mas acordo entre deputados e governo incluiu a proibição para a demissão de servidores. Uma emenda vetou que o estado dê novas isenções fiscais pelo período de dois anos, o que foi criticado pela Fecomércio. Um acordão feito durante a reunião do Conselho de Líderes da Alerj antes da votação do projeto de lei de calamidade do estado permitiu ao governo aprovar a medida por 40 votos a 14. Das 57 emendas apresentadas, 11 foram aceitas. Após a negociação, a proposta passou com garantias para os servidores, que não poderão ser demitidos.

O deputado Luiz Paulo Corrêa da Rocha (PSDB) diz que uma das emendas incluídas vai preservar os empregos dos funcionários:

— Trouxemos o que estava na justificativa feita pelo governo para dentro da lei. Os artigos da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) que permitem ao Executivo demitir se for ultrapassado o teto de gastos com pessoal ficam suspensos, enquanto durar o estado de calamidade.

Mas o tema demissão de funcionários também é tratado pela Constituição Federal e dá margem a interpretações. O secretário-chefe da Casa Civil, Leonardo Espíndola, que integrou a tropa de choque enviada pelo governo à reunião do Conselho de Líderes, lembra que o artigo 169 da Constituição prevê a demissão em caso de desenquadramento, ou seja, na eventualidade de o limite de gastos com pessoal ultrapassar o estipulado.

O governador ainda terá que sancionar a lei de estado de calamidade. O principal ponto é que a medida protege o governo de punições caso sejam ultrapassados alguns limites legais: o de pessoal está prestes a acontecer, e o teto de endividamento já foi atingido.

“GOVERNO PODERÁ AVANÇAR”
Espíndola diz que o governo não tem intenção de demitir servidores no momento. O objetivo da lei é basicamente garantir a continuidade de repasses federais:

— O reconhecimento do decreto de calamidade (editado em junho) pelo parlamento permite ao Executivo avançar na proteção dos servidores estaduais. Queremos manter os empregos e evitar demissões. Nosso objetivo é evitar a sanção mais dura da LRF, preservar o servidor público e, consequentemente, o atendimento à população. No passado, o decreto já permitiu que o estado conseguisse o aporte de R$ 2,9 bilhões do governo federal.

Outra emenda aprovada fixou a vigência do estado de calamidade, que termina em 31 de dezembro de 2017. Há ainda emenda que prioriza as verbas do orçamento, durante o período de calamidade, para o “pagamento dos servidores públicos e a manutenção dos serviços de saúde, segurança pública, educação e assistência social”. O governo também não poderá contratar com dispensa de licitação.

Os debates sobre o projeto foram acalorados no plenário. Toda a bancada do PSOL presente — Paulo Ramos está de licença —, formada por quatro parlamentares, votou contra. O PT — com dois deputados — também se opôs ao projeto. E os deputados Carlos Osorio (PSDB) e Marcelo Freixo (PSOL) entraram no debate.

— O PSOL votou contra o servidor. O projeto garante que os funcionários não poderão ser demitidos — atacou Osório. Freixo rebateu: — O Osório saiu do PMDB, mas o PMDB não saiu dele. O que não podemos é dar um cheque em branco ao Executivo. O que o governo quer é poder aumentar o endividamento.

Preocupados com o pacote anticrise que será apresentado sexta-feira, servidores que protestaram ontem em frente à Alerj e nas galerias da Casa ameaçam fazer greve geral, caso o governo não estabeleça um diálogo com os funcionários. Segundo o professor Túlio Paolino, do Sindicato estadual dos Profissionais de Educação (Sepe), os trabalhadores vão enfrentar as “provocações do governo”.

Jucá: governo dá aval para reajuste de 9 categorias

• Servidores da Receita Federal e do Itamaraty, além de peritos do INSS, estão entre os que podem ser beneficiados

Júnia Gama - O Globo

-BRASÍLIA- Após conseguir aprovar a proposta de emenda à Constituição (PEC) 241, que estabelece um limite para os gastos públicos, o governo decidiu abrir a porteira: dará sinal verde para que o Congresso aprove os aumentos de nove categorias de servidores. Além das cinco carreiras funcionais, entre elas Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal, que tiveram projeto de reajuste aprovado semana passada na Câmara, devem ser incluídas nas discussões as propostas de reajuste para Receita Federal, Itamaraty, fiscais do Ministério do Trabalho e médicos peritos do INSS.

É o que diz o senador Romero Jucá (PMDB-RR), que foi escolhido para ser o novo líder do governo no Congresso. Jucá afirmou ontem que o governo deu o aval e esses reajustes que já haviam sido negociados com os representantes dessas carreiras. A postura do Palácio do Planalto em relação aos reajustes se deve ao fato de a PEC 241, que estabelece um limite para os gastos públicos, já ter passado pela Câmara. Agora, no Senado, a expectativa é de uma tramitação mais tranquila para a medida. O temor, segundo o senador, era que a discussão sobre os reajustes fosse usada para dificultar a aprovação da PEC.

Venezuela: Julgamento de Maduro e protesto na capital são suspensos

- Valor Econômico

SÃO PAULO - O parlamento da Venezuela suspendeu, nesta terça-feira (1º), o julgamento sobre a responsabilidade do presidente Nicolás Maduro na crise do país, diante do início de um diálogo com o governo.

"Aprovado, concorda-se com adiar" os pontos da agenda desta terça, anunciou o chefe da Assembleia Nacional, Henry Ramos Allup, ao explicar que não se trata de uma "capitulação" da oposição, mas da busca por uma solução para a crise.

Se o Vaticano exigiu que se sentem em uma mesa, tem que ser feito. Não podemos nos negar essa possibilidade", afirmou Allup antes da votação.

A sessão foi convocada para a próxima terça-feira (8), às 14h.

Também foi anunciada a suspensão de uma marcha de opositores que aconteceria nesta quinta-feira (3) e que tinha intenção de ir até a sede do governo venezuelano, o Palácio de Miraflores.

Negociação
No domingo (30), governo e oposição se reuniram, sob a mediação do Vaticano, num museu nos arredores de Caracas.

Já passava das 20h (22h de Brasília) quando Maduro abriu a reunião no Museu Alejandro Otero dizendo que assumia um "compromisso total e absoluto com este processo de diálogo".

"Estendo a mão à MUD para dialogar", afirmou o presidente, diante do secretário-geral da MUD (Mesa da Unidade Democrática), Jesús Torrealba, coalização de oposição ao governo Maduro e representantes dos partidos de oposição Acción Democrática, Primero Justicia e Un Nuevo Tiempo.

