sábado, 21 de maio de 2022

Merval Pereira: Bolsonaro inferniza o país

O Globo / CBN

O presidente Jair Bolsonaro diz que não é contra a democracia, mas ataca individualmente os ministros, quando não ataca a instituição em si.  Agora afirmou que os ministros Barroso, Fachin e Alexandre de Moraes infernizam o país. Na verdade, é ele que inferniza o país, não dá um dia de trégua. Não temos um dia de paz aqui desde que assumiu. É a maneira dele atuar politicamente, tentando criar problemas com as instituições, estabelecendo a cizânia. E é cansativo nesta tentativa permanente de subverter a ordem; ele é o próprio subversivo, porque não respeita nada, só pensa no que interessa a ele, a reeleição. Ontem, numa solenidade no TST, numa plateia formada pela classe jurídica aconteceu uma situação emblemática, com uma salva de palmas prolongada quando o nome do ministro Alexandre de Moraes foi anunciado, e o único que não aplaudiu foi Bolsonaro - apesar de ter cumprimentado o ministro na chegada. Foi indicativo significativo de solidariedade do judiciário ao ministro, de afirmação de que a justiça está acima de qualquer poder e não pode ser contestada.

Ascânio Seleme: Os empresários e a eleição presidencial

O Globo

O apoio do setor a Bolsonaro já foi maior, mas o presidente ainda consegue arrancar alguns aplausos e vivas

Altamiro se orgulha da sua trajetória profissional. Ele começou a trabalhar ainda menino. Aos dez anos garimpava no interior de Minas Gerais. Foi depois faxineiro, trabalhou numa empresa de material de construção e representou uma indústria de tintas na região em que morava, até reunir algum dinheiro e virar pequeno empresário. Montou então uma loja de artigos de R$ 1,99, quando aquilo era febre no Brasil, e foi ainda contrabandista de bugigangas que trazia do Paraguai para abastecer sua loja e a dos concorrentes. Hoje, com 54 anos, é dono de uma empresa de transportes de pessoas. Seu orgulho é ter conseguido vencer mesmo sem estudar. Fez apenas o primeiro grau. “Parei de estudar porque tive de trabalhar”, afirma. É bolsonarista mas não sabe bem porquê.

O apoio dos empresários brasileiros a Bolsonaro já foi maior, mas o presidente ainda consegue arrancar desse grupo aplausos e vivas, como ocorreu na reunião dos supermercados na semana passada. Os graúdos da Faria Lima já foram mais efusivos, enquanto os menores seguem com algum entusiasmo, talvez por sentirem-se mais próximos do candidato. Não que isso seja uma regra, mas os grandes estão tirando o pé da canoa da extrema direita mais rapidamente porque entendem melhor o perigo crescente de radicalismo e rompimento institucional que ela representa. E, claro, de olho nas consequências inevitáveis para os negócios.

Pablo Ortellado: Fraude nas urnas é teoria da conspiração

O Globo

A insistência do governo na tese de que as urnas eletrônicas foram fraudadas é estranha. As evidências apresentadas são muito frágeis, e os mecanismos adotados pela Justiça de supervisão e escrutínio parecem mais que suficientes. Por isso analistas supõem má-fé do governo, que, sabendo que a alegação é falsa, insistiria nela apenas com o intuito malicioso de preparar um golpe de Estado. Mas há motivos para supor que ele pode acreditar na tese na forma de uma teoria da conspiração.

O maior estudioso das teorias da conspiração, Joseph Uscinski, as define como a crença, contrariada pela autoridade epistemológica (a ciência, o jornalismo profissional ou a Justiça), de que fenômenos complexos que prejudicam o bem comum são explicados de modo adequado pela ação de um pequeno grupo de indivíduos poderosos agindo em segredo.

Embora a teoria da conspiração precise de algum tipo de evidência para sustentá-la, ela não aceita ser contestada pelos fatos, não admite ser “falseada”. Pistas, indícios e suspeitas, não importa quão frágeis, são capazes de manter a crença viva. Evidências contrárias, mesmo que contundentes, são rejeitadas. Os fatos se moldam à convicção.

Eduardo Affonso: Camões, poeta e profeta

O Globo

Que Nostradamus, que nada! Quem profetizou sobre os eventos neste Brasil do ano da graça de 2022 foi Luís Vaz de Camões, o maior poeta vivo da língua portuguesa (morreu em 1580 apenas para os leitores ingratos).

Está tudo lá, no soneto “Amor é um fogo que arde sem se ver”, publicado há 424 anos sob o disfarce de ser apenas mais um poema a respeito da servidão amorosa.

“Fogo que arde sem se ver” é uma metáfora para Simone Tebet — a senadora sul-mato-grossense que não falta ao trabalho (compareceu a 95% das sessões), não rasga dinheiro público (gastou só cerca de 40% da verba de gabinete e da cota parlamentar), nem responde a processo judicial. Teve atuação firme na CPI da Covid e tem baixa rejeição. Pode crescer e aparecer. A menos que o vice seja o Aécio, porque aí incinera tudo.

“Ferida que dói, e não se sente” é referência a Lula. Responsável pelos maiores escândalos de corrupção da nossa História, há quem acredite que “não tem, nesse país, uma viv’alma mais honesta”. Mas sejamos justos: pelo menos uma vez não faltou com a verdade — foi quando disse que no Congresso havia 300 picaretas. Tanto havia que comprou vários deles, assim que teve oportunidade.

