terça-feira, 21 de novembro de 2023

Joel Pinheiro da Fonseca - Milei e os prós e os contras da ideologia libertária

Folha de S. Paulo

Olhemos para o que ele traz em termos de ideologia e programa, ao contrário de Bolsonaro, ele os tem

Vamos deixar de lado as bizarrices de Javier Milei. Olhemos para o que ele traz em termos de ideologia e programa. Ao contrário de Bolsonaro, ele os tem. Para mim é duplamente curioso, porque o meio anarcocapitalista e libertário é de onde eu vim. Os autores que Milei cita —Mises, Rothbard, Friedman— são os autores que eu lia e discutia ativamente na minha formação.

Hoje não sou mais um libertário, e sim um liberal. Vejo a atitude revolucionária de querer abolir o Estado, suas garantias e suas leis como algo que reduziria a liberdade da maioria. Estado e mercado precisam um do outro.

Dora Kramer - Saudade da ribalta

Folha de S. Paulo

Sem muito a fazer, Bolsonaro fustiga Tarcísio em busca da relevância perdida

Jair Bolsonaro anda sem atividades relevantes com as quais se ocupar. Transita entre prestações de contas à polícia, cerimônias de entrega de medalhas em Câmaras Municipais e gestos que deem a impressão de que será um cabo eleitoral imprescindível à direita, mesmo impedido de concorrer por decisão da Justiça.

À falta do que fazer, fustiga Tarcísio de Freitas, que tem mais a fazer. Precisa governar São Paulo, cujos problemas não são poucos nem pequenos. Já ao ex-presidente sobra tempo livre para cavar espaço no noticiário político.

Apenas se antagonizar ao presidente da República já não rende, sendo a recíproca verdadeira. Para Luiz Inácio da Silva também é ativo gasto. Por isso o ex-presidente resolveu fazer algo que é notícia pelo inusitado da coisa: afetar contrariedade com o governador que ajudou a eleger.

Vera Magalhães - O que Milei e Trump deveriam mostrar a Lula

O Globo

Vitória de candidato da extrema-direita na Argentina e resiliência do norte-americano são sinais de que o apelo dos outsiders não se esgotou

Viralizou um post no antigo Twitter de uma conta verificada que se apresenta como sendo de Javier Milei, mas que é de apoiadores de sua campanha, com a seguinte formulação com ares de profecia: "Javier Milei 2023/Donald Trump 2024/Jair Bolsonaro 2026", com as bandeirinhas respectivamente da Argentina, dos Estados Unidos e do Brasil.

É óbvio que cada um dois países tem particularidades econômicas, sociais, históricas e políticas que impedem a simplificação da postagem, mas também é evidente que a resiliência do fenômeno do outsider que chega para implodir as estruturas do establishment se mostra maior que as derrotas de Trump em 2020 e de Bolsonaro em 22 pareciam apontar. E isso requer que o governo Lula e a coalizão que venha a se articular para sua sucessão tomem alguns cuidados.

Reveses como o de Trump e de Bolsonaro não esgotaram o apelo eleitoral da extrema-direita. A celebração da vitória de Milei por aqui, inclusive da parte de políticos órfãos do bolsonarismo, evidencia que esse pessoal está em busca de um caminho para voltar à carga em 2026, e ele tende a se dar pela exploração do fracasso de governos de esquerda em manejar a economia e promover segurança e bem-estar social.

Míriam Leitão - Milei deixa de lado improviso

O Globo

Presidente eleito da Argentina falou em cumprimento da lei, elogiou aliados e disse que será preciso adotar medidas fortes para deter a inflação, mas não citou fechamento do Banco Central ou dolarização

Javier Milei surpreendeu em seu primeiro discurso. Primeiro por ter feito um discurso lido, logo ele uma pessoa cheia de improvisos e arroubos, dessa vez, fez tudo diferente. Aliás, ele demorou bastante a ir vir a público. Houve um grande intervalo entre o momento que Sergio Massa reconheceu a derrota e informou já ter ligado para o concorrente para parabenizá-lo e a aparição do novo presidente eleito da Argentina.

Destaco algumas frases do discurso de Milei. Ele disse: "“dentro da lei, tudo, fora da lei, nada”. Não sei se é uma daquelas frases bonitas para começo de mandato, para não assustar. Afinal, ele defendeu durante toda a campanha uma proposta de muita ruptura, mas ressalto nessa primeira fala após eleito a ausência de temas como fim do Banco Central e da dolarização da economia.

