quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Historicidade da filosofia da práxis, por Antonio Gramsci*

Que a filosofia da práxis conceba a si mesma de um modo historicista, isto é, como uma fase transitória do pensamento filosófico, esta concepção, além de estar implícita em todo o seu sistema, resulta explicitamente da conhecida tese segundo a qual o desenvolvimento histórico se caracterizara, em determinado ponto, pela passagem do reino da necessidade ao reino da liberdade. Todas as filosofias (os sistemas filosóficos) que existiram até hoje foram a manifestação das intimas contradições que dilaceraram a sociedade. Mas cada sistema filosófico, tomado em si mesmo, não foi a expressão consciente destas contradições, já que tal expressão só poderia ser dada pelo conjunto dos sistemas em luta entre si. Todo filosofo está e não pode deixar de estar convencido de que expressa a unidade do espirito humano, isto é, a unidade da história e da natureza; de fato, se tal convicção não existisse, os homens não atuariam, não criariam uma nova história, isto é, as filosofias não poderiam transformar-se em “ideologias”, não poderiam assumir na prática a granítica e fanática solidez daquelas “crenças populares” que tem a mesma energia das “forças materiais”.

A lei do retorno, por Merval Pereira

O Globo

Lula recorreu a Cortes internacionais legítimas, enquanto Bolsonaro provocou um estrago econômico no país incentivando a intervenção de um governo estrangeiro.

O presidente Lula, em seu bem estruturado discurso de lançamento do programa Brasil Soberano, para ajudar as empresas que serão prejudicadas pelo tarifaço do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que o processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro corre dentro dos parâmetros legais em vigor. Ele mesmo fez a comparação com seu próprio caso, afirmando que não reclamara da Justiça e acatara a decisão final, indo para a cadeia. Não é verdade que não tenha reclamado, direito de todo cidadão acusado de algum crime.

Desde o início, seu advogado, hoje ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin, classificou de lawfare — transformar o sistema jurídico em uma arma com fins políticos — o processo contra Lula. No caso atual, os bolsonaristas acusam o Supremo de lawfare, alegando que tudo é feito com o objetivo de impedir que Bolsonaro dispute a eleição do próximo ano. Como os petistas acusaram o Supremo na ocasião da condenação de Lula, que liderava as pesquisas de opinião antes de ser preso.

Lições da crise, por Malu Gaspar

O Globo

O pacote de socorro de R$ 30 bilhões aos setores afetados pelo tarifaço de Donald Trump, lançado ontem pelo presidente Lula, foi a atitude mais enfática de reação até agora. Publicamente, o empresariado agradeceu e celebrou. Nos bastidores, porém, vários continuam insistindo que Lula precisa também “fazer um gesto” e buscar um canal com a Casa Branca. O gesto seria um telefonema a Trump, que acreditam ter o condão de destravar as negociações.

Para os empresários, o telefonema se tornou quase um fetiche. Para a oposição, um espantalho para desviar a atenção sobre a responsabilidade do bolsonarismo na crise.

Soberania e eleição, por Julia Duailibi

O Globo

Não ficar parado é uma coisa. Adotar retórica eleitoral, que não ajuda na negociação com os EUA, é outra

Os americanos fecharam a porta para negociação, mas o Brasil não fez muita questão de tocar a campainha para entrar. Ontem, no lançamento do programa que mitiga os efeitos do tarifaço, Lula criticou Trump, anunciou viagem com 500 empresários para a Índia e o Sudeste Asiático, relatou conversas com líderes da China e da Rússia e disse que procurará França, Alemanha e África do Sul.

— É assim que a gente vai tentar procurar as nossas alternativas para que os Estados Unidos aprendam que democracia, respeito comercial e multilateralismo valem pra nós e devem valer pra eles.

A resposta econômica à agressão americana, por Míriam Leitão

O Globo

O pacote de apoio aos atingidos pelo tarifaço fez o governo reformar o sistema de financiamento à exportação, para chegar à pequena empresa

O difícil equilíbrio que o governo buscou na resposta à crise provocada pelo tarifaço foi adotar medidas que efetivamente ajudassem o exportador afetado, mas que tivessem baixo impacto fiscal. Havia outro desafio que o governo se impôs, o de deixar alguma herança em mudanças estruturais. Para isso, reformou o sistema de financiamento à exportação, tornando-o mais ágil e capaz de chegar às empresas pequenas. Estabeleceu prazos para que o subsídio não se eternize, como sempre acontece.

