quinta-feira, 10 de maio de 2018

William Waack: Sem ‘outsider’

- O Estado de S.Paulo

Nós, brasileiros, criamos mais um paradoxo: queremos o ‘novo’ mantendo o ‘velho’

Tenho grande apreço pelo ex-ministro Joaquim Barbosa, que conheço pessoalmente, mas não o suficiente para dizer se ele é fã de Tom Jobim. É atribuída ao maestro a frase “o Brasil não é para principiantes”. Ao desistir da candidatura que nem sequer tinha sido oficializada, Joaquim Barbosa confirmou o cerne da mensagem de Tom Jobim: no sistema político-partidário brasileiro, prosperam apenas os profissionais.

A grosso modo, esse sistema vigora desde a redemocratização e favorece estruturas partidárias estabelecidas e seus respectivos caciques. Nunca foi atropelado por fora – Collor em 1989 já era um conhecido governador e Lula venceu em 2002 quando já era suficientemente parte desse mesmo sistema.

Ele perdura, e impede que o Brasil, nas próximas eleições, possa ser comparado a uma França (Macron fundou um partido um ano antes de se eleger). Frente à realidade das nossas estruturas políticas, Joaquim Barbosa e Luciano Huck preferiram (pelo bem deles e pelo bem geral) cuidar por enquanto das próprias vidas.

A complicação expressada nos “fracassos” de Barbosa e Huck frente ao sistema político é muito maior do que terem embaralhado por algum tempo a corriqueira dança das articulações políticas e as possíveis alianças eleitorais. Pois o que atropelou por fora nosso sistema político foi a Lava Jato, que em boa parte o destruiu, mas não o substituiu por qualquer outra coisa.

Além de ter trazido algo realmente inédito comparado às últimas eleições: a campanha anticorrupção encurralou também a máquina do governo e, ao lado da extraordinária impopularidade do atual presidente, impediu um candidato “governista” capaz de desfrutar da capilaridade e força da estrutura de distribuição de benesses comandada pelo Executivo.

Bruno Boghossian: Lula enfrentará 'inverno rigoroso'

- Folha de S. Paulo

Derrota no STF e pressão interna por plano B podem reduzir força do ex-presidente

A mais recente derrota de Lula no Supremo marca o início de um “inverno rigoroso”, nas palavras de um dirigente do PT. O ex-presidente completou 32 dias na prisão com caminhos jurídicos cada vez mais escassos, mobilização enfraquecida e uma pressão crescente pela ativação de um plano B para a eleição.

Os principais aliados de Lula mantinham alguma esperança de que o líder petista fosse solto três ou quatro semanas depois de ser levado para a cadeia. Acreditavam que a prisão cumpriria um papel simbólico nesse período e ele poderia voltar às ruas fortalecido.

Esse tempo passou e o voto de Gilmar Mendes que formou maioria no Supremo contra um pedido de liberdade do petista, nesta quarta (9), fechou a porta. Sua defesa ainda mira o STJ, mas estima que o julgamento de recursos na corte levará meses.

O PT agora enfrenta uma encruzilhada com o discurso de manutenção da candidatura de Lula à Presidência. Se o partido sustenta que o processo contra seu líder tem o objetivo de tirá-lo da eleição, fica cada vez mais frágil a crença de que ele poderá participar da disputa.

Roberto Dias: Ciro paz-e-guerra

- Folha de S. Paulo

Tudo indica que o pré-candidato do PDT à Presidência quer ser o Lula de 2002

Desde a redemocratização, alguns candidatos se notabilizaram por concorrer repetidas vezes à Presidência. Nomes como Lula, Eymael, Levy Fidelix, Enéas e José Maria de Almeida.

Nenhum deles cumpriu um hiato tão grande quanto o de Ciro Gomes, que após 16 anos volta à disputa que já percorreu duas vezes (comparação que, vale dizer, usufrui do direito de não acreditar que a nova investida presidencial de Fernando Collor sobreviverá até 7 de outubro, data do primeiro turno).

Em 2002, ano da última tentativa de Ciro, o mundo tinha, como agora, uma Argentina pendurada no FMI, e o Brasil, novidade nenhuma, um governo ruim de voto.

A corrida pelo Planalto incluía um candidato que tentava se despir da imagem de radical e outro com imagem de arestoso demais. A Folha sabatinou os dois, e os títulos falam por si. Do primeiro foi: “Evasivo, Lula poupa bancos, mídia e FHC”. Do segundo saiu: “Ciro afronta mercado, ataca Lula e critica FHC”.

Maria Cristina Fernandes: O encontro dos eleitores de Lula e Joaquim

- Valor Econômico

Até outubro, duelo será entre alienação e resistência

Foi a ausência desesperada por uma alternativa eleitoral que contemplasse o discurso anticorrupção e o combate à desigualdade que inflou o balão de Joaquim Barbosa. O ex-ministro nunca disse sim ou não. Foi sem nunca ter sido. Despistou jornalistas e pré-candidatos em busca de imagens para seus panfletos eletrônicos. Nem equipe deixou que fosse contratada para evitar que os gastos do partido o comprometessem irremediavelmente com uma campanha. A perspectiva de ser alçado, em breve, ao topo da disputa, o amarraria ainda mais. A decisão é fruto deste momento.

As razões são outro capítulo. Os personagens não lhe eram estranhos. Alguns chegavam a lhe lembrar colegas do seu tempo na alta magistratura. Todos os acontecimentos da política nacional da redemocratização pareciam, de uma forma ou de outra, ter passado por eles. Ao contrário do Supremo, no entanto, não teria como virar o enredo com um voto. Precisaria de muitos. Não teria como mudar a política sem nela mergulhar. Seria obrigado a consertar o motor com o carro andando. Ou, ainda mais difícil, subir ao palco do espetáculo cuja censura fez sua fama.

O alcance que sua candidatura tomara agrava os sintomas da desistência. Em 2014 cruzou a fronteira para fugir do assédio do candidato depois flagrado na esparrela de um grampo telefônico. Desta vez, caminha para traçar a mesma rota. Seu eleitor parece partilhar do desencanto, mas é obrigado, pela ausência de alternativas, e pela lei, a votar.

Todos os candidatos já se preparam para tentar fisgar o voto de Barbosa. Jair Bolsonaro quer pegar o eleitor que só pensa em por bandidos cadeia. Ciro Gomes vai atrás daquele que via no ex-ministro uma alternativa entre PT e PSDB. Marina Silva mira o voto anti-sistema. Fernando Haddad, o anti-desigualdade. Até Geraldo Alckmin acha que pode lhe sobrar alguma coisa. Nenhum deles, porém, parece mais aparelhado para captar o voto do ex-ministro do que a alienação eleitoral.

Bernardo Mello Franco: O impeachment vai ao cinema

- O Globo

Numa reunião a portas fechadas, senadores discutem estratégias para defender o mandato de Dilma Rousseff. Sem o tom inflamado da tribuna, a petista Gleisi Hoffmann admite que a queda da presidente é questão de tempo. “Nós vamos perder na comissão, isso está claro”, diz. “Vamos falar sério aqui. Se ela voltar, não tem condição de governar”, acrescenta.

A cena está em “O Processo”, de Maria Augusta Ramos, que chega aos cinemas na semana que vem. Será a primeira estreia da safra de documentários filmados durante a crise do impeachment.

A diretora focou suas lentes no Senado, onde se desenrolou o último capítulo da novela. A ação vai de abril a agosto de 2016, quando a presidente é afastada definitivamente. Foram quatro meses e meio de debates inúteis. Quando a partida começou, os dois lados já sabiam qual seria o placar. Mesmo assim, era preciso cumprir o rito previsto na Constituição.

O filme expõe o lado mais farsesco do processo que instalou Michel Temer no poder. Os senadores se atrapalham com os termos da acusação, baseada em pedaladas fiscais e decretos de crédito suplementar. No fim, a autora do pedido de impeachment reconhece que era tudo pretexto. Nas palavras dela, Dilma não seria derrubada por “questões contábeis”.

Ricardo Noblat: Por que não haverá frente de esquerda para a sucessão de Temer

- Blog do Noblat | Veja

Cada um por si e o eleitor por quem quiser

Somente Lula, hoje condenado, encarcerado e impedido de se candidatar, seria capaz de liderar uma frente de partidos de esquerda para concorrer às eleições presidenciais de outubro próximo.

