domingo, 7 de julho de 2013

Assombração - Eliane Cantanhêde

Lula já se reuniu com jovens líderes ligados ao PT e desenhou uma assombração: é a "direita" que está borrando a imagem do Brasil no exterior e esborrachando a de Dilma internamente.

Não que Lula não enxergue e não critique os erros na economia, a inabilidade política da pupila e a competência do governo, mas ele precisa construir um culpado, já que ela não pode ser a culpada. Comprometeria a eternização no poder.

Ok. Os críticos são sempre "adversários", adversários são "da elite" e a elite que incomoda é "de direita". A isso a gente já está acostumado. Mas o que é, quem é e que cara tem essa tal nova "direita"?

Democracias comportam tendências de esquerda, centro e direita. Os conservadores estão ganhando ousadia, até impondo uma pauta-retrocesso no Congresso, da "cura gay" ao "Estatuto do Nascituro" e ao cheiro de CPI do aborto no ar. Nada disso, porém, está dando certo, especialmente depois dos protestos de rua. Aliás, a marcha dos evangélicos encolheu 40% em relação a 2012.

E os partidos aliados reclamam de barriga cheia, as empreiteiras estão felizes da vida com Copa e Olimpíada (e jogando um bolão com Lula), os bancos sentiram a marretada nos juros, mas vêm de anos de lucros recordes e esfregam as mãos com o recrudescimento da Selic. Mais: se há alguém feliz com Dilma, é a cúpula do agronegócio.

Que outra "direita" teria organização e discurso capazes de pôr um milhão e meio de pessoas nas ruas contra tudo e contra todos?

Só restaria a Lula carimbar de "direita" a garotada, a classe média, os idosos e os internautas que exigem transporte, educação, saúde, segurança e, sobretudo, respeito. Uma péssima ideia dele, logo quando a cúpula do PT planeja fazer o inverso: infiltrar seus militantes nos movimentos independentes.

A assombração, portanto, não mete medo em ninguém.

Fonte: Folha de S. Paulo

As questões de julho - Tereza Cruvinel

Os protestos de junho levantaram a poeira, que ainda está no ar, politizaram a sociedade e desarrumaram o jogo armado para 2014. Cobraram coisas concretas, como soluções em transporte, mais saúde, educação e segurança, e rechaçaram claramente os partidos, os eleitos e as instituições. Julho começa com duas indagações relacionadas à passagem do cometa. Primeiro, que respostas darão os governantes às questões concretas? Especialmente, a presidente Dilma Rousseff, que não foi a única atingida, mas foi quem ficou mais exposta e tem mais a perder, como candidata que é à reeleição. Fará mudanças no governo e nas políticas públicas. A outra questão é a da reforma política, que é tarefa do Congresso, e precisa ser logo desatada.

Não faltam, no barco governista, inclusive no PT, os defensores de uma reforma ministerial ampla e ousada, até mesmo com supressão de pastas, como sugeriu logo o guloso PMDB. Sobram críticas ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, e cobranças por sua substituição, que vêm até de publicações estrangeiras. No pior de seus momentos, com Lula no exterior e alguns dos que pareciam tão próximos se distanciando, a presidente já tão reservada tem procurado mais ouvir do que falar. Entretanto, aos deputados petistas que recebeu na quinta-feira, não deu o menor sinal de que pretenda mexer na equipe ministerial agora. Foi enfática ao defender Mantega, assegurando que a economia está sólida nos fundamentos gerais e que o ano terminará com a inflação dentro da meta.

A relação dívida/PIB, destacou Dilma, era de 60% quando Lula assumiu, caindo para 46% no final do governo dele, e para 35% em sua gestão. O nível de emprego, dos mais altos do mundo, não será afetado. Referiu-se aos protestos como cobrança justa, que não suprime o reconhecimento pelo que foi feito. Agora, ela pretende acelerar a implementação de políticas públicas que atendam às reivindicações. Amanhã mesmo, lançará novas medidas na área de saúde, que não detalhou.

É isso mesmo que ela ou qualquer governante precisa fazer, não para recuperar a popularidade, mas para não frustrar a crença dos jovens na força da cidadania. E é isso que vem cobrando seu provável adversário em 2014, o senador tucano Aécio Neves: medidas que respondam a problemas cotidianos, os mesmos que levaram milhares às ruas.


Mas fiquemos atentos à possibilidade de mudanças no governo, que Dilma não revelaria aos interlocutores que teve durante a semana, todos interessados em preservar seus feudos, como os caciques do PMDB, os deputados petistas e outros aliados.

Política, ideias e dinheiro

Diante das marolas em torno da reforma política, alguns dizem e outros repetem que ela não foi pedida nos protestos. Que o governo, ou melhor, a presidente é que a lançou para sair da linha de tiro, jogando a bomba no colo do Congresso. Ainda que essa intenção é que tenha produzido o gesto, sejamos honestos: os manifestantes exibiram um ou outro cartaz com a expressão “reforma política”, mas foi claro o rechaço aos partidos e aos políticos, sem distinção. Nada mais eloquente do que a tomada das cúpulas do Congresso. Este divórcio, que vem de longe e explodiu agora, configurando a chamada crise de representação, não será superado dentro do sistema que temos. A política que hoje impera enquadra os indivíduos: quem não aceita as regras do jogo, está fora. Não sobrevive. Com as exceções de sempre.

O deputado Henrique Fontana (PT-SP), que angariou o respeito de aliados e adversários com seu empenho para costurar a proposta que naufragou em abril, resume a situação: “Cada vez mais, a política é dominada pelo dinheiro e não pelas ideias. A sociedade enxerga isso e não aceita mais”.

A reforma política não vai humanizar o atendimento nos hospitais, reduzir a criminalidade ou melhorar a qualidade do ensino. As soluções para esses problemas, entretanto, são afetadas pelo sistema de governabilidade que temos. Ele impõe aos governantes concessões que levam aos males que estão aí, da corrupção à qualidade da gestão. É verdade que Dilma cometeu erros ao propô-la, como amplamente registrado, inclusive aqui. Por exemplo, ao sugerir a constituinte específica, e depois o plebiscito, sem consultas prévias ao Congresso, produziu o atrito que está visível. Vale porém reconhecer que nenhum presidente, antes dela, nem mesmo Fernando Henrique e Lula, que sempre defenderam mudanças no sistema, apresentaram qualquer proposta ao Congresso. Dilma sugeriu um plebiscito e cinco pontos para a consulta ao povo: sobre financiamento de campanha, sistema eleitoral (proporcional ou distrital, misto ou puro), suplencia de senador e voto secreto no Congresso.

O tempo é mesmo curto para um plebiscito que produzisse mudanças para 2014, mas peso maior tem a resistência dos conservadores no Congresso. Ali, é apoiado basicamente pela esquerda governista: PT, PSB, PDT e PC. E pelo PSol, de oposição. Vem ganhando adeptos nas redes sociais, mas tem opositores poderosos na mídia e nas elites. O presidente do Senado já cantou a pedra: a Câmara dará a primeira palavra e de ser contra. Mas tendo enterrado em abril o substitutivo do relator da matéria, o deputado Henrique Fontana, a Câmara está na obrigação de colocar algo no lugar da proposta de Dilma.

Na terça-feira, o senador Aécio Neves reunirá a executiva do PSDB para fecharem uma proposta de reforma política do partido. Ele defende voto distrital misto, fim das coligações proporcionais, cláusula de desempenho para os partidos e mandato de cinco anos, sem reeleição. Não há consenso em torno desses temas, mas, depois do rechaço de junho, os congressistas estarão sob o olhar mais vigilante dos eleitores. Fala-se que aprovarão, agora, apenas o “voto distritão”, proposta antiga do vice-presidente Michel Temer: cada estado compõe um distrito e são eleitos os deputados mais votados. Nada de coligação ou de eleição de deputados pelas “sobras” de votos em um partido. O que vier agora é lucro, como diz Fontana: “Se conseguirmos fazer o plebiscito e aprovar uma reforma ampla para 2014, será excelente. Se conseguirmos aprovar apenas alguns pontos, acertando a vigência de outros para 2018, será muito bom. Afinal, o assunto está empacado há 20 anos. O que não podemos é fingir que não entendemos o recado das ruas”.

Se rejeitar o plebiscito, o Congresso estará obrigado a fazer a reforma que for possível

Fonte: Correio Braziliense

Francisco lavará a alma do Brasil - Elio Gaspari


Se Deus é brasileiro, a visita do papa repetirá mensagem de fé da viagem de João Paulo 2º à Polônia, em 1979

Faltam duas semanas para a chegada do papa Francisco ao Rio. Ele mostrará ao mundo um Brasil de fé, solidariedade, alegria e paz. Será a primeira viagem de um pontífice que, em quatro meses de reinado, deu as seguintes lições:

1) Pagou a conta da casa de hóspedes que o abrigou em Roma durante o conclave. (Alô doutores Henrique Alves, Garibaldi Alves e Renan Calheiros com seus jatinhos da Viúva.)

2) Dispensou o apartamento pontifício de dez aposentos e continuou na Casa Santa Marta, onde ficam os bispos que passam por Roma. (Alô Eduardo Paes, que em 2010 queria comprar para a prefeitura o palacete dos Guinle na rua São Clemente. Os donos pediam R$ 10 milhões.)

3) Livrou-se dos paramentos do regalismo medieval de Bento 16 e dos medonhos sapatos vermelhos de seus antecessores.

4) Nomeou uma comissão de cardeais para limpar a estrutura da Cúria e faxinou o Banco do Vaticano.

5) Confessou-se um pecador. (Alô Lula.)

O papa Francisco chega ao Brasil com uma igreja livre de grandes divisões. Não vem hostilizar prelados esquerdistas e, se há na hierarquia brasileira discretos muxoxos (sobretudo por causa da faxina no Banco do Vaticano), eles serão dissimulados. Se governantes estão com medo do que significará sua visita, ainda têm tempo para ler a inutilidade do mal-estar dos comissários poloneses quando João Paulo 2º anunciou sua visita a Varsóvia.

Centenas de milhares de peregrinos hospedados em casas alheias celebrando a fé serão uma santa lição num país onde o andar de baixo sabe dividir o que tem, enquanto no de cima não querem nem pagar passagem de avião.

