sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Os tucanos que se cuidem - Eliane Cantanhêde

Desde 2004, o Brasil caiu de 15º para 6º lugar no índice de inflação na América do Sul, mas a coisa é mais grave em São Paulo, onde, segundo o Dieese (departamento sindical responsável por esse tipo de estatística), o custo de vida teve a maior alta em dez anos.

O Brasil também registrou uma queda de 1,4% no nível de empregos da indústria em 2012, mas a coisa, mais uma vez, fica pior em São Paulo, onde, segundo o IBGE (que acompanha os níveis de ocupação), a retração foi de 2,6%, só melhor do que no Nordeste (2,7%).

Para o cidadão, os números dizem muito pouco e tanto faz se a culpa é do governo federal, do Estado ou do município. O que importa é a percepção de que os preços dos alimentos estão aumentando e que as fábricas já não estão tão acolhedoras para novas contratações. E o governador será o "culpado" mais ao alcance da mão, e do voto, nas eleições de 2014.

Com Dilma bem embalada por Lula, por medidas muito populares -como queda na conta de luz- e pelos aumento dos índices oficiais de inclusão social, a reversão de humor pode cair não na sua candidatura à reeleição à Presidência, mas, sim, na de Geraldo Alckmin à reeleição ao governo do Estado.

A isso se somam o poder deletério do aumento da violência sobre a imagem do governador, o desgaste natural de quase duas décadas de PSDB no poder estadual e a alternância entre Alckmin e Serra em sucessivas disputas, sufocando o surgimento de lideranças tucanas.

Enquanto Lula põe a criatividade em ação para sacar uma nova Dilma ou um novo Haddad para o Bandeirantes, Alckmin pode ir se preparando para uma eleição muito difícil no ano que vem.

Se tem a máquina, ele vem perdendo em imagem e não vai ter lá grandes suportes no resto da chapa. Com tantos pré-candidatos ao Senado, por exemplo, o PSDB certamente não tem "o" candidato.

Fonte: Folha de s. Paulo

Dez anos de presidência petista - Rogério Furquim Werneck

Na próxima semana, o PT deve comemorar em grande estilo dez anos de conquista da Presidência. Não é pouco. A festa é mais do que justa. Foi um decênio marcado por alto grau de continuidade. A junção do governo de Dilma ao de Lula foi sem costura. Em contraste com o slogan "continuidade sem continuísmo", com que José Serra pretendia disfarçar seu discurso de oposição a FHC, na eleição de 2002, Dilma Rousseff deixou claríssimo, na campanha de 2010, que seu governo teria a marca da continuidade com continuísmo. Para grande orgulho do PT.

Não poderia ter sido diferente. Desde de 2005, quando foi alçada à Casa Civil, em meio ao descabeçamento do partido que se seguiu ao mensalão, Dilma Rousseff atrelou seu destino ao presidente Lula. Assumiu a administração do Planalto, transformou-se na figura forte do governo e, sem experiência eleitoral prévia, foi ungida candidata do PT. E, para assombro dos que duvidavam dos superpoderes de Lula, acabou eleita presidente da República.

Um alto grau de continuidade entre dois governos tem muitas vantagens. Mas, aos poucos, o Planalto vem se dando conta de que também tem suas desvantagens. Quando as coisas dão errado, o governo se vê sem espaço para atribuir parte dos erros à administração anterior. Não faltam bons exemplos. Alguns óbvios. Outros, nem tanto.

A presidente Dilma Rousseff tem plena consciência de que um quadro sério de falta de energia elétrica lhe seria fatal, tendo em vista o papel central que vem desempenhando, há exatos dez anos, nas intervenções do governo no setor. Não teria com quem partilhar os custos de uma falha grave nessa área.

A interminável sequência de más notícias sobre a Petrobras também merece atenção. Em face do enorme desgaste político, o governo tem tentado conter os danos, dando discreto alento à narrativa favorável que se vê em parte da mídia. Os problemas da empresa vinham do governo anterior. E, só no ano passado, puderam ser detectados e enfrentados pelo atual governo, com a nomeação da nova presidente da Petrobras.

É até uma boa história. Mas incompleta. O que ainda falta explicar é que, durante sete dos oito anos do governo Lula, a presidente Dilma Rousseff ocupou nada menos que a presidência do Conselho de Administração da Petrobras. E não se pode dizer que era função puramente figurativa. Afinal, se tratava da maior sociedade anônima do País. É mais do que sabido que a presidente se dedicou à função com seu empenho habitual. E, tendo chegado à presidência do Conselho como ministra de Minas e Energia, fez questão de manter a posição quando passou a responder pela Casa Civil.

É preciso também ter em mente que boa parte das dificuldades que vêm sendo enfrentadas pela Petrobras decorre da sobrecarga que foi imposta à empresa pelas impensadas regras de exploração do pré-sal. Todas elas concebidas no governo passado, sob a estrita tutela de Dilma Rousseff.

Outra narrativa conveniente, e também incompleta, é a que vem pautando a racionalização do emperramento do investimento público. A alegação é que, surpreendida com as irregularidades detectadas nos programas de investimento de certas áreas, como o Ministério dos Transportes, a presidente se viu obrigada a fazer uma "faxina". E levou muito tempo para conseguir remontar toda a estrutura burocrática requerida para fazer o investimento acontecer. O que falta explicar é como irregularidades desse vulto escaparam por tantos anos, no governo Lula, à eficiência com que Dilma Rousseff teria gerido os programas de investimento público que compunham o PAC.

Na condução da política econômica, o continuísmo assumiu um contorno especialmente problemático. Havia até boas coisas a preservar. Mas o que o atual governo decidiu manter, ao conservar intacta a equipe do eixo Fazenda-BNDES, foi o vale-tudo da última fase do período Lula, que contava com o apoio entusiástico da candidata Dilma Rousseff. A presidente está colhendo o que plantou. Não pode se queixar da perda de credibilidade da política econômica que hoje se vê.

Economista e professor da PUC-Rio

Fonte: O Globo

Como o governo ressuscitou a inflação – Roberto Freire

Dez anos de governos do PT em nível federal, sendo os dois últimos sob o comando da presidente Dilma Rousseff, foram suficientes para que uma das maiores conquistas recentes da sociedade brasileira fosse colocada em risco.

O controle da inflação, bandeira erguida durante o governo Itamar Franco, permitiu que a população aumentasse seu poder de compra e planejasse minimamente o próprio orçamento sem se deparar com surpresas desagradáveis. Quase 20 anos após o Plano Real, que derrotou a inflação no Brasil, o país volta a sofrer com a alta nos preços e um cenário de absoluta incerteza.

De acordo com números divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a inflação subiu de 0,79% em dezembro para 0,86% em janeiro, atingindo 6,15% no índice acumulado dos últimos 12 meses.

A meta de inflação estipulada pelas autoridades brasileiras é de 4,5% ao ano, com tolerância de dois pontos percentuais. O índice atual já está, portanto, beirando o teto da meta, de 6,5%.

Trata-se da maior alta de preços em oito anos, desde abril de 2005, e da sexta maior inflação de toda a América Latina, inferior apenas às taxas ostentadas por Venezuela, Argentina, Haiti, Uruguai e Nicarágua. Para se ter uma ideia da grave situação em que se encontra o Brasil, em 2006 o indicador do país era o 15º entre 18 nações latino-americanas.

Seis anos depois, o México, segunda maior economia da região e concorrente brasileiro na busca por investimentos externos, tem uma inflação de 3,6%. O Chile, de apenas 1,5%. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, exímio na arte de dourar a pílula, insiste em negar o óbvio, mas o bolso do trabalhador já sente há tempos o efeito perverso da incompetência da equipe econômica do governo do PT.

O preço dos alimentos, por exemplo, subiu 9,86% em 2012 e 1,63% em janeiro deste ano. Os números também mostram que a alta é difusa, o que deixa a inflação mais espalhada. Em janeiro, essa elevação atingiu 75,1% dos itens da cesta do custo de vida, o maior avanço desde maio de 2003.

Outro exemplo trágico da inabilidade da atual administração, que mais atrapalha do que ajuda quando resolve se mexer, é o controle de preços praticado sobre os combustíveis.

No ano passado, simplesmente ignorando a diferença entre os preços do Brasil e do exterior, o governo não autorizou nenhum reajuste para evitar uma pressão inflacionária. A emenda saiu pior que o soneto, e o resultado foi a assustadora queda no lucro líquido da Petrobras, 36% menor em 2012 do que em 2011, alcançando o índice mais baixo desde 2004.

Como se vê, várias decisões equivocadas do governo agravaram uma situação que já era delicada. Para infortúnio de milhões de brasileiros, o que se tem hoje no país é quase uma proeza da administração petista: os preços estão nas alturas, por um lado, e a economia segue empacada, por outro, com pouco investimento e baixa atividade industrial.

A "estagflação", termo utilizado por economistas para caracterizar um quadro de inflação em alta combinada com estagnação econômica, é a grande marca do governo Dilma. E o retrato mais bem acabado de sua inépcia administrativa.

