segunda-feira, 24 de julho de 2023

Sergio Lamucci - O superávit comercial e o trunfo das contas externas

Valor Econômico

O fortalecimento das contas externas ajuda a manter o câmbio mais valorizado e faz os investidores estrangeiros verem o Brasil de modo mais positivo

O saldo da balança comercial brasileira tem crescido com força, contribuindo para reduzir o déficit em conta corrente, que mostra o resultado das transações de bens, serviços e rendas com o exterior. No primeiro semestre, as exportações superaram as importações em US$ 45 bilhões, um superávit 31,5% maior que o da primeira metade de 2022. Com isso, está em curso um fortalecimento adicional das contas externas do país, num momento em que o cenário global é complexo, com juros elevados nos países desenvolvidos e atividade econômica global sem dinamismo.

O superávit tem melhorado significativamente desde 2020, como nota a A.C. Pastore & Associados, a consultoria do ex-presidente do Banco Central (BC) Affonso Celso Pastore. Em 2019, o saldo ficou em US$ 35 bilhões; nos 12 meses até junho deste ano, atingiu US$ 72 bilhões. As exportações de algumas commodities têm garantido os superávits robustos - “quase 40% do valor total embarcado desde 2020 se concentra em três produtos: soja, petróleo e minério de ferro”, aponta a A.C. Pastore.

Depois da festa na Espanha, a ressaca das negociações

Esquerda e direita celebram os resultados, mas socialistas largam na frente na disputa pelo apoio de nacionalistas e nanicos

Por Alessandro Soler / O Globo

A festa de ontem à noite em frente às sedes dos dois principais partidos que disputam o governo espanhol não durou muito. Hoje era dia de madrugar e dar início a negociações que serão duríssimas para ambos os blocos — mas que, no cenário atual, têm mais chances de ser bem-sucedidas para os socialistas.

É verdade que a coalizão de esquerda que governa atualmente teve a soma das suas cadeiras no Congresso reduzida de 158 para 153, bem longe, portanto, das 176 necessárias para continuar no poder. Mas os 169 assentos que conquistaram, juntos, o direitista Partido Popular e a extrema direita do Vox são praticamente tudo o que o bloco conservador tem garantido. Enquanto isso, a colcha de retalhos de partidos nacionalistas de Catalunha, País Basco e Galícia tende a apoiar o bloco de esquerda. O problema é o preço que cobrarão para isso.

— Uma demanda de sempre dos independentistas catalães, por exemplo, é a de que o governo permita a realização de um plebiscito de autodeterminação. Essa exigência poderá ser posta sobre a mesa, como chegou a estar em 2019. Mas (o plebiscito) hoje está fora de questão para o PSOE — disse o analista político Paco Camas.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Decreto de armas é positivo, mas exigirá fiscalização

Valor Econômico

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2023, as armas de fogo seguem sendo o principal instrumento utilizado para matar no Brasil

Conforme prometido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a campanha eleitoral, o governo federal anunciou na sexta-feira a edição de um novo decreto para restringir o acesso a armas e munições no Brasil. A boa notícia, depois do que se convencionou chamar de “liberou geral” promovido pela administração Jair Bolsonaro, era esperada até por quem queria evitá-la. Trata-se, contudo, de uma questão matemática: quanto mais armas e munições em circulação, maior também é a probabilidade de eventos violentos com armas de fogo ocorrerem país afora.

Há alguns números que precisam ser levados em consideração nesta discussão, os quais foram divulgados também na semana passada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Poesia | Fernando Pessoa - Aproveitar o Tempo

 

Música | Roberta Sá - Samba de um minuto

 

domingo, 23 de julho de 2023

Opinião do dia - Antonio Gramsci* (Partido Político)


"Será necessária a ação política (em sentido estrito) para que se possa falar de "partido político"? Pode-se observar que no mundo moderno, em muitos países, os partidos orgânicos e fundamentais, por necessidade de luta ou por alguma outra razão, dividiram-se em frações, cada uma das quais assume o nome de partido e, inclusive, de partido independente. Por isso, muitas vezes o Estado-Maior intelectual do partido orgânico não pertence a nenhuma dessas frações, mas opera como se fosse uma força dirigente em si mesma, superior aos partidos e às vezes reconhecida como tal pelo público. Esta função pode ser estudada com maior precisão se se parte do ponto de vista de que de um jornal (ou um grupo de jornais), uma revista (ou um grupo de revistas) são também "partidos", "frações de partido" ou "funções de determinados partidos",

*Antonio Gramsci(1891-1937), Cadernos do Cárcere, V. 3, p. 349, Civilização Brasileira, 2007