O fôlego finito da soberania mexe no tabuleiro, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Empurrado para uma reação efetiva, governo alinhava apoio de Motta e Alcolumbre com pauta no Congresso e Tarcísio, ante dissenso entre Centrão e bolsonarismo, avança sobre 2026

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda não tinha começado a falar na cerimônia das medidas para conter o impacto do tarifaço sobre exportadores quando uma instituição financeira recebeu o monitoramento do dia sobre sua popularidade que, neste mercado, é batizado, em inglês, de “tracking”.

O resultado confirmava a tendência que começou a ser registrada há uma semana: depois de registrar a melhor taxa do ano com a reação ao tarifaço, seguindo a curva ascendente iniciada pela taxação BBB (bancos, bets e bilionários) e empatando com reprovação, a aprovação de Lula voltou a puxar a boca do jacaré para baixo.

Riscos de mais sanções que podem vir de Trump, por Assis Moreira

Valor Econômico

A parte mais difícil de conversas com o governo americano parece sempre ainda estar por vir

Donald Trump já mostrou que, com ele, tudo é muito incerto e pode mudar para pior. No caso do Brasil, o tarifaço de 50% no acesso de produtos brasileiros nos EUA pode estar longe de representar o fim de sanções vindas de Washington.

Uma das ameaças em andamento é a investigação aberta pelo USTR (agência de representação comercial americana) com base na seção 301, uma arma poderosa que dá a Trump autoridade unilateral para retaliar outros países que considerar que impõem barreiras injustas contra produtos americanos.

Por que o Brasil incomoda?, por Jorge Arbache

Valor Econômico

No novo contexto global, o Brasil deixou de ser um ator discreto. Suas posições passaram a ser não apenas notadas, mas questionadas e, por vezes, combatidas

Num jogo de Fla-Flu, há pouco espaço para a neutralidade, e essa foi, durante muitos anos, a política internacional bem-sucedida perseguida pelo Brasil. Ao longo de décadas, a diplomacia brasileira cultivou uma imagem de mediador confiável, defensor de valores e princípios como o multilateralismo, a defesa dos direitos humanos, a segurança internacional, a não intervenção em assuntos internos de outros países e a proteção do meio ambiente. Essa postura buscava equilibrar relações, mantendo portas abertas com diferentes polos de poder.

O vencendor, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Para todos os efeitos, Lula abandonou negociações políticas com os Estados Unidos

Não está claro se Donald Trump quer apenas ajudar Bolsonaro a escapar da cadeia ou derrubar o governo de Lula. Ou se ele acredita que um levaria ao outro. Mas está claro – e as informações de bastidores confirmam – que ele está disposto a escalar as ações contra o Brasil.

Diante dessa inédita crise nas relações centenárias entre os dois países, para todos os efeitos, o presidente brasileiro desistiu de negociar o lado político. Não há caminho possível neste momento para entendimentos “técnicos” (leia-se comércio e tarifas) por conta da questão política, mas Lula acha que nem vale a pena tentar.

Dino assusta mais o Congresso, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Os deputados bolsonaristas que organizaram um motim na Câmara na semana passada protestavam contra Alexandre de Moraes, mas estão preocupados mesmo é com Flávio Dino.

Diante da plateia, os parlamentares se dizem indignados com Moraes na condução dos processos sobre a trama golpista no Supremo Tribunal Federal (STF). Chamam de absurda a prisão de Jair Bolsonaro e lutam pela anistia a quem arquitetou um golpe de Estado.

Além da anistia e do impeachment de Moraes, o grupo abraçou uma terceira causa: o fim do foro privilegiado. A pauta não guarda qualquer relação com os julgamentos sobre o golpe ou com a conduta de Moraes. Eventual alteração na regra do foro não mudaria a vida de quem já foi sentenciado nem de quem está prestes a ser julgado.

Uma bomba fiscal no Supremo, por Felipe Salto

O Estado de S. Paulo

A prioridade do País é reequilibrar as contas públicas, inclusive as previdenciárias, e não turbinar os gastos

O Supremo Tribunal Federal (STF) precisará desarmar uma bomba fiscal até a próxima segunda-feira. Trata-se de garantir a constitucionalidade da aplicação do chamado fator previdenciário nas aposentadorias calculadas sob as regras de transição da Emenda Constitucional n.º 20, de 1998 – a reforma da Previdência do segundo governo do presidente Fernando Henrique Cardoso.