E como o PT não renunciará ao lançamento de candidato próprio à vaga de Michel Temer, não haverá frente. Outros partidos de esquerda terão seus próprios candidatos. Já os têm. Simples assim. E assim será.

Em nova carta do cárcere, divulgada ontem, Lula reafirmou que é candidato porque é inocente. E que não deixará de ser candidato. Tem razões de sobra para proceder assim até a véspera da eleição.

Se desde já abençoasse outro nome do PT, correria o risco de ser esquecido em Curitiba. A força de sua benção se diluiria até o início da campanha. E, com outras palavras, estaria admitindo ser culpado.

Lula entende que é vital para a sobrevivência do PT que o partido dispute as eleições com um candidato para chamar de seu. Outros partidos, não, preferem apostar na eleição de deputados federais.

Luiz Carlos Azedo: Bolsonaro e Lula

- Correio Braziliense

A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) rejeitou ontem um pedido de liberdade apresentado pela defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, numa votação virtual que está em 4 a 0. Votaram contra o pedido os ministros Edson Fachin, relator da Operação Lava-Jato, e Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Ricardo Lewandovski. Falta votar o ministro Celso de Mello. Conhecida como Jardim do Éden, porque tem uma maioria de ministros garantistas, que frequentemente concede habeas corpus aos réus, a decisão de ontem é uma pá de cal nas pretensões do petista de concorrer à Presidência da República até que a sua inelegibilidade tenha transitado em julgado no Supremo. Sinaliza que não sairá da cadeia antes da eleição.

No mesmo dia em que Lula sofreu mais uma derrota acachapante na Justiça, seu principal Cavalcanti, editor de Política do Correio, e a colunista Denise Rothenburg (Brasília-DF), no programa CB Poder, da TV Brasília. Acompanhado em tempo real no Facebook, a entrevista teve 7,9 mil comentários, 1,7 mil compartilhamentos e 79 mil visualizações, a maioria esmagadora em apoio às declarações do ex-militar (veja o resumo na edição de hoje do Correio) e atacando os dois jornalistas. Qualquer declaração estapafúrdia do entrevistado era veementemente endossada por seus apoiadores. É um fenômeno semelhante ao que aconteceu na eleição de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos, que derrotou a democrata Hilary Clinton. Qualquer desatino de Trump fazia sucesso entre seus eleitores.

Tendo o ex-presidente Lula como inimigo principal, Bolsonaro construiu uma campanha cujas características principais são um discurso duro e reacionário, que agora começa a derivar para a centro-esquerda, tipo todo mundo é farinha do mesmo saco; segundo, uma agenda focada na segurança pública e de conteúdo conservador nas questões de gênero; terceiro, uma base de apoio radicalizada, que se organizou nas redes sociais e tem poder mobilização onde quer que seu candidato vá. Bolsonaro é um gênio fora da garrafa; não volta mais. Os seus eleitores, digamos assim, não têm vergonha de ser feliz e pensam igualzinho ao seu candidato.

Há pelo menos duas razões robustas para o enraizamento da candidatura de Bolsonaro, ambas têm a ver com os governos Lula e Dilma Rousseff. A primeira é o hegemonismo petista no campo da esquerda, que passou a ser sinônimo de incompetência e corrupção. Quanto mais o PT desqualifica os demais partidos de esquerda, mais fortalece essa tendência. A segunda é a captura dos governos petistas pelo patrimonialismo, o fisiologismo e a corrupção, o que agora permite que o foco de Bolsonaro derive com força para a questão ética, no estilo do velho “udenismo”. De certa forma, a antiga oposição também preparou o terreno para isso, embora agora também esteja em chamas.

*José Serra: Transparência nos subsídios creditícios

- O Estado de S.Paulo

Eis uma boa agenda para o Congresso Nacional, em prol da estabilidade fiscal

No início da atual legislatura, tramitou no Congresso Nacional a Medida Provisória (MP) 663, que autorizava a União a equalizar taxa de juros nas operações de financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no âmbito do Programa de Sustentação do Investimento (PSI). Nessa oportunidade foi aprovada emenda que tornou obrigatória a publicação bimestral, pelo Ministério da Fazenda, do impacto fiscal das operações do Tesouro Nacional com o BNDES, juntamente com a metodologia de cálculo utilizada. Essa foi uma providência correta, com vista a maior transparência dos subsídios fiscais.

De fato, o relatório Boletim de Subsídios do Tesouro Nacional no âmbito do PSI e nos empréstimos ao BNDES – criado para atender a exigência da emenda – tem sido importante fonte de informação sobre o custo fiscal das operações realizadas pelo banco. Note-se que os subsídios creditícios dos empréstimos ao BNDES atingiram nada menos que R$ 15,7 bilhões em 2017.

No ano passado o Congresso aprovou a substituição da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) pela Taxa de Longo Prazo (TLP) nos novos financiamentos do banco, com um prazo de adaptação de cinco anos.

Depois de intensos debates no Senado e na Câmara dos Deputados, prevaleceu o texto elaborado pelo Poder Executivo, com poucos ajustes. Em resumo, o custo dos empréstimos com a TLP serão muito próximos do custo de captação do Tesouro Nacional em títulos de cinco anos, inclusive com o componente inflacionário.

Nas discussões havidas demonstramos que a medida teria impactos orçamentários adicionais decorrentes da elevação dos custos de captação do banco. É simples: a redução dos subsídios implícitos, almejada pelo Ministério da Fazenda, levaria a um aumento dos subsídios explícitos no Orçamento.

Zeina Latiff: Precisamos todos rejuvenescer

- O Estado de S.Paulo

Manter o modelo atual de gestão implicará mais desperdício de recursos

Há avanços no debate econômico, mas também resistem muitas ideias do passado que não deram certo. O País clama por renovação, principalmente da agenda econômica.

Salvo raras exceções, há amplo reconhecimento entre os pré-candidatos à Presidência de que o envelhecimento da população impõe desafios. Do lado fiscal, pelos gastos crescentes com a Previdência; do lado do crescimento, pela menor razão entre população em idade ativa e idosos. Serão menos pessoas para carregar o piano e este ficará mais pesado. A produtividade precisa aumentar. Espera-se um detalhamento das propostas dos candidatos.

Afinal, economistas não são políticos e devem basear suas recomendações em análises de impacto e custo-benefício. Por ora, há apenas rascunhos e, em alguns casos, inconsistências e ideias ultrapassadas de ativismo estatal e proteção de setores.

Ciro Gomes, por exemplo, abraça o compromisso com a disciplina fiscal, mas ao mesmo tempo defende a flexibilização da regra do teto para elevar os gastos públicos com investimento. Ciro defende o protagonismo do Estado na promoção do crescimento, enquanto afirma que poderá rever programas de concessão ao setor privado. Nitroglicerina pura. Junta-se a ineficiência do Estado com a quebra de contratos, o que afugenta o capital privado.

Míriam Leitão: Filmes de época

- O Globo

Crise na Argentina e atos de Trump cabem em filmes de época. A Argentina vive nos últimos dias cenas de um filme de época: congelamento de preços, ida ao FMI, crise cambial, os maiores juros do mundo. Nos Estados Unidos, os atos encenados por Donald Trump, também parecem filme antigo, com surtos de protecionismo e o conflito com o Irã de volta. No Brasil o dólar tem subido. Mas não é filme velho, é uma nova temporada da série.

O dólar está subindo no mundo inteiro em relação a várias moedas. Essa alta tem sido forte no Brasil. Mas, como disse o presidente do Banco Central Ilan Goldfajn, no “Jornal das 10”, da GloboNews, o país está preparado para enfrentar as turbulências internacionais. O fato de Ilan ter demonstrado calma diante da volatilidade deixou alguns analistas nervosos. Achavam que ele deveria ter demonstrado mais preocupação e dado sinais de que vai continuar oferecendo operações de swaps para conter as altas.

No começo de 2016 o dólar valia R$ 4,00. Na época, o Brasil tinha perdido o grau de investimento e havia uma enorme incerteza sobre o governo Dilma. Depois disso, a cotação começou a cair. Agora voltou a subir. O câmbio a R$ 3,6 como estava cotado ontem é bem mais baixo, portanto, do que estava há pouco mais de dois anos. Períodos de altas e quedas são normais no câmbio flutuante. Sempre haverá temporada de elevação, por razões internas ou externas. A grande pergunta é que fragilidades o país tem quando está diante das oscilações de moedas.