Poesia | Uma Esperança - Clarice Lispector por Aracy Balabanian

 

Música | Milton Nascimento - Beatriz (Chico Buarque e Edu Lobo)

 

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Feminicídios em alta desafiam o poder público

O Globo

Primeiro semestre deste ano registrou maior incidência do crime desde o início da série histórica

São perturbadoras as estatísticas de feminicídio compiladas pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). O levantamento, com base nos dados das secretarias estaduais, registra 722 feminicídios no Brasil no primeiro semestre de 2023, maior número desde o início da série histórica, em 2019. Apesar das boas intenções de governos, ONGs e movimentos sociais, o país ainda não sabe como lidar com o flagelo.

O número representa um aumento de 2,6% na comparação com os 704 feminicídios no primeiro semestre do ano passado. Pode não parecer muito, mas o percentual esconde disparidades que demandam ação. No Sudeste, única região a apresentar crescimento nos casos, a alta foi de 16,2%, de 235 para 273. Das 27 unidades da Federação, 14 registraram mais feminicídios, 12 menos e uma manteve estabilidade. Na comparação, a maior alta percentual ocorreu no Distrito Federal (250%).

Míriam Leitão - Causas da vitória e próximos desafios

O Globo

Governabilidade, combate à inflação e negociação com o FMI estarão na agenda do novo presidente

Uma hora antes que se conhecesse quem era o escolhido pelo eleitor argentino, o governo brasileiro sabia que Javier Milei seria o próximo presidente do país e que sua vitória era por uma grande margem. Uma fonte me disse que os movimentos para a aproximação entre o Brasil e o presidente eleito já haviam começado. “Seremos os adultos da relação”, me informou essa fonte, se referindo ao fato de que o político de extrema direita durante a campanha havia falado até em romper com o Brasil.

Mas o que houve que a vitória de Javier Milei foi por uma diferença tão grande? Houve nos últimos dias uma onda em favor de Milei e que não foi acompanhada pela imprensa porque há um silêncio longo das pesquisas. Mas quem acompanhava o sentimento das ruas constatou isso.

Curioso é que os partidários de Sergio Massa ficaram otimistas depois do último debate. Ele foi muito bem de fato. Mas foi tão bem que isso se virou contra ele, me contou uma fonte:

– O que parecia uma vitória de Massa, a clareza das ideias, a estrutura de exposição, a coerência, a solidez acabaram dando mais votos para seu adversário. Ele parecia muito ensaiado. E nisso lembrava um político tradicional. Javier Milei que parecia tão fora de ordem, desordenado ficou parecido com o papel que ele desempenhou nessa eleição, um candidato antissistema.

Guga Chacra - Será mais difícil para Milei

O Globo

Um libertário sem experiência administrativa e de um pequeno partido venceu as eleições na Argentina em um dos maiores acontecimentos políticos da história deste país conhecido pelas sequências de crises econômicas e decadência crônica. Javier Milei, visto por muitos como um lunático extremista e por outros como uma solução para décadas de fracassos, sentará no sillon de Rivadavia, como é conhecida a Presidência da Argentina, em menos de um mês. Tentará implementar suas políticas para transformar o país.

O governo Lula precisará lidar com um líder que o critica abertamente. As relações entre os dois países correm enorme risco de se deteriorarem. Para Joe Biden, a Argentina possui pouca relevância, mas será inevitável a comparação de Milei com Donald Trump a um ano da eleição presidencial nos EUA. Muitos comparam a vitória de Milei à do republicano em 2016, e a de Jair Bolsonaro, no Brasil, dois anos mais tarde. Como os dois, Milei surpreendeu o establishment e os partidos tradicionais. Também conseguiu enorme conectividade com seus seguidores em um populismo de direita. Ao mesmo tempo, há grandes diferenças no contexto das eleições de cada um dos três.

Bernardo Mello Franco - Milei fala em 'mudanças drásticas' e dá recado a futura oposição: 'Seremos implacáveis'

O Globo

Presidente eleito usa discurso da vitória para mandar recado a sindicatos ligados ao peronismo

No discurso da vitória, Javier Milei deu um duro recado à futura oposição na Argentina.

O presidente eleito anunciou "mudanças drásticas" a partir da posse, em 10 de dezembro, e prometeu ser "implacável" com quem tentar emparedá-lo.

— Sabemos que há gente que vai resistir. A todos, quero dizer: dentro da lei, tudo; fora da lei, nada. Seremos implacáveis com quem tentar usar a força para defender seus privilégios — afirmou.

A fala foi uma clara referência às centrais sindicais argentinas, historicamente ligadas ao peronismo.

Antônio Machado - Milei e Cacareco, as semelhanças que levaram o improvável ao poder

Correio Braziliense

Javier Milei venceu de lavada, com quase 3 milhões de votos a mais que Sergio Massa, com 99% das urnas apuradas

Milei e Cacareco - Javier Milei venceu de lavada, com quase 3 milhões de votos a mais que Sergio Massa, com 99% das urnas apuradas. Ele leva por 55,71%, equivalentes a 14,4 milhões de votos, vs 44,28% de Massa, com 11,4 milhões. Milei tomará posse em 10/12.