Está em jogo a preservação dos efeitos de uma reforma que deu sobrevida (de longos anos) ao INSS, muito embora o déficit siga sem solução definitiva. Sem aquela reforma, honrar os pagamentos a tantos aposentados e pensionistas teria significado quebrar o País, dados os impactos inevitáveis sobre a dívida pública e a inflação.

O socorro às vítimas do tarifaço, por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Embora inevitável, o pacote de compensação às empresas prejudicadas pelo tarifaço, da ordem de R$ 30 bilhões em crédito e outros benefícios, envolve grande complexidade e sua operação pode produzir distorções.

Iniciativa como esta precisa ser entendida como paliativo. É analgésico contra a dor; não cura braço quebrado. A melhor política contra este tarifaço consiste em negociar tarifas mais baixas, diversificar exportações e tratar de conseguir novos acordos comerciais.

A paulada desferida pelo presidente Donald Trump não atingiu por igual exportadores e fornecedores de exportadores. Mesmo dentro de cada setor, como o de calçados ou de móveis de madeira, o impacto foi assimétrico, de acordo com a dependência de cada qual das exportações para os Estados Unidos. Distribuir compensações exigirá a adoção de critérios também desiguais ou influenciados pelo poder de lobby de cada uma delas.

Steven Levitsky, professor de Harvard: "STF agiu absolutamente certo"

Por Israel Medeiros /Correio Braziliense

Autor consagrado e um dos mais respeitados acadêmicos norte-americanos, ele considera que a atuação da Corte tem sido fundamental para garantir a democracia brasileira

Os Estados Unidos poderiam ter evitado o declínio de sua democracia se tivessem feito com o hoje presidente Donald Trump o que o Brasil fez, ao investigar, processar e indiciar o ex-presidente Jair Bolsonaro por participação em uma trama golpista. Esta é a análise do cientista político Steven Levitsky, autor dos best-sellers Como as Democracias Morrem e Como Salvar a Democracia, que elogiou a firme atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) contra movimentos antidemocráticos no Brasil. Para o professor da Universidade Harvard, as instituições precisam se levantar contra o autoritarismo, pois as democracias "não conseguem se defender sozinhas".

"Acho que o (Supremo) tribunal agiu absolutamente certo ao defender a democracia de forma agressiva. As democracias não conseguem se defender sozinhas. Elas não podem ser defendidas passivamente, a distância", pontuou, em um evento, ontem, do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), em Brasília, ao lado do decano do STF, Gilmar Mendes. Levitsky ressaltou, no entanto, que a Corte também concentra um poder inédito, que a coloca entre as mais poderosas do mundo e abre a possibilidade de críticas sobre os limites de sua atuação.

Inimigos internos da democracia, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Ninguém pode prever se a democracia sobreviverá ao assédio de Trump

Às vésperas de completar nove meses na Casa Branca, impressiona o quanto Donald Trump foi capaz de destruir ou mutilar em tão pouco tempo e com tanta facilidade. A lista completa dos seus malfeitos tomaria todo o espaço desta coluna. Ele promoveu cortes profundos no Orçamento —mais de 22% nos gastos não militares—, passando a tesoura nos dispêndios com educação, saúde, habitação, assistência alimentar e programas sociais, dando prioridade à defesa e à segurança.

Atacou as melhores universidades, exigindo o fim de iniciativas de diversidade e inclusão, aumentando a supervisão federal e as restrições a estudantes estrangeiros; condicionou a ajuda a alinhamento ideológico; esvaziou o apoio federal à pesquisa. Espalhou o pânico entre os imigrantes legais ou sem documentação em ordem; endureceu as regras e criou restrições ao asilo; promoveu deportações a esmo e alongou o muro na fronteira com o México. Deu marcha-à-ré nas políticas ambientais da gestão Biden; tirou os EUA do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas; enfraqueceu o auxílio à produção de carros elétricos e às fazendas eólicas, enquanto dava força à indústria de combustíveis fósseis.