A Argentina está com muitos pontos fracos e é por isso que começa a viver as velhas cenas de idas ao FMI, ou altas bruscas das taxas de juros para tentar conter a disparada do dólar. O presidente Mauricio Macri errou quando decidiu pelo ajuste gradual. Não conseguiu vencer a crise que herdou, e os avanços da conjuntura — maiores reservas, menor inflação, correção tarifária — vão se perder exatamente nessa crise na qual o país está vivendo situações que lembram o passado. A Argentina, como o Brasil, enfrentou nos anos 1980, 1990 e começo dos 2000 crises inflacionárias e cambiais. Lá, a alta do dólar tem elementos das crises do passado. Aqui, faz parte do contexto de oscilação cambial que sempre ocorre quando a incerteza no mundo aumenta. São movimentos de natureza diferente.

Carlos Alberto Sardenberg: A lição argentina

- O Globo

FMI empresta dólares a juros baixos, mas governo precisará aprofundar o ajuste fiscal e macro. Nada fácil politicamente

O presidente argentino, Mauricio Macri, deu azar. A política econômica que tentou — do ajuste gradual ou do liberal com coração — só daria certo em um ambiente externo muito favorável aos países emergentes, como ocorreu até pouco tempo. Ou seja, a aposta de Macri não era maluca. Fazia sentido. Mas não contava com o aquecimento da economia americana e com tensões internacionais.

O mundo estava assim: dólar barato e abundante, disponível para investimentos e empréstimos; juros internacionais muito baixos; forte crescimento global, elevando demanda e preços de commodities.

Com isso, Macri conseguiu regularizar a situação externa do país — encerrando uma moratória de décadas e captando empréstimos novos de nada menos que US$ 100 bilhões. Havia confiança no governo e na sua política de desmontar os estragos da era Kirchner, promovendo o equilíbrio das contas internas e externas de maneira gradual.

Foi um erro, muitos dizem hoje. Mas, na hora, quando se elegeu em 2015, era diferente. Os preços estavam congelados; as tarifas eram baratas à custa de subsídios pagos pelo governo; este se financiava com dívida cada vez mais cara ou, especialmente, imprimindo dinheiro e fazendo uma baita inflação. E, para completar, os Kirchner haviam feito uma intervenção no IBGE deles e entregavam números falsos. A inflação real passava dos 50%. No oficial, aparecia como menos de 15%.

Ribamar Oliveira: Queda de braço entre o TCU e a Receita

- Valor Econômico

Guardia e Rachid tentarão resolver o problema

Na semana passada, os ministros do Tribunal de Contas da União (TCU) decidiram se abster de expressar conclusão sobre a confiabilidade e a transparência das informações referentes a créditos tributários a receber a cargo da Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB). A decisão, que é inédita, consta do acórdão 977/2018.

Os técnicos do TCU informaram aos ministros que, no decorrer de uma auditoria sobre as contas de créditos tributários a receber e da dívida ativa tributária, constantes do balanço patrimonial do Ministério da Fazenda, solicitaram diversas informações à RFB, que foram negadas sob o argumento do sigilo fiscal.

Eles explicaram também que, apesar de terem sido disponibilizadas duas salas para a equipe de auditores, "apenas foi realizado o cadastro de acesso à rede interna (intranet) para os membros da equipe" e que "nenhum acesso de consulta aos sistemas da RFB foi efetivamente concedido".

Por causa do que chamaram de "restrições de acesso" às informações econômico-fiscais dos contribuintes, os auditores disseram que "não foi possível atestar os valores da conta de créditos tributários em nível de transação ou registro, haja vista a impossibilidade de adentrar nos dados individualizados". Por isso, "a equipe de auditoria não teve outra alternativa a não ser propor se abster de expressar conclusão sobre a confiabilidade e a transparência das informações referentes aos créditos tributários a receber".

A recomendação dos auditores foi acolhida pelos ministros do TCU. O presidente do Tribunal, ministro Raimundo Carrero, propôs que fosse incluído no acórdão um item determinando que o presidente Michel Temer seja informado de que "a obstrução aos trabalhos de fiscalização ocorrida na auditoria financeira realizada nas demonstrações contábeis do Ministério da Fazenda do ano de 2017 pode impactar no exame da prestação de contas do governo federal no referido exercício". A proposta foi aprovada.

Arida diz que próximo presidente tem que zerar déficit em dois anos

Por Vandson Lima | Valor Econômico

BRASÍLIA- Responsável pela formulação do programa econômico de pré-candidato do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, o economista Persio Arida pregou a necessidade de que o próximo presidente faça uma política fiscal dura, que permita zerar o déficit público em, no máximo, dois anos.

Em reunião da Executiva tucana ontem, em Brasília, Arida foi apresentado a parlamentares da do PSDB junto com Luiz Felipe d'Avila, que ficará responsável pela comunicação; e Lula Guimarães, que fará a estratégia de campanha. A continuidade da linha reformista adotada pelo governo do presidente Michel Temer foi vista com bons olhos pelos participantes. Já a formalização de uma aliança com o MDB, segundo interlocutores de Alckmin, está mais complicada.

A reunião foi fechada. Segundo participantes, Arida falou da necessidade de investir em uma agenda de desburocratização, privatizações, abertura econômica e mudanças constitucionais que permitam melhor manejo do orçamento.

Ele ainda não apresentou a proposta, adiantada por Alckmin, para dobrar a renda do brasileiro em um período determinado. Arida deixou o encontro sem falar com a imprensa. "Vamos estabelecer em quantos anos dobrará a renda do brasileiro. Obviamente não será em um mandato [de quatro anos]", afirmou Alckmin.

Já o déficit, contou o pré-candidato, tem urgência. "Zerar o déficit não pode gastar nem meio mandato". E garantiu de ter meios para alcançar o objetivo. "Em São Paulo, atravessei toda a crise com superávit. Nós sabemos fazer isso", assegurou.

Na avaliação do circulo próximo de Alckmin, a aproximação com Temer "esfriou" nos últimos dias. A aliança ainda pode ocorrer, mas ficou menos provável.

Segundo duas fontes ouvidas pelo Valor, Alckmin se irritou e atribuiu ao Palácio do Planalto o vazamento da informação de que ele entrou em contato telefônico com o presidente, na semana passada, para marcarem "um café". "Era início de namoro, uma coisa cuidadosa, e o Temer espalhou pros jornais. Inadmissível. Alckmin ficou muito bravo", atestou um interlocutor.

Tanto é que, apesar de estar em Brasília, Alckmin não havia marcado o referido encontro com Temer. Despachou na sede do PSDB pela manhã, comandou à tarde a reunião da Executiva em um hotel e, à noite, participaria do jantar anual da Associação de Transporte de Cargas e Logística.

Questionado, assegurou que não havia, de fato, agenda prevista com o presidente. "Vou no jantar e amanhã embarco no primeiro voo a São Paulo".

Sobre a possibilidade de defender o legado de Temer, Alckmin disse: "Isto não está colocado neste momento. O que defendo é falar do futuro, esperança. Estamos fazendo conversas com partidos que não terão candidatos".

Num chiste, Alckmin acabou explicitando a distância que há neste momento dele e do MDB ao falar do ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun (MS), que cobrou a defesa das realizações da gestão Temer como contrapartida à aliança. "Tenho grande apreço pelo Marun. Meu vizinho. Só o que nos separa é o Rio Paraná", sorriu, lembrando o rio que separa os Estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul.

Saída de Joaquim pressiona por definições: Editorial | O Globo

Em uma campanha curta, candidatos já devem começar a expor suas propostas sobre questões básicas para o país, o que facilitará a escolha pelo eleitor

A desistência do ex-ministro do STF Joaquim Barbosa, que sai da corrida presidencial antes mesmo de formalizar sua entrada pelo PSB, significa menos um concorrente com a característica de outsider, muito valorizada num momento em que o político tradicional virou sinônimo de corrupção, de cadeia e de rejeição popular. Antes, refugara o apresentador Luciano Huck, e outro com pedigree semelhante, João Doria (PSDB), já havia sido batizado na vitória surpreendente na eleição municipal em São Paulo e resolveu tentar o Palácio dos Bandeirantes, sem competir com o ex-patrono Geraldo Alckmin para o Planalto. Não são desprezíveis os quase 10% de apoio a Joaquim Barbosa detectados em pesquisas, e que já estão sendo disputados pelos demais candidatos. Como a campanha desta vez é mais curta, entende-se que a caça a alianças se acelere, para a captura não só dos eleitores egressos do ex-ministro do Supremo.

