O Globo
Apesar dos grandes julgamentos e de todas as
críticas midiáticas, o bolsonarismo resistiu
Ao proibir as bets nove dias antes do
primeiro turno, Lula
fez sua maior aposta. Muitos observadores consideram grandes suas chances de
êxito. As pesquisas mostram que a maioria condena apostas on-line. Grande
número de mulheres pode decidir o voto a partir dessa medida.
É impossível cravar cientificamente qual será o resultado das eleições de domingo. O universo do futebol foi atingido. Lula fez menção ao Flamengo; a torcida não gostou. Enfim, há muitos fatores a analisar.
Essa avaliação pertence às pesquisas que saem
às ruas nesta semana. O mais importante é colocar a questão-chave: por que
foram necessários tantos malabarismos às vésperas das eleições? Creio que essa
variável é fundamental para analisar o governo nascido de uma frente
democrática em 2022. Lula é acossado por um Bolsonaro. Significa que, apesar
dos grandes julgamentos e de todas as críticas midiáticas, o bolsonarismo
resistiu. Um governo democrático bem-sucedido com uma orientação adequada
talvez pudesse reduzir a importância dessa corrente política radical. Não foi o
que aconteceu.
O interessante é que as pesquisas revelam que
outros candidatos também acossam Lula num hipotético segundo turno. Forte
indicação de desejo de mudança. Se as pesquisas revelassem uma situação mais
favorável, Lula certamente dispensaria os malabarismos e enfrentaria as
eleições com os métodos tradicionais.
É razoável questionar se houve erros no
caminho. A Frente Ampla foi realmente uma frente? Ou, apesar do nome, apenas
mascarou as pretensões hegemônicas de um partido, que abocanha o essencial e
mantém os aliados como funcionários do governo?
Não houve debates no interior da Frente para
apresentar alternativas. Isso decorre também do horror às críticas, da
tentativa permanente de associar qualquer dissidência ao adversário político,
um distante resquício do stalinismo.
Lula percebia as dificuldades do governo, mas
tentava superá-las magicamente. Todo ano que terminava era o ano de plantação,
segundo ele. Todo ano que começava era o ano da colheita. O mandato termina, e
a magia terá de ser repetida no próximo, exceto em caso de compreensão de que é
preciso mudar, de que um próximo governo precisa corrigir os erros, reencontrar
apoio e reduzir o campo de manobra dos adversários mais radicais.
Pode-se argumentar que o avanço da extrema
direita é uma realidade mundial. Mas isso retira a singularidade do caso
brasileiro. Ao norte, o problema que estimula o avanço é a imigração; aqui é a
corrupção. Para grande parte dos analistas de esquerda, a corrupção é apenas
uma nota insignificante no pé de página da História. É um não problema que
aflige apenas um pequeno segmento da classe média. O resultado dessa tolerância
acabou se refletindo no clima geral do país. Ministros do Supremo entraram na
corrida para se tornar bilionários, deputados e senadores esbanjam boa parte do
Orçamento com emendas que não controlamos.
Enquanto essas questões não forem resolvidas,
o Brasil estará aberto à espera de um oportunista que se apresente como
salvador diante de um universo político considerado 100% corrupto. Num novo
mandato, será difícil para Lula dobrar a aposta. Terá de refazer o caminho.

Nenhum comentário:
Postar um comentário