Pacote contra tarifaço fica sob medida, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Despesa fiscal extra é pequena; ameaça é parlamentares inventarem favores amplos

Como era previsível, Luiz Inácio Lula da Silva mandou tirar das contas fiscais o gasto com o pacote de ajuda às empresas afetadas pelo tarifaço Trump-Bolsonaro. Sim, melhor seria ter contas arrumadas e arcabouço fiscal melhor. Mas, francamente, o dinheiro mal vale a discussão, que é outra.

O desembolso direto do governo vai ser limitado, em tese, a R$ 9,5 bilhões até o final de 2026. Em uma conta no guardanapo, o equivalente a 0,05% do PIB em 2025 e de 0,02% do PIB em 2026. É meio nada, ainda menos se o socorro puder conter problemas socioeconômicos sérios, ainda que setoriais.

Custo da imprevidência, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Pacote confirma que Lula prefere usar folga para pagar despesas ordinárias do que fazer frente às surpresas

O governo acerta ao lançar um pacote para socorrer as empresas que acumulam prejuízos com o tarifaço de 50%. Não havia saída para o presidente Lula nessa emergência de pressão total de Donald Trump contra o Brasil.

No curto prazo, as empresas pediam crédito subsidiado e também adiamento de impostos. Conseguiram essa ajuda e, de quebra, a ampliação do Reintegra, benefício que prevê o ressarcimento de parte dos tributos para empresas que exportam manufaturados. A oposição bolsonarista, que critica as medidas, não teria feito muito diferente neste primeiro momento diante do tamanho do problema e da diversidade das empresas.

Pela liberdade de expressão pedófila, por Conrado Hübner Mendes

Folha de S. Paulo

Big techs têm lado no combate ao abuso sexual de crianças

Dias atrás, uma dessas viralizações extraordinárias dominou a internet brasileira. Dessa vez o vídeo não serviu para desinformar e disseminar ódio e medo. Fez denúncia inteligente e objetiva do mais alto interesse público —a proteção da infância.

Felca, o produtor do vídeo, dissecou mecanismos formadores de comunidades pedófilas nas redes. Veicular a adultização, sexualização e exploração de crianças é prática rentável para empresas como Instagram, TikTokYouTubeFacebook ou Telegram. E facilitada por seus algoritmos.

Assim como supremacistas brancos usam "apitos de cachorro", códigos cifrados para comunicação de grupo, pedófilos usam apitos da mamadeira de piroca. A palavra "trade" na seção de comentários é um deles. Quando escrevem "trade", pedófilos comunicam intenção de comerciar imagem íntima de criança, relaxar e gozar. Big techs têm capacidade de coibir, mas deixam rolar.

PL 2.628/2022 protege crianças nas redes, por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

Precisamos de um arcabouço de regras para que o crime nas redes não compense

Adultização, esse é o termo utilizado pelo influenciador Felca no vídeo viral em que faz um alerta didático contra a exploração de crianças e adolescentes nas redes.

O vídeo é eficaz não só por seu formato —o que ensina muito o poder público e o terceiro setor sobre estratégias capazes de alcançar dezenas de milhões de visualizações. Ele é igualmente eficaz porque tem alvo certo: produtores de conteúdo que exploram crianças e adolescentes nas redes sociais e plataformas que lucram com esse tipo de vídeo.

'Sim, ele é um f.d.p., mas é o nosso f.d.p.', por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Trump e Bolsonaro devem se lembrar dessa famosa frase quando pensam um no outro

Uma frase atribuída ao presidente americano Franklin Roosevelt nos anos 1940 sobre o ditador nicaraguense Anastasio Somoza tornou-se um clássico da realpolitik: "Claro, ele é um f.d.p. Mas é o nosso f.d.p.". Ela resume o apoio dos EUA a ditadores estrangeiros, no poder à custa de fraudar eleições, calar a Justiça, prender, torturar e matar opositores e violar direitos humanos em nome da "liberdade". Sim, a ex-URSS e seus satélites também praticavam esses crimes, de que eram com justiça acusados pelo bloco democrático. Mas este fazia vista grossa à legião de iguais fs.d.p. acobertados pelos presidentes americanos. Exemplos.