Do ponto de vista do eleitorado importa saber em que bases os acordos estarão sendo costurados e, mais do que isso, o que pensam, enfim, os senhores e senhoras candidatos. O tempo passa, e questões sérias estão colocadas à frente do país.

O candidato Jair Bolsonaro (PSL) acaba de falar sobre a Previdência, problema-chave do Brasil, e defender um sistema para os jovens, a fim de evitar uma transição “tumultuada”. É pouco e ininteligível.

Entende-se que possa haver uma prevalência da órbita política numa fase inicial das conversas para montagem de alianças. Está presente, também, o cuidado em atrair aliados que somem tempo de TV na campanha eleitoral dita gratuita. E assim como existe a busca pelo outsider — por enquanto atenuada com a defecção de Joaquim Barbosa —, há a procura pela ocupação do centro no mapa ideológico. O ponto médio entre Bolsonaro e Boulos.

A recuperação da Petrobrás: Editorial | O Estado de S. Paulo

Ao alcançar seu maior valor de mercado, graças sobretudo ao desempenho econômico e financeiro que vem apresentando, a Petrobrás dá um claro exemplo de que, se gerida com competência técnica e responsabilidade, produz resultados altamente positivos para seus acionistas e para o País. Um dia depois de anunciar seu resultado financeiro do primeiro trimestre do ano, a empresa atingiu a cotação recorde de R$ 312,5 bilhões em bolsa. É uma demonstração de que sua imagem – corroída por anos de funcionamento de um amplo esquema de pilhagem que nela foi instalado pelas administrações lulopetistas – vem sendo pacientemente reconstruída, e com grande êxito, pela diretoria presidida por Pedro Parente, que a conduz desde junho de 2016, logo após o impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Livre da sujeição a uma política de controle de preços, marca da desastrosa gestão de Dilma Rousseff, seguindo uma política prudente de venda de ativos para reequilibrar suas finanças e beneficiada pelo aumento do petróleo, a Petrobrás conseguiu aumentar os lucros ao mesmo tempo que reduziu os custos não voltados à sua atividade principal. No primeiro trimestre, seu lucro alcançou R$ 6,96 bilhões, 57% maior do que o de um ano antes. É o melhor resultado dos últimos cinco anos, o que permitirá à empresa voltar a remunerar seus acionistas. Houve ainda uma importante redução da dívida em proporção ao resultado operacional.

Diante dos resultados agora alcançados, podemos imaginar o que seria a Petrobrás não fossem os danos causados pela sanha da tigrada que anunciou planos mirabolantes de produção e se locupletou com o petrolão.

Fantasmas argentinos: Editorial | Folha de S. Paulo

Governo Macri busca o socorro do FMI, o que deve levar ao endurecimento do ajuste econômico

O surpreendente pedido de ajuda do governo argentino ao Fundo Monetário Internacional (FMI), de valores e condições ainda pouco esclarecidas, pode até ter boas razões econômicas. O país vizinho ganharia fôlego para enfrentar uma crise de confiança e persistir em sua agenda de ajustes.

Do ponto de vista político, contudo, trata-se de um desastre com consequências em potencial para as eleições presidenciais do ano que vem. É um golpe duro, afinal, no prestígio da administração de Mauricio Macri, até agora saudada como reformista e responsável.

Não há dúvida de que o mandatário argentino, eleito em 2015, assumiu um país em situação ainda pior do que a brasileira —embora o desequilíbrio orçamentário seja um pouco menos acentuado lá.

No início do mandato de Macri, estavam suspensos os pagamentos da dívida externa, o que na prática impedia o acesso de governo e empresas ao mercado internacional.

As políticas populistas de Cristina Kirchner, como congelamento de tarifas públicas e subsídios de todo tipo, legaram um quadro de desordem administrativa completado pela inflação sem controle, camuflada nas estatísticas oficiais.

No atual governo, a renegociação dos compromissos com credores estrangeiros foi concluída, abrindo espaço para a captação de novos recursos nos últimos dois anos.

Trump amplia riscos globais ao romper acordo com Irã: Editorial | Valor Econômico

As ações do presidente Donald Trump deixam claro que os maiores riscos econômicos e políticos para a ordem mundial vêm da Casa Branca. Um estimulo fiscal a uma economia em pleno emprego está antecipando o cronograma do Fed para os juros e o dólar forte daí decorrente já derrubou a Argentina e provoca fortes desvalorizações em moedas de vários países. A guerra comercial com a China está apenas no início, mas Brasil e outros parceiros dos EUA foram atingidos com tarifas. Anteontem, Trump retirou os EUA do acordo feito com o Irã, que também tem como signatários o Reino Unido, França, Rússia, Alemanha e China, criando novo foco de instabilidade no explosivo Oriente Médio, além de jogar para cima o preço do petróleo, com chances de empurrar para cima também a inflação americana.

O governo Trump só tem disparado ultimatos a seus aliados, enquanto desdenha apelos sensatos vindos deles. Seus toscos métodos antidiplomáticos tornaram-se uma marca registrada e em algum momento produzirão grandes reveses. O fim do acordo do Irã envolve sérios riscos. Não há um único motivo para que os EUA se retirem agora do acordo, que, como atestam aliados e a minuciosa averiguação da Agência Internacional de Energia Atômica, vem sendo cumprido à risca pelo Irã. A guerra comercial idealizada na Casa Branca é uma resposta errada ao problema do déficit comercial americano, mas os EUA ganham alguma coisa com isso. É difícil vislumbrar qualquer benefício na atitude em relação ao Irã.

A política externa americana agora está sendo guiada por pessoas como John Bolton, que tinha propostas para lidar com os programas nucleares da Coreia do Norte e do Irã - ataques militares preventivos. Na ausência deles, os EUA pedem coisas impossíveis de serem atendidas pelo Irã, com condições difíceis de serem cumpridas também por seus aliados europeus.

Populistas de extrema direita se unem aos antissistema para governar Itália

Coalizão. Sinal verde de Berlusconi, nove semanas após eleição, permite aliança do Movimento 5 Estrelas, fundado pelo comediante Beppe Grillo, com a Liga, de extrema direita; movimentos antagônicos têm em comum a aversão à União Europeia e a imigrantes

Ansa | O Estado de S. Paulo.

Após nove semanas de impasse, o ex-premiê Silvio Berlusconi deu ontem sua ‘bênção’ para uma aliança entre o antissistema Movimento 5 Estrelas (M5S) e o partido ultranacionalista Liga. O aval do líder conservador era o principal entrave para a coligação inédita de alas políticas opostas. A negociação foi iniciada ontem para impedir que o presidente italiano, Sergio Mattarella, nomeasse um primeiro-ministro apartidário.

A Liga tem uma linha ideológica clara e se beneficiou do crescimento das ideias de extrema direita e ultranacionalistas na Itália. Já o M5S cresceu graças a um difuso sentimento antipolítica no país e é ideologicamente bastante heterogêneo.

Os dois partidos se mobilizaram para encerrar o impasse político provocado por eleições inconclusivas e tentar formar um novo governo na Itália. Eles pediram um prazo de 24 horas para tentar estabelecer aquela que seria a primeira coalizão de forças antissistema no país.

Mattarella deu um prazo até amanhã. Um premiê apartidário, como o que seria indicado por ele, comandaria um governo “neutro” para preparar o país para eleições antecipadas, possivelmente em julho.

Construção. O Movimento 5 Estrelas propôs várias vezes formar um governo com a Liga, mas com a condição de que ela rompa com sua aliada Força Itália (FI), partido liderado por Berlusconi.

O líder da Liga, Matteo Salvini, vinha rejeitando se desvencilhar do ex-premiê por lealdade à aliança de centro-direita. O M5S considera Berlusconi, de 81 anos, condenado por evasão fiscal, um símbolo da corrupção na política italiana.