No X e na imprensa, mais aqui que lá, muitas notas de surpresa com o resultado, como se surpreendente não fosse a eleição do ministro da economia de um governo que sai com inflação de 143%, maior taxa em 32 anos, com o pé na moratória da dívida pública, com o caixa de divisas na lona e sem nenhuma sustentação política e social.

Vamos ouvir e ler torrentes de artigos e entrevistas discorrendo sobre as promessas de Milei, sobretudo a troca do peso pelo dólar, o fim do BC, o afastamento da China e do Brasil de Lula. Guarde-se o nome de Emilio Ocampo, 60 anos, provável czar da economia de Milei, no Banco Central ou na pasta de Finanças.

César Felício - Milei vence e dúvida é se governo será marcado por ruptura ou tutela

Valor Econômico

O “anarcocapitalista” que aderiu a todas as bandeiras mundiais da extrema direita ganhou no segundo turno a companhia da direita tradicional, em especial do ex-presidente Mauricio Macri

A primeira incógnita que se abre em relação ao presidente eleito da Argentina, Javier Milei, é se será um governo marcado pela ruptura ou pela tutela. Houve um Milei até a realização do primeiro turno da eleição da Argentina e outro na rodada final das eleições.

O “anarcocapitalista” que aderiu a todas as bandeiras mundiais da extrema direita ganhou no segundo turno a companhia da direita tradicional, em especial do ex-presidente Mauricio Macri. Foi uma contradição flagrante a um de seus principais lemas, o da antipolítica. Não se sabe o que Milei pactuou com Macri. Segundo disse o presidente eleito em seu primeiro discurso, nada. Ele agradeceu o ex-presidente por ter dado apoio “desinteressadamente”. Mas o poder de barganha de Macri não é pequeno.

Sylvia Colombo - Milei reforça onda de ultradireita na América Latina; agora é a vez da Argentina

Folha de S. Paulo

Se não entregar resultados rápidos nos primeiros meses, a chance de a insatisfação tomar as ruas é muito grande

Chegou a vez da Argentina. Javier Gerardo Milei, economista de 53 anos, alcança a Presidência de seu país como a versão platense de uma tendência de governos de ultradireita que vêm atravessando outros países da região.

Suas particularidades são muitas em relação àqueles com quem costuma ser comparado: não tem apreço pelo conservadorismo moral ou pelos militares como tinha Jair Bolsonaro; não evoca ditadores do passado, como o chileno José Antonio Kast; não defende a construção de prisões gigantes nem um Estado hiperpaternalista como o salvadorenho Nayib Bukele; tampouco aprova que o Executivo seja enorme e abocanhe os demais Poderes, como o guatemalteco Alejandro Giammattei.

Mas, sim, Milei se parece com todos eles ao pregar um rompimento com o que considera política tradicional, ao abraçar o politicamente incorreto, ao desconsiderar as políticas de gênero e avançar contra os direitos de minorias e imigrantes, ao estar a favor da liberação do comércio de armas e ao elogiar e exaltar a meritocracia em um país em que isso deveria ser considerado obsceno devido a suas grandes desigualdades.

Vinicius Torres Freire - Eleição de Milei ainda não define futuro econômico ou político da Argentina

Folha de S. Paulo

Com ou sem ajuste nas finanças, haverá dor social; para governar, o libertário ultradireitista terá de ceder muito poder

Não há dúvida que a maioria da Argentina resolveu mudar, por maioria relativamente folgada. O sentido da mudança é uma incógnita que vai muito além da definição do programa econômico do vitorioso Javier Milei, por mais essencial que seja o plano de estabilização e reformas.

Sem acordo político muito amplo, o libertário ultradireitista não governa. Não tem votos parlamentares, não tem quadros técnicos ou políticos experimentados nem apoio de boa parte da elite econômica. O que sobrará do plano extremado de Milei depois de um arranjo com a centro-direita e a direita convencional?

Milei por ora não tem votos no Congresso nem ao menos para evitar um processo político, mesmo que vier ou viesse a contar com o apoio integral do partido do ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019), o PRO. A fim de obter 129 dos 257 votos da Câmara de Deputados, teria de somar também todos os votos da coalizão Juntos pela Mudança, da qual faz parte o PRO, de Macri e de sua candidata derrotada, Patricia Bullrich.

Fernando Gabeira - Consciência do mundo num hospital em Gaza

O Globo

Al-Shifa está cheio de feridos de guerra e doentes. Sem remédios ou eletricidade. Os recém-nascidos estavam do lado de fora

Numa segunda-feira, falar de temas tão distantes como um hospital em Gaza, levantar questões como uma ainda inexistente ordem mundial, talvez não seja o melhor caminho.

“Alguma coisa está fora da nova ordem mundial” — diz a canção. Mas Henry Kissinger, em seu livro sobre o tema, diz que nunca houve uma verdadeira ordem mundial. A Paz de Vestfália no fim da Guerra dos 30 Anos (1618-1648) foi um evento europeu.

No momento em que as tropas de Israel entraram no Hospital Al-Shifa, em Gaza, nada pude fazer, exceto me informar. Mas a ONU também nada pode fazer, exceto dizer que hospitais não são campos de batalha. Estamos, portanto, no mesmo barco, eu a ONU.

As imagens do dia anterior foram terríveis. Bebês recém-nascidos fora das incubadoras, por falta de energia. Israel afirma que, com dados da Inteligência, sabe que o Hamas usa o hospital como base. O Hamas nega. Um palestino entrevistado pela Al Jazeera parece confirmar a tese de Israel: o Hamas deveria sair daqui e ir para o inferno. O Hamas usa as pessoas como escudo humano. Sua tese, pós-atentado, é que trouxe Israel para a guerra, e era isso que pretendia para manter acesa a causa palestina.

Denis Lerrer Rosenfield* - Terror, democracia e crime

O Estado de S. Paulo

Em certo sentido, não deveria surpreender que Lula equipare o terror do Hamas, massacrando crianças, mulheres e idosos, à defesa de Israel contra uma agressão bárbara

A esquerda revolucionária, ao contrário da social-democrata, sempre teve uma irresistível atração pela violência, considerando-a, mesmo, como ato inaugural de instauração da nova sociedade. E não só inaugural, pois a esquerda, chegando ao poder, caracterizouse pelo uso implacável da repressão, eliminando qualquer crítica e oposição. Eram os inimigos de classe, que surgem agora nas várias vertentes do pensamento dito decolonial, por exemplo, voltado contra os colonizadores, sendo os EUA o Grande Satã na vertente islâmica. Esboça-se toda uma aliança entre a esquerda da luta de classes e identitária com a dominação islâmica em nome do combate contra o Ocidente e seus valores.

Paradoxalmente, os regimes voltados para a execução dos homossexuais, para a subordinação incondicional das mulheres, para regras estritas de conduta sexual e vestimentária, cuja desobediência leva à tortura e à morte, são ícones desta nova vertente da violência sob a forma do terror. Hamas e Irã seriam exemplos.

Lygia Maria - O fantasma do antissemitismo

Folha de S. Paulo

Ataque terrorista do Hamas desperta preconceito adormecido contra judeus entranhado na história europeia

No dia 30 de dezembro de 1066, uma turba de muçulmanos invadiu o Palácio Real de Granada, na Espanha, e crucificou um vizir judeu. Em apenas um dia, milhares de judeus foram assassinados. Daí ao Holocausto nos anos 1940, foram vários os massacres e perseguições sofridos por esse grupo étnico-religioso.

O regime de Hitler foi a manifestação mais grotesca de um fantasma que assombra a Europa há séculos: o fantasma do antissemitismo.

Após as câmaras de gás, que chocaram o mundo, supunha-se que esse fantasma havia sido exorcizado, mas o ataque do Hamas a Israel mostrou que ele estava apenas adormecido.

Ana Cristina Rosa - Um Salve à Serra da Barriga!

Folha de S. Paulo

Local abriga o único parque temático voltado à cultura negra do Brasil

Em 20 de novembro de 1695, o líder do maior e mais longevo quilombo das Américas (abrigou mais de 20 mil pessoas, incluindo indígenas e brancos) era encurralado, morto e decapitado na Serra da Barriga (AL). A resistência de Palmares e a liderança de Zumbi e Dandara, símbolos de luta e resiliência contra a escravização, eram ameaças à Coroa portuguesa.

Em 20 de novembro de 2023, a luta pelo direito dos negros à liberdade, dignidade, respeito e equidade permanece uma causa tão atual e urgente quanto há 328 anos. E os negros (em geral) seguem tratados como ameaça.

Inúmeras situações absurdas e perversas para um Estado Democrático de Direito exemplificam isso dando em nada de concreto além da morte, do sofrimento e do trauma psicológico de pessoas negras.