Durante alguns dias acreditou-se que as multidões que foram às ruas nas últimas semanas prenunciavam apenas badernas. Viu-se, contudo, que o povo como perigo é apenas uma velha fantasia. Francisco mostrará o tamanho da fraternidade nacional, sem caviar no camarote das autoridades.

Nos últimos dias autoridades federais, estaduais e municipais que torraram bilhões de reais na construção de estádios informaram que não têm dinheiro para cobrir um buraco de R$ 90 milhões para custear despesas da Jornada Mundial da Juventude. Gastaram R$ 1,2 bilhão no Coliseu do Rio. A viagem da doutora Dilma a Roma para a coroação de Francisco custou perto de meio milhão. Pode-se estimar que o governo federal torre perto de R$ 1 milhão por mês só na JetFAB. De Brasília, saiu o temor de que Francisco seja hostilizado por manifestações de evangélicos. É difícil, pois não há entre os evangélicos o sectarismo dos comissários.

Dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro, é um homem de boa paz. Se tivesse na alma a lâmina sertaneja de dom Eugenio Sales, mandaria um recado a Brasília, ao governador Sérgio Cabral e ao prefeito Eduardo Paes: "Coletarei a ajuda do povo na esquina da avenida Rio Branco com rua do Ouvidor." (Bastou uma palavra de dom Eugenio a Fernando Henrique Cardoso para que fossem retirados soldados armados das calçadas por onde passava João Paulo 2º.)

Os dias do papa no Brasil serão jornadas de distensão, beleza e fraternidade, sem comércio ou patrocínios. Acima de tudo, serão grátis. Cobrarão apenas fé para aqueles que a têm.

Plebiscito

Para os sábios que pretendem fazer uma reforma política plebiscitária, o repórter Mauricio Puls fez a seguinte conta:

Em 1993 realizou-se um plebiscito para que o eleitorado escolhesse entre Monarquia e República, com a alternativa parlamentarista. Só isso, coisa simples.

Votaram na República 43,9 milhões de eleitores. Deles, 36,7 milhões preferiram o regime presidencialista.

Sobraram 7,2 milhões de votos. Pela lógica, esses votos teriam ido para o parlamentarismo.

Não fecha. O parlamentarismo teve 16,4 milhões de votos. Admita-se que uma parte deles sufragava a sua modalidade monárquica. Não fecha, de novo, porque a Monarquia teve 6,8 milhões de votos.

Sobraram 2,4 milhões de votos que não fazem sentido. Talvez fossem pessoas que quisessem um parlamentarismo sem República nem Monarquia, ou Monarquia sem parlamentarismo.

A doutora Dilma sugere um plebiscito bem mais complexo. Talvez ela saiba como fazê-lo.

Por trás

Atribui-se a Lula a seguinte frase durante as manifestações de junho:

"Vamos esperar para ver o que está por trás disso."

Em abril de 1978, quando surgiu um estranho presidente no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, uma análise de sábios do Serviço Nacional de Informações dizia que a "estratégia sindical" buscava "forjar líderes regionais, alguns de influência nacional, através da propaganda maciça, como é o caso de Luiz Inácio da Silva (Lula), que foi projetado do obscurantismo para o "vedetismo" jornalístico, tantas foram as publicações e entrevistas envolvendo o seu nome".

A marquetagem dos médicos estrangeiros

Há na proposta de importação de médicos estrangeiros um exemplo da opção preferencial do governo pela empulhação, propondo coisas novas enquanto não cuida das bobagens velhas da máquina burocrática.

A doutora Dilma anunciou que pretende trazer "de imediato milhares de médicos estrangeiros" para trabalhar em regiões carentes do país.

Isso seria feito facilitando os exames dos candidatos e alocando-os por prazos fixos em determinados municípios. Vá lá.

Veja-se a legislação imposta ao médico formado no exterior que pretende trabalhar no Brasil. Num exemplo hipotético, Alexandre Mercadante formou-se em medicina na Universidade Harvard (a melhor dos Estados Unidos), trabalha no serviço de cardiologia da Cleveland Clinic (um dos melhores do mundo). A certa altura decidiu voltar para Pindorama. Não quer favor algum, quer apenas trabalhar na sua terra.

Todas as universidades exigem que apresentem seus diplomas e créditos. Nada mais natural, porém diversas universidades federais somam outra exigência: a prova de residência no Brasil. Se outro médico quiser vir pelo programa Revalida, concebido pelo governo federal, essa exigência é geral.

Entre a hora em que o doutor Alexandre Mercadante deixou seu emprego em Cleveland e aquela em que obterá a revalidação do seu diploma podem passar seis meses ou até mesmo um ano. Pergunta: nesse período ele viverá de quê? (Se o médico for estrangeiro, a situação piora. Terá que ralar a concessão do domicílio permanente.)

Não é nem o caso de dizer que o governo da doutora Dilma dificulta a vinda de médicos estrangeiros. As máquinas das universidades e do governo federal dificultam até mesmo a vinda de brasileiros. Fazem isso por pura onipotência burocrática. Ganha uma residência hospitalar em Havana quem souber explicar por que o médico precisa provar que mora no Brasil para dar entrada nos seus papéis.

Fonte: O Globo

À margem das vanguardas - Ferreira Gullar

A linguagem de formas suntuosas de Grassmann está impregnada de certa malignidade e requinte

A morte de Marcelo Grassmann, ocorrida no dia 21 de junho, significa uma enorme perda para a arte brasileira, já que ele foi, além de gravador e desenhista de extraordinária qualidade, uma personalidade original, criador de um mundo imaginário único e fascinante.

Grassmann começou como aprendiz de metalúrgico, para depois matricular-se na Escola de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, onde aprendeu a técnica da gravura em metal.

Logo em seguida, isto é, no começo da década de 1950, a arte brasileira sofre uma mudança radical com o surgimento da arte concreta, de linguagem geométrica e construtiva. Esse fato determinou uma ruptura drástica com a tradição modernista brasileira, surgida nos anos 20 e caracterizadamente figurativa e de temática nacional, ainda viva, àquela época, na pintura de Lasar Segall, Di Cavalcanti e Portinari.

A partir de então, a nova geração de artistas plásticos abandonou a arte figurativa e voltou-se para um tipo de expressão essencialmente geométrica, construtiva e objetiva.

Era, portanto, um tipo de expressão no extremo oposto à gravura de Marcelo Grassmann, àquela altura um jovem de 20 e poucos anos.

A nova tendência tomou conta do ambiente artístico, mas, apesar disso, o jovem gravador não se afastou um milímetro da opção artística que fizera: enquanto os demais pintavam formas geométricas, ele desenhava e gravava cavaleiros medievais, munidos de armadura, lança e capacete.

Eu que, àquela época, era também um jovem e interessado nas artes plásticas, não cansava de admirar a firmeza de Grassmann, que mergulhava num universo arcaico, demoníaco, figurativo, tido então como um anacronismo estético e ideológico, mas, apesar disso, fascinante.

Conheci Marcelo Grassmann em 1952, no apartamento de Mário Pedrosa, o principal defensor do movimento concretista, mas que tinha sensibilidade e amplitude intelectual suficientes para reconhecer o valor de manifestações diversas daquela, como a arte do jovem gravador paulista. Magrinho, alto, com o queixo levemente torto, sorria irônico das ideias da vanguarda. Mário não discutia com ele, mas simplesmente elogiava a qualidade e expressividade de suas gravuras. Embora, por seu físico, distante da prática esportiva, teve, na época, como namorada, uma moça musculosa que praticava boxe.

Os anos se passaram, aliás, décadas. A arte concreta esgotou sua proposta, em seu lugar nasceu a arte neoconcreta, audaciosa e inventiva, com os "Bichos" de Lygia Clark, as esculturas de Weissmann e Amílcar de Castro. Mas, logo, no lugar dela, surgiu a pop arte e, depois, a chamada arte contemporânea, que dispensa linguagem e critérios estéticos.

Tudo isso aconteceu sem abalar em nada a persistência de Grassmann na exploração de seu mundo imaginário, habitado por seres estranhos e satânicos, que mais parecem delírios que coisas reais.

Dizem que sua arte tem raízes no gótico, talvez por evocar o mundo noturno das gárgulas e das harpias. Na verdade, sua linguagem de formas suntuosas e estranhas está impregnada de certa malignidade e requinte, como se observa naquela gravura em que dois guerreiros medievais parecem arrastar para as profundezas da noite uma figura angelical de adolescente, enquanto seus capacetes metálicos relampejam como joias malditas.

Semelhante contraste parece constituir a matéria poética de sua arte perturbadora. Mas a essência dela não se limita a essa temática visionária; reside, de fato, na qualidade gráfica, que identifica linguagem e tema: é que aqueles seres estranhos, sejam demônios ou bestas satânicas, nascem dessa linguagem, do emaranhado de traços, das manchas negras, dos lampejos inusitados, que constituem seu universo imaginário. E é essa expressividade estética e visionária que torna sua arte surpreendentemente atual, enquanto muita obra daquelas vanguardas já não nos diz nada.

De certo modo, fazer arte é soprar espírito na matéria. Se isso é verdade, Marcelo Grassmann, em seus melhores momentos --ou quase sempre--, alcança esse nível de transmutação. Ali, cada linha, cada zona de luz ou treva, vira expressão, que assimilamos integralmente. É que a obra-prima não deixa resto.

Fonte: Ilustrada / Folha de S. Paulo

J. S. Bach - Ivan Alves Filho

A pequena cidade de Eisenach teve um papel singular no desenvolvimento da civilização ocidental moderna. Nas suas cercanias, mais exatamente no Castelo de Wartburg, Martin Lutero traduziu a Bíblia Sagrada para a língua alemã, tornando praticamente irreversível a Reforma protestante. E os partidários de Marx e Engels fundaram ali, em 1869, o Partido Social Democrata da Alemanha. Mais: na acanhada cidadezinha cercada de encantadoras florestas, nasceu Johann Sebastian Bach, para muitos o maior nome da música em todos os tempos. Ninguém ou nada vem ao mundo em Eisenach impunemente, pelo visto.

Bach, um fervoroso protestante, justamente, era originário de uma família de músicos. Religião e Arte faziam parte do seu corpo, como sangue e ossos. Seu trisavô, Veit Bach, teria sido obrigado a deixar a Hungria por professar a fé luterana. Daí a família ter se estabelecido na Silésia, na parte oriental da Alemanha. Seu bisavô já era músico profissional e Bach aprenderia violino com o próprio pai. Órfão muito cedo, prosseguiria seus estudos com o irmão mais velho. Com apenas 14 anos de idade, em 1699, já era contratado como violinista e organista pela corte de Weimar,que começava a se projetar como uma espécie de Atenas da Alemanha - homens como Goethe e Schiller e, mais tarde, Nietzsche fincariam os pés por lá.
Sebastian Bach teria composto na passagem do século XVII para o seguinte as suas primeiras cantatas. E, sobretudo, o músico já impressionava pelo seu virtuosismo. A darmos crédito a um depoimento, ao tocar órgão, Bach "corria sobre os pedais como se seus pés tivessem asas, fazendo o instrumento ressoar de tal maneira que quase se diria ouvir uma tempestade".

Sua saída de Weimar fora um tanto quanto tumultuada. O Duque de Weimar chegou a mandar prendê-lo, porque Bach insistia em deixar a cidade em busca de melhores condições de trabalho. Obstinado, o músico não cedeu às pressões do Duque e ainda concebeu, na prisão, o Pequeno livro de órgão. Conforme escreveu seu biógrafo Karl Geiringer, "o desafio determinado de Sebastian Bach aos desejos de seu patrono constitui um importante marco, embora ainda isolado, na luta dos artistas pela liberdade social". Resultado: o músico foi solto. Que jeito?

De Weimar - onde permanecera por nove anos, mas não lograra tornar-se mestre-de-capela - o jovem músico ganha Cötten, a convite do príncipe Leopoldo. Bach passa a se dedicar, então, à música instrumental, deixando praticamente de lado a música sacra. É a fase das Suítes francesas para cravo e dos magníficos Concertos de Brandenburgo. O espaço profissional dos músicos se alternava então entre a igreja e a nobreza. Para a sorte de Bach, o príncipe "não só amava como conhecia música", executando vários instrumentos de corda, além de possuir uma bela voz de barítono.

Após muito perambular pela Alemanha, Bach vai para Leipzig, onde residiria por quase três décadas. Mas nem sempre encontrou ali boas condições para atuar. A organização musical de Leipzig dependia do chamado Conselho da Cidade, que chegou a emitir um parecer, em 1730, no qual se podia ler que Sebastian Bach "mostrava pouca inclinação para trabalhar".

Toda vez que ouço algo de Johann Sebastian Bach - para além do prazer incontido que isto provoca em mim -, firmo a convicção de que sua música - de tão tensa, retorcida, obcecada até - não cabe completamente nos limites das notas musicais. Na verdade, Bach nos remete a um som que extrapola ou atropela tudo que conhecemos em matéria de escala ou métrica. Talvez resida aí a principal característica do estilo barroco - o estilo por excelência de Sebastian Bach -, o qual ocupa todos os espaços possíveis da superfície musical. Seja como for, acontece com a arte de Bach aquilo que também ocorre com certas representações pictóricas - que, de tão plenas, deixam a sensação de que dispensam a camisa de força das molduras e telas, propondo um espaço cênico infinito. Podemos dar a isso o nome de liberdade artística - ou criação sem limites.

Cantatas - e penso em Magnificat e na Cantata dos camponeses. Motetos - e me recordo de Jesus, minha alegria. Obras corais - e não tenho como deixar de lembrar a Paixão segundo são Mateus. Fugas - e não há como deixar de rememorar a impressionante A arte da fuga. Tocatas - e não se pode esquecer o comentário de Mendelsohn diante da Tocata e fuga em fá maior, "que soava como se fizesse a igreja desmoronar". Além de missas, sonatas, variações, suítes e incontáveis prelúdios. Pois Johann Sebastian Bach abordou praticamente todos os gêneros musicais de seu tempo. No fundo, o compositor agia sob forma de música, independentemente do gênero que abraçava.

Contudo, acredito que o Bach concertista tenha sido o que deixou marcas mais profundas na história da música ocidental. Um exemplo apenas (ou melhor: seis...) corrobora o que digo: os monumentais Concertos de Brandenburgo. Os Concertos têm por base os instrumentos de sopro. Orquestrados, os Concertos são muitas vezes tensos e conflitantes entre eles. Sua audição gera nas pessoas a nítida impressão de que as notas musicais ecoam livres como pássaros no céu. Ou que elas murmuram em nossos ouvidos como água pura escorrendo por entre os seixos dos rios. Ouvindo Bach, temos a certeza algo estranha de que um anjo desceu à Terra para nos salvar.

São seis concertos, eu lembrava mais acima - ou um verdadeiro festival de contrapontos e espantosa energia sonora. Ao mesmo tempo erudito e popular. Técnico e emotivo. Alegre e triste. Suave e enérgico. Cândido e explosivo. Alternando período longo e período curto. E - nunca é demais lembrar - contrapontísico ao extremo. Unificando tudo. Sonoridades italianas, alemãs, francesas, inglesas. Bach fazia uma música de um tempo de contrastes, de Reforma e Contra-Reforma, e, por isso, mesmo contraditória, rica. E bela, muito bela. Ultrapassando por isso mesmo seu tempo.

A ousadia da linguagem harmônica, a extraordinária capacidade de criação e, mesmo, a espiritualidade sempre à flor da pele fizeram de Johann Sebastien Bach o maior compositor da história da música ocidental. Em suas principais obras, dos Concertos de Brandebourg à Arte da Fuga, passando por uma quantidade imensa de belíssimas cantatas, oratórios e músicas de câmara, Bach combinava o recurso aos contrapontos no stilo antico com as formas orquestrais mais modernas de sua época, conforme salientou certa vez Helmut Rilling, maestro e organizador de suas obras completas. Contrapontos esses que lembram estranhamente o jazz e seu estilo sincopado. Talvez resida nessa relativa atemporalidade uma boa parte do fascínio que Bach exerce ainda hoje (e cada vez mais) sobre nós.

Sebastian Bach consolidou toda uma cultura musical, sem deixar de ser ainda um inovador. Mas esteve longe de ser considerado, na sua época, um artista de vanguarda (conforme entendemos hoje este termo). Pelo contrário. Era visto até como um compositor algo antiquado. O fato é que nem sempre entendemos, no tempo presente, que o passado possa estar à nossa frente. Ser o nosso futuro. Foi o que o gênio de Sebastian Bach nos provou.

Ivan Alves Filho, historiador e jornailista

Dança da solidão - Marisa Monte

Últimos instantes – Graziela Melo

Vivendo
os últimos
momentos
que me restam

no formoso
cenário
desta vida

cada instante
vivido
me desperta

a amarga
sensação
da despedida!!!

Recordo
com carinho
dos amigos

que me amaram
e perdoaram
ao mesmo
tempo...

Relembro
os papos
amistosos
ao ar livre

ao sabor
da chuva
ao soprar
do vento....

De tudo,
me entristece
a saudade
que sentirei
no futuro,
certamente,

nos prováveis
dias cinzentos...

É que
esqueço
de um detalhe:

mortos,
são imunes
aos sentimentos!!!

sábado, 6 de julho de 2013

OPINIÃO DO DIA – Aécio Neves: desvio do fracasso

Venho falando isso desde o primeiro dia. O que eles querem é desviar a atenção do fracasso do governo, botando Lula na TV em campanha pela agenda do PT. Mais grave do que não reconhecer seus erros, é aproveitar a crise para tentar mudar as regras para perpetuar o PT no poder. Mas vão receber o troco logo, logo, quando o povo perceber esse golpe.

Aécio Neves, senador (MG) e presidente nacional do PSDB, in Oposição vê manobra para Lula voltar à TV, O Globo, 5/7/2013.

Manchetes de hoje nos jornais

O GLOBO
TCU usa verba da fiscalização para pagar auxílio a ministros
Inflação deve começar a cair em julho
Renan recua e vai devolver R$ 32 mil
Caso Varig-Transbrasil: STF nega recurso para fundo Aerus

FOLHA DE S. PAULO
Governo decide divulgardados de aviões da FAB
Venezuela e Nicarágua oferecem asilo a Snowden
Repressão no Egito aumenta e pelo menos 30 são mortos
Após atos, queda de tarifas beneficia 27,5% da população
Líderes do PT pedem a Dilma mudanças no ministério
Papa Francisco apresenta sua 1ª encíclica, escrita com Bento 16

O ESTADO DE S. PAULO
Dilma busca apoio fora do Congresso para plebiscito
Alckmin diz que empresa ligada à Delta pode ser vetada
Governo exige bônus da Petrobrás e ação despenca
Inflação desacelera
Repasse para ônibus de SP superou inflação

ESTADO DE MINAS
O plebiscito que nós queremos
Renan recua e vai ressarcir cofres públicos
Ônibus fica R$ 0,15 mais barato em BH

O TEMPO (MG)
Passagem de ônibus pode cair mais R$ 0,10 em BH
Entidades entregam a Dilma carta com 10 reivindicações
Banco Central não consegue segurar dólar, e fecha em R$ 2,26
Dilma busca apoio fora do Congresso para plebiscito
Relação com a base desafinou

CORREIO BRAZILIENSE
Ideli Salvatti perde espaço

GAZETA DO POVO (PR)
Um em cada dez curitibanos ainda vive em áreas irregulares
Confrontos e mortes no Egito
Futebol e política em tempo de manifestações
Governo anuncia corte de R$ 15 bi e admite mais aperto
MP vai investigar voo do presidente da Câmara pela FAB

ZERO HORA (RS)
Uso de avião da FAB deve ter controle mais rígido
Pedro Simon anuncia sua aposentadoria

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
Greve ainda longe do fim
Apoio para Dilma

O que pensa a mídia - editoriais dos jornais de hoje

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Dilma busca apoio fora do Congresso para plebiscito

A presidente Dilma Rousseff reuniu 22 deputados do PT no Planalto e pediu apoio para garantir a governabilidade. “Não pensem que estou acuada”, disse, em reunião com a coordenação da bancada do partido na Câmara. “Vou para cima e vou disputar o nosso legado.” Dilma, que insiste na realização de um plebiscito para a reforma política, decidiu buscar ajuda fora do Congresso. Ontem, integrantes do Movimento dos Sem Terra disseram a ela que vão levantar a bandeira do “Plebiscito Já” no Dia Nacional de Luta com Greves e Mobilizações. PT, CUT, Força Sindical e outras quatro entidades também prometem assumir a frente do movimento

Dilma diz ao PT não estar acuada e pede ajuda fora do Congresso para plebiscito

Vera Rosa, Tânia Montoro, Ricardo Della Colleta e Rafael Moraes Moura

A presidente Dilma Rousseff reuniu ontem 22 deputados do PT e pediu apoio para garantir a governabilidade. "Não pensem que eu estou acuada",disse em reunião de duas horas com a coordenação da bancada do PT na Câmara, realizada no Palácio do Planalto. "Vou para cima e vou disputar o nosso legado."

Dilma, que insiste na realização de um plebiscito para que a população possa opinar sobre a reforma política, decidiu buscar ajuda fora do Congresso. Na noite de ontem, por exemplo, integrantes do Movimento dos Sem Terra (MST) disseram a ela que vão levantar a bandeira do "plebiscito Já" para a reforma política no "Dia Nacional de Luta com Greves e Mobilizações", programado para a próxima quinta-feira, em todo o País.

O PT, a CUT, a Força Sindical e outras quatro entidades dos trabalhadores também pretendem ocupar as ruas das principais capitais pedindo o plebiscito. E no Planalto já se estuda a possibilidade de o governo apoiar atese de entidades como a OAB e o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral de um projeto de lei de iniciativa popular para a reforma política.

Embora o governo esteja ciente dos obstáculos para fazer o plebiscito em tempo hábil e efetivar mudanças sugeridas já nas eleições de 2014, a ordem é ainda manter esse discurso.

A estratégia do Palácio do Planalto consiste em jogar ao Congresso a responsabilidade por qualquer fiasco no capítulo das mudanças do sistema político. Em duas reuniões ontem, a primeira com deputados do PT e a segunda com representantes de movimentos do campo, como o MST, Dilma adotou o discurso de que é importante o "plebiscito já" por não querer que a consulta coincida com as eleições de 2014.

Bola com o Congresso. "Eu estou fazendo a minha parte e agora a bola está com o Congresso", afirmou a presidente, de acordo com participantes das reuniões. Foi por esse motivo que Dilma ficou irritada com. o vice-presidente, Michel Temer, e também com líderes do PT e do PMDB que, na quinta-feira, disseram com todas as letras ser inviável aprovar mudanças no sistema político para 2014.

Depois da bronca de Dilma, Temer e dirigentes do PT recuaram no discurso, mas integrantes da própria base aliada consideram que se trata de "jogo de cena". Durante o dia de ontem, as idas e vindas continuaram.

O líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), afirmou que o Planalto vai trabalhar "para ver se dá tempo" de realizar plebiscito cujas sugestões possam ter impacto na disputa de 2014. Para entrar em vigor em 2014, uma reforma política teria de ser votada até 5 outubro, um ano antes do pleito.

"Há quem analise que o fato de o Tribunal Superior Eleitoral ter definido o prazo de 70 dias para organizar o plebiscito praticamente tira as chances de as mudanças valerem para 2014. Mas, para o governo, "praticamente" não é "totalmente"7, afirmou Chinaglia. "Digo e repito: não dá tempo de fazer isso agora. Tenho a coragem de dizer a verdade", afirmou o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP).

Começa na Câmara. Diante dos problemas para a convocação do plebiscito, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), avisou a presidente Dilma de que o projeto sobre o assunto só tramitará naquela Casa se for aprovado primeiro pela Câmara. O debate a respeito da tramitação cresceu depois de resistências enfrentadas pelo governo para aprovar a proposta na Câmara, onde o PMDB rejeita a tese do plebiscito. "Tramitar primeiro no Senado seria inverter a lógica do processo legislativo", insistiu Renan.

Para o plebiscito virar realidade, preciso que 1/3 dos deputados (171) aprove decreto legislativo para a realização da consulta. Como a base do governo está totalmente fragmentada e sem coesão, a presidente não consegue apoio à ideia por ora.

No encontro com o PT, Dilma prometeu dar uma "chacoalhada" no governo, recompor o diálogo com a base, ouvir mais e enfrentar as pressões políticas tanto por parte da oposição quanto de aliados como PMDB, que têm feito ácidas críticas à sua gestão, "Vamos afinar a viola", resumiu o líder do PT na Câmara, José Guimarães (CE).

Dilma ouviu mais críticas sobre a articulação política do governo e concordou com as queixas dos parlamentares, feitas diante da ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti (PT). De acordo com petistas, ninguém teve coragem de fazer perguntas sobre eventual reforma ministerial.
Prognósticos

"O fato de o TSE ter definido 70 dias (para fazer o plebiscito) praticamente tira as chances (de mudanças para 2014). Praticamente não é totalmente. Vamos ver se dá tempo" - Arlindo Chinaglia, Líder do governo na Câmara (PT-SP)

"Tramita primeiro no Senado inverte a lógica do processo legislativo" - Renan Calheiros, Presidente do Senado (PMDB-AL)

"Não dá tempo de fazer. Tenho coragem de dizer" - Cândido Vaccarezza, Deputado Federal (PT-SP)

FHC diz que queria ter feito mais reformas

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) afirmou ontem se arrepender de não ter feito reformas que entrassem em vigor no médio prazo, entre elas, a reforma política. "Me arrependo hoje de não ter feito reformas para valerem em cinco anos, é mais fácil de aceitar. Não sei se essa pressa vai facilitar ou dificultar a reforma política. O fato de não dar tempo para 2014 (para vigorar nas próximas eleições) não deve ser impedimento de o Congresso discutir a sério", afirmou o tucano, que participou de reunião do Instituto Teotônio Vilela com a presença do senador Aécio Neves (MG), e de antigos colaboradores do governo tucano.

FHC alertou que um plebiscito não pode servir para manipular eleitores e que é preciso tempo para esclarecer o que será discutido.

(Luciana Nunes Leal)

Fonte: O Estado de S. Paulo

Dilma: plebiscito agora depende do Congresso

Presidente diz a petistas que já fez a sua parte e pede ajuda do partido para recompor base aliada

Fernanda Krakovics, Catarina Alencastro

Apoio discreto. Dilma se reuniu com o PT e com movimentos do campo: o partido considerou plebiscito secundário

BRASÍLIA - Apesar de o tema ter sido secundário na reunião de ontem no Palácio do Planalto com integrantes da bancada petista na Câmara, a presidente Dilma Rousseff insistiu na realização do plebiscito sobre reforma política já para as eleições de 2014. Dilma afirmou que o governo fez a sua parte e que o assunto agora está com o Congresso. Em uma conversa franca com a presidente, os petistas queixaram-se, por mais de duas horas, da articulação política e da comunicação do governo. Enfrentando a maior crise desde que chegou ao Palácio do Planalto, com sua popularidade em queda e manifestações pelas ruas do país, Dilma teria reconhecido falhas em sua administração e prometido melhorar a relação com a base aliada, que está rebelada. Sobre o plebiscito, passou a decisão para o Parlamento.

- Mandei o que achava que precisava mandar, é a opinião política do governo. Agora, o Congresso decide. É importante fazer para 2014 - disse Dilma, de acordo com deputados presentes ouvidos pelo GLOBO.

Embora a bancada do partido na Câmara esteja dividida e não haja apoio suficiente no Congresso para a aprovação de um plebiscito neste ano com efeito para as eleições do ano que vem, o presidente do PT, Rui Falcão, que participou do encontro, fez nova defesa da proposta. Mas não era o assunto que mais interessava à bancada de deputados, que há meses reclama da falta de atenção da presidente.

- Esse assunto (plebiscito) foi secundário. Ela (Dilma) conhece a posição da bancada, que não dá para fazer (para 2014). O Rui fala que dá para agradar a ela - contou um deputado.

Na saída do Planalto, coube ao líder do PT na Câmara, José Guimarães (CE), fazer um relato da reunião. Disse que a relação do governo com sua base aliada, especialmente com o PMDB, "desafinou" e que a presidente pediu ajuda do PT para tentar "reafinar":

- A presidente pediu apoio do PT na recomposição da base, no diálogo com os partidos, especialmente com o PMDB. O PMDB integra a nossa aliança com os demais partidos e é fundamental a gente afinar a viola. Nós vamos trabalhar para rearticular a base, pacificar a base. A viola desafinou um pouco. E qualquer viola desafinada tem que ser afinada.
Entre os problemas de comunicação apontados pelos petistas está o debate sobre a volta da inflação, explorado pelo pré-candidato do PSDB à Presidência da República, senador Aécio Neves (MG), na televisão. Dilma teria reconhecido que precisa melhorar a comunicação do governo, dedicar-se mais à política e citou o esforço de recomposição da base, citando o PDT, o PTB e o PR, que foram reacomodados em ministérios e em cargos de segundo escalão.

Elogios a Temer

Quanto às turbulências com o PMDB, ressaltadas pelos deputados, Dilma fez uma ressalva em relação ao vice-presidente Michel Temer. Afirmou que Temer tem sido "muito solidário" e que joga junto com o governo. Os petistas pontuaram, no entanto, que ele teria perdido o controle do PMDB.

Diante da preocupação da bancada com os rumos do governo e com a ameaça ao projeto de reeleição, Dilma defendeu sua administração e afirmou que o governo não está em crise:

- Tenho convicção de que temos um patrimônio importante a apresentar ao país. Este não é um governo que está em crise, mas parcela da população que teve acesso à renda quer mais. É preciso melhorar a comunicação com essas pessoas e melhorar a execução dos programas - afirmou a presidente, segundo relatos.

Dentro da agenda de dialogar com todos os setores da sociedade, Dilma dedicou cerca de duas horas ontem aos movimentos do campo, quando ouviu declaração de apoio ao plebiscito da reforma política. Segundo Alexandre Conceição, do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), as organizações do campo participarão das manifestações do próximo dia 11 de julho e defenderão a ideia.

- O recado das organizações do campo foi que nós vamos para as ruas dia 11, para poder fazer paralisação nacional, para rediscutir este país e, sobretudo, para defender o plebiscito. Já que o Congresso e a grande mídia não querem o plebiscito, o povo que foi para a rua está reivindicando mudanças, e a grande mudança passa por um plebiscito popular. Mas que as questões não sejam só de cunho eleitoral, sejam também sobre participação popular. Não nos sentimos mais representados por este Congresso financiado pelo grande capital - disse Conceição. ( Colaborou Luiza Damé)

Fonte: O Globo

Em reunião, PT pede a Dilma mudanças no núcleo do governo

Encontro com líderes petistas no Planalto é marcado por críticas à articulação política e à condução da economia

Ao ouvir queixas de aliados, presidente cobrou 'unidade e coesão' de sua base de apoio no Congresso

Catia Seabra, Breno Costa

BRASÍLIA - Líderes do PT na Câmara cobraram ontem, durante reunião no Palácio do Planalto com a presidente Dilma Rousseff, mudanças no governo.

Na audiência, que durou mais de duas horas, porta-vozes da bancada atacaram, diante das ministras Ideli Salvatti (Relações Institucionais) e Gleisi Hoffmann (Casa Civil), a articulação, a comunicação e a política econômica.

Segundo participantes, dos três pontos, Dilma defendeu a política econômica, afirmando ser um erro tomar taxas do ano passado como indicativo de tendência de alta inflacionária e afirmando que os fundamentos da política econômica "serão preservados".

De acordo com os relatos, ela defendeu a realização do plebiscito para a reforma política e ressaltou a importância da consulta popular nesse contexto político. Disse que é um instrumento de democracia num momento em que o povo vai às ruas.

Dilma, afirmaram participantes, usou a primeira pessoa do plural ("nós") para reconhecer que todos os ministérios falharam na comunicação em relação às cobranças feitas nas manifestações.

O ministro Aloizio Mercadante (Educação) fez uma pequena intervenção. Ideli e Gleisi ouviram caladas a avaliação da articulação política. Entre os críticos estavam os deputados André Vargas (PR) e Ricardo Berzoini (SP).

Dilma falou por cerca de 30 minutos, dedicando boa parte a dissecar os protestos. Segundo participantes, admitiu que o governo não soube identificar os novos desejos do brasileiro e argumentou que, não fosse o governo petista, as reivindicações ainda seriam por emprego e salário.

"O povo quanto mais tem mais quer", justificou Dilma, segundo participantes.

Ainda segundo esses relatos, Dilma pediu que os petistas evitassem a aprovação de medidas que representem alta nos gastos e recomendou que não se precipitassem na crítica à política econômica. Apelou ainda por "unidade e coesão" na base governista.

O líder do PT na Câmara, José Guimarães (CE), afirmou que a recomposição da base, especialmente com o PMDB, foi a pauta principal. "Vamos trabalhar para rearticular a base, pacificar a base", disse.

"A base não está quebrada. A viola desafinou um pouco. E qualquer viola desafinada tem que ser afinada. E o PT pode ajudar a afinar e já está afinando".

Guimarães saiu da reunião desenhando um céu de brigadeiro em relação ao humor e às expectativas da presidente. Segundo ele, a bancada levantou-se espontaneamente e aplaudiu a presidente de pé. "Ela está num astral ótimo."

Após a reunião, Guimarães, o presidente do PT, Rui Falcão, Mercadante e o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) foram convidados a almoçar com Dilma.

Fonte: Folha de S. Paulo

Ideli Salvatti perde espaço

No rastro da turbulência provocada pelos protestos, a chefe da Secretaria de Relações Institucionais foi parar na geladeira, o que realça a falta de articulação do governo

Falta de negociação deixa Ideli na berlinda

Ministra de Relações Institucionais tem sido preterida por colegas no momento em que Planalto tenta viabilizar a reforma política via plebiscito

Juliana Braga

A reação do governo à onda de protestos que tomou as ruas nas últimas semanas evidenciou os problemas de articulação com o Congresso Nacional que se arrastam desde o início da gestão da presidente Dilma Rousseff. Em reunião ontem com deputados petistas (leia mais na página 3), Dilma utilizou diversas vezes a palavra “chacoalhar” para ressaltar a necessidade de dar novo rumo ao governo, e ressaltou a importância de reavivar o diálogo com deputados e senadores. A crise coloca na berlinda a ministra da Secretaria de Relações Institucionais (SRI), Ideli Salvatti. Recordista de tempo na função — na próxima semana, completa dois anos no cargo —, a situação de Ideli está cada vez mais insustentável no Planalto. Em diversas situações, ela tem sido substituída, de maneira explícita, por outros ministros da Esplanada.

Agora, que a permanência na SRI é questionada até por correligionários, Ideli não tem conseguido esconder o nervosismo. Pessoas próximas afirmam que, nos últimos dias, com frequência, a ministra embarga a voz quando fala sobre os problemas do governo e, principalmente, sobre a desunião dentro do PT. Relatam também que existe uma irritação com Aloizio Mercadante, ministro da Educação, não apenas pelo fato de ele estar exercendo a função que caberia a ela mas também pelo gênio do colega, descrito como “difícil”.

No Congresso, parlamentares reforçam a cada dia o descontentamento com a falta de articulação com o governo. Na tentativa de contornar as insatisfações, Dilma tem promovido reuniões com a base e também destacou ministros para estreitar as relações com o parlamento — função que deveria ser exercida por Ideli. Além de Mercadante, Fernando Pimentel (Indústria, Desenvolvimento e Comércio Exterior) e José Eduardo Cardozo (Justiça) têm protagonizado as conversas com deputados e senadores.

O trio de ministros tenta tirar o atraso de dois anos e meio de falta de diálogo do Planalto para conduzir a saída da crise proposta pela presidente — a realização de um plebiscito para a reforma política. O cerne da questão é que Dilma nunca dependeu tanto do Congresso, pois só poderá dar prosseguimento à ideia de consulta popular caso o parlamento aprove a iniciativa. Cabe à tropa de choque ministerial se aproximar dos congressistas sem aumentar o desgaste de Dilma perante o Legislativo. Mercadante, porém, encontra ampla rejeição entre os parlamentares. “Ele até pode ter eficiência administrativa, mas tem uma arrogância desproporcional no tratamento com as pessoas”, reclama um cacique da base governista. “O que a Dilma precisa é de alguém ‘macio’”, complementa um dos ministros da Esplanada.

Quem também tem trabalhado na articulação é o vice-presidente da República, Michel Temer. Mas a atuação do peemedebista está desgastada, especialmente depois de ele ter causado constrangimentos ao Planalto na quinta-feira, quando anunciou que seria inviável realizar o plebiscito no prazo desejado por Dilma e, cinco horas depois, recuou.

Interesses

Muitos parlamentares ressaltam que não adianta trocar o interlocutor se não houver mudança na política de articulação imposta pela presidente. “O problema é de modelo. O critério de interlocução não passa por identidade, por projetos, e sim por interesses específicos”, afirma o senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES).

O entendimento de integrantes do próprio governo é de que o estilo de administração de Dilma afasta os aliados dela. Ao longo dos últimos anos, a presidente acabou isolada, e agora não tem nomes para indicar ao posto de intermediador dos conflitos com o Congresso. O entendimento é o de que, depois da saída de Antonio Palocci da Casa Civil, a coordenação política do governo nunca mais foi benfeita, e os parlamentares se sentiram abandonados.

De acordo com um integrante do alto escalão da Esplanada, o atual ministro da Saúde, Alexandre Padilha, poderia assumir a articulação, mas foi colocado em uma pasta técnica para ganhar visibilidade perante os eleitores, uma vez que ele é um dos petistas cotados para disputar o governo de São Paulo no ano que vem.

Colaborou Adriana Caitano

Fonte: Correio Braziliense

O plebiscito que nós queremos

Enquanto Brasília discute a viabilidade de consulta popular sobre reforma política, o EM vai às ruas e ouve cidadãos para saber que questões gostariam de ver respondidas

O plebiscito do povo

O EM comprovou nas ruas que a população quer mudar muito mais que o sistema político: a consulta teria temas tão diversos quanto imposto único, número de ministérios e drogas

Alice Maciel, Isabella Souto, Carolina Mansur e Tiago de Holanda

Em meio à discussão sobre o plebiscito para a reforma política, o Estado de Minas foi às ruas e verificou que os mineiros das mais diversas áreas querem muito mais do que mudar as regras partidárias e eleitorais. Eles querem opinar sobre a adoção de um imposto único, a redução do salário dos políticos e do número de ministério do governo federal – atualmente são 39 pastas –, o aumento das penas criminais para corruptos, redução da maioridade penal e até a legalização da maconha.

A gerente comercial Josiane Carneiro e a auxiliar administrativa Elaine Alves acreditam que os brasileiros deveriam decidir, por meio do plebiscito, o valor do salário dos políticos. "Eles que definem o nosso salário e o deles também. Quando eles querem aumentar o salário deles ,eles aumentam. Essa é minha indignação", observou Josiane Carneiro. Já o estudante Estevão Starling, de 24 anos, acha que deveria ser perguntado aos brasileiros se "o salário dos políticos deve acabar". Para ele, os representantes do Legislativo e Executivo não deveriam receber dinheiro algum ao assumir o poder.

O estudante de direito também defende o plebiscito pelo fim do voto secreto no Senado e na Câmara dos Deputados. Chegou a tramitar no Congresso uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que torna todas as votações abertas no Legislativo, mas foi engavetada na quinta-feira passada. O presidente do senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), justificou que a matéria não é consensual e que o texto só vai à votação em plenário quando estiver "pacificada".

Para o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL/BH), Bruno Falci, a justificativa é aproveitar o momento em que está sendo dada a oportunidade para que a população seja ouvida. "Desejamos que essa consulta popular seja realizada o mais breve possível, para que as novas regras sejam aplicadas logo nas eleições de 2014", disse.

Ideia No Centro de BH, algumas pessoas abordadas na tarde de ontem pela reportagem do Estado de Minas não sabiam o que é plebiscito. Outras, ainda que soubessem, não tinham ideia do que ele deveria pergunta. "São tanto os problemas,que fica difícil pensar em uma pergunta. Mesmo assim, é importante que se faça essa consulta de vez em quando, pois permite que a população participe mais da construção do país", afirmou o estudante de administração Breno Fagundes, de 21 anos.

Transposição O plebiscito foi incluído na Constituição Federal em 1988, e é uma das formas de democracia participativa – além dele, há o referendo e os conselhos –, cuja filosofia está retratada em vários artigos da Constituição. Teoricamente, deve ser adotado para a discussão de temas de relevância nacional e para adequar as regras a novas culturas e valores da sociedade. Durante a discussão da Constituição na Assembleia Nacional Constituinte, chegou a ser cogitada a inclusão de um artigo prevendo a obrigatoriedade de plebiscito para questões envolvendo mais de três estados – como por exemplo a transposição do Rio São Francisco –, mas ficou de fora.