Após o início do diálogo, cinco opositores do governo foram soltos nesta segunda-feira (31).

Onda furada - Dora Kramer

- O Estado de S. Paulo

• Fala-se de 'virada' à direita como se algum dia o Brasil tivesse sido de esquerda

Concluídas as eleições, inicia-se a fase das conclusões. No geral, apressadas quando se trata de fazer projeções. A mais difundida no momento é a que põe nas mãos do governador Geraldo Alckmin a legenda do PSDB para concorrer à Presidência da República em 2018, como consequência da vitória em primeiro turno de João Doria para a Prefeitura de São Paulo, da conquista de importantes cidades no Estado e da derrota do candidato do senador Aécio Neves à prefeitura de Belo Horizonte.

Nesses casos de A + B=C, somam-se bananas com laranjas e trata-se a política como se fosse ciência exata ou como algo que funcione no piloto automático. No meio, entre um acontecimento e outros há os fatos, há as circunstâncias e há gente, espécie humana, categoria instável, sujeita aos efeitos da chuva e das trovoadas.

Experiente no tema, Alckmin tratou anteontem de declarar algo que certamente não pensa: que, no momento, a disputa de 2018 não está na agenda dele nem do PSDB. É claro que está, mas é daquelas coisas que o político precavido não assume. Entre outros motivos para não se queimar e ver se consegue atravessar a distância entre uma eleição e outra com chance de sucesso na tarefa de ultrapassar obstáculos.

Agora, às claras - Merval Pereira

- O Globo

Com a confirmação do relator da comissão especial de combate à corrupção, deputado Onyx Lorenzoni, de que propostas contra a prática de caixa 2 “com dinheiro lícito” estão previstas no relatório que será lido para aprovação na semana que vem, está aberta nova etapa na tentativa de estabelecer uma linha divisória para a punição de parlamentares e ex-parlamentares que foram financiados de modo ilegal nos últimos anos.

Os políticos resolveram assumir abertamente a tese de que é preciso criminalizar o caixa 2, sem darem ênfase, porém, aos efeitos da nova lei, que é anistia ampla e suprapartidária. Eles não estão preocupados com os já presos na Lava-Jato, mas com os que podem vir a ser presos depois das delações da Odebrecht e outras empresas envolvendo doações aos políticos. Do mesmo modo, as empresas também têm interesse nessa definição legal.

A tal ponto que o deputado Lúcio Vieira Lima, irmão do ministro Geddel Vieira Lima, disse que, se a comissão especial de combate à corrupção não enfrentar o assunto, a comissão que trata da reforma eleitoral tratará dele. A postura é muito diferente da de meses atrás, quando tentaram aprovar na surdina, com voto de liderança, um projeto de lei com o mesmo objetivo.

A tribo debandou – Ruy Castro

- Folha de S. Paulo

- Um leitor me recorda que, há anos, sugeri nesta coluna que o Brasil instituísse o recall eleitoral. Ou seja, que, em qualquer momento, os eleitores pudessem pedir de volta os votos que haviam dado a um candidato e o ajudado a se eleger. Se esse recall fosse significativo, o governante deveria devolver o mandato, pegar o boné e retirar-se da cena política.

A ideia revelou-se impraticável, mas parece que, sem bagunçar o calendário, o Brasil fez algo do gênero nessas últimas eleições. Pediu de volta os votos que havia confiado a muita gente e os depositou na conta de outros políticos, alguns dos quais mal tinham entrado na história. Ou apenas os jogou no lixo.

As ilusões das eleições - *José Nêumanne

- O Estado de S. Paulo

• Na era cibernética, até o castigo ‘avoa’ nos ares para o PT de Lula e o chefão tucano Aécio

O principal derrotado nas eleições municipais de outubro de 2016 foi o Partido dos Trabalhadores (PT). E com ele afundaram nas urnas seus sucedâneos e tradicionais aliados de esquerda: de Rede, PSOL e PCdoB a nanicos revolucionários – os de centro-esquerda e os mais extremados.

Isso quer dizer que a centro-direita venceu a disputa, levando em conta estatísticas avassaladoras do gênero: 80% das prefeituras do País foram conquistadas por legendas, das gigantes às mínimas, todas componentes da base de apoio do governo-tampão de Michel Temer? Ou, ainda, o maior partido da oposição nos desgovernos petistas de Lula e Dilma, o PSDB, ganhou 863, ou seja, 25% dos pleitos, um recorde histórico? Nada disso!

Brincando com 2012 para ver 2018 – Elio Gaspari

- O Globo

• O passado ensina que a partir do presente só quem vê o futuro é a Mileide (Heloísa Périssé) de ‘A lei do amor’

Às vezes, o saber que não se sabe é tão importante quanto aquilo que se sabe. Em outras palavras, a ignorância é coisa valiosa. Depois de uma eleição, é comum e até mesmo saudável que se produzam explicações, quase sempre lógicas, aparentemente definitivas. Assim:

O PSDB e Geraldo Alckmin foram os grandes vencedores da eleição municipal.

Abatido pelos próprios malfeitos, o PT arruinou-se e, com ele, a esquerda, seja lá o que isso signifique. A eleição de 2016 marca a ascensão de uma maré conservadora na vida nacional.

Essas três conclusões estão certas. O problema surge quando, a partir delas, projeta-se o futuro. Voltando-se o relógio para 2012, pode-se visitar a sabedoria da ocasião.

Entre o primeiro e o segundo turno da eleição municipal, o Supremo Tribunal Federal julgou o processo do mensalão, José Dirceu foi condenado e, semanas depois, foi para a cadeia de braços erguidos e punho fechado.

A marcha fúnebre - Luiz Carlos Azedo

- Correio Braziliense

• As tentativas de mudar as leis a toque de caixa para favorecer os políticos envolvidos nos escândalos até agora fracassaram

A pulverização partidária revelada nas eleições municipais, aliada aos índices de anulação de votos e abstenções (ainda que levemos em conta apenas as cidades onde houve biometria), aponta para uma certa exaustão do atual modelo eleitoral e do quadro partidário. Dois fatores pesaram muito nesses resultados: a recessão econômica e a crise fiscal, de um lado, e o impacto das denúncias de corrupção e da Operação Lava-Jato, de outro. Em ambos os casos, pela responsabilidade que tinha à frente do governo, o PT foi o partido mais atingido, colhendo um resultado eleitoral desastroso e do qual dificilmente se recuperará até 2018.

