sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Vera Magalhães: A vacina nos salvou de Bolsonaro

O Globo

O ano de 2021 foi salvo única e exclusivamente pela vacina. Foi ela, chegando finalmente e contra todas as ações possíveis por parte do governo federal, que nos salvou não só do vírus, mas de um acometimento ainda mais grave do mal que é Jair Bolsonaro.

Devemos à vacina, de sua elaboração em tempo recorde à tão esperada aplicação, aos fabricantes, aos cientistas, ao Butantan, aos governadores — e aí sobretudo ao de São Paulo, João Doria, é preciso dar a César o que é de César —, aos senadores da CPI da Covid e à imprensa. Sem esse consórcio atuando em desafio à disposição permanente de Bolsonaro e de seus ministros em melar a imunização, sabe-se lá a que número de mortos poderíamos ter chegado.

Mas eis que, mesmo diante da constatação óbvia até para terraplanistas irrecuperáveis, Bolsonaro segue barbarizando e espalhando sandices a respeito da imunização contra a Covid-19.

Cheguei a conferir se era a conta mesmo do presidente da República, e não a de um fake, que postara, em resposta a um post do ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, que tratava de ferrovias (!), um comentário de um anônimo chamando as vacinas de “porcarias”. Não era um fake. Era Bolsonaro. Claro que era Bolsonaro.

Flávia Oliveira: Bolsonaro nem com vacina

O Globo

O par de pesquisas de intenção de voto na sequência da confirmação de candidaturas (supostamente) robustas da terceira via — entre as quais o ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro (Podemos) e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), ganhador das prévias tucanas — mostrou um eleitorado disposto a dar a Luiz Inácio Lula da Silva uma inédita vitória no primeiro turno. Tanto Ipec (ex-Ibope) quanto Datafolha trouxeram o petista com proporção de votos muito superior à soma dos adversários. Chama a atenção a pontuação alta do ex-presidente na consulta espontânea, em que o eleitor informa o escolhido sem ser apresentado à lista de nomes. No levantamento do Ipec, Lula é preferido de 40% do eleitorado, o dobro do atual ocupante do Planalto.

O governo de Jair Bolsonaro é ruim, e os brasileiros escancaram nas pesquisas o que o procurador-geral da República, Augusto Aras, e o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, teimam em ignorar. O fracasso econômico explica muito da impopularidade do presidente (55% de avaliação ruim ou péssima). São 13,5 milhões de desempregados, 7,8 milhões com oferta de trabalho insuficiente, 5,1 milhões de desalentados, quatro em dez brasileiros na informalidade. O rendimento habitual dos ocupados despencou 11% em um ano. A inflação voltou ao patamar de dois dígitos, a gasolina subiu 50% em 12 meses, os juros só fazem subir, a comida está pela hora da morte. Metade da população enfrenta algum nível de insegurança alimentar, 19 milhões passam fome.

Bernardo Mello Franco: Réu confesso

O Globo

A interferência de Jair Bolsonaro no Iphan resume num episódio quatro faces de seu governo: desprezo à lei, desmonte das instituições, orgulho da ignorância, crença na impunidade.

Na quarta-feira, o presidente narrou um caso ocorrido no fim de 2019. O empresário Luciano Hang, bolsonarista de carteirinha, reclamou de um contratempo nos negócios. Teve que interromper a construção de uma loja em Rio Grande (RS) após a descoberta de um sítio arqueológico.

“Apareceu um pedaço de azulejo durante as escavações. Chegou o Iphan e interditou a obra”, disse Bolsonaro. “Liguei para o ministro da pasta: ‘Que trem é esse?’, porque não sou tão inteligente como meus ministros. ‘O que é Iphan, com ph?’”, prosseguiu.

“Explicaram para mim, tomei conhecimento, ripei todo mundo do Iphan. Botei outro cara lá. O Iphan não dá mais dor de cabeça pra gente”, gabou-se o presidente. A fala foi aplaudida por empresários que se aglomeravam para ouvi-lo na Fiesp.

Eliane Cantanhêde: Um General no TSE?

O Estado de S. Paulo

Pôr um general no TSE reduz ataques às eleições e ameaças de golpes à la Trump

Com o ex-presidente Lula chegando perto de 50% das intenções de voto e o presidente Jair Bolsonaro empacando em 21% a 22%, segundo o Ipec e o Datafolha, o mundo político e jurídico volta a temer, e a discutir seriamente, o risco de um golpe contra o resultado das urnas. Algo à la Trump, com ataques reais ao Congresso ou ao Supremo.

Assim, foi uma jogada de mestre, articulada pelos ministros Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso e Edson Fachin, a escolha do general Fernando Azevedo e Silva para a direção-geral do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no ano das eleições. Ele é da turma de Bolsonaro no Exército, mas um chegou ao posto máximo, o outro foi repelido ainda jovem.

General de quatro-estrelas da reserva, Azevedo e Silva foi ministro da Defesa e, ao contrário do também general Santos Cruz, não saiu atirando ao ser demitido pelo capitão Bolsonaro. Mas nunca saiu de Brasília, atento à situação. Rejeitou convites da iniciativa privada e até de políticos, mas não resistiu ao dever cívico de emprestar o nome, a credibilidade e a patente contra eventuais ameaças à democracia.

