quarta-feira, 27 de novembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Caso Carrefour expõe limites do protecionismo

O Globo

Como bom varejista, empresa deveria oferecer a melhor carne pelo menor preço, de qualquer procedência

O recrudescimento do protecionismo ganhou novo capítulo com a declaração do presidente global do varejista Carrefour, Alexandre Bompard, de “não comercializar nenhuma carne do Mercosul” nas lojas francesas “em solidariedade” a pecuaristas locais. Bompard questionou a qualidade do produto sul-americano. Mais que fazer demagogia com o público francês, ele deixou claríssimas as limitações do discurso protecionista que tem se disseminado mundo afora.

União Europeia e Mercosul estão perto de anunciar a conclusão do esperado acordo de livre-comércio. Agricultores franceses estão entre seus maiores opositores no continente e têm feito de tudo para tentar impedi-lo.

Revoltados com a declaração de Bompard, produtores brasileiros passaram a boicotar as lojas do Carrefour por aqui. Com o risco de desabastecimento na operação que responde por um quarto do faturamento global do grupo, o Carrefour publicou nota para se retratar. O texto ignora o principal. Como bom varejista, o Carrefour deveria declarar que ofereceria a melhor carne pelo preço mais baixo, independentemente da procedência. Em vez disso, afirma que continuará a comprar “quase exclusivamente” o produto francês na França e o brasileiro no Brasil. Não houve mudança prática.

Dano duradouro às instituições - Vera Magalhães

O Globo

Dizer que o golpismo foi extirpado do ecossistema militar seria não só precipitado, mas um erro grave

Muito já se sabia dos fatos finalmente reunidos nas 884 páginas do relatório final da Polícia Federal sobre o inquérito aberto para investigar uma tentativa de golpe ainda na vigência do governo Jair Bolsonaro. Mas a consolidação das informações a respeito da abrangência da conspiração não deixa dúvida: o grau de corrosão institucional que permite que tantos níveis hierárquicos sejam mobilizados para consolidar um plano para abolir o Estado Democrático de Direito não se corrige em dois anos, e seus danos são prolongados.

Será necessário, além de julgar com presteza e sentido de urgência e de punir com o rigor da lei aqueles que atuaram na trama golpista, atuar para descontaminar permanentemente esses órgãos de Estado, sobretudo as Forças Armadas e, dentro delas, o Exército Brasileiro dos muitos desvios comprovados pelo inquérito.

Alguns desses vícios não são novos, mas foram ressuscitados por Bolsonaro de forma sistemática e bem anterior a sua própria eleição. Tudo começou com a atuação do ex-capitão — patente, aliás, que só obteve como espécie de prêmio de consolação incompreensível depois de seu afastamento do Exército justamente por tentar promover uma sublevação — como uma espécie de líder sindical das famílias militares no tempo em que foi deputado do baixo clero.

A última covardia - Bernardo Mello Franco

O Globo

Ex-presidente fugiu do país para evitar prisão e torcer pelo golpe à distância, conclui PF

Foram 44 dias de silêncio. Depois de perder o segundo turno da eleição, Jair Bolsonaro recolheu a língua e saiu de cena. Sem admitir a derrota, o capitão abandonou o Planalto à deriva. Entrincheirou-se no Palácio da Alvorada, onde maquinou um golpe para permanecer no poder.

Em 9 de dezembro de 2022, o ainda presidente interrompeu a clausura. Cercado por seguranças, caminhou até o espelho d’água da residência oficial, onde era aguardado por uma claque em verde e amarelo.

“Hoje vivemos um momento crucial. Uma encruzilhada. Um destino que o povo tem que tomar”, discursou, como se a eleição não tivesse acabado. “Quem decide o meu futuro, para onde eu vou, são vocês. Quem decide para onde vão as Forças Armadas são vocês”, prosseguiu.

Massu, um patrono dos Kids Pretos – Elio Gaspari

O Globo

O general não comia mel, comia abelha

Com sua boina preta, o general francês Jacques Massu (1908-2002) foi um modelo de oficial das tropas de elite do Exército francês. Em 1940, era capitão quando a França rendeu-se à Alemanha. Estava na África e juntou-se a tropas que atenderam ao chamado do general Charles de Gaulle. Quatro anos depois, desembarcou com as tropas aliadas na Normandia. No fim da tarde do dia 25 de agosto de 1944, estava debaixo do Arco do Triunfo, em Paris.

Passaram-se os anos e, em 1957, a Quarta República francesa enfrentava uma insurreição na Argélia. Um governador socialista entregou a repressão ao coronel paraquedista Jacques Massu. Foi a Batalha de Argel. Em oito meses, Massu neutralizou a insurreição na cidade, matando e torturando insurretos. (Ele aplicou-se choques elétricos para avaliar o efeito do suplício.)

Um grande pequeno vizinho - Zeina Latif

O Globo

Com instituições mais frágeis, o Brasil depende mais da sorte do que o Uruguai para ter lideranças políticas capacitadas para avançar

O Uruguai destoa positivamente dos demais países da América Latina, em muitas frentes. Tem o segundo maior PIB per capita da região, depois do Panamá, e o melhor balanço entre grau de desigualdade e renda per capita – afinal, nada adianta todos serem igualmente muito pobres, como o Haiti.

O índice de Gini (quanto mais baixo o valor, menor a desigualdade) estava em 40,6 em 2022 para um PIB per capita de US$32,7 mil, ante as cifras do Brasil de 52,0 e US$19,9 mil, respectivamente.

Na educação, as notas no PISA (programa internacional de avaliação da educação fundamental) estão atrás apenas das do Chile. A nota em matemática, por exemplo, foi 466 em 2022 ante 379 no Brasil. Igual retrato é observado no índice de desenvolvimento humano.

Indiciamento de Bolsonaro catapulta Caiado – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Além do presidente Lula, quem muito se beneficia eleitoralmente da situação de Bolsonaro é o governador de Goiás, pré-candidato a presidente da República em 2026

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) está irremediavelmente fora das eleições presidenciais de 2026. Ao ser indiciado pela Polícia Federal como líder da organização criminosa que planejou um golpe de Estado para mantê-lo no poder, após a derrota nas eleições de 2022, a estratégia que vinha sendo implementada pelo PL para aprovar uma anistia aos participantes do 8 de janeiro de 2023 e, no embalo, reverter a inelegibilidade de Bolsonaro, não tem chance de dar certo.

Bolsonaro está sendo abandonado pelos aliados, inclusive os que apoiou nas últimas eleições, como o prefeito Ricardo Nunes (MDB-SP), que tomou distância regulamentar do ex-presidente já no dia em que foi anunciado o resultado das eleições. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (PR), que chegou a classificar o indiciamento como “carente de provas” e argumentar que Bolsonaro respeitou o resultado da eleição, na mesma entrevista, espertamente, fez a ressalva de que as investigações deveriam ser conduzidas com “responsabilidade e foco na verdade dos fatos”.

Não haverá vácuo no espaço de Bolsonaro - Fernando Exman

Valor Econômico

Ao centro e à direita já se desenha um cenário em que várias legendas tentarão disputar os eleitorados antipetista e antissistema

A convocação de Jair Bolsonaro chegou de repente, por volta das 17h, cerca de duas horas e meia antes de seu avião pousar em Brasília. O ex-presidente avisava a jornalistas e parlamentares que falaria com os presentes após desembarcar. “Sugiro que algum assessor seu se faça presente e abra uma ‘live’”, acrescentou aos aliados.

Por dever de ofício, a imprensa profissional se fez presente. Era preciso ouvi-lo sobre as novas revelações da tentativa de golpe de Estado ocorrida em 2022. Os apoiadores eram mais barulhentos do que numerosos.

A cena pode ser usada para embasar a tese de ministros do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de que Bolsonaro (PL) rachou o que até então era considerado o seu campo político. Ao atuar contra aliados durante as eleições municipais, dizem interlocutores de Lula, acabou facilitando os futuros planos eleitorais do governo.

PF mostra como Bolsonaro comandou a operação golpista - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

A atuação do ex-presidente não decorre do desespero ante a perspectiva de ver o poder se esvair com uma derrota eleitoral, mas é uma estratégia construída desde sua posse

São 884 páginas, mas o coração do relatório da Polícia Federal está em apenas sete. É nelas que está a fundamentação daquilo que se busca desde o início desta investigação: a centralidade do ex-presidente Jair Bolsonaro no planejamento, coordenação e execução da tentativa de golpe.

É preciso chegar à página 841 para se deparar com o capítulo “Jair Bolsonaro”, o nº 21 dos indiciados, que abre pela conclusão “inequívoca” de que o ex-presidente “planejouatuou e teve o domínio de forma direta e efetiva dos atos executórios realizados pela organização criminosa que objetivava a concretização de um golpe de Estado e da abolição do Estado Democrático de Direito, fato que não se consumou em razão de circunstâncias alheias à sua vontade”.

O que Jair Bolsonaro merece é a cadeia - Fabiano Lana

O Estado de S. Paulo

Ao que tudo indica, o golpe não foi para a frente porque parte da Cúpula das Forças Armadas evitou a acompanhar o presidente e seus assessores marginais numa aventura inconsequente

Essa não é uma coluna sobre questões jurídicas. Mas sobre merecimento. Sobre os castigos adequados como aprendizado para condutas inadequadas das figuras públicas. Nesse sentido, o que merece um ex-presidente da República que cogitou dar um golpe militar para continuar ilegalmente no poder por meio da força bruta a não ser a cadeia? Atualmente o ex-presidente e seus asseclas nem negam mais quais eram suas intenções, apenas tentam colocar o crime dentro de outras molduras, como a de ter cogitado um “estado de sítio”, algo assim. Mas o que fizeram, ou mesmo tiveram a intenção de fazer, além de começarem a executar, é algo que obriga ao castigo, a enviar a todos por um longo tempo para o xilindró.

Mas vivemos no Estado de Direito. Nesse sentido Bolsonaro deve ter acesso a toda defesa possível e pode ser que escape ileso, em hipótese. Pulularam uma série de juristas para dizer que, apesar do plano para destruir a democracia brasileira ser repudiável, etc., na verdade o que houve não pode ser tipificado como um crime. É como se admitissem, veja, que o direito pode ser o refúgio dos canalhas. Numa adaptação aqui da frase do escritor inglês Samuel Johnson, que na verdade se referia ao uso cínico do patriotismo para justificar o injustificável.

O alerta de Toffoli para Bolsonaro - Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

‘O senhor acha que, se houver um ato de força, os generais vão deixar um capitão assumir o poder?’

No dia 19 de dezembro de 2022, Jair Bolsonaro participou de um jantar, em Brasília, na casa do então ministro das Comunicações, Fábio Faria. Mas quem pediu para que Faria organizasse o encontro foi o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli. Preocupado com a relutância de Bolsonaro em admitir a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, Toffoli chamou o então presidente para uma conversa reservada após o jantar.

“O senhor acha que, se houver um ato de força, os generais quatro estrelas vão deixar um capitão assumir o poder?”, perguntou o ministro do STF.

A poucos dias do fim do mandato, o presidente ficou em silêncio. Depois, negou que estivesse planejando um golpe. Admitiu, porém, que temia a prisão e a perseguição política, principalmente contra seus filhos. Afirmou, ainda, que jamais passaria a faixa para Lula.

Donald Trump e a picanha – Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Inflação de alimentos não para, republicano anuncia confusão, dólar fica nas alturas

Donald Trump já prometeu aumentar imposto sobre produtos importados de México, Canadá e China. Mais do que nunca, guerra comercial de outros países deixou de ser assunto distante da nossa vidinha de ir ao supermercado e de pagar contas. A depender do que o presidente eleito dos EUA de fato vier a fazer, o conflito no comércio pode derrubar uma sequência de dominós que vai afetar o preço do dólar aqui e, pois, a inflação.

O caldo econômico pode ficar azedo para a política, para o governismo. A carestia não está descabelada. Mas o IPCA está bem acima da meta do Banco Central. Inflação perto de 5% neste ano aumenta a "inércia" (remarcação de preço pela inflação passada, por hábito ou por contrato).

Então era assim o tão prometido golpe? – Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Bolsonaro e seus chegados nunca tentaram enganar ninguém: o poder pela força era opção clara

Sempre foi evidente que Bolsonaro e seu círculo íntimo só não dariam um golpe de Estado se não tivessem os meios ou as oportunidades necessárias; motivação nunca faltou, e eles nunca esconderam isso. Se tivessem obtido sucesso, teria sido, provavelmente, o golpe mais anunciado da história.

De fato, a cada obstáculo imposto pelo Poder Judiciário aos seus apetites, Bolsonaro respondia com ameaças histéricas de desrespeitar a Constituição, ignorar decisões judiciais e utilizar as Forças Armadas contra quem lhe contrariasse as vontades. Por várias vezes, de sua cercania e com o seu envolvimento direto, saíram as diretivas para que movimentos bolsonaristas, como caminhoneiros financiados pelo agronegócio, policiais e militantes radicais, voltassem sua fúria contra instituições e indivíduos. Ou, simplesmente, gerassem o caos necessário para justificar o uso da força policial ou militar.

Duro de matar - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Horror a dissonâncias cognitivas explica resistência de bolsonaristas em aceitar informações desfavoráveis ao ex-presidente

Parte significativa dos 25% de eleitores que se declaram bolsonaristas convictos continuará a bater continência para o ex-presidente independentemente do que a Justiça prove contra ele.

Isso tem muito a ver com a arquitetura de nossos cérebros, que têm horror a dissonâncias cognitivas. Elas se dão quando existe uma contradição entre ideias nas quais temos grande investimento emocional e a realidade. Esse choque é mentalmente doloroso, daí que o cérebro se vale de subterfúgios para reduzir a distância entre o desejado e o verificado. São as autojustificativas.

Os comandantes e a rataria - Bruno Boghossian

Folha de S. Paulo

Relatório final mostra como ex-presidente e a 'rataria' executaram plano para anular eleições

Jair Bolsonaro ouviu "não" dos comandantes do Exército e da Aeronáutica mais do que uma única vez. O relatório final do inquérito do golpe mostra que o então presidente buscou quatro vezes a adesão da dupla. Em certo momento, ele tentou driblar os chefes militares para seguir adiante com a trama.

O brigadeiro Baptista Júnior contou que, até 14 de novembro de 2022, o então presidente parecia "resignado com o resultado das eleições". Naquela data, Bolsonaro convocou os comandantes para apresentar o relatório contratado pelo PL para pedir a anulação das eleições.

A liberdade em quarentena - Antonio Lavareda*

Correio Braziliense

'Às velhas formas de supressão das liberdades vem se somar agora a estratégia do iliberalismo, promovida pela ultra direita internacional. Nela, a democracia é corroída por dentro'

No Ocidente, que é onde minha vista alcança, a questão da liberdade nesses tempos remete sobretudo ao medo. Como o professor Sul-coreano-alemão, Chul Han, descreve, “a liberdade não é possível onde reina o medo. Medo e liberdade se excluem mutuamente”. O medo aprisiona a sociedade. Contraposto ao espírito da esperança, sobretudo à esperança ativa, comprometida com movimentos de busca do progresso, ele a deixa em permanente quarentena (Byung-Chul Han, 2023).

Por certo, isso não signica esquecer o fato de que há diversos países no hemisfério que enfrentam essa questão na dimensão mais concreta, dura, primitiva - de histórica privação de liberdades públicas. Países onde nunca houve instituições propriamente democráticas, a exemplo entre outros de Zimbábue, Ruanda, Gabão ou Burundi. Outros há em que elas existiram mas foram interrompidas por revoluções autodenominadas democratizantes, mas que se corromperam em regimes autoritários como Cuba, Venezuela e Nicarágua.

Ninguém escreve ou faz a História sozinho - Ivan Alves Filho

Um dos maiores equívocos que um historiador pode cometer é desconhecer as contribuições daqueles que o precederam. Às vezes, mais do que um equívoco, é também uma mesquinhez. A História vive em permanente construção, já ensinava um grande mestre que tive, Pierre Vilar. Com um grande amigo seu, Nelson Werneck Sodré, eu aprendi a necessidade de nunca perder de vista que a História é um processo, e que devemos sempre unir o particular ao geral para entender a sua marcha. E que toda obra data, por maior que seja, de certa forma. 

Nelson abordou inúmeros terrenos do conhecimento, da História à Geografia, da Literatura à Política, da Estética à Cultura Brasileira, sem deixar de ser um observador atento das ciências naturais. Não posso esquecer a sua generosidade em aceitar dividir comigo a publicação do livro Tudo é Política, que assinamos e lançamos juntos no Rio de Janeiro. Pela primeira vez, o grande historiador marxista e general de Exército participava de um lançamento, o qual se deu no Paço Imperial, palco das lutas memoráveis pela Independência brasileira. Para alguém como ele, que dedicou toda sua vida à transformação social do país, não poderia haver um local mais indicado ou simbólico. 

O leão e a gazela – Gaudêncio Torquato*

Jornal da USP

Daqui a pouco, chega dezembro, o mês que carrega um largo espaço para reflexão. Um tempo que nos convida a pensar sobre as nossas vidas, a partir da insensatez desses tempos turbulentos. Tempo de recauchutar o espírito. Aproveito para sugerir uma pauta temática, pinçando fatos, historinhas e um apólogo, escolhidos para iniciar uma breve leitura do cotidiano.

Há dias, um empresário foi assassinado no aeroporto de Cumbica, em São Paulo, ao voltar com a namorada de uma a viagem a Alagoas. Fuzilado, a mando, dizem, do PCC. Pretendia fazer de sua delação premiada passaporte para continuar a viver a vida na festança. Dispensou, incrível, a cobertura do programa de “proteção à testemunha”. Arriscou-se, assim, ao fuzilamento, achando que policiais contratados para proteger seus passos lhe garantiriam plena segurança. A investigação levanta suspeitas sobre seus seguranças.