Roberto Freire é deputado federal (SP) e presidente nacional do PPS

Fonte: Brasil Econômico

O legado do renunciante no Brasil - Maria Cristina Fernandes

O evento mais midiático da visita do papa Bento XVI ao Brasil em 2007 foi a beatificação de um franciscano que enfrentou o poder secular na defesa de um soldado negro condenado à forca. E o de menor interesse público foi a assinatura do acordo para que o Estado brasileiro e a Santa Sé formulassem o estatuto jurídico da igreja católica no país.

Bento XVI havia sido sagrado dois anos antes e, nesse pequeno extrato de seu papado, foi capaz de traduzir a missão política de que se investira.

Com a beatificação de Frei Galvão dispunha-se a mostrar que a "opção preferencial pelos pobres" não poderia ser reinvindicada exclusivamente pela banda do clero, em baixa no Vaticano, que, anos atrás, havia se irmanado com movimentos sociais para o surgimento do PT do presidente da República.

Igreja protegeu bens contra ações trabalhistas

Mas se a beatificação conferiu simbolismo à visita política de um teólogo, o capítulo mais substancioso de sua passagem foi a assinatura do acordo negociado por 17 anos entre os dois Estados.

O acordo, que acabaria virando estatuto ao final do segundo mandato Luiz Inácio Lula da Silva, não vai além do que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação prevê para o ensino religioso nem inibe a possibilidade de, um dia, o Estado descriminalizar o aborto.

A maior vitória da igreja com o texto foi a inclusão de um artigo que prevê o trabalho voluntário, sem vínculo empregatício, de leigos, padres e freiras que trabalham em instituições católicas. É nas ordens religiosas e não nas paróquias que está a maior fonte de renda da igreja. São os hospitais, escolas e imóveis dessas ordens que se viram crescentemente ameaçados pelas reclamações trabalhistas tanto de leigos quanto de padres e freiras que abandonam o hábito.

Além de um gesto de boa vontade com a Santa Sé, o governo petista agradava o comando da CNBB, de hegemonia conservadora à época e com a qual comungavam bispos como o então cardeal do Rio, d. Eusébio Scheidt, responsável pela desastrada definição do presidente: "Lula não é católico, é caótico".

Oito meses depois de promulgado o estatuto e três dias antes do segundo turno da tumultuada sucessão presidencial de 2010 o papa recebeu uma comitiva de bispos brasileiros que saíram do Vaticano com um recado para os eleitores. Não deveriam votar em candidatos que defendessem o aborto, mesma pregação do postulante do PSDB à Presidência, José Serra.

Além de ter tido fôlego curto na garantia de boas relações entre o petismo e a Santa Sé, o acordo indispôs um governo de extrato trabalhista com os movimentos sociais que abastecem de mão de obra as pastorais sociais da igreja.

Colaborou ainda para o azedume das relações entre o governo brasileiro e a cúpula eclesiástica a prosperidade dos negócios pentecostais sob o governo petista. A questão que mais parece pôr em xeque o papel da igreja na conjuntura, no entanto, é a perda de audiência católica em entre aqueles que passaram a consumir mais, seja pela ampliação do emprego e dos programas sociais, seja pela disputa com denominações mais identificadas com o ideário da prosperidade.

Se essa perda de fieis ainda não ameaça a condição de maior país católico do mundo tampouco colabora para aumentar o peso do episcopado brasileiro nos rumos de um papado voltado para a reevangelização do catolicismo europeu que Bento XVI sempre creu superior.

Pela frequência com que tem se pronunciado desde que anunciou sua renúncia, Bento XVI chegará a 28 de fevereiro, dia em que descalcará seus múleos vermelhos, como um cabo eleitoral de seu sucessor mais poderoso do que se exercesse o cargo vitalício até o fim, tolhido que parecia estar pelas intrigas da Cúria relatadas pelos mais eminentes especialistas em Vaticano.

Na homilia que deu início à quaresma pediu o fim das divisões do corpo eclesial. Como se quisesse deixar claro que o fim dessas divisões não deveria significar a prevalência de tendências mais modernizantes do catolicismo, reuniu os padres de Roma ontem e reafirmou suas críticas a leituras do Concílio Vaticano II, que "banalizaram a liturgia em nome da soberania popular".

Essas leituras criticadas pelo papa viram no concílio o início de uma maior abertura da igreja ao ecumenismo, ao diálogo com a ciência e à solidariedade com o mundo subdesenvolvido.

A maioria dos 117 cardeais que votarão no próximo conclave foi escolhida por Bento XVI e por João Paulo II, cujo papado foi fortemente influenciado pelo então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que o sucederia.

Não se deve esperar deste conclave, portanto, uma guinada teológica. Mas a renúncia expôs as disputas mais terrenas que pressionarão o cardinalato a sinalizar punições a crimes de sexo e dinheiro. Na homilia da quaresma Bento XVI fez uma menção sutil ao condenar a "hipocrisia religiosa, o comportamento dos que querem aparentar, as atitudes que buscam os aplausos e a aprovação".

A resistência dos últimos oito anos de papado em punir bispos omissos em relação aos crimes sexuais cometidos pelos padres de suas paróquias não recebeu, de fato, aplausos nem aprovação.

A rede de sobreviventes de abusos de padres, uma ativa organização sediada nos Estados Unidos, já listou três cardeais indesejáveis - de Nova York, Tegucigalpa e Cidade do México - por serem os maiores críticos à cobertura da imprensa sobre o tema.

Na outra frente de problemas, de punição ainda mais escassa, a corrupção no Instituto para as Obras do Vaticano revela um papa imobilizado pelas intrigas da Cúria e refém de interesses que passam pela lavagem de dinheiro da máfia, de políticos e construtoras, como denunciou seu último dirigente ao demitir-se no ano passado.

Não são problemas novos mas que, nos últimos oito anos, apenas se agravaram, pondo em xeque o legado da superioridade moral da igreja católica, tão caro ao papa que se vai.

Fonte: Valor Econômico

'Renúncia irritou ala conservadora da Igreja'

Para vaticanista, temor de tradicionalistas é o de que decisão de Bento XVI ajude a desmistificar papel do papa

Jamil Chade e Filipe Domingues

CIDADE DO VATICANO - A decisão de Bento XVI de renunciar foi um gesto de "realpolitik", pragmático. A avaliação é de um dos principais vaticanistas, o italiano Marco Politi, que acaba de publicar um livro sobre o pontificado de Bento XVI. Em entrevista ao Estado, Politi apontou que, no fundo, a demissão de Bento XVI foi sua "única grande reforma" nos oito anos de seu pontificado. Mas uma iniciativa que ficará para a história e fará muitos pensarem sobre o futuro da Igreja.

Renúncia foi um gesto revolucionário - a única grande reforma de seu pontificado, diz Marco Politi

Segundo o especialista, a ala mais conservadora da Igreja teria ficado irritadíssima com Bento XVI por conta de sua renúncia, temendo uma "desmistificação" do cargo de papa a partir de agora. Eis os principais trechos da entrevista:

Como foi a reação dentro do Vaticano diante da renúncia?

Os conservadores temem a decisão. O temor é de que isso possa causar uma desmistificação do papel do papa. E que, no futuro, um papa possa ser colocado sob pressão para se demitir em determinadas situações. Mas a decisão foi muito lúcida e muito bem planificada. Foi um gesto revolucionário - a única grande reforma de seu pontificado, um exemplo e um estímulo à reflexão. Na Alemanha, há cardeais que já falam abertamente de que seria justo colocar um limite de idade para o papa. Bento XVI completou a reforma de João Paulo II, estabelecendo idades para cardeais e sua participação no conclave. Agora, mandou a mensagem de que um papa pode, sim, renunciar. Nos tempos modernos, não se pode permitir um papa doente.

Fala-se muito de que a renúncia foi um ato político. Como o sr. avalia isso?

Foi um gesto de realpolitik e de reconhecimento da incapacidade sua de cuidar da Igreja, pois não basta ser um intelectual ou teólogo. Para guiar a instituição de 1 bilhão de fiéis, ele precisava de um pulso de governador.

Há o risco de que católicos no mundo não entendam essa decisão de Bento XVI?

Acho que a massa dos fiéis entendeu. Muitos ficaram surpresos e, no começo, desorientados. Mas não houve uma oposição ou mau humor. Na Praça São Pedro, não vimos nenhum grupo pedindo que ele fique. Entenderam que foi justamente uma troca de governo. O papa foi muito pragmático.

Quais são as perspectivas para o conclave, diante dessa situação inédita?

Dentro do conclave, todas as cartas estão embaralhadas. Será um conclave muito complicado. Em 2005, havia um grupo forte de apoio e de mobilização pela candidatura de Ratzinger. Mas ele era o único ator mais forte. O cardeal Martini seria uma opção, mas estava doente. Hoje, temos vários candidatos. Mas nenhum deles tem um pacote de votos claro. O vencedor será um candidato de centro. Não poderá ser alguém de continuidade de Ratzinger. Mas não sabemos se essa pessoa está disposto a fazer as reformas que a Igreja precisa para enfrentar seus desafios.

Quais são esses desafios?

O primeiro é a crise de padres. Não há padres para todas as paróquias. Outro é o papel das mulheres dentro da Vaticano. Há ainda o tema da sensualidade no mundo moderno, o homossexualismo, o divórcio. Finalmente, há a questão do papel do papa.

Um papa do mundo em desenvolvimento estaria sendo considerado?

A primeira questão é se haverá um papa italiano ou não. Os 29 cardeais italianos no conclave estão sobrerrepresentados. Mas isso não quer dizer que todos eles queiram um italiano. Há divisões. No passado, eram os estrangeiros que pediam para que o papa fosse um italiano. Mas há a impressão depois que os escândalos de corrupção foram revelados de que muitos querem que a internacionalização do papado continue. Ele poderá vir da América do Norte ou Sul. Eu dou menos chances aos africanos. Na América Latina existem vários candidatos. Mas há que ver se haverá um mais forte que concentre a atenção. Em 2005, no conclave, os latino-americanos fecharam um acordo de que apoiariam um nome da região se um cardeal começasse a se destacar.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Bento 16 pede a cardeais "verdadeira renovação" da Igreja Católica

O papa Bento 16 pediu nesta quinta-feira uma verdadeira renovação da Igreja Católica, após uma reunião com o clero no Vaticano. O encontro acontece quatro dias após o pontífice anunciar sua renúncia ao posto, na segunda (11).

Em discurso durante a reunião com cardeais, ele defendeu que sejam mantidas as metas do Concílio Vaticano 2º e que a renovação da instituição se mantenha.

Os bispos auxiliares da diocese e as centenas de sacerdotes lhe receberam com aplausos, vivas ao papa e outras mostras de carinho. O papa Ratzinger entrou apoiado em um bastão, enquanto os aplausos se misturaram com o canto "Tu sei Petrus" (Tu és Pedro).

Ele respondeu com um largo sorriso e dando várias vezes obrigado pelas mostras de carinho e uma vez sentado, detrás de uma mesa, falará com eles, sem texto previsto.

O pontífice agradeceu o afeto e o amor demonstrado pelo clero durante seus quase oito anos de pontificado. "Mesmo me retirando, estarei sempre perto de todos vocês na oração, e vocês estarão perto de mim, apesar de eu estar escondido do mundo".

Por sua vez, o vigário-geral de Roma, Agostino Vallini, saudou o pontífice e o elogiou, chamando-o de exemplo de vida. "Santo Padre, durante estes anos o senhor sempre nos pediu para o acompanharmos com a oração e, nestes dias difíceis, o pedido se tornou mais urgente", disse o cardeal.

A reunião com os sacerdotes da diocese de Roma já estava marcada, mas adquiriu um significado maior por ser a última vez que Bento 16 se pronunciará como papa antes de sua renúncia, no próximo dia 28.

Fonte: Folha de S. Paulo

Reflexões de dois grandes intelectuais em 2004: J. Habermas e Joseph Ratzinger

Sob o impacto da guerra do Iraque, Habermas e Joseph Hatzinger se encontraram para discutir o tema da necessidade de o poder ser submetido a um direito comum. Os dois intelectuais analisaram a nova ordem política e cultural do ocidente. A reunião teve lugar na Academia Católica da Baviera, em Munique, em 19 de janeiro de 2004. O cardeal Hatzinger, um pouco mais de um ano depois se tornaria o Papa Bento 16. Transcrevemos algumas dessas reflexões, à época divulgadas pela Folha de São Paulo.

J. Habermas: “Os secularizados não devem negar potencial de verdade a visões de mundo religiosas”

“O tema proposto para nossa discussão evoca uma pergunta que o historiador Ernst Wolfgang Böckenforde apresentou nos anos 60 por meio da seguinte fórmula: o Estado liberal e secularizado consome pressupostos normativos que ele mesmo não pode garantir?

Nisso se expressa a incerteza de que o Estado constitucional democrático possa renovar os pressupostos da sua existência a partir de seus próprios recursos, assim como a suspeita de que ele está voltado para tradições autóctones quanto a concepções de mundo ou religiosas, em todo caso, de modo coletivamente obrigatório, éticas. Isso colocaria o Estado, obrigado a uma neutralidade quanto a concepções de mundo, em dificuldade em vista do `fato do pluralismo`. Entretanto somente essa inferência não fala contra a própria suposição.

Em primeiro lugar, gostaria de especificar o problema de acordo com dois pontos de vista. Sob o ponto de vista cognitivo, a dúvida relaciona-se à questão se um domínio político, após uma total positivização do direito, ainda é acessível a uma justificação secular, quer dizer, não religiosa ou pós-metafísica.

Ainda que se conceda uma tal legitimação, subsiste, quanto ao ponto de vista motivacional, a dúvida se uma coletividade pluralista quanto a concepções de mundo pode ser estabilizada de um modo normativo, portanto para além de um simples modus vivendi, pela subordinação a um entendimento de fundo, na melhor das hipóteses formal, limitado a procedimentos e princípios.

Mesmo que se possa desmanchar tal dúvida, permanece o fato de que ordenamentos liberais se encontram direcionados para a solidariedade de seus cidadãos, e suas fontes poderiam, em consequência de uma secularização `descarrilhada`, fracassar completamente. Esse diagnóstico não pode ser recusado, mas não precisa ser entendido como se os cultos entre os defensores da religião estivessem, a partir disso, criando, até certo ponto, uma mais-valia.

Em vez disso, vou sugerir que se entenda a secularização cultural e social como um processo didático duplo, que obriga as tradições do Iluminismo assim como as doutrinas religiosas a uma reflexão acerca das suas respectivas fronteiras. Em vista de sociedades pós-seculares, coloca-se a questão acerca de que atitudes cognitivas e quais expectativas normativas o Estado liberal precisa atribuir aos seus cidadãos crentes e descrentes no convívio entre si”

Joseph Ratzinger: “O homem desceu até o fundo do poder, até a fonte de sua própria existência”

“Na aceleração do ritmo dos desenvolvimentos históricos na qual nos encontramos, parece-me que destacam-se, sobretudo, dois fatores como marcas de um desenvolvimento que antes começava a mover-se lentamente: de um lado, temos a formação de uma sociedade mundial, na qual os poderes políticos, econômicos e culturais singulares têm sua atenção voltada uns para os outros sempre mais e, nos seus espaços diversos, tocam-se e interpenetram-se mutuamente.

Por outro lado, temos o desenvolvimento das possibilidades do homem, do poder, de fazer e destruir, que – para muito além de tudo com que se estava acostumado até agora – levanta a pergunta pelo controle jurídico e moral do poder. Assim é altamente urgente a pergunta acerca de como as culturas que entram em contato podem encontrar fundamentos éticos que possam conduzir sua comunhão ao caminho justo e construir uma configuração comum, responsável juridicamente, que dome e ordene o poder”

Cf. Folha de São Paulo, O cisma do século 21, Mais!, 24 de abril de 2005.

Caetano Veloso - Desde que o Samba é samba

O sertanejo falando – João Cabral de Melo Neto

A fala a nível do sertanejo engana:
as palavras dele vêm, como rebuçadas
(palavras confeito, pílula), na glace
de uma entonação lisa, de adocicada.
Enquanto que sob ela, dura e endurece
o caroço de pedra, a amêndoa pétrea,
dessa árvore pedrenta (o sertanejo)
incapaz de não se expressar em pedra.

Daí porque o sertanejo fala pouco:
as palavras de pedra ulceram a boca
e no idioma pedra se fala doloroso;
o natural desse idioma fala à força.
Daí também porque ele fala devagar:
tem de pegar as palavras com cuidado,
confeitá-la na língua, rebuçá-las;
pois toma tempo todo esse trabalho.

(A educação pela pedra, 1962-1965)

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

OPINIÃO DO DIA - J. Habermas: “Os secularizados não devem negar potencial de verdade a visões de mundo religiosas”

O tema proposto para nossa discussão evoca uma pergunta que o historiador Ernst Wolfgang Böckenforde apresentou nos anos 60 por meio da seguinte fórmula: o Estado liberal e secularizado consome pressupostos normativos que ele mesmo não pode garantir?

Nisso se expressa a incerteza de que o Estado constitucional democrático possa renovar os pressupostos da sua existência a partir de seus próprios recursos, assim como a suspeita de que ele está voltado para tradições autóctones quanto a concepções de mundo ou religiosas, em todo caso, de modo coletivamente obrigatório, éticas. Isso colocaria o Estado, obrigado a uma neutralidade quanto a concepções de mundo, em dificuldade em vista do `fato do pluralismo`. Entretanto somente essa inferência não fala contra a própria suposição.

Em primeiro lugar, gostaria de especificar o problema de acordo com dois pontos de vista. Sob o ponto de vista cognitivo, a dúvida relaciona-se à questão se um domínio político, após uma total positivização do direito, ainda é acessível a uma justificação secular, quer dizer, não religiosa ou pós-metafísica.

Ainda que se conceda uma tal legitimação, subsiste, quanto ao ponto de vista motivacional, a dúvida se uma coletividade pluralista quanto a concepções de mundo pode ser estabilizada de um modo normativo, portanto para além de um simples modus vivendi, pela subordinação a um entendimento de fundo, na melhor das hipóteses formal, limitado a procedimentos e princípios.