César Felício: Só Lula se move no ano

Valor Econômico

Petista cresce e adversários variam na margem de erro

Só existe um movimento nas pesquisas em 2021: o crescimento de Luiz Inácio Lula da Silva. De resto, nada de novo no front. O Datafolha de ontem trouxe Lula com 48%, Bolsonaro com 22%, Sergio Moro com 9%, Ciro Gomes com 7% e João Doria com 4%. Em maio, Lula tinha sete pontos a menos, Bolsonaro um, Moro dois, Ciro um e Doria um. Havia outros candidatos e a comparação é imperfeita, mas o quinteto estava lá.

O Datafolha é uma pesquisa presencial. Lula costuma pontuar mais alto em pesquisas assim do que nos levantamentos feitos por entrevistas telefônicas. Mas a curva, que é o que importa, tem sido rigorosamente a mesma, independentemente do método.

Em 12 de março deste ano, quatro dias depois de Lula da Silva recuperar seus direitos políticos, a pesquisa XP/Ipespe mostrava Bolsonaro na liderança eleitoral, com 27%, o petista com 25%, Moro 10%, Ciro 9% e Doria 3%. No dia 26 de novembro, a rodada da pesquisa trazia Lula na liderança com 15 pontos a mais e todos os outros quatro variando na margem de erro.

Com um detalhe, lembrado pelo cientista político Antonio Lavareda, do Ipespe: a rejeição a Lula não mudou ao longo do ano. Segundo o Ipespe, 47% dos pesquisados diziam em abril que a probabilidade de votarem em Lula era nenhuma. Sete meses depois, o percentual é 45%. No Datafolha, a rejeição é medida de modo diferente, com múltipla escolha pelo pesquisado. O percentual contra Lula é menor, mas também estável no longo prazo. Era 36% em maio e é 34% agora. Bolsonaro foi de 54% para 60%.

Naercio Menezes Filho*: Retrospectiva 2021

Valor Econômico

Além da pandemia, as políticas do governo federal estão provocando retrocessos em várias áreas

Está na hora de fazermos um balanço de 2021. A maioria das notícias nesse ano foram negativas, destacando-se a volta da fome em grande escala, que achávamos que havia terminado por aqui. Uma das únicas notícias positivas foi o avanço da vacinação em todo o país, apesar dos apelos contrários do presidente. O que aconteceu de mais importante em 2021? O que podemos esperar para 2022?

Neste ano que se encerra ainda sofremos bastante os efeitos da pandemia, que foram ampliados pelas políticas equivocadas do governo federal em várias áreas. Esses fatores estão provocando um teste de estresse contínuo no arcabouço institucional e social construídos no Brasil nos últimos 30 anos. Nesse período, construímos um sistema público de saúde gratuito, que ajudou a diminuir bastante a mortalidade, e um programa de vacinação exemplar. Esse sistema, aliado à descoberta de novas vacinas em tempo recorde, fez com que conseguíssemos vacinar grande parte da população brasileira, mais do que em muitos países mais desenvolvidos. Este ano muitos moradores de bairros ricos entraram num posto de saúde pela primeira vez na vida.

Maria Cristina Fernandes: Moro e seus mitos americanos

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Livro do ex-ministro revela adesão à versão oficial da história dos EUA, das guerras com o México à eficácia

“Depois da intervenção do presidente, não havia mais por que permanecer. Era a última trincheira, meu Álamo.” Sergio Moro já havia fechado os olhos ao relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras. Nele, reportavam-se operações suspeitas de lavagem de dinheiro de Flávio Bolsonaro na Alerj, além do cheque de R$ 89 mil depositado na conta da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, por Fabrício Queiroz, o operador das rachadinhas do então deputado estadual.

O ex-ministro também já tinha engolido a transferência do Coaf para a Pasta da Economia, a recusa do presidente em vetar as mudanças do Congresso no seu projeto anticrime e a troca do superintendente da Polícia Federal do Rio. A trincheira, no relato de Moro, caiu quando Jair Bolsonaro avançou sobre a direção-geral da PF.

A analogia usada pelo ex-ministro diz pouco sobre sua saída e muito sobre sua adesão aos 50 tons do ufanismo americano. Estaria livre para propagar o mito, que aglutina da carreira de Lyndon Johnson à ascensão da extrema direita americana, não fosse sua pré-candidatura. A adesão de um postulante à Presidência do Brasil ao mito do Álamo sugere, no mínimo, despreparo para a lida das relações de poder na política internacional.

José de Souza Martins*: Intolerância e violência

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Brasil passa por empobrecimento de sua sociabilidade

Diversos episódios de violência contra pessoas indefesas e frágeis revelam um aspecto problemático da realidade social brasileira. São aqueles casos que poderiam ter sido evitados se tomados alguns cuidados autoprotetivos em relação às vítimas potenciais. Se uma desconfiada prudência fosse adotada pelas famílias em face dos perigos da modernidade.