Ricardo Henriques -Antirracismo e política educacional

O Globo

A desigualdade racial testemunhou comportamentos opostos na educação básica e na superior nos últimos 15 anos. Enquanto no terciário houve redução das diferenças de acesso e permanência a favor dos negros, graças sobretudo à Lei de Cotas, na básica o rendimento escolar dos brancos melhorou mais que o dos negros, alargando um fosso que já era grande. Decisões governamentais recentes buscam consolidar os acertos e corrigir os erros nas políticas educacionais, mas será preciso fazer ainda mais para superar séculos de racismo.

Na semana passada, o presidente Lula sancionou a lei 14.723, que consolida, expande a aperfeiçoa a Lei de Cotas de 2012. Foram incluídos quilombolas, reduzido o teto de elegibilidade de 1,5 para 1,0 salário mínimo e realizados ajustes para evitar a reprovação injusta de cotistas com notas superiores às de aprovados na ampla concorrência.

Poesia | Os três mal amados (Trecho) - João Cabral de Melo Neto com narração de Mundo dos Poemas

 

Música | Caetano Veloso - Zumbi

 

Música | Martinho da Vila - Zumbi dos Palmares, Zumbi

 

domingo, 19 de novembro de 2023

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Decisão na Argentina

Folha de S. Paulo

Qualquer que seja o resultado da eleição, há pouca chance de melhora na economia

Os argentinos decidem neste domingo (19) de quem será o mandato para presidir o país nos próximos quatro anos. As opções do segundo turno, o peronista Sergio Massa e o anarcodireitista Javier Milei, dificilmente resgatarão a nação vizinha da arapuca econômica em que se meteu.

Porção menosprezada no antigo império espanhol, a Argentina tornou-se um dínamo no final do século 19, quando a sua renda per capita se aproximava da dos Estados Unidos. O país sul-americano explorava com eficiência seu invejável potencial agropecuário, educava rapidamente a população e atraía muita imigração europeia.

Essa máquina engripou em meados do século 20, não por coincidência no momento em que ideias econômicas intervencionistas e populistas encontraram no peronismo a sua encarnação política. Hoje a renda argentina não ultrapassa um terço da norte-americana.

Dorrit Harazim - O possível

O Globo

Falta quase tudo para imaginar o nascimento oficial de uma nação palestina. Mas a História está cheia de viradas

‘A realidade é uma das possibilidades que não posso me dar ao luxo de ignorar’, escreveu Leonard Cohen em seu romance experimental dos anos 1960, “Beautiful losers”, considerado bizarro até mesmo para aqueles tempos. (Posteriormente a obra virou cult, em parte por frases incompreensíveis como “Beijá-la ali foi adentrar em algo privado e ossudo como o ombro de uma tartaruga”.) Poeta e trovador gigante, Cohen explorou a vida e pôde cantar suas profundidades com lirismo. Para o planetinha estressado dos tempos atuais, o luxo da ignorância acabou. É hora de encarar a realidade — no caso, a necessidade do possível. E, no Oriente Médio, essa necessidade do possível se chama Estado Palestino.

A cada nova semana de avanço das tropas israelenses sobre Gaza, visando a aniquilar a estrutura do Hamas e, quem sabe, resgatar os cerca de 240 reféns em mãos terroristas, mais clara fica a necessidade de um compromisso. Não se trata aqui de imaginar que o fluxo da humanidade vá, de repente, se dar as mãos e formar uma base capaz de dissolver a lógica da guerra. Afinal, não são os cidadãos que desencadeiam e fazem guerras, são as lideranças políticas.

Elio Gaspari - O PT menospreza os riscos de 2026

O Globo

Nas eleições presidenciais, é comum que um candidato saia vitorioso muito mais pela fraqueza do adversário do que pelo vigor de sua proposta. Em 2022 e em 2018, as vitórias de Lula e de Bolsonaro deveram-se mais à vulnerabilidade do derrotado. No ano passado, houve mais votos contra Bolsonaro do que a favor de Lula. Na eleição anterior, havia acontecido o contrário com Bolsonaro. Ele prevaleceu, ajudado muito mais por um sentimento antipetista do que por suas ideias, que eram poucas e confusas.

O primeiro ano de mandato de Lula está para terminar, com um desempenho que cultiva a agenda negativa. A situação da economia e as amarras políticas dificultam-lhe a agenda positiva, mas uma certa autoconfiança típica de quem está no poder, mostra-se como fonte alimentadora do voto contra.

Dois episódios recentes:

Primeiro, a classificação dos crimes de guerra de Israel em Gaza como atos ‘terroristas”. Para um presidente que assumiu com áulicos sonhando em levá-lo ao Prêmio Nobel da Paz, da Venezuela à Ucrânia, Lula atravessou continentes para escorregar em cascas de bananas. Na guerra de Israel contra o Hamas, uma frase palanqueira, desperdiçou o prestígio adquirido pela diplomacia brasileira no Conselho de Segurança da ONU.