Sobre o conhecimento, por Ivan Alves Filho

LeRoi Gourhan, o maior arqueólogo europeu de todos os tempos, e até aqui insubstituível, não era arqueólogo de formação – começou a vida como simples marinheiro. Foi um homem da Resistência contra o ocupante nazista da sua terra, vivendo como poucos os dramas do seu tempo. Publicou ao menos três obras que marcariam a cultura internacional, a saber: O homem e a matériaMeio e técnicas e o Gesto e a palavra. Os títulos dos livros, por si só, já indicam sua importância fundamental. Estudou em particular o papel desempenhado pelas mãos no desenvolvimento do cérebro humano, comprovando o valor do trabalho no processo de humanização.

Por seu turno, o maior antropólogo europeu de sua época, o sempre reverenciado Claude Lévi-Strauss, estudou Filosofia na juventude e militou durante anos a fio em uma organização política que se inspirava no ideário marxista, chegando a ser secretário-geral da Juventude Socialista. E começou a vida escrevendo para jornais e revistas. Sua obra Tristes Trópicos, publicada em meados do século passado, se alinha entre as reflexões mais importantes do século XX. Foi o grande responsável, na Europa, pelo reconhecimento das culturas indígenas das Américas.

Poesia | Oropa, França e Bahia, de Ascenso Ferreira

Música | Chico Buarque e Mônica Salmaso | Sem fantasia | Show que tal um samba?

 

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Punição a motim no Congresso deve ser ágil e rigorosa

O Globo

Atos do corregedor e histórico sugerem sanções brandas aos amotinados. Parlamento sairia desmoralizado

Diante do espetáculo deprimente de atropelo das normas regimentais protagonizado por parlamentares durante o motim de 30 horas no Congresso na semana passada, é de esperar que a Casa reaja com presteza e rigor. Até para que os acontecimentos não se repitam. Mas, a julgar pelos primeiros movimentos da Corregedoria, que analisará o comportamento de 14 deputados acusados de envolvimento no episódio, a celeridade ficará para depois.

O corregedor parlamentar, deputado Diego Coronel (PSD-BA), decidiu adotar um rito longo, com prazo de 50 dias úteis. Inicialmente, a previsão era de 48 horas, como estabelecido em ato da Mesa Diretora assinado em maio pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Coronel se baseou noutro ato, de 2009, que concede prazo maior. Afirmou que cada uma das 14 representações será analisada de forma individual, descartando sanções coletivas. As punições previstas vão de simples advertência a suspensão do mandato por até seis meses.

Tudo ainda por fazer - Vera Magalhães

O Globo

De crise em crise, projetos se acumulam no Legislativo e carro-chefe de Lula corre riscos

De paralisação em paralisação, a verdade é que 2025 é um ano que ainda não começou no Congresso Nacional. As cenas do motim incivilizado dos bolsonaristas só escancararam o funcionamento precário que já vinha do primeiro semestre e, agora, faz com que haja uma pauta quilométrica e irreal a cobrir até o fim do ano.

A queda de braço entre Executivo e Legislativo para o cumprimento da meta fiscal foi um dos fatores a explicar a inação, mas não o único. Depois, a briga em torno da elevação do IOF para várias operações foi engolfada pelo susto do tarifaço dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, e aquela discussão também resta inconclusa.

Com uma crise atropelando a outra, vai sobrando pouco tempo para discutir com o rigor necessário o projeto que amplia a faixa de isenção do Imposto de Renda da Pessoa Física para quem ganha até R$ 5 mil mensais. Era o carro-chefe de Lula para o ano, tratado internamente no governo como marca simbólica do terceiro mandato, assim como foram Bolsa Família, Prouni, cotas e PAC em mandatos anteriores. Agora, o relator Arthur Lira (PP-AL) já diz que a votação da matéria pode ficar para dezembro, mês sabidamente corrido, tomado pela necessidade (não cumprida no ano passado, diga-se) de votar o Orçamento da União.

Gritos na Esplanada - Bernardo Mello Franco

O Globo

A professora Eneá de Stutz afirma ter sido vítima de assédio moral na Comissão de Anistia do governo federal.

Ela renunciou ao cargo de conselheira no último dia 2, sete meses depois de ser afastada da presidência do órgão. Antes disso, diz ter relatado os episódios à ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo.

Segundo Stutz, a ministra não tomou providências e evitou recebê-la novamente após ouvir as queixas, em dezembro de 2024. “Cansei de apanhar. Não me restou outra alternativa a não ser deixar a comissão”, afirma. Em nota, a pasta sustenta que Evaristo “não tinha conhecimento das denúncias”.