A falta desses cuidados revela-nos uma sociedade ignorante em relação ao que é o mundo moderno. Por isso destituída de uma consciência crítica imprescindível para viver e sobreviver participativamente nos dias de hoje.

Quanto a isso, nos países civilizados as ciências humanas são decisivas na formação da personalidade tanto dos pais quanto dos filhos. Principalmente quanto à consciência social em relação ao que é a sociedade que nos forma e nos conforma.

O mundo atual é o mundo que perdeu ou está perdendo de modo socialmente desigual os valores sociais da tradição e das identidades coletivas e a consciência dos limites e condições do que é e não é possível ser e fazer. O Brasil é um país que passa por acentuado empobrecimento de sua sociabilidade, o que se evidencia nas manifestações de violência autodestrutiva daí decorrente.

Vinicius Torres Freire: Bolsonaro perde para si mesmo

Folha de S. Paulo

Cerca de 60% do eleitorado não votaria de jeito nenhum no presidente

rejeição a Jair Bolsonaro (PL) parece o fato mais relevante do Datafolha sobre a eleição de presidente. Faltam pouco mais de nove meses para o primeiro turno, ainda haverá dança de candidatos e, não raro, os números de dezembro se desfazem ao longo do ano eleitoral. Por ora, de mais importante, a pesquisa mostra que Bolsonaro perde para si mesmo quando fica sozinho no palco.

Em segundo lugar, o Datafolha mostra que os candidatos de terceira ou quinta via não fazem cócegas nos líderes da disputa, Lula e esse tipo que ocupa a cadeira de presidente.

A questão decorrente é o que Bolsonaro vai aprontar no desespero, caso a grande repulsa persista até meados do ano que vem. O governismo tem poucos recursos políticos decentes ou normais para reverter a situação.

Reinaldo Azevedo - Datafolha evidencia que o centro é Lula

Folha de S. Paulo

Se o petista salivasse rancor, faria o jogo dos seus inimigos; prefere acenar a Alckmin

Em 2022, o centro é Lula. Também por isso aparece com 47% ou 48% das intenções de voto no Datafolha. Não estou, por exemplo, plenamente convencido de que Geraldo Alckmin vá mesmo ser o vice na chapa encabeçada pelo ex-presidente, mas a coisa em si nem é tão importante. O dado mais relevante é o fato de a composição ser debatida a sério.

O petista lidera todos os levantamentos desde que seu nome voltou a ser testado pelos institutos de pesquisa. Nos números do Ipec, divulgados na quarta, tem 40% dos votos espontâneos. No Datafolha, 32%. Segundo ambos, venceria no primeiro turno.

Faltam ainda dez meses para a disputa, eu sei. Pode-se escrever isso de outro modo: falta menos de um ano. Neste texto, não conto com prisões arbitrárias e facadas à margem da história que fazem história.

Hélio Schwartsman - Biologia eleitoral

Folha de S. Paulo

O casamento entre Lula e Alckmin não seria uma 3ª via, mas talvez a 2,5ª

Uma aliança entre Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin já parece mais que um balão de ensaio. Eles se cortejam e a cópula desponta como uma possibilidade real.

No momento, eles fazem movimentos análogos ao da sinalização sexual biológica para reforçar suas posições. Lula posa como imbatível para tentar levar Alckmin para o posto de vice pagando o menor dote possível, isto é, sem o PT abrir mão de lançar candidato ao governo de São Paulo. O petista sugere que tem todas as condições de vencer já no primeiro turno e que o ex-governador paulista não agrega tantos votos assim. Não valeria o risco de afastar eleitores de esquerda que torcem o nariz para o agora ex-tucano.

Verdade, mas só em parte. Alckmin teve poucos votos como candidato a presidente em 2018 e deve ter menos ainda fora do PSDB. Tende a zero, porém, o risco de o eleitor de esquerda deixar de votar em Lula no ano que vem. Para tirar Bolsonaro, votaria até no cabo Daciolo.

Mauro Paulino: Fidelidade a Lula e Bolsonaro reduz espaço para terceira via

Petista tem 48% no 1º turno, seguido do atual presidente (22%), Moro (9%) e Ciro (7%)

Mauro Paulino e Alessandro Janoni / Folha de S. Paulo

(Diretor-geral do Datafolha e Diretor de Pesquisas do Datafolha)

Tanto o favoritismo de Lula (PT) quanto a manutenção dos índices de Jair Bolsonaro (PL) nas pesquisas Datafolha de intenção de voto para a eleição presidencial do próximo ano têm um ponto em comum –o grau de fidelidade de segmentos significativos do eleitorado de ambos os candidatos.

Os dois já partem de um patamar cristalizado, de difícil conversão para outros nomes.

Para se ter uma ideia do desafio que a chamada terceira via enfrenta, o petista é lembrado na intenção de voto espontânea (sem a apresentação do cartão com os candidatos) por mais de um terço dos brasileiros, pouco menos do que Fernando Henrique Cardoso (PSDB) alcançava na pergunta estimulada em dezembro de 1997, ano anterior à sua reeleição em primeiro turno.

