sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Vinicius Torres Freire: O novo fim de Paulo Guedes

Folha de S. Paulo

Decreto coloca ministro sob ainda mais tutela, mas Guedes já não podia quase nada

Um decreto de Jair Bolsonaro submeteu Paulo Guedes à tutela oficial de Ciro Nogueira, ministro da Casa Civil, em alguns assuntos orçamentários menores. Nogueira é senador e presidente licenciado do PP, um dos dois regentes do que sobra do governo bolsonariano: a distribuição de dinheiros que auxiliem a eleição da turma do centrão. O outro regente é Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara.

Dizem que Guedes perdeu poder. Perdeu poder de quê?

Para começar, qualquer ministro da Economia pode pouco se não há um governo com rumo e base parlamentar, para nem mencionar articulação social. O governo de Jair Bolsonaro não existe, para todos os fins humanos e positivamente práticos.

Quando se meteu em assuntos econômicos, Bolsonaro sabotou ou desmoralizou Guedes, como se o ministro ainda precisasse passar mais vergonha depois de tanta promessa de trilhão, déficit zero, da privatização da semana que vem, afora disparates e preconceitos.

Guedes não tem articulação política. Perdeu seus principais assessores. Alguns porque não conseguiam fazer nada ou não sabiam fazê-lo. Uns foram fritados por Bolsonaro. Outros saíram para não dar mais vexame ou com medo de processos, como a baciada que debandou quando chutaram o pau de teto de gastos.

Luiz Carlos Azedo: E Bolsonaro entrega a execução do Orçamento ao Centrão

Correio Braziliense

O ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, passou a dividir o poder de distribuição de recursos federais com o ministro da Fazenda, Paulo Guedes, cada vez mais enfraquecido

Os anões do Orçamento eram um grupo de parlamentares baixinhos que controlavam as emendas parlamentares e engordavam suas contas bancárias. O esquema exigia influência para aprovar as emendas e conseguir que determinada empreiteira vencesse a concorrência da obra. Depois, a empresa repassava uma parte dos recursos para o parlamentar. Uma fração era destinada à campanha eleitoral; a outra, ao enriquecimento ilícito, como é da tradição patrimonialista. Àquela época, o caixa dois eleitoral era generalizado. O que distinguia o político honesto do desonesto não era a origem do dinheiro da campanha, era a formação de patrimônio com esses recursos.

Entretanto, em 1993, o Brasil vivia sob as regras de uma nova Constituição, o presidente Fernando Collor havia renunciado para evitar o seu impeachment e, em seu lugar, o vice Itamar Franco havia assumido a Presidência. O então senador Fernando Henrique Cardoso, seu chanceler, assumira a Fazenda e preparava o Plano Real. Com a Constituição de 1988 e a autonomia do Ministério Público, a realidade institucional já era outra, incompatível com o velho modelo de financiamento das campanhas eleitorais.

Bernardo Mello Franco: Bolsonaro de 2022 será o extremista de sempre

O Globo

Nem as férias prolongadas amansaram Jair Bolsonaro. O capitão voltou a Brasília com o radicalismo de sempre. Em uma semana na capital, já atacou o Supremo, o Congresso, os governadores e o diretor da Anvisa, que ele mesmo nomeou.

Na quarta-feira, o presidente usou um site governista para despejar sua fúria. Acusou o Supremo de persegui-lo e vociferou contra os ministros Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moraes. “Quem esses dois pensam que são?”, desafiou.

Investigado em cinco inquéritos na Corte, Bolsonaro tentou carimbar os juízes como “defensores do Lula”. Conversa fiada. Barroso e Moraes ficaram vencidos no julgamento que derrubou a prisão em segunda instância. A depender deles, o ex-presidente ainda estaria em Curitiba.

Bruno Boghossian: E se o vice de Lula for outro?

Folha de S. Paulo

Alckmin leva ganho simbólico a candidatura do petista, mas patina em questão partidária

A equação original do PT para a escolha do vice de Lula tinha dois elementos principais. O primeiro era simbólico, uma sinalização do petista para ampliar sua base eleitoral e conquistar votos além da esquerda. O segundo era objetivo: a vaga seria usada para atrair um grande partido para a aliança do ex-presidente.

Geraldo Alckmin preencheu o primeiro critério, mas a questão partidária ficou para trás. Nos cenários traçados até aqui, o ex-tucano não agrega ganhos significativos à aliança formal de Lula. Isso porque Alckmin está em busca de um partido que sirva de barriga de aluguel para indicá-lo ao posto de vice.

Ruy Castro: O país que não lhe diz respeito

Folha de S. Paulo

Bolsonaro não se preocupa com os votos que está perdendo. Se lhe faltar urna, conta com as armas

Bahia, Minas Gerais e Goiás estão debaixo d’água. Para milhões de pessoas, a vida agora se resume ao que sobrou da lama, dos escombros de suas casas e dos cacos de seus sonhos. Nenhuma delas recebeu de Jair Bolsonaro uma palavra de solidariedade e conforto, muito menos promessa de ajuda. Suas tragédias não dizem respeito ao homem em quem muitas devem ter votado. Importante é o jet ski, as provocações e o voo em primeira classe para seus ministros.

A tragédia desses estados não se limitará às enormes perdas individuais, mas envolverá a saúde, a agricultura, a produção industrial, os serviços e a economia em geral, deles e de seus vizinhos. Bahia, Minas Gerais e Goiás são rotas de passagem e, por suas estradas, destruídas ou interditadas, milhares de caminhões deixarão de rodar pelos próximos meses. Esperam-se desemprego, revoltas de caminhoneiros e desabastecimento. Mas nada disso compete a Bolsonaro. Para ele, o problema é dos governadores e prefeitos —muitos dos quais igualmente trabalharam por sua eleição em 2018.