Poesia | Poema em linha reta, de Fernando Pessoa

 

Música | Gal Costa - Cravo e Canela (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)

 

terça-feira, 26 de novembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

STF deve invalidar artigo 19 do Marco Civil da Internet

O Globo

Trecho que exime plataformas de responsabilidade por conteúdo viola direitos constitucionais

Está marcado para quarta-feira o início do julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), da constitucionalidade da regra que estabelece quando as plataformas digitais devem ter responsabilidade por conteúdos publicados por seus usuários. O artigo 19 do Marco Civil da Internet prevê que elas são passíveis de punição somente se receberem decisão judicial determinando a remoção e se negarem a obedecer. Passados dez anos da criação da lei, tal critério se revelou inadequado. As evidências estão por todos os lados: dos danos causados pela disseminação de racismo e discurso de ódio aos atentados contra a saúde pública, a privacidade ou a democracia. O salvo-conduto proporcionado pelo artigo 19 é inconstitucional por um motivo simples: fere o direito fundamental dos brasileiros, incapazes de buscar ou de obter reparação na Justiça, pois o estrago já está feito quando sai a decisão.

Democracia prevaleceu - Merval Pereira

O Globo

Tendência democrática se impôs no Alto Comando e não permitiu que os aloprados bolsonaristas prevalecessem. Foi bom para o Brasil

Uma decorrência do fracassado golpe militar organizado por partidários radicalizados do então presidente Bolsonaro é o fortalecimento institucional do Alto Comando das três Forças Armadas, sobretudo a mais decisiva delas, o Exército. Nele, segundo as contas dos golpistas, “três querem muito, cinco não querem, e o resto fica na zona de conforto”, referindo-se aos generais de quatro estrelas que, no final das contas, decidem a parada.

Decidiram a favor da sustentação da democracia, mesmo que provavelmente a maioria não gostasse da vitória de Lula. Essa geração militar que manteve um embate surdo nos bastidores é formada por grupos que ainda se ressentem de ter perdido o poder com o fim da ditadura militar iniciada em 1964, e grupos democráticos que entenderam que a experiência ditatorial não foi boa para a farda nem para o país.

'Força, kid preto', 'caveira': o som e o risco do golpe - Míriam Leitão

O Globo

Diálogos entre militares, cheio de palavrões e saudações de bando, mostram a desenvoltura com que preparavam o golpe

Tudo o que não se pode fazer neste momento é subestimar as revelações trazidas pela investigação da Polícia Federal. Não era um grupo pequeno de aloprados, um exército de Brancaleone. Era uma conspiração perigosa, bem plantada no coração do poder. O palavreado chulo e a linguagem de facção criminosa trazidas pelos áudios só agravam o fato de que os golpistas eram militares de alta patente e autoridades no Palácio do Planalto, dentro do Estado, com poder real de mobilizar tropas e impor um retrocesso institucional de 50 anos no país.

A minuta do gabinete de crise, encontrada com o general Mário Fernandes, tinha organograma e estratégia de um governo autoritário, semelhante ao pior momento da ditadura. Parece surreal, mas eles falavam sério, eles tinham as armas, eles preparavam a estrutura do novo poder e tinham planos homicidas. As conversas foram em parte transcritas no relatório da PF, mesmo assim é um espanto ouvir o que falavam. Os áudios foram divulgados pelo repórter Maurício Ferraz, do Fantástico, no domingo e, ontem, no Blog de Fausto Macedo, do Estado de S. Paulo.

Golpe sangrento fugiria à nossa tradição – Pedro Doria

O Globo

Nossas ditaduras estavam num degrau mais ameno da barbárie vizinha. Jair Bolsonaro liderou o rompimento disso

Há dois tipos de golpe de Estado em nossa cultura latino-americana. O português e o espanhol. António Salazar chegou ao poder em Lisboa por meio de um pacto sem sangue. Francisco Franco sangrou espanhóis aos milhões para chegar ao poder em Madri. Nós, lusos, buscamos o acordo. Os espanhóis puxam o sabre. Foi assim na Inquisição Católica, na colonização das Américas. É assim com golpes. O bolsonarismo ignorou nosso traço cultural e planejou um golpe sangrento. Um golpe espanhol na terra do Brasil.

Não é que não sejamos violentos. Somos. Mas a violência, nós a escondemos nos porões da tortura, nas senzalas, no interior da mata. O rosto que mostramos em público pode ser um disfarce, mas é também pudor de esconder a barbárie.