Pode-se dizer que o PSDB e o PMDB foram os partidos que melhor se saíram na eleição, os números confirmam isso, mas a pulverização dos resultados entre legendas médias e pequenas revela que os dois partidos ainda não garantem uma saída política para a crise que o país atravessa. Isso vai depender do sucesso do governo Temer, de um lado, e da capacidade de o bloco de forças que o apoia chegar a uma candidatura unificada, o que não é fácil. O PSDB dificilmente abrirá mão de um candidato próprio, porém é o PMDB que articula os demais partidos da base.

A reforma esquecida - Monica de Bolle

- O Estado de S. Paulo

• Não dá para ignorar a necessidade de mudanças no sistema financeiro brasileiro

Entre o vigoroso debate sobre a PEC dos gastos e a acalorada discussão vindoura sobre a reforma da Previdência, pouco se fala a respeito de outra reforma de sumária importância para o Brasil: a reforma do sistema financeiro. Não se trata apenas do eterno debate sobre o nível anômalo dos juros brasileiros, mas de idiossincrasias que tornam o Brasil um país para lá de esquisito, país onde a política monetária não apenas opera com escopo bastante reduzido, mas traz consequências pouco conhecidas sobre papel distributivo de natureza única, verdadeira guariroba brasileira.

Por diversas vezes discorri sobre o papel do crédito subsidiado e do crédito direcionado no Brasil. O crédito direcionado é aquele destinado a setores e programas específicos, sem que se tenha clareza sobre tais decisões alocativas. Entre 2008, antes da crise internacional, e 2015, o crédito direcionado como proporção do crédito total aumentou de uns 30% para cerca de 50%. Ou seja, metade do crédito oferecido hoje no País por grandes bancos públicos e privados não é o que economistas chamam de “crédito livre”, isto é, recursos que não estão sujeitos a algum tipo de normativa.

A igualdade é difícil - Roberto DaMatta

- O Globo

Uma fábrica é uma máquina de igualdade. Seu objetivo é produzir coisas iguais, e sua reputação tem a ver com a capacidade de produzir perfeitamente o mesmo do mesmo. O problema é que, começando com o seu proprietário, a igualdade da produção em massa promove, em outros níveis, uma brutal desigualdade.

Por outro lado, é impossível não constatar a impossibilidade de produzir objetos idênticos em sociedades não industriais. Quando eu vivi com os índios apinayé, surpreendia-me o fato de todos saberem quem eram os autores dos objetos — cestas, esteiras, arcos, bordunas, flechas ou enfeites — que eu havia adquirido para o museu onde trabalhava.

O igual é o modelo do fabricado. Todos seriam iguais perante a lei e igualmente iguais perante certos bens e serviços oferecidos pelo Estado ou adquiridos por meio do dinheiro, cujo valor é — vale falar no óbvio — igual para todos. Mas não se pode esquecer do “perante”. É a lei que é igual para os diferentes entre si.

Numa sociedade cujo ideal é a igualdade, as desigualdades seriam lidas como anomalias, perversões e hóspedes não convidados. Mas nem nas sociedades tribais fundadas na família, com tecnologia produzida por seus próprios membros, existe uma igualdade concreta. Há desigualdades, mas elas são transformadas em particularidades e pertencimentos. Cada grupo interno — metades, associações, linhagens — diferencia produzindo interdependências sem as quais o sistema ficaria abalado.

Uma ‘consulta’ muito estranha – Editorial / O Estado de S. Paulo

Começou a tramitar ontem no Senado a PEC do Teto, já com parecer favorável, sem emendas, do relator Eunício Oliveira (PMDB-CE). Aprovada em dois turnos por ampla maioria na Câmara, essa proposta, considerada vital pelo governo, será votada agora, também em dois turnos, pelo Senado. O Palácio do Planalto confia em que a decisão da Câmara será tranquilamente confirmada pelos senadores, permitindo que a PEC seja promulgada até 13 de dezembro. Chama a atenção, contudo, o resultado colhido até o meio-dia de ontem pela consulta pública promovida pelo Senado na página e-Cidadania de seu site: cerca de 95% das quase 300 mil pessoas que haviam se manifestado são contra a PEC do Teto.

Das duas, uma: ou o Congresso está prestes a tomar uma decisão ao arrepio da vontade da maioria dos brasileiros ou essa pesquisa não reflete exatamente a realidade. A verdade, como de hábito em questões muito polêmicas, parece estar no meio. Há, efetivamente, no Senado, uma minoria oposicionista, integrada principalmente pelo finado PT e aliados, que perdem o pelo, mas não perdem o vício. Quem acompanhou o aguerrido desempenho dessa turma na comissão do Senado que aprovou o processo de impeachment sabe como ela atua: muito grito e pouco senso, porque quando a derrota é inevitável o que importa é marcar posição. E não se pode ignorar que o tipo de consulta feita pelo Senado se presta à manipulação por qualquer grupo militante.

Crivella precisa entender as razões da vitória – Editorial / O Globo

• O prefeito eleito deve saber que teve menos votos que a soma dos sufrágios de Freixo, com os anulados e os em branco, e isso significa que ganhou por exclusão

Ponta de lança de antigo projeto evangélico de ter representantes eleitos no Executivo e atuar nas entranhas do poder, estratégia em que se destaca a Igreja Universal, o bispo licenciado Marcelo Crivella, do PRB, é o primeiro deles a chegar mais alto.

Senador, ministro da Pesca de Dilma Rousseff, contra quem votou no processo de impeachment, Crivella conseguiu, enfim, despir-se, em alguma medida, da imagem de “bispo” e apresentar-se como político, para vencer a eleição municipal na segunda cidade do país, depois de duas tentativas frustradas.

Deve ter aprendido lições nessas derrotas, assim como precisará entender por que venceu, para conseguir governar com chances mínimas de êxito. A abertura a parcerias “laicas” já é bom sinal, embora nesse pacote tenha aceitado alianças que podem prejudicá-lo ao induzi-lo a aderir a práticas populistas clássicas no Rio e no estado. Será mais do mesmo.

Soneto da Busca – Carlos Pena Filho

Eu quase te busquei entre os bambus
para o encontro campestre de janeiro
porém, arisca que és, logo supus
que há muito já compunhas fevereiro.

Dispersei-me na curva como a luz
do sol que agora estanca-se no outeiro
e assim também, meu sonho se reduz
de encontro ao obstáculo primeiro.

Avançada no tempo, te perdeste
sobre o verde capim, atrás do arbusto
que nasceu para esconder de mim teu busto.

Avançada no tempo, te esqueceste
como esqueço o caminho onde não vou
e a face que na rua não passou.