Eliane Cantanhêde: O Brasil é uma festa!

O Estado de S. Paulo.

Boris Johnson pode cair por uma festa na pandemia, Bolsonaro é ‘mito’ por viver de festa em festa

Esses ingleses são mesmo esquisitos. Bastou uma “festinha” de 40 pessoas nos jardins de Downing Street (sede do governo), no pico da pandemia e do lockdown, cada um levando seu próprio vinho, para os britânicos, a oposição e até parlamentares do partido se mobilizarem para pedir o afastamento do primeiro-ministro Boris Johnson.

Ok, é grave, mas isolado. E um certo presidente, além-mar, que na pandemia não toma vacina, faz churrasco na residência oficial, é filmado em uma aglomeração atrás da outra, diverte-se em atos golpistas, abraça idosos sem máscara antes das vacinas, arranca máscara de criança na rua e proíbe em palácio, descumpre as leis do DF e é processado por governos estaduais por suas motociatas?

Simon Schwartzman*: Nuestra América

O Estado de S. Paulo.

Hoje, se houver um caminho, temos de construí-lo com governos realistas que trabalhem para o bem comum

A eleição do jovem Gabriel Boric para a presidência traz a esperança de que o Chile talvez consiga escapar dos ciclos de populismo, autoritarismo, estagnação econômica e decadência institucional que estão assolando a maioria dos países da América Latina.

Desde o fim da ditadura de Pinochet, entre 1990 e 2010, o Chile foi governado pela Concertación, coalizão de partidos de centro-esquerda que conseguiram combinar a abertura da economia com políticas sociais inteligentes, reduzindo a pobreza e a desigualdade, melhorando a qualidade da educação e desenvolvendo a economia como nenhum outro país da região. Isto não foi suficiente, no entanto, para evitar que o sentimento de frustração crescesse, fazendo com que o país alternasse entre governos de esquerda e direita – Michelle Bachelet e Sebastián Piñera – que culminou com as grandes manifestações de rua de 2019, a convocação de uma assembleia constituinte e a última eleição presidencial, em que candidatos independentes tomaram o lugar dos antigos partidos políticos.

Antonio Corrêa de Lacerda*: Faltam vetores para crescer em 2022

O Estado de S. Paulo.

Não há investimento se há ociosidade na capacidade produtiva e falta perspectiva de elevação da demanda

A probabilidade de uma estagnação, ou até mesmo uma recessão, no Brasil em 2022 é maior do que a de crescimento. Há ausência de vetores que possam impulsionar a economia, a começar pela herança estatística. 2021 herdou um carregamento (carry trade) de 3,6% de 2020. Ou seja, 80% do desempenho positivo do ano, previsto em 4,5%, advém deste fator. Para este ano, o efeito estatístico do ano em curso será nulo.

Além disso, outros fatores macroeconômicos são adversos: a inflação, a política monetária, o mercado de trabalho e o investimento. A inflação derivada do choque de oferta das matérias-primas produz estragos na cadeia produtiva. A política monetária restritiva, com a elevação dos juros desestimula o consumo, que há tempos anda em falta, por estimular a poupança dos mais ricos e encarecer as dívidas das famílias e empresas.

O mercado consumidor também tem sido negativamente afetado pelo elevado desemprego em uma acepção mais ampla, considerando os desalentados e os subocupados. O fato é que mais de 30 milhões de pessoas estão fora do mercado de trabalho. A capacidade de compra das pessoas segue limitada, com a elevação do custo de vida e a insuficiência de reajuste de salários e honorários.

Fernando Abrucio*: O sentido da frente ampla brasileira

Valor Econômico

Não se sairá da enorme crise atual, a maior desde o final do regime militar, sem um pacto de reconstrução nacional

Para ganhar as eleições de 2022 e governar o país no dia seguinte, reconstruindo o que foi destruído nos últimos três anos, será necessário montar uma coalizão política e social bem maior do que a erigida pelo bolsonarismo. Essa constatação deveria ser um mantra para os que desejam vencer o presidente Bolsonaro. Por essa razão, é provável que o termo frente ampla apareça frequentemente ao longo deste ano. Tal ideia vale tanto para alianças comandadas pela esquerda em direção ao centro, quanto o agrupamento da centro-direita democrática com forças diferentes dela. Em outras palavras, não se sairá da enorme crise atual, a maior desde o final do regime militar, sem um pacto de reconstrução nacional.

Frente ampla é apenas uma das denominações mais usuais para momentos políticos que exigem grandes alianças entre grupos diferentes com o intuito não só de ganhar eleições, mas de reconstruir a ordem política e social. Isso já aconteceu em situações como o fim de uma guerra, de um regime autoritário ou quando se quer enfrentar um sistema político tradicional muito duradouro e avesso a mudanças.

O caso brasileiro tem suas peculiaridades, sendo a principal a existência de um grupo que governa o país - a aliança entre o bolsonarismo autoritário e o Centrão patrimonialista - por meio de um projeto de destruição das principais instituições e valores criados a partir da redemocratização. O resultado da distopia bolsonarista é a ausência de qualquer perspectiva positiva de futuro, seja na economia, na política, nas questões sociais e na inserção do Brasil no mundo.