Bruno Boghossian: Efeito Moro

Folha de S. Paulo

Largada do ex-juiz reforça liderança do petista e expõe sinais de divisão na direita

A estreia de Sergio Moro na corrida presidencial não produziu o terremoto que seus apoiadores esperavam. Ao contrário, os primeiros números depois de sua largada consolidam a liderança de Lula e realçam fragilidades do ex-juiz e da candidatura de Jair Bolsonaro.

O petista aumentou sua vantagem sobre os adversários, segundo a nova pesquisa do Datafolha. Com 48% das intenções de voto, ele aparece com chances de vencer a disputa no primeiro turno. Lula tem mais que o dobro do índice de Bolsonaro e abriu uma margem significativa sobre o atual presidente entre eleitores de baixa renda: 56% contra 16%.

Os dados confirmam que o derretimento da economia favorece a candidatura do ex-presidente e sugerem que, até agora, nenhum oponente foi capaz de ativar o antipetismo como motor eleitoral.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS:

Quase na mesma

Folha de S. Paulo

Com Lula na frente e Bolsonaro estável, Datafolha apura impacto restrito de Moro

A nova pesquisa Datafolha indica que a entrada do ex-juiz Sergio Moro na disputa presidencial acirra a concorrência na faixa da chamada terceira via, mas não altera o cenário mais amplo que vem se repetindo nas últimas sondagens.

Novamente o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera com folga as intenções de voto para o Planalto em 2022. O petista, em cenário com Jair Bolsonaro (PL), Moro (Podemos), Ciro Gomes (PDT) e João Doria (PSDB), tem a preferência de 48% do eleitorado —fatia que supera a soma dos demais.

Bolsonaro permanece em segundo lugar, com 22%. O mandatário sofreu grande desgaste ao longo do ano e seu apoio vai se reduzindo à base eleitoral mais ideológica e fiel.

Distantes dos dois protagonistas, surgem os nomes que se acotovelam em busca de um lugar ao sol que possa eventualmente levá-los a um segundo turno. Os resultados até aqui não são animadores para esses postulantes.

Nesse pelotão, Moro, que experimentou um momento de considerável exposição ao se filiar ao Podemos e se apresentar como futuro candidato, não foi de todo mal ao marcar 9% das intenções. Resta saber se e como poderá evoluir.

O veterano Ciro empata na margem de erro com o ex-ministro da Justiça de Bolsonaro, com 7%. Já Doria colhe 4% das intenções, percentual fraco em se tratando do governador do estado mais rico da Federação —e nome que frequentou o noticiário de maneira positiva ao liderar esforços pela imunização contra a Covid-19.

É sempre prudente sublinhar que a pesquisa reflete o momento em que se realiza. A dez meses do pleito, não pode ser vista como um desenho que se repetirá nas urnas.

Poesia | Graziela Melo: O que faço

O que

eu faço?

 

Como faço?

 

Quanto faço,

disfarço

 

e logo

logo

 

me desmonto,

me desfaço

 

em dor

e pranto,

 

me desintegro

 

me despedaço

 

me destroço

em mil

pedaços!

Música | Bloco da Saudade: Evocação número 3

 

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Merval Pereira: Não a Bolsonaro

O Globo

A palestra do general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), em que ele diz que tem de se medicar com Lexotan na veia para impedir que o presidente Bolsonaro tome uma atitude radical em relação ao Supremo Tribunal Federal (STF), é mais um desses absurdos que estão se tornando comuns no Brasil de hoje. Em qualquer país normal do mundo, com regras democráticas em vigor, seria um escândalo capaz de provocar a demissão do ministro ou o impedimento do presidente.

Quando diz, na mesma palestra, que o presidente Bolsonaro pode vir a sofrer um atentado fatal na campanha à reeleição, Heleno está criando um clima de suspeição que só favorece os que querem tumultuar a campanha. Por que Lula não pode sofrer também um atentado, diante da insensatez dos seguidores do bolsonarismo? O fato é que o presidente busca, até agora inutilmente, fazer uma ligação entre o atentado que sofreu na campanha passada e a atuação de partidos de esquerda, e essa advertência de Heleno é mais um ingrediente irresponsável nessa narrativa.

A cada pesquisa divulgada, uma coisa parece certa: há hoje um consenso no Brasil de que é preciso tirar Bolsonaro do governo. Depois se escolhe em quem votar. Se houver uma terceira via capaz de disputar o segundo turno, será fortalecida durante a campanha, e muita gente que hoje está com o ex-presidente Lula mudará de voto.

Malu Gaspar: Lexotan na veia

O Globo

Não é de Lexotan na veia que Bolsonaro precisa para sair do corner

Já nem se pode mais dizer que seja um roteiro surpreendente: Jair Bolsonaro alimenta a retórica de força e estoicismo, faz a linha herói da pátria, mas, quando a situação aperta, o que se vê é esperneio e ameaça. O último petardo saiu da boca do general Augusto Heleno, numa formatura da Agência Brasileira de Inteligência, a Abin.

— Eu tenho tomado dois Lexotans na veia por dia para não levar o presidente a tomar uma atitude mais drástica em relação às atitudes que são tomadas por esse STF que está aí — disse o chefe do Gabinete de Segurança Institucional num áudio divulgado pelo repórter Guilherme Amado, do site Metrópoles.