"Quando você elege um governante, o sistema é o da "confiança", em que ele tem liberdade grande de agir. 

Ao fazer um plebiscito, do ponto de vista do conceito, estou impondo que meus representantes façam o que eu falar", explica o cientista político Rudá Ricci. As perguntas de um plebiscito devem ser sempre claras, objetivas e simples, de forma a facilitar o entendimento do eleitor. E a resposta que sair das urnas, deve ser obrigatoriamente seguida pelo governante.

(Colaboraram: Carolina Braga, Eugênio Moreira, Ludymilla Sá, Marta Vieira, Paulo Galvão, Renan Damasceno, Roger Dias e Sérgio Rodrigo Reis)

Você é a favor da redução do número de deputados federais?
Luiza Dornelas, 25 anos, estudante

O modelo de democracia do país deve mudar?
Jefferson Assunção, 24 anos, cineasta

Você é a favor da melhor distribuição de recursos para os municípios brasileiros?
Bruno Falci, 57 anos, presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL/BH)

Você é a favor do imposto único?
Marcelo Oliveira, 58 anos, técnico do Cruzeiro

Você é a favor do passe livre para estudantes e desempregados, sem aumento da tarifa?"
Juliana Rocha, 23 anos, estudante de medicina veterinária

Você é a favor do financiamento privado das campanhas políticas?
Cida Falabella, 53 anos, diretora da Cia Zap 18

"Você é a favor de reduzir os salários dos políticos?"
Elaine Alves, 31 anos, auxiliar administrativa

O governo deve continuar?
Aggeu Marques, 49 anos, cantor

Você é a favor do fim do voto secreto?
Estevão Starling, 24 anos, estudante

"Os cargos políticos devem seguir o modelo de trabalho voluntário, sem remuneração?"
Acácio, 33 anos, jogador de vôlei do Cruzeiro

"Você é a favor da federalização do sistema público de educação?"
Ana Caroline de Oliveira, 18 anos, estudante

O governo pode usar verba pública para fazer propaganda de ações feitas durante o mandato?
Sérgio Cavalieri, 59 anos, presidente do Conselho de Administração da ALE e acionista do Grupo Asamar

Você é a favor da regulamentação dos meios de comunicação?
Gustavo Bones, 28 anos, ator do Grupo Espanca!

Você está satisfeito com os rumos que os políticos que você elegeu deram aos seus mandatos?
Olavo Machado Júnior, 64 anos, presidente do Sistema Fiemg

"É a favor da candidatura de políticos que respondem a qualquer tipo de processo?"
Nelinho, 62 anos, ex-jogador de Atlético, Cruzeiro e Seleção Brasileira

"Você é a favor da legalização da maconha?"
Thiago Guimarães, 27 anos, auxiliar de escritório

"O governo federal deveria elevar os salários dos professores e de servidores públicos?
Luan, 22 anos, atacante do Atlético

Você é a favor de uma reforma tributária que simplifique a forma de cobrança dos impostos?
Euler Nejm, 52 anos, presidente do grupo Super Nosso

Fonte: Estado de Minas

Apoio para Dilma - Entidades ligadas ao PT nas ruas em defesa do plebiscito

Movimentos ligados ao campo - MST entre eles - acertam com a presidente Dilma mobilizações no País no dia 11

RIO - Organizações sociais do campo, entre elas o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), realizarão uma mobilização no dia 11 de julho e uma das reivindicações será a defesa de um plebiscito para reforma política. As entidades aproveitaram a reunião com a presidente Dilma Rousseff, ontem, para entregar uma carta com dez reivindicações ao governo. Entre os pontos estão a recuperação da soberania sobre terras brasileiras por meio da desapropriação de terras controladas por empresas estrangeiras, o assentamento imediato de famílias para a reforma agrária e o incentivo de crédito para a produção de alimentos baratos.

"Vamos à rua no dia 11 (de julho) para fazer uma paralisação nacional no País e pela defesa de um plebiscito", disse Alexandre Conceição, membro da direção do MST. Segundo ele, um dos temas da marcha será a reforma política. "Vamos fazer esse debate pelo plebiscito em que as questões não sejam apenas de cunho eleitoral, mas de participação política. Não nos sentimos mais representados pelo Congresso, hoje financiado pelo grande capital. Precisa ser um plebiscito amplo, para além da reforma eleitoral".

Indagado se o MST e demais organizações atuariam em defesa do governo, que encampa o plebiscito, Conceição negou. "A participação popular e a representatividade sempre foram bandeiras nossa, não é de governo. Vamos para a rua não para defender governo, mas o projeto político, que, para nós, é a reforma agrária e a produção de alimentos saudáveis", colocou.

Embora tenha considerado que o resultado da reunião foi positivo, Alexandre Conceição criticou o engessamento das políticas de reforma agrária no mandato de Dilma Rousseff. "Colocamos para ela que, na atual gestão, a reforma agrária está paralisada. São poucas as desapropriações de terra e os números são muito vergonhosos, mas nós esperamos que agora a gente possa avançar", assinalou Alexandre Conceição.

Reivindicações

Além das desapropriações de terras, o documento elaborado pelas organizações pede a demarcação imediata das terras indígenas e quilombolas e o banimento de agrotóxicos vetados em outros países. Também consta na carta uma cobrança por uma política mais efetiva de desmatamento e programas para a erradicação do analfabetismo.

Na carta, os movimentos sociais do campo pedem que o governo retire o regime de urgência do novo Código da Mineração, que tramita atualmente no Congresso. Eles defendem ainda a "suspensão de todos os leilões de privatização de áreas de perímetro irrigados no Nordeste" e o fim da lei Kandir, que "isenta de impostos as grandes empresas exportadoras de matérias primas agrícolas".

"A relação desafinou"

Presidente Dilma pediu a petistas para dialogar com aliados e reafinar discurso

BRASÍLIA - Líder do PT na Câmara, José Guimarães (CE), que a relação do governo com sua base, especialmente com o PMDB, "desafinou". Segundo ele, Dilma pediu ajuda ao PT para tentar "reafinar". Apesar dos problemas com aliados, as manifestações e a queda da popularidade, o líder disse que a presidente está segura e com o astral em alta.

"A presidente pediu apoio do PT na recomposição da base, no diálogo com os partidos, especialmente com o PMDB. O PMDB integra a nossa aliança e é fundamental a gente afinar a viola. Vamos trabalhar para rearticular e pacificar a base", disse Guimarães, após encontro com a presidente e bancada.

Segundo ele, Dilma disse que o PT e o governo precisam estar mais juntos e que o partido respondeu que está com ela "até debaixo d"água". Sobre o plebiscito, o líder pontuou que Dilma reiterou sua vontade de que ocorra de imediato. O líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), informou que as assinaturas para o decreto legislativo que inaugura o processo de consulta começarão a ser recolhidas.

Fonte: Jornal do Commercio (PE)

Inflação em alta mobiliza governo

Com IPCA acima do limite pela segunda vez no ano, Planalto prevê corte de despesas e no imposto de insumos importados

Ao voltar a romper o limite da meta oficial, desta vez com mais força, a inflação de 6,7% acumulada em 12 meses até junho levou o governo a indicar maior corte de despesas para ajudar a conter os preços. A alta do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) também cria mais expectativa para a reunião do Banco Central (BC), que na próxima semana deve elevar o juro básico.

Ontem, ainda antes da divulgação do IPCA, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, avisou que o governo irá ampliar em até R$ 15 bilhões o corte nas despesas previstas no orçamento deste ano. Outro bloqueio de R$ 28 bilhões havia sido definido em maio. O anúncio deve ocorrer na próxima semana. Em entrevista ao programa Bom Dia Brasil, da TV Globo, disse que serão reduzidas principalmente despesas de custeio.

– Não haverá cortes em investimento nem nos serviços sociais do governo – afirmou.

Mantega indicou que os cortes serão em viagens e passagens, material permanente, serviço de terceiros e aluguéis. De acordo com o ministro, o governo acompanhará o impacto ao longo do ano. Se houver necessidade, novas medidas serão tomadas, mas sem aumento de impostos, prometeu.

A redução das despesas é necessária para cumprir a meta de 2,3% do superávit primário – a soma das receitas e despesas do governo, descontados os gastos com pagamento de juros.

O governo também está estudando a redução do imposto cobrado sobre a importação de alguns insumos básicos, como aço, produtos químicos e fertilizantes. Porém, segundo Mantega, a medida só deve ser adotada em setembro. O imposto mais baixo alivia o impacto da alta do dólar nos preços dos insumos importados.

BC pode elevar juro mais uma vez na próxima semana

Na terça e quarta-feira, o Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne para decidir o juro, principal instrumento do governo para controlar os preços e cumprir a meta de inflação de 4,5% ao ano, com tolerância para variar entre 2,5% e 6,5%.

As apostas são de elevação de 0,50 a 0,75 ponto percentual. Caso o juro anual chegue a 8,5% – hoje está em 8% –, a poupança voltará à regra antiga, que dá remuneração maior.
Em março, o IPCA já havia ultrapassado o teto, mas voltou a ficar abaixo, embora perto, do limite nos dois meses seguintes. Nas últimas semanas, o presidente do BC, Alexandre Tombini, tem repetido que a inflação está reduzindo o ritmo de alta e deverá voltar a ficar abaixo de 6,5% neste semestre. Na semana passada, porém, o BC elevou sua expectativa do IPCA neste ano de 5,7% para 6%.

A projeção de menor ritmo de aumento dos preços nos próximos meses é compartilhada por especialistas. As principais motivações são a se- quência de alívio nos itens de alimentação, já observado em junho, e a deflação esperada com o cancelamento de reajuste das passagens dos ônibus.

Há, ainda, tendência de queda nos preços de etanol e gasolina e o cancelamento do reajuste dos pedágios em São Paulo, lembra Fábio Romão, economista da consultoria LCA, que estima IPCA de 6,34% acumulado em 12 meses, dentro da margem. O percentual se aproxima do cálculo do economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luis Otávio de Souza Leal: 6,3%.

