O Globo
O que acontece quando aprendemos sobre as
injustiças e, em vez de nos opormos a elas, nos rendemos, aceitando ser assim
que o mundo funciona? O filósofo Peter Sloterdijk chamou essa postura cínica de
“falsa consciência esclarecida”, uma consciência que aprendeu sobre os
problemas do mundo, mas se entregou ao estado de coisas denunciado.
Nesta semana, vimos críticos da desinformação
empregando todos os subterfúgios e estratagemas das campanhas de desinformação.
Deixarei para os juristas a discussão sobre se houve ou não violação da lei
eleitoral. Os efeitos sobre nossa cultura política me parecem mais importantes.
O boato de que Flávio Bolsonaro retiraria de
Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil é um caso de
livro-texto. A história começa com o boato plantado por um militante no
Twitter:
— Católico não vota em nenhum Bolsonaro e nem em nenhum candidato que queira retirar o título de Nossa Senhora Aparecida de Padroeira e Rainha do Brasil.
O rumor se espalha pela rede social. Um
comentário na TV o repercute, apresentando como temor de círculos católicos. A
repercussão na mídia é usada como validação do boato que, agora, é visto como
fruto de “apuração jornalística”.
Quando Flávio afirma que não pretende tirar
de Nossa Senhora o título de padroeira, fatos anteriores passam a ser
resgatados e reinterpretados como confirmação da suspeita. Primeiro, resgatam
um Projeto de L ei de um aliado que, em 2007, propunha mudar a referência a
Nossa Senhora de “padroeira do Brasil” para “padroeira dos brasileiros
católicos”. Depois, resgatam um vídeo em que o candidato se compromete a
“decretar que o Brasil é do senhor Jesus Cristo” — interpretado como insinuação
de que ela não será mais a padroeira. Por fim, citam um livro de 2001, escrito
pelo pastor da igreja de Flávio, que considera o título de padroeira do Brasil
ilegal e inconstitucional. Todos esses sinais são usados para comprovar o
boato, ainda que o candidato o tenha categoricamente desmentido.
A forma como o boato foi plantado e depois
“comprovado” é a mesma de outros boatos: a mentira é lançada e em seguida
desmentida; depois, a suspeita segue alimentada com verdades resgatadas e
reinterpretadas como se desde sempre confirmassem o rumor. Foi dessa mesma
maneira que as investidas por aumento de tributação do governo Lula foram
mobilizadas para “comprovar” o boato de que o Pix seria taxado.
Se non è
vero, è ben trovato (se não é verdade, é bem inventado), como se
diz em italiano. A força persuasiva dos boatos advém do fato de serem mentiras
plausíveis, que confirmam crenças anteriores. Os católicos “sabem” que os
evangélicos querem o fim da devoção a Nossa Senhora, portanto é verossímil — é
até mesmo “provável” — que um candidato evangélico queira tirar de Aparecida o
título de padroeira. Os bolsonaristas “sabem” que os petistas querem taxar os
brasileiros, portanto é verossímil que Lula queira taxar o Pix.
A campanha de desinformação não precisa
estabelecer como verdade que Flávio quer tirar o título de padroeira ou que
Lula quer taxar o Pix — basta sustentar a desconfiança de que podem fazer isso.
A mentira recua, a dúvida permanece.
Num artigo famoso (“A mentira na política”),
Hannah Arendt comparou a verossimilhança da mentira ao caráter muitas vezes
surpreendente da verdade:
— Muitas vezes, as mentiras são muito mais
plausíveis, mais atraentes para a razão, que a realidade, uma vez que o
mentiroso tem a grande vantagem de saber de antemão o que o público deseja ou
espera ouvir. Ele prepara sua história para consumo público, cuidando
atentamente para torná-la crível, ao passo que a realidade tem o hábito
desconcertante de nos confrontar com o inesperado.
Em si mesma, a campanha de desinformação
sobre Nossa Senhora não tem nada de especial. O que mais preocupa é aqueles que
antes denunciavam a desinformação se juntarem agora ao jogo sujo, num concerto
cínico. Não há saída para nossa crise política que não passe por reconstruir
normas comuns — regras que estejamos dispostos a respeitar, mesmo quando
violá-las parece servir aos nossos fins.

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