José de Souza Martins*: Brasileiros e portugueses

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Chamar de lusofobia as anedotas sobre portugueses é uma simplificação

Recente artigo de Giuliana Miranda e Mayara Paixão, na “Folha de S. Paulo”, trata das repercussões, no meio acadêmico, em Portugal e no Brasil, de um livro do jornalista português Carlos Fino sobre as raízes do estranhamento entre os dois países. Diferentes pesquisadores pontuam aspectos do tema, o que mostra a dificuldade no lidar com simplificações estereotipadas a respeito da extensa diversidade de concepções, lá e cá, dos nacionais de um país em relação aos do outro.

Apelidos decorrentes da origem diferente da brasileira ou decorrente da cor são comuns aqui para designar o diferente. Não é raro que o loiro seja chamado de “Alemão”, mesmo que não tenha essa origem. Português, “Portuga”. “Japonês”, mesmo o oriental descendente de coreano ou de chinês. “Negão” para o negro.

É coisa antiga, uma forma tosca de acolhimento numa sociedade à margem do que é próprio do mundo criado pela Revolução Francesa: juridicamente iguais, mas imaginariamente desiguais. Esses tratamentos só podem ser compreendidos pelo tom da voz e pelos gestos que os acompanham. Um código linguístico subentendido.

Humberto Saccomandi: Hostilidade cresce entre os vacinados e os não

Valor Econômico

A polêmica envolvendo o tenista Novak Djokovic expôs a hostilidade crescente entre vacinados e não vacinados

A polêmica atual envolvendo o tenista Novak Djokovic expôs a tensão existente em muitos países entre a maioria de pessoas vacinadas e a minoria de não vacinados. A hostilidade mútua gerou uma torcida pró e contra o sérvio. Afinal, como deve ser a política para os não vacinados? Essa questão ameaça criar mais um cisma social numa época já de fortes polarizações.

Movimentos antivacinas existem há décadas, assim como os que rejeitam os medicamentos tradicionais. Por trás disso há posições filosóficas, religiosas e desconfiança em relação aos grandes grupos farmacêuticos ou ao capitalismo em geral. Porém, a rejeição à vacina contra a covid-19 ganhou outros dois argumentos.

O primeiro é quanto à segurança, devido ao tempo recorde em que as vacinas foram desenvolvidas, o que poderia gerar falhas e reações adversas perigosas. Cidadãos de países com regimes autoritários, como a Rússia, também desconfiam da qualidade das vacinas locais.

Conheço o caso de um jovem saudável que teve uma reação muito grave, que médicos de um dos melhores hospitais de São Paulo atribuíram com grande probabilidade a uma vacina específica. Ele felizmente se recuperou e tomou a segunda dose, de um outro fabricante.

Assis Moreira: Reforma trabalhista e a eleição na OIT

Valor Econômico

Governo de Jair Bolsonaro tende a apoiar um candidato mais identificado com os empregadores

Ao mesmo tempo em que o PT quer discutir a reforma trabalhista na campanha presidencial, o governo de Jair Bolsonaro tende a apoiar um candidato mais identificado com os empregadores para a direção-geral da Organização Internacional do Trabalho (OI) em eleição no dia 25 de março, em Genebra.

A OIT tem quatro objetivos estratégicos: promover e aplicar princípios e direitos fundamentais do trabalho; aumentar as possibilidades para homens e mulheres de obter um emprego decente; ampliar o benefício e eficácia de proteção social para todos; e reforçar o diálogo social. É a única instituição “tripartite” das Nações Unidas, ou seja, suas normas do trabalho, suas políticas e programas são elaboradas conjuntamente por representantes de governos, de empregadores e de trabalhadores.

Essa eleição ocorre em meio a grandes incertezas causadas pelo coronavírus e pelas mudanças nos sistemas econômicos resultantes das alterações climáticas, transformação tecnológica de alta velocidade e questionamentos quanto o impacto sobre o futuro do trabalho.

Há cinco candidatos para suceder o britânico Guy Ryder, de origem sindical e na direção da OIT desde 2012. Eles vêm da África do Sul, Togo, França, Austrália e Coreia do Sul. Para ser eleito, o candidato precisa receber mais da metade dos votos do conselho de administração, composto por 56 membros (28 governos, 14 empregadores e 14 trabalhadores).

Flávia Oliveira: Brasil que esperança

O Globo

Vez em quando, o ambiente de trevas que engolfa o país é riscado por raios de luz que nos devolvem ao Brasil de afeto, generosidade e talento pelo qual permanecemos, lutamos, insistimos. E esperamos. No par de anos de pandemia, brilharam Teresa Cristina em lives; Emicida em “Amarelo”; Fabiana Cozza no álbum “Dos Santos”, Nei Lopes em “Pagode black tie”, Caetano Veloso em “Meu coco”, Maria Bethânia em “Noturno”, Ney Matogrosso em “Ney 80 anos”. Teve Gilberto Gil celebrando o São-João com a sanfona de Mestrinho; Milton Nascimento cantando “Clube da esquina” com Orquestra Ouro Preto; Leci Brandão se apresentando no Trem do Samba, de Marquinhos de Oswaldo Cruz; no cinema, “Marighella” e “Medida provisória”, estreias de, respectivamente, Wagner Moura e Lázaro Ramos na direção. Iluminaram-nos os livros de Eliana Alves Cruz (“Nada digo de ti que em ti não veja”), Djamila Ribeiro (“Cartas para minha avó”), Renato Nogueira (“Por que amamos?”), Leonardo Bruno (“Canto de rainhas”), Luiz Antonio Simas (“Umbandas — Uma história do Brasil”). Participamos das campanhas humanitárias que levaram comida a quem tem fome na temporada de desassistência aos vulneráveis pelo Estado.