O general provavelmente estava se referindo à última polêmica entre o Planalto e a Suprema Corte, em torno da exigência de certificado de vacinação para a entrada de visitantes estrangeiros no Brasil. O presidente é contra a exigência, diz que é uma “coleira”, mas o plenário do Supremo já confirmou que é para fazer. Bolsonaro pode, portanto, continuar reclamando, mas a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a Polícia Federal (PF) terão de colocar em prática o passaporte vacinal.

Esse, aliás, não é o maior problema de Bolsonaro no momento. Nos últimos dias, ele foi convocado a depor no inquérito da PF que apura a divulgação de uma investigação sigilosa da própria PF sobre a segurança das urnas eletrônicas. A apuração não chegava a lugar nenhum, mas o presidente espalhou cópias em suas redes sociais, dizendo que o papelório provaria que houve invasão dos sistemas internos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) durante um ataque hacker em 2018.

William Waack: O presidencialismo de treta permanente

O Estado de S. Paulo.

Os Poderes brigam entre si sem que se definam os limites de cada um

O que parecia sinal sutil do “arranjo institucional” brasileiro virou evidência escancarada. O poder de mando espalhou-se por várias instâncias e a figura que mais atrai a atenção do público, a do presidente da República, sob Jair Bolsonaro perdeu importância relativa.

As atuais inéditas prerrogativas do Legislativo criaram a figura de dois primeiros-ministros: os presidentes da Câmara e do Senado. Individualmente ou em conjunto fazem avançar ou paralisam qualquer assunto, relevante ou não, por briga entre eles ou não, de interesse público ou não – com preferência para os interesses próprios.

São “moderados” em parte pelo STF que “modera” também o Executivo. Por desígnio ou circunstâncias políticas o Supremo interfere em assuntos do Legislativo e do Executivo. Às vezes através de decisões monocráticas referendadas em plenário por um espírito de corpo que os ataques de Bolsonaro à instituição só ajudaram a consolidar.

Celso Ming: As más notícias e o Banco Central

O Estado de S. Paulo.

Nem sempre as pessoas estão dispostas a ouvir verdades duras. Dario III, rei da Pérsia (século 4º antes de Cristo), exasperado quando soube que seu exército fora derrotado por Alexandre, mandou matar o mensageiro que lhe trouxe a notícia. Não deve ter sido o primeiro nem o último a ter esse procedimento.

Mesmo sem serem maiorais do mundo, alguns leitores dizem que não gostam de comentários sobre crises. Um deles chegou a mandar mensagem em que dizia que chega de notícia ruim. Em vez de apontar os males do Brasil e do mundo, por que não mostrar o lado cheio do copo ou, então, em vez de criticar o governo, por que não cada qual fazer o que pode, como proporcionar alguma ajuda aos necessitados e contribuições para a Legião da Boa Vontade?

A função de um analista – além de reconhecer acertos – é apontar os equívocos ou omissões das políticas públicas; não é acender um fósforo em vez de reclamar da escuridão.

De mais a mais, não são apenas os críticos que mostram as feridas. O Banco Central, que é instituição de Estado, na sua última ata do Copom, apontou enormes distorções da economia brasileira.

Míriam Leitão - Economia agrava piora do governo

O Globo

O maior banco central do mundo alterou a avaliação que fazia da inflação. O Fed suprimiu a palavra “temporária” com que definia a inflação e avisou que no ano que vem vai acelerar a retirada dos estímulos e começar a subir os juros. Haverá pelo menos três altas nas taxas. Isso piora muito o cenário para a economia brasileira, que já está enfrentando dificuldades com um governo que tem perdido apoio político, após três anos de desastrada condução do país. Ontem o Banco Central brasileiro anunciou que pelos seus cálculos a economia encolheu 0,4% em outubro, na véspera o IBGE avisou que o setor de serviços caiu 1,2%.

A economia será um dos grandes temas da eleição do ano que vem, e ela não vai nada bem. Os indicadores mostram que o país continua estagnado, sem capacidade de voltar a crescer. Há uma sequência de números negativos até outubro: a indústria cai há seis meses seguidos, o comércio, há três, e os serviços, há dois. A renda teve uma queda histórica. Após dois trimestres com o PIB no vermelho, o que é uma recessão técnica, o país pode novamente ter uma contração no último trimestre deste ano. O efeito da mudança da política monetária americana sobre um país com problemas fiscais como o Brasil é o enfraquecimento da sua moeda. Por isso, o dólar ontem rompeu novamente a casa de R$ 5,70.

Maria Cristina Fernandes: TCU avança sobre a Selic

Valor Econômico

Pano de fundo da cobrança sobre o Banco Central é transição para 2023

 “Confesso que fiquei surpreso em ver o TCU analisando politica macroeconômica, com toda franqueza, se me permitem”. Foi assim que Arminio Fraga, publicamente e ante o anfitrião, demonstrou sua estranheza com o evento para o qual foi convidado. Corria o seminário promovido pelo Tribunal de Contas da União, sobre a condução da política monetária.