Mesmo que se possa desmanchar tal dúvida, permanece o fato de que ordenamentos liberais se encontram direcionados para a solidariedade de seus cidadãos, e suas fontes poderiam, em consequência de uma secularização `descarrilhada`, fracassar completamente. Esse diagnóstico não pode ser recusado, mas não precisa ser entendido como se os cultos entre os defensores da religião estivessem, a partir disso, criando , até certo ponto, uma mais-valia.

Em vez disso, vou sugerir que se entenda a secularização cultural e social como um processo didático duplo, que obriga as tradições do Iluminismo assim como as doutrinas religiosas a uma reflexão acerca das suas respectivas fronteiras. Em vista de sociedades pós-seculares, coloca-se a questão acerca de que atitudes cognitivas e quais expectativas normativas o Estado liberal precisa atribuir aos seus cidadãos crentes e descrentes no convívio entre si

Fonte: Folha de S. Paulo

Manchetes de alguns dos principais jornais do país

O GLOBO
Vila de Martinho é a campeã
Papa condena divisão da Igreja e hipocrisia religiosa
EUA e Europa podem ter acordo
Ministérios não seguem normas

FOLHA DE S. PAULO
Bento 16 critica divisão na igreja e fala em hipocrisia
Para arcebispo de SP, papa não foi bem interpretado
Aumentam fiscalização e autuações da lei seca
Partido de Marina vetará doações da indústria de bebidas
De Michelangelo a Rafael, conheça as obras-primas do Vaticano

O ESTADO DE S. PAULO
Bento XVI critica ‘hipocrisia religiosa’ e Igreja ‘desfigurada’
Governo rompe silêncio após 2 dias
Justiça ignora PF em caso de segurança
Com lei seca, estradas têm 13% menos mortes

VALOR ECONÔMICO
União traça limite para a negociação da MP dos portos
BC vê mão de obra mais qualificada
Faltam US$ 2 tri para investimentos globais
Susep sofre com falta de estrutura

BRASIL ECONÔMICO
Conta de luz começa a chegar ao consumidor com desconto de 26%
Economistas prevêem inflação em alta pela sexta semana seguida
Planalto quer retomar esforço de exportações para o mundo árabe
Governo e fundos de pensão não se entendem sobre meta atuarial

CORREIO BRAZILIENSE
“Divisões deturpam a igreja”, alerta o Papa
Dilma sofre lesão no pé
Lei seca mais rígida, trânsito menos violento

ESTADO DE MINAS
Tristeza e aplausos na última missa do Papa Bento XVI
Remédio para dor traz risco para os rins

O TEMPO (MG)
Corrida presidencial começa já em Minas com Lula e FHC
Preço do arroz e do feijão sobem quase 200% em 10 anos
Petrobras importou volume recorde de gasolina em 2012

GAZETA DO POVO (PR)
Copel amplia oferta de banda larga residencial no estado
Bento XVI reza missa em tom de despedida na Basílica de São Pedro
Justiça nega aposentadoria especial para parlamentares
Marina convoca simpatizantes para fundação de novo partido
Joaquim Barbosa quer diminuir as férias de 60 dias dos juízes

ZERO HORA (RS)
Nova empresa de pedágios não terá fôlego para obras
Polícia notifica prefeitura de Santa Maria

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
Mais blitz e menos multa
Dilma machuca o pé e cancela visita ao estado

O Que pensa a mídia - editoriais de alguns dos principais jornais do país

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Papa condena divisão da Igreja e hipocrisia religiosa

No último e talvez o mais político de seus sermões, o Papa Bento XVI surpreendeu mais uma vez, ao falar abertamente da existência de "divisões do corpo eclesiástico" que, segundo ele, "desfiguram a face da Igreja” e colocam em perigo sua unidade. Bento XVI condenou a hipocrisia religiosa e abordou indiretamente os escândalos que sacodem o Vaticano nos últimos anos, relata Deborah Berlinck

Ataque à hipocrisia religiosa

Em sua última missa aberta, Papa denuncia Igreja "desfigurada por divisões eclesiásticas"

Deborah Berlinck

ROMA - Padres, freiras, beatos e fiéis do mundo inteiro correram ontem para a porta do Vaticano e passaram horas no frio, numa fila que formava um enorme caracol, para ouvir o último e talvez mais político sermão do Papa Bento XVI. Dois dias após o anúncio bombástico de que vai renunciar no dia 28 - um gesto que não acontecia há 600 anos - e em meio a boatos sobre intrigas, divisões e escândalos dentro do Vaticano, o Pontífice surpreendeu mais uma vez ao falar abertamente da existência de "divisões do corpo eclesiástico" que, segundo ele, "desfiguram a face da Igreja" e põem em perigo "sua unidade".

Citando o Evangelho, o Papa convocou os fiéis a pensar na importância da fé e da vida cristã. Foi aí que ele mencionou a deturpação da imagem da Igreja e conclamou todos a "superar o individualismo e as rivalidades":

- (Deve-se refletir sobre)& a importância do testemunho da fé e da vida cristã de cada um de nós e das nossas comunidades para manifestar a face da Igreja que, às vezes, é desfigurada. Penso, em particular, nos golpes contra a unidade da Igreja, nas divisões no corpo eclesiástico.

Os escândalos que sacodem o Vaticano nos últimos anos também foram indiretamente mencionados por Bento XVI, que insistiu na necessidade de unidade da Igreja.

- Muitos estão preparados a rasgar suas vestimentas (uma alusão às batinas) diante dos escândalos e das injustiças, naturalmente cometidos por outros, mas poucos parecem disponíveis a agir com o coração, com a própria consciência, com suas próprias intenções, deixando que o Senhor transforme, renove e converta - disse o Pontífice.

Para teólogo, uma crítica ao "carreirismo"

O sermão foi centrado na crítica aos hipócritas religiosos. Ele aconselhou as pessoas a não pregarem religião só por "aplausos e aprovação".

- Jesus enfatiza que tanto a qualidade como a verdade do nosso relacionamento com Deus qualificam a autenticidade de cada ato religioso. Consequentemente, ele denuncia a hipocrisia religiosa, o comportamento que quer aparecer, os gestos que buscam o aplauso e aprovação - afirmou Bento XVI.

O teólogo Vito Mancuso disse que o discurso foi um "ataque ao carreirismo presente na Igreja" Católica. Mas, segundo ele, mais do que estar ligado a uma contingência do momento, reflete a visão do mundo e do cristianismo "típicas" do Pontífice.

A despedida, numa missa inicialmente ordinária para celebrar a Quarta-Feira de Cinzas, mas que acabou virando um evento histórico bem maior, foi carregada de emoção. Ovacionado de pé por vários minutos ininterruptos, Bento XVI arrancou lágrimas até de um dos religiosos que estavam com ele no altar, que tirou um lenço para enxugar os olhos - cena raramente vista no Vaticano.

- Nunca mais vou esquecer da experiência desta missa - disse o cardeal brasileiro João Braz de Aviz, um papável que vai participar da escolha do sucessor de Bento XVI.

O clima de emoção na Basílica era não apenas pela surpresa da decisão histórica do Pontífice, mas pelas dúvidas que isso suscitou dentro do próprio Vaticano sobre o rumo da Igreja Católica num mundo onde a religião perde espaço em alguns lugares, ao mesmo tempo em que é tomada pelo fundamentalismo em outros.

O GLOBO presenciou uma breve conversa entre um dos influentes cardeais do Vaticano - o africano Peter Turkson, de Gana, que lidera as preferências para assumir o comando da Santa Sé na William Hill, a maior casa de apostas do Reino Unido - e um outro religioso.

-E agora? Estou muito preocupado& - disse o religioso.

- Não fique preocupado. Não há motivo para se preocupar - confortou Turkson.

O cardeal Turkson, que tem um dos postos mais importantes do Vaticano (dirige o Departamento de Justiça e Paz) e foi constantemente promovido pelo Papa Bento XVI, se disse triste.

- É triste um líder, um pai, nos deixar assim. É um pouco difícil. Eu faço o que faço porque ele me nomeou - disse ele ao GLOBO.

Ao jornal britânico "The Telegraph", logo após o anúncio da renúncia, Turkson falou dos escândalos de pedofilia, das igrejas na Europa que "estão se esvaziando", da competição com novas Igrejas na América Latina, África e Ásia.

"Seja lá quem suceder Bento XVI, não vão faltar desafios, o que é um um convite para a criatividade e a inovação", dissera o cardeal.

O Papa só fez uma menção às divisões na Igreja. Mas isso foi o bastante para alimentar a convicção de muitos em Roma, inclusive religiosos, de que ele renunciou por causa de disputas internas - e não apenas pela idade e fraqueza física, a versão oficial.

A italiana Miriam Tranquili, de 42 anos, guia que acompanhava um grupo de brasileiros na última audiência do Papa, já não tem dúvida:

- Para mim, tem algo por trás da renúncia: os escândalos no Vaticano. O Papa Bento XVI sabia de muita coisa e não quer isso para a Igreja. Mas estava lutando sozinho. Ele é inteligente demais para renunciar por razão de saúde.