Votar a anistia é o melhor remédio – Elio Gaspari

O Globo

Depois da muvuca bolsonarista da semana passada, parlamentares ligados ao presidente da Câmara, deputado Hugo Motta, bem como alguns petistas, passaram a defender a votação de um projeto de anistia para os golpistas de 2022/23. Ele já recebeu o número suficiente de assinaturas para tramitar com rapidez. Engavetá-lo equivale a igualá-lo à tática (carnavalesca) da obstrução dos demais trabalhos da Câmara. Seriam formas distintas de interdição dos debates. Uma é legal e a outra, além de ridícula, é ilegal.

Desde a Independência, quase todas as gerações de brasileiros viveram revoltas e 48 anistias. Algumas, como a de 1979, foram pacificadoras. Outras, como a que Juscelino Kubitschek mandou ao Congresso em 1959, perdoando os militares revoltosos de Aragarças, foram simples gambiarras. Cinco anos depois, os anistiados entraram no bloco da deposição de João Goulart, humilharam, cassaram e exilaram JK. Ele morreu em 1976 sem recuperar a plenitude de seus direitos políticos. O major Haroldo Veloso, líder da revolta, voltou à Força Aérea, chegou à patente de brigadeiro e, em 1966, elegeu-se deputado federal pelo partido do governo.

Poucos precisam poupar no Brasil - Nilson Teixeira

Valor Econômico

Regras do BPC estimulam a informalidade e desestimulam a contribuição previdenciária

O Brasil é, e provavelmente continuará sendo, um país em que se poupa pouco. A taxa de poupança de uma nação depende de fatores como crescimento, estrutura etária, produtividade, propensão a investir, escolaridade, juros reais, estabilidade da inflação, previsibilidade, qualidade do sistema financeiro, profundidade do mercado de crédito, solvência da dívida pública, magnitude das políticas previdenciárias e de proteção social, incentivos à poupança e aspectos culturais. No Brasil, esses condicionantes ajudam a explicar por que a taxa de poupança está há anos em torno de 15% do PIB, abaixo da média dos países da OCDE e insuficiente para sustentar crescimento superior a 2,0% ao ano por período prolongado.

A enorme concentração de renda tem limitado a poupança no Brasil, pois os mais pobres têm alta propensão a consumir, agravada por baixa educação financeira e pouco acesso a instrumentos que estimulem a poupança. A isso se soma um ambiente volátil, com períodos de elevada inflação, crises cambiais e instabilidade fiscal, que reforça a preferência por ativos de curto prazo e baixo risco.

Recondução de Gonet na PGR entra no xadrez - Fernando Exman

Valor Econômico

Políticos estão de olho em cada passo que o PGR dá em relação ao julgamento da tentativa de golpe e aos casos envolvendo emendas parlamentares

No xadrez político jogado em Brasília, a todo momento há quem pense algumas jogadas à frente. Fazem parte desse seleto grupo de estrategistas articuladores do governo, líderes da oposição e, sempre eles, integrantes do Centrão. Pois os jogadores já começam a formular cenários sobre a reta final do mandato do procurador-geral da República, Paulo Gonet, a grande probabilidade de o presidente Lula decidir reconduzi-lo ao posto para mais dois anos e o “timing” que o Palácio do Planalto deveria encaminhar a indicação ao Congresso.

O difícil diálogo com a Casa Branca - Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Dificuldade não significa que o Brasil sairá da mesa de negociações com os EUA

Até a próxima segunda-feira, administração pública e empresas brasileiras enviarão ao Representante Comercial dos EUA (USTR, na sigla em inglês), suas manifestações a respeito da investigação aberta por aquele órgão a respeito de supostas práticas brasileiras que estariam prejudicando a competitividade das empresas americanas. Entre elas, o Pix e o comércio na 25 de Março, passando pelo desmatamento, o combate à corrupção e a regulação das plataformas digitais.

Uma audiência pública está marcada para 3 de setembro e o desfecho do processo preocupa: pode resultar na aplicação de mais tarifas no comércio, entre outras punições.

As redes sociais e o crime organizado - Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

O que está por trás da falta de controle dos meios digitais é saber quem paga a conta da fiscalização

O País precisou do vídeo do influenciador Felca para conhecer a realidade exibida no relatório Hiding in Plain Sigh, Instagram Violates the DSA by Serving as a Gateway for a Vast Network of Pedophiles (Escondido à vista de todos: Instagram viola o DSA ao servir como porta de entrada para uma vasta rede de pedófilos).

