segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Maria Cristina Fernandes - Consenso pelos dois Estados sairá fortalecido da guerra

Valor Econômico 

“Não vamos partir.” Quando o presidente da Autoridade Palestina, Mahamoud Abbas, concluiu sua fala sobre o futuro do conflito, já estava claro que o encontro do último sábado, no Cairo, reunindo chefes de Estado e chanceleres do mundo árabe, da Europa e do Brasil seria tão inconclusivo quanto têm sido as reuniões do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Ao longo dos discursos daquele fórum, porém, assim como naqueles da ONU, a única unanimidade que parece emergir é a de que, findo o conflito, a tese dos dois Estados, Israel e Palestina, ressurgirá. O tema é tão antigo quanto a criação do Estado de Israel, mas foi supressão que levou ao conflito.

A solução dos dois Estados foi marginalizada pela vitória do Hamas sobre o Fatah, com a ajuda do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, pela ocupação israelense da Cisjordânia, que dificultou a unidade territorial dos palestinos, e pelos acordos que aproximaram os países árabes de Israel, marginalizando a questão palestina.

Bruno Carazza* - A reforma, os senadores e seus lobbies

Valor Econômico

Votação da reforma tributária no Senado virou um leilão de benefícios para setores empresariais

Num episódio shakespeareano de nossa história, Fernando Collor, primeiro presidente da República eleito após a ditadura, foi acusado de patrocinar um imenso esquema de corrupção envolvendo o pagamento de propinas para a concessão de benesses de toda ordem em estatais, ministérios e outros órgãos públicos.

A denúncia - e aqui surge seu lance mais surreal - partiu do seu próprio irmão, Pedro, que, motivado por divergências quanto aos negócios da família e um misto de fatores psicológicos que vão de traumas de infância a ciúmes, procura a revista de maior circulação nacional para contar tudo o que sabia sobre o caso. A história, contada de modo eletrizante por Évelin Argenta no podcast Collor vs Collor, inaugura uma sequência de escândalos que expuseram as íntimas relações entre dinheiro, eleições e poder no Brasil.

Alex Ribeiro - Déficit fiscal americano cria risco a corte da Selic

Valor Econômico

Dados de curto prazo melhoraram, mas risco persiste

Não é só o Brasil que está com as contas públicas fora de lugar. Os déficits fiscais nos Estados Unidos colocam riscos importantes para o ciclo de cortes da taxa básica de juros, a Selic, conduzido pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central.

O grande receio é que, para cobrir o buraco no seu orçamento, o Tesouro americano passe a absorver, como uma esponja, uma parcela importante dos recursos que circulam pelo mundo - deixando menos dinheiro para financiar os emergentes, como o Brasil.

É o que presidente do BC, Roberto Campos Neto, chamou recentemente de “crowding out”. “Esse aperto de liquidez pode se dar a partir do segundo trimestre do ano que vem”, disse, em um evento do banco Credit Suisse. Ou seja, a incerteza sobre os juros longos americanos poderá se prolongar por um bom tempo.

Argentina: eleição para presidente vai para 2º turno entre Massa e Milei

Por Marina Guimarães — Para o Valor Econômico, de Buenos Aires

Os argentinos foram às urnas neste domingo (22) e os resultados oficiais indicam para a realização de um segundo turno, previsto para 19 de novembro, entre o atual ministro da Economia, Sergio Massa, de centro-esquerda e que teve 36% dos votos, e o candidato de extrema direita Javier Milei, que liderava as pesquisas, mas recebeu 30%.

A ex-ministra Patricia Bullrich, terceira força eleitoral e candidata de centro-direita, obteve 26% dos votos, segundo os dados da Câmara Nacional Eleitoral (CNE), que até às 21h45 de domingo tinha apurado mais de 81% dos votos.

Ainda à noite na Argentina, Milei e Massa fizeram discursos a apoiadores. Milei acenou pedindo apoio ao campo não kirchnerista para o segundo turno. Já Massa dirigiu o discurso aos eleitores de Milei pedindo-lhes que mudem de opinião em prol da democracia.

Primárias na Venezuela indicam disputa incerta entre Maduro e Corina

Folha de S. Paulo

Opositora é favorita no lado contrário ao regime, mas foi inabilitada pela ditadura; votação ocorre com problemas logísticos

Os venezuelanos votaram neste domingo (22) para decidir quem será o único candidato a disputar as eleições de 2024 contra o ditador do país, Nicolás Maduro, no poder há dez anos.

Favorita nas pesquisas das primárias, María Corina Machado, 56, que está na ala mais radical da oposição, é apontada como vitoriosa pela apuração inicial das urnas. Ela é engenheira industrial e ex-deputada.

Mas Corina está inabilitada para exercer cargos públicos por 15 anos. Esse fator a impediria de registrar sua candidatura no próximo ano.