O câmbio, no entanto, é o principal efeito complicador nesse cenário. De acordo com Juan Jensen, sócio da Tendências Consultoria Integrada, se o dólar estabilizar em torno de R$ 2,25, ante os R$ 2 de alguns meses atrás, o impacto direto dos 12,5% de alta da moeda americana será de 0,63 ponto percentual no IPCA de 2013. Jensen disse que a variação cambial já traz efeitos nos preços do atacado, mas ainda não são sentidos no varejo.

Fonte: Zero Hora (RS)

Para Marina, Dilma não ouviu clamores

BRASÍLIA - Apontada como uma ameaça potencial à reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT), a ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva criticou a proposta de plebiscito para reforma política sugerida pela mandatária ao Congresso Nacional. Em entrevista à Agência Estado, a principal liderança da Rede Sustentabilidade - partido encabeçado pela ex-verde e ainda em fase de formalização junto à Justiça Eleitoral - disse que o governo não entendeu o "clamor das ruas" e cometeu o equívoco de pensar "que um plebiscito feito de afogadilho" pode ser a resposta que a sociedade espera.

Segundo Marina Silva, tanto o plebiscito quanto o referendo podem dar "no mesmo problema, que é tentar remendar um sistema falido com respostas imediatas e superficiais, mudando alguma coisa para continuar mantendo o controle e o monopólio da política pelos partidos".

Para a ex-ministra do governo Lula, o Brasil só caminhará quando o exercício da política for compartilhado por toda a sociedade.

"A reforma deve ser muito mais ampla", prega Marina Silva.

Bem posicionada na última pesquisa de intenção de voto do Instituto Datafolha - a ex-ministra subiu de 16% para 23% em três semanas - , a terceira colocada na sucessão presidencial de 2010 associou a lembrança do eleitorado ao "desejo de mudança".

"Entre o discurso da tábula rasa e o da terra arrasada, há de se buscar uma alternativa", frisou Marina Silva.

Para tanto, a ex-ministra do Meio Ambiente citou que a inclusão do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, na lista dos presidenciáveis é um claro sinal de que o brasileiro busca algo novo.

Marina Silva advertiu que o cenário econômico brasileiro vive um momento ruim, com a combinação de baixo crescimento, aliado com a alta da inflação.

"Talvez a queda de popularidade esteja preocupando mais a presidente e o PT do que deveria", alfinetou Marina Silva.

Fonte: Jornal do Commercio (PE)

A cidadania como bandeira - Promessa é dívida

Vinte e cinco anos depois de promulgada a “Constituição cidadã”, o brasileiro cobra na ruas o cumprimentos de garantias inscritas na Carta Magna

Por Bárbara Pombo e Viana de Oliveira

A Constituição em dois momentos: em 1988, aprovada, com Ulysses; em junho, com manifestante

BRASÍLIA e SÃO PAULO - Enquanto eram só alguns milhares de jovens a protestar contra a tarifa do transporte, quase não se atentava para o papel democrático de manifestações em espaços públicos: parecia tratar-se de só mais um estorvo ao trânsito. De uma hora para outra, a cidadania tomou a frente como problema central de manifestações que se espalharam por centenas de cidades e levaram brasileiros às ruas. No meio de cartazes e faixas, as falhas da democracia brasileira se revelavam: o país se via às voltas com a constatação de que as demandas da maior parte da população não são atendidas, com a incapacidade do poder público em responder a reivindicações e com a violência policial arbitrária. Tudo isso, quando o texto fundamental da ordem política e social do país, sua "Constituição Cidadã", estava às portas de completar 25 anos em vigor.

"Numa passeata, achei interessante como vários cartazes faziam referência a trechos da Constituição", afirma o cientista político José Álvaro Moisés, da Universidade de São Paulo (USP). Para ele, as manifestações estão embebidas na própria lógica da Carta Magna, que recebeu seu apelido de "Constituição Cidadã" do presidente da Assembleia Nacional Constituinte, Ulysses Guimarães, quando foi promulgada, em 5 de outubro de 1988.

Por um lado, os manifestantes exigem a aplicação plena dos amplos direitos sociais previstos na Carta. Afinal, diz Moisés, os direitos sociais à saúde e educação, presenças constantes nas faixas, são garantidos constitucionalmente no Brasil e de responsabilidade conjunta da União, Estados e municípios. Ou seja, 25 anos depois de promulgada a Constituição, foi em busca dessas garantias que os brasileiros tomaram as ruas. Foram, em grande parte, jovens já criados sob a égide da Carta de 1988 que, ao monopolizar as cidades, o noticiário, as conversas cotidianas e as decisões dos governos nas últimas três semanas, reivindicaram a quitação da dívida constituída na Constituição. Por outro lado, os manifestantes exigem a transformação do sistema político, para acomodar o desejo de civilidade que o Brasil nunca exerceu plenamente.

"A cultura política brasileira está mudando, lentamente, desde a resistência democrática contra a ditadura, passando pelas greves do ABC, a campanha pelas Diretas Já e os cara-pintadas", diz Moisés. Para ele, as constituições do Brasil herdaram de tempos coloniais a ideia de que a sociedade civil não tomava iniciativa. "As pessoas não se organizavam. Ao verem que podem pressionar o Congresso e o governo quando se organizam, incluem um novo elemento cultural na política."

O texto constitucional aprovado em 1988 foi posto à prova. Os protestos, à parte as depredações e a intolerância a partidos, escancararam, para constitucionalistas, uma grande conquista da Carta: a estabilidade institucional. É a própria Constituição, como reação aos 21 anos de ditadura e marca do regime democrático mais longo da história do Brasil, que garante manifestações livres. "A Constituição foi o meio ambiente que viabilizou as manifestações", diz o professor de direito constitucional Oscar Vilhena, diretor da Faculdade de Direito da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP). "Ao traçar uma agenda de demandas sociais e conceder direitos antes que sejam efetivados, cria-se um ambiente propício para a luta política."

Brasileiro inclui novo elemento cultural na política ao ver que, quando se organiza, pode pressionar governo e Congresso, diz cientista político

O momento de forte carga emocional do Brasil de meados da década de 1980 atravessa a Constituição do começo ao fim, naquilo que a torna uma carta cidadã: a garantia profunda e extensa dos direitos sociais. Moisés relembra que, no período, o chamado Centrão conseguiu se articular para bloquear transformações do sistema político que poderiam lhe conferir agilidade e maior poder de representação. Só para lembrar: Centrão é o apelido dado ao grupo denominado Centro Democrático, formado por parlamentares do PMDB, PFL, PDS e PTB, além de outros partidos menores, que formavam a base de apoio do governo Sarney. "Mas nos direitos sociais, exigência da sociedade civil, o Centrão não conseguiu tocar", diz Moisés.

A Constituição seria, por isso, o retrato de um país que se redemocratizava com sede de justiça social e desenvolvimento humano, ainda que esse caráter abrisse o caminho para críticas de que se trataria de um apanhado de direitos difíceis de aplicar e custosos demais. "Temos de olhar a Carta em dois níveis. No conceitual, prefiro, pessoalmente, uma Constituição mais enxuta, que deixasse de fora temas que poderiam estar na legislação ordinária", diz Moisés. "Na prática, a Constituição foi feita com os olhos na tradição brasileira de leis desligadas dos interesses da população e quiseram garantir esses temas desde o início. Pensando na história, temos uma Constituição que atacou os problemas reais do país."

As manifestações parecem refletir um abismo entre o dia a dia e as expectativas do brasileiro. "Antes de 1988, a reclamação era a falta de acesso aos serviços. Hoje, é sua qualidade. A pauta é legítima e não está distante do pacto constitucional", diz o cientista político Fernando Abrucio, da FGV. "Apesar do conjunto de expectativas juridicamente estabelecidas, a situação está aquém do prometido. Além disso, um discurso político intenso nos últimos anos dizia que a vida do brasileiro melhorou. Agora ele é cidadão de classe média com emprego de boa qualidade; o Brasil se tornou um dos grandes do mundo", observa Vilhena. "O discurso político ficou aquém das nossas capacidades."

Durante sabatina no Senado, Luís Roberto Barroso, recém-empossado ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou que a Constituição "só não prometeu trazer a mulher amada". "O documento da liberdade, da dignidade e da justiça social", como definiu Ulysses, tem 250 artigos que tratam desde a organização do Estado, o direito dos índios e o dever da família até regras específicas de interesse de magistrados, policiais e cartórios.

Apesar desse excesso de detalhes, 142 dispositivos ainda não são aplicados plenamente, por falta de regulamentação. Dentre eles, a greve dos funcionários públicos. Apenas o capítulo das garantias fundamentais possui 78 incisos, que asseguram o direito à vida e a igualdade de todos perante a lei, mas também a obtenção gratuita de certidões em órgãos públicos para defesa de direitos e esclarecimento de situações de interesse pessoal. "As sociedades que não têm consciência social forte precisam de freios e regras, porque é a maneira de fazer a sociedade andar", diz o jurista Celso Antônio Bandeira de Mello, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Para alguns pesquisadores, embora tenha sido objeto de interesse de diferentes grupos que influenciaram na sua elaboração, desde lideranças sindicais a empresários, a Constituição tornou-se elemento-chave para tornar o país "ingovernável", por trazer mais direitos do que obrigações. Além disso, constituintes teriam pecado pelo excesso ao redigi-la: há uma descrição das principais políticas públicas a serem executadas pelo Estado, com suas diretrizes, mas também um detalhamento de como devem ser feitas, o que é entendido como uma forma de engessamento para colocá-las em prática.

A Constituição de 1988 é repleta de dispositivos simbólicos, fixados a partir da necessidade "inconsciente" e "sem intenção" dos constituintes de "vender" um país democrático e preocupado com valores após os 21 anos da ditadura, observa Marcelo Neves, professor de direito público da Universidade de Brasília (UnB). Talvez por isso, 76% dos 559 parlamentares constituintes classificassem sua orientação política como de centro ou centro-esquerda, segundo pesquisa do jornal "Folha de S. Paulo", de março de 1987. "A produção textual, as emendas, a Constituição cidadã são formas de apresentar um cenário de pessoas envolvidas com a transformação real do país. Socialmente, era uma exigência em relação aos políticos da época."

Do ponto de vista de ativistas e estudiosos que lidam com os direitos sociais e humanos, o resultado é uma tabela de princípios para o que a sociedade quer ser no longo prazo, na descrição da jurista Ester Rizzo, da organização não governamental Ação Educativa. Esse documento não chega a empalidecer diante da "enorme discrepância entre os direitos escritos e o dia a dia", no dizer do cientista político Maurício Santoro, assessor de direitos humanos da Anistia Internacional. Ao contrário, é a discrepância que justifica a amplitude dos direitos presentes na Carta. "A tensão entre direito e realidade é constante. Existindo a lei, o desafio é fazê-la valer", diz Ester.