Merval Pereira - Virar a chave

O Globo

Cabe ao governo atenuar a atitude belicosa de alguns de seus ministros, sobretudo o da Justiça Flávio Dino, e ao STF encerrar os inquéritos que estão ativos há anos, punir os responsáveis, e voltar a uma autocontenção que será benéfica à sociedade

O país vive uma espécie de estresse pós-traumático, comum em pessoas (e instituições) caracterizado pela dificuldade de voltar ao normal depois de passar por uma situação extremamente dolorosa. O que nos aconteceu durante o governo Bolsonaro, culminando com a tentativa de golpe de 8 de janeiro, continua guiando nosso sistema político-partidário sem dar descanso, fazendo com que vivamos em constante disputa ideológica que exaure a sociedade.

A agressão sofrida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e sua família no aeroporto de Roma é exemplar desse estado de espírito coletivo. Não é possível convivermos eternamente com esses sobressaltos que impedem que o país se desenvolva socialmente. O ministro Alexandre de Moraes tem se destacado nos últimos anos como o ponta de lança do sistema judiciário no combate às fake news e aos ataques à democracia, e nesse papel, fundamental para barrar os ímpetos golpistas do bolsonarismo, virou alvo preferencial de agressores de todo o tipo.

Não é aceitável o que aconteceu em Roma, e merece punição severa o que descreveu em sua denúncia. Talvez seja esse o momento para darmos uma virada de chave, e entrarmos no modo normalidade. Já superamos momentos críticos na vida nacional recente, quando o impeachment da então presidente Dilma e a prisão do hoje presidente Lula levaram a que petistas radicalizassem a luta política, atacando os que consideravam inimigos em qualquer lugar em que estivessem.

Míriam Leitão - Erros e acertos externos de Lula

O Globo

Presidente já reinseriu o Brasil no mundo, mas brigou sem razão com Boric e erra nas posições sobre Venezuela, Nicarágua e Rússia

O presidente Lula já reinseriu o Brasil no mundo, com ações que começaram antes mesmo da posse. Mas, ao mesmo tempo, coleciona arestas, erros de avaliação e gafes. Na briga da semana passada com o presidente do Chile, Gabriel Boric, Lula não tinha razão alguma. Foi uma agressão gratuita, em que afirmou que Boric era “sequioso”, “apressado” e que não tinha experiência em reuniões internacionais. A resposta do presidente chileno foi elegante. Disse que tinha “respeito infinito” e “muito carinho” por Lula.

Por que divergiram os dois líderes da esquerda latino-americana? Desta vez foi por causa da Rússia. Na mesma semana, a Rússia suspendeu o acordo de exportação de grãos e bombardeou portos ucranianos, numa ação contra o comércio de alimentos que afeta mais diretamente países pobres da África, importadores de milho e trigo da Ucrânia.

Mais uma vez o governo de Vladimir Putin mostra o mal que tem produzido por sua decisão de invadir a Ucrânia e começar esse flagelo. A paz é o sonho de todos, mas quem condena a Rússia, como faz Gabriel Boric, tem mais razão do que quem tem uma atitude ambígua, como a diplomacia brasileira.

Elio Gaspari - Os maganos precisam acabar com as 'farofas'

O Globo

Palestras e participações em congressos no exterior, como fez Moraes em Siena, são ridículas e têm aspecto tóxico

A Corte Suprema dos Estados Unidos tem mais de 200 anos e um só caso de juiz que renunciou com a reputação tisnada. Abe Fortas entrou para a Corte em 1965, depois de ter sido advogado pessoal do presidente Lyndon Johnson. Três anos depois, abriu-se a vaga da presidência do tribunal (lá esse cargo é vitalício) e o amigo resolveu promovê-lo. Os senadores republicanos obstruíram a escolha e balearam Fortas mostrando que ele havia recebido US$ 15 mil por palestras numa universidade. O dinheiro vinha de um fundo irrigado por empresas que tinham processos na Corte. Fortas pediu que a nomeação fosse retirada e continuou no tribunal, até que apareceu outro caso, pior, e ele renunciou.

Se a primeira etapa do caso de Fortas for copiada no Brasil, serão centenas as vagas abertas no Judiciário.