Paulinho da Viola - Timoneiro

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Opinião do dia – Aécio Neves

"O PSDB teve a mais extraordinária vitória de toda a sua história. É um recado que, a nosso ver, vai muito além dos números. Há um recado da sociedade de aprovação à nossa conduta, nossa firmeza na condução e na liderança do processo de impeachment da presidente da República; nossa coragem de, rapidamente, apresentar ao governo Michel Temer um conjunto de reformas, mesmo não sendo o PSDB o beneficiário do êxito. Foi compreendido pela sociedade como um caminho acertado. "

------------------
Aécio Neves é senador (MG) e presidente nacional do PSDB. Folha de S. Paulo, 1/11/2016

‘O PT, como força política, acabou’, diz Chico de Oliveira

Sonia Racy – O Estado de S. Paulo

Conhecido nos meios intelectuais por seu olhar rigoroso e cético quanto aos políticos e aos costumes partidários do País, o sociólogo Chico de Oliveiradiz não ter-se surpreendido com o pacote de más notícias que o domingo trouxe para os petistas – que só elegeram um prefeito no chamado “clube do segundo turno”, que reúne oas 92 cidades com mais de 200 mil habitantes no País.

“O PT como força transformadora, no sentido em que foi criado nos anos 80, já acabou”, disse à coluna o sociólogo. Sua aposta é que ele, no máximo, “possa sobreviver como um partido tradicional.”

• Depois dos avanços da Lava Jato, do impeachment de Dilma e dos maus resultados nas eleições, qual agenda o PT deveria adotar para recuperar-se no curto e médio prazo?

Como força transformadora, dentro dos ideais que o criaram, minha opinião é que o PT acabou. Quando muito, imagino que possa sobreviver como um partido tradicional, que continuará a viver seu papel de irmão gêmeo do PSDB.

• Mas o PSDB foi o principal vencedor dos dois turnos da eleição municipal e sai bem mais forte do que entrou, não?

A mim me parece que eles são gêmeos, um age e reage em função do outro. E, de um modo geral, parece-me que o panorama político aí pela frente é sombrio. Os partidos não representam hoje mais nada na sociedade brasileira. Quando muito, garantem uma certa institucionalidade que serve para se tocar a vida adiante.

• Mas, como se diz, a política tem horror ao vácuo. Alguma coisa sempre surge para preenchê-lo.

Isso é uma frase, apenas uma frase do mundo político. Já tivemos uma situação desse tipo no passado. Depois dos abalos da República Velha, até o final dos anos 1930, por exemplo, veio o período getulista – que, de modo bem amplo, foi um período de estagnação até início dos anos 50. Podemos estar começando algo semelhante – em outro tempo e outras bases, é claro. Um modelo, talvez, de americanismo tupiniquim.

• E o fator Lula? O ex-presidente pode sonhar com 2018?

O Lula como força política, a meu ver, também acabou. /

Gabriel Manzano

Freixo: esquerda vive crise profunda

Derrotado no Rio, Marcelo Freixo (PSOL) avalia que a esquerda vive o pior momento desde a ditadura, crise que, acredita, ajuda a explicar sua derrota, informam Miguel Caballero e Marco Grillo.

Freixo admite ter demorado para reagir aos ataques de Crivella.

Freixo vê pior crise da esquerda e faz autocrítica

• Deputado diz que errou no início do segundo turno e que PSOL precisa chegar à Zona Oeste

Marco Grillo e Miguel Caballero - O Globo

No day after de sua derrota na eleição para prefeito do Rio, Marcelo Freixo (PSOL) citou três principais razões para explicar o resultado. A crise da esquerda no Brasil, que ele classifica como a pior desde a ditadura militar, a incapacidade de o partido penetrar na Zona Oeste e, como autocrítica, afirmou que sua campanha ficou “atordoada” e demorou a reagir aos ataques sofridos no início do segundo turno.

Crivella diz que vitória não significa conservadorismo

Italo Nogueira – Folha de S. Paulo

RIO - O senador e prefeito eleito do Rio, Marcelo Crivella (PRB), afirmou que sua vitória não representa a ascensão do conservadorismo. Apesar disso, afirmou que sua eleição significa que a população quer o respeito aos "valores da família e da vida".

Bispo licenciado da Igreja Universal, o senador disse que vai ser "um inconformado com qualquer tipo de intolerância com as minorias sejam elas quais forem".

"O que o povo do Rio determinou nesse momento das urnas é que as pessoas são contra liberação das drogas, legalização do aborto e a discussão de ideologia de gênero nas escolas. Isso foi dito na minha eleição. Isso não se trata de conservadorismo. Pelo contrário. São valores e princípios da nossa cidadania que emanam do povo e o político precisa defendê-los. Precisa ser portador desses valores. Valores da família e da vida", afirmou ele.

Ele afirmou que o Rio tem uma maioria de população católica e evangélica, "80% que leem a Bíblia, que, portanto, têm fundamentos nessa cultura ocidental cristã". Mas rejeitou o termo conservador para caracterizar seus princípios.

"Por que se fala em conservadorismo se nós temos aqui, por exemplo, todo o respeito às manifestações das minorias? No Rio não há expressão de racismo. Se há algum preconceito religioso, isso vai sumir na minha administração. Se houver preconceito contra a comunidade LGBT, vamos lutar contra", disse o prefeito eleito, que afirmou que não concorreu ao cargo "para doutrinar as pessoas".

Palocci era ‘software’ e Vaccari e Di Fillipi ‘hardware’ do PT, diz delator

• Ex-líder no Senado do governo Dilma afirmou à Lava Jato que ex-tesoureiros, do partido e das campanhas presidenciais de 2010 e 2014, executavam aquilo que o ex-ministro 'pensava e estruturava' dentro e fora do governo

Ricardo Brandt, Julia Affonso, Fausto Macedo e Mateus Coutinho – O Estado de S. Paulo

O ex-líder do governo Dilma Rousseff no Senado Delcídio Amaral afirmou à força-tarefa da Operação Lava Jato que o Antonio Palocci era o “software”, que pensava os projetos do governo em benefício do PT e que os ex-tesoureiros João Vaccari Neto, do partido, José Di Fillipi, das campanhas presidenciais de 2010 e 2014, eram o “hardware”, que executavam a arrecadação de propina com empresas beneficiadas no governo.

“Antonio Palocci sempre atuava na formatação dos grandes projetos do governo (estruturação dos consórcios, organização dos leilões)”, afirmou Delcídio, ouvido no dia 11 de outubro, em denúncia apresentada contra Palocci pelos procuradores da Lava Jato, em Curitiba.