Bolsonaro estimula militares na política

Por Fernando Taquari | Valor Econômico

SÃO PAULO - Sem perspectiva de conquistar o apoio de partidos grandes em um eventual governo, o deputado federal e presidenciável do PSL, Jair Bolsonaro (RJ), aposta na eleição de militares para construir uma base mínima de sustentação no Congresso e nos Estados. Por isso o parlamentar, que é capitão do Exército, tem estimulado a participação de integrantes das Forças Armadas na disputa eleitoral.

"O partido do Exército é o Brasil. Eles [militares] nunca tiveram candidatos. Agora, querem participar do futuro da nação", defendeu Bolsonaro ao ser questionado sobre o crescente interesse de integrantes das Forças Armadas na política. A declaração ao Valor foi feita após a cerimônia que oficializou o general Luiz Eduardo Ramos Baptista Pereira no Comando Militar do Sudeste.

Na ocasião, Bolsonaro ainda reiterou a promessa de um governo composto por militares. "Não sei porque alguns têm preconceito. Até há pouco tínhamos corruptos e terroristas loteando ministérios e ninguém falava nada. Se eu chegar lá, quase a metade dos ministros, será militar, com toda a certeza. A honestidade e o patriotismo têm que valer mais para você administrar bem o país", declarou.

A lista de pré-candidatos militares não está fechada. Até o momento são 71 em 26 Estados. Por ora, o Acre é a exceção. "Criamos um grupo de WhatsApp. Alguns que não vão concorrer e eram cotados pediram para sair, enquanto outros pediram para entrar. Estamos em permanente atualização", diz o general Roberto Peternelli, responsável pelo levantamento.

Dos 71 postulantes, 25 concorrem a deputado estadual e distrital, 39 a deputado federal, dois ao Senado e três a governador (CE, DF e MA), além de Bolsonaro, que disputará o Planalto. O tenente coronel Arnoldo (PRP-DF) ainda não definiu o cargo. De olho em uma vaga na Câmara Distrital, a coronel Regina Moézia (PRP) é a única mulher na lista, que tem o PSL como principal porta-voz dos militares, com 35 pré-candidatos.

Temer estuda medidas que aumentem cacife de apoio a PSDB

Por Marcelo Ribeiro | Valor Econômico

BRASÍLIA - O presidente Michel Temer está atuando em diversas frentes para vender caro o apoio do MDB e da máquina federal à pré-candidatura do ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin, do PSDB, à Presidência da República. Diante de sua impopularidade e do desempenho fraco nas pesquisas de intenção de voto, o emedebista encomendou ao ministro de Minas e Energia, Moreira Franco, um estudo para levantar possíveis medidas para baratear o preço dos combustíveis, como a tarifa da gasolina.

Temer acredita que com a adoção da medida conseguirá ver uma melhora da avaliação do governo em pesquisas futuras, o que poderá tornar mais pesada a moeda de troca pelo seu apoio nas urnas.

Ainda que partidos do centro político tenham demonstrado disposição em articular a criação de uma ampla aliança isolando PSDB e MDB, Temer decidiu ampliar suas investidas sobre as legendas do bloco. Pensando em valorizar seu passe nas negociações pela composição de uma candidatura única do centro político, o presidente resolveu retomar a interlocução com legendas como o PRB, que tem o empresário Flávio Rocha como pré-candidato ao comando do Palácio do Planalto, e o PR e o PP, que não apresentaram candidatura própria.

Ontem, em reunião com o deputado Fausto Pinato (PP-SP), Temer teria falado em alianças regionais entre emedebistas e progressistas, mas também colocou na mesa que seria interessante que "os partidos pudessem jogar juntos" na corrida presidencial. Na terça-feira, as investidas foram sobre o ex-ministro Marcos Pereira, que é presidente do PRB.

Segundo auxiliares do Planalto, Temer acredita que, se o flerte com PRB, PP e PR vingar, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que é pré-candidato à Presidência pelo partido comandado pelo prefeito de Salvador ACM Neto, deixará de resistir à possibilidade de fazer parte de uma composição com as demais legendas do centro.

Caso esse cenário se concretize, Temer terá mais fichas na mesa para negociar por mais espaço na chapa única do centro político. Em conversas reservadas, o emedebista tem afirmado a interlocutores que o cenário ideal é que o centro consiga compor uma aliança formada por pelo menos nove siglas em torno de uma candidatura. "Ele quer que se juntem com o MDB o DEM, PSD, PP, PR, PTB, Solidariedade, PRB e PSDB", afirmou um aliado de Temer ao Valor.

Temer desiste e atua por Meirelles

Sem apoio do PMDB, o presidente Michel Temer confirmou a aliados próximos que não disputará a eleição e sinalizou que atuará nos bastidores pela candidatura do ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles.

Temer desiste e atua por Meirelles na eleição

Sem apoio do PMDB e temendo virar alvo fácil na campanha, presidente já anunciou decisão a ministros

Robson Bonin e Bruno Góes | O Globo

-BRASÍLIA- Em conversa com aliados do seu círculo pessoal, no Palácio da Alvorada, na tarde de domingo, o presidente Michel Temer confirmou que não irá disputar as eleições de outubro. Reunido com o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles e com dois de seus auxiliares mais próximos, o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, e o ministro de Minas e Energia, Moreira Franco, o presidente deixou claro que pretende sair de cena como candidato e deu sinais de que irá atuar nos bastidores pela candidatura do ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles.

Desde que anunciou o desejo de disputar a reeleição, Temer experimentou o avanço do noticiário policial — ele responde a dois inquéritos no STF — sobre seu grupo político e familiar. Também enfrentou resistências dentro do seu próprio partido, preocupado com os prejuízos financeiros de uma campanha presidencial centrada na sua reeleição. Para auxiliares do presidente, a escalada de notícias negativas e a devassa no passado de Temer tenderiam a piorar muito durante a campanha, o que deixaria o presidente sob constante tiroteio dos candidatos.

— Imagine como seria a cobertura da imprensa de um presidente candidato, com todos os repórteres que já cobrem o Planalto indo a todo evento dele? O Michel não teria um segundo de paz. E tudo que ele precisa agora é tocar o governo e deixar de ser alvo — diz ao GLOBO um auxiliar direto de Temer.

Além de ter sido aconselhado a sair dos holofotes eleitorais, Temer decidiu trabalhar pela construção da candidatura de Meirelles por considerar o ex-ministro o único que poderá fazer a defesa do seu governo durante a campanha. A recente aproximação com Geraldo Alckmin, na última semana, manteve o diálogo aberto com o PSDB. Temer, no entanto, sabe que o pré-candidato tucano jamais defenderia o governo na campanha — e tampouco interessa ao PSDB atrair para sua candidatura a impopularidade do presidente.

Internamente, no PMDB, Temer também foi convencido das resistências ao seu nome dentro dos diretórios regionais. Ao longo de três jantares com lideranças peemedebistas nas últimas semanas, o clima entre os líderes regionais era de angústia. Os dirigentes estaduais do PMDB apresentaram uma série de dificuldades políticas ante a possibilidade de terem que sustentar uma candidatura de Temer nos estados. Sem recursos próprios para bancar o projeto, Temer teria de utilizar as verbas do seu partido, o que prejudicaria a distribuição de dinheiro para campanhas de parlamentares e de governadores país afora.

Meirelles diz que não será vice em chapa com PSDB

Daniel Weterman Felipe Frazão / O Estado de S. Paulo.

BRASÍLIA - O ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles afirmou ontem que mantém sua intenção em ser candidato à Presidência pelo MDB e não considera a hipótese de ser vice em uma eventual chapa encabeçada por outro presidenciável. Enquanto o presidente Michel Temer tem conversado com o PSDB, que lançou o ex-governador Geraldo Alckmin como pré-candidato, Meirelles disse que uma aliança com os tucanos só é possível se o partido aceitar a vaga de vice em uma chapa encabeçada pelo MDB.

“Se é possível fazer imediatamente uma aliança com o PSDB? Certamente, não há dúvida, desde que o PSDB aceite uma candidatura à vice.”

Ele também disse que não acredita em “acordo de bastidor” e que o critério para definir candidatos em aliança deve ser o potencial eleitoral. “Outros poderão tomar a mesma decisão, acredito que essa consolidação será natural porque eu não acredito muito em acordo de bastidor”, declarou. “Só o potencial eleitoral, de fato, é que vai definir isso.”