Dorrit Harazim - O elevador

O Globo

Desde a instalação em edifícios residenciais no Brasil, a função primeira do equipamento sempre foi a segregação racial e social

Qualquer vida é uma travessia contínua de fronteiras. Somos todos uma cartografia ambulante. Desde o momento da concepção sem volta — narrada de forma memorável pelo personagem central do romance “O tambor”, de Günter Grass — até nosso enredamento final, do qual também não tem volta. Entre o nascer e o morrer, a sucessão de rupturas nem sempre é percebida. O simples movimento de sair de casa (do privado) para a rua (o público), por exemplo, tão corriqueiro e banal , traz embutido todo um ritual preparatório. Vai de uma checada em alguma luz acesa, o fechar de janela ainda aberta, um apalpar de bolsos, uma espiadela na bolsa para ver se está tudo lá, talvez uma última conferida no espelho. Mas, a cada vez que giramos a chave da porta de saída, deixamos para trás nossa vida interior. E do lado de fora, escreveu Georges Perec em “Espèces d’espaces”, “outras gentes, o mundo, o público, a política. Você não pode simplesmente passar de um a outro espaço; para atravessar a soleira você precisa mostrar suas credenciais, saber se comunicar com o universo exterior”.

Vinicius Torres Freire - O maior benefício social da história

Folha de S. Paulo

Tamanho das transferências diretas de renda é muito maior que sob Lula 1, 2 e Dilma

Lula 3 faz a maior transferência de renda direta da história do governo federal. Dado que a tendência de pagamento de benefícios sociais em dinheiro é de crescimento faz um quarto de século, o recorde não soa surpreendente. Não é bem assim.

De qualquer modo, os números têm certo interesse para especular sobre o prestígio político do presidente e sobre o papel que o Desenrola pode ter na percepção popular do desempenho do governo.

Considerem-se apenas benefícios como Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada (para idosos e pessoas com deficiência muito pobres) e abono salarial. Levam 11,8% da despesa total do governo federal e 2,16% do PIB (nos últimos 12 meses. Até o fim do ano, ainda vai ser mais). É um aumento de 76% em relação ao pico desses gastos nos governos Lula 1 e 2, que ocorreu em agosto de 2010. Ou quase 47% maior que no pico de Dilma Rousseff, em setembro de 2013.

Celso Rocha de Barros* - Lula quer taxar os muito ricos

Folha de S. Paulo

Regime atual da taxação dos fundos exclusivos é aberração evidente

O governo Lula vai tentar cobrar mais impostos dos muito ricos. O Ministério da Fazenda planeja propor novas regras para tributar os fundos exclusivos, um tipo de aplicação financeira para quem tem muitos milhões para investir.

Dá até vergonha explicar isso, mas, pelas regras atuais, os ricos que aplicam no fundo exclusivo "Guedes Totoso" pagam menos impostos que a classe média que, por exemplo, investe no fundo de renda fixa "Merreca DI". Para um resumo das vantagens que isso proporciona aos investidores, sugiro a reportagem de Lucas Bombana publicada na Folha da última quinta-feira.

Bruno Boghossian – A fila para 2026

Folha de S. Paulo

Presidente e aliados evitam discutir reeleição, mas se permitem dar pistas do que pensam

Quando alguém pergunta a Lula e seus aliados o que o PT planeja para 2026, eles gastam metade da resposta com a advertência de que é bobagem falar do assunto tão cedo. Na outra metade do tempo, eles se permitem dar pistas do que pensam.

Há duas semanas, Lula disse ao SBT que "seria uma irresponsabilidade" discutir agora a chance de disputar a reeleição. Em seguida, deixou o juízo de lado e brincou com o caso de Joe Biden, que deve concorrer aos 81 anos: "Isso é um estímulo. Eu sou mais novo do que ele".

Muniz Sodré* - Um torso à vista

Folha de S. Paulo

O corpo exposto deixa ver na barriga o rastro da febre coletiva que o elegeu

Apesar da difícil decifração, terá havido algum sentido de marketing na exposição pública do torso nu do ex-presidente, agora cabo eleitoral. Comparou-se o gesto ao de Putin, mas este se exibiu em aparente boa forma física e, mesmo assim, com um retoque de sombra que atenua a naturalidade imediata da pele. O autocrata russo pretendia provavelmente evidenciar, com certa discrição, marcas de saúde ou de sua alegada capacidade esportiva.

Supõe-se de bom tom político a prova pública da sanidade física de um governante. O mesmo não acontece com a mental, em princípio levada oficialmente na flauta. Dona Maria 1º, rainha do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, louca varrida, batia os braços como se fossem asas de galinha. Já Delfim Moreira, oitavo presidente do Brasil e o único considerado clinicamente louco, era manso, notório por comportamentos descosidos como vestir-se de fraque com condecorações para solenidades que não existiam.

Hélio Schwartsman - A próxima pandemia

Folha de S. Paulo

Livro faz balanço do que não funcionou na Covid-19 e tenta tirar lições para o futuro

As leis da biologia asseguram que vírus e bactérias evoluem em ritmo mais acelerado do que o de seres cujo ciclo reprodutivo é mais longo. E sempre que certos patógenos assumirem formas suficientemente novas para ludibriar nossos sistemas imunes, teremos epidemias. Num mundo em que viajantes atravessam continentes em poucas horas, elas se tornam pandemias. É questão de tempo até que venha a próxima. Devemos tentar nos preparar para ela.

É um pouco o que tenta fazer Monica Gandhi em "Endemic". A autora, que é médica infectologista, especializada em Aids, faz um bom apanhado da Covid-19, explicando didaticamente como o vírus Sars-CoV-2 se transmite, a fisiopatologia da doença e as melhores formas de lidar com ela. E, é claro, ela tem o benefício de recontar essa história com o apoio de três anos de anos de pesquisas maciças sobre a moléstia. Para nós que acompanhamos o processo em tempo real e, portanto, atabalhoadamente, é útil saber o que foi confirmado e o que não foi pelo acúmulo dos estudos. A obrigatoriedade das máscaras, para dar um exemplo, não funcionou bem.

Luiz Carlos Azedo - Papa e Biden recorrem a Lula para negociar com Ortega e Maduro

Correio Braziliense

O presidente Lula mudou o discurso em relação aos presidentes da Venezuela e da Nicarágua, seus amigos das horas mais difíceis, mas que se tornaram verdadeiros ditadores

O título até parece fake news, mas não é. A política internacional é feita de interesses permanentes e conjunturas específicas, que se movem como as nuvens na clássica definição do banqueiro, ex-governador mineiro e ex-chanceler Magalhães Pinto: “Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou”. A visita ao Brasil da subsecretária de Estado dos Estados Unidos, Victoria Nuland, revelou uma mudança de postura do presidente Joe Biden sobre a polêmica atuação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em relação à Venezuela e à Nicarágua, bem como quanto ao esforço do líder brasileiro em participar das negociações de paz na Ucrânia para se projetar como liderança mundial.

O presidente Lula também mudou o discurso em relação aos presidentes da Venezuela, Nicolás Maduro, e da Nicarágua, Daniel Ortega, seus amigos das horas mais difíceis, mas que se tornaram verdadeiros ditadores, após fraudar eleições e excluir os adversários do processo político. O posicionamento de Lula no encontro dos chefes de Estado latino-americanos com os líderes da União Europeia, em Bruxelas, em muita sintonia com o do presidente francês, Emmanuel Macron, foi interpretado como um realinhamento do governo brasileiro pelo Departamento de Estado norte-americano.

Eliane Cantanhêde - Lula e seus fantasmas

O Estado de S. Paulo

Pra que reforçar equipe de redatores, se Lula detesta discursos e só fala o que quer?

Dizem que, com a maturidade, as pessoas “melhoram” e, com a velhice, ficam mais suaves. Sei não... O presidente Lula, por exemplo, está mais arisco, afoito e boquirroto do que nos dois primeiros mandatos e, com a idade, os seus defeitos e convicções, como os nossos, só aprofundam.

Nos governos 1 e 2, o redator dos discursos de Lula era o baiano Carlos Tibúrcio, jornalista, escritor e ex-líder estudantil preso na ditadura. Agora, é o mineiro José Rezende Jr., também jornalista, culto, discreto, com ótimo texto, que vai ganhar reforços, até de uma assessora de Janja. Mas Lula não gostava e continua não gostando de ler discursos. Dá uma espiada e deixa de lado. Na posse do governo 3, pôs os óculos para ler o texto da assessoria, ironizando: “para parecer intelectual”.

Rolf Kuntz - A crise e o metalúrgico

O Estado de S. Paulo

Baixar os juros pode ajudar, mas é preciso algo mais para promover a reindustrialização do País

O metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva poderia estar encrencado, hoje, se ainda precisasse de um emprego industrial. A indústria fechará 2023 com mais um desempenho pífio, produção 0,8% maior que a do ano passado, segundo a nova estimativa do Ministério da Fazenda. Essa projeção supera a de abril (0,5%), mas é bem inferior aos números calculados para os serviços (1,7%) e para a agropecuária (13,2%). O agro tem sido, por vários anos, o setor mais dinâmico da economia brasileira e a fonte mais segura de superávit comercial. É excelente – e invejável, obviamente – dispor de uma grande e competitiva produção de alimentos e de matérias-primas agropecuárias. Mas isso de nenhum modo compensa a degradação de um setor industrial construído em décadas de muito esforço político e de muito investimento.