Delator: Palocci pediu propina em Belo Monte

• Ex-presidente da Andrade Gutierrez afirma que R$ 128 milhões foram divididos entre PT e PMDB

Cleide Carvalho, Dimitrius Dantas - O Globo

-SÃO PAULO- Suspeito de movimentar R$ 128 milhões em propinas da Odebrecht, o ex-ministro Antonio Palocci foi apontado por Otávio Azevedo, ex-presidente da holding Andrade Gutierrez, como o responsável pela negociação de vantagens ilícitas nas obras da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, para o PT e também para o PMDB. Em depoimento de delação premiada, Azevedo disse que Palocci pediu 1% do valor da obra, a ser dividido entre os dois partidos, e indicou que as quantias deveriam ser pagas a João Vaccari Neto, que era tesoureiro do PT, e Edison Lobão, do PMDB, então ministro de Minas e Energia.

O pedido teria sido feito em encontro ocorrido a pedido do ex-ministro, num apartamento em Brasília, logo depois de a então ministra da Casa Civil, Erenice Guerra, comunicar que a proposta técnica da empresa para as obras da usina seria aceita e que a Andrade Gutierrez lideraria o consórcio.

Palocci intermediava dinheiro para campanhas, diz Delcídio

Por André Guilherme Vieira - Valor Econômico

SÃO PAULO - O ex-ministro Antonio Palocci era o principal interlocutor do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com empresários e intermediava o abastecimento de campanhas eleitorais. A afirmação foi feita pelo ex-líder do governo Dilma Rousseff no Senado e delator da Operação Lava-Jato, Delcídio do Amaral, em novo depoimento prestado à força-tarefa de Curitiba no dia 11 de outubro. As declarações de Delcídio serão usadas para instruir a acusação feita pelo Ministério Público Federal (MPF) contra Palocci.

"Antonio Palocci tinha uma tarefa bem determinada: fazer a ponte entre o governo e os empresários, alimentar as estruturas de poder [as campanhas]. Era a prioridade de Antonio Palocci", afirmou Delcídio aos procuradores da República no Paraná.

Palocci está preso desde o dia 26 de setembro e já foi denunciado pelo MPF como o principal contato da Odebrecht para obter contratos com a administração pública federal. Ele é acusado de receber R$ 128 milhões em propinas do Grupo Odebrecht entre 2008 e 2013 e destinar os recursos para si, para o PT e a políticos. Os advogados do ex-ministro negam as acusações.

E 2018? Os ‘alckmistas’ estão chegando

• Vitórias do governador tucano em SP e derrota de Aécio em BH alteram balança de poder no PSDB

Maria Lima - O Globo

-BRASÍLIA- Fechadas as urnas das eleições municipais, o PSDB saiu como o grande vencedor, governando o maior eleitorado e comandando 30% das cidades médias e grandes. A vitória nacional só não foi mais completa em função da derrota do presidente nacional do partido, Aécio Neves (MG), em Belo Horizonte. Líder mais influente na legenda, Aécio viu seu principal rival na disputa pela vaga de candidato à Presidência em 2018, o governador paulista Geraldo Alckmin, obter vitórias simbólicas no estado mais populoso do país que ampliaram o capital político dele. Agora, diante do aumento da rivalidade, dirigentes e parlamentares do PSDB já começaram ontem a alertar para o desafio de a legenda se manter unida e, para tal, reconhecem que será necessário dar a Alckmin mais espaço nos cargos de comando do partido — hoje sob influência massiva de Aécio.

Nos próximos seis meses, os tucanos enfrentarão três disputas internas por cargos. A avaliação geral é que nos embates pela liderança do partido na Câmara e no Senado, em dezembro, e luta pela presidência da Câmara, em fevereiro, Alckmin não tem trânsito para impor um candidatos. Mas, segundo os tucanos, ele fará pressão para garantir em maio mais cargos na eleição da Executiva Nacional do partido, órgão decisivo para tentar pavimentar a escolha de seu nome como candidato a presidente em 2018.

Aécio diz que eleição de 2016 não afeta escolha de candidato presidencial

Por Vandson Lima e Fabio Murakawa – Valor Econômico

Brasília - Um dos postulantes à vaga de candidato do PSDB à Presidência da República em 2018, o senador Aécio Neves (MG) evitou a avaliação de que o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, tenha tomado a dianteira na disputa interna por conta do desempenho vitorioso dos candidatos que patrocinou nestas eleições municipais.

O PSDB saiu das eleições de domingo como a maior força política nos municípios brasileiros. O partido governará 806 cidades, sendo sete capitais, com 34,6 milhões de eleitores. Na capital paulista, João Doria foi eleito em primeiro turno, com forte apoio de Alckmin, enquanto o candidato de Aécio em Belo Horizonte (MG), João Leite, foi derrotado em segundo turno.

No cômputo geral, o desempenho credencia a sigla a se tornar a "bancada majoritária" na Câmara dos Deputados após a eleição de 2018, com base na conexão "cientificamente comprovada", segundo Aécio, entre as eleições municipais e a votação para o legislativo. Mas o mesmo cálculo não vale para a escolha do tucano que concorrerá à sucessão do presidente Michel Temer, defendeu. Para Aécio, o sucesso obtido nas urnas precisa ser somado a "outros fatores".

Aécio diz que não se sentiu derrotado com resultado da eleição em Belo Horizonte

Débora Álvares – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - Mesmo com o revés de seu candidato em Belo Horizonte, o presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG), negou nesta segunda-feira (31) se sentir derrotado. Ele adotou o discurso de valorizar o crescimento do partido no Estado e no país para minimizar o resultado na capital mineira.

"Na capital [mineira], lamento que tenhamos perdido essa eleição, resultado nos desaponta, mas tivemos, mesmo em Belo Horizonte, uma vitória muito expressiva sobre tradicionais adversários. O PT, mesmo tendo o governo do Estado, não conseguiu nem de perto chegar no segundo turno. Outros partidos que se colocaram contra o nosso, também não tiveram o mesmo êxito", afirmou o tucano ao fazer um balanço do desempenho do partido nas eleições deste ano.

João Leite (PSDB) teve 47% dos votos válidos à Prefeitura de BH, enquanto seu adversário pelo PHS, Alexandre Kalil, venceu o pleito com 53%.

Questionado se o PSDB errou ao escolher um político tradicional para a disputa na capital mineira enquanto a população sai às ruas pedindo renovação na política, Aécio elogiou o apadrinhado.

Apesar da derrota na capital mineira, para o senador, o resultado em Minas Gerais foi "bastante positivo". "Vencemos em 133 municípios no Estado. Das 10 maiores cidades, governaremos sete. Já o PT viu seu número de prefeituras cais de mais de 170 para 41".