Carlos Alberto Sardenberg: A democracia pode funcionar mal

O Globo

Não existe democracia sem Parlamento eleito pelo povo. Num país continental como o Brasil, é também conveniente que os entes regionais tenham representação nacional.

O sistema político brasileiro atende a esses dois requisitos. A Câmara dos Deputados representa o povo. O Senado representa os estados, que formam a Federação.

Ditaduras costumam fechar parlamentos ou instalar simulacros que só existem para chancelar as decisões do líder do momento. Exemplo: o assim chamado Congresso Nacional do Povo da China.

Nosso Congresso, reunião das duas Casas Legislativas, funciona livremente. Assim, a despeito de Bolsonaro, temos uma democracia em funcionamento.

Ocorre que os parlamentos podem funcionar bem ou mal. Criticá-los, nesses casos, não é atentar contra a democracia, mas, ao contrário, defender não apenas sua existência, como também sua eficácia. Sim, eficácia.

Os líderes da maiores ditaduras do momento, Xi Jinping e Vladimir Putin, sustentam suas críticas à “democracia ocidental” com o argumento de que não são eficazes nas políticas de desenvolvimento. E por quê? Porque o sistema seria muito lento para tomar decisões. E aqui se completa o argumento autoritário: essa lentidão viria justamente de as decisões precisarem passar pelo Parlamento e obter aval da Justiça.

Oscar Vilhena Vieira*: Confronto e erosão como método

Folha de S. Paulo

Essa concepção tribal de política foi descaradamente plagiada pelo bolsonarismo

Bolsonaro pratica uma concepção primitiva de política, baseada no confronto, na intimidação dos adversários e no arbítrio, em detrimento de uma política fundada na competição eleitoral, no debate público e na legalidade.

Essa concepção tribal de política, defendida por Carl Schmitt, que marcou a ascensão de regimes totalitários nos anos 1930, repaginada pela extrema direita norte-americana nas últimas décadas —com sua idolatria fálica às armas, à supremacia racial e a ideias liberticidas—, foi descaradamente plagiada pelo bolsonarismo.

Para os praticantes dessa concepção pervertida de política, a democracia constitucional —que pacifica e institucionaliza a competição política e impõe limites jurídicos àqueles que exercem poder— aparece como um entrave inaceitável ao poder soberano devendo, portanto, ser suprimido. A verdadeira soberania, de acordo com Schmitt, não pode ser confinada pela Constituição, pelo império do direito. Ela somente se expressa no contexto do estado de exceção.

Demétrio Magnoli: A opinião embargada

Folha de S. Paulo

A preferência pelo eufemismo é um traço clássico da linguagem estatal-burocrática

Investigando o "declínio" da língua inglesa, George Orwell escreveu: "ela torna-se feia e imprecisa porque nossos pensamentos são tolos, mas o desmazelo de nossa linguagem facilita-nos desenvolver pensamentos estúpidos". O raciocínio aplica-se ao português e especificamente à Folha, que escolheu a palavra "embargo" para noticiar o advento da censura interna de opinião (13/5).

A preferência pelo eufemismo é um traço clássico da linguagem estatal-burocrática. Num jornal de extensa tradição, é coisa incomum. Não contente com um eufemismo, a Folha dobrou a dose, batizando uma PIP (Polícia Identitária do Pensamento) como Comitê de Inclusão e Equidade, composto por 17 jornalistas anônimos (mas identificados por cor e gênero).

Imprecisa, a notícia nada esclarece sobre a extensão da influência da PIP nas decisões de censura interna. Fica claro, porém, que as duas iniciativas procedem da mesma fonte: o clamor da IRUD (Igreja Racialista dos Últimos Dias) e do grupo auxiliar Jocevir (Jornalistas pela Censura Virtuosa) pela supressão de artigos opinativos não alinhados com a teologia das políticas de raça.

A renúncia ao pluralismo de opiniões, uma violação direta do Projeto Folha, decorre da "reação à publicação de um texto de Antônio Risério, em que o antropólogo acusa negros de racismo contra brancos". O texto não foi selecionado aleatoriamente: proibi-lo cumpre uma função política específica.

Cristina Serra: Elon Musk e a eleição no Brasil

Folha de S. Paulo

Sua passagem por aqui soa outro alarme sobre os riscos de manipulação em outubro

Bolsonaro recebeu Elon Musk com rapapés e tapete vermelho, em cena de vassalagem vira-lata explícita. Como se sabe, Musk negocia a compra do Twitter e já avisou que a liberdade de expressão absoluta na rede social, sem qualquer moderação, está acima de tudo. Música para os ouvidos das milícias digitais e sinal verde para a pregação golpista e os discursos de ódio.

Musk anunciou que quer reverter o banimento de Donald Trump, expulso do Twitter por ter insuflado extremistas contra a confirmação de Joe Biden, em janeiro de 2021. A ação resultou na invasão do Capitolio e na morte de cinco pessoas.

Homem mais rico do mundo, dono de um império de empresas de alta tecnologia, que vão dos carros elétricos à pretensa colonização de Marte, Musk é um oligarca de perfil ególatra e megalômano.

Ficou famoso seu tuíte sobre o golpe na Bolívia, contra Evo Morales, em 2019. Respondendo à crítica de um seguidor, tuitou: "Nós daremos golpe em quem quisermos. Lide com isso." A Bolívia tem as maiores reservas de lítio do mundo, mineral essencial para as baterias de carros elétricos fabricados pela Tesla.