Arrogância do Carrefour lembra a "guerra da lagosta" – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O presidente Lula da Silva precisa tomar cuidado para não embarcar numa espécie de “guerra do filé mignon”, por causa das declarações do presidente mundial do grupo Carrefour

Foi em 1955 que tudo começou. O empresário americano Davis Morgan se estabeleceu em Fortaleza e incentivou a captura de lagosta nas praias do Ceará com fins comerciais, atividade que se espalhou pelo litoral do Brasil, particularmente do Nordeste. Foi uma revolução na indústria de pesca e na vida dos pescadores de Caponga (Cascavel-CE), Morro Branco (Beberibe-CE) e Aracati (CE). A pesca era artesanal, porém, havia um grande mercado a explorar: a lagosta era uma iguaria da alta gastronomia, principalmente a francesa.

Morgan seria o pivô de uma crise entre o Brasil e a França, oito anos depois, porque os franceses resolveram dispensar os intermediários e vir pescar as lagostas na costa brasileira. Era um momento delicado da vida mundial, pautada pela Guerra Fria entre o Ocidente e a antiga União Soviética. Desde a campanha “O petróleo nosso”, havia um forte movimento nacionalista no Brasil.

Diante da presença de franceses na costa brasileira, o governo resolveu mobilizar a Marinha para impedi-los de pescar. A chamada “guerra da lagosta”, entre fevereiro e março de 1963, irrompeu um mês depois do plebiscito que acabou com o parlamentarismo (1961-1963) e restabeleceu o presidencialismo no Brasil. O presidente João Goulart precisava demonstrar força e coesão militar.

Criaram a emenda de liderança partidária - Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

A vida continua no Brasil. Há governo. Congresso. E há os acordos que firmam. Há Lei de Diretrizes Orçamentárias a ser votada. Lei Orçamentária Anual a ser votada. Inexistente ainda um calendário para definição do Orçamento de 2025. Tudo oportunidade.

Muita agenda, várias as distrações. Escasso o tempo. Convocada a urgência. Tudo posto para a glória das emendas parlamentares, a boiada do orçamento secreto passando ao largo intocada.

Intocada não. Sofisticada. Há acordo.

Alexandre Padilha informa que Lula sancionará o texto me-engana-que-eu-gosto de “mais transparência” às emendas parlamentares e, ato contínuo, enviará outro projeto propondo condições para que o governo possa bloqueá-las em até 15%. O Congresso cede um tantinho. Há acordo.

Quem é quem na ‘rataria’? - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Ao se embolarem com a ‘rataria’, onde os golpistas esqueceram ‘Deus, Pátria e Família’?

O plano de golpe de Estado envergonha e empurra as Forças Armadas para o fundo do poço, ao incluir assassinatos, Estado de Defesa e diálogos assombrosos, embolando generais e coronéis da ativa com gente da pior espécie, como um argentino trapaceiro, um padre sem princípio e o capitão Ailton, chamado de “bandido” no Exército… A “rataria”, como definiu um dos próprios golpistas, aliás, muito bem.

A história é escabrosa, com fuzis e até granadas para a prisão e eventual execução do ministro do Supremo Alexandre de Moraes, então presidente do TSE, em plena capital da República.

Foi isso que os “kid pretos” desmascarados e presos aprenderam nas academias militares e nas Forças Especiais do Exército? A andarem em más companhias, serem golpistas, antipatrióticos, assassinos e anticristãos? Onde ficam “Deus, Pátria e Família”?

A extrema direita tende a manter o eco - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Trava à responsabilização das redes sociais no STF mantém livre a avenida para a extrema direita a despeito do golpismo

Depois da explosão do homem-bomba a poucos metros do Supremo Tribunal Federal e da operação-relatório da Polícia Federal sobre o golpismo assassino, seria natural esperar um refluxo das notícias falsas nas redes sociais e o acabrunhamento da extrema-direita e de seus sócios bem postos no centrão da política. Só que não.

Neste início de semana divisora dos rumos do governo no segundo biênio, não é uma coisa nem outra o que se divisa. A começar pelo julgamento que está em pauta, no STF, sobre a responsabilização das plataformas de internet e redes sociais pela veiculação de conteúdo falso e danoso.

Marcado para o dia 27, o julgamento pode nem mesmo começar, tamanha a resistência oferecida pelas plataformas. Não apenas do X, de Elon Musk, agora ainda mais poderoso depois da eleição de Donald Trump, mas de todas as gigantes do setor, como Google, Meta e Microsoft.