Alckmin. Depois de participar de reunião da Executiva do PSDB, em Brasília, Alckmin disse que não discute a defesa de um legado do governo Michel Temer, apesar de o Palácio do Planalto ter iniciado conversas com a cúpula tucana para eventual formação de aliança.

Alckmin afirmou que tal defesa “não está colocada em discussão no momento”. O tucano disse que seria uma “indelicadeza” porque o MDB tem como pré-candidato à sucessão de Temer o ex-ministro da Fazenda. “O que estamos fazendo nesse momento é uma conversa com partidos que certamente não terão candidato.”

“Novo legislativo”: STF discute ampliação de nova regra do foro

Ministro Dias Toffoli propõe estender mudanças a Executivo e Judiciário

Câmara dos Deputados também instala comissão para rever legislação sobre o tema

O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, encaminhou ontem à presidente Cármen Lúcia proposta para estender a restrição do foro privilegiado a todas as autoridades, além de deputados e senadores. Desde a decisão do STF na semana passada, 44 processos e inquéritos envolvendo políticos já deixaram a Corte. A Câmara instalou comissão especial para analisar proposta sobre o tema.

Decisão em cascata

Dias Toffoli propõe restringir foro a todas as autoridades federais, estaduais e municipais

Carolina Brígido, Renata Mariz e Bruno Góes | O Globo

-BRASÍLIA- Depois de uma semana de polêmicas e dúvidas sobre a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que restringiu a regra do foro privilegiado, o ministro Dias Toffoli enviou ontem para a presidente da Corte, Cármen Lúcia, duas propostas de súmula vinculante — um instrumento para unificar decisões de tribunais de todo o país — nas quais sugeriu estender a nova regra a todas as autoridades do Executivo, Legislativo e Judiciário em nível federal. Toffoli também quer eliminar a prerrogativa de foro para autoridades dos estados e municípios, prevista nas constituições locais. A decisão do ministro é mais um capítulo da discussão que se formou desde que a Corte decidiu aplicar restrições ao foro privilegiado.

Na semana passada, o STF decidiu que deputados e senadores só teriam o direito de serem processados e julgados na Corte por crimes cometidos durante o mandato e relacionados à atuação parlamentar. Ao propor as súmulas, Toffoli sustenta que as medidas vão eliminar controvérsias nos tribunais que possam gerar “grave insegurança jurídica”. Isso porque mais cortes podem estender a interpretação da restrição do foro para outros cargos.

Na segunda-feira, o ministro Luiz Felipe Salomão, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), usou o princípio da simetria e aplicou o entendimento do STF para um processo contra o governador da Paraíba, Ricardo Coutinho (PSB). Os governadores têm direito ao foro no STJ, mas o ministro enviou a investigação para a primeira instância. Salomão também abriu discussão sobre a possibilidade de aplicar o entendimento a integrantes do Judiciário e do Ministério Público.

Para uma súmula ser aprovada, são necessários votos de oito dos 11 ministros. Antes, Cármen precisa pautar o julgamento. Ainda não há previsão de quando isso acontecerá. No STF, a ideia de Toffoli repercutiu. Luiz Fux ponderou que uma súmula só pode ser aprovada quando a decisão é tomada repetidas vezes pelo tribunal. No caso do foro, houve só um julgamento em que foi discutida apenas a situação de deputados e senadores.

— É necessário um julgamento de casos referentes a outras categorias para se chegar a uma conclusão global e fixar uma súmula — disse Fux.

Paulinho da Viola - Nervos de Aço

Charles Baudelaire: A giganta

Pois quando a Natureza, em seu capricho exato,
Gerava estranhos seres raros, dia a dia,
Uma giganta moça – eis do eu gostaria,
Para viver-lhe aos pés com a volúpia de um gato.
Ver seu corpo florir com a flor de sua alma
E crescer livremente em seus terríveis jogos;
Ver se não teria no peito alguma oculta chama,
Com as chispas molhadas que mostra nos olhos.
Percorrer à vontade a realeza das formas,
Escalar a vertente dos joelhos enormes
E, quando os sóis do estio, à complacência alheios,
Estendem-na, cansada, ao longo da campina,
Dormir descontraído à sombra dos seus seios,
Como abrigo tranqüilo ao pé de uma colina.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Vera Magalhães: A hora da peneira

- O Estado de S.Paulo

Pulverização inicial de candidaturas começa a dar lugar a um afunilamento

À medida que a corrida eleitoral avança, a inicial pulverização de candidaturas começa a dar lugar a um afunilamento. O movimento começou: candidaturas dos mesmos campos político-ideológicos começam a conversar, e a saída de Joaquim Barbosa da disputa tira do páreo o mais próximo que havia restado de um “outsider” do jogo da política tradicional.

Justamente por reunir atributos desejados pelo eleitorado cético com a política, Barbosa era o oponente visto como mais perigoso pelos concorrentes. Mas ele próprio surpreendeu a opinião pública e o PSB e, antes mesmo de o jogo começar para valer, anunciou que estava fora.

A forma voluntarista com que agiu tanto na filiação, aos 45 minutos do segundo tempo, quanto na desistência mostra que talvez tenha sido melhor que ele tenha saído logo agora. Política requer couro curtido, resiliência e disposição ao diálogo. E a situação para lá de delicada do Brasil nos campos institucional, político e econômico não combina com dúvidas tão “classe média sofre” como saber se a portentosa aposentadoria de um ex-ministro do STF seria suficiente para manter a família. A Presidência da República é infinitamente maior que isso.

A rapidez com que os “candidatos ao novo” desistiram da missão reforça a máxima das raposas velhas segundo a qual a política não é para amadores. O que mostra a total falta de sintonia entre o establishment político e o que deseja o eleitorado.

Se já não havia favoritos na atual disputa, como bem notou Eliane Cantanhêde em sua coluna, a saída de Barbosa retira da equação também a possibilidade de renovação. Ganham, num primeiro momento, os partidos mais estruturados, que já vinham tentando se reorganizar em torno de menos candidaturas.

Essas conversas continuam, ainda que o desfecho deva ocorrer apenas mais adiante. De um lado, Geraldo Alckmin tenta costurar uma ampla aliança de centro-direita, que esbarra na disputa velada entre DEM e MDB pelo lugar pelo lugar do copiloto e na hesitação do tucano em ter Michel Temer no centro do palanque.

De outro, a expectativa é de que as siglas de esquerda também se organizem de forma menos dispersa, e Ciro Gomes passa a ser um polo possível, a despeito da negativa do PT em apoiá-lo. O primeiro sinal foi dado pelo governador Flávio Dino (PCdoB-MA), e o PSB, ainda atordoado pelo fora que levou de Barbosa, pode também se aproximar do pedetista.

Nesta terça-feira, 11 pré-candidatos se revezaram num ensaio de debate em Niterói. Muitos desses não passarão pela peneira que já reteve Lula, preso, e os aspirantes a um novo que insiste em não vir. A tabela abaixo traz os mais e menos cotados na bolsa de apostas.

Bernardo Mello Franco: Barbosa sai, a incerteza fica

O Globo

Joaquim Barbosa era o último outsider que parecia ter chance de vencer a eleição.

Joaquim Barbosa usou 173 caracteres para informar que não será candidato a presidente da República. O tuíte pôs fim a meses de conversas com políticos, economistas, marqueteiros e eleitores que o abordavam nas ruas.

O assédio cresceu nas últimas semanas. Com a desistência do apresentador Luciano Huck, o ex-ministro do Supremo se tornou o último outsider que parecia ter chance de vencer a eleição.

As pesquisas indicavam que essa possibilidade era real. Sem dar uma única declaração como presidenciável, Barbosa alcançou 10% das intenções de voto. A expectativa geral era de que ele decolaria ao se apresentar como candidato.

O ex-ministro chegou a dar o primeiro passo em abril, ao aceitar o convite para se filiar ao PSB. O partido já recrutava assessores para organizar a campanha.

E por que Barbosa pulou fora? Porque nunca havia se convencido a entrar, como repetiu a todos que o procuravam. Ele media os custos pessoais de uma aventura eleitoral. Temia perder dinheiro e tranquilidade, não necessariamente nesta ordem.