Conclave a partir de 15 de março

Pela manhã, numa audiência com fiéis, ele já havia falado da "instrumentalização" da religião. Num auditório com capacidade para oito mil pessoas e lotado de fiéis de vários países, Bento XVI entrou vestido de branco, sob aplausos e gritos emocionados, inclusive de grupos de brasileiros. Sem hesitar, foi direto ao ponto e explicou a renúncia:

- Vivi dias difíceis. Mas decidi em plena liberdade pelo bem da Igreja depois de ter rezado muito e examinado diante de Deus a minha consciência - explicou, acrescentando que sabia da "gravidade de tal ato" e repetindo a versão oficial, a de que não se sente mais com a força física necessária para comandar a Igreja.

Depois, visivelmente emocionado, mencionou pela primeira vez seu sucessor:

- Continuem a rezar por mim, pela Igreja e pelo futuro Papa.

No fim da tarde, Bento XVI, que entrou caminhando na imponente Basílica de São Pedro, saiu acenando a todos de pé numa espécie de plataforma móvel. Coube ao secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Tarcisio Bertone, em nome da Cúria, se despedir assim:

- Queremos dizer do fundo do nosso coração: obrigado pelo caminho que a Igreja percorreu sob o seu comando. Obrigado!

O porta-voz do Vaticano anunciou que o conclave responsável por escolher o próximo Papa, "se tudo correr bem", possivelmente vai ocorrer a partir de 15 de março. Segundo ele, o Vaticano ainda está debatendo internamente qual deverá ser o próximo título de Bento XVI quando ele deixar o ofício de Papa, às 20h do dia 28.

Fonte: O Globo

Briga na Câmara desgasta PMDB e já preocupa Temer

À frente dos três cargos da linha sucessória de Dilma, partido vive enfrentamentos públicos e judicialização de seus próprios embates

Tão forte quanto no tempo da Constituinte (1987/88) depois de eleger, há duas semanas, os presidentes do Senado e da Câmara, o PMDB corre o risco de ver essa força se exaurir por causa de brigas internas originadas em disputas por poder dentro do partido. Algumas contendas foram resolvidas em um curto espaço de tempo. Outras ainda não.

A que mais preocupa o presidente licenciado do PMDB e vice-presidente da República, Michel Temer, é a que foi parar no Supremo Tribunal Federal (STF) e pode até resultar numa punição disciplinar do responsável. Inconformado por ter sido derrotado pelo deputado Eduardo Cunha (RJ) na disputa pela liderança do partido na Câmara, Sandro Mabel (GO) contestou judicialmente a vitória mesmo depois de prometer a Temer que aceitaria o resultado. Ele alegou que Cunha teve votos de dois suplentes, que assumiram em cima da hora.

“O Sandro foi expulso do PR por desobediência partidária e nós o aceitamos no PMDB. Agora, com essa atitude, está levando o partido ao ridículo e constrangendo todo mundo”, disse o deputado Lúcio Vieira Lima, presidente do PMDB baiano.

Mabel viajou para o exterior logo depois de recorrer ao STF. Ele não respondeu às ligações sobre as críticas que vem sofrendo.

Emendas. Segundo parlamentares do PMDB, Mabel disse que vai tentar montar um grupo que negociaria diretamente com a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, a liberação de emendas parlamentares e a ocupação de espaço no governo. “Se o PMDB unido não tem o espaço que merece, imagina se estiver rachado, se for só um grupinho. "É ridículo”, critica Vieira Lima ; Na noite do último dia 4, Michel Temer reuniu em sua casa os presidentes do Senado e da Câmara, os líderes Eunício Oliveira (Senado) e Eduardo Cunha, e todos os ministros do PMDB. Disse aos colegas que, se os rachas continuassem, só quem perderia seria o partido. Unido, tendo a Vice-Presidência e as presidências do Senado e da Câmara, o partido é o dono dos três cargos da linha sucessória do governo, algo inédito desde a redemocratização.

Houve então uma orientação para que as feridas fossem estancadas, o que ocorreu com quase todas. Os irmãos Geddel e Lúcio Vieira Lima fizeram as pazes com Renan e Henrique Alves. Rose de Freitas (ES), que disputou a presidência com Alves, disse que não abriria nenhuma dissidência. Osmar Terra (RS), que também concorreu pela liderança, aceitou cargo de vice-líder.

Por fim, este e Henrique Alves prometeram suspender as rixas pessoais em nome da unidade. Ao final, feitas as contas, restou um problema, justamente o protagonizado por Mabel. Para evitar que a divisão se espalhe, os dirigentes do PMDB estão correndo atrás dos parlamentares que apoiaram o goiano, sugerindo que deixem de lado a disputa.

Contudo, uma ala do PMDB já se prepara para pedir a punição a Mabel, sob o argumento de que, apesar de prometer não recorrer à Justiça, ele entrou no STF às escondidas para contestar a eleição de Cunha. Em 2011, Mabel foi expulso do PR porque, desautorizado pelo partido, candidatou-se à presidência da Câmara contra o petista Marco Maia (RS). Alguns entendem que a mesma pena pode ser aplicada agora a ele.

Fonte: O Estado de S. Paulo

O diário do poder, na voz de FHC

Ex-presidente tira do armário centenas de fitas

Durante seus oito anos na Presidência da República, Fernando Henrique Cardoso manteve uma rotina secreta, de que só os muito próximos sabiam: ele fazia gravações diárias, ou quase diárias, no fim do expediente, sobre o que tinha dito, ouvido, pensado e decidido naquelas 10 ou 12 horas.

Dez anos depois de descer a rampa do Planalto, o segredo veio à tona. Numa recente entrevista ao médico Dráuzio Varela, ele falou da sua vasta coleção de fitas e avisou que ela está sendo degravada e organizada por uma colaboradora.

“Deve dar umas dez mil páginas ou mais”, calcula FHC. São centenas de fitas - só uma fase inicial já tinha cerca de 200 - que podem resultar, quem sabe, no grande livro de memórias da Era FHC. “Ainda não decidi o que fazer com os registros”, avisou o ex-presidente numa conversa com o Estado. Enquanto ele se decide, um passo adiante já foi dado: sua “eterna” colaboradora, a socióloga Danielle Ardaillon - que o segue e organiza seus papéis desde os anos 70, quando os dois trabalhavam no Gebrap - está debruçada em cima desse “diário do poder”, coordenando sua transcrição e organização.

O que contêm essas fitas? “A maior parte das gravações de 1995 refere-se a temas políticos”, esclarece o ex-presidente. Ele já leu a degravação desse primeiro ano de poder “para corrigir nomes próprios, cortar repetições e mostrar modificações para o caso de edições futuras”. Foi um período, como se sabe, em que ele se ocupou do Plano Real, da “pauleira” das privatizações e das primeiras reformas, da administração e da Previdência. Mas, cauteloso, ele adverte: por enquanto, “não há seleção de trechos nem foi feito qualquer trabalho editorial”.

É um baú de memórias construído com método. Ele mesmo detalha: “Quando não gravava no mesmo dia, eu fazia referências ao que acontecera nos dias anteriores. Há, obviamente, referências a pessoas e situações, mas raramente a assuntos pessoais. Eu gravava sempre no Alvorada ou em viagem, geralmente ao final do dia. Jamais contei com a ajuda de terceiros”.

Histórico. Registros diretos do poder, logicamente, não são nenhuma novidade. O século 20 quase inteiro desfila em quilômetros de filmes e discursos, públicos e confidenciais, sobre grandes guerras ou pequenas homenagens. Muitas vezes, esse material contribui para esclarecer e até mudar a história.

Nos EUA, o presidente John Kennedy instalou um sistema secreto de gravação sua sala e, entre suas gravações, há uma conversa com o embaixador no Brasil no início dos anos 60, Lincoln Gordon. Os dois discutiam como lidar com o governo João Goulart - um indício do envolvimento americano em sua queda. Nos anos 1970, conversas gravadas de Richard Nixon, que ele fez de tudo para esconder, ajudaram a tirá-lo do poder, no caso Watergate.

O que FHC fez é diferente: são depoimentos informais, no calor da hora, sobre o minuto a minuto do poder. História feita com pequenas peças do varejo, espontâneas, esclarecedoras.

O ex-presidente avisa que não tem planos de publicar nada agora “e talvez nem faça qualquer publicação em vida”. Mas, como lembrou ao Estado, “as gravações originais e suas transcrições ficarão disponíveis para que os cortes e correções possam ser cotejados”. Sinal de que ele não tem pressa - mas a História também não tem. E de que, em algum momento, o seu “diário do Planalto” virá a público.

Fonte: O Estado de S. Paulo

PMDB vê-se fortalecido com PSB no jogo de 2014

Raymundo Costa e Yvna Sousa

BRASÍLIA - Depois de ter conseguido o comando do Congresso, o PMDB quer mais. A cúpula do partido avalia que a eventual candidatura presidencial do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, fortalece o poder de barganha do partido para negociar mais cargos no governo. Interlocutores da presidente Dilma Rousseff, no entanto, informaram que o PMDB não precisa "esticar a corda", pois ela e o vice Michel Temer já concordaram que é preciso ampliar os espaços da sigla e as manutenção da aliança na eleição de 2014.