Lá estavam, além de Fraga e do atual presidente do BC, Roberto Campos, três outros ex-presidentes da autarquia (Ilan Goldfajn, Affonso Celso Pastore e Henrique Meirelles) e um ex-diretor (André Lara Resende).

O escopo do seminário foi delineado pelo anfitrião, ministro Bruno Dantas, na abertura. Está em curso uma auditoria para avaliar a atuação do Banco Central no manejo dos instrumentos que lhe foram conferidos pelo chamado “Orçamento de guerra”.

Com a emenda constitucional do primeiro trimestre de 2020, a autarquia recebeu um mandato extraordinário para comprar e vender títulos do Tesouro sem as amarras vigentes em tempos menos calamitosos (“quantitative easing”). No Brasil, porém, ao contrário do que aconteceu com bancos centrais dos EUA, da União Europeia e do Reino Unido, esses instrumentos não foram usados.

Cristiano Romero: Inovação e o populismo de direita

Valor Econômico

Novas tecnologias favorecem disrupção nas democracias

O mundo ocidental assistiu com perplexidade à ascensão ao poder de líderes populistas de extrema direita, como Donald Trump nos Estados Unidos e Jair Bolsonaro no Brasil. Tanto o americano quanto o brasileiro, guardadas as devidas proporções considerando as diferenças culturais entre os dois países, eram vistos como aventureiros, personagens folclóricos, que jamais alcançariam a Presidência da República. Hoje, três anos após a inesperada vitória de Bolsonaro - equivocadamente ainda atribuída por muitos analistas à facada que ele sofreu a menos de um mês do pleito de 2018 - e cinco do triunfo de Trump, têm-se pistas, mas não certeza absoluta, do que, afinal, sucedeu para que líderes improváveis chegassem ao posto máximo de duas das cinco mais populosas democracias do planeta.

É imperioso logo mencionar que o populismo radical de direita - caracterizado em todos os cantos por forte viés antidemocrático - não deu as caras apenas no Novo Mundo. Na França, solo secular das liberdades democráticas, o político centrista Emmanuel Macron teve que fundar, a apenas um ano da eleição, um novo partido - o “Em Marcha” -, para disputar a Presidência da República e evitar a eleição de Marine Le Pen, candidata de extrema-direita da Frente Nacional.

Pedro Cavalcanti Ferreira, Renato Fragelli Cardoso*: Liberalismo de discurso, populismo de fato

Valor Econômico

O país caminha a passos largos para (mais) estagnação e um ambiente de regras e práticas muito ruins

Neste penúltimo ano de (des)governo, o país assiste a um retrocesso em várias áreas. Em curto espaço de tempo, observou-se uma mudança oportunista da regra do Teto dos Gastos, a deterioração do processo orçamentário, com gastos secretos e discricionários, e a aprovação de uma PEC que institucionalizou o calote de dívidas públicas. Isto tudo em um governo que se vendeu inicialmente como liberal, como aquele que faria uma revolução no sistema político e econômico.

O ímpeto liberal se limitou a temas técnicos que não mobilizam a opinião pública nem requerem complexas negociações políticas, como por exemplo algumas (boas) reformas setoriais - Lei do Saneamento, Lei do Gás, Lei dos Portos -, bem como algumas com impacto sobre toda a economia - nova Lei de Falências, Lei da Liberdade Econômica, e a independência do Banco Central. A reforma de mais impacto no longo prazo, a da Previdência, que já vinha sendo encaminhada pelo governo Temer, foi aprovada pelo Congresso sem o empenho de Bolsonaro. Entretanto, a revolução liberal anunciada não ocorreu, e nas dimensões que realmente importam - redução do tamanho do Estado, livre fluxo de mercadorias e serviços, reforma tributária e administrativa - muito pouco foi feito.

Eugênio Bucci*: Um colchão por domicílio

O Estado de S. Paulo.

66 mil paulistanos não têm casa para morar e 19 milhões de cidadãos passam fome no Brasil Como explicar nosso desprezo cruel pelo sofrimento alheio?

O casal mora lá, embaixo de uma longa marquise pintada de verde, a poucos minutos do cruzamento entre a Rebouças e a Faria Lima. Naquele mesmo endereço já funcionou um supermercado de luzes escassas, com ares mofados de entreposto comercial. Hoje, com suas portas de metal bem trancadas, o imóvel não tem mais nenhuma função social ou mercantil. Só a calçada, apenas ela, encontrou uma utilidade: virou dormitório popular. Foi lá que o jovem casal fixou residência, em pacífica vizinhança com outros moradores. Os colchões perfilados, mudos e discretos se organizaram para não incomodar ninguém: tiveram o cuidado de deixar livre uma boa faixa do calçamento para que os pedestres trafeguem, sem virar a cabeça.

A moça é alta, bonita. Dos seus olhos grandes e claros, realçados pelo tom bronzeado do rosto, escorre uma sensação de paz que às vezes alcança quem passa por ali. O nariz descreve um arco pronunciado, numa ponte fina entre a testa e os lábios. Elegante e delgado, o nariz denota personalidade, mas não arrivismo. Quando ela se espreguiça sobre o cobertor bem esticado, no meio da tarde, deixa ver que está feliz. Temos algo a aprender com ela.

Roberto Macedo*: A sofrência do PIB, que é mais forte no ‘per capita’

O Estado de S. Paulo.

Candidatos presidenciais precisam aprender e indicar como enfrentariam a péssima situação da economia

O termo sofrência ganhou projeção como modalidade de música sertaneja, fama esta que cresceu muito com o recente falecimento da famosa cantora Marília Mendonça, líder dessa modalidade. Meu dicionário (Houaiss) não contém esse termo, mas Roberto Teixeira da Costa, economista voltado para o mercado de capitais e relações internacionais, escreveu neste espaço, em 25 de novembro passado, o artigo Saindo da sofrência em busca da crescência, e esclareceu que no dicionário que consultou “a palavra é definida como substantivo feminino, condição de pessoa que sofre, que não consegue se livrar de uma situação de tristeza e de sofrimento”.

Usou o termo para se referir à situação atual do Brasil, afirmando que em “(...) mais de 60 anos de vida profissional (...)” não se recordava de ter “vivido um período de tamanha descrença no País e no seu futuro”. Também tenho o mesmo período de vida profissional e o mesmo sentimento. Teixeira da Costa aplicou o termo ao Brasil, e seu texto inspirou-me a usar sofrência para a situação que há muito tempo, desde os anos 1980, marca o Produto Interno Produto (PIB), indicador econômico das agruras por que passa o País.

Bruno Boghossian: No escurinho do Planalto

Folha de S. Paulo

Ministro insinua que reação autoritária ao STF é uma carta que está sempre na mesa Bolsonaro

No escurinho do Planalto, o golpismo continua em alta. Conselheiro presidencial e crítico contumaz do STF, o general Augusto Heleno reeditou a avaliação de que a corte tenta "esticar a corda até arrebentar" e insinuou que uma reação autoritária ao tribunal é uma carta que está sempre na mesa de Jair Bolsonaro.

"Eu tenho que tomar dois Lexotan na veia por dia para não levar o presidente a tomar uma atitude mais drástica em relação às atitudes que são tomadas por esse STF", disse o ministro na formatura de um curso para agentes da Abin, na última terça-feira (14). A fala do general foi divulgada pelo site Metrópoles.

Heleno é um personagem recorrente nos sonhos antidemocráticos dos bolsonaristas. Em 2020, ele publicou uma nota em que ameaçava o STF com "consequências imprevisíveis" caso o tribunal determinasse a apreensão do celular do presidente. General da reserva, ele empresta uma coloração militar aos planos autoritários do chefe.

Luiz Roberto Nascimento Silva*: A proteção do mais fraco

O Globo

Com a pandemia, aumentaram enormemente as ligações de telemarketing. Tinham diminuído, voltaram com força total. Muitas vezes desligam na cara da gente logo que atendemos porque, se conseguem que o usuário atenda, ganham pontos. O celular aposentou o fixo, que virou peça de museu. A maioria de meus amigos não atende mais números desconhecidos. Entretanto, quando se espera um serviço ou o contato de alguém não cadastrado, temos de atender.

Não adianta bloquear, pois as operadoras não nos protegem, e o bloqueio cai em pouco tempo. O site federal e o estadual que eram eficientes não funcionam mais. Você, o incomodado, o importunado, tem de gastar um tempo enorme preenchendo sua reclamação, que, na maioria das vezes, é ignorada. Exigem informações adicionais, detalhes para aceitar a reclamação. Indicam um número pequeno de empresas listadas como um cardápio fixo em que você tem de fazer seu pedido. Não aceitam pedidos de bloqueio de telefones simplesmente. Você tenta e não consegue. Enquanto isso, os algoritmos discam para você. O inferno são literalmente os outros, como advertiu Sartre, só que transfigurados em chamadas telefônicas.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Regular o lobby

Folha de S. Paulo

Projeto é bom ponto de partida, mas terá de superar a inércia do Legislativo

Um pacote anticorrupção proposto pelo governo de Jair Bolsonaro decerto não inspira grande confiança. Mas há medidas interessantes entre as recém-anunciadas —e merece destaque o projeto de lei que regulamenta o lobby no país.

Embora os termos "lobby" e "lobista" não gozem da melhor das reputações por aqui, a atividade pode ser perfeitamente legítima e legal, uma extensão do direito de peticionar consagrado na Constituição.

Para que o lobby legítimo prevaleça sobre a corrupção e o tráfico de influência, que seriam suas versões degeneradas, é importante que a atividade ocorra sob o primado da transparência e sob regras claras previamente estabelecidas.

O projeto do governo se afigura uma peça bastante técnica, elaborada pela Controladoria-Geral da União, sob inspiração da extensa documentação que a OCDE produziu sobre a matéria.

O texto escapa de velhas armadilhas. Tentativas anteriores de disciplinar o lobby vieram na forma de regulamentação profissional —o que não funciona bem, dado que indivíduos das mais diversas formações, de cientistas a relações públicas, passando pelos influenciadores digitais, podem em princípio fazer as vezes de lobistas.