A votação começou às 8h no horário local (9h em Brasília), mas vários dos mais de 3.000 centros de votação atrasaram. Segundo especialistas consultados pela agência de notícias AFP, cerca de 1,5 milhão de pessoas participaram do pleito. As urnas foram fechadas no início da noite, quando começou a apuração.

Sylvia Colombo - Eleição argentina é a mais tensa e histórica das últimas duas décadas

Folha de S. Paulo

Massa e Milei vão ao 2º turno e começam jogo completamente diferente

"Os peronistas somos como os gatos. Parece que estamos brigando, mas, na verdade, estamos nos reproduzindo". A frase atribuída ao próprio general Juan Domingo Perón (1895-1974) volta a ganhar atualidade.

O candidato peronista, Sergio Massa, obteve uma votação surpreendente neste domingo (22) e passa para o segundo turno à frente de Javier Milei.

Assim, mostra que, mesmo com tantas diferenças internas dentro da aliança União pela Pátria, foi possível que seu representante superasse a média da base de votos da qual o peronismo sempre parte na maioria das eleições, a de 30%.

Horas antes, a vice-presidente Cristina Kirchner havia dito que não tinha "nada a ver com essa eleição", ou seja, que acreditava que Massa estava derrotado. E mais, se desligou de Alberto Fernández, "eu sou apenas a presidente do Senado, o presidente é ele".

Pois, não muito tempo depois, a esquina de Corrientes e Dorrego, usual ponto de encontro dos peronistas nos últimos anos, estava lotada de apoiadores de Massa, batendo bumbo, cantando e festejando a boa votação dos peronistas.

Vinicius Torres Freire - Argentina evita 'polarização' e medo da dor da mudança deve definir eleição

Folha de S. Paulo

Um terço do eleitorado nem é Massa nem Milei; pânicos marcam economia e política

Os argentinos até agora rejeitaram uma "polarização à brasileira". Deram mais votos ao candidato e economista-mor de um governo fracassado. Além dos finalistas Sergio Massa e Javier Milei, os demais candidatos tiveram um terço dos votos.

Pelas pesquisas da semana passada, Milei venceria Massa no segundo turno; na urna, o anarcodireitista teve menos voto agora do que nas primárias, em 14 de agosto.

Superinflação, pobreza, desesperança e pânicos à parte, 36% dos argentinos votaram no candidato do governo, do peronismo kirchnerista, ainda que o "mais liberal" deles, Sergio Massa. Resta saber se o medo de um governo do autodenominado anarcocapitalista e queridinho da extrema direita Javier Milei é maior do que o receio de continuísmo, mesmo que mitigado, com Massa.

Se o programa de Milei é um mergulho no escuro com uma camisa de força, o continuísmo é uma clara caminhada para o abismo. A administração do medo, das "expectativas", deve ter peso decisivo no segundo turno.

Antonio Carlos Souza de Carvalho* - O sindicalismo e a democracia

Folha de S. Paulo

Garantir o financiamento da estrutura sindical é garantir a democracia

Os sindicatos são uma instituição da democracia, e assim devem ser tratados. Está em desenvolvimento uma proposta de criação de contribuições a serem aprovadas em assembleias dos trabalhadores de cada categoria, no contexto da aprovação de seus acordos coletivos e isso não é a retomada do imposto sindical.

O imposto sindical, eliminado pela reforma trabalhista, consistia em um desconto obrigatório feito em folha de pagamento, em valor arbitrado pela lei, repassado automaticamente para as entidades sindicais. O mecanismo foi uma criação nada democrática da Era Vargas que tinha como objetivo controlar o financiamento dos sindicatos para que a própria estrutura de representação dos trabalhadores fosse controlada pelo Estado.

Ao longo dos anos, a imposição desse modelo de financiamento foi responsável por sustentar sindicatos com baixo grau de representatividade e transparência com a efetivação desses recursos que acabaram por contribuir com um abalo considerável na legitimidade do sindicalismo. No entanto, esses mesmos anos assistiram um aprofundamento de crises políticas que abalaram a democracia em diversos países do mundo.

Marcus André Melo - A Argentina na encruzilhada

Folha de S. Paulo

A ascensão de um libertário mostra que o ciclo histórico do Peronismo se esgotou

A eleição presidencial argentina aponta para uma provável derrota do governo e vitória de um outsider no segundo turno. Em um quadro de gravíssimo surto inflacionário, o candidato governista é o ministro da economia. Pepe Mujica, ex-presidente uruguaio, reagiu: "Uma coisa dessas só se explica porque a Argentina é indecifrável; por uma mitologia, o peronismo".