DSA é o Digital Services Act, a legislação da União Europeia para a internet. O relatório de 2024 é da Alliance Counter Digital Crime. A empresa que abriga tais publicações já teve tempo para tomar providências contra a exploração da pedofilia. Teria de gastar dinheiro em mecanismos de controle e para que seu algoritmo não favorecesse pedófilos ou promovesse anúncios pagos do crime organizado feitos com IA. A Meta diz não permitir e remover esse tipo de conteúdo.

O casamento chinês - Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

A China já se aproxima da fronteira tecnológica da produtividade. Resta estimular o amor

Em meio a uma corrida demográfica contra a Índia, as autoridades da China devem ter achado que está faltando amor aos casais chineses ao decidir dar um empurrãozinho para elevar a taxa de natalidade: oferecer dinheiro para os gastos com cada filho que nascer. Isso porque não bastou revogar, em 2016, a lei que limitava as famílias chinesas a um único filho – em vigor a partir do fim da década de 1970 – para evitar a queda e o envelhecimento da população.

Pecadores ou sobre tempos amaldiçoados, por Vagner Gomes*

Em memória de Ney Latorraca, que atuou na novela “Vamp” (no “colorido” ano de 1991).

Depois de ser aclamado, particularmente entre os jovens, pelos filmes “Pantera Negra” e “Pantera Negra: Wakanda para sempre”, Ryan Coogler surpreende a muitos com um filme que resgata um pouco da matriz do pensamento social norte-americano que fundamentou o movimento negro. Sugerimos uma inspiração a partir de W. E. B. Du Bois (1868 – 1963) que nos legou o livro As almas do povo negro (1903), onde as “sedimentações do passado” podem revelar o significado do que é ser negro.

Assombrações em plena recessão da economia norte-americana, estamos no Delta do Mississipi em pleno ano de 1932. A segregação racial norte-americana, que muito marcou as observações de Gilberto Freyre quando lá esteve, tinha ainda o peso de um mundo que estava há poucos meses da ascensão de Hitler ao poder na Alemanha, em 30 de janeiro de 1933¹.

O filme tem essa padronização de terror que emergia na realidade; portanto, o branco dos latifúndios de algodão contrastava com os braços negros que colhiam em troca de “moedas de mentirinha” (cada proprietário negociava a produção colhida dos meeiros com moedas de sua fazenda, o que lhes deixavam ainda mais sob a dependência). Esses eram os verdadeiros vampiros, que moldaram seus herdeiros ressentidos após os anos das conquistas dos Direitos Civis.

Oba, agora sou meu patrão! Afinal, quem precisa de direitos? - Cláudio Carraly*

Uma das operações discursivas mais bem-sucedidas das últimas décadas foi a transformação semântica da precarização do trabalho no palatável e amplo termo de "empreendedorismo". O que antes era inequivocamente reconhecido como degradação das condições mínimas de qualidade laboral ganhou uma nova roupagem linguística e um verniz midiático que não apenas mascarou a realidade, mas a tornou desejável aos mais incautos.

O chamado “rebranding” que é o ato de ressignificar a imagem de uma empresa ou produto, ou seja, uma estratégia planejada, cujo objetivo é mudar a percepção do público com relação à marca. No caso da transformação de precarização do trabalho em empreendedorismo foi profundamente exitosa, a instabilidade virou "flexibilidade". A ausência total de direitos trabalhistas se tornou "liberdade". A transferência integral do risco econômico para o trabalhador foi rebatizada como "ser dono do próprio negócio". As jornadas sem limite se transformaram em "mentalidade empreendedora". A falta de proteção social passou a ser "autonomia profissional".

O vídeo de Felca e os golpistas – Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Adeptos da 'pauta moral' correram para legislar contra abuso de crianças nas redes

Quem tem crianças na escola e acompanha grupos de mães e pais de estudantes em WhatsApp lia pelo menos desde a sexta-feira passada uma inundação de alertas a respeito de um vídeo do influenciador digital Felipe Bressanim Pereira, 27, o Felca, que denunciava explorações variadas de crianças em mídias de plataformas sociais. Publicado na quarta passada, dia 6, o vídeo tinha quase 34 milhões de visualizações até o final da tarde desta terça, 12.