O governo continua devendo o prometido programa de “neoindustrialização”, até agora materializado apenas em financiamentos oferecidos pelo Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Esses financiamentos serão destinados, segundo se anunciou, principalmente a projetos de modernização da indústria. Mas falta definir o sentido e o alcance dessa transformação, assim como os papéis do governo e do setor privado.

Lourival Sant’Anna - O falso salvador do mundo

O Estado de S. Paulo

Lula embarcou em uma fantasia calcada em premissas moralmente indefensáveis

O forte viés ideológico da política externa do governo Lula cria fraturas na América Latina e inviabiliza o exercício da liderança que naturalmente caberia ao Brasil. A complacência de Lula com as ditaduras russa, venezuelana e nicaraguense, assim como sua repulsa ao livre-comércio e ao Ocidente, anulam o peso da credencial do presidente no que realmente interessa ao mundo quando olha para o Brasil: a proteção ambiental.

O desmatamento da Amazônia foi reduzido em 34% no primeiro semestre deste ano. A conquista confirma as incomparáveis credenciais de Lula e da ministra Marina Silva, que conseguiram reduzir o desmatamento em 84% entre 2004 e 2012, enquanto o PIB do agronegócio crescia espetaculares 75%.

Ricardo Noblat - Pacificar o Brasil passa pela punição dos que atacaram a democracia

Metrópoles

Uma justiça apressada só produz vítimas inocentes

Há dois anos e quase sete meses, o mundo assistiu, estarrecido, ao vivo e a cores como se dizia antigamente, a invasão do prédio do Congresso dos Estados Unidos, incentivada pelo então presidente republicano Donald Trump, derrotado pelo democrata Joe Biden.

Fazia muito frio em Washington naquele 6 de janeiro de 2021. Os católicos celebravam o Dia de Reis, data em que, segundo a tradição cristã, os Três Reis Magos visitaram o recém-nascido Jesus de Nazaré. Trump disse que a eleição lhe fora roubada.

Dali a 14 dias. Biden, o segundo presidente católico do país (o primeiro foi John Kennedy), tomaria posse, e era isso que Trump e seus seguidores brancos da extrema-direita queriam impedir. Fracassaram. Nem por isso a democracia por lá está segura.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Pedido da PGR sobre bolsonaristas deve ser negado

O Globo

Requisição para ter nomes e dados de identificação é inaceitável, inconstitucional e antidemocrática

É injustificável o pedido feito pela Procuradoria-Geral da República (PGR) para que Facebook, Instagram, TikTok e outras plataformas digitais forneçam “nomes e dados de identificação” de seguidores de Jair Bolsonaro, uma devassa inconstitucional que pode atingir 30 milhões de pessoas. Por isso o responsável pelo inquérito, Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), precisa negá-lo.

É legítimo e esperado pela sociedade que a responsabilidade do ex-presidente nos atos golpistas do 8 de Janeiro seja investigada. Porém não há nenhum espaço para qualquer tipo de voluntarismo na execução dessa tarefa. A Constituição, que prestigia de forma tão explícita a democracia e o Estado Democrático de Direito, precisa ser sempre o guia das instituições.

Na tentativa de justificar o injustificável, a PGR divulgou nota. Começou dizendo o óbvio: os seguidores de Bolsonaro nas redes sociais não estão sendo investigados. Mas, em seguida, perdeu a linha ao afirmar que o objetivo do pedido era “obter informações que permitam avaliar o conteúdo e a dimensão alcançada pelas publicações do ex-presidente em relação aos fatos ocorridos em 8 de janeiro, nas redes sociais”. O trecho ignora flagrantemente a existência de empresas privadas especializadas em analisar mensagens postadas e audiência.

Poesia | Memória - (Carlos Drummond de Andrade)

 

Música | Maria Bethânia - Eu não existo sem você

 

sábado, 22 de julho de 2023

Marco Aurélio Nogueira* - A democracia e seu equilíbrio

O Estado de S. Paulo

Na falta dele, crises se sucedem sem solução, criando condições para a emergência de lideranças autoritárias, salvadores da pátria, tida como ameaçada

Não é difícil entender por que a democracia corre riscos. Nossa época é de transição. Estão a mudar o modo de produção, a organização do trabalho, os empregos, as formas de comunicação. Algumas mudanças já se sedimentaram, como no terreno da produção e circulação de informações, turbinadas pelas redes e pelas modalidades várias de autocomunicação de massas. A vida social sofre os espasmos dessas modificações: se desorganiza, se fragmenta, converte-se num território de indivíduos soltos que problematizam a participação política e despejam demandas no espaço público, exigindo sempre mais investimentos e direitos.