A eleição é marcada pela expectativa de uma espetacular crise financeira na esteira de um processo de erosão institucional de longa duração. E sim, o peronismo é indissociável dela. Como mostrei aqui na coluna.

Mas a esperada derrota é também consistente com o padrão observado na América Latina. O "risco" de ser governo aumentou na região. De 2015 a 2023, a oposição ganhou 79,3% dos pleitos; de 2003 a 2014, venceu apenas 44% deles, segundo Gerardo Munck. Um viés pró-incumbente é o esperado. Governantes abusam da máquina de governo nas eleições. O boom de commodities e a Covid (e a inflação global atual) alteraram o padrão: beneficiando e punindo incumbentes, respectivamente.

Denis Lerrer Rosenfield* - Hamas

O Estado de S. Paulo

Desinformação propagada por Lula, PT e seus satélites exige uma espécie de pequeno dicionário para analisar a junção entre a ideologia e a estupidez humana

A desinformação propagada pelo governo Lula, pelo PT e por seus satélites, como PSOL, PCdoB e MST, exige que se faça o esclarecimento do significado de certas palavras, sob pena de afundarmos no abismo moral. Exigiria, mesmo, uma espécie de pequeno dicionário, voltado para a análise da junção entre a ideologia e a estupidez humana. As palavras perdem o seu significado e são substituídas pela irrupção disfarçada da maldade.

Terror.

O ataque do Hamas a Israel foi um ato inequívoco de terror. Visados foram bebês, trucidados e queimados, crianças assassinadas na frente de seus pais e vice-versa, sequestros de crianças levadas para Gaza, idosos e mulheres feitos reféns, jovens assassinados numa festa rave no sul do país e assim por diante. Tais atos se inscrevem na história humana da maldade, cujos antecedentes recentes são o Isis (Estado Islâmico) e as ações nazistas conduzidas pela SS. Himmler ficaria orgulhoso de seus herdeiros e simpatizantes de esquerda.

Felipe Freller* - Raymond Aron* recusou panaceia de livre mercado e buscou liberalismo político

Ilustríssima / Folha de S. Paulo

Sociólogo francês criticava esquerda intelectual por justificar crimes em nome dos mitos de revolução e de sociedade perfeita

Em 17 de outubro de 1983, morria o filósofo e sociólogo francês Raymond Aron (1905-1983), um dos principais pensadores liberais do século 20. Quarenta anos depois, sua obra permanece importante para a teoria política, a filosofia da história, a sociologia e a teoria das relações internacionais, mas seu nome parece, estranhamente, distante dos principais movimentos intelectuais e políticos que reivindicam o liberalismo. Algo a se lamentar e a se buscar compreender.

Várias vertentes do liberalismo floresceram nesses últimos 40 anos. O que se pode apontar em quase todas, contudo, é uma dificuldade em lidar com o fenômeno político. A crise do socialismo e da social-democracia conferiu um novo impulso às teses do livre mercado, pregadas, muitas vezes, de modo fundamentalista, como se o mercado pudesse se tornar um modelo de toda a sociedade.

A onda democrática do final do século 20, seguida pela globalização, levou a uma nova valorização das liberdades individuais e do Estado de Direito, fazendo frequentemente a dimensão jurídica e constitucional da democracia adquirir preeminência sobre sua dimensão propriamente política.

Cacá Diegues - Guerra contra todos

O Globo

Hoje vemos, que Biden não era muito melhor que Trump. Será que não podemos ter esperança no futuro do planeta?

O mundo responsável segue preocupado com o ataque do Hamas ao sítio israelense e à resposta dos atacados. Os mortos já passam de 5 mil mil cidadãos, cidadãs e crianças. A cidade de Gaza e o resto da Faixa de Gaza já estão quase totalmente destruídos, como não podia deixar de ser. Só vemos fotos na imprensa onde tudo se encontra em restos de paredes e estruturas pelo chão.

No meio da tragédia somos informados de que os palestinos libertaram duas pessoas sequestradas por razões humanitárias. Estão livres, podem voltar para o seio da família, o contrário do que os sequestradores anunciavam quando começaram a entrar em ação.

Ótimo. Claro que nos sentimos solidários à alegria da dupla, que aplaudimos a decisão dos sequestradores. Mas de onde vem essa decisão? O que ela significa? A que ela nos leva? Que brincadeira é essa com os nossos corações?