Alvaro Costa e Silva: Bolsonaro e Vargas Llosa

Folha de S. Paulo

Primeiro romance do Nobel peruano denuncia violência e corrupção em colégio militar

Seria um assombro, na melhor tradição do realismo mágico. Mas vamos supor que aconteça: animado com o apoio que recebeu de Mario Vargas Llosa, Bolsonaro resolve adiar os passeios de moto e jet-ski e reservar 15 minutos por dia para ler o Nobel. Escolhe "A Cidade e os Cachorros" (ou "Batismo de Fogo", o outro título com que a obra foi traduzida entre nós), primeiro romance do escritor que, ainda bem jovem, resolveu tornar-se o Faulkner do Peru.

Bolsonaro não entende bem os diferentes pontos de vista narrativos, o discurso indireto livre e a mistura entre passado e presente. Mas reconhece, ao virar uma página depois de lamber a ponta do dedo, algo familiar: a palavra coturno. O esforço sobre-humano é recompensado quando ele finalmente percebe que a história se passa em um colégio militar. Aquele ambiente é o seu, pensa o presidente, ali um menino aprende a ser homem.

Para Doria, ‘ninguém tem o direito de desmerecer, desqualificar’ as prévias

Sob pressão para retirar candidatura, ex-governador de São Paulo afirma ainda que não pretende mudar de partido

Théo Mariano / O Estado de S. Paulo.

Goiânia - Pressionado por partidos da terceira via a desistir de sua pré-candidatura ao Palácio do Planalto, o ex-governador João Doria defendeu ontem, ao falar para filiados do PSDB, o resultado das prévias que definiram seu nome como presidenciável da sigla. “Dezoito mil pessoas votaram em nosso nome e vencemos as prévias. Ninguém tem o direito de desmerecer, desqualificar e não atender o anseio daqueles que fazem o nosso partido, vocês, militantes do PSDB”, disse Doria durante visita a Goiânia (GO).

O ex-governador afirmou ainda que “não conversou e não conversa” com nenhuma outra legenda, numa sugestão de que não pretende mudar de partido, mesmo diante da pressão interna por sua desistência da disputa presidencial. “Não tenho, não tive e não terei outro partido”, declarou.

Nesta semana, os presidentes de PSDB, MDB e Cidadania deram aval ao nome da senadora Simone Tebet (MDB-MS) como candidata única desses partidos na chamada terceira via. A indicação, no entanto, ainda precisa ser referendada pelas executivas nacionais das legendas. O ex-governador de São Paulo resiste e tenta se manter como presidenciável.

Questionado ontem por jornalistas, em Trindade (GO), se aceitaria ser vice na chapa presidencial de Simone Tebet, o tucano afirmou apenas estar “dialogando”. “Estamos dialogando, sempre conversando. O diálogo é a base da democracia”, disse Doria.

Bolívar Lamounier*: Certezas e dúvidas certíssimas

O Estado de S. Paulo

A necessidade de uma reforma constitucional ulula a nossos ouvidos de manhã à noite, mas sabemos todos que há pequenos senões.

Conto com a compreensão do leitor para a catadupa de repetições que vou despejar no artigo de hoje; com esta covid-19 que se arrasta, mas não acaba, este frio dos infernos e as hipóteses eleitorais que somos forçados a considerar para outubro, não vejo como um ser humano possa ter uma ideia original.

Sobre a eleição, ganhe Lula ou Bolsonaro, de uma coisa podemos ter certeza: não haverá reforma política. Dando de barato que o eleito, uma vez empossado no dia 1.º de janeiro de 2023 para um mandato de quatro anos, dará tratos à bola sobre como se reeleger em 2026, podemos marcar no calendário que antes de 2027 nenhuma reforma será discutida seriamente.

Vejam vocês que coisa extraordinária. Não há sobre a face da Terra país mais aferrado a aberrações (como o Colégio Eleitoral) que os Estados Unidos. Mas nesse ponto nós os deixamos a comer poeira. Reeleição para um mandato de quatro anos, vá lá, a gente faz o possível para engolir, mas nós chegamos ao cúmulo de admitir que o inquilino, tendo descansado durante quatro anos, tente retornar ao Planalto para fazer mais quatro anos de estragos. Entre as 80 ideias de reforma que discutimos desde o Congresso Constituinte, essa é a mais branda, a mais razoável, a que não ofende ninguém, mas nem dela queremos saber. E o pior: em toda a América Latina, parece que todos os inquilinos só pensam nisto, o terceiro mandato, seja na base da rasteirada ou por qualquer outro meio.

Claro, Lula e Jair Bolsonaro sempre podem nos causar alguma surpresa, e qualquer um tem o direito de acreditar no que quiser. Seja um, seja o outro, se quiserem acreditar, acreditem no que quiserem. Creiam de pés juntos que teremos uma reforma institucional de fazer inveja a Hamilton, Jefferson e Jay, os três “federalistas” que prepararam a ratificação da Constituição. Creiam que Jair, com sua serenidade e seu realismo, convencerá os investidores externos a trazerem trilhões de dólares para dar um jeito em nossa infraestrutura e retomar o crescimento econômico. Lula, se não igualar Jair em tirocínio, ao menos descobrirá uma forma confortável de subir na carroceria do caminhão quando lhe der vontade de fazer discursos por este nosso Brasil afora.

João Gabriel de Lima: A conversa que virou briga de rua

O Estado de S. Paulo

Desconfie do governo que diz que a solução para o país é destruir o outro lado, seja de esquerda ou de direita

Por que não conseguimos mais conversar sobre nosso país? Em que momento o debate político desandou em briga de rua? Essas perguntas provocativas conduzem O Diálogo Possível, oitavo livro do ensaísta Francisco Bosco. Dado que nenhum problema complexo tem solução simples, são múltiplas as respostas para as questões levantadas na obra.

“Vivemos uma época em que, mais que discutir assuntos seriamente, queremos pertencer a uma tribo política”, diz Bosco, entrevistado no minipodcast da semana. “As pessoas preferem lacrar a debater. É mais fácil. É só compartilhar os memes certos e os autores certos, mesmo que as citações sejam mentirosas.”

Na era das redes – “com as quais conviveremos ainda por muito tempo”, segundo Bosco – os significados das diversas posições políticas se perderam. Dependendo de quem usa as palavras, “liberal” ou “socialista” podem virar xingamentos – quando, na verdade, são apenas maneiras diferentes de promover inclusão social.

Vera Rosa: Varal da polarização ‘vende’ Lula e Bolsonaro

O Estado de S. Paulo

Um varal com fisionomias sorridentes de Jair Bolsonaro e de Luiz Inácio Lula da Silva, amarrado em postes diante do Memorial JK, em Brasília, é o retrato da polarização na campanha eleitoral. Penduradas ali, toalhas de praia com as fotos do presidente e de seu maior adversário na disputa são vendidas por R$ 60.

A crise econômica atrapalha as vendas, muita gente pechincha, mas o movimento aumenta no fim de semana. “Cadê a canga da terceira via? Virou fantasma?”, perguntou o ex-deputado Marcus Pestana, pré-candidato do PSDB ao governo de Minas, ao passar pelo local. Ninguém sabia, naquela calçada, o que era terceira via.

Defensor de uma candidatura única do chamado “centro democrático” para a sucessão de Bolsonaro, Pestana avalia, porém, que é o PSDB, e não o MDB, quem deve liderar a chapa, caso queira se manter no mapa político. “Se houver fragmentação, será a crônica da morte anunciada”, disse o ex-deputado, um dos coordenadores das prévias tucanas.

Vinicius Torres Freire: O estelionato no preço da energia

Folha de S. Paulo

Bolsonaro quer jogar a conta da inflação da energia no colo de alguém a fim de se salvar na eleição

"Nós já saímos do inferno [da inflação]", disse Paulo Guedes nesta quinta-feira (19). A carestia está feia mesmo é na Holanda e na Inglaterra, afirmou o ministro da Economia.

Parece que Jair Bolsonaro e seus cúmplices no Congresso não pensam assim. Em desespero, a cada dia aparecem com ideias alopradas de meter a mão em preços, empresas ou na receita dos estados a fim de evitar aumentos de eletricidade e combustíveis pelo menos até a eleição.

Não vai dar certo, a baderna da economia vai aumentar, com prejuízos gerais, e os reajustes podem ser ainda maiores depois da eleição. É uma mistura de estelionato eleitoral, burrice e incompetência até na demagogia.

Na quarta-feira, Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara, disse que o Congresso vai suspender o reajuste da conta de luz se o governo não arrumar uma solução para os aumentos, que na média nacional devem ficar em torno de uns 19%. Nesta quinta-feira, Lira disse que vai colocar em votação na semana que vem um projeto que define telecomunicações, energia, combustíveis e transportes como "essências". Assim, a alíquota de ICMS desses serviços não poderia passar de 17% ou 18%, a depender do estado.

Marcus Pestana*: Estado e privatizações

Esta semana o TCU autorizou a privatização da Eletrobras. A empresa é responsável por 30% da geração de energia, possuí 40% das linhas de transmissão e é a maior empresa de energia da América Latina. É uma empresa de capital aberto, sendo o governo federal o controlador, com 72% das ações.

Privatização sempre foi assunto polêmico. Há muitos preconceitos ideológicos envolvidos no tema. Na verdade, o usuário de energia, sejam famílias ou empresas, ao acender o interruptor de luz ou ligar uma tomada na parede não se pergunta se a geração, transmissão e distribuição é feita por uma estatal ou por uma empresa privada. Oque querem é segurança no fornecimento, qualidade, tarifa justa e acesso.

Os obstáculos ideológicos à privatização não resistem ao teste da história. A primeira hidrelétrica da América Latina foi fruto do empreendedorismo do empresário schumpeteriano Bernardo Mascarenhas, que, em 1889, ergueu o Complexo Hidrelétrico de Marmelos, em Juiz de Fora, para gerar energia para sua indústria têxtil e para a cidade. Portanto, a energia elétrica no Brasil nasceu de um investimento privado.

No presente, existem diversas operações privadas na área. Um exemplo, também da Zona da Mata mineira, é o Grupo Energisa S.A., fundado em 1905, com sede em Cataguases, que atende a 16 milhões de brasileiros, com excelente nível de satisfação de seus clientes. Isto demonstra que a questão central não é a energia ser estatal ou privada. O que importa é ter boa contratação e regulação.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Editoriais

Bolsa Família sofreu retrocesso ao se tornar Auxílio Brasil

O Globo

O Bolsa Família é citado dentro e fora do Brasil como exemplo de política social bem-sucedida. De forma direta ou indireta, atingia 40 milhões de brasileiros carentes, garantindo subsistência a um custo relativamente baixo, em torno de 0,4% do PIB. Para alcançar o objetivo estratégico de quebrar a transmissão da miséria de geração a geração, mantinha foco e exercia cobrança de contrapartidas dos beneficiários — visitas periódicas ao posto de saúde, vacinação em dia e frequência escolar dos filhos. O registro de desvios sempre foi mínimo.