Em outras palavras, ao garantir mais cidadania do que o brasileiro jamais teve, a Constituição faz de si o campo de batalha para o avanço e o retrocesso dos direitos sociais e humanos no Brasil. Dois exemplos em que a Constituição ou uma de suas emendas alterou a maneira como a educação foi tratada são citados por Ester. Até 1988, a educação infantil era considerada direito não da criança, mas dos pais que trabalhavam, graças a esforços do movimento feminista na ditadura. Hoje, é direito tanto dos pais quanto da criança, cuja implantação efetiva não foi imediata. "Só em torno de 2004 a maioria das prefeituras transferiu a educação infantil das secretarias de Assistência Social para as de Educação. Foi preciso recurso à Justiça para isso." Hoje, mesmo filhos de pais desempregados têm garantido o direito a creches e pré-escolas.

O segundo exemplo é a obrigatoriedade do ensino, alterada em 2009 pela emenda constitucional 59. Passou-se da obrigatoriedade por etapa de estudos (o ensino fundamental) à obrigatoriedade por idade, dos 4 aos 17 anos. "Os movimentos pela educação viram que não bastava alterar a Lei de Diretrizes e Bases. Era preciso ir até a Constituição. Com essa luta, tornou-se consenso que a educação é um direito das crianças e as prefeituras do país se esforçam para expandir a pré-escola e o ensino médio. Se faltam vagas em escolas, hoje o Estado pode ser processado. Um prefeito pode ficar inelegível por não investir 25% do orçamento em educação. Os dispositivos existem e as ações acontecem", diz Ester.

Autor do livro "A Constitucionalização Simbólica", Neves afirma que a previsão constitucional dos direitos à saúde e à educação, do compromisso com a qualidade do ensino e com a erradicação da miséria e do analfabetismo tende a ser mais positiva. "A carga simbólica desses dispositivos é altíssima, mas são úteis para que governos sejam cobrados, para que sejam apontados como exigência constitucional e não valor de um grupo ideológico."

O caso da saúde é emblemático das tensões entre as intenções da Constituição e as circunstâncias do país. Apesar do espírito universalista na saúde pública, previsto nos artigos 196 a 200, o sistema de saúde é marcado pela fragmentação e por uma dualidade entre o setor público e o privado em que "o sucesso de um é o insucesso do outro", segundo o sociólogo Nilson do Rosário Costa, da Fundação Instituto Oswaldo Cruz. Isso porque os planos de saúde avançam quanto mais o Sistema Único de Saúde (SUS) se mostra ineficiente para atender a demanda da sociedade. "Na saúde, embora haja um sistema público e universal [SUS], o gasto da sociedade se dá muito mais com um sistema privado. Ou seja, falta Estado no sistema de saúde geral. E o gasto que o Estado faz não fica apenas no serviço público. Vai também para o privado, porque ele compra serviços de hospitais privados, exames e remédios", afirma Geraldo Di Giovanni, professor do Instituto de Economia da Unicamp, referindo-se à dependência do SUS do uso também de rede privada para seu funcionamento.

Para Costa, as ruas explicitaram um desafio de conjuntura na saúde nacional. "As famílias mais pobres gastam uma proporção enorme de seu orçamento de saúde em medicamentos e isso é fruto das falhas no sistema." Sua estimativa é que seria necessário envolver a sociedade no debate sobre a saúde por meio de uma discussão da governança e dos papéis de cada ente público e do setor privado. "Fiquei decepcionado com as respostas da presidente Dilma sobre saúde. Ela falou em médicos estrangeiros, Unidades de Pronto Atendimento e Unidades Básicas de Saúde, mas deixou intacta a distorção que vem do texto constitucional."

Em comparação com as sete Cartas anteriores, é possível afirmar que a transposição do texto constitucional para a realidade avançou. Em estudo elaborado antes de sua indicação para o STF, o ministro Barroso afirma que a lógica dominante antes de 1988 era a "falta de seriedade em relação à lei fundamental, a indiferença com a distância entre o texto e a realidade". A Constituição de 1824, promulgada por d. Pedro I, previa que a lei seria igual para todos, mas, segundo Barroso, "conviveu, sem que se assinalassem perplexidade ou constrangimento, com os privilégios da nobreza, o voto censitário e o regime escravocrata". Com alguns avanços da Constituição, dizem especialistas, foi possível reduzir o que Ulysses apontou, no discurso da promulgação da Carta, como o maior obstáculo à cidadania - o elevado contingente de brasileiros que não sabiam ler e escrever.

De 1988 a 2011, a taxa de analfabetismo passou de 25% para 8,6%, segundo o IBGE. Mas ainda há 12,9 milhões de pessoas com mais de 15 anos que não sabem ler nem escrever. Há ainda 30,5 milhões de "analfabetos funcionais". Apesar de o acesso à escola estar quase universalizado dos 7 aos 14 anos, o IBGE vê falhas na qualidade do ensino. O dever do Estado com a universalização do ensino médio não foi plenamente efetivado. Segundo o IBGE, 1,72 milhão de jovens de 15 a 17 anos estão fora da escola.

Em grande medida, os avanços nos indicadores sociais foram obtidos pela constitucionalização das políticas públicas. O reflexo foi a corrida da população ao Judiciário. No STF, as 26 mil ações ajuizadas até junho já superam o número de processos protocolados em 1989 - 14,7 mil. Criado pela Constituição, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) recebe sete vezes mais processos que em seu primeiro ano de vida. São constantes os pedidos de fornecimento gratuito de medicamentos que não pertencem à lista do SUS, e mesmo de remédios que, embora na lista, estão em falta. Em razão das ordens judiciais, o Ministério da Saúde gastou R$ 355 milhões em 2012. Cirurgias e exames também têm sido garantidos.

"Conseguimos que a União custeasse uma operação de ombro para um paciente de Santa Catarina. Pelo número de cirurgias feitas por ano e a posição dele na fila, a espera seria de 80 anos", diz Gabriel Oliveira, presidente da Associação Nacional dos Defensores Públicos Federais. Recentemente, o Rio Grande do Sul foi obrigado pela Justiça a construir uma escola em Bagé. "Já havia previsão orçamentária para a obra, mas as crianças ainda estudavam em um prédio emprestado com problemas estruturais", diz Patrícia Kettermann, presidente da Associação.

Criadas pela Constituição para garantir o cumprimento do direito de todos dirigirem"petição aos poderes públicos em defesa de direitos ou contra ilegalidade ou abuso de poder", as defensorias públicas ainda engatinham em três Estados. Em Santa Catarina, o órgão só foi instituído após ordem do STF, no ano passado. Em Goiás, só há seis defensores para atender a população e no Paraná ainda não há profissionais trabalhando. A defensoria pública federal - responsável por ações contra o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), a Caixa Econômica e o SUS, por exemplo - está presente em apenas 28% das comarcas do país. São 480 profissionais para atender um público-alvo de 80 milhões de pessoas que recebem até dois salários mínimos. A Advocacia-Geral da União possui 9 mil advogados.

Aproximar a realidade do modelo constitucional, para muitos, não depende de novas leis. A Constituição já recebeu 73 emendas desde 1992. São 3,5 por ano. "Em vez de mudar na prática, muda-se a lei e acham que o mundo muda por isso. Quem muda o mundo são os homens. As leis só facilitam ou dificultam as mudanças", diz Bandeira de Mello. Concordância, porém, não há sobre o modelo político ideal para efetivar o ambicioso pacto da Carta de 1988. "Nosso sistema de representação [Parlamento, voto, partidos políticos] é do século XVIII. Nos municípios pequenos já é possível ter uma ciberdemocracia para a sociedade decidir sem intermediação de partidos", diz Vilhena. Para Abrucio, o ambiente de participação já é viável. "Os conselhos de usuários na área da saúde e educação já existem, as audiências públicas nas assembleias legislativas também. É preciso ocupar espaços."

Na esteira das manifestações pelo país, o texto constitucional, com seus mecanismos de participação direta, voltou ao debate pelas mãos da presidente Dilma Rousseff, ao propor o plebiscito para encaminhar a difícil reforma política. A participação popular direta, noção que sustenta a ideia do plebiscito, foi objeto de um livro que Moisés publicou menos de dois anos após a promulgação do texto constitucional: "Constituição: Cidadania e Participação". Ele ressalta que os mecanismos existentes foram usados com sucesso no Brasil: duas leis importantes - a da Ficha Limpa e a da Improbidade Administrativa - têm origem na iniciativa popular. "São casos em que, sob pressão do povo, o Congresso teve de adotar leis que não queria de jeito nenhum."

Mas o cientista político demonstra ceticismo com a proposta da presidente. "Na Suíça e na Califórnia, onde esses mecanismos existem desde o século XIX, a iniciativa popular pode até mesmo emendar a Constituição", afirma, mas adverte que o princípio de consulta plebiscitária é suscitar o debate na sociedade civil. Na Suíça, capital mundial dos referendos e plebiscitos, exige-se um período de ao menos 120 dias para campanha e discussões. "Caso contrário, um plebiscito pode ser usado como fraude, para fazer parecer que o povo apoia determinada ação do governo. Ou então, a administração pode usar a ferramenta para tentar recuperar legitimidade, como parece ser o caso agora."

Participante das manifestações em São Paulo pela redução da tarifa do transporte público, Hugo Albuquerque, de 25 anos, diz que os movimentos que paralisaram centenas de cidades e arregimentaram mais de 1 milhão de pessoas foram um grito contra o argumento usado por gestores públicos para não tornar efetivas conquistas da Constituição. "Há sempre o discurso da reserva do possível, quando a falta de recursos é apontada como razão para não fazer nada." Nascido em plena constituinte, o advogado, que inicia seu mestrado em direito constitucional na PUC-SP, é favorável ao financiamento público de campanha e à obrigatoriedade de prévias dentro dos partidos políticos, que, diz, precisam ser oxigenados. "Se a correnteza de vontade é represada, como tem sido há anos, o dique acaba se rompendo." (Colaborou Vanessa Jurgenfeld)

Fonte: Valor Econômico / Eu & Fim de Semana