Entrevista: Henry Laurens: ‘Há um abismo de ódio entre os povos, e nem de longe há uma porta de saída’

Por André Fontenelle (Especial para O GLOBO — Paris)

Professor de História Contemporânea do Mundo Árabe no Collège de France, onde Lévi-Strauss e Foucalt lecionaram, afirma que único ‘consolo’ da situação atual é a volta do debate sobre a situação palestina

No prestigioso Collège de France, mais tradicional instituição acadêmica de Paris, que já teve entre seus professores Claude Lévi-Strauss, Roland Barthes e Michel Foucault, Henry Laurens é titular há duas décadas da cadeira de História Contemporânea do Mundo Árabe. O professor de 69 anos, autor do livro “La Paix Impossible” (“A paz impossível”, editora Fayard, 2015), disse ao GLOBO nunca ter estado tão pessimista em relação ao conflito. O único “consolo”, segundo ele, é a volta da discussão de uma solução para a população palestina. A porta de saída para o conflito entre israelenses e palestinos, porém, está distante, porque existe “um abismo de ódio” entre os dois lados.

Qual a sua reflexão em relação aos acontecimentos das duas últimas semanas?

Como historiador, me faz pensar em primeiro lugar nas guerras de 1948 e 1967. Em 1948 por causa das atrocidades cometidas nos kibutzim, e na cidade de Sderot, que correspondem a terras confiscadas dos habitantes árabes em 1948 e 1949 — o que não justifica de modo algum as atrocidades cometidas. E 1967 porque remete ao fato de que a chamada Guerra dos Seis Dias supostamente resolveria tudo, levaria a uma paz duradoura e a excelentes relações entre árabes e israelenses. Isso mostra um fracasso total.

Como evitar a escalada?

A paz está distante há uns 15 anos. A última negociação séria foi por volta de 2008. O pensamento estratégico do conjunto dos países ocidentais, dos EUA, foi mais ou menos o seguinte: reduzir os palestinos a uma violência de baixa intensidade; fazer a paz entre Israel e os estados árabes, escanteando os palestinos; e aqueles que falassem da Palestina eram os chatos fora da ordem do dia. Hoje a Palestina voltou à ordem do dia, mas há um penhasco, um abismo de ódio entre os dois povos.

Poesia | "Ode ao burguês" - Mario de Andrade

 

Música | Sinfónica Nacional Infantil de Venezuela - Fuga Con Pajarillo

 

domingo, 22 de outubro de 2023

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Argentina sob Milei trará risco para o Brasil

O Globo

Força brasileira no mundo depende da estabilidade regional, ameaçada pelo favorito a chegar à Casa Rosada

Uma Argentina em apuros será sempre sinônimo de problema para o Brasil. Os vizinhos são nosso terceiro maior parceiro comercial e principal sócio no Mercosul. Os dois países dividem 1.260 quilômetros de fronteira. Dezenas de milhares de brasileiros vivem lá, dezenas de milhares de argentinos aqui. Laços históricos nos unem. Na geopolítica, a força do Brasil depende da estabilidade da região que lidera. Por isso a eleição presidencial de hoje é a mais preocupante em décadas. O favorito é Javier Milei, do partido A Liberdade Avança, um populista que se define como libertário. Não está descartada a hipótese de que ganhe no primeiro turno.

Luiz Sérgio Henriques* - A política democrática desafia a irrazão

O Estado de S. Paulo

À democracia e aos direitos humanos devem estar submetidas as identidades enrijecidas e extremadas

Pelo que se diz, os antigos soviéticos não foram os únicos adeptos do whataboutism, a técnica de escapar de problemas incômodos embaraçando o oponente com suas próprias contradições, reais ou supostas, mas terão sido mestres nesta arte sofística. A URSS era acusada de não respeitar as liberdades ditas negativas, a autonomia do indivíduo diante da máquina do Estado? O whataboutism consistia em esquivar-se de qualquer resposta concreta e perguntar agressivamente pelas liberdades positivas, as que reforçam o indivíduo social e economicamente, alegadamente em falta nas sociedades ocidentais. O resultado era um interminável diálogo de surdos, que encapsulava de propósito cada participante na sua trincheira e tornava remota, ou nula, a possibilidade de entendimento.

O conflito entre Israel e Palestina traz em si muito desta predisposição ao não diálogo, como se, por exemplo, antes da Nakba, a diáspora palestina de 1948, não pudesse ter havido o Holocausto ou como se admitir que uma das catástrofes equivalesse a cancelar a outra. Perde-se, assim, a ideia da complexidade inerente aos fatos da História, realisticamente sublinhada por um intelectual do peso de Yuval Noah Harari: por mais dolorosa que seja a constatação, uma nação pode ser ao longo do tempo vítima e algoz, perseguida e perseguidora.