Num jogo pendular, a cúpula do PMDB avalia que quanto mais Campos configura uma candidatura presidencial, mais Dilma precisará ter um aliado forte a seu lado, na reeleição. No Palácio do Planalto, o forte são as ambiguidades.

Enquanto auxiliares de Dilma afirmam que a aliança com o PMDB nunca esteve em jogo, ontem o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, que é crescente a corrente dentro do PT que defende a substituição Temer por Campos como vice na chapa com Dilma.

Carvalho é o ministro remanescente da equipe do ex-presidente Lula da Silva no Planalto. Lula sempre foi muito próximo de Eduardo Campos, apesar de alguns atritos nas eleições municipais de 2012. Dilma estará na próxima segunda-feira em Pernambuco, mas sua referência no Nordeste é o governador da Bahia, Jackson Wagner. A presidente reuniu-se com os dois no período de descanso de fim de ano que tirou na Bahia. Mas nada disso, segundo interlocutores da presidente, permite a conclusão de que ela possa estar tramando a substituição de Temer.

De acordo com esses interlocutores, os fatos recentes demonstram exatamente o contrário. De dezembro até hoje, Dilma nunca teria se reunido tanto com Temer. Nessas conversas, os dois também teriam concordado que é preciso ampliar o espaço do PMDB no governo. De acordo com integrantes do governo, "esticar a corda" nesse momento interessaria somente ao líder do PMDB, Eduardo Cunha (RJ).

Outro exemplo dado pelos aliados da presidente: PMDB mineiro quer de volta a diretoria internacional da Petrobras, que perdeu em abril de 2012 quando a atual presidente da empresa, Graça Foster, fez uma limpeza nas indicações partidárias em diretorias da estatal. Depois das conversas que teve com o vice-presidente, Temer teve um encontro com Graça Foster.

Mas, segundo o PMDB, a reunião não foi para tratar de cargos, mas de um pedido feito pelo presidente do Líbano, Michel Suleiman, sobre a abertura de um escritório da Petrobras no Líbano, que passou a correr risco com os planos de enxugamento anunciado pela estatal.

Na realidade, Temer teria feito apenas um pedido a Dilma: que as nomeações que couberem ao PMDB sejam feitas apenas após a convenção do partido, no sábado 2 de março, para a eleição de sua nova direção. Temer, segundo apurou o Valor, será candidato a mais um mandato na presidência do PMDB.

Ao mesmo tempo em que confirma o crescimento de uma tendência no PT para a substituição de temer por Campos, na vice-presidência, o ministro Gilberto Carvalho, em entrevista concedida ontem, reconheceu que não ficará surpreso se o governador de Pernambuco e presidente do PSB for candidato a presidente da República.

"Nada surpreende. Por que surpreender se o PSB já lançou candidatos muitas vezes e se o Eduardo Campos é um legítimo representante de um pensamento, de uma corrente política?", disse o ministro, conforme publicou ontem o Valor PRO, após participar do lançamento da Campanha a Fraternidade 2013, em Brasília.

O PMDB, por seu turno, está convencido de que a candidatura Campos abre uma nova janela de oportunidades ao partido. Uma candidatura que deve ser delineada em outubro, fim do prazo das filiação partidária para os candidatos às eleições de 2014. Os candidatos a governador, por exemplo. A legislação eleitoral exige que eles estejam filiados a um partido político um ano antes da eleição.

É por essa época que os candidatos presidenciais começarão a montar seus palanques eleitorais. A lei da fidelidade partidária inibe a troca de partido dos candidatos, em todos os níveis, mas só daqueles que já se acham associados a uma legenda. Quem está fora de um partido está livre para escolher. Caso, por exemplo, de Júnior Batista, de Goiás, assediado tanto pelo PSB de Campos como pelo PMDB de Michel Temer.

Ou seja, Campos precisa correr contra o relógio e isso seria uma vantagem a mais para o partido, além do poder obtido com o comando da Câmara dos Deputados e do Senado. Nesse quadro, as bancadas querem algo mais que a indicação de uma diretoria da Petrobras, apesar da importância da área Internacional da empresa. Mais um ministério cairia bem nos planos do partido. Especialmente se eles forem o do Trabalho ou o de Cidades.

Fonte: Valor Econômico

Ô abre alas

Vera Magalhães

O PSB começa a montar palanques estaduais para dar suporte à possível candidatura presidencial de Eduardo Campos em 2014. Inicialmente candidato ao Senado, o líder do partido na Câmara, Beto Albuquerque, pode concorrer ao governo do Rio Grande do Sul. "O projeto nacional se sobrepõe aos locais. A candidatura do Eduardo já botou o bloco na rua", diz. Além dos seis governadores que tentarão a reeleição, o PSB estima ter o mesmo número de candidatos viáveis.

Petit comitê. Campos promove reuniões periódicas em Recife e Brasília com Albuquerque, Rodrigo Rollemberg (DF), líder no Senado, Carlos Siqueira (MA), secretário-geral da sigla, e Roberto Amaral, vice-presidente. A ideia é ajustar o mapa eleitoral socialista às pretensões do governador em 2014

Fonte: Folha de S. Paulo /Painel

Corrida presidencial começa já em Minas com Lula e FHC

Sucessão 2014. Além de ex-presidentes, Marina Silva e Eduardo Campos ensaiam palanques neste semestre

Petista deverá receber, em abril, título de cidadão honorário do Estado

Larissa Arantes

A disputa de 2014 pela Presidência da República já começa neste mês em Minas Gerais. Prováveis candidatos e seus padrinhos desembarcam no Estado neste primeiro semestre em uma espécie de ensaio do enredo das eleições do ano que vem.

Em abril, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva - principal cabo eleitoral da presidente Dilma Rousseff - chega a Belo Horizonte para receber o título de cidadão honorário do Estado. Além dele, a ex-senadora Marina Silva, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) também visitam a capital nestes primeiros meses do ano.

A solenidade em homenagem a Lula será realizada na Assembleia Legislativa e deverá ocorrer no dia 12 de abril, véspera do encontro estadual de prefeitos do PT, no qual o ex-presidente também deverá comparecer.

A presença dele é considera da estratégica para a formação da "unidade partidária", almejada pelos petistas no Estado, principalmente após a derrota na eleição de Belo Horizonte. A coesão é um processo em construção desde a ruptura com a campanha de reeleição de Marcio Lacerda (PSB).

O decreto que prevê a concessão do título de cidadão honorário a Lula foi publicado em novembro de 2011 pelo governador Antonio Anastasia. O requerimento é do deputado estadual Rogério Correia (PT) e foi aprovado na Assembleia em março daquele ano.

No entanto, de acordo com Correia, o momento oportuno para a homenagem é agora. "O ano passado foi ano eleitoral e, também, o ex-presidente estava se tratando do câncer", afirmou. O colega Paulo Lamac (PT) justificou a homenagem. "Não se pode negar a importância do governo Lula para o país", disse.

Reviravolta. A visita de Lula também é a aposta dos petistas para neutralizar a investida dos socialistas no Estado, por meio da candidatura do presidente nacional do partido e governador de Pernambuco, Eduardo Campos.

Lula ainda estaria tentando negociar a vaga de vice na chapa de Dilma para o pernambucano, mas o acerto é praticamente impossível. Assim, o nome de Campos continua cotado para a disputa presidencial, e ele também desembarca no Estado nos próximos meses.

"Ele virá visitar Minas, sim, mas ainda não há uma data definida", confirmou o secretário geral do PSB em Minas, Mário Assad. Segundo o dirigente, antes de junho, o governador estará na capital. Ontem, ao comentar as especulações sobre um encontro com Lula, Campos brincou: "Eu estou com medo que a nossa conversa saia (na imprensa) antes de a gente a ter".

Marina também tem agenda

Envolvida com a criação do seu novo partido, a ex-senadora Marina Silva - e provável candidata à Presidência em 2014 - também virá visitar não só Belo Horizonte, como as principais cidades do interior do Estado.

"Estamos programando uma agenda para que ela visite todas as regiões de Minas", explicou seu principal apoiador mineiro, o ex-deputado federal Zé Fernando Aparecido (sem partido). Para poder criar a legenda, Marina vai percorrer o Brasil em busca das aproximadamente 500 mil assinaturas necessárias, segundo a legislação.

Apesar de Marina refutar publicamente a ideia de ser a candidata natural da nova sigla para a sucessão da presidente Dilma Rousseff, aliados trabalham para que o partido seja criado em tempo hábil para disputar as eleições de 2014.

De acordo com Zé Fernando, o propósito da viagem dela a Minas é a divulgação do Movimento Nova Política. "Queremos o contato com os movimentos sociais, com a juventude", detalhou o ex-deputado.

No próximo sábado, os integrantes do movimento se reúnem em Brasília para homologação do novo partido, que deverá se chamar Rede, e também para definição do estatuto da legenda. Ontem, foi veiculado na internet um vídeo com a ex-senadora convocando os apoiadores para o evento.