Para Alckmin, "o futuro a Deus pertence"

Por Fernando Taquari – Valor Econômico

SÃO PAULO - Fortalecido com a vitória de correligionários e aliados no Estado de São Paulo, o governador paulista, Geraldo Alckmin (PSDB), disse ontem que as eleições municipais marcam uma "virada de página" no país. O tucano, no entanto, procurou dissociar o resultado das urnas com a corrida presidencial de 2018 ao considerar o debate prematuro.

"O que nós vimos foi uma virada de página. Acho que a resposta da população foi muito forte, dizendo 'olha, esses governos petistas levaram o país a uma recessão brutal, com 12 milhões de desempregados, uma grande crise ética e um descontrole na questão fiscal'", afirmou Alckmin, pré-candidato ao Palácio do Planalto.

Durante agenda em Jaguariúna, na região de Campinas, o governador evitou estabelecer comparações entre o desempenho eleitoral de seus aliados nesta eleição com o resultado obtido em Minas Gerais por grupos ligados ao senador Aécio Neves (MG), outro nome dentro do PSDB cotado para concorrer a presidente daqui a dois anos.

‘Espólio’ do PT é ocupado por 25 siglas

• Derrota do partido nas eleições municipais traz pulverização de espaço antes controlado pela legenda; perda de eleitores governados é de 93%

Daniel Bramatti, Ricardo Galhardo, Rodrigo Burgarelli e Guilherme Duarte - O Estado de S. Paulo

O “espólio” do PT, principal derrotado nas eleições municipais de 2016, foi pulverizado por 25 partidos. Esse é o total de legendas que, a partir de 2017, vai comandar cidades conquistadas por petistas em 2012 e perdidas neste ano.

Nenhum partido teve desempenho muito distante de sua média nacional nas ex-cidades petistas. Em números absolutos, os maiores avanços foram feitos pelo PMDB (106 prefeituras) e PSDB (95). Mas eles também foram os dois maiores vencedores no conjunto de todos os municípios, e sua taxa de sucesso foi similar nas áreas governadas pelo PT ou não.

Há quatro anos, candidatos petistas venceram eleições em 638 municípios – o melhor resultado da história do partido. Dessas cidades, o partido só conseguirá se manter no poder em 109, ou 17%. No caso do PSDB, essa taxa de continuidade será o dobro (34%). Os tucanos venceram em 695 municípios há quatro anos, e conseguiram repetir a dose em 235 delas.

O recuo petista fica ainda mais evidente quando se analisa o tamanho do eleitorado que o partido perderá no conjunto das 638 cidades. De um total de 28,7 milhões de eleitores, o PT só continuará governando 1,9 milhão – uma perda de 93%.

Nova regra reduziria partidos de 35 para 9

• Proposta para acabar com farra de legendas está em discussão no Senado

Se aprovada, mudança tira repasse de recursos públicos e tempo de TV caso meta não seja atingida

Levantamento do GLOBO mostra que, se a eleição municipal fosse usada para a aplicação da regra que impede a proliferação de partidos, só nove das 35 legendas existentes hoje estariam aptas a receber recursos públicos e a ter tempo de TV, revelam Bernardo Mello e Gabriel Cariello. Para superar a cláusula de barreira, em discussão no Senado, os partidos precisariam atingir 2% dos votos válidos em todo o país, sendo distribuídos por ao menos 14 estados. A regra atingiria siglas que conquistaram prefeituras de seis capitais, entre elas o PRB de Crivella, no Rio. Sem os benefícios da lei, essas campanhas seriam inviáveis.

Aqueles 2% cláusula de barreira atingiria 26 siglas

• Resultado desta eleição para prefeito aponta que maioria dos partidos existentes não cumpriria requisitos

Bernardo Mello e Gabriel Cariello - O Globo

Levantamento do GLOBO mostra que, se estas eleições para prefeito fossem o critério para o cumprimento da cláusula de desempenho dos partidos, em discussão no projeto de reforma política que tramita no Congresso, 26 dos 35 partidos existentes não atenderiam aos requisitos. Assim, 75% das siglas registradas na Justiça Eleitoral perderiam acesso ao Fundo Partidário e ao tempo de rádio e TV, o que, na opinião de analistas, ameaçaria sua sobrevivência. Manteriam, porém, o direito de lançar candidatos.

País se divide entre renovação e reeleição

• Norte e Nordeste têm comportamento oposto a Sul, Sudeste e Centro-Oeste

Silvia Amorim e Tiago Dantas - O Globo

-SÃO PAULO- Dois movimentos políticos antagônicos dividiram o país ao meio ao final das eleições nas 26 capitais. Enquanto um vento de continuidade soprou na parte de cima do Brasil (regiões Norte e Nordeste), uma onda de renovação varreu a parte de baixo (Sul, Sudeste e Centro-Oeste).

A diferença de comportamento dos eleitores nessas duas metades do país ficou nítida no domingo à noite, com a proclamação dos resultados nas 18 capitais que tiveram segundo turno. Em oito cidades, a disputa havia sido definida em 2 de outubro.

Ao reeleger 14 dos 16 prefeitos de capitais, as regiões Norte e Nordeste mantiveram no poder os grupos políticos que haviam vencido as eleições em 2012. As exceções foram Aracaju e Porto Velho.

Já no Sul, Sudeste e CentroOeste, os eleitores de nove das dez capitais optaram por mudança e disseram não à reeleições ou à vitória de indicados dos atuais governantes. Nesse grupo, o único ponto fora da curva é Vitória, onde o prefeito Luciano Cartaxo (PPS) obteve o segundo mandato.

Rio, São Paulo e Belo Horizonte aparecem como maiores expoentes desse movimento de renovação. Mais do que trocar o partido no poder, os eleitores optaram por escolher nomes que assumirão mandatos do Executivo pela primeira vez — Marcelo Crivella (PRB), João Doria (PSDB) e Alexandre Kalil (PHS), respectivamente.

A insatisfação popular pode ter sido uma das razões desse fenômeno. Essas cidades receberam os maiores protestos políticos do último ano. A onda de mudança pôs fim ao domínio de grupos políticos que durava anos, como em Porto Alegre, onde o PSDB venceu pela primeira vez na sua história a disputa municipal.

Já na capital mineira, a influência do grupo dominante foi quebrada por um partido nanico. Além de se favorecer dos movimento de renovação, Kalil surfou na onda antipolítica que também atingiu São Paulo.