Apresento o rol de afagos n’alma para chegar ao recém-chegado e intensamente reconfortante “O canto livre de Nara Leão”. Nelson Motta definiu o repertório da cantora, que completaria 80 anos neste janeiro, como uma lasanha: em cada camada, um gênero musical; numa fatia, o conjunto da obra. A série documental em cinco episódios, dirigida por Renato Terra, costurada por José Bial, neto de Nara, é lasanha também. Acomoda o que a cantora fez e foi, com quem andou. Oferece sublime prato. Sacia.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Guedes de novo rebaixado

O Estado de S. Paulo.

Chefe da Casa Civil passa a mandar no Orçamento e o ministro da Economia é mais uma vez humilhado por Jair Bolsonaro

O dinheiro do contribuinte será a partir de agora manejado – oficialmente – sob a direção do chefe da Casa Civil da Presidência da República, ministro Ciro Nogueira (PP-PI), principal nome do Centrão no Executivo federal. O ministro da Economia, Paulo Guedes, ficará subordinado, de forma explícita, ao novo comandante das finanças da União. Qualquer decisão sobre custeio, investimento, transferência, orientação ou reorientação de recursos ficará “condicionada à manifestação prévia favorável” do ministro da Casa Civil, segundo decreto publicado no Diário Oficial de quinta-feira. Com essa decisão, o presidente Jair Bolsonaro rebaixou mais uma vez o ministro da Economia, ex-Posto Ipiranga, e subordinou a execução orçamentária, de forma integral e sem disfarce, à figura mais importante e mais influente do gabinete presidencial.

A nova humilhação parece ter sido bem aceita no Ministério da Economia, a julgar pela primeira reação registrada pela Agência Estado. Com a nova distribuição de poderes, ficará mais fácil “dividir o desgaste” ocasionado pelo corte de recursos, de acordo com resposta obtida pela reportagem. Segundo as mesmas fontes, o assunto foi discutido com a pasta. Confirmada essa informação, ficará evidenciada, de novo, a atitude mansa do ministro Guedes diante das investidas do presidente e de seu aliado favorito, o chefe da Casa Civil.

É piada falar de uma divisão de responsabilidade pelos cortes de gastos. Qualquer sugestão de austeridade, ou de respeito aos padrões de responsabilidade fiscal, só prevalecerá, como tem ocorrido até agora, se for compatível com os interesses do presidente Jair Bolsonaro e aceitável por seus apoiadores, sempre famintos por verbas públicas.

Poesia | João Cabral de Melo Neto: Graciliano Ramos

Falo somente com o que falo:
com as mesmas vinte palavras
girando ao redor do sol
que as limpa do que não é faca:

de toda uma crosta viscosa,
resto de janta abaianada,
que fica na lâmina e cega
seu gosto da cicatriz clara.

***

Falo somente do que falo:
do seco e de suas paisagens,
Nordestes, debaixo de um sol
ali do mais quente vinagre:

que reduz tudo ao espinhaço,
cresta o simplesmente folhagem,
folha prolixa, folharada,
onde possa esconder-se a fraude.

***

Falo somente por quem falo:
por quem existe nesses climas
condicionados pelo sol,
pelo gavião e outras rapinas:

e onde estão os solos inertes
de tantas condições caatinga
em que só cabe cultivar
o que é sinônimo da míngua.

***

Falo somente para quem falo:
quem padece sono de morto
e precisa um despertador
acre, como o sol sobre o olho:

que é quando o sol é estridente,
a contrapelo, imperioso,
e bate nas pálpebras como
se bate numa porta a socos.

Música | Marisa Monte: Calma

 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Míriam Leitão: Sem medo de Lula na economia

O Globo

Por Alvaro Gribel (Míriam Leitão está de férias)

Um ex-ministro liberal com passagem por várias administrações federais é taxativo: não há motivo para receios sobre a condução da economia em um eventual governo Lula. A visão é de que o ex-presidente tem uma compreensão prática sobre o tema e aprendeu que o maior prejudicado pelas crises fiscais é o próprio trabalhador, na ponta. “Lula sabe mais de economia do que muitos economistas. Se há descontrole fiscal, o dólar sobe, a inflação sobe, e o trabalhador perde. Isso é muito claro na cabeça dele”, afirmou o economista, que participou direta ou indiretamente de todos os governos do país nos últimos 15 anos, até a transição para Bolsonaro.

Ontem, pesquisa eleitoral da Genial/Quaest mostrou novamente Lula isolado na frente, vencendo em todos os cenários. No mercado financeiro, há uma busca por interlocutores que consigam decifrar o mistério da agenda econômica do candidato petista, que até agora deu poucos sinais dos caminhos que pretende seguir. Esse economista acredita que, se por um lado a pauta de privatizações deve sofrer um baque, por outro, o país ganhará com a estabilidade institucional, com reflexo sobre o dólar e os investimentos.

Luiz Carlos Azedo: Com muitos candidatos, “terceira via” é um fracasso anunciado

Correio Braziliense

Moro, Ciro, Doria e Tebet não parecem dispostos a um entendimento, embora, isoladamente, não consigam romper a polarização Lula (PT) x Bolsonaro (PL)

Cerca de dois anos e meio após o golpe de Estado de 1964, que destituiu o presidente João Goulart, o político que havia defendido aquela intervenção militar desde a eleição do presidente Getúlio Vargas, em 1950, o ex-governador da então Guanabara Carlos Lacerda fez uma surpreendente autocrítica e convocou seus antigos inimigos a se unirem contra os militares. Lançada em 28 de outubro de 1966, a Frente Ampla reuniria também os ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart, para restaurar a democracia.