Fernando Henrique reforça Aécio

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) será a primeira liderança nacional a desembarcar em Belo Horizonte em ano pré-eleitoral. No próximo dia 25, o tucano dará início ao ciclo de debates "Minas Pensa o Brasil", organizado pelo diretório estadual da sigla.

FHC é o principal entusiasta da candidatura do senador Aécio Neves (PSDB) à Presidência. Ele foi responsável por lançar o ex-governador de Minas durante evento do partido, em dezembro do ano passado, em Brasília.

"Eu acho que o senador Aécio Neves é o nome (para a Presidência), e, a meu ver, desde já, tem que assumir suas responsabilidades, não de candidato, mas de líder do partido, para ele poder começar a percorrer o Brasil", disse FHC.

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, também é um dos convidados para as palestras.

Fonte: O Tempo (MG)

Tucanos de Minas veem com otimismo entrada de Marina em disputa

Marcos de Moura e Souza

BELO HORIZONTE - Daqui a dois dias, a ex-ministra Marina Silva reúne-se em Brasília com apoiadores para aprovar o estatuto de um novo partido pelo qual deverá se candidatar à Presidência da República em 2014. A entrada de Marina na disputa agrada ao presidenciável do PSDB, o senador mineiro Aécio Neves.

Os tucanos de Minas acreditam que quanto mais candidatos maiores são as chances de que a eleição seja levada para o segundo turno e que a escolha se restrinja a Aécio e à presidente Dilma Rousseff (PT).

"Aécio tem falado que é bom que tenha mais partidos, que quanto mais aberto for o leque de opções mais a sociedade terá chances de conhecer as várias formas de pensar o Brasil", disse ontem o presidente do PSDB de Minas, o deputado federal Marcos Pestana.

Do ponto de vista mais pragmático, acrescenta o deputado, um cenário com mais candidatos com força eleitoral tende a criar um contraponto mais consistente à Dilma. Isso significa uma diluição de votos no primeiro turno. E para o deputado, seria ruim para uma candidata como Dilma, que tem reduzida experiência eleitoral, esticar as eleições para uma segunda rodada.

Marina ficou em terceiro lugar nas eleições presidenciais de 2010, atrás de Dilma e de José Serra, do PSDB paulista. Em Minas, seu discurso empolgou eleitores e em Belo Horizonte ela foi a campeã de votos no primeiro turno.

"Quanto mais candidatos maiores as chances de ter segundo turno", avalia Pestana. O partido de Marina - cujo nome também está para ser definido no encontro de sábado - teria ainda outra vantagem para os tucanos. Certamente, diz Pestana, não será um partido que fará uma oposição frontal a Aécio.

"Temos amigos em comum com a Marina que estão participando desse diálogo [para a criação do novo partido]", diz Pestana. Dois deles são os tucanos paulistas Walter Feldmann e Ricardo Trípoli.

"Não estamos disputando eleitores com Aécio Neves", disse Pedro Ivo, um dos principais assessores políticos de Marina. "Nossa militância é outra, é de jovens, gente das redes sociais, de novos movimentos."

No PV mineiro, partido pelo qual Marina disputou as eleições presidenciais de 2010, a avaliação, segundo um de seus líderes que preferiu não ser citado, é que ela e Aécio mantêm uma relação amistosa. O PV é partido da base do governador de Minas, Antonio Anastasia (PSDB).

O primeiro desafio da ex-ministra é formalizar o partido a tempo: uma vez aprovado o estatuto e o nome, será preciso reunir no mínimo 500 mil assinaturas em nove Estados de pessoas que apoiam a criação da legenda. O prazo vence em outubro.

Fonte: Valor Econômico

Palestras vão ajudar em formulação de propostas de Aécio

BELO HORIZONTE - O PSDB mineiro inicia este mês uma série de palestras com o intuito de ajudar a formular propostas para a campanha presidencial do senador Aécio Neves e atrair lideranças do partido de outros Estados para sua candidatura.

O ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso (PSDB), será o primeiro. Ele estará em Belo Horizonte no dia 25 para apresentar a palestra "O Século XXI: Desafios, ameaças e oportunidade". O governador do Pará, o também tucano, Simão Jatene, deverá ser o segundo palestrante para o encontro de março.

"Esses encontros ocorrerão uma vez por mês e serão espaços de reflexão de temas contemporâneos nos quais falarão intelectuais, técnicos e líderes políticos", disse o presidente do PSDB de Minas Gerais, o deputado federal Marcos Pestana. Segundo ele, o ciclo de encontros intitulado "Minas Pensa o Brasil" será uma forma de contribuir para a "construção de um projeto que apaixone as pessoas". E que não somente estimule o partido em Minas, mas também em outros Estados.

O PSDB mineiro quer trazer o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, para falar no evento no segundo semestre. O PSDB paulista não está fechado ainda em prol de Aécio como candidato à Presidência em 2014.

Entre os nomes que estão sendo cogitados pelos tucanos mineiros, estão o do senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) - ligado ao ex-governador de São Paulo e candidato derrotado à Presidência José Serra -; Beto Richa, governador do Paraná; Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central no governo de Fernando Henrique. (MMS)

Fonte: Valor Econômico

Adesão baixa ao tuitaço de Marina

Adriana Caitano

A primeira grande tentativa da ex-senadora Marina Silva de divulgar seu novo partido pelas redes sociais mostrou-se frustrada. Na tarde de ontem, a ex-ministra do Meio Ambiente no governo Lula convocou internautas a fazerem um tuitaço — espécie de panelaço virtual pelo Twitter — citando a palavra “rede”, que vai constar no nome da sigla, para destacar o evento de lançamento da legenda, marcado para sábado. A expressão, no entanto, acabou citada por menos de 100 usuários da rede e o vídeo em que a ex-senadora convida o público foi visto pelo mesmo número de pessoas. A baixa repercussão confronta os altos índices de popularidade no meio virtual conquistado pela ex-candidata ao Planalto em 2010. Durante a campanha presidencial, um outro “tuitaço” feito a pedido de Marina provocou 16 mil referências ao nome dela e rendeu-lhe mais de 100 mil seguidores no microblog.

Até pouco tempo, Marina Silva não aceitava admitir isso em público, mas há quase dois anos articula a criação de uma legenda para se lançar novamente candidata à Presidência da República. Somente nesta semana, às vésperas do evento em que vai oficializar o início da coleta de assinaturas para legitimá-la, colocou de fato o bloco na rua. E voltou a utilizar as redes sociais que tanto a ajudaram a conquistar 20 milhões de votos em 2010. No Facebook, no Twitter e no YouTube, convoca admiradores para o chamado Encontro Nacional da Rede Pró-Partido, que será realizado depois de amanhã no Centro de Eventos Unique Palace, em Brasília.

Na divulgação, a ex-senadora evitou usar o termo “partido”, convocando os seguidores a participar da criação de uma “ferramenta nova para participação do processo político” e “ajudar o Brasil a criar novos caminhos para a crise civilizatória”. No panelaço virtual — o tuitaço — de ontem, Marina e os poucos que entraram na mobilização repetiam a célebre frase do filósofo grego Platão – “quem não gosta de política é governado por quem gosta” -, seguida do termo “rede”. As citações, no entanto, nem sequer alcançaram a lista de tópicos mais reproduzidos do Twitter no Brasil.

Assinaturas

Mas mobilizar adeptos pela internet não será o único desafio de Marina. Para poder candidatar-se à presidência em 2014 pelo novo partido, o grupo precisará coletar cerca de 500 mil assinaturas espalhadas por todo o país até outubro. “Nosso tempo é curto e o desafio é grande”, admite Basileu Margarido, um dos fundadores da legenda. “Mas nossa força está na juventude, que se mobiliza para nos apoiar”, garante. Segundo Basileu, que coordenou a campanha de Marina em 2010, a lista de fundadores da sigla que terá rede no nome já conta com três deputados federais — Domingos Dutra (PT-MA), Alfredo Sirkis (PV-RJ) e Walter Feldman (PSDB-SP) — e a ex-senadora Heloísa Helena, que sai do PSol. “Já dá para ter uma dimensão de que o partido não vai ter só a Marina e, cada uma a seu tempo, outras figuras nacionais devem aderir até o registro final”, comenta.

Entre os nomes procurados por Marina para integrar o novo partido estão os senadores Randolfe Rodrigues (PSol-AP), Cristovam Buarque (PDT-DF) e Eduardo Suplicy (PT-SP) e os deputados Reguffe (PDT-DF) e Alessandro Molon (PT-RJ), mas, apesar da expectativa de alguns deles comparecerem ao evento de sábado, nenhum confirmou a mudança de sigla. “É natural que quem tem mandato deixe essa decisão mais para a frente, ainda temos tempo”, afirmou Basileu Margarido.