Hélio Schwartsman: As forças da inércia

- Folha de S. Paulo

Desistência de Joaquim Barbosa mostra que o sistema não é muito amigável para neófitos

Joaquim Barbosa anunciou que não será candidato. Ele era forte em termos de potencial eleitoral, mas bem mais fraco quando se olha pelo lado da governabilidade. Tremo só de pensar em como seriam as negociações entre uma personalidade incisiva como a dele e um Congresso fragmentado e oportunista como o nosso.

Se já pareceu que o pleito deste ano favoreceria o novo na política, vão se acumulando sinais de que as forças da inércia são poderosas. A desistência de Barbosa, que se segue à de Luciano Huck, mostra que o sistema não é muito amigável para neófitos.

Vão sobrando, então, velhos conhecidos como Marina, Ciro, Alckmin. Bolsonaro tenta vestir-se de novo, mas não dá para esquecer que ele cumpre seu sétimo mandato de deputado federal.

Se precedentes valem algo, tivemos, em agosto passado, já no clima distópico do pós-Lava Jato, uma eleição suplementar no Amazonas. Foram ao segundo turno Amazonino Mendes (PDT) e Eduardo Braga (PMDB) e o pedetista sagrou-se vitorioso. É difícil imaginar um quadro mais “statu quo” do que este.

Não parece, assim, absurdo prognosticar para o pleito presidencial um cenário em que um candidato da chamada esquerda enfrentará um mais ao centro no segundo turno. A dúvida é se ainda serão os representantes do PT e do PSDB que ocuparão as vagas, como vem ocorrendo há mais de duas décadas.

Rosângela Bittar: Porta-estandarte


- Valor Econômico

O grito de guerra e a oratória de carretilha de Ciro

Existe quem especule com uma provocativa porém não impossível chapa: Lula, candidato sub-judice, Ciro de vice, trazendo para a campanha a liberdade de estar e falar o que quiser enquanto o cabeça está preso, arrastando para o PDT o tempo de propaganda do PT. Não é uma miragem contra Ciro, ao contrário, pois se Lula não puder receber o troféu, o presidente será seu vice. Menos complicada, e em crescente articulação, está posta a chapa que alguns cientistas políticos consideram imbatível nesse quadro de pobreza franciscana do elenco eleitoral oferecido aos brasileiros neste 2018: Ciro e Fernando Haddad como vice, levando o dote do tempo de propaganda da televisão e a militância petista, hoje reduzida porém ainda viva.

A esse grupo poderia juntar-se agora o PSB, parte dele já lutava por isso, com a renúncia à candidatura, ontem, do ex-ministro Joaquim Barbosa. O PSB esteve sempre dividido entre a candidatura própria, Ciro e Marina. Carlos Siqueira, o presidente do partido, construiu com mão de ferro a candidatura Joaquim. Não sendo ele, o outro grupo majoritário do partido, o da aliança com Ciro ou Marina, prevalece. Como Ciro está melhor politicamente, é para ele que deve seguir a maioria.

Aí teríamos uma chapa PDT, PT e PSB, tendo sempre à frente Ciro Gomes, que já possui um residual de votos adquiridos em outras disputas. Do ponto de vista eleitoral, está tudo perfeito e é viável. Mas o diabo, para o eleitorado que precisa fazer escolhas, continua no detalhe. No caso é, simplesmente, o detalhe principal: qual o projeto político de Ciro Gomes? O que faria no governo? O que quer para o Brasil?

Ciro já entrou em três candidaturas, por diferentes partidos, e delas saiu sem que deixasse o eleitorado perceber qual seu projeto político real. O que se viu até agora foi só sua marca de temperamento, notável também fora dos período de campanha.

Sabe-se que ele tem um guru, Mangabeira Unger, professor em universidade americana, há anos, dado a estudos estratégicos mas com nenhuma conexão com a realidade brasileira. Unger chegou a ter cargo no governo por um tempo, depois saiu sem que suas ideias pudessem ser sistematizadas numa oferta de rumos. Hoje, Ciro teria mais um guru, esse conectado ao Brasil, mais precisamente ao Ceará, o economista Mauro Benevides, que estaria falando sobre projetos para a economia em seu nome. Ciro, porém, já fez uma declaração que vai dificultar o trabalho do filho do ex-deputado Mauro Benevides, de carreira política sólida até o fim, no eterno MDB cearense, que Ciro abomina. O candidato diz que vai acabar com tudo isto que foi feito pelo partido de Ulysses Guimarães no governo. O que vai colocar no lugar, só Deus sabe.

Ricardo Noblat: O mau exemplo de Joaquim Barbosa

- Blog do Noblat | Veja

Fora da política não há salvação

Joaquim Barbosa implodiu-se. Aconteceu agora. Poderia acontecer durante a campanha à primeira provocação forte de algum adversário. Ou diante de uma simples pergunta embaraçosa feita por um jornalista.

Não era do ramo. Desprezava quem fosse. Não queria ser refém do sistema político apodrecido. Não acreditava que pudesse reformá-lo. A família era contra sua candidatura.

Saiu de cena com uma entrevista melancólica concedida a Lauro Jardim, de O Globo. Disse que vê três riscos no horizonte: a eleição de Jair Bolsonaro, ou a de Michel Temer, e espaço para um golpe militar.

Ora, se Bolsonaro se eleger foi porque teve mais votos. Temer, também. É do jogo democrático. Ou Joaquim acha que a democracia por aqui é tão frágil que não sobreviveria à eleição de um deles?

Não há risco de um golpe militar. Nem militares interessados em dar um golpe – salvo algumas figurinhas carimbadas que vestiram o pijama da aposentadoria, os sem soldados e sem armas.

Mas digamos que existissem os três riscos apontados por Joaquim. Um brasileiro responsável, com chances de se eleger, não estaria obrigado a sacrificar-se para exorcizar tais ameaças? Ou não é responsável.

Com seu gesto, Joaquim demonizou a política. Reforçou a certeza dos que a enxergam como uma profissão reservada a bandidos. E desestimulou o surgimento de novas, sinceras e bem intencionadas vocações.

Bruno Boghossian: Saída de Barbosa zera jogo e dá fôlego a Alckmin, Marina e Ciro

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- Folha de S. Paulo

Desistência provocará recuo nas articulações partidárias para as eleições

A decisão de Joaquim Barbosa de não disputar as eleições zera o jogo da corrida presidencial. O impacto de sua desistência é vasto e produzirá efeitos sobre as campanhas de Geraldo Alckmin (PSDB), Marina Silva (Rede) e Ciro Gomes (PDT).

A filiação de Barbosa ao PSB, em abril, incluiu na disputa um personagem com capacidade de abraçar uma escala ampla de eleitores, atraindo segmentos tradicionalmente alinhados tanto aos tucanos quanto aos petistas. Suas chances de chegar ao segundo turno eram significativas.

A saída do ministro aposentado do STF (Supremo Tribunal Federal) da disputa provocará uma reacomodação desses votos e, principalmente, um recuo nas articulações partidárias para as eleições.

A desistência representa um alívio para o grupo de Geraldo Alckmin, que enxergava Barbosa como obstáculo no chamado centro do espectro político. O ex-presidente do STF começava a ocupar um eleitorado-alvo do PSDB: grandes cidades, renda mais alta e educação superior.

O congestionamento provocado pela entrada de Barbosa foi o que determinou a precipitação dos esforços pela unificação desse centro —exemplificada pela aproximação entre Alckmin e o presidente Michel Temer (MDB).

Os tucanos queriam evitar ou adiar qualquer articulação de uma aliança com o MDB, devido ao desgaste sofrido pelo partido do presidente, mas a multiplicação de adversários competitivos e a crescente chance de derrota os levou a antecipar esse movimento.

A saída de Barbosa deve dar algum fôlego a Alckmin nas pesquisas. Ainda que seu crescimento seja residual, qualquer solavanco pode ser suficiente para que ele se torne um polo de atração de alianças. Nesse caso, convém ao PSDB recuar duas casas nas conversas com Temer e esperar a reorganização do tabuleiro.