Lacerda havia sido alijado do centro das decisões do governo do marechal Castelo Branco. Tentou, sem êxito, estruturar um novo partido, uma vez que a grande maioria da sua legenda, a União Democrática Nacional (UDN), principal base de apoio do governo no Congresso, ingressou no novo partido situacionista, a Aliança Renovadora Nacional (Arena). Os deputados da Guanabara fiéis à orientação de Lacerda, entretanto, ingressaram no oposicionista Movimento Democrático Brasileiro (MDB), em julho de 1966. As negociações de Lacerda com Juscelino, cassado em junho de 1964 e exilado em Lisboa, avançaram com relativa facilidade, pois ambos haviam apoiado o golpe de Estado; porém, com o ex-presidente Goulart, foram mais difíceis.

A tensão entre os militares e os principais líderes políticos que apoiaram o golpe crescia. Em 3 de outubro, o Congresso elegera o marechal Artur da Costa e Silva à Presidência da República, que, nove dias depois, cassaria os mandatos de seis parlamentares, entre eles Doutel de Andrade, um dos articuladores da Frente Ampla. O arenista Adauto Lúcio Cardoso, presidente da Câmara dos Deputados, reagiu, afirmando que a decisão sobre as cassações de mandatos era competência da Câmara. Em resposta, no dia 21, o governo prendeu Doutel e fechou o Congresso.

A Frente Ampla foi finalmente lançada por Lacerda, em 28 de outubro de 1966, por meio de um manifesto dirigido ao povo brasileiro e publicado no jornal carioca Tribuna da Imprensa. Em 19 de novembro de 1966, na Declaração de Lisboa, Lacerda e Kubitschek anunciaram que suas divergências estavam superadas e integrariam uma frente ampla de oposição ao regime. Dez meses depois, Lacerda firmou, em Montevidéu, uma nota conjunta com Goulart, na qual a Frente Ampla era caracterizada como um “instrumento capaz de atender… ao anseio popular pela restauração das liberdades públicas e individuais”.

Comícios foram realizados em São Paulo (Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul), em dezembro de 1967, e no Paraná (Londrina e Maringá), no início de abril de 1968. Simultaneamente, houve grandes manifestações estudantis em todo o país, em protesto contra a violência policial que, em fins de março, no Rio de Janeiro, resultara na morte do estudante Edson Luís de Lima Souto. As atividades da Frente Ampla, porém, foram proibidas, em 5 de abril, por intermédio da Portaria nº 117 do Ministério da Justiça. Em 13 de dezembro, com a edição do Ato Institucional nº 5, houve o definitivo fechamento do regime.

Maria Hermínia Tavares*: Motivos de otimismo no Brasil de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

As instituições e as práticas da democracia se impuseram à gana autoritária do ex-capitão

Por onde quer que se olhe, o dano causado pelo governo Bolsonaro é incalculável: na educação, na cultura, no meio ambiente, na ciência, na saúde, na gestão da economia.

Sem rumo nem compromisso com o país, o presidente é responsável pela destruição de capacidades estatais indispensáveis a qualquer gestão passavelmente funcional. Sem falar na inédita degradação da vida pública, na consagração da grosseria, do palavrão e da truculência como instrumento político.
Depois da enésima manifestação de indiferença à dor alheia, seja ela causada pela pandemia, seja pelas enchentes, mais um ano de mandato parece a proverbial eternidade.

Ainda assim, há motivos para cauteloso otimismo. Até aqui, bem feitas as contas, as instituições e as práticas da democracia se impuseram à gana autoritária do ex-capitão. O consociativo sistema democrático brasileiro, como o denominam os cientistas políticos, tem no seu DNA vigorosos freios e contrapesos aos recursos de poder do Executivo federal.

Postos à prova, têm se mostrado aptos a exercê-los: o Congresso tirou o fôlego das pretensões mais ameaçadoras do Planalto; o Supremo Tribunal Federal bloqueou outras; na Federação revigorada, governadores e prefeitos exerceram sua autonomia para cuidar das vítimas da pandemia e assegurar a vacinação dos cidadãos ainda sadios, a despeito da sabotagem empreendida pelo Ministério da Saúde, sob o comando do presidente.

Vinicius Torres Freire: Ano de inflação menor, mas ainda ruim

Folha de S. Paulo

Custo atual das coisas vai ficar nas alturas, mesmo com diminuição do ritmo do aumento geral de preços

inflação mundial e brasileira deve baixar neste ano. Pelo menos, era essa a expectativa em fins de 2021. Ainda é, na verdade, embora o gato tenha subido um degrau e ora dê uma olhada na direção do telhado.

No segundo degrau do gato da carestia pode aparecer o efeito da variante ômicron nos preços. Ali ou acolá, a nova onda da epidemia fecha fábricas e congestiona portos, como na China, que tem tolerância zero com o vírus.

Não são "lockdowns" grandes ou duradouros, nem na verdade há um levantamento sistemático do problema, apenas "evidência anedótica". Mas é preciso lembrar que um dos motivos da inflação mundial foi a escassez de produção, como no caso já folclórico dos chips, e de transportes transoceânicos.