Fonte: Correio Braziliense

PSB: um avança, outro segura


Débora Duque

Enquanto interlocutores do PSB não medem esforços para projetar o nome de Eduardo Campos como candidato a presidente, em 2014, soltando ameaças constantes de ruptura com o governo federal, o governador mantém, publicamente, a estratégia inversa. O socialista tem procurado desmentir falas ousadas dos correligionários a respeito de seu possível voo nacional. Ontem, por exemplo, ele negou declaração feita, na semana passada, pelo líder do PSB na Câmara Federal, Beto Albuquerque (RS), avisando que a permanência do partido na base da presidente Dilma Rousseff (PT) tem "prazo de validade".Questionado, Eduardo tentou tratar o comentário do aliado como um fato isolado, desvinculado da posição oficial do partido. Disse "respeitar" a opinião do parlamentar com quem, na condição de presidente nacional do PSB, tem relações políticas estreitas. O governador, inclusive, já agendou uma ida a Porto Alegre para prestigiar o aniversário do parlamentar, que aproveitará para organizar um encontro de Eduardo com o empresariado gaúcho.

"Eu respeito aqueles que querem fazer o debate sucessório, agora, não vou fazer isso. No meu partido e em outros tem várias pessoas que não concordam com essa minha forma, é democrático. A avaliação de Beto pode ser diferente da que eu faço", assinalou. Mais uma vez, Eduardo voltou ao discurso de que a discussão sobre a eleição presidencial não "ajuda" o País e procurou demonstrar a "fidelidade" do PSB ao governo federal.

Eduardo fez questão de lembrar que, em 2010, o PSB abriu mão de lançar uma candidatura própria - a de Ciro Gomes - para apoiar Dilma. "Ajudamos a construção desse projeto desde o início, renunciando ao direito que tínhamos de ter candidato para tentar eleger a presidente já no primeiro turno", recordou, dizendo que o partido foi solidário aos apelos feitos, na época, pelo ex-presidente Lula. O governador também reforçou os dados que mostram que o PSB foi um dos partidos mais "fiéis" ao governo no Congresso. Apesar do discurso diplomático, Eduardo não deixou de abordar temas espinhoso para Dilma, como a crise econômica e o pacto federativo. "Será o ano mais desafiador de sua gestão", sacramentou.

Fonte: Jornal do Commercio (PE)

Sindicatos se preparam para lutar por reajustes maiores este ano

Diretor da Força diz que é hora de cobrar a isenção fiscal dos empresários

Lino Rodrigues

Reivindicações. No Comperj, a briga por reajuste maior começou antes mesmo do carnaval, no início deste mês

SÃO PAULO - Com a expectativa de recuperação da economia, juros comportados e inflação ainda dentro meta, as principais categorias profissionais do país vislumbram um cenário econômico melhor para as negociações salariais este ano. Após um 2012 em que 97% dos acordos tiveram ganho acima da inflação - de 2,3%, o maior ganho real da série histórica do Departamento Intersindical e Estudos Sócio Econômicos (Dieese) -, os trabalhadores querem mais.

- Se os indicadores se confirmarem em 2013, os trabalhadores têm elementos para uma negociação positiva na recomposição dos salários e na obtenção de ganhos reais - diz José Silvestre Prado de Oliveira, coordenador de relações sindicais do Dieese, lembrando que em 2012 nenhum trabalhador teve reajuste real abaixo da inflação.

Apesar de um cenário melhor, Miguel Torres, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e diretor da Força Sindical - que representa 12 milhões de trabalhadores - espera grandes embates nas campanhas salariais, especialmente em questões polêmicas como redução de jornada de trabalho, fim do fator previdenciário e melhorias nas condições de trabalho.

- São pontos que unem todas as centrais sindicais. Acabado o carnaval, vamos botar o bloco dos trabalhadores nas ruas - disse o sindicalista, que dirige a Confederação dos Metalúrgicos do estado de São Paulo.

Torres acrescentou que 2012 foi "dedicado" aos empresários, que receberam do governo uma série de benefícios e incentivos fiscais para manter a produção e os empregos:

- Agora, chegou nossa vez. Em 2013, vamos exigir uma contrapartida dessas isenções para a classe trabalhadora.

Acordos mais longos

Além dos benefícios concedidos aos empresários, Vagner Freitas, presidente da CUT, lembrou que o fraco desempenho do PIB em 2012 (em torno de 1%) não impediu que alguns setores tivessem crescimento.

- O fortalecimento do mercado interno tem que ser acoplado à melhoria dos salários dos empregados e à garantia no emprego. São eles, os trabalhadores, que vão construir esse mercado interno forte de que o país precisa para continuar crescendo - afirmou Freitas.

No ABC paulista, com o fim do acordo com algumas montadoras que vigorou por 2011 e 2012, os salários voltarão a ser negociados. Com pouco mais de 104 mil trabalhadores e data-base em setembro, a ideia, segundo o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Rafael Marques, é dar continuidade a acordos salariais mais longos, como nos dois últimos anos, período em que os metalúrgicos não deixaram de reivindicar melhores condições de trabalho, qualificação profissional e participação nos lucros e resultados (PLR) com prazo e valores mais elásticos. Marques citou como exemplo a negociação com a Volkswagen, válida até 2017, e que prevê reajuste da inflação anual, aumento real de 2,5% e PLR de R$ 12,5 mil.

- Queremos acordos mais longos. Isso dá segurança para as duas partes - disse Marques. - E 2013 será mais favorável na qualidade do crescimento, e o trabalhador terá melhores condições para negociar.

Segundo Marques, é preciso ficar atento para dificuldades que possam surgir, como aprofundamento da crise na Europa e redução no crescimento chinês, que, se ocorrerem, afetarão negativamente os segmentos industriais. No caso de repetição do desempenho econômico de 2012, o presidente da CUT prevê negociações mais longas, enfrentamentos e greves.

Na avaliação de empresários, a luta por aumentos reais maiores este ano chega em um momento em que as empresas não deram sinais de retomada mais forte na produção e vendas, apesar dos incentivos do governo. Mesmo com as dificuldades de 2012, alegam que 98% dos trabalhadores da indústria e do comércio tiveram reajustes acima da inflação. Na indústria, o ganho real entre 2% e 3% atingiu 37% dos reajustes do setor. No comércio, 37% tiveram aumento na mesma faixa.

Fonte: O Globo

Projeções para inflação de 2013 e 2014 sobem após IPCA de janeiro

Eduardo Gucolo

BRASÍLIA - Os economistas consultados pelo Banco Central elevaram praticamente todas as projeções de inflação para 2013 e 2014. A nova piora ocorre após a divulgação do índice-Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de janeiro, que ficou acima das projeções e levou o governo a dizer que o indicador está em "patamares desconfortáveis".

De acordo com a pesquisa Focus do BC, divulgada ontem, a previsão para o IPCA de 2013 subiu pela sexta semana consecutiva e está agora em 5,71%. A meta de inflação é de 4,5%, com tolerância de 2 pontos porcentuais, para cima ou para baixo. Para 2014, a projeção foi mantida em 5,5%.

Também foram revistas para cima as projeções para o IPCA nos próximos 12 meses, para o IGP-DI deste ano e para o IGP-M de 2013 e 2014.

A pesquisa mostrou ainda que, entre os economistas com maior porcentual de acerto no levantamento, a previsão é de um IPCA de 5,7% neste ano e de 6,5% no próximo, valor que está no limite da meta.

Em janeiro, o índice ficou em 0,86%, a maior variação para o mês em dez anos, o que elevou a taxa anual para 6,15%.

A alta poderia ser ainda maior, se o governo federal não tivesse negociado com prefeitos a postergação do reajuste dos transportes urbanos. Também foi adiado, para fevereiro, o aumento dos combustíveis.

A piora nas estimativas para os preços foi acompanhada de uma expectativa de que o BC volte a elevar a taxa básica de juros (Selic) em janeiro de 2014. Antes, a estimativa era de alta em fevereiro.

Apesar da antecipação, o mercado ainda vê uma taxa nos atuais 7,25% até o fim deste ano e uma alta para 8,25% ao ano no fim de 2014.

PIB. A previsão de crescimento da economia brasileira em 2013 recuou de 3,1% para 3,09%. Para 2014, subiu de 3,70% para 3,80%. A projeção para o crescimento do setor industrial neste ano caiu de 3,17% para 3,10%. Para 2014, espera- se uma aceleração, para 3,70%, mesma projeção da pesquisa anterior.

Felipe Queiroz, economista da Austin Asis, projeta um crescimento mais forte da economia brasileira, de 3,7% e 4,3%, respectivamente, neste e no próximo ano. Também avalia que esse ritmo mais acelerado vai levar a um aumento maior dos juros, que deverá começar já no segundo semestre de 2013.

"Acreditamos que a Selic deve encerrar 2013 em 8,75%, diferente do que aposta a maior parte do mercado", afirmou. "Para 2014, projetamos chegar a uma taxa de 9,5% ao ano, motivado por um nível de atividade mais robusto, não só pelo mercado doméstico, mas também no cenário externo, com Estados Unidos e Europa em um processo de recuperação mais consistente da economia."

Em relação ao dólar, a projeção dos analistas consultados na pesquisa do BC para a taxa de câmbio no final de 2013 recuou de R$ 2,05 para R$ 2,03. Quatro semanas antes estava em R$ 2,07. Para o fim de 2014, caiu de R$ 2,07 para R$ 2,05.Para o fim de fevereiro e março, a estimativa está em R$ 2.

Fonte: O Estado de S. Paulo