Por tudo isso, é extremamente preocupante a deterioração da qualidade dessa política pública exitosa desde que foi transformada no Auxílio Brasil, o programa eleitoreiro criado pelo presidente Jair Bolsonaro para chamar de seu e ostentar nos palanques. Em vez de persistir na trajetória que assegurou ampliação, evolução e êxito do Bolsa Família ao longo dos governos Fernando Henrique, Lula e Dilma, Bolsonaro tem promovido uma razia nos princípios que sempre o regeram.

O desmonte se acentuou a partir da pandemia. Como o auxílio emergencial distribuído em 2020 e 2021 destinava-se a parcela maior da população, o coronavírus serviu de pretexto para a suspensão da cobrança de contrapartidas daqueles que recebiam o Bolsa Família. Ao mesmo tempo, criou-se uma pressão maior no caixa do Tesouro. Para o lançamento do Auxílio Brasil, com valor estipulado em R$ 400 sem nenhum tipo de critério ou embasamento técnico, o custo do programa passou a cerca de 1% do PIB, sem que houvesse ganho correspondente na eficácia. Eis uma das razões para a ruptura do teto de gastos no Orçamento deste ano.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade: Consolo na Praia

 

Música | Joyce Cândido: Feitio de Oração (Noel Rosa e Vadico)

 

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Fernando Abrucio*: A derrota do futuro para o passado

Valor Econômico

Em vez de buscar um novo arranjo a maioria dos líderes insiste em reforçar as brigas e as animosidades pretéritas, num jogo entrópico

O passado está vencendo o futuro do país em duas frentes. A primeira é a bolsonarista. O projeto de Bolsonaro não só elogia o passado, inclusive o macabro mundo das torturas, como é vazio de propostas para modernizar o Brasil nos próximos anos. Surpreendentemente, a oposição também não consegue se livrar dos problemas pretéritos. Uma combinação de políticas dos rancores com a falta de uma proposta para além do curto prazo gera uma paralisia de ação e de proposição. Neste cenário, as candidaturas movem-se pelo retrovisor, quando a sociedade espera um norte mais amplo para enfrentar os desafios do século XXI.

Bolsonaro é um presidente saudosista, tanto da ditadura militar quanto de um mundo conservador idílico que teria havido no passado, quando o patriarcalismo podia vender uma falsa ideia de harmonia entre todos os grupos sociais. O autoritarismo e a política dos valores radicais se encontram nesse modelo mental. Seus inimigos são a Constituição de 1988, com sua proposta de universalização de direitos por meio de políticas públicas e de democratização do sistema político, bem como as visões mais recentes sobre o meio ambiente, a questão de gênero, a igualdade racial e a maior preocupação das empresas com seu impacto na comunidade - o bolsonarismo critica fortemente o modelo de ESG nas redes sociais.

O projeto bolsonarista tem um referencial em tendências do presente, em especial a visão de extrema direita ao estilo de Viktor Orbán. Mas esse modelo húngaro não apresenta nenhuma ideia relevante sobre como enfrentar os enormes desafios contemporâneos. O mesmo cenário se repete com Bolsonaro: ele não tem nenhuma proposta consistente para resolver os dilemas da educação, da saúde, das questões urbanas, da temática ambiental e, sobretudo, da desigualdade e da pobreza sob os marcos da realidade contemporânea.

O máximo que o bolsonarismo nos apresenta é uma distopia: um mundo dominado pela sociedade completamente armada, por empreendedores que agem como predadores ambientais, por nenhuma garantia de direitos trabalhistas, pela destruição da ciência, pela colonização da escola por doutrinadores religiosos e pela aliança do atraso oligárquico do Centrão com o projeto autoritário de poder eterno da família Bolsonaro. O futuro do Brasil bolsonarista seria como um Mad Max tupiniquim, só que com maior predomínio masculino no comando do caos.

A distopia bolsonarista não é só o mundo caótico que propõe. Ela começa, na verdade, com a ameaça de golpe caso não vença a eleição, ou caso ganhe a Presidência da República e não consiga governar de forma autocrática por conta dos controles democráticos advindos do STF, do Congresso Nacional e da Federação. É importante frisar que o uso de métodos autoritários está no horizonte próximo tanto na hipótese de derrota como na de reeleição. Isso ocorre porque Bolsonaro não vislumbra sair do poder tão cedo nem ter uma oposição que funcione como limitadora de sua autoridade, o que o torna um obstáculo para qualquer futuro alternativo e baseado num projeto mais plural de sociedade, atento às tendências e desafios do século XXI.

Diante desta distopia bolsonarista, a oposição deveria apresentar-se como uma porta para um novo futuro. Só que o passado também tem dominado a estratégia e mesmo a agenda dos oposicionistas, da chamada terceira via ao lulismo. A primeira razão está na força da política do rancor em sua lógica de atuação. Os partidos e lideranças políticas ainda não se recuperam do trauma disruptivo que se iniciou em 2013, a partir do qual grande parcela do sistema partidário desestruturou-se completamente, em especial o centro democrático. Mas, em vez de buscar um novo arranjo, a maioria dos líderes insiste em reforçar as brigas e as animosidades pretéritas, num jogo entrópico em que o passado engole o futuro.