Antes de continuar e para ser mais preciso: a taxa de inflação, o ritmo do aumento geral de preços, deve ser menor, aqui e alhures, mas o nível de preços, o custo atual das coisas, vai ficar nas alturas sufocantes. Pior ainda no Brasil, pois os salários não devem aumentar neste 2022. Não devem recuperar o terreno perdido para a inflação nos próximos dois ou três anos (isso se tudo der certo).

Bruno Boghossian: O arsenal do capitão

Folha de S. Paulo

Com desempenho anêmico nas pesquisas e poucas realizações, presidente repete plataforma envelhecida

Jair Bolsonaro buscou um arsenal sucateado para tentar reerguer sua candidatura à reeleição. Em menos de 24 horas, o presidente voltou a procurar briga com ministros do STF, fugiu da responsabilidade por problemas na economia, renovou sua estratégia de propagação intencional da Covid e reciclou falsas suspeitas de interferência nas eleições.

Com desempenho anêmico nas pesquisas, poucas realizações e um cenário econômico que deve dificultar sua vida, Bolsonaro mostrou que tem poucas armas para a campanha. Uma delas já é clássica: culpar outras autoridades e até a população pelos problemas que ele deveria resolver.

No dia em que a Petrobras aumentou o diesel e a gasolina pela primeira vez em 2022, Bolsonaro voltou a insinuar que a responsabilidade era dos governadores. Sobre a inflação, ele mirou aqueles que respeitaram medidas de restrição para limitar a morte em massa de brasileiros. "O cara ficou em casa, apoiou e agora quer me culpar pela inflação", disse.

Ruy Castro: O covarde Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Olha, não sou eu, mas estão dizendo que tem coisa em tudo que ele faz pelas costas da nação

Espumar insinuações sem provas pelo canto da boca e, ao levar uma resposta, recuar, fingir-se de ofendido e se desmentir é uma tática de covarde. Desfilar tanques do Exército para ameaçar as instituições e, diante do fiasco que lhe poderia custar o mandato, pedir a alguém que lhe escreva uma carta de retratação também denuncia o covarde. Fazer-se de macho para meia dúzia de beócios no cercadinho, insultar mulheres repórteres e cercar-se de esbirros, gente dada a violências físicas, igualmente é de covarde.

Jair Bolsonaro não é só o pior presidente da história do Brasil democrático. É também o mais covarde. Sua tática de falar que "ficou sabendo", "ouviu dizer" e "estão dizendo que tem coisa", sem se assumir como quem acredita naquela informação, é de covarde. E sua campanha contra a vacina nunca é feita com afirmativas tipo "A vacina faz mal!" ou "Não se vacinem!". Esconde-se em perguntas que induzem à dúvida e ao medo, como "Quem garante que não vai fazer mal?" ou "Quem se responsabiliza?". Coisa de covarde.

Carlos Melo*: Um semáforo para Lula

Valor Econômico

O petista se abrirá para projeto moderno e consensual?

Em tempos turbulentos, previsões políticas terminam na inclemência das redes. Principalmente no Brasil, um período de nove meses pressupõe uma eternidade: tudo pode mudar, mudar novamente e mais uma vez. É o país dos fatos novos e do assombro permanente. A experiência recomenda observar apenas, mas a ansiedade exige especular sobre a eleição em outubro, o que só é possível com os dados disponíveis hoje. Assim, os olhos de janeiro se voltam para Luiz Inácio Lula da Silva.

A dinâmica política o tem favorecido: a adesão de Geraldo Alckmin, a estagnação de Sergio Moro, o ambiente kafkiano gerado por Jair Bolsonaro, tudo o beneficia. Paradoxalmente, dá vazão a conhecidos traços do PT: disputas internas, hegemonismo, esquerdismo atávico e o apego a antigos modelos de desenvolvimento tomam o centro do debate e despertam temores em agentes políticos e econômicos.

Uma estratégia “winner takes all” seria de um erro colossal. Vencer a eleição num ambiente de barbárie pode ser mais fácil que governar. As circunstâncias de 2023 diferenciam-se de 2003; distribuir recursos, lotear ministério em troca da governabilidade - em certa medida, inevitável - não bastará. Mais complexo será estabelecer diagnósticos plausíveis, construir pontes, negociar agenda clara, factível e moderna; ampliar apoios de natureza programática.

William Waack : Melhor um dentista

O Estado de S. Paulo.

Candidatos esperam de economistas a fórmula que não existe sobre decisões políticas

É grande a preocupação com as escolhas que os candidatos em 2022 fazem de seus economistas. É uma ciência social capaz de alterar a realidade que ela estuda, mas essa escolha de nomes diz pouco como será o governo.

Dois erros são recorrentes quando se tenta “avaliar” o candidato a partir da escolha de seus economistas. O primeiro é esperar que políticos sigam os conselhos “técnicos” dos economistas. O segundo é acreditar que a ciência econômica tenha respostas para os problemas que cabe à política resolver.

Políticos tratam de fazer o eleitorado acreditar que é possível ter um bolo e comê-lo ao mesmo tempo. Tal como a política, porém, a economia é uma atividade de persuasão, e qualquer plano econômico precisa de legitimidade política – daí o fato generalizado de economistas se alinharem a políticos, e não o contrário (Paulo Guedes é apenas o mais recente exemplo disso).

Na relação entre economia e política, sempre submetida ao mais curto prazo eleitoral, economistas tendem a pronunciar baixinho as verdades inconvenientes e bem alto as certezas das quais não estão tão seguros assim. Avançou muito o conhecimento empírico em economia, mas continua fluida a fronteira entre “consenso profissional” e a simples conjectura, influenciada por crenças políticas.