Dorrit Harazim - Com olhos em Gaza

O Globo

Guerras não são uma aberração. Apenas expõem um lado da natureza humana mascarado por convenções de civilidade

O mundo está doente, sem muito onde esconder esta dor cortante que se chama guerra. Ela, a guerra dos tempos atuais, gosta de se exibir, de se mostrar na tela de qualquer celular. Ela adentra agora a terceira semana de uma escalada de matanças iniciada pelo grupo terrorista Hamas e respondida por Israel com punição coletiva máxima à vida em Gaza. Esse horror poderia ser pior? Sim, e muito — tanto para nossos compatriotas como para o resto do mundo. Basta imaginar o Brasil e os Estados Unidos ainda em mãos de Jair Bolsonaro e Donald Trump, com ambos encorajando os piores instintos do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. A remota eventualidade de o congressista de extrema direita Jim Jordan ocupar a presidência da Câmara dos Representantes americana, atualmente acéfala, já dá calafrios. Se eleito, Jordan se tornaria o terceiro na linha de sucessão, portanto logo atrás de Kamala Harris, em caso de afastamento do presidente Joe Biden por algum motivo. Integrantes do próprio Partido Republicano designam Jordan como “legislador terrorista”, golpista e partidário de uma política de terra arrasada.

Elio Gaspari - A CPI expôs a caixa da PRF

O Globo

Sabia-se também que uma polícia rodoviária era usada em operações que resultaram em chacinas, mas a CPI mostrou mais

A Comissão Parlamentar de Inquérito que investigou a ação dos golpistas no 8 de janeiro expôs uma das maiores anomalias do governo de Jair Bolsonaro: o desvirtuamento da Polícia Rodoviária Federal (PRF). Sabia-se que no dia do segundo turno ela foi usada para bloquear eleitores nordestinos, sabia-se também que uma polícia rodoviária era usada em operações que resultaram em chacinas, mas a CPI mostrou mais.

O ex-capitão que prometia acabar com a indústria das multas e mandou desligar radares de rodovias, elevou os gastos com a PRF de R$ 138 milhões para R$ 809 milhões em 2022. A PRF comprou veículos blindados e softwares de vigilância eletrônica.

Uma mesma empresa, Combat Armor, criada em 2019, venceu três pregões e faturou cerca de R$ 33 milhões. Em dois deles, era a única concorrente.

Bernardo Mello Franco – Casos de polícia

O Globo

Novo secretário foi indicado por deputado ligado a miliciano; último escolhido de Cláudio Castro durou 17 dias no cargo

Em três anos, o governador Cláudio Castro nomeou quatro secretários de Polícia Civil. O primeiro foi preso por envolvimento com o jogo do bicho. O segundo se arrastou com status de interino. O terceiro durou apenas 17 dias no cargo. Foi demitido nesta semana, por exigência da Assembleia Legislativa.

José Renato Torres será lembrado por uma confissão involuntária. Questionado sobre a descoberta de mais 58 celulares em presídios de segurança máxima, alegou que os aparelhos eram úteis para “orientar operações”. A frase atesta a debilidade do Estado do Rio diante do crime.

Merval Pereira - Combate à corrupção sob críticas

O Globo

OCDE adverte para retrocessos no combate à corrupção. Financial Times também critica ações do STF que anularam acordo de leniência da Odebrecht

A dúvida sobre o combate à corrupção no Brasil volta a dominar a análise internacional, especialmente depois que a OCDE (Organização para a Cooperação e desenvolvimento Econômico) divulgou um relatório em que chama a atenção para retrocessos que estariam ocorrendo com a desativação das forças-tarefas como a Operação Lava Jato e medidas tomadas pelo Congresso e pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Ao mesmo tempo, o jornal inglês Financial Times publicou ontem um longo artigo de seu correspondente no Brasil, Bryan Harris, afirmando que ações consecutivas do Supremo Tribunal Federal (STF) mostram que há “pouco apetite, ou nenhum” para investigações sobre corrupção envolvendo a classe política.

Luiz Carlos Azedo - "Por una cabeza", as eleições dramáticas na Argentina

Correio Braziliense

"A bipolaridade da política argentina, entre peronistas (centro-esquerda) e liberais (centro-direita), pela primeira vez, desde a redemocratização, em 1983, pode ser quebrada"

"Basta de carreras, se acabó la timba/ Un final reñido, yo no vuelvo a ver/ Pero si algún pingo llega a ser fija el domingo/ Yo me juego entero, ¿qué le voy a hacer?/ Por una cabeza (por una cabeza)/ Todas las locuras (todas las locuras)". O famoso tango de Carlos Gardel (música) e Alfredo La Pera (letra), cujo nome intitula a coluna, é um retrato das paixões políticas na Argentina. Composto em 1935, a música fala de apostador compulsivo em corridas de cavalo que compara seu vício à atração pelas mulheres.

"Chega de corridas, acabaram as apostas/ Não voltarei a ver um final disputado/ Mas se algum cavalo se tornar favorito no domingo/ Jogo tudo que tenho, eu vou fazer o quê? / Por uma cabeça (por uma cabeça) / Todas as loucuras (todas as loucuras)" — é a tradução de uma eleição presidencial eletrizante, que está sendo acompanhada por toda a América Latina e que terá repercussões muito importantes para o Brasil.