Como regime, a democracia está hoje submetida à desconfiança dos cidadãos, insatisfeitos com as respostas que obtêm dos governos. Está, também, sendo maltratada pelas correntes de extrema direita, que a violentam e a descaracterizam, e pelos populistas de variados tipos, que pouco se preocupam com fortalecê-la e protegê-la, ávidos que são pelos aplausos das multidões. Os grandes interesses econômicos, por sua vez, além de explorar a população, buscam manipular os institutos democráticos. Os personagens centrais da democracia representativa – os partidos, os parlamentares, os governantes – nem sempre vão além de proclamações em favor da democracia, deixando de adotar medidas que a blindem contra os ataques dos que a desprezam e a façam funcionar de maneira efetiva.

Pablo Ortellado - Direita nos EUA planeja aparelhar o Estado

O Globo

Trump quer pôr fim à autonomia das agências regulatórias

Uma fundação conservadora americana, a Heritage, lançou um ambicioso e perigoso projeto com propostas para o candidato republicano que vencer as eleições presidenciais de 2024. A iniciativa é fruto do trabalho conjunto de centenas de acadêmicos, especialistas e ONGs conservadoras e foi chamada de Projeto de Transição Presidencial 2025, ou simplesmente Projeto 2025. Os dois principais pré-candidatos do partido, o ex-presidente Donald Trump e o governador da Flórida, Ron DeSantis, sinalizaram que o abraçarão.

Sob o pretexto de “resgatar a autoridade presidencial”, que teria sido corroída pelo “Estado administrativo”, o Projeto 2025 planeja aparelhar o Estado americano, retirando a autonomia de agências regulatórias e demitindo funcionários com simpatias pela esquerda, substituindo-os por servidores com valores conservadores arraigados, leais ao novo presidente. O projeto lembra o que foi feito por autocratas como Hugo Chávez, na Venezuela, e Viktor Orbán, na Hungria.

Eduardo Affonso - Como se perdem as causas

O Globo

Autodeclarados antifascistas se valem de métodos clássicos do fascismo. Desumanizam os adversários

O pior que pode acontecer a uma causa justa é cair em mãos erradas. E, no entanto, nada mais comum do que raposas se voluntariarem, desinteressadamente, para tomar conta de galinheiros.

Não há bem maior para a sociedade do que o cidadão de bem. É aquela pessoa honesta, com princípios éticos, cumpridora dos seus deveres. Mas repare em quem levanta a bandeira da defesa dessa brava gente: há grandes chances de encontrar, como na nossa História recente, alguém ligado a esquemas de corrupção, apologia da violência, desdém pelo próximo.

Alvaro Gribel - Autonomia do BC fortalece diretores

O Globo

Com mandatos fixos de quatro anos, diretores do Banco Central terão mais autonomia para tomar decisões e expressar opinião

A autonomia do Banco Central, ao mesmo tempo em que fortalece a instituição, enfraquece a presidência do órgão. E isso é uma boa notícia. Agora, todos os diretores do Banco também têm mandatos fixos de quatro anos e não podem ser retirados do cargo. Por isso, cada um deles terá — além da autonomia de voto nas reuniões do Copom — o direito de se comunicar como bem entender, sem a necessidade de aprovação de qualquer assessoria vinculada ao órgão, muito menos do próprio presidente.

A confusão provocada esta semana em torno de um suposto documento interno que teria tentado instituir uma “lei da mordaça” sobre os diretores — negado pelo Banco Central — teve um efeito líquido positivo e educativo para o país. A nota encaminhada pelo próprio Banco, intitulada “Esclarecimentos sobre a Política de Comunicação do Banco Central do Brasil” na noite de quarta-feira, oficializou o que já era óbvio: “Todo dirigente do BC tem pleno direito de expressar livremente suas opiniões nos canais que considerar adequados, sem necessidade de quaisquer autorização ou aprovação prévias.”

Demétrio Magnoli - Sinal verde para o PT

Folha de S. Paulo

Declaração contra ditadura venezuelana desinterdita opinião democrática dentro da sigla

A ditadura de Maduro sofreu, em Bruxelas, sua mais dura derrota diplomática. A declaração conjunta que apela por "eleições justas, transparentes e inclusivas, que permitam a participação de todos que desejem, com acompanhamento internacional" é o contrário do pleito farsesco preparado pelo regime venezuelano, que inabilitou os três principais líderes oposicionistas e anunciou um veto à presença de observadores europeus. Brasil, Argentina e Colômbia, governados pela esquerda, assinaram o texto ao lado da França e da União Europeia.