NO NORDESTE, MAIS REELEITOS
Com eleitores menos escolarizados e de menor renda do que no restante do país, as regiões Norte e Nordeste podem ter sido mais influenciadas pelo apelo eleitoral do uso da máquina pública. Isso pode ter sido um dos fatores da alta taxa de continuidade verificada nesses locais — 88% dos prefeitos se reelegeram. Ela foi maior do que a taxa nacional de reeleição nas capitais (75%). Em todo o Brasil, dos 20 prefeitos que disputaram a reeleição, 15 venceram. No Sul, Sudeste e Centro-Oeste, apenas um de quatro candidatos ao segundo mandato ganhou a disputa (25%).

Só no Nordeste, oito prefeitos conquistaram mais quatro anos de mandato. Cinco deles anteontem, entre eles Roberto Cláudio (PDT), em Fortaleza. Outras três capitais da região já haviam resolvido a disputa o primeiro turno, como em Salvador, onde ACM Neto (DEM) obteve 77,99% dos votos; Natal, com vitória de Carlos Eduardo Alves (PDT); e Teresina com Firmino Filho (PSDB).

Aracaju foi a única exceção à regra no Nordeste. O atual prefeito da capital sergipana, João Alves (DEM) ficou em terceiro lugar e sequer passou para o segundo turno. Nas eleições de anteontem, Edvaldo Nogueira (PCdoB) derrotou Valadares Filho (PSB) por uma diferença de 1.744 votos.

Na Região Norte, eleitores de três capitais deram mais um mandato para seus prefeitos anteontem (Belém, Manaus e Macapá). No primeiro turno, outros três já haviam confirmado seus mandatos (Palmas, Rio Branco e Boa Vista).

Apenas Porto Velho não seguiu a tendência de continuidade da região e deixou o atual prefeito Mauro Nazif (PSB) fora do segundo turno. A disputa foi vencida por Dr. Hildon (PSDB).

Projeto reforçado - Merval Pereira

- O Globo

Saindo das eleições municipais como o que mais cresceu em número de eleitores entre os dez maiores partidos, conquistando 3,8 milhões de votos para prefeito no 1º turno, um crescimento de 51% em relação a 2012, o Partido Republicano Brasileiro (PRB) viu seu projeto político nacional reforçado pela vitória do bispo licenciado Marcelo Crivella para a prefeitura do Rio de Janeiro.

Em outubro de 2005, a criação do Partido Municipalista Renovador (PMR), hoje Partido Republicano Brasileiro (PRB), foi fruto de manobra do então presidente Lula para se aproximar dos evangélicos através do vice José Alencar, um dos fundadores do partido.

O partido foi criado pelos evangélicos da Igreja Universal do Reino de Deus para substituir a marca PL, manchada pelo escândalo do mensalão que estourara naquele ano. Em poucos dias conseguiram recolher nas igrejas espalhadas pelo país milhares de assinaturas para constituir um partido político, meta que outros, como o PSOL e a Rede, levaram quase um ano para atingir pelos métodos tradicionais.

Amigos hoje, inimigos amanhã - Eliane Cantanhêde

- O Estado de S. Paulo

• PSDB é o grande vitorioso, mas, se Temer der certo, PMDB terá candidato próprio em 2018

O poder primeiro aglutina, depois corrói e a história é recheada de aliados que viraram inimigos, como PT e PSDB, unidos no combate à ditadura militar e adversários viscerais ao longo das muitas campanhas eleitorais e dos muitos governos pós-redemocratização. A pergunta que não quer calar é até quando vai o pacto de governabilidade entre o PMDB, que tem o governo federal, ramificação e ambição, e o PSDB, que foi o maior vitorioso das eleições municipais e é a única presença garantida na eleição para a Presidência em 2018. Esse pacto vai ou não durar até 2018?

O PSDB nasceu em 1988 de uma dissidência do PMDB de Orestes Quércia e nunca deixou de disputar as eleições presidenciais (1989, 1994, 1998, 2002, 2006, 2010 e 2014) com candidato próprio – e competitivo. O PMDB virou uma confederação estadual de partidos, sem protagonismo no Planalto e um fiel da balança entre tucanos e petistas. Ora se tornava importante para os governos do PSDB, ora para os do PT. Para onde ia o PMDB, ia o poder. Ou ao contrário: para onde ia o poder, ia o PMDB.

Tico e Teco - Hélio Schwartsman

- Folha de S. Paulo

A exemplo da economia, a ciência política não é muito confiável na hora de fazer previsões acuradas sobre o futuro. Não é raro que os caprichos da conjuntura se somem às inconstâncias do eleitor para sabotar os mais belos modelos elaborados pelos especialistas. Ainda assim, exatamente como ocorre com a economia, existem alguns princípios muito gerais que atuam na grande maioria dos pleitos.

O algoritmo mais básico usado pelo eleitor é: se a situação está boa, mantenha o governante e seu partido; se está ruim, puna-os. Isso significa que, sempre que houver uma mudança brusca na economia, deve-se esperar um movimento correspondente na política.

Quebra de paradigmas - Luiz Carlos Azedo

- Correio Braziliense

• Num país como o Brasil, de tantas injustiças e desigualdades, valores liberais somados à igualdade de oportunidades podem representar grande avanço

Há uma falsa lógica nas análises de que os eleitores fizeram uma opção conservadora nas eleições municipais, em razão da derrocada eleitoral do PT, na sequência do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Essa lógica mais ou menos reproduz a narrativa petista do golpe, que de certa forma servia de biombo para a legenda se esconder atrás do movimento de esquerda tradicional, no qual orbitam também outras legendas, como o PCdo B e o PSol. Essa lógica reduz a esquerda brasileira ao nacional desenvolvimentismo, ao anti-imperialismo e ao populismo e caracteriza como direita outras forças que sempre desempenharam um papel democrático e progressista no país.

A reforma possível na Previdência - Raymundo Costa

- Valor Econômico

• O governo não ganhou mas o PT perdeu a eleição

A pedido dos governadores de Estado, o presidente Michel Temer deve esperar mais alguns dias para enviar a proposta de reforma da Previdência ao Congresso. Mas a ideia é mandá-la logo. Segundo o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil), os governadores querem fazer algumas sugestões ao texto, "então o presidente está esperando". O Palácio do Planalto não sabe o que os executivos estaduais vão pedir, portanto, não sabe se vai poder atender o que eles querem. Certamente não vai acatar todas as sugestões.

Padilha é o coordenador do grupo de governo encarregado da proposta previdenciária. Conhece como pouco os humores do Congresso. Com a autoridade de quem chegou há mais de 20 anos à Câmara dos Deputados, o ministro da Casa Civil afirma que a proposta de reforma da Previdência Social que o governo vai propor "já está do tamanho possível". Não vai resolver definitivamente o rombo da Previdência, que deve voltar a crescer em oito, dez anos, mas é a possível, neste momento. "Se quiser apertar mais agora, pode inviabilizar".