Nas primárias eleitorais, os três candidatos mais bem colocados mostraram que a eleição pode ser decidida por uma margem muito próxima, cabeça a cabeça. É uma disputa entre um outsider, o histriônico Javier Milei, que se diz anarcoliberal; uma candidata de direita liberal, a ex-ministra da Segurança Patricia Bullrich, que empunha a bandeira da lei e da ordem; e um político de centro, o ministro da Economia, Sergio Massa, que representa o atual governo, mas não assume o legado do presidente peronista Alberto Fernández.

Míriam Leitão - Argentina: dois passados trágicos e um futuro opaco

O Globo

Os argentinos começam a decidir hoje nas urnas o seu destino econômico e político, tendo à frente dias incertos

A Argentina e o Brasil viveram dois passados trágicos. A ditadura e a hiperinflação. Nós vencemos a hiperinflação há 29 anos. Para eles isso está presente no peso diário de carregar sacolas de dinheiro para fazer compras. Na política, parte da Argentina está disposta a hipotecar seu futuro a um candidato que defende o ideário da ditadura, tem uma motosserra na mão, propostas econômicas exóticas, e habilidade nas mídias digitais. O Brasil fez a mesma aposta em 2018 e viveu quatro anos de ultraje. A Argentina está presa a esses dois passados e tem pela frente um futuro de total “incertidumbre”.

Marcos Azambuja, que foi embaixador em Buenos Aires, entre 1992 e 1997, é autor de frases brilhantes que definem situações. Ele disse ao “Valor” de sexta-feira: “Milei representa a radicalização de direita. É perigoso acreditar no que ele diz, mas também é perigoso não acreditar”. À coluna, ele explicou o pensamento.

Eliane Cantanhêde - A nossa guerra contra o crime organizado

O Estado de S. Paulo

O Brasil também está em guerra, mas contra o crime organizado. E está perdendo feio

Se a guerra de Israel amontoa corpos de crianças e os bombardeios continuam na Ucrânia (apesar do crescente desinteresse internacional), o crime organizado vai vencendo a guerra urbana brasileira, infiltrado nas instituições, nas polícias e agora até em quartéis do Exército Brasileiro. A sociedade está espremida entre o medo de criminosos e a descrença no Estado, cruel com uns, conivente com outros. “Quem pode pode...”

Como em Israel, Gaza e Ucrânia, os cidadãos comuns brasileiros são vítimas inocentes e a lista de crianças cresce, não só por ação de traficantes, milicianos e ladrões, mas também por tiros da própria polícia e da guerra entre organizações criminosas, como os quatro médicos à beira da praia, tomando uma cervejinha.

Rolf Kuntz - Lula, saúde fiscal e crescimento

O Estado de S. Paulo

Sem um sério e crível esforço de contenção, a dívida pública brasileira continuará impondo custos altos ao Tesouro, prejudicando a atração de capitais e limitando a baixa de juros

Desemprego em queda e inflação na meta favorecem o governo, mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá de batalhar para estimular produção e consumo e, na hipótese mais otimista, conter os gastos federais e controlar a dívida pública. Dinheiro curto, endividamento alto e juros impagáveis ainda forçam as famílias a comprar com moderação. No varejo do dia a dia, o volume vendido em agosto foi 0,2% menor que o de julho. O acumulado em oito meses foi 1,6% maior que o de um ano antes, mas o avanço é inseguro e oscilante. Estimulada pelo governo, a renegociação de dívidas deve dar algum alívio aos consumidores, mas sem alterar sensivelmente as perspectivas, por enquanto modestas, de avanço da economia. Para o presidente e seus principais ministros, a agenda continua desafiadora.

Lourival Sant ‘Anna - Portas fechadas para a paz

O Estado de S. Paulo

A desilusão palestina levou a um niilismo cuja expressão mais violenta é o terrorismo

Israel está prestes a iniciar uma longa e sangrenta invasão de Gaza. E a criar novos fatos consumados nesse conflito de 75 anos. O cenário leva a duas perguntas. A sociedade israelense está disposta a pagar o preço? O que ocupará o lugar do Hamas?

Os israelenses têm chamado o ataque do Hamas de “11 de Setembro de Israel”. A analogia é desconcertante. Os americanos fracassaram miseravelmente no Afeganistão. Duas décadas depois da invasão, que custou a vida de 2.402 soldados americanos e US$ 2,3 trilhões, o Taleban voltou ao poder com mais domínio do território e assertividade moral do que antes.