A iniciativa abre uma via para a eliminação das sanções à Venezuela e, ao mesmo tempo, traça o roteiro de uma transição pacífica rumo à democracia. Pode não dar em nada: Maduro sabe que, inapelavelmente, seria batido em eleições livres e justas. Contudo, mesmo nessa hipótese, a declaração tem seu valor, pois assinala uma reviravolta radical na posição brasileira –e, com ela, uma desinterdição da opinião democrática dentro do PT.

Dora Kramer - Gato escaldado

Folha de S. Paulo

Recondução de Aras à PGR atenderia ao governo em prejuízo da defesa da sociedade

A simples dúvida sobre a possibilidade de recondução de Augusto Aras à chefia da Procuradoria-Geral da República causa espanto e suscita polêmica. Mais espantoso e polêmico, contudo, é o presidente Luiz Inácio da Silva não descartar de pronto a hipótese.

Por mais improvável que seu entorno palaciano diga que seja tal escolha, Lula deixa prosperarem os questionamentos a respeito como quem maneja um balão de ensaio. Não impõe um reparo sequer aos elogios de petistas importantes à trajetória e à conduta do procurador.

Afirma que conversará "com todos", inclusive com Aras, para se decidir sem pressa nem submissão a pressões, confirmando que não levará em conta a lista tríplice da associação nacional dos procuradores.

Hélio Schwartsman - Tolerar os intolerantes?

Folha de S. Paulo

Paradoxo da tolerância, proposto por Karl Popper, costuma ser citado fora de contexto

Terminei a coluna anterior enaltecendo a tolerância, e alguns leitores me recriminaram por não ter levado em conta o paradoxo da tolerância. A referência aqui é ao filósofo Karl Popper, que escreveu: "Tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos tolerância ilimitada até mesmo para aqueles que são intolerantes, se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante contra a investida dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos, e a tolerância junto com eles".

Alvaro Costa e Silva - Inimigo nº 1 do bolsonarismo

Folha de S. Paulo

Ataque a Alexandre de Moraes é padrão da civilidade brasileira

Dono de um ouvido absoluto para descobrir os segredos mais escondidos da música popular, Ivan Lessa detestava assobios. Melhor dizendo, ele detestava o assobiador inconveniente, mesmo que o sujeito conseguisse reproduzir, soprando ar entre os lábios em bico, a beleza de um choro de Pixinguinha ou de um samba de Ary Barroso.

"Aquele camaradinha que gostava de assobiar e assoviar na intimidade forçada e sem graça das pessoas estranhas reunidas pelo maldito acaso num elevador. Esse tipo, além do mais, se fazia acompanhar batucando na parede sonora de um Otis ou Schindler. Nós outros não tínhamos como assassiná-lo. Ou seria eu apenas que não tinha?", escreveu Ivan numa crônica cruel.

Claudia Costin - Vale a pena robotizar os alunos?

Folha de S. Paulo

Não é domesticando jovens que os prepararemos para desafios do século 21

Quando trabalhava como diretora global de educação no Banco Mundial, fui informada de um pedido da Coreia do Sul. Queriam repensar sua educação para promover mais criatividade.

Era nos idos de 2014 e, embora já se falasse de inteligência artificial, estávamos longe de ferramentas como o ChatGPT. Mas, no ano seguinte, Martin Ford publicou um livro alertando o mundo sobre o que viveríamos nos próximos anos com a revolução digital e seu impacto no mundo do trabalho e na educação. O nome era sugestivo: "The Rise of the Robots" ("A Ascensão dos Robôs", em tradução livre). Referia-se ao advento da inteligência artificial.

Segundo Ford, os robôs não seriam capazes de criatividade ou de resolução colaborativa de problemas complexos, competência vital para o século 21. Por isso achei tão interessante a preocupação dos coreanos. Afinal, em tempos em que inúmeros postos de trabalho estavam sendo extintos, dada a acelerada automação, fortalecer nos alunos aquilo que nos torna especificamente humanos seria primordial.

Cristovam Buarque - A ideologia do descaso

Revista Veja

O fim das escolas cívico-militares não resolve todos os problemas

As escolas cívico-militares não surgiram apenas do desejo militarista de governo recente, elas respondem ao fracasso histórico da educação de base no Brasil. Apesar das deformações pedagógicas que carregam para a formação dos alunos, se apresentam como alternativa a um sistema escolar sem qualidade, ineficiente e injusto. Não seria uma proposta imaginada se o sistema tradicional oferecesse aulas no horário certo, sem paralisações, nem violências, com bom funcionamento, respeito e reconhecimento aos professores, manutenção eficiente, banheiros limpos, e os alunos sentindo aprender para o futuro. A militarização da gestão pode limitar o espírito crítico necessário em uma boa formação, mas o que se ouve de alguns dos pais é que nessas escolas “pelo menos nossos filhos têm aulas regularmente”.

