Valor Econômico
Nas últimas décadas o Brasil se esmerou em diversificar o elenco de alternativas para despistar o eleitor e tornar-lhe difícil a tomada de decisões racionais e propriamente políticas na hora de votar
Em alguns dias o eleitorado se defrontará,
com razoável consciência, com o dilema de decidir em quem votar. Não será o de
decidir entre candidatos de esquerda ou de direita. Aqui essas designações são
em boa parte rótulos. Para saber se alguém é de direita ou de esquerda é
preciso muito mais competência do que é próprio do nosso pobre senso comum.
O dilema será o de decidir qual é a fonte
legítima do perfil do candidato. Se pela biografia ou pela folha corrida. Temos
tido políticos, de biografias honradas e respeitáveis, de histórias pessoais
limpas e límpidas, provadas em funções políticas ao longo do tempo.
Outros, porém, se notabilizam por terem a biografia reduzida a mera e suspeita folha corrida. Com anotações decorrentes de processos de investigação motivados por dúvidas em relação não só a atos fora das pautas límpidas da tradição, mas também por histórias cheias de meandros sombrios e anômalos que as tornam suspeitas e que não recomendam seus titulares ao exercício de poder em nome da democracia.
Nas últimas décadas o Brasil se esmerou em
diversificar o elenco de alternativas para despistar o eleitor e tornar-lhe
difícil a tomada de decisões racionais e propriamente políticas na hora de
votar.
Um desses instrumentos foi a adoção do nome
de urna em conexão com a adoção da urna eletrônica. Um incitamento do eleitor a
se enganar na escolha que faz. A pretexto de permitir que o eleitor
supostamente conheça face a face os candidatos, em vez de uma República
representativa, criamos uma república de bairro, cuja sociabilidade é a de feira
livre e de negociantes, de paroquialismo pentecostal, até de enterros e
cemitérios.
Tornaram-nos um povo que se acha devedor de
favor político ao padeiro, ao açougueiro, ao pastor de igreja, ao verdureiro,
ao dono do botequim da esquina, ao artista de circo, ao agente funerário, ao
coveiro do cemitério. Em número descabido e não raro a qualificação
“profissional” do candidato agregada ao seu nome de urna. Toda uma teia de
relações não políticas redutivas da sociabilidade ao mais superficial do cotidiano.
Apesar dos recursos modernos de verificação
eletrônica de histórias de vida, essa cultura pseudopolítica inviabiliza a
consciência crítica, sem a qual a representação política não é possível.
É claro que os portadores de apelidos podem
acrescentá-los ao nome civil, como fez Luiz Inácio da Silva, que acrescentou
judicialmente ao seu nome o apelido pelo qual era conhecido, “Lula”.
O presidente Fernando Henrique Cardoso baixou
ato que proíbe aos cartórios e juízes de paz fazerem registros de nascimento
com nomes ridículos, que possam acarretar humilhação a seus portadores, na
escola, no emprego, na igreja. Somos propensos a atribuir aos filhos nomes
esdrúxulos.
Uma amiga, no consultório dentário, enquanto
esperava sua vez, ouviu com espanto a dentista chamar a cliente seguinte:
Madeinusa. E lhe explicou, o pai da cliente lera o nome num fundo de garrafa:
“made in USA”. Achara-o lindo e o colocou na filha.
A mesma mentalidade tosca se manifestou na
eleição municipal de 1959, em São Paulo, quando a rinoceronte Cacareco, do
zoológico municipal, foi “eleita” vereadora com mais de 100 mil votos, mais do
que o maior número de votos do partido mais votado. Quando o voto ainda era
escrito, os eleitores que queriam protestar escreviam gracinhas como essa na
cédula, o que anulava o voto.
A eleição frequente de suspeitos de atos
graves contra o regime democrático e contra a autenticidade da representação
política amplia o uso da cultura da folha corrida com a equivocada concepção de
que nela estar é um atributo próprio da política. Os antigos se lembrarão do
mote informal das candidaturas de Adhemar de Barros, que foi governador e
prefeito de São Paulo e foi candidato a presidente da República: “Rouba, mas
faz”.
A disputa entre biografia e folha corrida não
é disputa entre esquerda e direita, como tampouco conservadores são
necessariamente de direita. Há conservadores autênticos formados na cultura das
tradições conservadoras que de modo algum são de direita e tampouco fascistas.
Os que fazem propositalmente essas confusões são antes de tudo ignorantes e por
ignorância não sabem ser, politicamente, mais do que bajuladores de
espertalhões e enganadores.
Arremetidas recentes para “aperfeiçoar” com o
abrandamento, da sua necessária severidade, a lei da ficha-limpa, tornarão o
país oficialmente o país da ficha suja. O propósito prático acabará sendo
valorizar como limpo o que é sujo. Isto é minimizar a importância política das
biografias honradas. A ficha suja desonrará os que honram a pátria por não
serem cúmplices dos que dela se servem.
*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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