José Serra*: Lições da pandemia

O Estado de S. Paulo.

A principal se refere ao sistema institucional que resistiu às ameaças de golpe contra a Constituição e a democracia

Pouco adianta nos queixarmos sobre o muito que perdemos nos últimos três anos, quando podemos felicitar-nos pelo que aprendemos enfrentando a crise de governo. Foi esta crise política que cerceou a capacidade de resposta do sistema de combate à pandemia, que, por sua vez, repercutiu negativamente sobre a estabilidade e o crescimento da economia.

A principal lição diz respeito à resiliência de nosso sistema institucional que, com todas suas deficiências, resistiu às seguidas ameaças de golpe contra a Constituição e a democracia representativa. A despeito da prevalência das desigualdades, apesar das discriminações e da disseminação do ódio, as tentativas de supressão das liberdades fundamentais foram rechaçadas, como foi o caso dos ataques ao voto secreto e à vigência da Constituição.

Outra lição foi a manifestação da capacidade dos brasileiros para impor a adoção de uma ampla cobertura vacinal, apesar de todos os obstáculos e omissões do Executivo federal. O movimento nacional em defesa de medidas de proteção contra a disseminação da covid-19, fortalecido e legitimado pelo Sistema Judiciário e apoiado nas prerrogativas da federação, foi vitorioso, e o desempenho da sociedade brasileira é hoje exemplo para o mundo.

Eugênio Bucci*: O capitalismo da ausência

O Estado de S. Paulo.

Nunca a ausência física do explorado foi uma solução tão lucrativa. O pobre ‘usuário’ é ao mesmo tempo mão de obra e matéria-prima

No dia 3 de janeiro, a Apple se tornou a primeira empresa da história a alcançar o preço de US$ 3 trilhões. A cifra equivale, em números aproximados, ao dobro do PIB brasileiro. É dinheiro – e é dinheiro que não para de crescer. Em um intervalo de 16 meses, o valor da Apple subiu 50%, passando de US$ 2 trilhões para US$ 3 trilhões. A escalada não deixa mais dúvidas sobre o fato de que o centro do capitalismo está nas chamadas big techs, as gigantes de alta tecnologia que têm uma incomparável capacidade de inovação.

Em julho do ano passado, as cinco maiores big techs (Apple, Google, Amazon, Microsoft e Facebook, que foi renomeada recentemente como Meta) bateram, juntas, o preço de US$ 9,3 trilhões. Agora, valem mais.

Durante a pandemia, com as medidas sanitárias de isolamento, as cinco foram às alturas. Eram as companhias mais preparadas para lucrar com o que se começou a chamar de “trabalho remoto”, e também com o e-commerce, com o e-governe com o home office. Suas ferramentas se tornaram imprescindíveis.

Adriana Fernandes: Debate eleitoral na economia

O Estado de S. Paulo.

Seria saudável que os candidatos fizessem um acordo mínimo para rever o regime fiscal

O contraponto criado entre os que defendem a manutenção ou o fim do teto de gastos expressa uma falsa e inadequada dicotomia que ameaça pautar o debate da sucessão presidencial de 2022. A discussão não pode ficar sobre escolhas entre preto ou branco.

A regra que cria um limite atrelado à inflação para o crescimento da despesa do governo teve um efeito positivo sobre as expectativas do mercado há cinco anos, quando foi adotado como fórmula de sinalizar um compromisso com o equilíbrio fiscal, mas desde então tem se demonstrado inexequível e ineficiente do ponto de vista de seus objetivos. Estimulando uma nova onda de contabilidade criativa como sucessivas reportagens deste jornal vêm mostrando.

Cristovam Buarque*: Plano C

Correio Braziliense

No artigo “Plano B”, neste jornal, Luiz Carlos Azedo, contesta a ideia de que Bolsonaro está fragilizado: sem votos e sem apoio militar. Seu artigo provoca imaginar um “Plano C”, para eleger Bolsonaro, graças ao voto nulo por rejeição ao PT.

Impossível prever, mas tudo indica que nenhum dos candidatos da “terceira via” vai ter votos para chegar ao segundo turno, seja porque não se unem, devido às divergências, seja por nenhum deles ter votação maior que Lula ou Bolsonaro.

 O primeiro turno terá uma campanha tão radicalizada no mantra “nem Lula nem Bolsonaro”, que muitos dos atuais candidatos a presidente serão levados a votar em Bolsonaro: coerência com os discursos contra Lula, porque são mais antipetismo que antifascismo, ou porque suas bases estão mais próximas do ex-capitão do que do ex-operário.

Nas três semanas entre os dois turnos, milícias estarão nas ruas, as tropas prontas nos quartéis e as mídias sociais repercutindo a fala dos candidatos para ampliar a rejeição a Lula.

Ricardo José de Azevedo Marinho*: As coisas que perdemos no fogo da Nossa parte de noite

A realidade pode conter o macabro e o perturbador e As coisas que perdemos no fogo (2016 lá e 2017 aqui pela Intrínseca), a coletânea de contos da escritora argentina Mariana Enríquez, faz isso com maestria mobilizando o medo e o terror cotidiano que vem das profundezas históricas de seu país (e não só) e deságua no cenário do governo de Mauricio Macri (2015-2019). Em um olhar de relance, as doze narrativas da escritora argentina poderiam parecer surreais para os leitores brasileiros. Entretanto, elas se mostram com uma familiaridade estonteante e o cotidiano se transforma em pesadelo.