Míriam Leitão - Ministro Haddad e as vitórias difíceis

O Globo

Titular da Fazenda venceu diversas batalhas no governo, mas os que perderam podem jogar sobre ele qualquer custo de problemas futuros

O ministro Fernando Haddad reverteu um jogo perdido, mas a cobrança sobre ele continuará forte. Os que perderam o debate sobre a mudança da meta fiscal começaram a segunda discussão: qual é o tamanho do contingenciamento necessário para que a meta seja mantida em zero? O ministro terá que continuar fazendo uma delicada costura interna porque o ano que vem tem ainda muitas incertezas.

Mesmo que aprove todas as medidas que mandou para o Congresso pode não chegar nos R$ 160 bilhões de receitas a mais que projetou. Tem ainda o fator político, porque 2024 é ano eleitoral e qualquer mau desempenho do governo será jogado sobre ele.

Quem avalia assim não são os que divergiram de Haddad, mas pessoas com proximidade com o ministro e que acham que ele está certo no que fez. O temor que se tem é que o fato de ter vencido a queda de braço com os ministros que queriam expansão de gastos possa ser usada para jogar sobre ele qualquer custo de problemas futuros.

Celso Ming - A desaceleração da economia

O Estado de S. Paulo

Ficou mais difícil contar com um crescimento do PIB neste ano de algo em torno dos 3%, como garantia o ministro Fernando Haddad. Os últimos números do IBC-Br sugerem que o avanço da atividade econômica deste 2023 fique mais perto dos 2,5%.

O IBC-Br, cujo nome e sobrenome é Índice de Atividade Econômica do Banco Central, existe para dar ideia antecipada da evolução do PIB. O PIB, a renda nacional, é uma estatística trimestral de apuração complexa que só é divulgada cerca de dois meses e meio após o encerramento do trimestre-calendário. O IBC-Br sai todos os meses, mas é cálculo aproximado.

O IBC-Br, que saiu na última sexta-feira, mostrou queda de 0,06% em setembro, na comparação com agosto (veja o gráfico), o que contrariou as expectativas de crescimento no período em pelo menos 0,2%. Assim, o terceiro trimestre apontou recuo da atividade de 0,6% e lança um arrasto negativo também para o quarto trimestre. Desta vez, o setor que puxou para baixo foi o de serviços, movimento que já vinha sendo observado pelos indicadores que medem o comportamento do varejo.

Affonso Celso Pastore - As metas de resultado primário

O Estado de S. Paulo

Será que Lula está disposto a queimar capital político para controlar a expansão dos gastos?

Na última semana duas agências de classificação de risco insistiram na importância de que o Brasil mantenha a meta de resultado primário nulo para 2024. Como o não cumprimento da meta dispara o gatilho, que em 2025 limita o aumento real dos gastos primários em 50% do crescimento das receitas, há na militância petista um movimento para que ela seja mudada, o que enfraqueceria o arcabouço, que já nasceu fraco. O ministro Haddad ganhou a primeira batalha, mas ainda não ganhou a guerra.

Com uma taxa nominal de juros implícita da dívida pública bruta acima de 11% ao ano, a taxa real de juros é significativamente maior do que a taxa de crescimento econômico, exigindo que, para estabilizar a relação dívida/PIB, superávits primários fossem bem mais elevados do que os estabelecidos no arcabouço. Ainda que as metas nos próximos três anos fossem atingidas, a dívida/PIB continuaria crescendo, o que eleva os prêmios de risco, realimentando o crescimento da taxa de juros paga pelo Tesouro. Este efeito se intensifica caso as metas não sejam cumpridas, fechando-se um círculo vicioso que precisaria ser rompido.

Eliane Cantanhêde – Mais um ‘mito’?

O Estado de S. Paulo

Milei: onde a política afunda, os salvadores da pátria emergem e atacam a democracia

Javier Milei replica na Argentina os “fenômenos”, ou “mitos”, Donald Trump nos Estados Unidos, Jair Bolsonaro no Brasil e Hugo Chávez na Venezuela, entre tantos outros exemplos a confirmar que, quando os políticos falham, os partidos caem em descrédito e as instituições se tornam disfuncionais, a política abre espaço a aventureiros com boa lábia e poucos escrúpulos, que se lançam como “salvadores da pátria”.

Trump, Bolsonaro e agora Milei atacam as eleições com histórias mirabolantes sobre fraudes, para agitar seus seguidores, atiçar os ânimos e vandalizar as instituições. Derrotados na reeleição, Trump liderou a invasão do Capitólio e Bolsonaro incitou o quebra-quebra no Planalto, no Congresso e no Supremo. Milei já está na mesma toada. E se perder?