Poesia | Charles Baudelaire: As Joias

A amada estava nua e, por ser eu seu amante,
Das joias só guardara as que o bulício inquieta,
Cujo rico esplendor lhe dava esse ar triunfante
Que em seus dias de glória a escrava moura afeta.

Quando ela dança e entorna um timbre acre e sonoro,
Este universo mineral que à luz figura
Ao êxtase me leva, e é com furor que adoro
As coisas em que o som ao fogo se mistura.

Música | Geraldo Azevedo, Elba Ramalho: Chorando e Cantando

 

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Vera Magalhães: Velho Bolsonaro volta depois das 7 ondas

O Globo

Tão logo os brasileiros pulem as sete ondinhas e façam seus desejos para um 2022 que promete ser ainda mais duro que o último biênio, Jair Bolsonaro já terá rasgado a fantasia de moderado que Michel Temer lhe vestiu e estará de volta à velha forma conspiracionista, atirando contra tudo e todos. Desta vez com o cartão de crédito dos gastos populistas e eleitoreiros na mão e com limite alto.

Aos poucos, o presidente já vai se despindo do figurino que lhe causa desconforto, o que respeita as instituições e o contraditório.

Faz isso ao mesmo tempo que cerca sua base mais ideologizada à custa de bravatas e de promessas de benefícios financeiros ou empresariais.

A nova investida se dá junto aos policiais federais, num momento em que há muitas imbricações de interesses da sua família e dos seus sob responsabilidade da PF.

O prometido reajuste geral a servidores no ano eleitoral começou justamente pelos policiais. Veio na forma que também já se tornou usual no método bolsonarista: apenas avisando a Paulo Guedes que ele se vire para arrumar o dinheiro.

Bernardo Mello Franco: Lula favorito na eleição da fome

O Globo

O Ipec informa: Lula entrará no ano eleitoral como franco favorito para voltar ao Planalto. O ex-presidente lidera a disputa com 48% das intenções de voto. Todos os outros candidatos somam 38%.

Dez meses são uma eternidade na política, o que significa que o cenário pode mudar bastante até outubro de 2022. Mas o retrato mostrado pela pesquisa é inequívoco: se a eleição fosse hoje, o petista venceria no primeiro turno.

Lula registra os melhores índices entre os eleitores mais pobres (57%) e menos escolarizados (55%). São os grupos que mais sofrem com o retorno da fome e o aumento da inflação, duas marcas registradas do atual governo.

Em setembro, o Ipec constatou que fome e pobreza voltaram à lista dos temas que mais preocupam os brasileiros. Isso não ocorria desde 2002. Não por acaso, o ano em que o petista se elegeu pela primeira vez.

Elio Gaspari: O Fies saqueou a bolsa da Viúva

O Globo

O professor Mário Henrique Simonsen ensinava: se for bem enunciado, o problema mais difícil do mundo um dia será resolvido. Mal enunciado, o problema mais fácil do mundo jamais será resolvido.

Lula e Bolsonaro meteram-se na discussão do calote do Fundo de Financiamento Estudantil, o Fies. Na teoria, ele custearia as anuidades de jovens universitários que cursavam a rede privada de ensino. Na prática, desde 2011 virou um mecanismo que permitiu a transferência do risco da inadimplência para a conta da Viúva. Atendeu 3,4 milhões de jovens e tem a receber R$ 123 bilhões, ervanário superior ao déficit da União neste ano. Desse valor, R$ 27,9 bilhões foram contabilizados como ajustes para perdas.

Lula promete anistiar os devedores. Bolsonaro rebate: “Por que não fez lá atrás, pô? Está aí de sacanagem”. Noves fora a linguagem, quem abriu a porteira não foi Lula, mas Dilma Rousseff. O capitão correu atrás e agora oferece uma renegociação dessas dívidas. Está no seu terceiro ano de governo e ainda não apresentou um programa que faça sentido. Há pouco, mimou as universidades privadas, aninhando-as no ProUni.

Fernando Exman: O capitão na batalha das expectativas

Valor Econômico

Aliados queriam ver mais ousadia de um BC independente

A redução do poder de compra do brasileiro em 2022, ano eleitoral, ocupa um lugar central no rol de preocupações de auxiliares do presidente Jair Bolsonaro.

É o que explica, pelo menos em parte, recente esforço para o lançamento de uma série de medidas voltadas às famílias mais pobres. O pacote vai além do Auxílio Brasil, programa social que sucede o Bolsa Família com um valor inicial de R$ 400 já a partir de dezembro, antes do Natal, e para um número maior de beneficiários. O governo já sinalizou que o ticket médio deve subir para R$ 415.

Parlamentares aliados e auxiliares de Bolsonaro apontavam há meses que a alta dos preços dos alimentos poderia condenar o programa a já nascer desatualizado. Consideram, também, que o Banco Central (BC) poderia ter sido mais conservador nos últimos meses, a fim de construir as condições necessárias para a redução da Selic a tempo de viabilizar uma reativação da economia mais rápida no ano que vem.