João Gabriel de Lima* - O calor espanhol e o xadrez europeu

O Estado de S. Paulo

Numa campanha marcada por ‘fake news’, joga-se não apenas o destino de um país

As eleições espanholas serão amanhã, e o país ferve com a temperatura do pleito, tórrida como os termômetros de Madri. Numa campanha marcada por teorias conspiratórias e “fake news”, joga-se não apenas o destino de um país, mas também um lance fundamental para o xadrez político do continente.

“É preciso olhar para a situação da União Europeia como um todo, ainda mais quando pensamos nas eleições para o Parlamento Europeu no ano que vem”, diz o jornalista Miguel González, do diário El País. Ele é autor de um livro de referência sobre o Vox, partido da direita radical espanhola, e é entrevistado no minipodcast da semana.

Fareed Zakaria* - A ameaça do populismo de direita

O Estado de S. Paulo

Economia e mentalidade anti-imigração explicam ascensão de radicais na Europa

À medida que pressões migratórias aumentam, retórica da direita fica cada vez mais virulenta

Quando converso com as pessoas sobre o populismo de direita atualmente, percebo que muita gente tende a achar que isso é coisa do passado. Líderes populistas capturaram a atenção do mundo, em 2016, com o referendo do Brexit e posteriormente naquele mesmo ano com a vitória eleitoral de Donald Trump.

Agora, sete anos depois, muito parecem sentir que o tempo do populismo de direita passou. Trump foi derrotado, em 2020, e responde a indiciamento na Justiça. O Brexit tem se revelado um fracasso e causado confusão – a maioria dos britânicos agora se arrepende de sua aprovação. Mas, mesmo que seja verdadeiro que alguns heróis e causas populistas se desgastaram, o apelo central de seu movimento persiste e, na realidade, tem ganhado terreno nos meses recentes.

Marcus Pestana* - Muito ajuda quem não atrapalha

Minha mãe sempre repetia esta frase quando alguém de nós, melhor fosse a intenção, atrapalhasse, ao invés de ajudar. Digo isso pensando no papel do Estado brasileiro em alguns momentos de nossas sucessivas crises pós 1979.

Nas últimas três semanas, levantamos uma série de hipóteses não excludentes para fundamentar a discussão sobre as causas da perda do dinamismo exuberante da economia nos últimos 42 anos.

Hoje concluímos a série, acrescentando mais dois vetores explicativos: o “Custo Brasil” e a instabilidade política, institucional, legal, regulatória e contratual.

O Estado brasileiro orquestrou o processo de industrialização, diferentemente das experiências de Inglaterra e EUA, onde a sociedade e o mercado eram os protagonistas, secundados pela ação governamental. Aqui, todas as ferramentas disponíveis (crédito, câmbio, tarifas, impostos, investimentos públicos, preços estatais, subsídios, diplomacia, etc.) foram intensamente acionadas para gerar externalidades positivas ao processo de acumulação capitalista.

IEPfD | O Estado Diante da Globalização e da Revolução Tecnológica – Seminário 3

 

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

É acertada a restrição a armas e munições

O Globo

Pacote de segurança cumpre várias promessas de campanha, mas arsenal existente ainda preocupa

O pacote de segurança anunciado ontem pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva é coerente com os discursos de campanha — em que prometeu acabar com a farra das armas perpetrada durante a gestão Jair Bolsonaro — e com a realidade de um país que registrou no ano passado 47.508 mortes violentas, a grande maioria por armas de fogo. A maior restrição a compra, posse e porte de armas era o que se esperava do atual governo.

Por mais que desagrade à bancada da bala, aos clubes de tiro, ao grupo de Colecionadores, Atiradores Desportivos e Caçadores (CACs) e aos incentivadores do armamentismo, é acertada a decisão de proibir a compra de pistolas 9mm, .40 e .45 ACP por cidadãos comuns — elas estarão liberadas para forças de segurança. Sempre foram restritas, até Bolsonaro instituir o nefasto “liberou geral”. Não há motivo para civis terem esse tipo de arma. A medida gerou impasse entre o ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, favorável à restrição, e o ministro da Defesa, José Múcio, que defendia a liberação. Felizmente, prevaleceu o bom senso. Essas armas altamente letais têm a capacidade de atravessar o corpo de uma pessoa e atingir uma outra. Lamentavelmente, quem já as possui poderá permanecer com elas.

Poesia | Pablo Neruda - Perdão se pelos meus olhos

 

Música | Leandro Costa e Moacyr Luz - Samba de Fato