Agora, reconstruir o País – Editorial / O Estado de S. Paulo

O pleito municipal se encarregou de varrer do mapa o PT e demais facções de “esquerda” que, na falta de competência e credibilidade para propor medidas concretas para tirar o País da crise, vinham apelando para o escapismo irresponsável do “fora Temer”. A partir de agora, sob o risco de em 2018 serem condenados ao mesmo destino que amargam hoje os vendedores de ilusões, os representantes do povo terão que mostrar serviço e interagir positivamente com as outras forças sociais para enfrentar os gravíssimos problemas decorrentes do legado do lulopetismo. E terão que agir levando em conta que a paciência dos brasileiros tem limites, como acaba de ficar claramente demonstrado nas urnas.

O resultado do pleito nas duas maiores cidades do País ajuda a entender o sentimento com que os brasileiros foram, ou não foram, às urnas. No Rio de Janeiro, num universo de 4,9 milhões de eleitores, mais de 1,86 milhão – a soma, em números absolutos, da abstenção com os votos nulos e brancos, que superou o número de sufrágios dados ao candidato vencedor – se recusou a optar por um dos dois candidatos que representavam os extremos do espectro político-ideológico: de um lado o conservadorismo ancorado nos preconceitos do fundamentalismo religioso e de outro o voluntarismo “esquerdista” e “libertário” engajado na luta contra os “inimigos do povo”. Ao negar voto aos dois candidatos, o eleitor carioca deixou claro que repudia o radicalismo político e demonstrou, como ocorreu em maior ou menor medida em todo o País, insatisfação e descrença na política e nos políticos.

Pêndulo brasileiro – Editorial / Folha de S. Paulo

Foi necessário um terremoto como o desencadeado pela Operação Lava Jato para abalar uma das máximas da política brasileira: eleições municipais seguem uma lógica própria, provinciana até, pouco influenciada pelo cenário federal.

Com o resultado do segundo turno em várias das principais cidades do país, completa-se a estrondosa derrocada do PT. O partido que governou o país por 13 anos passou das 644 prefeituras que detinha em 2012 para 254 (-61%).

Não há dúvida de que tal decadência decorre da corrupção revelada nos governos de Lula e Dilma, bem como da crise social resultante de sua política econômica. O eleitorado responsabiliza o PT, com acerto, pelo desastre atual.

Bem mais difícil é delinear quais possam ser os ecos do cataclismo da esquerda no pleito de 2018.

As análises convergem para apontar o avanço da centro-direita, um movimento pendular que se observa em vários países.

Segundo turno consolida troca de forças nos municípios – Editorial / O Globo

• Símbolo da derrota da esquerda, PT é varrido do entorno da cidade de São Paulo, enquanto adversários tucanos têm vitórias de peso e, com o PMDB, fortalecem base de Temer

O turno inicial das eleições municipais esboçara as principais tendências do primeiro pleito realizado depois do impeachment da presidente Dilma, forte tranco no lulopetismo, agravado pelo avanço da Lava-Jato e de outras investigações sobre o ex-presidente Lula, líder supremo do PT. O segundo turno, no domingo, aprofundou a derrota do PT, varrido do entorno da cidade de São Paulo, batizado de “cinturão vermelho” devido à presença quase histórica da legenda nas prefeituras da região. Exemplar punição ao partido pelo eleitorado.

De maneira emblemática, em São Bernardo do Campo, onde Lula nasceu para a política e mora, venceu um candidato tucano, Orlando Morando Junior, na disputa com o representante do PPS, Alex Spinelli. O PT não emplacou representante na decisão das eleições, e verá o prefeito Luiz Marinho, ex-ministro de Lula e que chegou a ser cotado para disputar postos mais altos, passar o cargo ao adversário. No balanço final das eleições municipais, o PT encolheu de maneira vertiginosa: de 638 prefeituras em que venceu em 2012, caiu para 254. Governou para 27 milhões de eleitores, no domingo reduzidos a apenas 4 milhões. O PT foi levado pelos eleitores de volta à dimensão que tinha antes da primeira eleição de Lula presidente, no final de 2002. No conjunto de cidades com mais de 200 mil habitantes, em que podem haver dois turnos, o partido ganhou, e no primeiro, apenas em uma, Rio Branco, capital do Acre, com Marcus Alexandre, reeleito.

Vitória da centro-direita abre espaço para união PSDB-PMDB – Editorial / Valor Econômico

O mapa eleitoral que sai agora das urnas não poderá ser usado à risca nas eleições de 2018, mas é valioso como indicador de tendências. Era esperado que a gestão ruinosa de um governo de esquerda, em um processo tão desgastante como o do impeachment e das investigações da Lava-Jato, movesse amplamente o pêndulo para a centro-direita. A derrota do PT nas eleições municipais foi ampla, geral e quase irrestrita. Nos cinturões operários de São Paulo e tradicional bastião petista, o partido só elegeu um prefeito, em Franco da Rocha. O PSDB ganhou força e poder de gestão sobre 23,4% da população brasileira, sua melhor marca até hoje. O PMDB fez um papelão na capital do Rio, mas não na Baixada Fluminense e venceu em mais cidades acima de 200 mil habitantes do que em 2012.

O xadrez eleitoral é muito mais complexo na disputa presidencial. Como os ventos sopram para a centro-direita, PSDB e PMDB podem tentar, juntos ou separados, a conquista do Palácio do Planalto. O candidato mais bem posicionado no momento é o governador Geraldo Alckmin, que bancou, contra os velhos caciques tucanos, o lance decisivo: ganhar uma eleição em primeiro turno com João Doria. Aécio Neves, seu rival na legenda, perdeu pela segunda vez em dois anos em sua base eleitoral, Minas Gerais - no pleito presidencial contra Dilma e na disputa em Belo Horizonte para um candidato do minúsculo PHS. Alckmin é também o tucano que mantém mais distanciamento do governo Temer.

A música – Charles Baudelaire

A música me arrasta às vezes como o mar!
No encalço de um astro,
Sob um teto de bruma ou dissolvido no ar,
Iço a vela ao mastro;

O peito para frente e os pulmões enfunados
Tal qual uma tela,
Escalo o dorso aos vagalhões entrelaçados
Que a noite me vela;

Sinto que em mim ecoam todas as paixões
De um navio aflito;
O vento, a tempestade e suas convulsões

No abismo infinito
Me embalam. Ou então, mar calmo, espelho austero
De meu desespero!

Marisa Monte - Vilarejo