Revisão do 6x1 é inevitável, mais cedo ou mais tarde - Pedro Cafardo

Valor Econômico

Discussão sobre a semana de trabalho pegou de surpresa a esquerda e a direita no país e tende a ignorar a atual polarização política

A redução da jornada de trabalho é um tema antigo, bastante discutido e vem sendo implementada em países há décadas. Voltou à discussão no Brasil, porém, com a apresentação da PEC da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), propondo diminuição da escala de dias de trabalho e descanso de 6x1 para 4x3.

O tema remete à memória do sociólogo italiano Domenico De Masi (1938-2013), que em 1995 lançou na Europa o livro “O Ócio Criativo”, traduzido para o português quatro ou cinco anos mais tarde. De Masi combatia a ideia de que o ócio seria associado à preguiça e à improdutividade e o considerava essencial para o florescimento da criatividade e do bem-estar das pessoas. Assim como já teria ocorrido no passado, o ócio contribuiria para avanços na ciência, na arte, na tecnologia e na própria economia em geral.

O livro de De Masi foi um best seller mundial - era revolucionário naquele fim de século XX. No Brasil, a obra também fez sucesso, e o sociólogo “adotou” o país, a ponto de lançar um novo livro primeiramente em português.

Os fatores decisivos para o futuro de Lula 3 - Christopher Garman

Valor Econômico

Política econômica de Trump e corte de gastos prestes a ser anunciado terão grande influência sobre as perspectivas econômicas dos próximos dois anos - e, por tabela, sobre as chances de reeleição

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva vive um momento crítico diante de dois eventos decisivos para a segunda metade de seu governo: os rumos da política econômica do recém-eleito Donald Trump nos EUA e o pacote de corte de gastos que a equipe econômica está prestes a anunciar. Combinados, ambos terão grande influência sobre as perspectivas econômicas dos próximos dois anos - e, por tabela, sobre as chances de reeleição de Lula.

Os efeitos mais importantes da eleição de Trump sobre o futuro político do Brasil não virão da relação bilateral, que certamente será difícil, mas das políticas que o norte-americano promete adotar, que têm potencial para gerar mais inflação nos EUA e reduzir o crescimento global. Se Trump cumprir suas promessas eleitorais, o mundo caminhará para um dólar mais forte, juros mais altos e moedas mais fracas em mercados emergentes como o Brasil. Este cenário dificultaria a política econômica brasileira, e traria ventos econômicos externos desfavoráveis para o Palácio do Planalto às vésperas de uma eleição presidencial.

O retorno dos tecnolibertários - Rana Foroohar

Valor Econômico

Estamos prestes a testemunhar como o poder monopolista disfarçado de governo se manifesta

A vitória de Donald Trump representa muitas coisas transformadoras do mundo. Uma é o casamento entre o determinismo tecnológico e o libertarianismo. No mundo deste novo governo, a linha que separa Milton Friedman dos bilionários da tecnologia como Elon Musk, Peter Thiel, Marc Andreessen e Mark Zuckerberg fica difusa e se confunde em uma filosofia cujo objetivo é acabar com todas as restrições aos mercados.

A turma de “voluntários” tecnolibertários de Trump - como Musk disse de maneira um tanto insincera, dado que Tesla e SpaceX recebem mais financiamento federal do que a NPR - acredita que deveria ser deixada livre para desmontar o aparato estatal em nome da eficiência e do lucro. O lucro já foi alcançado, pelo menos para o pessoal do Vale do Silício: inteligência artificial, criptomoedas e qualquer empresa vinculada a Musk viram o valor decolar desde a eleição.

O capitalismo de compadrio está chegando aos EUA - Paul Krugman

The New York Times / Folha de S. Paulo

Forma como tarifas operam sob leis americanas oferece espaço para aplicação discricionária

Estamos no final de 2025, e Donald Trump fez o que prometeu: impôs altas tarifas —impostos sobre importações— em produtos vindos do exterior, com tarifas extremamente altas sobre importações da China. Essas tarifas tiveram exatamente o efeito que muitos economistas previram, embora Trump insistisse no contrário: preços mais altos para os compradores americanos.

Digamos que você tenha um negócio que depende de peças importadas —talvez da China, talvez do México, ou de outro lugar. O que você faz?

Bem, a lei comercial dos Estados Unidos dá ao poder executivo ampla discricionariedade na definição de tarifas, incluindo a capacidade de conceder isenções em casos especiais. Então, você solicita uma dessas isenções. Seu pedido será atendido?

A saúde de Trump - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Presidente eleito indica para a área sanitária nomes que defendem ideias malucas e sem sustentação na ciência

Dois nomes que Donald Trump já anunciou para a área da saúde são os de Robert F. Kennedy Jr., para liderar o Departamento de Saúde e Serviços Humanos, e o de Mehmet Oz, para comandar o Medicare e o Medicaid, os programas públicos de cobertura de saúde dos EUA.