Bernardo Mello Franco - O Risco Milei

O Globo

Para Juan Luis González, país chega ao segundo turno em situação inédita de tensão

O que acontece quando um país instável cai nas mãos de um líder instável? A pergunta aparece no prefácio de “El Loco”, biografia não autorizada de Javier Milei. Autor do livro, o jornalista Juan Luis González confessa não ter encontrado a resposta para o enigma argentino.

“Não há uma experiência passada que permita imaginar como seria um governo Milei. Muitas ideias dele nunca foram aplicadas na Argentina, como dolarizar a economia, fechar o Banco Central e acabar com as obras públicas”, diz o biógrafo. “Além disso, há a instabilidade de Milei, um personagem que fala com seu cachorro morto e pensa que os clones do animal lhe dão conselhos políticos. É muito difícil prever o que acontecerá”, resigna-se.

Lançado em julho, o livro se tornou um best-seller instantâneo. González reconstituiu a trajetória do candidato de extrema direita: de menino solitário, que sofria bullying até do pai, a polemista histriônico, que ganhou fama com gritos e insultos na TV. A morte do bicho de estimação, em 2017, é descrita como um ponto de virada.

Merval Pereira - Resultado indecifrável

O Globo

A Argentina é tão “indecifrável”, na definição do ex-presidente do Uruguai José Mujica, um ícone da esquerda, que o ministro da Fazenda de um governo falido pode vencer a eleição.

Marqueteiros ligados ao PT estão trabalhando com afinco, e ajuda da IA (Inteligência Artificial), para conseguir reverter o “efeito Orloff” na eleição presidencial deste domingo. Nos anos 1980, uma propaganda de vodca originou no Brasil a expressão “efeito Orloff”, pois todos os erros cometidos na economia argentina acabavam se reproduzindo no Brasil. A mensagem básica da propaganda resumia-se a uma frase — “eu sou você amanhã” — para evitar a ressaca por beber uma vodca de má qualidade.

A Argentina hoje está na mesma situação em que o Brasil já esteve. Se vencer o ultradireitista Javier Milei, será assim como em 2018, quando aqui surgiu o fenômeno bolsonarista, e Fernando Haddad representava o petismo, com Lula na cadeia. Na Argentina é o peronismo do candidato Sergio Massa, que tem várias facções, que está sendo contestado por um outsider completamente fora dos padrões, Javier Milei.

Luiz Carlos Azedo -Dois cenários para as relações com a Argentina

Correio Braziliense

"Desde a redemocratização de ambos os países, o pior momento das relações entre Brasil e Argentina foi durante os governos do atual presidente Alberto Fernandes e Jair Bolsonaro, que nunca se encontraram"

As relações entre o Brasil e a Argentina nem sempre foram pacíficas, como na guerra Cisplatina (1825-1828). Algumas vezes, foram até estreitas demais, como durante a Operação Condor, na segunda metade dos anos 1970, na qual houve estreita colaboração entre os órgãos de segurança dos regimes militares dos países contra seus oposicionistas.

Neste domingo, com o país dividido entre o anarco-capitalista Javier Milei (La Liberdade Avanza) e o peronista Sérgio Massa (Unión por la Pátria), as conexões do Brasil com "los hermanos" novamente estão em xeque. O primeiro diz que não pretende ter relações com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e que a Argentina sairá do Mercosul, se for eleito — o que praticamente inviabilizará o acordo do bloco com a União Europeia (UE). O segundo promete estreitar ainda mais os laços com o Brasil e fortalecer o bloco econômico sul-americano.

Pesquisa divulgada pela AtlasIntel (10/11), a última divulgada em razão da legislação eleitoral, com 8.971 entrevistados, revelou que Milei aparece com 52,1% e Massa, com 47,9%. Em razão do último debate, no qual Massa, o atual ministro da Economia, surpreendeu Milei, analistas dizem que a diferença entre ambos reduziu.

Muniz Sodré* - Promíscuas parcerias

Folha de S. Paulo

Promiscuidade é palavra-chave para se entender a expansão local do crime

Cena de interesse acadêmico para a operação de GLO no Rio: a Polícia Federal prende um criminoso, cuja escolta eram dois policiais militares e um sargento do Exército. Se, por hipótese, o ato se estendesse à estrutura de sustentação do absurdo, seria preso também algum vereador, algum deputado, algum promotor, algum juiz.

Promiscuidade é palavra-chave para se entender a expansão local do crime. O fenômeno pode evidenciar-se em outros estados, mas a imprecisão dos limites fluminenses entre poder oficial e criminalidade beneficia-se de uma transfusão inatingível por planos pontuais de segurança pública.