Barbosa desiste de concorrer e eleição fica sem ‘outsider’

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Ex-ministro do STF alega razões pessoais e recusa disputar o Planalto; sem ele, PSB analisará cenários

-O Estado de S. Paulo 

Pouco mais de um mês após se filiar ao PSB, Joaquim Barbosa anunciou ontem que não se candidatará ao Palácio do Planalto. “Está decidido. Após várias semanas de muita reflexão, finalmente cheguei a uma conclusão. Não pretendo ser candidato a presidente da República. Decisão estritamente pessoal”, escreveu ontem o ex-ministro em seu perfil no Twitter. A decisão surpreendeu líderes e dirigentes do partido e deixou a eleição presidencial sem um précandidato com o perfil de “outsider” (nome de fora da política). 

Antes do ex-ministro do STF, o empresário e apresentador de TV Luciano Huck cogitou se candidatar, mas também desistiu. Barbosa agitou o quadro eleitoral nacional nas últimas semanas ao somar até 10% das intenções de voto em pesquisa recente. O anúncio de ontem abriu um racha no PSB sobre o futuro eleitoral da legenda e levou outros partidos a iniciar uma ofensiva em busca do apoio dos pessebistas na disputa de outubro.

O ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa informou ontem que decidiu não se candidatar ao Palácio do Planalto. Pouco mais de um mês após se filiar ao PSB, Barbosa surpreendeu líderes e dirigentes do partido com a decisão, classificada por ele como “estritamente pessoal”. O anúncio do ex-ministro deixa a eleição presidencial sem um pré-candidato com o carimbo de “outsider”.

O primeiro nome de fora da política a cogitar participar da disputa foi o empresário e apresentador de TV Luciano Huck – que, depois de idas e vindas, colocou um ponto final nas especulações sobre sua eventual candidatura ainda em fevereiro.

Barbosa avaliava uma possível candidatura à Presidência desde meados do ano passado. As conversas com o PSB evoluíram e ele se filiou no prazo final previsto pela legislação eleitoral (início de abril).

Porém, descrente e crítico do sistema político-partidário nacional, o ex-ministro manifestava receio de se lançar numa disputa eleitoral. Além disso, alegava um dilema pessoal: trocar a tranquilidade da função de advogado especializado na elaboração de pareceres jurídicos – que lhe garantem alto rendimento financeiro – e o impacto que a opção pela disputa eleitoral teria na vida de familiares.

“Está decidido. Após várias semanas de muita reflexão, finalmente cheguei a uma conclusão. Não pretendo ser candidato a presidente da República. Decisão estritamente pessoal”, escreveu o ex-ministro ontem em seu perfil no Twitter.

Pré-candidatos lamentam desistência de Barbosa da corrida presidencial

Ex-presidente do STF anunciou que não será candidato por razões pessoais; Alckmin acredita em 'outra forma de participação'

Roberta Pennafort, Renata Batista e Pedro Venceslau | O Estado de S.Paulo

RIO - Pré-candidatos à presidência lamentaram nesta terça-feira, 8 a desistência do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa em disputar o cargo durante a 73ª Reunião Geral da Frente Nacional de Prefeitos (FNP) , em Niterói, na Grande Rio.
O pré-candidato do PSDB, Geraldo Alckmin disse que Barbosa, poderá participar de outra forma do processo eleitoral. Segundo o ex-governador paulista, há muitas conversas em curso sobre alianças, mas isso só deve ser concluído em julho. O PSB, partido ao qual o ex-ministro é filiado, é aliado do PSDB em São Paulo.

“É uma perda, porque precisamos de novas lideranças como ele, com mais participação e serviços para o Estado. Tenho certeza que, se não for como candidato, a participação dele será de outra forma”, afirmou Alckmin.

A pré-candidata do Rede, Marina Silva, disse que respeita o debate interno do PSB, mas destacou a “identidade programática” entre os dois partidos, que foram aliados na disputa presidencial de 2014. Ela ressaltou, porém, que a decisão do ex-ministro do STF Joaquim Barbosa ainda é muito recente e é preciso dar tempo ao PSB para debater a decisão.

“Boa parte da base da nossa proposta para 2018 está construída em cima do programa de 2014, que fizemos juntos”, disse, lembrando que o então candidato do PSB, Eduardo Campos, acolheu o Rede quando este não conseguiu o registro de partido político e que ela assumiu a cabeça de chapa após a morte de Campos em um acidente aéreo.

Henrique Meirelles, do MDB, disse nesta terça, 8, respeitar a decisão de Barbosa, que nesta manhã desistiu de sair candidato pelo PSB: "O ex-ministro Joaquim Barbosa tomou uma decisão de cunho pessoal e eu respeito essa opção", declarou o ex-ministro da Fazenda.

Outro presidenciável que comentou a desistência de Barbosa durante a FNP foi Guilherme Afif Domingos, do PSD. “Empobrece a disputa, era um quadro importante para esse processo”, disse Afif, que também afirmou que a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) , condenado na Operação Lava Jato, “embaralha bastante o jogo”.

Respeito
Já Manuela D'Ávila do PC do B disse que respeita a decisão do ex-presidente do STF Joaquim Barbosa de desistir da candidatura. “É uma decisão que passa por questões pessoais”, afirmou.

Pre-candidato do PRB à Presidência da República, o empresário Flávio Rocha disse ao Estadão/Broadcast que pode herdar votos que iriam para o ex-ministro Joaquim Barbosa (PSB). "Os votos que iriam para ele são de eleitores que demandam mudança e renovação. Nosso projeto pode ser o escoadouro desses votos", disse Rocha.

'O PSB não tem plano B', diz líder do partido na Câmara

Sigla está dividida entre abrir negociação com Ciro Gomes ou liberar a bancada

Pedro Venceslau | O Estado de S.Paulo

O líder do PSB na Câmara, deputado Julio Delgado (MG), disse nessa terça-feira, 8, ao Broadcast/Estadão que o PSB “não tem um plano B” na eleição presidencial após o ex-ministro Joaquim Barbosa desistir da disputa. “Acho muito difícil (outra candidatura própria). O PSB não tem plano B. A eleição perdeu seu grande nome”, disse o parlamentar.

A sigla trabalha agora com dois cenários: liberar a bancada ou abrir uma negociação com Ciro Gomes, pré-candidato do PDT. Um acordo com o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), opção preferencial do PSB paulista, foi descartado após uma resolução partidária restringir o diálogo à legendas de centro-esquerda.

Embora alguns caciques defendam que o PSB apresente outro nome na disputa presidencial, a tendência, segundo apurou a reportagem, é que ocorra a liberação do partido nos estados.

Em Brasília, o vice-presidente de Relações Governamentais do PSB, ex-deputado Beto Alburquerque, defendeu que o partido escolha um novo candidato para evitar uma cisão na legenda.

Após desistência de Barbosa, PSB reúne bancada na Câmara

Foco do partido é eleger governadores e ampliar a presença de deputados e senadores

Felipe Frazão | O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA - A bancada do PSB na Câmara dos Deputados realiza uma reunião de extraordinária às 17h depois de ter sido surpreendida na manhã de terça-feira, 8, pela desistência de Joaquim Barbosa, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, de concorrer à Presidência da República.

O líder Julio Delgado (MG) convocou os deputados para discutir a situação eleitoral do partido. O foco do PSB é eleger governadores – a sigla planeja disputar em 10 Estados – e ampliar sua bancada federal, de deputados e senadores.

Parte dos dirigentes socialistas deseja que o partido lance outro nome para disputar a sucessão do presidente Michel Temer, para evitar uma dispersão dos diretórios entre pré-candidatos como Geraldo Alckmin (PSDB), Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede).

Parlamentares, porém, avaliam que o racha é inevitável por causa das conveniências eleitorais de cada Estado e que a aliança seria uma forma de deixar o caminho livre para quem divergir do comando nacional.

Em março, o congresso do PSB aprovou uma resolução que vinculava o partido a candidaturas de centro-esquerda, o que significava um afastamento de Alckmin. Partidários do ex-governador paulista não devem conseguir reverter a decisão, conforme avaliação de deputados.

Deputados do PSB dizem que o projeto eleitoral de Barbosa tinha pouca sintonia com o que o partido projetava de candidatura e querem uma explicação por parte dele. Havia uma reunião prevista para ocorrer nesta semana.

A desistência frustrou inclusive a formação de uma aliança suprapartidária em prol de Barbosa. Deputados do PPS, por exemplo, desejavam organizar um café amplo com Barbosa para quebrar o engessamento do ex-magistrado na política.