Renata Cafardo - As crianças e o conflito na Faixa de Gaza

O Estado de S. Paulo

Estudos mostram a dificuldade de crianças aprenderem em regiões de conflitos

Em todas as guerras, são as crianças que sofrem primeiro e sofrem mais. A mensagem está em destaque no site do Unicef, o fundo das Nações Unidas para a infância, ao lado de fotos de meninos e meninas em meio aos destroços dos conflitos no Oriente Médio. Desde o dia 7, mais de 1,5 mil crianças morreram na Faixa da Gaza e 4 mil foram feridas.

Mas antes do horrendo ataque do Hamas a Israel e da resposta a ele, as cerca de 1 milhão de crianças da região já viviam uma crise humanitária. Relatório do Unicef do primeiro semestre de 2023 dizia que o aumento da violência na região tinha limitado o acesso a água, alimentos, eletricidade e higiene, impactando a “sobrevivência e o desenvolvimento” das crianças.

Celso Ming - A Argentina e o fator Milei

O Estado de S. Paulo

A possibilidade de que o economista Javier Milei seja eleito presidente da Argentina ainda neste domingo é mais do que uma hipótese remota. Bastará para isso que tenha 45% dos votos ou 40% com vantagem de 10 pontos porcentuais sobre o segundo colocado. Caso essas diferenças não aconteçam, o segundo turno ocorrerá dia 19 de novembro.

Se confirmada a eleição de Milei, no primeiro ou no segundo turno, como apontam as pesquisas, será difícil evitar fortes convulsões no mercado financeiro local. Inflação próxima dos 150% ao ano, desabastecimento, dólar no patamar dos mil pesos e empobrecimento crescente compõem o quadro atual que, então, poderá piorar.

Vinicius Torres Freire - O pânico do argentino comum na véspera do voto e a dolarização

Folha de S. Paulo

Com ou sem a camisa de força da dolarização, conserto básico da economia é o mesmo

Na sexta-feira (20), não havia mercado, preço, para o dólar paralelo em Buenos Aires, relatam jornais e jornalistas argentinos. O receio de uma megadesvalorização do peso e, talvez, de um plano de dolarização oficial desorientava ainda mais as cotações do "dólar blue", o paralelo, entre 950 e 1.500 pesos.

O disparate das cotações, quando havia, piorava com boatos e batidas da Receita Federal deles, entre outras fiscalizações, constantes nas últimas semanas. Nos bancos, os argentinos se livram de ativos em pesos, o que piorou depois do favoritismo de Javier Milei.

Quem não acha dólar caça com estoque. Antecipa compras, até nos supermercados. Nos varejos, as vendas aumentaram em torno de 10% em setembro (em relação a 2022), relata o jornal "La Nación".

Celso Rocha de Barros - É difícil ser tão ruim quanto Bolsonaro, mas Milei tem tentado

Folha de S. Paulo

Quem quiser o título deve ser comparável a catástrofes naturais e pragas bíblicas

Argentina vai às urnas neste domingo eleger seu novo presidente. O primeiro colocado nas pesquisas é Javier Milei, por vezes chamado de "Bolsonaro argentino". O clã Bolsonaro, de fato, apoia Milei com entusiasmo.

É preciso tomar cuidado ao dizer que alguém é o Bolsonaro de outro país. Muito pouca coisa no mundo é tão ruim quanto Jair Bolsonaro.

Graças a Bolsonaro, durante alguns meses de 2021 o Brasil teve um terço das mortes por Covid-19 no mundo, mais de dez vezes nossa proporção da população mundial (2,8%). Segundo cálculos do epidemiologista Pedro Hallal, a recusa de ofertas de vacinas pelo governo Bolsonaro causou, só entre janeiro e junho de 2021, 95 mil mortes.

Muniz Sodré* - Uma massa falida

Folha de S. Paulo

O pentecostalismo é a incubadora de submissos ao retrocesso, e Argentina parecer querer apostar nisso

Maus presságios quanto ao senso político do vizinho povo argentino suscitam alguma reflexão sobre a natureza do conservadorismo brasileiro. A ficha começa a cair onde deveria. Em declaração recente, o secretário de comunicação do PT admite que "a surpresa foi constatar a reação do povo em relação à política e à democracia". Quer dizer: as massas, em grande parte, mostram-se impermeáveis a bens civilizatórios tidos como estáveis pelo pensamento progressista.

Mas essa percepção é velha. Em meados do século passado, um jurista baiano, agastado com a subserviência popular à ditadura varguista, deplorava em tom elitista: "O povo é uma massa falida". Era o tempo em que também intelectuais europeus se diziam horrorizados com o estado mental do povo alemão. Em "A Linguagem do Terceiro Reich", Victor Klemperer descreve seu sobressalto ao entrar numa agência bancária: "Lá dentro, todos permaneciam de pé, tanto as pessoas defronte dos guichês quanto as detrás, em posição rígida, com o braço estendido, ouvindo uma voz que falava no rádio em tom declamatório". Hitler, claro.

