Folha de S. Paulo
Parque Terra Prometida é um mimo milionário
aos eleitores evangélicos
Ex-prefeito inaugura campanha oficial
favorecido pelo isolamento do grupo bolsonarista
Em 2024, ao ser eleito prefeito do Rio pela
quarta vez, Eduardo Paes disse
que iria concluir o mandato, mas não descartava a candidatura ao governo
estadual dali a dois anos. Uma mágica simples: seu pupilo Eduardo Cavaliere
assumiria; na prática, ele continuaria no cargo, tendo a máquina municipal a
seu dispor.
Em 2018, encaixotado pela onda bolsonarista, Paes perdeu a eleição estadual para Wilson "Atirar na Cabecinha" Witzel em cima do laço, depois de liderar as pesquisas durante toda a campanha. O Palácio Guanabara nunca mais lhe saiu da cabeça.
Tanto que, ainda em 2024, lançou a pedra
fundamental de sua candidatura ao dizer que o Parque das Crianças, inaugurado
em 2004 na gestão Cesar Maia –com cinema, teatro, biblioteca e até um
planetário – estava abandonado. Se estava era culpa dele mesmo, que, como
prefeito, descuidou do espaço durante 14 anos. A desculpa foi usada para que
nascesse o projeto
da Terra Prometida, um mimo político ao segmento dos eleitores
evangélicos, que no Rio de Janeiro chega a quase 40% da população.
Em construção em Santa Cruz, na zona oeste da
capital, ao custo estimado de R$ 190 milhões, a Terra Prometida anuncia um parque
que parece ter sido projetado por um carnavalesco esperto e delirante, que leu
o Pentateuco com olhos de Joãosinho Trinta.
Entre as atrações haverá percursos inspirados
no Jardim do Éden, nos Dez Mandamentos e no Caminho do Mar Vermelho (este com a
experiência de "andar sobre as águas", misturando Velho e Novo
Testamento). Numa esplanada com capacidade para 70 mil pessoas, o visitante
poderá fazer orações nos montes das Oliveiras, Sinai e Sião –um contraponto a
Oscar Niemeyer, que planejou a Apoteose no Sambódromo.
Com a indefinição da candidatura Garotinho e
o isolamento da extrema direita envolvida com o crime organizado (o senador
Romário acaba de formalizar a desfiliação do PL, em apoio a Paes), o
ex-prefeito vive a perspectiva de vencer no primeiro turno. Para conseguir a
façanha, terá de avançar com a Bíblia aberta.
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