Personagens e lugares comuns não ocultam um universo insólito e comum de argentinos e brasileiros e tal como ocorreu com o apagão de 2001 lá e cá e que fez desnudar a luz do dia que a crise energética que vivenciamos era o resultado de opções históricas equivocadas de nossas ditaduras, que não planejaram a expansão e a diversificação do sistema elétrico.

São esses os elementos junto com os da pandemia e não arroubos revogatórios que devem nos informar na leitura atenta do Decreto argentino nº 389, de 16 de junho de 2021 que dá nova redação ao artigo 4 e os apenas derrogados artigos 6, 8, 9, 10 e 11 do Decreto nº 882, de 31 de outubro de 2017, reposicionando a política anterior pró-mercado dos ativos energéticos agora considerados estratégicos.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Bolsonaro nada faz contra mais um onda da covid-19

Valor Econômico

Nenhum poder da República se mostrou capaz de fazer Bolsonaro cumprir as determinações constitucionais que exigem a proteção ao direito à vida e à saúde dos brasileiros

A quinta variante da covid-19, a ômicron, é a recordista em propagação e em furar o bloqueio das vacinas. Três milhões de pessoas foram infectadas por dia no mundo, um recorde até agora, e a curva de casos no Brasil, onde a ômicron já é predominante, apontou para cima de novo. A experiência acumulada na pandemia é suficiente para enfrentar um vírus de menor taxa de letalidade, mas não para deter a nova corrida aos hospitais e postos de saúde que, por sua vez, começam a ficar gravemente desfalcados pela contaminação de médicos, enfermeiros e pessoal de apoio. Já o presidente Jair Bolsonaro, 620 mil mortes depois, segue preocupado com seus fantasmas particulares - até mesmo uma farsesca supernotificação de casos de covid-19 - enquanto o Ministério da Saúde vive apagão de dados há um mês.

A nova onda da covid-19 pode ser um problema eleitoral para Bolsonaro - que só pensa nisso. A primeira reação do presidente, no entanto, não é tomar providências e enfrentar da melhor maneira possível o vírus, mas criticar as soluções disponíveis, que mostraram eficácia. Foi assim desde o começo, quando a “gripezinha” vislumbrada pelo presidente se transformou em uma hecatombe, com o país exibindo o segundo maior número de mortes do mundo. Mas as mortes, o desenvolvimento de vacinas em tempo recorde e o enorme e dedicado esforço das redes públicas e privadas de saúde nada significaram para Bolsonaro, que se supera em demonstrar quanto sua ignorância pode ser destrutiva.

Quanto mais os problemas se avolumam e, com eles, a possibilidade dele ser ejetado da Presidência em outubro, mais Bolsonaro se agita em ataques paranóicos. Em entrevista à Jovem Pan, advertiu que “já vejo ensaio de governadores querendo fechar tudo novamente”, provavelmente em alusão às medidas preventivas necessárias contra aglomerações no carnaval que começam a ser tomadas. O presidente disse que se isso ocorrer haverá uma “rebelião”, sem que haja “Forças Armadas suficientes para a garantia da ordem”.

Poesia | Vinicius de Moraes: Soneto do amor total

 

Música | Zeca Pagodinho - Toda a hora

 

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Elio Gaspari: A moratória de Bolsonaro

O Globo

A coisa mais perigosa do mundo é arriscar previsões sobre o comportamento de Jair Bolsonaro. Mesmo assim, é indiscutível que, depois da missão Michel Temer, em setembro do ano passado, ele baixou o verbo com os ministros do Supremo Tribunal Federal. Parece que a nota do almirante da reserva Antonio Barra Torres, diretor-presidente da Anvisa, levou-o a baixar a bola também no ridículo conflito em torno da vacina das crianças. Se disso resultar uma moratória de Bolsonaro diante da pandemia, o ano de 2022 terá começado melhor.

Desde que o coronavírus entrou na agenda mundial, o capitão errou todas. A “gripezinha” matou mais de 620 mil pessoas, e a cloroquina serviu para nada. A boa notícia veio do funcionamento do programa de imunização, área em que o Brasil tinha um desempenho histórico louvável. A ele, somou-se o comportamento da população, vacinando-se. Nem o declínio na qualidade da gestão do Ministério da Saúde foi suficiente para anestesiar os brasileiros.

Se Bolsonaro parar de exercer ilegalmente a medicina, deixando a pandemia para os médicos, todo mundo ganha.

Bernardo Mello Franco: O enigma de Queiroz


O Globo

Fabrício Queiroz está de volta. Depois de curtir a virada de ano, o ex-PM ressurgiu com planos ambiciosos. Quer trocar a sombra da família Bolsonaro pelo sonho do gabinete próprio.

O homem da rachadinha é pré-candidato a deputado. No domingo, ele deu o pontapé inicial da campanha. Divulgou um vídeo para ostentar intimidade com a família presidencial.

O filmete empilha clichês da iconografia bolsonarista. Queiroz visita um estande de tiro, veste roupa camuflada e empunha um fuzil. A militância verde-amarela marca presença com camisetas da seleção e bandeirinhas de plástico.

Numa cena descontraída, o ex-PM e o senador Flávio Bolsonaro fazem sinal de positivo para a câmera. Em outro momento de ternura, Queiroz e Jair aparecem de sunga na praia. Os velhos amigos encolhem a barriga e exibem o bíceps, num gesto para afirmar masculinidade.