Hélio Schwartsman - Prevendo o futuro

Folha de S. Paulo

Livro defende que é possível modelar a história e assim antecipar crises e evitar o colapso

E se a história fosse uma "ciência dura", capaz de fazer previsões tão precisas quanto as que os astrônomos fazem para os próximos eclipses? A maioria dos historiadores profissionais descarta essa possibilidade. Comportamentos humanos já são de certa forma infensos a modelagens matemáticas. Quando falamos de uma disciplina como a história, que, além de lidar com questões humanas, está sujeita a forças tão variadas como as da economia, cultura, tecnologia, geografia e ao próprio acaso, a pretensão de encontrar uma fórmula objetiva para calcular o futuro soa absurda.

Bruno Boghossian - Democracia oferece um contrapeso à guerra (mas nem sempre)

Folha de S. Paulo

Voto pode mandar radicais para casa, mas conflito também pode ser arma do populismo eleitoral

Quando o Hamas estava prestes a vencer a eleição de 2006, George W. Bush acreditava que havia uma chance de conter o radicalismo do grupo. Os americanos entendiam que, no governo, os extremistas teriam que entregar benefícios e prestar contas aos palestinos. Para isso, seria preciso seguir um caminho pragmático e evitar o isolamento internacional.

A aposta se mostrou furada. Pouco depois da votação, o grupo aprofundou uma disputa com o Fatah, num embate que levou o Hamas a tomar o poder na Faixa de Gaza. Desde então, não houve eleições gerais ou qualquer espaço significativo para a contestação da autoridade dos extremistas pela via democrática.

Marco Antonio Villa* - O extremismo às avessas

É mais confortável a “guerra ideológica” do que refletir e debater democraticamente os problemas nacionais

As recentes declarações da ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, e de sua assessora Marcelle Decothé após a final da Copa do Brasil recolocou o extremismo às avessas no primeiro plano da cena política nacional. Ou seja, questões absolutamente secundárias, que mobilizam “gatos pingados”, deixam de lado os grandes problemas e – aí o perigo é maior ainda – jogam água no moinho do extremismo bolsonarista. Curiosamente, em um momento de enfraquecimento político de Jair Bolsonaro. Certamente, o mandrião deve ter agradecido entusiasticamente tanto à ministra, quanto à sua assessora.

Ricardo Rangel* - O relatório da CPMI (e os militares)

Faltaram propostas concretas para remediar o golpismo

A CPMI chegou ao fim com relatório pedindo o indiciamento de Jair Bolsonaro e de mais sessenta supostos golpistas. Metade são militares, incluindo oito oficiais-generais, sendo seis de quatro estrelas, três ex-comandantes de Forças. É uma página triste e vergonhosa para o Brasil e para as Forças Armadas em particular.

Segundo consta, generais fora da lista não gostaram. Malu Gaspar, do Globo, listou algumas das palavras usadas: “uma fantasia que não para em pé, uma verdadeira pedalada jurídica”, “espetaculoso”, “patético”, “horrível”, “vingança”.

A reação é equivocada. Primeiro, porque indiciamento é só o que o nome diz: há indícios que justificam investigação — e há, mesmo. Segundo, porque, em vez de se preocuparem com o relatório, deveriam se preocupar com o fato de que há, indiscutivelmente, muitos militares envolvidos em crimes contra a República. A solidariedade a colegas de farda não deveria suplantar a solidariedade à pátria. Dito isso, não tem cabimento que G. Dias, o único general “do outro lado”, contra o qual há fortíssimos indícios, tenha ficado fora da lista.

José Casado* - Lula e El Loco

Intervenção do Brasil na guerra eleitoral argentina tem custo

— Ele está mais “louquito” que o Bolsonaro — disse Lula sobre Javier Milei, candidato da extrema direita na eleição presidencial da Argentina. O governista Sergio Massa, ministro da Economia, gostou da ironia sobre o adversário que é conhecido como El Loco.

— Deixa de procurar dólares e vá atrás de votos — insistiu Lula, como relatou Massa a jornalistas na viagem de volta a Buenos Aires naquela quente e seca segunda-feira 28 de agosto.

— Todos estão trabalhando? Eles sabem da importância do que têm pela frente? Se a direita ganhar será um retrocesso de quarenta anos na América Latina…

— Sim, presidente. Estão todos trabalhando — respondeu Massa, anotou a repórter Melisa Molina.

— Faça o que tiver que fazer, mas ganhe — retrucou incisivo, com a experiência de três vitórias em 34 anos de disputas presidenciais.

Poesia | Fernando Pessoa - Não sei quantas almas tenho

Música | Roberta Sá e Cézar Mendes na 7°Temporada do Samba na Gamboa