Bruno Boghossian - Milei e o mito da moderação

Folha de S. Paulo

Ultradireitista só vencerá se tiver apoio de políticos e eleitores dispostos a endossá-lo como um cheque em branco

Após o primeiro turno, Javier Milei se reuniu em segredo com Mauricio Macri. O ultradireitista pediu (e levou) o apoio do ex-presidente argentino, que indicou economistas para a campanha do aliado. No jantar, falou-se de um governo de cooperação em caso de vitória, mas Milei se esquivou desse plano em público.

O candidato populista passou a última etapa da campanha na Argentina encenando o conhecido espetáculo de equilibrismo dos histriões da política. Buscou o abraço do establishment de direita e tentou envernizar um programa de governo explosivo, mas teve o cuidado de não afastar o eleitorado que se deixou seduzir pelo barulho original.

Vinicius Torres Freire - As opções mortais da Argentina

Folha de S. Paulo

Estabilização vai causar mais dor social; presidente não terá maioria parlamentar

Suponha-se que Javier Milei ganhe a eleição. Sua coalizão, "La Libertad Avanza", tem 38 dos 257 deputados da Câmara. No segundo turno, Milei tem o apoio do fracassado ex-presidente Mauricio Macri e de Patricia Bullrich, presidenciável derrotada, ambos da "Juntos por el Cambio" (JxC), de centro-direita. Juntas, as coalizões teriam 131 deputados, maioria. Não vai acontecer.

A JxC talvez não dure até o ano que vem. Um dos partidos do grupo, a União Cívica Radical (UCR), rompeu com Macri, que chama de traidor e culpa pela derrota de Bullrich. A UCR tem 25 deputados —alguns talvez se juntem a Sergio Massa. O PRO de Macri tem 41, mas alguns não toleram Milei. Etc. O "Unión por la Patria" de Massa tem 108 deputados. Ninguém tem maioria.

Ricardo Rangel - Um Congresso disfuncional

Revista Veja

O Parlamento fecha os olhos e insiste em velhos hábitos

No ano de 1215, nobres ingleses se rebelaram contra um rei que cobrava impostos escorchantes e crescentes e o obrigaram a assinar a Magna Carta. Criou-se o Parlamento, um conselho para fiscalizar o monarca e garantir que ele cumprisse a lei e não gastasse irresponsavelmente.

É função precípua do Parlamento, desde sua origem, manter o Executivo na linha. Mas Bolsonaro infringiu a lei incontáveis vezes, gastou muito mais do que poderia, desmontou as instituições e atentou contra a democracia — e o Congresso nada fez. As finanças se deterioram, Lula dinamita a responsabilidade fiscal, gasta de maneira temerária e avisa que quer gastar ainda mais — e o Congresso aplaude. Até porque ano que vem tem eleição. Os parlamentares não são só lenientes, como participam e se locupletam com entusiasmo. O Centrão (a turma que fez a festa no mensalão, no petrolão e no orçamento secreto) faz a festa com o Orçamento Secreto 2.0 — O Retorno: as emendas RP9 de antes agora são emendas RP2 e emendas Pix. E pau na máquina.

Fernando Schüler* - A reforma e os sem-lobby

Revista Veja

Poderíamos ser melhores, como país, do que estamos demonstrando

Os táxis agora estão lá, na Constituição. Não me surpreendo. Talvez tenhamos a única Constituição do planeta dizendo que um colégio (no caso, o Pedro II, no Rio de Janeiro), deve permanecer federal. Agora transformamos a alíquota zero para a compra de táxis em um direito constitucional. Ninguém deu lá muita bola para esse grãozinho de areia, no mar de regimes especiais em que se transformou nossa reforma tributária. E ninguém fez conta para saber quanto a brincadeira custará ao contribuinte “desorganizado”. De minha parte, fiz um ensaio. Supondo-se que tenhamos 245000 taxistas (número que recebeu a bolsa-taxista), trocando de carro a cada cinco ou seis anos (desconto médio de 20000 reais?), teríamos um custo perto de 1 bilhão de reais. O número pode variar um pouco. A pergunta é: para que isso? A justificativa diz que não seria razoável que um benefício já consolidado e de tamanha importância para esses dois grupos seja extinto. Detalhe: os dois grupos são as pessoas com deficiências e do espectro autista. Táxis entraram de carona, sem muita lógica. Os aplicativos estão aí, não há mais monopólio, os preços caíram. Então por que raios uma conta dessas no bolso do contribuinte? E mais: como algo assim vira um direito constitucional?

Poesia | É noite. A noite é muito escura - Fernando Pessoa com narração de Mundo dos Poemas

 

Música | Copacabana de Sempre - Andrea Amorim, Roberto Menescal e Brasilidade Geral