Se as duas indicações vingarem e os futuros administradores conseguirem emplacar algumas de suas ideias, a saúde pública nos EUA, que já é provavelmente a pior entre os países ricos, deverá sofrer ainda mais reveses.

Kennedy Jr. é contra vacinas, contra a pasteurização do leite, contra a fluoretação da água e abraça quase todas as teorias conspiratórias envolvendo laboratórios farmacêuticos.

Como continuar bolsonarista depois do que foi revelado? - Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

A trama de golpe não foi para frente porque Bolsonaro se acovardou

Bolsonaro pode alegar que desistiu do golpe na reta final, mas não que não sabia do plano. Não só sabia como o desejava. Temos a esse respeito o depoimento do general Freire Gomes de que se reuniu com Bolsonaro mais de uma vez em dezembro de 2022 e ouviu dele a proposta de ruptura. Na segunda ocasião, o general teve de alertar Bolsonaro de que ele seria preso caso tentasse algo nessa linha.

Sabemos também que Bolsonaro sugeriu mudanças à minuta do decreto de GLO que deveria assinar para dar início ao plano. Quem propõe mudanças num documento deseja usar esse documento. Bolsonaro tirou da minuta a prisão de Rodrigo Pacheco e de Gilmar Mendes, mas manteve a de Alexandre de Moraes. Dado esse fato, será que ele sabia de uma operação dos "kids pretos" para raptar Moraes no dia 15 de dezembro? Isso ainda não está claro.

Os dias que arruinaram o golpe militar-palaciano - Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

O que ocorreu entre a redação do decreto de estado de sítio e a fuga de Bolsonaro para a Flórida?

Em novembro de 1955, a revista Manchete espantou os leitores. Em vez de Martha Rocha, Sophia Loren ou outra beldade nacional ou internacional vestindo maiô, a capa colorida exibia a figura de um general. Fardado. Em longo depoimento, Henrique Teixeira Lott, então ministro da Guerra, narrou os bastidores da tentativa de golpe militar contra o presidente eleito que ele, Lott, praticamente sozinho e usando as mesmas armas, havia desbaratado uma semana antes.

O general aplicou um contragolpe para garantir a posse de Juscelino Kubitschek, cuja eleição, sem a maioria absoluta de votos, havia deflagrado o movimento dos quartéis, por trás do qual estava o infatigável Carlos Lacerda. Com a intervenção de Lott, o presidente interino, Carlos Luz, foi obrigado a refugiar-se a bordo do cruzador Tamandaré. Seu chefe de polícia, coronel Menezes Cortes, foi preso. Em janeiro de 1956, JK assumiu a Presidência.

Eles não são (só) doidos – Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Por trás dos loucos há os dirigentes do hospício, delinquentes perfeitamente conscientes

Acreditar no inacreditável, bem como permitir que a imaginação obedeça aos ditames do inimaginável, são características daqueles que, por consciência ou contingência do devaneio, se deixam levar a um universo paralelo bem distante da realidade.

Tudo indica ser o caso do homem que se explodiu na praça dos Três Poderes, dos conspiradores do Planalto, dos presos por planejar assassinatos, dos depredadores das sedes-símbolo da República e de todos os que acreditaram na chance de Jair Bolsonaro (PL) continuar no poder sem lei e na marra.

Tempos macabros: do envenenamento à guilhotina - Aylê-Salassié Filgueiras Quintão*

Um dos países mais pobres da América Latina  acaba de aprovar uma reforma constitucional, na qual  o presidente Daniel Ortega (79 anos) , líder da Frente Sandinista de Libertação (FSLN), há mais de 30 anos  na chefia do Estado ,  não apenas passa  a ter  o controle absoluto sobre os demais poderes ,  como torna  "copresidente" sua mulher, Rosário Murillo,  atual vice, e  assegura a sucessão para o seu filho, Laureano . Serviço completo .

Seria esse o modelo de democracia  que  o Foro de São Paulo , criação de Fidel Castro e Lula, em 1990, projetaram para a integração da  América Latina?.  Esse esforço todo de estabelecer o caos jurídico e político no Brasil , uma guerrilha contra as instituições,  estaria voltado para um novo  sistema de governança? O  Foro de São Paulo , aparentemente na geladeira, é uma  organização política que se autodenomina de  esquerda , e que  reúne uma centena de partidos  legais  e  organizações transgressoras da ordem jurídica.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Mãos dadas