José de Souza Martins*: Religião e mudança política

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

O que o aumento do número de pessoas sem religião diz sobre a política no Brasil. Em SP e Rio, 30% e 34%, respectivamente, dos jovens se declararam sem religião, enquanto os evangélicos são 27% e 32% e os católicos, 24% e 17%

Desde que nos censos brasileiros ganhou visibilidade a diminuição da proporção de católicos no conjunto da população e o aumento da proporção de evangélicos, a questão confessional vem ganhando crescente interesse. Sobretudo em consequência da também crescente promiscuidade de política e religião, o que sugere uma conspiração ideológica e extrarreligiosa para um enquadramento geopolítico do Brasil, promovido por meio de religiões que nele negam suas próprias tradições.

Desde a conferência do general Golbery do Couto e Silva na Escola Superior de Guerra, em 1980, quando ele justificou a chamada abertura política para promover o retorno da política ao seu leito natural, o Estado militar deu indicações nesse sentido. A de esvaziar a crescente importância de igrejas, como a católica e a luterana, na ação política por meio dos movimentos sociais de sua inspiração. Mas ele não se referiu ao crescente envolvimento dos evangélicos na política desde a implantação do regime militar.

A ideia da conspiração não é descabida. Com o novo regime, em 1964, várias foram as indicações de uma tendência à “protestantização” do Estado brasileiro na linha de um fundamentalismo de amansamento e de controle social, na repressão política e em atos de violação dos direitos humanos.

Foi a época de expansão da fronteira econômica, de criação de uma base territorial para o novo capitalismo, baseado na redução dos custos sociais de sua reprodução. Baseada na associação antimoderna entre capital e renda da terra. A chamada modernização conservadora. Socialmente, caracterizou-se ela pelo crescimento do número de evangélicos acima da média na Amazônia Legal, a partir de então. Um novo capitalismo associado a uma nova religiosidade.

Dora Kramer: Trincheira vazia

Revista Veja

Na batalha da ‘fraude’ eleitoral, Bolsonaro vem se transformando num comandante sem tropa

Sinais efetivos e alentadores têm sido dados ultimamente de que o presidente Jair Bolsonaro é um comandante sem tropa na batalha que empreende contra o resultado das eleições de outubro. Qualquer que seja: se for derrotado para dizer que na verdade ganhou e, em caso de vitória, para alegar que a “fraude” se deu na contagem de votos, pois teria vencido por margem muito maior.

Conturbação haverá, como de resto está havendo há três anos com o presidente da República tentando levar o país à exaustão com sua dinâmica de conflito permanente e a ideia de se mostrar maior do que realmente é para intimidar a sociedade e, assim, disseminar a sensação de que a contestação a ele elevaria o risco de uma ruptura institucional.

Nesse aspecto, até obteve sucesso ao conseguir emplacar a tese do “golpe” iminente e tornar o Brasil (ou a parte dele engajada no debate político) refém de uma temática regressiva. Voltamos a discutir sob a óptica do passado para deixar em segundo plano as questões do presente e suas repercussões no futuro.

A realidade paralela de Bolsonaro, no entanto, tem encontrado limites. Por paradoxal que seja, tais limitações decorrem justamente da falta de noção dele sobre pontos a não ser ultrapassados. O presidente colecionou derrotas pontuais ao longo do mandato sempre que seu mundo de ficção entrou em choque com a realidade.

Vera Magalhães: Chega de retrocesso no Legislativo

O Globo

Se é para votar a pauta coalhada de retrocessos que está se desenhando, melhor seria o Congresso emendar festejos de São-João, convenções, recesso, campanha e só voltar a se debruçar sobre esses projetos depois das eleições, quando o clamor das urnas já tiver passado, e a vontade de fazer média com setores do eleitorado não ditar políticas que terão custos para o país, não só orçamentários, mas civilizacionais.

O Senado achou por bem, com outras prioridades para discutir, como a reforma tributária, desenterrar uma Proposta de Emenda à Constituição que, sob a justificativa de promover uma necessária valorização das (já para lá de valorizadas) carreiras da magistratura e do Ministério Público, reedita a antiga prática do pagamento de quinquênios, reajustes salariais automáticos a cada cinco anos trabalhados por juízes, promotores e procuradores.

O penduricalho, um dos poucos retirados da frondosa árvore de benefícios que são os contracheques dessas categorias, foi extinto em 2005. Agora a proposta, que vem sendo defendida pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, seria votada com a condição de ser casada com outra, parada na mesma Casa há meses, que acaba com supersalários e outros privilégios, como auxílios isso e aquilo.

Eliane Cantanhêde: A democracia e o quinquênio

O Estado de S. Paulo

Senado diz defender STF e democracia, mas também quer volta de privilégios do Judiciário

Quando os ministros do Supremo Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e Alexandre de Moraes jantaram com senadores e o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, a versão foi a de que o Judiciário cobrou mais empenho e solidariedade do Legislativo em defesa das instituições. O menu teria sido democracia, democracia, democracia. Mas...

Menos de uma semana depois, o nosso Estadão divulgava a articulação do Senado para aprovar a volta do quinquênio para o... Judiciário. Em resumo, trazer de volta os 5% para funcionários, aposentados e pensionistas, a cada cinco anos. Conta: R$ 7,5 bilhões por ano.

Pode ter sido coincidência, sem que a volta de um privilégio derrubado em 2005 tenha constado nem da sobremesa, nem mesmo do cafezinho, mas coincidências desse tipo pegam mal, diante dos ataques do presidente Jair Bolsonaro ao Supremo, às eleições e à democracia e da crise que devora a comida e o salário do pobre.

Juízes já desfrutam de penduricalhos como 60 dias de férias, auxílio-moradia em comarcas sem residência oficial e até vale-alimentação. E os salários milionários, muito acima do teto? Apesar disso, o senador e advogado Rodrigo Pacheco alterna a defesa da democracia com a da volta do quinquênio para o povo brasileiro pagar.

Cristian Klein: Lula e PT em busca de novos casamentos

Valor Econômico

Tensão com PSB e rejeição a Freixo apontam mudanças para campanha de ex-presidente no Rio

Depois de encaminhada a aliança com o PSD em Minas Gerais, para construir um palanque de Lula no Estado, o PT volta sua atenção para o Rio de Janeiro, onde dirigentes dizem que a situação está em aberto.

No terceiro maior colégio eleitoral do país, o candidato de Lula ao governo é Marcelo Freixo (PSB), mas movimentos internos pressionam pela criação de um segundo palanque, mais centrista.

E de novo com o PSD, com quem o PT almeja costurar uma tríplice aliança nos maiores Estados - São Paulo, Minas e Rio. E preparar, quem sabe, o sonhado casamento nacional de Lula, não com sua agora cônjuge Janja, mas com Gilberto Kassab.

O palanque no Rio passou a dar dor de cabeça ao PT por duas razões. A primeira é a persistência do PSB em querer a vaga de senador na chapa majoritária para o deputado federal Alessandro Molon. Os petistas argumentam que o acordo prevê apenas a candidatura do presidente da Assembleia Legislativa André Ceciliano (PT). Molon está à frente de Ceciliano nas intenções de voto.

A segunda razão é o desempenho aquém do esperado de Freixo. Com alta rejeição nas pesquisas, apesar da tentativa do parlamentar, neste ano, de se livrar da pecha de radical, o PT acendeu o alerta diante da possibilidade de Freixo prejudicar a eleição de Lula no Rio.

Antes na dianteira, o deputado vem sendo ultrapassado pelo governador Cláudio Castro (PL), candidato do presidente e correligionário Jair Bolsonaro, que também sobe, enquanto Lula oscila para baixo.

Angela Alonso*: Percalços de um golpe

Folha de S. Paulo

A observação do passado ensina que o processo golpista não é fácil

"Golpe" é a palavra na ordem do dia. Adquiriu vida maiúscula em língua de políticos e páginas de jornais. Entidade tangível em mesa de bar, reunião de trabalho e almoço de domingo.

Quanto mais se fala, mais cresce a concretude. Antes se aludia ao "fantasma" do golpe, agora se discutem se seus braços são armados e se seu rosto é o presidencial.

Consenso não tem. Discute-se a coisa e seu nome, pois, como em 1889, 1930, 1964, há quem defina a mudança política à força como golpe, como quem a chame de "revolução". Os "revolucionários" atuais se dispõem às armas em nome da "liberdade" de impor o resultado eleitoral. Cantiga ensaiada em falas de presidente e família, de seu círculo político e dos fardados de diferentes forças e patentes.

Bruno Boghossian: Lula e Bolsonaro: cabos eleitorais

Folha de S. Paulo  

Jogo nos estados favorece aposta no petista e no atual presidente como cabos eleitorais

As largas fatias do eleitorado conquistadas por Lula e Jair Bolsonaro se tornaram um ativo importante para os aliados da dupla nos estados. Apesar da impressão de jogo jogado na corrida presidencial, as disputas para governador ganharam um grande potencial de reviravoltas.

O cenário favorece uma aposta em Lula e Bolsonaro como cabos eleitorais nas corridas dos estados. Os números estão em pesquisas realizadas pela Quaest em São Paulo, Minas Gerais, Rio e Bahia –que reúnem quase metade dos votos do país.

Luiz Carlos Azedo: Simone Tebet precisa seduzir caciques do MDB

Correio Braziliense

A legenda é uma federação de caciques regionais, com uma ala governista e outra de oposição que convivem muito bem na divergência, ao contrário do PSDB

Os presidentes do PSDB, Bruno Araújo, e do Cidadania, Roberto Freire, em encontro com o presidente do MDB, Baleia Rossi, decidiram descartar a pré-candidatura do ex-governador João Doria e indicar à cúpula dos respectivos partidos o nome da senadora Simone Tebet (MDB-MS) como a candidata de consenso para unificar a chamada terceira via. O critério adotado foi uma pesquisa para avaliar qual dos nomes teria mais potencial eleitoral: deu Simone, por causa da rejeição de Doria. Agora, seu nome depende da aprovação dos demais dirigentes das três legendas, inclusive do MDB.

A 90 dias do prazo inicial de realização das convenções eleitorais, há um longo caminho a ser percorrido. Tebet terá que superar as contradições internas das legendas, num contexto eleitoral polarizado entre o presidente Jair Bolsonaro (PL) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Há mais dois competidores à frente dela: o ex-governador Ciro Gomes, candidato do PDT, que se mantém em terceiro lugar nas pesquisas, e o deputado André Janones (MG), do Avante, que aparece sempre com 2% nas pesquisas. Ambos, porém, não são levados em conta pelos líderes da terceira via.

Roberto Freire convocou a Executiva nacional da legenda para examinar a proposta, na próxima terça. Não deve haver resistência, porque a ideia de uma candidatura unificada de centro está em sintonia com a tradição política da legenda e Doria é considerado carta fora do baralho pela bancada federal. A maioria do partido era simpática à candidatura de Eduardo Leite, que perdeu as prévias.

O constrangimento para apoiar a senadora do Mato Grosso do Sul era o fato de o PSDB ter um candidato, pois os dois partidos estão federados. Com o ex-governador fora do jogo, a resistência é residual e representada pelo ex-governador Cristóvam Buarque (DF), que defende o apoio a Lula já no primeiro turno.

Reinaldo Azevedo: PSDB, Doria e o inferno do ‘sem-fim’

Folha de S. Paulo

Entre o campo democrático e o processo de fascistização, tucanos escolhem o desastre

A direção do PSDB está a um passo de abrir mão da candidatura de João Doria à Presidência da República. Exceção feita ao próprio Doria e a auxiliares próximos, poucos trabalharam por ela. Isso tem história, mas é escolha ou burra ou oportunista. Talvez falte ler outro João.

Doria vem de duas disputas vitoriosas que fizeram vítimas internas. Mas quem não as fez na política? O próprio PSDB, originalmente, é uma costela do PMDB fraturado por Orestes Quércia. E deu certo. O partido-mãe nunca conquistou a Presidência em eleições diretas. Já a dissidência chegou lá duas vezes e disputou o segundo turno em outras quatro. O ruim pode ficar bom quando se tem rumo. Ou fica pior.

O PSDB como parte desse troço dito "terceira via" — que apelidei "nem-nem" como pilhéria, tomando a expressão emprestada a Roland Barthes —nunca entendeu o conflito. Antes, erro de análise; agora, cálculo. Entre o campo democrático e o processo de fascistização do país, tucanos que apostam em coligações sabidamente inviáveis eleitoralmente escolhem ser periferia do bolsonarismo — e, pois, da fascistização.

Consta que pesquisa interna recomenda a Simone Tebet não criticar nem Lula nem Bolsonaro. É a variante fofa do "nem-nem". É como dizer que, para a democracia, são equivalentes. É o nada! Essa gente, João, esquece que "o demônio não precisa de existir para haver".

Doria aposta em convenção do PSDB para se viabilizar

Cúpula do PSDB tenta evitar que a crise se prolongue até a convenção, sob o risco de prejudicar candidaturas estaduais e à Câmara

Por Marcelo Ribeiro, Raphael Di Cunto e André Guilherme Vieira / Valor Econômico 

BRASÍLIA e SÃO PAULO - Com a decisão dos presidentes do PSDB, MDB e Cidadania de apoiarem junto às direções partidárias a senadora Simone Tebet (MDB-MS) como candidata única à Presidência, o pré-candidato tucano João Doria tenta ganhar tempo para se viabilizar. Doria pretende levar o debate até as convenções partidárias, previstas para serem realizadas entre julho e agosto.

O primeiro passo da estratégia de Doria para tentar postergar a escolha do candidato único desses partidos será questionar na segunda-feira, em reunião com lideranças do PSDB, a pesquisa que levou os dirigentes a defender Simone Tebet como possível presidenciável. O ex-governador tem levantado dúvidas não só sobre o critério de usar pesquisa para definir o nome, mas também sobre os resultados do levantamento, que diz não ter tido acesso.

Segundo apurou o Valor, Doria pedirá tempo para se viabilizar.

Na quarta-feira, os presidentes das três siglas escolheram Tebet e disseram que a decisão se baseou em pesquisas quantitativa e qualitativa feitas no fim de semana passado, mas que não foram divulgadas por não terem sido registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Doria diz que desconhece os números e afirma que não há elementos concretos para tirá-lo da disputa agora, segundo seus aliados. Apoiadores do ex-governador dizem ainda que o tucano está à frente da senadora em pesquisas. “Quem viu a pesquisa? Quais os resultados da pesquisa? A pesquisa é secreta?”, disse o ex-governador em caráter reservado, de acordo com relatos.

A tendência dentro do PSDB, no entanto, é que a ofensiva de Doria pelo adiamento da escolha não surta efeito e que os dirigentes de PSDB, Cidadania e MDB defendam o nome de Tebet com suas lideranças.

Se isso se concretizar, o segundo passo da estratégia de Doria será o de recorrer ao diretório nacional do PSDB, que é mais amplo que a Executiva e tem 170 integrantes.

Bernardo Mello Franco: O dia da caça de João Doria

O Globo

O PSDB quer implodir um candidato com 2% de intenções de voto para apoiar outra candidata com 1%. A troca tem pouco a ver com as chances eleitorais de Simone Tebet. O real objetivo dos tucanos é se livrar de João Doria.

O ex-governador paulista venceu as prévias do partido, que custaram R$ 12 milhões aos cofres públicos. Ganhou, mas não deve levar. Empacado nas pesquisas, ele foi abandonado pela cúpula da sigla. O tiro de misericórdia veio de seu sucessor no Palácio dos Bandeirantes.

Candidato à reeleição, Rodrigo Garcia decidiu se distanciar de Doria, de quem foi vice até o mês passado. Teme que a impopularidade do padrinho inviabilize sua própria campanha.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o governador fez elogios a Tebet e endossou a manobra para descartar o correligionário. “O meu candidato a presidente é a terceira via. Simples assim”, declarou.

A operação para rifar o presidenciável foi pouco sutil. PSDB, MDB e Cidadania encomendaram uma pesquisa para definir o rumo da tal terceira via. Puro pretexto para decretar a inviabilidade de Doria, que agora se diz vítima de um golpe.