Quem vive no mundo real, muito digital e formatado culturalmente pelas más influências algorítmicas e conspirações da desrazão, sabe disso tudo e muito mais. Pelo bem ou pelo mal, deputados federais resolveram tomar uma atitude ou, pelo menos, tirar uma casquinha da repercussão do que disse Felca.

Candidato danifica o presidente - Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Excesso no uso político do tarifaço pode levar população a julgar Lula sob a ótica do oportunismo eleitoral

O Brasil sob a investida hostil da maior potência mundial desvela situação de gravidade ímpar que pode ainda se aprofundar, dado o horizonte de incertezas.

Tal circunstância exigiria de lideranças responsáveis tino estratégico, senso de risco, capacidade de contornar obstáculos decorrentes do desequilíbrio de forças, sobriedade nas falas e atenção aos protocolos institucionais.

Um elenco básico de fatores, cujo observador e condutor principal em sistema presidencialista, por óbvio, deveria ser o chefe da nação.

A crença na 'ditadura de toga', arma política do Bolsonarismo - Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Narrativa contra STF organiza frustrações, reforça laços e justifica ações antidemocráticas

Conheço ao menos uma pessoa que considera um "ato de justiça" ver Alexandre de Moraes enforcado em praça pública. Quem estava ao redor, quando ela fez a declaração em alto e bom som, descontou o exagero retórico, mas concordou com a essência.

Não se trata apenas de Moraes, mas, no limite, de todo o Poder Judiciário e até do Ministério Público. Alexandre funciona, nesse enredo, como síntese e personificação —útil para fins narrativos e para organizar o ódio coletivo— da convicção de que certas pessoas e instituições existem para destruir "o nosso lado", a direita bolsonarista.

Também conheço muitos que defendem o impeachment do magistrado. Alguns apenas afirmam que, cedo ou tarde, isso ocorrerá; outros sustentam que a medida deveria ser tomada já, no auge da convulsão política. Estes últimos estão convencidos de que a entrega da cabeça de Moraes seria o único sacrifício capaz de aplacar a suposta "justa fúria" de Trump contra o Brasil.

Mulheres devem ter direito a voto? - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Secretário de Defesa dos EUA elogia vídeo de pastores conservadores que se dizem contrários ao voto feminino

Pete Hegseth, o secretário de Defesa dos EUA, parece achar que não. Ele repostou em suas redes sociais e elogiou segmento de um programa da CNN no qual pastores de uma igreja cristã conservadora afirmam que mulheres não deveriam votar.

Para esse grupo de religiosos, liderados pelo pastor Doug Wilson, o direito a voto deveria ser familiar e não individual. Ele seria exercido pelos maridos, mas eles deveriam antes discutir o assunto com suas esposas.

E é aí que se decide o futuro - Paulo Baía

A história das sociedades humanas é também a história das batalhas invisíveis por símbolos e significados; por séculos, reis, impérios e religiões compreenderam que a força mais duradoura não se exerce apenas pela espada ou pelo decreto, mas pela capacidade de impregnar o imaginário coletivo com imagens, narrativas e crenças que parecem naturais, inevitáveis e eternas. Hoje, a extrema-direita compreendeu com uma nitidez impressionante que o verdadeiro poder se consolida quando se controla não apenas o que as pessoas pensam, mas como elas sentem diante das palavras, das bandeiras, das cores e dos gestos; que um símbolo carregado de emoção pode mover mais do que uma biblioteca inteira de argumentos.

Se, como ensinou Walter Benjamin, todo ato de transmissão cultural é também um ato político, então é preciso reconhecer que a guerra do nosso tempo não se trava apenas no parlamento ou nas urnas, mas nas ruas e nas redes, nos slogans e nas canções, nas metáforas que traduzem e distorcem a realidade. A extrema-direita compreendeu que cada hashtag é uma trincheira, que cada meme é uma flecha, que cada mito fabricado pode se infiltrar como verdade indiscutível nos recantos mais íntimos da consciência coletiva; e nós, tantas vezes, ficamos aprisionados na ingenuidade de repetir, corrigir, refutar, sem perceber que, ao fazê-lo, reforçamos os mesmos marcos simbólicos que nos aprisionam.

Poesia | E então que quereis, de Vladimir Maiakovski

 

Música | Milton Nascimento - Club da Esquina 2 (Lô Borges e Márcio Borges)