sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Um mundo mais cínico, por Pablo Ortellado

O Globo

O que acontece quando aprendemos sobre as injustiças e, em vez de nos opormos a elas, nos rendemos, aceitando ser assim que o mundo funciona? O filósofo Peter Sloterdijk chamou essa postura cínica de “falsa consciência esclarecida”, uma consciência que aprendeu sobre os problemas do mundo, mas se entregou ao estado de coisas denunciado.

Nesta semana, vimos críticos da desinformação empregando todos os subterfúgios e estratagemas das campanhas de desinformação. Deixarei para os juristas a discussão sobre se houve ou não violação da lei eleitoral. Os efeitos sobre nossa cultura política me parecem mais importantes.

O boato de que Flávio Bolsonaro retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil é um caso de livro-texto. A história começa com o boato plantado por um militante no Twitter:

— Católico não vota em nenhum Bolsonaro e nem em nenhum candidato que queira retirar o título de Nossa Senhora Aparecida de Padroeira e Rainha do Brasil.

O rumor se espalha pela rede social. Um comentário na TV o repercute, apresentando como temor de círculos católicos. A repercussão na mídia é usada como validação do boato que, agora, é visto como fruto de “apuração jornalística”.

Quando Flávio afirma que não pretende tirar de Nossa Senhora o título de padroeira, fatos anteriores passam a ser resgatados e reinterpretados como confirmação da suspeita. Primeiro, resgatam um Projeto de L ei de um aliado que, em 2007, propunha mudar a referência a Nossa Senhora de “padroeira do Brasil” para “padroeira dos brasileiros católicos”. Depois, resgatam um vídeo em que o candidato se compromete a “decretar que o Brasil é do senhor Jesus Cristo” — interpretado como insinuação de que ela não será mais a padroeira. Por fim, citam um livro de 2001, escrito pelo pastor da igreja de Flávio, que considera o título de padroeira do Brasil ilegal e inconstitucional. Todos esses sinais são usados para comprovar o boato, ainda que o candidato o tenha categoricamente desmentido.

A forma como o boato foi plantado e depois “comprovado” é a mesma de outros boatos: a mentira é lançada e em seguida desmentida; depois, a suspeita segue alimentada com verdades resgatadas e reinterpretadas como se desde sempre confirmassem o rumor. Foi dessa mesma maneira que as investidas por aumento de tributação do governo Lula foram mobilizadas para “comprovar” o boato de que o Pix seria taxado.

Se non è vero, è ben trovato (se não é verdade, é bem inventado), como se diz em italiano. A força persuasiva dos boatos advém do fato de serem mentiras plausíveis, que confirmam crenças anteriores. Os católicos “sabem” que os evangélicos querem o fim da devoção a Nossa Senhora, portanto é verossímil — é até mesmo “provável” — que um candidato evangélico queira tirar de Aparecida o título de padroeira. Os bolsonaristas “sabem” que os petistas querem taxar os brasileiros, portanto é verossímil que Lula queira taxar o Pix.

A campanha de desinformação não precisa estabelecer como verdade que Flávio quer tirar o título de padroeira ou que Lula quer taxar o Pix — basta sustentar a desconfiança de que podem fazer isso. A mentira recua, a dúvida permanece.

Num artigo famoso (“A mentira na política”), Hannah Arendt comparou a verossimilhança da mentira ao caráter muitas vezes surpreendente da verdade:

— Muitas vezes, as mentiras são muito mais plausíveis, mais atraentes para a razão, que a realidade, uma vez que o mentiroso tem a grande vantagem de saber de antemão o que o público deseja ou espera ouvir. Ele prepara sua história para consumo público, cuidando atentamente para torná-la crível, ao passo que a realidade tem o hábito desconcertante de nos confrontar com o inesperado.

Em si mesma, a campanha de desinformação sobre Nossa Senhora não tem nada de especial. O que mais preocupa é aqueles que antes denunciavam a desinformação se juntarem agora ao jogo sujo, num concerto cínico. Não há saída para nossa crise política que não passe por reconstruir normas comuns — regras que estejamos dispostos a respeitar, mesmo quando violá-las parece servir aos nossos fins.

 

Nenhum comentário: